domingo, 20 de março de 2022

079 A ÚLTIMA HORA

No filme O PREÇO DO AMANHÃ, os personagens Will Salas (Justin Timberlake) e Sylvia Weis (Amanda Seyfried) vêem seus caminhos se cruzando num mundo futurista, onde um ativo preciosíssimo foi finalmente dominado pelo homem: O TEMPO. Como a película é de 2011, não reclame agora de spoiler, blz! Você teve mais de uma década para vê-lo. Mas, mas, mas... caso não assistiu, ou nem sabia de sua existência até agora, fica anotado que vou contar algumas partes nas próximas linhas. Ah, e recomendo finalmente assistir, pois é um bom filme, além de gerar reflexões legais.

Naquele mundo hipotético, por alguma razão que não me recordo, toda pessoa nasce com um mostrador digital em seu pulso, inicialmente zerado. O bebê vem a ser criança; a criança, um adolescente; este chega à juventude, quando finalmente duas coisas muito críticas acontecem: 1) no instante em que a pessoa completa 25 anos de idade, ela para de envelhecer. Terá aquela forma pelo resto da vida. Um mundo de jovens (ao menos na aparência); e 2) naquele mesmo instante, o mostrador digital no pulso é ativado, indicando o tal RESTO DA VIDA que a pessoa tem. Uma determinada quantidade de anos, meses, semanas, dias, horas, minutos e segundos aparece na parte interna de seu pulso, e a temida CONTAGEM REGRESSIVA começa. Não me recordo, no filme, o quanto era carregado para cada um, mas sei que aos 25 toda pessoa tinha seu relógio ativado com a mesma quantidade. Digamos que fossem 5 anos.

Dado então aquele start no RESTO DA VIDA, dois cenários possíveis entravam no radar: 1) se nada fosse feito, bastando seguir um curso de vida “normal”, dali a exatos 5 anos a pessoa morreria. Puf! OFF. Simplesmente desligava. Sem dor, sangue, explosões ou efeitos especiais. Era como se puxasse o plug da tomada; 2) a pessoa poderia carregar ou descarregar mais tempo em seu mostrador no pulso, o que significava a possibilidade de ampliar ou diminuir volitivamente a duração de sua vida.

Doidão, né?!

Genial, né?!

Bora abrir um parêntese.

Eu sou muito fã de filmes de ficção científica, desde menino. Poderia elencar dezenas deles, que apreciei ao longo da vida. E sabe, quando pinta um enredo novo, um cenário surreal como este – e outros – eu acho o máximo. É a criatividade humana gerando frutos, bolando coisas nunca antes pensadas, ou dando nova roupagem para outras que já haviam sido. Um traço em nós – que somos IMAGEM E SEMELHANÇA – de um atributo maravilhoso do Senhor: CRIATIVIDADE. Penso sempre nisso. Naqueles dias criativos iniciais, Deus pensando e executando cada elemento, cada design, cor, textura, sabor, cheiro, dinâmica... para ver um mundo completo e harmônico criado por Ele mesmo, pelo PODER DAS PALAVRAS DE SUA BOCA. E ao final, contemplando Sua obra, afirmar que É TUDO MUITO BOM! (Gênesis 1:31).

Eu demorei para enxergar a beleza e a importância da criatividade humana. Embora eu mesmo tenha alguns dons artísticos (desenhar é um deles; projetar ambientes belos e funcionais, outro), nas fases iniciais da minha vida era muito resistente a leituras ficcionais. Pensava ser perda de tempo. Algo assim: “Preciso me ocupar com livros técnicos, científicos, objetivos. Semelhantemente, com atividades práticas da mesma espécie, que me levem a ser mais produtivo, profissional, eficiente”. Em outras palavras, quase caí na cilada de me tornar APENAS UM DENTE NA ENGRENAGEM (escrito 064), esquecendo-me que minha essência é ser parte de um corpo, não de uma máquina. Até que me deparei, anos atrás, com um texto que falava da importância da literatura como arte, em suas várias formas de expressão: poesia, crônicas, aventuras, fantasia, ficção, etc.

