sexta-feira, 30 de abril de 2021

012 REMÉDIO NA PANDEMIA

Finalizado o treino de ontem, dirigi-me à Avenida Horário Raccanello Filho – sim, a grafia correta é com dois “C” e dois “L”, nome do meu saudoso professor de Introdução ao Estudo do Direito e de Direito Constitucional, da saudosa Turma 32, noturno, no curso de graduação em Direito, na excelente Universidade Estadual de Maringá, idos de 1996 e 1997 – onde fiz um pequeno regenerativo. Via de regra, rolam 3 giros semanais. Nas terças, treino de base: coisa duns 30 a 40km (pouco, perto do que deveria ser); quinta-feira rola o amado treino de subida; e sábado o bom e velho e tão esperado longão com meus amigos do Grupo de Ciclismo Pebas 4ever. Neste último, exploramos as estradas rurais de Maringá e região, em pedais de 50 a 100km. Vez por outra, pinta um desafio especial, na casa dos 120 a 150km, pedais estes que costuram gerar boas DR´s para os caras casados do grupo, com suas esposas reclamando por terem passado o dia todo fora de casa.

Como se percebe, a bike parece ter se tornado algo importante para mim. Com tal nível de detalhamento, planejamento, tempo dispendido e empenho, só pode! Sim, e foi isso mesmo que aconteceu. Vou quebrar a sequência de textos do meu Pequeno Decálogo de um Cara Sistemático, para hoje contar minha pequena história sobre duas rodas não motorizadas, que vem acontecendo nos últimos 2 anos e meio.

Há muito tempo atrás, num reino tão tão distante... Não. Não foi assim.

O médico avalia meu joelho – nunca me lembro se foi o direito ou o esquerdo –, olha mais uma vez para as imagens da ressonância magnética e fala aquelas amargas palavras:

- “É, filhão, os seus dias de corredor ficaram no passado”.

- “Sério que não vou mais conseguir correr?”

- “Não como antes, do jeito que você está acostumado. Mas se pra você tudo bem correr de leve, um trote no parque, então vai correr sim. Competições, busca por bons tempos, isto não far[a mais parte da sua vida”.

- “Hummm...” (por dentro, eu negando a realidade e elaborando um plano perfeito para conseguir correr sim)

- “Ah, e vamos fortalecer estes joelhos aí”. (ele começa a anotar uma lista de exercícios de musculação que eu não poderia fazer ou, quando muito, deveria executar com baixíssima carga)

- “Certo, Doutor”. (eu olhando a lista com certa tristeza)]

- “Se você tiver uma bike, pedale. Vai ajudar muito com seu joelho lesionado”.

Assim saí do consultório. Olhar perdido no infinito, imaginando como seria uma vida sem correr. Quem me viu correr, nos tempos áureos, sabe do que estamos falando. Era muito massa. Eu simplesmente não me cansava. Tanto nos treinos de corrida, propriamente ditos - que eu realizava em torno do Parque Ingá ou pelas ruas de Maringá – como também nos esportes que envolviam a corrida vigorosa (futebol, especialmente), eu performava com excelência, acima da média. Simplesmente não me cansava nunca, além de dar aquele tapa na bola, sair 3 metros atrás e chegar 2 na frente. Coisa linda de se ver. Uma história que havia começado nos meus 10 anos de idade, e que consegui levar até os 40. Trinta anos de corrida, mas “the end”. Chegou o boleto de tão excelente performance. A idade chegou, trazendo consigo as primeiras limitações.

Nada de deprê! Bora mostrar para aquele médico que não é bem assim!!!

Fiz os ajustes na musculação. Não comecei a pedalar com a bike que eu tinha parada em casa. Tentei umas corridas. Não deu mesmo. Cedo ou tarde, sensibilidade no joelho (direito ou esquerdo?). Aí tive outra ideia brilhante: “Bora tentar jogar tênis”. Pois é, teimoso é teimoso, e fui tentar justo um esporte que não apenas envolve corrida, mas corrida variada, exigindo muito mais dos joelhos. Doeu. Na verdade, doeram: joelho e tendões de aquiles. Mas da fracassada tentativa no tênis resultou algo muito bom. Um amigo com quem eu jogava, certa vez estava precisando demais conversar, aflito com certa situação, chamou-me para um pedal. Que bacana, uma atividade física que nos permitia conversar longamente. Rolou um giro por ruas e avenidas de Maringá, seguidas de água de coco no Ingá, e tratamos do tal assunto. Ao final do passeio, ele comenta que eu pedalei muito bem. Ali começava essa minha história de bicicleta.

Este amigo tinha outros amigos – alguns que eu já conhecia –, pessoal que se reunia nas tardes de sábado para passeios por estradas rurais de Maringá e região. Fui com eles e logo no primeiro dia rolou um giro de 73km. Conheci a cachoeira de Marialva. Finalizei bem cansado, mas feliz por ter concluído um pedal tão longo já na primeira vez. Dia seguinte: corpo todo dolorido, até febril, pelo esforço além do que meu corpo estava preparado. Domingão de molho total, cozido, comendo e dormindo. Cara de acabado. Mas segunda já estava tudo certo, e eu mal via a hora de chegar o próximo final de semana para o novo passeio.

Assim os sábados foram se sucedendo. Novos e mais lugares sendo descobertos. Pessoas. Amigos dos amigos. Muitas prosas, risadas, papos sérios. Fotografias, claro. Então comecei com os treinos no meio da semana, pelas ruas de Maringá. Conheci o aplicativo Strava (aí lascou! rs), comecei a ter noção do meu desempenho, quando comparado aos amigos e a todos os demais ciclistas do planeta que também registram seus treinos no app. Upgrades na bike que eu tinha. Aquisição de bike nova e melhor (a Cannondale laranja, de carbono, grupo de 12, freios XT, suspa Fox, top das galáxias). Mais noção ainda do meu ótimo desempenho, e o resto é história. Primeiro pedal lá por julho ou agosto de 2018, para 1 ano depois eu me encontrar totalmente envolvido com este esporte maravilhoso.

Final de 2019 estive duas vezes em Santa Catarina. Descobri mais uma faceta deste universo: viagens de cicloturismo, e os morros gigantes. Em novembro fui numa excursão para Barra Velha, oportunidade em que encarei as primeiras subidas verdadeiramente desafiadoras até então, além de experimentar lugares novos e fazer muitos contatos. Alguns se tornaram amigos, gente com quem pedalo até hoje. Para finalizar 2019, numa viagem de última hora, acabei por conhecer a famosa Serra do Rio do Rastro, e no dia seguinte a extraordinária Serra do Corvo Branco, e no dia seguinte ao seguinte um pedal na Inter-praias (Itapema e Camboriú). Até hoje, a sequência de pedais mais bruta que já fiz. E acho que só fiz porque eu não sabia onde estava me metendo. Se tivesse mais informações, pesquisado, levado em conta os dados e parâmetros, eu concluiria que não o momento para um ciclista iniciante, com aproximadamente 15 meses no novo esporte, encarar aquelas subidas tão duras. Mas, como diz um ditado que gosto, em certas circunstâncias a ignorância é uma bênção.

“Vini. Vidi. Vici”. Fui. Vi. Venci. Sem saber onde estava me metendo, subi tudo, e subi bem. Bem para um iniciante, claro. Mal vejo a hora de subir tudo de novo, e poder comparar minha evolução. Àquela altura eu estava não mais apenas fotografando os pedais. Rolavam os primeiros vídeos no Instagram. Tem um que gosto de rever, quando venci a Serra do Corvo Branco. Foi muito emocionante. No Rio do Rastro foi de chorar, literalmente, mas parei a filmagem quando percebi que não conseguiria segurar as lágrimas. Que pena. Seria legal ter gravado aquele momento. Não tem como explicar. Algo difícil, doloroso, que quando você percebe que vai terminar, você quer mais. Não foi apenas um choro de emoção pela conquista. Havia um quê de tristeza por ter acabado. Rola uma interação que realmente não sei explicar em palavras.

Em 2020 eu faria muitas coisas sobre duas rodas. Canais de bike no Youtube, já seguindo um monte. Entendendo as manutenções básicas, feitas em casa. Novos upgrades. Uma agenda projetada para o ano todo: Rota das Catedrais, Serra da Canastra, Estrada da Graciosa, pedal com 4000m de elevação... então estourou a pandemia. Eu havia realizado exatos 18 pedais até o dia 15/03/2020, todos devidamente registrados no Strava, bem como anotados num app que tenho (Evernote), com dia de cada atividade, distância percorrida, velocidade média, elevação acumulada, coeficiente de elevação geral, e as conquistas... aaah, as conquistas. (É, o cara é meio doido sim).

Estourou a pandemia, mas na oportunidade não havia como saber a dimensão que isso tudo teria. Em férias, mantive uma viagem até Salvador, onde fui visitar familiares. Então a ficha caiu. Tudo fechando. Álcool gel custando ouro. Risco de lockdown. “Parece que o aeroporto vai fechar”... dei um jeito de antecipar meu retornoi. Dia 21/03 eu estava em casa, colocando os pés na terra no meu amado Paraná, pelas 14h15 da tarde (sim, também anoto minhas viagens no Evernote. Falei que o cara é doido). Naquele mesmo dia, fim de tarde, eu fazia um girinho de 25km pelas ruas de Maringá, num pequeno circuito que ainda hoje gosto muito de ir.

Novos pedais nos dias 22, 24, 26, 29, 31 de março (eu estava em férias), sempre sozinho. Todo mundo recolhido dentro de casa. Tudo parado. Chegou o fim de semana e nada de marcação de pedal no grupo. “Fer, não vai rolar. O negócio é sério, melhor não irmos”. Claro que eu entendia. Já que não tinha atividade em grupo, eu ia sozinho mesmo. Sobre uma bike o distanciamento social é natural. Sozinho então, tudo certo. Mas para mim a coisa estava meio sem graça, girando apenas pelas ruas vazias da cidade. Eu queria ir para as trilhas, explorar lugares novos e bonitos. Ficar em casa fechado não era legal. Sair um pouco por Maringá ajudava, claro. Mas as trilhas... ah, as trilhas.