Aquele texto está num capítulo de algum dos muitos livros que tenho em casa. Como costumo grifar as partes que me chamam a atenção, se eu dedicar alguns minutos ali na biblioteca, consigo encontrar. Talvez eu o faça. Se o fizer, reproduzirei aqui neste escrito. Se não reproduzir, é porque não fui atrás. Mas o fato é que fui mesmo convencido da importância da literatura – e não apenas ela – ficcional e fantástica.

Numa história como O Senhor dos Anéis, por exemplo, encontramos uma enormidade de informações e expressões humanas da mais alta complexidade, profundidade e importância. Filosofia. Teologia. Sociologia. História. Porque não podemos simplesmente tomar uma folha em branco (como antigamente), ou um arquivo em branco (como agora, neste escrito), sem acessar – conscientemente ou não – todo o depósito que temos dentro de nós. Ao abrir Hamlet com um “Ser ou não ser, eis a questão”, Shakespeare trouxe à baila uma das indagações humanas essenciais, sendo ainda hoje – e o será para sempre (provavelmente) – lembrado, estudado, revisitado. Cá pelos trópicos, ao primeiro contato do cinzel com as pedras-sabão que dariam vida aos Doze Profetas, em Congonhas/MG, Antônio Francisco Lisboa, mais conhecido como Aleijadinho, não o fez de forma atabalhoada, caótica. Ele precisou acessar séculos e séculos de cultura cristã, referências, mestres anteriores a ele, no intento de expressar visivelmente, fisicamente, literalmente em 3D, algo que fizesse sentido. Não uns bonecões de posto, descartáveis, mas algo que ecoasse pelos séculos. E assim poderíamos falar das grandes catedrais, dos monumentos de todas as culturas, da música clássica – porque o que se toca hoje nas paradas não é música – das esculturas gregas, do Renascimento como um todo, bem como dos milhares e milhares de livros até aqui escritos, os quais, na Eternidade, caso ainda subsistam, pedirei autorização ao Pai para ler. Pois é. Mais uma descoberta sobre mim: eu gostaria muito de ler todos os livros que já foram escritos.

Todo este parêntese para destacar a importância e a beleza da CRIATIVIDADE.

Mas voltemos ao TEMPO.

Tente imaginar como funcionaria um mundo como o representado em O PREÇO DO AMANHÃ. Ricos acumulando mais e mais, virtualmente com acesso à imortalidade, vivendo como se houvesse milhões de amanhãs. Pobres vendendo tempo para poder sobreviver, comer, ter o básico... vivendo como se não houvesse amanhã. Um mercado promíscuo se estabeleceu. Tem partes boas no enredo, outras nem tanto. No geral, o filme é bom. Não vou aprofundar nos spoilers. Veja lá.

E olha só, que interessante, novamente a arte imita a vida...

E se eu te disser que no seu pulso tem um mostrador invisível?! Logicamente, por definição, você não o vê. Mas ele está aí, garanto que está. CONTAGEM REGRESSIVA ROLANDO.

Diferentemente do marcador do filme, que permitia créditos ou débitos de tempo, no seu (meu, nosso) tem apenas saída. Uma ampulheta invisível, com sua minúscula passagem para os grãos de areia. Só que você não conhece o tamanho da sua. Pode ser pequenina como um saleiro, resultando que ainda hoje você pode estar na horizontal. Ou gigante como um grande silo para grãos, o que em nossa alegoria equivale a muitos anos pela frente. Ou qualquer recipiente intermediário, entre o saleiro e o silo, equivalentes a dias, semanas ou meses restantes. Qual o tamanho da sua ampulheta? Quais números se lê no seu marcador invisível? Você não sabe, né...