Foi quando por um outro amigo, que participava de outro grupo, eu casualmente soube que eles não tinham parado. Não me lembro se fui convidado ou se me convidei. Não importa. O fato é que então conheci os Pebas 4ever, exatamente 1 ano atrás (abril/2020), e de lá para cá o grupo se tornou uma espécie de família, confraria, time, com uma boa dose de hospício. Tudo doido, que nem eu! Uns bem tantãns mesmo. Só figuras. Fizemos dezenas de pedais nesse período. Pandemia correndo e comendo solta. Contabilizados 400 mil mortos ontem. A coisa é séria, muito séria. Eu não adoeci nesse 1 ano e pouco. Casualmente ou não, nenhum dos meus amigos de pedal também não. Se devido a algum famigerado histórico de atleta, ou não, não sei dizer. Talvez mais pelo fato de sermos atletas no momento. É bem possível que eu ou algum dos meus amigos tenhamos nos contaminado e passado assintomáticos pelo ciclo do vírus. Uma hora farei o exame dos anticorpos, coisa que minha família sempre fala para eu providenciar.

O fato é que essa tal de bicicleta foi meu remédio na pandemia. Para o corpo, muito provavelmente. Para a mente, com toda certeza. Solteiro, morando sozinho, em home-office, tudo fechado ou semi-aberto há mais de 1 ano. Pensa no peso emocional... Sim, eu sei, você está passando pelas mesmas coisas. Mas se tem alguém na tua casa, um marido, uma marida, filhos, pets, acredito que o lance emocional tenha sido atenuado pelas presenças. Claro, seu contexto foi outro, rolaram mais conflitos, talvez o excesso de presença tenha sido um problema. Mas as coisas se adaptaram, e no final das contas você deve ter percebido o quanto foi importante ter pessoas que você ama bem perto, durante tão longo distanciamento de outras pessoas.

Eu estive bastante com meus familiares. Passado o choque inicial da pandemia e os isolamentos que fizemos, depois passamos a nos visitar regularmente. Mãe, irmã, cunhado. Como foram e são essenciais suas presenças. Além deles, a família da bike, e a própria bike, e o universo de bike foram e são importantes para mim neste tempo tão complicado. Alguém poderia ver minhas postagens semanais e me e taxar de “meninão crescido”, um cara que gasta tempo demais com uma bobagem dessa de bicicleta. “Vai trabalhar mais”. “Vai fazer uma pós”. Sei lá. As pessoas julgam e concluem coisas sem muito saber. Eu entendo. Não me afeto. Sei quem sou. E faço o que quero, pelas razões que me fazem sentido. Bike é algo que chegou à minha vida sem quer, aconteceu naturalmente, e de certa forma tomou conta. Tem tudo a ver com meu estilo de vida, meu gosto por desafios, meu lado sistemático de anotar as coisas, ajuda-me a conhecer novas pessoas, traz diversão e riso naquele grupo de loucos no zap zap, e a gostosa sensação de que a vida é um grande passeio. Porque é mesmo.

*a figura desta postagem contém destacados todos os caminhos porque passei de bike na região de Maringá.

*a imensa maioria deles, conheci durante a pandemia.

*se puder, vá de bike.

quarta-feira, 28 de abril de 2021

011 120 KM/H

Vez por outra saio com minha moto para um pequeno passeio. Eu deveria fazer isto mais vezes. No último quinquênio foi pouco, mas tão pouco, que não alcancei 1000km por ano. Em 2020, então, um recorde às avessas: sequer 500km rodados com a famosa Honda CB 750 Four ano 1974. Em contrapartida, no mesmo ano, passei dos 7000km sobre minhas duas bikes. Resultado: um pequeno-grande problema num dos 4 carburadores, que demandou retífica no conserto. De tão pouco uso, deu problema. Acontece.

O pessoal da minha idade ou um pouco mais velho (sou de 1977), dentre os que gostam de motocicletas, sempre comenta ou sinaliza algo quando circulo com a 7-Galo pela cidade: “Aí sim, heim!”, “Essa é clássica!”, “É uma Quinhentas?”, “Ela dá quanto de final?”, “Vende?”. Para esta última pergunta, que ocorreu apenas 2 vezes nesses quase 9 anos que a Four está comigo, a resposta foi “não”, que normalmente não é seguido de uma insistência do curioso. Os caras perguntam por perguntar, pois sabem que quem tem uma dessas, raramente vende. A minha deve seguir comigo por mais algumas décadas.

Outra daquelas perguntas recebe a resposta que deixa os caras intrigados: “Ela dá 120km/h”. Essa sim faz com que a conversa se alongue um pouco mais. “Como assim? Ela é uma 750cc. Anda só isso?” Ao que explico que sim, na minha mão a velocidade final da moto são modestos e seguros 120 km/h”. É a 5ª regrinha do Pequeno Decálogo de um Cara Sistemático, que muito se assemelha à do texto “Sempre Sóbrio”, publicado dias atrás. Trata-se de uma regra de segurança, um limite auto-imposto. Visa a fazer com que eu não quebre o pescoço por aí.

No dia 07 de fevereiro de 2003 ocorreu meu primeiro e único acidente de motocicleta. Uma CBR 450 SR 1991 em mão, mais um jovem rapaz de 26 anos com sua primeira moto de cilindrada superior a 250cc... cedo ou tarde daria ruim. E deu. Bem, o primeiro “ruim” aconteceu justamente na aquisição, pois não época eu não tinha adotado a regrinha “Desejos à Vista”. Busquei um financiamento integral do valor para comprá-la. Saiu mais caro, claro. O segundo ruim começou silencioso e imperceptível, como naquela alegoria do veneno que vai sendo ministrado a conta-gotas.

Sobre uma moto como aquela, e qualquer outra de maior cilindrada, você não se dá conta do quanto começa a andar mais rápido. Quem já teve várias motos sabe bem do que estou falando. Nas grandes as tecnologias são outras; os componentes te permitem acelerar mais, frear mais em cima, deitar nas curvas, etc. E assim eu fui pegando confiança na CBR, circulando cada vez mais rápido, até que tive uma “brilhante” ideia. De calção, camiseta e tênis – vestuário padrão no meu dia a dia – eu vou até o Contorno Sul de Maringá para ver se ela realmente chega aos 200km/h indicados no painel.

Eu poderia florear nesta parte, fazer uma descrição toda emocionante da experiência, valorizar o momento e tal, mas vou me limitar a dizer que “não, a moto não chegou a 200km/h”. Porque moto não chega a nada, não vai a lugar nenhum, não faz nada sozinha. Quem chegou a 200km/h naquele dia fui eu, não casualmente sobre uma motocicleta. Eu escolhi fazer aquilo. Ela, apenas um objeto. Um amontoado de peças, componentes e tecnologias que se presta, não por acaso, à locomoção humana. Locomoção esta que pode, naquele modelo específico, ocorrer a 200km/h ou mais (se você quiser), ou a qualquer velocidade abaixo disso (se você também quiser). E eu escolhi ter a sensação dos 200km/h.

Estamos falando de uma moto ano 1991. Se ela era bem mais avançada do que minha atual 1974, com certeza era muito menos do que as atuais 2021. Com o agravante de estar sendo acelerada num local inadequado, via pública com conservação razoável, sem áreas de escape, e o pretenso piloto com trajes de passeio no shopping. A sensação foi de morte. Sim, o primeiro pensamento racional que me veio logo após a euforia de ver o ponteiro no 200km/h foi: “se eu cair agora, eu morro na hora!”. Instantaneamente desenrolei o cabo do acelerador, senti a adrenalina baixar e toquei “pianinho” para casa, repetindo para mim mesmo que eu nunca mais faria algo tão estúpido. Por nada, sem propósito algum, eu poderia ter morrido naquele dia, nos idos de 2003.

Desacelerei do extremo, mas ainda assim uma moto como aquela te incita a andar um pouco mais rápido. E assim segui girando com minha linda CBR 450 SR, até precisar duma frenagem de emergência, que não rolou. Derrapei forte e colidi com uma F-4000 na Av. João Paulino, bem em frente ao obelisco do Novo Centro de Maringá. Uma pancada seca e feia, que não me gerou fraturas, mas uma laceração importantíssima na perna esquerda. Eu poderia também fazer uma emocionante descrição de tudo que se passou naqueles centésimos de segundo, e todo o atendimento inicial feito por estranhos na rua, depois o Siate, Santa Casa, e a enfermeira que flertou comigo enquanto eu aguardava a entrada na sala de cirurgia. Mas noutra oportunidade a gente fala disso.

O fato é que a história teve um final feliz. Eu poderia ter perdido minha perna, mas não perdi. Poderia, com enorme probabilidade, carregar até hoje uma grave sequela, mas não carreguei. Então sou muito grato a Deus por hoje continuar com um corpo saudável e funcional, que me permite realizar tudo a que me proponho no dia a dia, na vida normal e nos esportes que tanto amo. O conserto da CBR foi custeado pelo cara da F-4000, que por acaso estava errado no acidente. Logo em seguida ela foi vendida. Usei o dinheiro para quitar o financiamento dela mesma, claro que com algum prejuízo, pois as financeiras não são muto boas na arte de perdoar juros componentes de um financiamento tolo, tomado por um jovem de 26 anos.

Não desisti das motos. Tive várias delas, após o acidente de 2003. Motos menores, a maioria. Quatro bem potentes, com as quais eu poderia novamente chegar aos 200 km/h. Não fui tão longe. Cheguei a “seguros” 140, 160, 180 km/h, só para voltar com a mesma velocidade a um estado de sanidade, lembrando-me que não preciso disso. Não vale a pena. A vida é preciosa demais para ser colocada em risco por nada, ou por um momento de euforia. Se tudo dá certo, e dá na maioria das vezes, a gente relaxa. Então vamos colocando o pé mais um pouco fora da risca, e mais um pouco, e mais... até que dá ruim grandão. O pior acontece. Ou várias outras coisas ruins na imensa lista de sequelas possíveis.

Muito provavelmente a atual Honda CB 750 Four 1974 será minha última motocicleta. Pode ser que não, mas tem grande chance de sim. Se o for, uau! Eu não poderia fechar meu currículo melhor nesta área. Um dos modelos com mais admiradores. Com certeza foi o mais revolucionário na indústria mundial, quando surgiu em 1969 no Japão. Tudo mudou a partir daquele 4 cilindros em linha, com 4 carburadores e 4 saídas de escapamento. Daí o nome “Four”. A 7-Galo. A Mãe-de-Todas. A premiada “Moto do Século 20”. Tenho uma ali na garagem, toda linda, reformada e customizada. Com seu painel duplo substituído por um simples de Suzuki Intruder 250cc. Nele se encontra a indicação de velocidade máxima 120km/h. Coloquei-o não por acaso. É meu limite. Poucas vezes chego perto dele. Desde então nunca cheguei nem porto de novo acidente. E assim pretendo continuar pelo resto da vida.

No livro de Jeremias, capítulo 31, verso 21, parte “a”, encontra-se um precioso conselho: “Ergue sinais, coloca postes indicadores, olha bem o caminho, a senda que percorres”. Não foi com este texto em mente que troquei o painel da Four por um de “moto fraca”, mas é disto que estamos falando. As regras e os limites existem para nos proteger de nós mesmos, especialmente quando somos jovens e sem juízo.

terça-feira, 27 de abril de 2021

010 TEMPO PARA TODAS AS COISAS

Certa ocasião eu ouvia uma pessoa falando sobre seu empenho no trabalho. Gabava-se de ser do tipo “Missão dada. Missão cumprida”. Não havia dia, hora ou circunstância que o impedisse de realizar o que lhe fosse ordenado. Quando todos os demais estavam se levantando, certamente ele já estava com metade do expediente cumprido. Só faltou dizer – embora deva ter pensado – que na certa o fez muito melhor do que qualquer outra pessoa faria. Uau! Esse era o cara, heim! Com uma dúzia assim na equipe, como não chegar ao topo? Quem não o quer no seu time? Bem, talvez eu não quisesse. Vamos falar sobre isto.

Eu devo ter uns 37 anos de vida profissional, agora que me aproximo dos 44 de vida. Estranho? Talvez não. Sempre ouvi que a profissão do estudante é estudar. Se é assim, não vejo razão para não considerar as fases iniciais da vida acadêmica como trabalho. O trabalho de uma criança é exatamente este: estudar. O de um adolescente também. Idem para o jovem. E o já mais maduro, que optou por emendar graduação, especialização, mestrado, doutorado e sabe-se-lá-mais-o-quê, para ter um título, cargo ou função bem depois, lá pelos 40 e poucos anos de vida, também teve nos estudos seu trabalho por todo esse longo período.

“Aaaah, mas ele não produziu nada! Não gerou riqueza” e blá, blá, blá. Discordo, claro! Nem tudo se resume a grana, monetização, cifras. Existe trabalho doméstico, o voluntário, arte, sacerdócios, e muitos outros ofícios que não se ligam necessariamente a um salário ou à produção de riquezas materiais, mas nem por isso deixam de ser o digno trabalho de alguém, ou sua missão de vida, ou simplesmente o que a pessoa escolheu fazer. É de se pensar, e eu realmente penso assim, que algumas dessas ocupações sejam até mais belas do que ofícios socialmente destacados, com seus pomposos diplomas na parede. O que dizer então de uma pessoa que abriu mão do mercado de trabalho, para dedicar-se exclusivamente à melhor formação de seus filhos e o estabelecimento de um lar?! Isso não tem preço!

Assim, colocadas essas bases sobre a minha visão do trabalho, insisto que estou nessa jornada já há quase 85% do meu tempo de vida. Gosto de trabalhar. Sempre gostei. Quando meu trabalho era estudar, e eu não sabia disso, realizava-o naturalmente. Era bom aluno e tal, ia bem, uma criança normal. A certa altura, lá pelos 14 anos de idade, fui apresentado à vida adulta. Reprovei na 8ª série. Após um caloroso “Conselho de Classe”, fui aprovado, mas não livrado de uma bela conversa com a Dona Mírian. Algo assim: “Você chegou ao 2º Grau, vai ter que levar as coisas mais a sério. Vou te matricular em dois cursos: de manhã você fará o Educação Geral, que irá te preparar para o vestibular; de noite fará o Técnico de Contabilidade, que te habilitará para uma profissão logo após concluí-lo, caso não opte pela faculdade”. E ponto final.

Aquela quase reprovação marcou uma virada na minha vida profissional de estudante. Pela primeira vez eu me dei conta de que daquilo dependia muita coisa, especialmente meu futuro, a vida real que eu teria. Quando fui reprovado, meu medo era tomar uma surra, ficar de castigo, ser tachado de burro. Mas ao ser aprovado pelo Conselho e depois confrontado por minha mãe, entendi que aqueles pequenos medos não eram nada. Minha vida profissional já havia começado faz tempo, sem eu saber, e por um pequeno período eu a levei com certo desleixo, colhendo os primeiros frutos ruins. Então instalou-se em mim uma nova consciência do que estava acontecendo. Eu precisava levar a sério, estudar, porque todo mundo estava estudando e a boca do funil é estreita.

E como eu mudei! Completei o 1º ano, tanto do Educação Geral como também na Contabilidade, sendo um dos melhores alunos da escola. Em Matemática, onde não consegui média para passar direto na 8ª série, fiquei com médias 98,75 e 95,00 no ano seguinte. Interessante como a mágica acontece, quando a realidade da vida bate à porta. E assim seguiram-se excelentes desempenhos em todo o restante do Segundo Grau – prossegui apenas com o Educação Geral –, aprovações em vários vestibulares, continuei sendo um ótimo trabalhador-estudante durante a faculdade, fase concomitante aos primeiros registros em CTPS, e enfim a aprovação no concurso que me colocou no cargo público que exerço há quase 22 anos (exatamente metade do meu tempo de vida). Sem entrar em detalhes, anos esses em que realizei coisas muito legais, projetos, premiações, conheci o Brasil e órgãos variados do Poder Judiciário, mesmo eu ocupando um cargo modesto em sua estrutura.

Falei tudo isso para contextualizar que fui assertivo e dedicado em toda a minha vida profissional, seja na fase estudantil, como também nos primeiros trabalhos mais curtos, e enfim na profissão que hoje exerço e que provavelmente irá comigo até uma longínqua aposentadoria. E sim, em muitos momentos dessa longa jornada, fui também o cara “Missão dada. Missão cumprida”, aquele que não escolhia dia, hora ou circunstância. Sangue nos olhos 100%! O assessor que dava jeito pra tudo. Isso me levou, como disse, a participar de projetos especiais, algum retorno financeiro por esses esforços, viagens e vivências. Dava para tocar naquele ritmo por mais um bom tempo, só que um dia eu percebi algo.

Fiz uma conta rápida e grosseira sobre quanto a mais eu já teria trabalhado, além daquilo que era meu estrito dever funcional. Não consigo precisar exatamente quando fiz isso, mas digamos que eu já tivesse uns 14 anos de trabalho na Justiça Federal. Àquela altura, considerando-se 200 dias de trabalho por ano, com 1 hora extra por dia em 14 anos, cheguei ao fabuloso número de 2800 horas trabalhadas a mais no período. Ou exatos 2 anos extras. De graça. Doados. Na faixa. 0800. Putz!!!

Claro que em muitos momentos houve efetiva necessidade de trabalhar 1 hora a mais por dia. Também houve aqueles em que precisei tocar numa jornada de 15, 16 horas. Aconteceu até uma ocasião de eu virar 36 horas seguidas para deixar tudo pronto para um evento importante. Foram pontos fora da curva, e em situações diferenciadas a gente faz uma entrega diferenciada. Mas houve também dias em que não era preciso. Fiquei a mais para dar conta de um relatório de processos que podia perfeitamente ser zerado no dia seguinte. Mas eu queria zerar todo dia, mesmo isso me custando vida lá fora (sem que eu percebesse). E assim os 14 anos se passaram.

Quando me dei conta dessa insanidade, com o número palpável de 2 anos de vida pessoal trocados pelo status de ser “o cara diferenciado no trabalho”, rolou um espanto. Sei lá, digamos que 1 desses 2 anos tivesse sido mesmo necessário, ou mesmo que tenha valido muito a pena, pelo retorno financeiro que veio como contrapartida, ou pelas experiências incríveis pelo Brasil, etc. Ainda assim, eu havia dado pelo menos 1 ano da minha vida particular ao trabalho, sem nada, nada, nada de contrapartida que justificasse. Foi uma constatação triste. Não rolou crise. Eu raramente tenho crises. Mas fiquei espantado por ter feito isso sem perceber o alto preço pessoal.

Posicionei-me no mesmo instante. A partir daquele dia, eu faria o meu expediente regulamentar. Começaria a dizer não para alguns convites. Levaria uma vida profissional mais normal, colocando limites e tendo tempo para todas as outras áreas. Não era possível, àquela altura, imaginar cada coisa que deixei de fazer em cada um daqueles 2800 dias passados. Quantos relacionamentos não tive. Quantos KM deixei de praticar minha corrida. Quantas páginas não li. Quanto tempo com Deus eu deixei de ter. Ou apenas descansado. Tudo passado. Lamentar não mudava nada. Mudava então a postura.

A partir daquele fatídico dia da conta rápida e grosseira, eu mudei isso. Era preciso. E era o certo. Passei a cumprir meu horário e finalizar o trabalho no horário estipulado, sem culpa. “Amanhã tem mais”. “Eu retomo de onde parei”. Basta a cada dia o seu próprio mal. Há tempo para todas as coisas. Princípios – ou regras da vida – que eu estava negligenciando, apenas para ser o cara top das galáxias no trabalho. Só que havia vida do outro lado do balcão, vida que eu estava perdendo. E por tempo demais. Só que não mais.

Tempo para todas as coisas, minha 4ª regrinha do Pequeno Decálogo de um Cara Sistemático. Espero que este texto o/a leve a refletir sobre como tem lidado com isso.

domingo, 25 de abril de 2021

009 DESEJOS À VISTA

Não tive uma educação financeira adequada. Em casa ou na escola, o trato com o dinheiro foi acontecendo espontaneamente, na base da observação, aprendizado por meio de tentativas, erros e/ou acertos. Não é da nossa cultura educacional. Bem, ao menos não era no meu tempo dos bancos escolares. Havia um currículo cheio de matérias sobre coisas etéreas (a maioria), umas pouco interessantes (e não tão úteis para a vida prática), e pouquíssimos tópicos que levaríamos para a vida toda, em nosso dia a dia. Com pouca idade, quase nenhuma experiência, e (a verdade era essa) sem nada por fazer em sentido contrário - ainda que tivéssemos um ótimo senso crítico quanto a isso -, tínhamos que encarar aquela grade de uma forma ou de outra, se quiséssemos passar de ano e avançar na marcha da nossa educação formal.

Anos mais tarde, já na fase da graduação superior (estudei Direito), eu possuía uma boa percepção do que era importante e do que não passava de “encheção de linguiça”. Como continuasse não tendo opção de simplesmente ignorar algumas matérias por completo, eu assistia um pouco da aula, respondia a chamada e saía para fazer algo mais interessante lá fora. Ou, o que era mais comum, ficava de corpo presente na aula, só que viajando para outros lugares. Isso num tempo em que não tínhamos smartphones em mão.

Enfim, decorando nomes, datas, regras e fórmulas na escola, não aprendi nada sobre como lidar com dinheiro. Bem pouco dele me chegava às mãos por aquela época, na verdade. Não tínhamos mesada em casa. Até onde me recordo, eu e meus irmãos obtínhamos recursos por demanda, conforme precisássemos ou desejássemos algo. Anote estas palavras: PRECISA e DESEJAR. Então, não tínhamos um pequeno orçamento para chamar de nosso. Conforme a vida ia acontecendo, e alguma coisa que custasse dinheiro precisasse ou fosse escolhida ser comprada, dávamos um jeito de obter os recursos. Essa foi uma primeira falha no ensino-aprendizado da gestão financeira (do ponto de vista doméstico).

Não é uma crítica mogoadinha ao procedimento dos meus pais. De forma alguma. Eles davam o que tinham. Literalmente, e abstratamente falando. Podemos incorrer no erro de acreditar que quando éramos crianças, e nossos pais tinham lá seus trinta e poucos anos, eles soubessem de tudo, e tivessem se preparado para tudo. Não. Eles chegaram àquele momento da vida com muito menos preparo do que a minha geração. E o fizeram com menos conhecimento e menos recursos do que nós. Talvez não tenha sido a história de todos que leem este texto, mas acredito sim ter sido a história de uma maioria, e certamente foi a minha.

No caso específico da minha casa – e não entrarei em tantos detalhes – houve um agravante. Não apenas não tivemos um ensino ideal sobre como lidar com um orçamento, como também assistíamos às mágicas que eram necessárias para meus pais darem conta dos desafios de cada mês. Escrevo “meus pais”, mas a verdade é que eu aprendi muito mais observando minha mãe. Os dois tinham renda. Sim, certamente porções das rendas de ambos chegavam até nós em forma de comida, vestuário, materiais escolares, combustível para locomoção, um trocado para alguma coisa que quiséssemos comprar, etc. Mas a figura da mãe foi sempre mais proeminente nesta área. Era a ela que eu mais recorria, pelo que me recordo. E era ela que eu via se virando nos 30 para conseguir as coisas. Não consigo associar automaticamente ao meu pai a figura de um homem ensinando seu filho a pescar, ou a dar manutenção na sua bike. Não foi ele quem me ensinou a dirigir um veículo, como também não ensinou muitas outras coisas que teriam sido úteis. Como disse, eles (ambos) deram o que tinham, pois também pouco sabiam, e aprendiam enquanto a marcha da vida ocorria, com três filhos para criar e suas outras responsabilidades de adultos.

Assim cheguei aos bancos da faculdade, com 17 para 18 anos, sem um histórico de orçamento mensal, sem uma conta em banco, sem saber preencher uma folha de cheque, sem recursos acumulados desde a infância para encarar a graduação com mais tranquilidade. Lembro-me perfeitamente bem de já estar no 2º ou 3º anos da graduação em Direito, numa sequência de aulas sobre títulos de créditos, e boiar por completo na maioria dos temas, enquanto observava próximo a mim pessoas muito mais preparadas – eu estudava de noite, por isso havia muitos colegas mais velhos do que eu, vários na segunda graduação –, já inseridas no mercado de trabalho, professores, gerentes de banco, comerciantes, lidando naturalmente com aqueles conceitos que para mim eram totalmente novos. Eu era um jovem rapaz muito inteligente e com desenvoltura para muitas coisas, mas no início da vida adulta continuava despreparado para a lida com dinheiro.

Ainda nessa fase, lembro-me perfeitamente bem de uma conversa que tive com um colega de sala e grande amigo, que eventualmente me dava carona até em casa. Ele era como uma espécie de irmão mais velho. Em alguma conversa nossa, provavelmente falando sobre uma ideia minha que pegar dinheiro emprestado para comprar uma moto, ele fala o seguinte: “Fer, juros a gente evita ao máximo pagar; juros a gente busca receber, por menos que seja”. Sem a famigerada educação financeira, sem saber calcular a paulada que seria entrar num financiamento, eu só conseguia enxergar que a prestação da moto cabia no meu orçamento, sem muito me importar com o número de 50 ou 60 parcelas que me acompanhariam num longo e penoso relacionamento. Era o que eu via na minha casa. Era o que eu via nas vidas da maioria das pessoas. Vai-se dando um jeito.

Por conta daquela conversa, eu não fiz o financiamento da moto. Mas vim a fazer muitos outros ao longo da vida. Alguns foram terrivelmente danosos. Também não entrarei em detalhes, senão este texto acabará por ser classificado como um conto de lamentações. As histórias seriam muitas, e várias delas ainda serão contadas, seja nestes escritos aleatórios, sem em livros que estou escrevendo neste exato momento.

Passados 25 anos daquele pequeno-grande conselho do meu amigo – que não segui em todo o tempo – eu finalmente cheguei a um momento da vida em que posso dizer, com experiência de causa e alguns resultados efetivos, que hoje sei lidar com o dinheiro. Não, não foi tudo um show de horrores nesses anos passados. Construí várias coisas, adquiri um patrimônio básico, pude ajudar pessoas. Mas a verdade é que eu poderia ter feito muito, muito mais. Com a mesma liberalidade, a mesma generosidade, sem mão-de-vaquice, e ter muito mais. Nada disso pode ser mudado, quanto ao que ficou nos dias passados. São uma lembrança e foram a escola que não tive lá na base. Paguei literalmente o preço de ir aprendendo com a vida.

Neste exato momento, com pouco mais de 40 anos, não sei tudo sobre dinheiro. Sei apenas bem mais do que com metade dessa idade. Tenho cá minhas regras próprias para lidar com ele, e uma que observo à risca, inegociável mesmo é: os meus desejos, eu pago à vista. Sei lá, de repente continua pintando a vontade de ter uma moto, assim como alguns anos atrás. Não vou lá fazer um consórcio, muito menos compro parcelando no cartão de crédito, e de jeito nenhum busco financiamento para a aquisição. É um desejo que brotou de repente. Não é uma necessidade. “Legal, vamos ver se ele fica, se continua”. Bora pesquisar opções, estudar todos os detalhes da moto, assistir a dezenas de reviews, comparativos, etc, e nestas semanas iniciais já ir começando a guardar o dinheiro para a compra. Se o desejo se consolidar, mas se firmar meeesmo, cumprirei com certa tranquilidade o processo de acumulação da grana, para ter a alegria de comprá-la à vista, na melhor condição possível, com desconto, emplacamento, IPVA “grátis” e, se der, até um capacete de presente. Mas, se não consolidar – algo que normalmente acontece – eu não terei entrado numa decisão precipitada, com 50 ou 60 boletos já impressos e grudados em mim pelos próximos anos.

É assim que eu tenho vivido. Assim tenho prosperado. Assim tenho sabido, já faz alguns anos, o que é não ter dívidas ou contas parceladas a perder de vista. A leveza é indescritível. A sensação de não estar perdendo dinheiro com juros embutidos é maravilhosa. “Ah, Fer, mas você tem um trabalho top, salário de rico, então é fácil falar isso!”. Calma, calma, não é disso que estamos falando. Sim, eu tenho um trabalho legal. E não, eu não tenho um salário de rico. Mas ainda que tivesse, eu poderia lidar bem ou mal com a grana. Assim como lidei de forma errática e desorganizada por um quarto de século. Estamos falando de princípios de boa administração financeira, de regrinhas que se aplicam para o assalariado e também para o milionário. Claro que este vai prosperar mais rápido e em maior escala que aquele. Mas ambos podem prosperar. Ambos têm a opção de pagar seus desejos à vista.

Quanto às necessidades, elas nem sempre podem esperar. O milionário talvez as pague à vista também. O assalariado não. Ele vai dar seus jeitos, contrairá o empréstimo. Vai demorar mais para prosperar, como decorrência disso. Mas não tinha o que fazer. Era uma necessidade. Vai custar mais caro. São fatos da vida real.

Mas os desejos que temos, os pequenos ou grandes luxos, é sobre eles esta conversa. Precisamos dominá-los. Encontrar meios de não cair nas armadilhas, promoções, parcelamentos sem fim. Os desejos precisam ser dominados e saber esperar. Ou pagaremos mais caro por algo que não precisava ser. O senso de urgência era outro, mas a ansiedade venceu, trazendo consigo 50 ou 60 boletos que não precisavam ter nossos nomes impressos. É esta a reflexão que pretendo trazer com minha 3ª regrinha do Pequeno Decálogo de um Cara Sistemático. Algo prático, instantâneo. Aplicação imediata, pelo milionário e pelo assalariado, independentemente de como estão suas contas hoje. Se estiverem bem, se seu salário é de rico, mas você se acostumou a comprar apressadamente seus desejos, pagando juros que não precisa... repense. “Respeite o dinheiro”, é outro conselho que recebi lá atrás, mas não ouvi. Mas se suas contas estiverem trágicas, com muita coisa por arrumar numa bagunça de dívidas... tudo que você não precisa é de mais uma, principalmente se ela envolver algo não necessário. Talvez o primeiro passo para a virada seja não agregar novas contas, para pouco a pouco ir eliminando as antigas, a começar pela menor, depois a segunda menor, e assim por diante. Mas isto é conversa para textos futuros.

domingo, 18 de abril de 2021

008 ORDEM NA CASA

É bastante comum eu estar de saída, já com a mão na maçaneta da porta, e dar uma rápida olhada para trás, conferindo se tudo está em ordem. Daquele ponto da casa eu enxergo toda a área comum, composta por cozinha e três salas (estar, jantar e TV). Dali também se vê um pouco da área externa, onde ficam minhas bikes e a lavanderia. Os outros 3 cômodos (banheiro e 2 dormitórios), não são visíveis daquele ponto. Um pequeno e aconchegante apartamento, pensado e montado por mim ao longo dos últimos 4 anos.

Qual a finalidade dessas espiadelas pré-saída? Creio sejam duas: 1) a primeira, já mencionada, conferir se tudo está em ordem; 2) sentir a costumeira satisfação por constatar que tudo está em ordem. Porque sempre está. E mesmo eu sabendo disso, confiro. Quando muito, volto para dentro e fecho a janela da sala de estar (vai que chove?!), ou acomodo melhor as almofadas no sofá estampado, ou pego no aparador uns papeis que ia me esquecendo. Rotina. Hábito. Hábito adquirido uns poucos anos antes, por meados de 2013.

Demorei para ter uma casa integralmente sob minha responsabilidade. Vim a morar sozinho, num viés de “saí da casa dos pais”, quando completei 35 anos. Antes disso, já a partir dos meus 17, eu havia morado sozinho algumas vezes, para estudo ou trabalho. Londrina e Maringá, inicialmente (faculdade), e anos depois fui para Porto Alegre, Brasília e Curitiba, realizando projetos especiais pelo Poder Judiciário. Além dessas capitais, o trabalho me levou para muitos outros locais, só que por períodos bem curtos.

Fui para a capital paranaense em meados de 2013, com a ideia de lá me estabelecer. Mudanças importantes e rápidas ocorreram no meu trabalho em janeiro daquele ano. Recebi um convite e fui. Sem fazer muitas contas e ponderações, é verdade. Eu já havia me mudado antes, estava acostumado ao desconhecido e ao novo. Sou paranaense, havia morado nalgumas das principais cidades do Estado, mas não na capital. Foi natural aceitar o convite e ter essa experiência. Capitais são legais. Muita coisa acontece, o ritmo é outro. Claro que eu iria, e fui mesmo.

Após o primeiro mês morando numa pensão, descolei um estúdio bem no centro de Curitiba. Trinta e três metros quadrados, compostos pelo estúdio em si, um pequeno banheiro e mini-sacada, de onde eu tinha uma ampla vista do centro e zona leste da capital. Pelas manhãs, quando o sol se levantava, ao longe estava a silhueta da Serra do Mar. Dirigindo o olhar para baixo, Rua 24 de Maio, Santa Casa, Praça Rui Barbosa. Centrão, com aquele movimento intenso desde cedo até o início da noite, e sempre alguma coisa acontecendo de madrugada: sirenes, brigas entre bêbados, Hornet cortando giro, etc. Naquele cubículo, nessas coordenadas, por esse período, eu finalmente experimentei a sensação de ter uma casa para chamar de minha.

Tratei de arrumar tudo, ainda que “tudo” significasse poucas coisas. O lugar era mesmo bem pequeno. Roupas de banho e cama, tapetes, talheres, panelas, um pequeno aramado para calçados, estante para alguns livros. A Casa China, bem próxima a um dos tubos da Rui Barbosa, tornou-se o caminho natural, a cada vez que eu listava itens que faltavam em casa. Como faço ainda hoje, tenho uma cadernetinha em local estratégico na cozinha, onde anoto isso. Então, numa próxima saída, arranco a folhinha e não me esqueço de comprar. Minha memória é péssima. Cadernetinhas ou apps de anotações servem justamente para isso, serem memórias extras para nós.

Por essa época eu não sabia cozinhar. Não que eu seja grande coisa hoje, mas então era muito pior. Comprei panelas ruins, embora parecessem boas. Vim a descobrir, depois, que as boas são caras e pesadas. Fica a dica. No Mercado Municipal, que eu visitava regularmente, uma variedade incrível de itens. Tipos e mais tipos de grãos, frutas e verduras, carnes e tudo mais. Assim eu supria a minha despensa, com tudo organizado e guardado em recipientes de vidro. Dava até gosto de ver aquela pequena cozinha do cara recém-chegado à capital. Só faltava saber transformar aquilo tudo em comida pronta, gostosa, cheirosa e apetitosa.

Recorri às Donas Mirian (mãe) e Meire (tia), pegando as receitas iniciais: arroz com legumes e alguma carne; e torta salgada com massa batida em liquidificador. Tudo isso, rs. Vai, pode rir. Mas era melhor do que viver de pizza ou lanches. E com 5 ou 6 tipos diferentes de grãos de arroz, e uns 3 ou 4 de farinhas, eu meio que me enganava, fazendo parecer que sabia fazer muitas coisas diferentes. Nas reuniões de células, no meio da semana, quando meu nome estava na escala do lanche, era sempre aquela expectativa do pessoal sobre a próxima torta salgada do Fer. “Pessoal, essa fiz com farinha de arroz, ovos orgânicos, linguicinha apimentada, mandioquinha salsa, cebola e tomatinhos”. Uooow, quase um cheff! Quando, em verdade, tudo não passava de gourmetização e valorização de uma torta básica. Mas, como dizem, a propaganda é a alma do negócio. E assim todo mundo acreditava, inclusive eu mesmo, que o Fer sabia cozinhar.

Não era uma rotina ruim, nem de longe. Adorei meu primeiro semestre em Curitiba. Tudo funcionava bem. No trabalho, tive que me desdobrar (inicialmente) para organizar e dar um rumo legal para o gabinete, então começou a fluir: equipe entrosada, juízes felizes com a produção, até algumas sondagens de outros setores que me queriam. Na igreja, sem comentários; muito feliz e adaptado, participava de tudo. Veio o recesso de final de ano, mais as férias em janeiro de 2014, uns “remenbers” com uma ex por quem eu era apaixonado, e não tardou para que eu desmontasse acampamento em Curitiba, para encarar nova mudança. Não foi só isso, claro. Lá no fundo eu não me via encarando o resto da vida – o que quer quê, e sei lá quanto tempo isso significasse – em Curitiba. Fui com um “animus” de definitividade, mas eu sentia muita falta do jeitão de viver do Norte do Paraná. Lá (aqui) estava minha raiz. O resto é história e cá estou.

Cá estou com casa montada, panelas melhores (caras e pesadas), mobília estilosa e escolhida a dedo. E sempre conferindo, a cada saída, se tudo está arrumado. Porque penso que uma casa bonita e organizada seja reflexo de muitas outras coisas na vida da pessoa. Tanta gente sai com a missão de mudar o mundo, quando sequer estendeu a colcha sobre a cama, ou secou a água na pia, ou tirou dos braços do sofá as migalhas da bolacha comida no fim de semana. A segunda regrinha do Pequeno Decálogo de um Cara Sistemático consiste justamente nisto: ordem na casa, para somente depois, a partir disto, dispor-se a ordenar o que quer que seja. Afinal, as verdadeiras mudanças ocorrem de dentro para fora!

Vez por outra posto fotos da minha casa. Quando entra um item novo, ou mudo tudo de lugar para “reformar” o apartamento sem ter comprado nada (mania que peguei da Dona Mirian). Minha vocação inicial era para Arquitetura e Urbanismo, tenho alguma noção. Uma amiga perguntou, tempos atrás: “Beleza Fer, tudo lindo, mas é sério que sua casa está sempre assim, linda e arrumada, como nos comerciais de margarina?”. Hum... uns 90% sim, e os 10% restantes eu arrumo com aquelas espiadelas antes de sair.

quarta-feira, 14 de abril de 2021

007 SEMPRE SÓBRIO

Nunca me embriaguei com álcool, ao longo desses quase 44 anos de vida. O mais perto que estive de uma leve “alegria extra”, foi num Dia dos Namorados, muito tempo atrás. Após jantar romântico num bom restaurante – comida refinada, duas garrafas de champagne... ou frisante... ou espumante (nunca sei) –, eu me dirigia até a casa da namorada, para deixá-la. Fomos parados numa blitz policial. Aproximava-se o início da vigência do Novo Código de Trânsito, trazendo normas bem mais rígidas para situações de embriaguez ao volante, dentre outras novidades. Por essa razão, várias operações de caráter educativo-informativo estavam ocorrendo por aqueles dias. Foi nesse contexto a abordagem.

Eu não estava embriagado, mas havia consumido álcool umas 2 ou 3 horas antes. Como houvesse passado um tempo razoável, qualquer eventual pequeno efeito entorpecente já havia se dissipado. Algum riso extra, certo relaxamento, e só. Todavia, o fato é que eu havia consumido álcool e, não muito depois, estava dirigindo. Quando da abordagem, fui perguntado sobre isso. Respondi que sim, obviamente, mas expliquei que havia sido pouco e que muito raramente eu bebia, e menos ainda me colocava ao volante. Exatamente tudo que acabara de fazer, rs. O policial sorriu, dizendo que todo bêbado fala isso. A namorada gargalhava ao meu lado, pois sabia que era verdade. Insistiu com o policial que era isso mesmo – “seu guarda, é sério, ele não bebe” – ao que o policial respondeu que toda namorada de bêbado diz a mesma coisa. Ou seja, um típico flagrante, só que sem o bêbado, embora parecesse. Nós três rimos da situação.

Como estávamos a duas quadras da casa dela, foi tranquilo convencer o policial a nos deixar prosseguir. Ele disse que minha sorte foi ser uma blitz orientativa, pois no caso de o novo Código de Trânsito estar em vigor naquele dia, eu teria sérios problemas. Agradeci, rindo (claro), e insisti com ele que era realmente verdade a minha história. Uma chance em mil. No final, acho que ele viu sinceridade.

Aquela garrafinha extra de champagne foi a única vez. Tenho por regra, quando se trata de bebida alcoólica, tomar uma. Uma-o-que-quer-que-seja. Uma latinha. Um copinho. Uma dose. Uma garrafa (que normalmente fica pela metade). Porque assim eu tenho certeza de que não me embriagarei. Em sendo uma bebida forte (vodka, por exemplo), uma dose pequena. Algo mais fraco (cerveja), fico na latinha solitária. Sempre faço assim. Provei muitas bebidas diferentes. Da imensa maioria eu não gostei.

O fato de ter álcool, para mim, é o que menos importa. Afinal, não estou atrás dos seus efeitos, em absoluto. Assim como não como nenhum alimento esperando algum efeito secundário, além dos primários e importantes “matar minha fome” e “ter um bom sabor”, não olho para qualquer bebida visando a efeitos entorpecentes. Espero delas, simples e tão somente, que matem minha sede e tenham bom sabor. Como sei – e muitos de vocês sabem – há bebidas alcoólicas com sabores horríveis, e muitas delas não se prestam a matar a sede. Ah, mas tem o lado social, cultural, histórico de cada bebida... Conversa mole! Desculpinha para justificar os excessos. Na hora ali, o que vejo no pessoal é apenas o desejo de sentir os efeitos. Não vejo ninguém pensando em nada histórico ou cultural, embora essas facetas existam e, sim, tenham a ver com cada bebida específica. Mas isso já é coisa para uma prosa mais sofisticada. No geral, o pessoal quer só é beber mesmo e sentir os efeitos.

Longe de mim pintar na área como julgador. É apenas o que eu observo e concluo com meus botões. O foco do texto está em mim, nos meus critérios, na minha forma de consumir. Digamos que uma regra do meu Pequeno Decálogo de um Cara Sistemático. Há um princípio que sigo, que diz que todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convém. Coloquei para mim, portanto, o limite de uma só. Funciona. Se é algo que já provei, conheci o sabor e não gosto, naturalmente recuso. Se é algo que gosto, pode ser que eu tome, ou não. Mas se for champagne... quase sempre tomo. Uma taça. Quem sabe uma garrafa. Duas não, pois naquela noite da blitz eu vi que a alegria extra estava se instalando.

Ocorre de eu parar na primeira e única latinha, e o pessoal que toma bastante insistir para que eu continue. Recuso. Alguém mais insistente chega a trazer a segunda lata, abre, coloca na minha frente e fica me olhando. Talvez na esperança de que ela magicamente me hipnotize, assim como faz com ele rs. Não. Não hipnotiza. Outra pessoa toma aquela lata, ou ela fica esquentando na mesa. O cara trouxe porque quis. Eu não pedi.

É um fenômeno interessante. Quando envolve comida, seja num restaurante, seja numa reunião com amigos, não vejo ninguém achando estranho você ter comido apenas uma porção, e insistindo para que coma a próxima, e uma terceira, e outra. Não. Simplesmente comemos o quê e quanto queremos, sem ninguém se importar com nosso prato (avós não se enquadram, pois sempre fiscalizam o quanto comemos). Com a bebida alcoólica, né bem assim não. Rola o tal fenômeno. Você é mais acolhido ou menos acolhido, se entra ou não na roda e senta pra beber junto. Rola pressão e muitos cedem.

Caminhando pros finalmentes da minha primeira regra do Pequeno Decálogo de um Cara Sistemático, o fato é que nunca me embriaguei, não estou embriagado neste exato momento, e não pretendo fazê-lo pelo resto da minha vida. Para mim, não convém. Sim, eu sei, há inclusive orientações na Palavra quanto a isso, mas sinceramente te digo que não foi por isso minha decisão. Acredito que, de qualquer modo, eu me portaria assim. É como sou. Sempre sóbrio. Não tenho curiosidade, nem vontade de saber como é a sensação do entorpecimento. De observar nos outros, sei que não quero.

Diz a “sabedoria” popular que “quem não bebe, não tem história pra contar”. Hum... sinto informar, mas sou prova do contrário. Tenho muitas.

Tin tin!

segunda-feira, 12 de abril de 2021

006 MAR DE GENTE

"Meio milhão de pessoas cruzam o nosso caminho durante a vida!". Essa frase, aparentemente superdimensionada, chamou minha atenção algum tempo atrás. "Absurdo!", pensei. "Devem ter extraído esse número de uma daquelas pesquisas malucas que há por aí”. Mas fiquei mesmo intrigado e resolvi fazer as contas.

Parti, em meus cálculos, do seguinte raciocínio: (i) se é razoável afirmar que a partir da segunda metade do século XX - com todos os avanços tecnológicos e médicos -, as pessoas passaram a alcançar mais facilmente 80 anos de vida, ou mais; (ii) se "cruzar nosso caminho" for tomado como a totalidade de nossas interações durante essa longa vida, desde os laços mais profundos - tais como os que temos com nossos pais, irmãos, filhos, cônjuge -, até aqueles bem superficiais, como um cumprimento trivial durante uma caminhada, o pagamento a um caixa no comércio, uma informação que você pede a um estranho quando não se localiza no trânsito, etc; e (iii) se é certo que a vida urbana aumentou exponencialmente as possibilidades de contatos, comparativamente à vida rural ou de pequenas cidades... concluí que não seria impossível o número 500 mil. Repetindo: QUINHETOS MIL! Para tanto, bastam pouco mais de 6.000 interações a cada ano de vida; ou 17 novas pessoas por dia (em 80 anos).

Hummm, meio forçado né?! Beleza então! Jogando o pêndulo para o extremo oposto, sendo agora muito conservador com os números, consideremos apenas 1 novo contato por dia de vida (em cerca de 82 anos), e chegamos a 30 mil interações. Bem menos que meio milhão, mas ainda assim um número considerável. Equivale a uma cidade de porte médio-pequeno aqui no meu Estado do Paraná. Para ficar um pouco mais palpável, tomemos por base o número de seguidores de uma pessoa comum na rede social: 500, 1000, 2000. Raramente vejo alguém com 5000 contatos. Percebe-se que ainda assim os 30 mil são muita gente.

Bem, qualquer que seja o montante mais realista, 30 mil, 500 mil (ou qualquer número intermediário), penso ser gente demais para administrar. Ninguém dá conta. Impossível interagir e continuar linkado com tantas pessoas. Lembrei-me agora de uma música, de não sei quem, com uma parte assim: “eu quero ter 1 milhão de amigos...”. Acho que não dá, né bicho. Seriam tantas emoções.

Essa constatação realmente chamou a minha atenção, ficou na mente. Pensando nisso, peguei-me a imaginar qual seria meu número. Quantas milhares de pessoas já cruzaram meu caminho? O nível 2, a reflexão natural que se seguiu, foi pensar em quais dessas muitas pessoas foram as que mais fortemente marcaram a minha vida. Se a vida é um Mar de Gente, quais se destacam? Que critérios devo utilizar para formar minha lista dos “mais mais”, os tops, os diferenciados. A fina flor da nata da cremosidade.

Um time titular de futebol, em campo, conta com 11 atletas. Fiz uma rápida pesquisa no Google para “quantos jogadores profissionais de futebol existem no Brasil”. Os resultados variaram muito, mas uma página indicou 28 mil. Tomei por razoável. Certo, então somamos mais uns 2 mil que jogam em outros países (devem ser bem mais), e finalmente temos nosso universo de 30 mil jogadores profissionais; aquele mesmo número conservador que apareceu numas contas acima. Assim, os parâmetros estão colocados: escolher 11 dentre 30 mil.

Agora imagine que você é o Tite, atual técnico da Seleção Brasileira de Futebol, e precisa escalar esses caras. Que função, hein! Acredito que você nunca pensou nisto com seriedade. Sim, damos pitacos a cada nova escalação, concordamos com uns nomes, demonizamos outros, sempre tem aquele carinha que não poderia ter ficado de fora, blá, blá, blá, e assim somos não apenas o País do Futebol, mas nos tornamos também o “País dos Técnicos de Futebol”. Todo mundo manja muito... em tese. Porque na verdade é muito fácil escolher em teoria, quando uma escolha nossa não vai mesmo acontecer. Duro é estar no papel real, na pele do Tite; escolher e colher os frutos – bons e ruins – daquela lista de 11 titulares.

Alguns nomes brotam naturalmente. O craque maior do país. O goleiro. Uns 4 ou 5 da defesa e meio-campo, que vem aparecendo seguidamente em convocações anteriores. Esses dois terços são fáceis. Mas o fechamento do time titular enrosca um pouco, demanda muito mais estudo e análise. É nessa parcela que pode estar o escorregão, o tiro no pé, ou então o nome novo, o garoto brilhante que merece a oportunidade em meio aos medalhões. Para quem gosta de futebol, certeza que lembrou de algumas histórias. Acho que a analogia é válida.

Ao encarar a mesma tarefa, mas escalando os(as) 11 titulares da Seleção da Minha Vida, aconteceu exatamente a mesma coisa. Dois terços estavam na ponta da língua: mãe, pai, avós, irmãos, sobrinhos, uma tia com quem tenho forte afinidade, uma amiga de longuíssima data. E no terço final da lista, semelhantemente, deu aquela travada. A brincadeira fica instigante, divertida; faz realmente pensar. Começo a me dar conta do tanto de gente que conheço, sejam aqueles que chegaram e se mantiveram perto; sejam alguns que passaram um período na minha vida, depois sumiram; quem sabe até pessoas que já faleceram.

1 vaga do meu time titular, preencho com pai/mãe.

1 vaga com avô/avó.

1 vaga com meus irmãos.

1 vaga dos sobrinhos.

1 vaga dos tios.

1 é preenchida por minha amiga residente em Cascavel.

E assim, os/as 6 titulares mais destacados aparecem. Bem, vocês perceberam que usei um artifício para deixar a brincadeira mais interessante, colocando duas pessoas da “mesma categoria” numa única vaga. Foi necessário, senão todas as minhas 11 se esgotariam no núcleo familiar próximo, e a ideia do exercício é levar-nos a pensar mais longe. Ir além da família, buscar craques no universo muito maior dos “de fora”. No meu caso, preciso então de outros 5 nomes para colocar um time em campo.

É neste ponto que o verdadeiro trabalho do Tite começa. Às vezes ele saca um nome inesperado, dum time que ninguém sabe nada. Ou chama um cara lá do Qatar, cujo campeonato nem é transmitido na TV aberta brasileira. A geral não entende, aí começam as perplexidades dos demais 220 milhões de técnicos. Claro. O Tite tem seus critérios. Seu olhar é único. Suas percepções, cálculos, o “feeling” e o “timing” para experimentar uma promessa de craque. Conosco é igualzinho.

Pensando aqui nos meus demais 5 titulares, deu mesmo uma travada. Você se dá conta de que conhece uma tonelada de gente, mas não crava tão rapidamente nenhum nome fora dos óbvios. Joga o olhar para sua ampla história, os lugares onde morou, escolas por que passou... e não é automático cravar o 7º titular, o 8º, 9º... Necessariamente, pensa nos relacionamentos amorosos que teve, colegas de trabalho, gente da igreja, etc. Precisa olhar não apenas para os clubes da 1ª Divisão do Campeonato Brasileiro, ou alguns que estão na Champions League. Tem gente preciosa também na Série B, na C, no Campeonato Alagoano. Quem sabe até o Ibis te forneça um craque.

Eis o convite do nosso novo e pequeno texto: identificar seus 11 titulares. Encare o exercício, invista um tempo para pensar nisto. Descubra seus critérios. Olhe para sua história toda até aqui. Pense na pessoa que você se tornou e, sabedor que não chegou sozinho ou sozinha até este momento, honre aqueles te tocaram de uma forma diferenciada. Pessoas que te impulsionaram, deram oportunidades quando ninguém mais o fez. Pessoas que te fizeram sentir emoções únicas (alegres ou ruins). Pessoas que se foram, e somente naquela hora triste você se deu conta da magnitude.

Eu completei minha lista, a Seleção da Minha Vida. Não foi tarefa para 5 minutos. Mergulhei profundo nesse Mar de Gente, para voltar à tona sabendo mais sobre mim mesmo. Acredito que possa acontecer o mesmo contigo.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

005 SEXTOU

“Não me arrependo de nada! Só me arrependo daquilo que não fiz!”. Uoooow, aí sim! Esse aí viveu, fez tudo, chapou, esmerilhou. Sem remorsos, sem olhar para trás, sem arrependimentos. Sextou, bebê! Dia de colocar tudo para fora e fazer coisas que mamãe nem sonha. Parece bom, né?! Quem dera todos pudessem chegar assim ao final da caminhada, tendo feito tudo, com nada por se arrepender. Vida plena. Liberdade.

Essa ideia foi cunhada com os mesmos ingredientes enganosos de uma outra, muito em voga: “Nada é errado, se te faz feliz!”. Doce mentira, que soa como música aos ouvidos de um mundo que não aceita o confronto. Cada um vive como quer, faz o que quer, escolhe seu próprio caminho... e ai de quem se levanta para dizer um “a” em contrário. “Discurso de ódio!”. “Fundamentalismo!”. “Seus radicais!”. “Só Deus pode me julgar!”.

 

Beleza então. Se é verdade que só Deus pode te julgar, isto não te preocupa?

 

“Ih, lá vem...”

 

“Deixando de curtir o blog em 3, 2, 1...”

 

“Fui!”

 

Tranquilo, pessoal. A ideia com estes Escritos Aleatórios não é colecionar visualizações, likes, curtidas ou comentários elogiosos. A porta sempre foi serventia da casa. Ninguém é obrigado a ouvir/ler o que não quer, mas eu me vejo na obrigação de falar o que penso. É mais do que um passatempo ou modinha. É para mim um encargo (talvez falemos disto em textos futuros). O resultado deste falar, será uma de três reações: adesão, rejeição ou indiferença. Toda mensagem tem o potencial de gerar isso. Amor ou ódio, em especial; e alguns a ignoram. Vida que segue.

 

Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus”. Palavras ditas por um homem que confrontou sua geração. João Batista, primo e precursor de Jesus. A voz que clamava no deserto, aquele que preparou o caminho do Senhor. Um carinha “mais ou menos”, sobre quem está escrito que “dentre os nascidos de mulher, não há nenhum maior do que João”. Acredito que não houve antes, não havia na época, e não houve maior depois. Um cara muito especial. Ele não foi o fundador da Igreja. Ele não foi o Apóstolo dos Gentios. Mas creio mesmo que o esquisitão do deserto foi, neste plano, maior do que todos os outros.

 

João não apareceu com mensagem palatável, rede social descolada, foto de perfil com tratamento, estratégias de impulsionamento e alcance. Não. Ele apareceu com seu estilo de vida excêntrico – vivia no deserto, comia mel silvestre e gafanhotos, vestia-se com pelos de camelo e cinto de couro – e, sobretudo, apareceu com uma mensagem muito, muito dura: “Arrependei-vos!”. O resultado: em 3, 2, 1... começava o primeiro cancelamento da Era Cristã. Os detalhes da história estão naquele bom e velho livro de capa preta.

 

Ele não apareceu para colecionar seguidores. Não. Não era dono deles, assim como não somos dos que achamos que temos hoje em nossas redes sociais. Tempos depois de começar suas andanças e “falanças”, quando o Caminho chegou, encarnado, cheio de Graça e Verdade, os seguidores de um e de outro se viram em certa divergência. João não pensou duas vezes: transferiu todos os seus seguidores para aquele que veio após ele. Porque importava que Ele crescesse, e Joãozinho diminuísse. Detalhes da história, novamente no livro de capa preta.

 

Quantos de nós estamos dispostos a transferir todos os nossos seguidores para alguém? Tirar o foco do EU, do MEU, e dizer: “Não olhe para mim. Olhe para Ele”. Pois fazer discípulos é exatamente isso: levar alguém que olha hoje para você, a olhar para um outro alguém, maior do que você. O Caminho, Verdade e Vida.

 

Se José, filho de Israel, é meu personagem favorito no Antigo Testamento, tranquilamente vejo em João Batista a mesma proeminência no Novo. Alguém de quem os registros foram poucos, comparativamente com “Os Doze”, Pedro (em especial), Paulo, João. Às vezes tenho a impressão de que ele é visto por muitos como nota de rodapé. Alguém que se não estivesse lá, não faria diferença. Discordo, claro. E sinto informar que, ainda que ele fosse uma nota, há notas fundamentais para a compreensão de toda a história contada nas muitas páginas seguintes. Talvez por isso, sempre receoso de perder uma chave de compreensão, tenho por hábito ler cada minúscula notinha de rodapé, de cada livro que já me passou pelas mãos. Fica a dica.

 

Prossigamos. Algo que me chama a atenção, é que “desde então começou Jesus a pregar, e a dizer: arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus”. A mesmíssima mensagem desconfortável de seu predecessor. Mesma e dura mensagem. Despertando os mesmos amor e ódio nas pessoas. E a terceira via, a da indiferença? Novamente sinto informar que o “em cima do muro” não deixa ninguém seguro. O Senhor disse que quem não é com Ele, tem a mesma condição dos que são contra. A verdade é que a terceira via não existe. Só dois caminhos. Ou se está num, ou noutro.

 

Vivemos tempos onde não se pode falar nada. Apontar nada. Sugerir nada. Qualquer palavra desconfortável aos ouvidos é tomada como discurso de ódio. Mas não, não é. Pelo contrário. A palavra de amor pode ser – e efetivamente é – justamente aquela que mais nos confronta. Dizemos por aí que o verdadeiro amigo é aquele que diz as verdades que ninguém mais tem coragem de dizer, mas quando o Verdadeiro Amigo falou, ou algum discípulo dele fala hoje, aí não rola. Aí vira discurso de ódio, fundamentalismo, “estão me julgando”. Não. Não é isso. É amor, embora incompreendido. Ele disse que seríamos odiados por cumprirmos o encargo. Sem surpresas, portanto.

 

“Deixa disso Fer! Deixe cada um vier como quiser. Não julgue você também. Cadê o Evangelho do Amor?”

 

Julgo não. Estou apontando o dedo não. Quem sou eu para julgar? Quem sou eu?

 

Sei quem sou. Sou o primeiro a me arrepender. Eu poderia (e posso) viver como quisesse, mas a mensagem do arrependimento me alcançou. Se a mensagem de João, e a subsequente mensagem de Cristo fossem “Hei mundo, tudo bão co´cêis?! Vivam como quiserem! Está instalado o Reino do Amor Sem Limites”... então eu me sentiria confortável para viver como quisesse. Mas não foi isso que ele e Ele falaram. Não foi isso que os Doze falaram. Nem Paulo falou. Nem os mártires do início falaram. Nem os muitos que vieram nos 20 séculos seguintes falaram. E não é isso que a Igreja fala hoje.

 

A mensagem do arrependimento não mudou. Ela está posta. Aderir ou não, é com cada um.

 

Sextou!

segunda-feira, 5 de abril de 2021

004 PERGUNTE-ME COMO

Analisando uma semana padrão da minha rotina, encontrei a seguinte média por dia:

Sono/Descanso - 8 horas
Trabalho - 7 horas
Leitura/Escrita/Estudos - 2 horas
Atividade Física - 2 horas
Entretenimento (música/tv/rádio) - 2 horas
Manutenção da casa - 1 hora
Cuidados pessoais - 1 hora
Deslocamentos - 1 hora
Tempo com Deus - 1 hora
Igreja e Ministérios - 1 hora
Família e Amigos - 1 hora
Alimentação - 1 hora
Burocracia (contas, pagamentos, e-mails) - 1 hora
Outros - 1 hora

Um dia de 30 horas!? Como assim?

A lista é falha, claro. Assemelha-se a uma velha mensagem que circulou anos atrás, pontuando todos os dias de feriados para um trabalhador no Brasil, mais férias, pontos facultativos, afastamentos, etc… “provando por A + B” que essa pessoa trabalhava no máximo 1 mês por ano. A malandragem da conta estava na sobreposição: um mesmo dia continha, simultaneamente, várias daquelas rubricas, mas era contado uma vez para cada uma delas, fazendo um dia valer por 2, 3 ou mais. A contagem era sobreposta, de forma errônea e intencional, mas bem criativa.

No cálculo dos 30 dias trabalhados por ano no Brasil, essa fórmula não vale. Entretanto, entendo que na contabilização do tempo utilizado em nossas tarefas diárias, serve sim. Afinal, somos multitarefas. Semelhantemente aos nossos computadores e smartphones, não focamos numa única atividade por vez, pausando todas as demais. Nossa RAM é potente. As demandas são numerosas e não podemos nos dar ao luxo de focarmos numa só, para somente depois na seguinte, e assim sucessivamente.

Ou você tem dúvidas de que nos 15 minutos da minha ida do trabalho até o banco eu realizei várias coisas simultaneamente?! O deslocamento em si; atividade física (caminhada leve); estudos (podcast rolando no fone de ouvido); alimentação (açaí com creme de morango que peguei e fui comendo); uma atividade burocrática prevista na agenda (depósito de cheques). Isso se formos muito conservadores, pois posso nesse trajeto ter encontrado um amigo, feito uma oração, dado uma esmola, lido e respondido várias mensagens, passado uma orientação por whatsapp ao estagiário, etc.

Tudo acontece ao mesmo tempo. Quinze minutos não são apenas 15 minutos. Temporalmente falando, sim. Mas no campo das realizações, tornamos esse período muito maior. Quinze minutos podem valer por 1 hora! Eu sei disso e você também sabe. Nossos filhos ou sobrinhos de 10 anos sabem. Na verdade, nós nos movemos no ritmo da nossa época e tudo nos parece natural, porque não conhecemos outra forma. Ou, ao menos, não nos damos conta de que pode haver outros jeitos.

O ritmo que vivemos hoje é impensável para os povos da Antiguidade, bem como para as gerações de alguns séculos atrás, e até mesmo para nossos pais ou avós. Se eu pensar nos meus - já falecidos - vivendo meu ritmo de hoje, acho que seria complicado. Falo de pessoas nascidas nos anos 20/30 do século XX, num mundo muito diferente. Avançando para os bebês dos anos 40/50 (meus pais), percebo-os um pouco mais inseridos nessa “roda vida”, mas não totalmente. Rola um descompasso. Há dificuldades para acompanharem o ritmo da minha geração, e mais ainda o ritmo dos netos.

Na minha geração - galerinha top nascida nos anos 70/80 - encontramos as pessoas que literalmente viveram a transição da era analógica para a digital. Uns com mais facilidade - como meu irmão -, outros sem nunca entender plenamente o funcionamento dos aparelhos eletrônicos em suas mãos (eu), mas nos adaptamos e aprendemos a viver assim, na velocidade alucinante de hoje. Por termos experimentado uma infância e juventude mais tranquilas, lá no fundo sabemos que existem jeitos mais leves e gostosos de viver. Aquelas memórias emocionais positivas.
 
Com a geração nascida na década final do século XX - já na era digital - e os supersônicos milleniuns, a velocidade aumentou ainda mais. Minha sobrinha Sara, quando contava 3 anos de idade, corria naturalmente os dedos sobre a tela de um antigo celular meu e, vendo que nada acontecia, me pergunta: “Titio, não funciona?”. Pouco tempo depois eu adquiri meu primeiro smartphone com tecnologia de toque na tela.
Mas, afinal, qual o propósito com esse palavrório todo sobre tempo e multitarefas?
Desde sempre, ouço/vejo pessoas reclamando que o tempo é escasso para tudo que precisam fazer. Concordo, em parte. Acho mais válido dizer que há pouco tempo para realizar tudo o que precisa ser feito, bem como para dar conta do que inventamos fazer e, claro, também para fazer aquilo que não tem o menor sentido fazer, mas continua sempre e sempre na nossa agenda. Este é o ponto.
 
Quantas vezes paramos um pouco para olhar nossa rotina, fazermos uma boa análise de tudo que está nela, e então ordenar melhor as coisas? (a velha alegoria do “afiar o machado”). Creio que uma resposta sincera da maioria das pessoas seja “quase nunca faço isso”. Seguem no “piloto automático” mesmo, fazendo tudo o que precisa ser feito, mais os extras desnecessários. Era para ser uma mochila, mas tocam suas vidas carregando duas ou três malas grandes e pesadas. Boa parte dos itens está ali apenas para agregar peso morto.
 
Eu reviso minha agenda constantemente. Faço isso há muito tempo, muito mesmo. Hoje, organizo-a pelo app no celular. Antigamente, era no bom e velho lápis e papel. Puxava à mão uma folha e rabiscava uma planilha, onde cada coluna correspondia a um dia da semana, e nas linhas eu ordenava cronologicamente as tarefas. Tudo que era semelhante, pintava com a mesma cor. Ficava claro o que se destacava na minha agenda semanal, bem como as áreas que estavam recebendo pouca atenção. E de tempos em tempos, revisão, ajustes. Eu sei, eu sei, não tem nada de novo ou genial nisso, mas tanta gente se desespera por falta de tempo, quando na verdade parte da solução está em melhor organizá-lo.
 
Com essa prática incorporada à minha vida – há pelo menos uns 25 anos –, sinto que usufruí bem o tempo vivido até aqui. Claro, nem sempre fui tão assertivo e produtivo; houve épocas de tempo desperdiçado, especialmente na juventude. Mas quando os anos se acumulam e acende aquele sinal amarelo de “você tem mais passado do que futuro pela frente”, rapidinho a gente toma tenência e começa a desperdiçar menos.
 
Já tive a oportunidade de auxiliar diretamente algumas pessoas na ordenação de suas agendas semanais e, em curtíssimo período, ver mudanças práticas e ganho de eficiência. Lembrando que por mais eficiência não devemos entender apenas produzir mais, ganhar mais dinheiro, ou coisas do tipo. Ser mais eficiente em tudo, ter tempo para dormir mais e melhor, dedicar-se às pessoas que amamos, mais lazer, alguma ação voluntária, ler um livro extra no mês, etc. Com organização, garanto que um dia se consegue dizer a quase surreal frase “eu tenho algum tempo de sobra”. Sim, é possível.
 
Lembro-me de um adesivo que via nos carros, anos atrás, que continha o seguinte dizer: “Quer emagrecer? Pergunte-me como”. Bem, acho que posso parafrasear, se a questão for colocar ordem na sua agenda. Eu sei como.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

003 RECOMEÇAR

Recomeçar. Refazer. Renovar. Reciclar...

O prefixo “re”, de origem latina, pode ter três sentidos: repetição (como em repensar), reforço (revirar), ou retrocesso (reiniciar).

 

O “re” não tem vida própria. Você não o encontra isolado na fala ou texto, autonomamente, mas sempre grudado em alguém – com ou sem hífen, conforme as novas regras gramaticais que não decorei –, agregando algum daqueles sentidos à palavra original.

 

Começar algo, o que quer que seja, não é fácil.

 

Um texto como este, com suas mil e poucas palavras, pode te passar a impressão de que fluiu como a água que desce. Às vezes sim. Normalmente, não. Via de regra, é como carregar água morro acima. De antemão, nunca sei como será. Depois que começa, vai de boa, flui mesmo, é animador. O miolo é como agregar argila numa peça entre as mãos, assim como faz um oleiro. Depois ele a refina, retira excessos. A finalização do texto é demorada, mas razoavelmente simples; consiste na correção de detalhes e preenchimento de fissuras, a verdadeira lapidação do barro. De repente temos forma, função, beleza, algo concreto e apreciável. Basta então colocar no fogo (submeter à crítica) e podemos, enfim, ter fina peça em mão. É assim que eu escrevo.

 

A parte difícil, difícil mesmo, está no começo. O ato criativo por excelência: imaginar a peça, do zero, do nada. De alguma forma a coisa acontece. A imaginação ganha asas, vai-se tateando no escuro, até que se encontra uma linha. Sorrimos. “Vai dar bom!”. Mas de repente, não mais que de repente – como disse certa vez um oleiro muito melhor escritor do que eu –, algo não sai bem, a coisa desanda. Novamente uma massa informe em meio às mãos. Estaca zero. Todo o trabalho criativo inicial, o enchimento seguinte e, por fim, a lapidação que te deu vislumbres de forma final, perdem-se de uma hora para outra. Você retrocede ao início. Será preciso recomeçar.

 

Recomeçar encaixa-se no terceiro daqueles sentidos falados: retrocesso. Implica numa perda. E se começar não é fácil, como dito, recomeçar é muito pior. Porque além de todas as já sabidas e experimentadas dificuldades do primeiro processo, agregam-se neste segundo o desconforto, o aborrecimento, a frustração, dor, lágrimas... e uma lista enorme de muito mais. Há quem não consiga, justamente pelo peso desses sentimentos adicionais. A pessoa se entrega, joga a toalha. Conversa com seus botões e conclui que não dá conta de fazer tudo de novo. “Como? Por quê? Não consigo mais”.

 

Quem olha de fora, alheio ao peso dos “sentimentos adicionais”, pode achar que é frescura. Diz logo um “Deixe disso, não seja fraco!”. Mal comparando, é o mesmo que dizer para uma pessoa deprimida que magicamente “não sinta o que sente!”. Mas não funciona assim. Nossas emoções nos influenciam sobremaneira. Podemos até reunir os recursos necessários para recomeçar (externamente falando), mas faltar algo do lado de dentro. Algo que nos desanima, trava, prosta; e assim ficamos.

 

Parece-me que o recomeçar, por envolver a perda de todo um investimento inicial (de tempo, recursos, emoções), precisa de um estágio intermediário – “inter-processos” – para finalmente acontecer. Um tipo de luto. Algo estava por existir, mas foi abortado inesperadamente. Algo existia, mas morreu. Sim, eis um elemento importante demais na questão: a compreensão de que algo morreu. De algum modo teremos que lidar com a perplexidade do “E agora?”, o vazio e a tristeza pelo que se foi.

 

Enquanto você lia os parágrafos iniciais, provavelmente associou essas ideias a algo que já perdeu. Uma pessoa. Negócios. Bens. Um sonho quase concretizado. Uma condição confortável que, por circunstâncias alheias à sua vontade, pode ter se modificado completamente; e agora você experimenta grandes restrições. Há vida real neste texto. Ele é para todos.

 

Não apenas a vida morre. Coisas também. Sentimentos morrem. Projetos. E toda morte envolve luto. Ele faz parte do processo de recomeço. É seu-meu-nosso tempo de recolhimento e assimilação da perda, rearrumação do lado de dentro. Sem passar por este tempo, recomeçar fica muito mais difícil. Até este momento da minha existência, poucas pessoas próximas a mim morreram. Já idosas, vidas abundantes. Claro que houve luto, mas a assimilação foi razoavelmente tranquila, pelos contextos. Imagino o que deva ser o luto decorrente de uma morte inesperada, precoce. Uma criança, um jovem. Não, na verdade eu não consigo imaginar.

 

Mas já experimentei outros tipos de mortes: coisas, negócios, bens, sonhos, relacionamentos. É diferente do luto por uma vida que se foi, claro. Totalmente. Mas, à sua maneira, essas outras perdas geraram em mim a perplexidade, o olhar vazio voltado para o nada, a frustração do tempo anteriormente investido... e agora perdido. Sempre é difícil. Sendo sincero, digo que tem coisas que morreram na minha vida e consegui recomeçar mais facilmente. Outras estou ainda num processo de assimilação e luto pela perda. E tem umas terceiras que fico a imaginar se conseguirei encarar novo processo.

 

Um texto com o título “Recomeçar”, talvez gerasse a expectativa de uma mensagem positiva, motivacional, do tipo “Vamos lá, bola pra frente!”, ou “Segura na mão de Deus e vai!”. Ok, super válido. É bom dizer coisas assim. Mas também é válido lembrar que não é fácil recomeçar. Que se você está neste tempo de luto e ainda não consegue reunir forças para se mover de novo, não há necessariamente um problema. Talvez a validade deste escrito esteja em te dizer para ficar onde está, como está, e chorar o que precisa ser chorado. Tenha seu luto, processe, assimile. Não somos super. Chorar é humano. Existe dor na vida.

 

O importante detalhe – e aí vem a boa nova – é que se o luto precisa acontecer entre o primeiro e o segundo processos, ele também tem que findar. O luto não pode ser longo demais, muito menos eterno. A única forma possível de viver é um dia por vez. Assim como aquele começo, ora perdido, precisou de muitos dias e recursos (internos e externos) para existir, o novo começo, o recomeço também precisará. Talvez nossa dificuldade em recomeços esteja justamente no fato de desejarmos que aquela perda não tivesse acontecido, para na manhã seguinte tudo ser como antes. A má notícia é que não será assim. A boa é que pode e vai se ajeitar, mas dá trabalho, leva tempo e é difícil.

 

Agora que você foi lembrado disso, recomece. Um dia por vez.

 

Ah, ia me esquecendo: sim, segurar nas mãos de Deus vai ajudar, e muito! Afinal, ele é o maior especialista em recomeços. O Oleiro dos oleiros.

082 PALAVRAS AO VENTO

Uns dois ou três dias atrás fiz algo que há muito tempo abandonei. Numa rede social, após ver a postagem que me chamou a atenção – de temáti...