Pois é. É assim que vivemos. Não nos foi dado conhecer o tempo restante. Só o Senhor tem o preciso registro da nossa existência.

“Os teus olhos viram o meu embrião; todos os dias determinados para mim foram escritos no teu livro antes de qualquer deles existir” (Salmo 139:16).

O Deus Todo Poderoso tem à sua frente os bilhões de marcadores de todas as pessoas que passaram, os das que estão vivas agora, e ainda as ampulhetas de todas as pessoas que passarão pela Terra. E de todas elas, simultaneamente, precisamente, conhece cada dígito, a conta exata dos grãos de areia que há no frasquinho de sal ou no silo gigante de cada uma. Entende agora o que é ONISCIÊNCIA? Fosse “só” isso, Ele já seria um Deus tremendo! Mas de quebra Ele ainda é ONIPRESENTE e ONIPOTENTE. O Deus dos deuses. O Senhor dos senhores.

Mas tranquilo, de boa, não se aflija. Essa montoeira de marcadores não precisa tirar seu sono. Você deve ocupar-se apenas com o seu. Ocupar-se. Não preocupar-se.

“Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário? Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas? E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura? E, quanto ao vestuário, por que andais ansiosos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé? Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos? Porque todas estas coisas os gentios procuram. Decerto vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas. Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu próprio mal. (Mateus 6:25-34)


E assim, finalmente, chegamos ao ponto central deste escrito. A pergunta é: DEUS É ANSIOSO? DEUS TERIA ALGUMA QUESTÃO MAL RESOLVIDA COM O TEMPO? Porque tempo e ansiedade estão na mesma equação. Percebe? Poderia a ansiedade ser uma característica encontrada no Príncipe da Paz? Característica essa (ou atributo) replicada em nós, feitos à sua imagem e semelhança? Meditar implica em fazer perguntas. Lembra?: Ser ou não ser?...

Cá comigo, não creio. Trago a firme convicção de que a ansiedade entrou no homem com o pecado, após a desobediência e a queda. Assunto que poderemos abordar muito mais profundamente em escrito futuro. Por ora, quero apenas registrar minha convicção. Sei que há situações clínicas. Sei também que há muito estudo sobre isso, compreensões já firmadas, e muitas coisas por se desvendar no tema ansiedade. E eu, especialista que não sou, nem de longe quero vir falar categoricamente sobre o que não estudei. Entretanto, cá comigo, com as minhas firmes convicções, e destacando que isso se baseia num olhar integral com base na Palavra, creio mesmo que a ansiedade nunca foi plano de Deus para seus filhos. Os primeiros pais caíram em ansiedade; igualmente Abraão, Davi, Pedro e tantos outros. Mas você poderia apontar algum traço de ansiedade em Jesus? Não. E eu sei a razão. Porque ele não teve pecado. Ele lidava muito bem com o tempo. Embora tenha assumido a forma de homem, foi em tudo tentado, e em tudo prevaleceu. Já os discípulos, lembra?! Já estavam lá discutindo entre si quem iria sentar-se à direita e à esquerda do Senhor quando implantasse seu Reino, quando nem tinham começado suas missões específicas. Olhos nos tronos... no tempo errado. Queriam a glória antes da cruz. Ansiosos. Desejando os dias futuros, gloriosos, quando o que realmente existia era (é!) o dia que se chama hoje.

Beleza, Fer. Falou, falou, falou, mas e aí? Qual é o lance?

O lance é o seguinte. Tenho três coisas por falar sobre o tempo:

1) Não conhecemos nosso tempo, os dígitos no marcador, ou o volume de areia em nossa ampulheta. Daí que é nosso dever viver cada dia da forma mais excelente, o mais intensamente possível, gerando sorrisos na face do Senhor, porque cada dia pode ser o último. VIVER COMO SE NÃO HOUVESSE AMANHÃ, expressão que eventualmente ouço por aí, tem sido tomada como se jogar com tudo na vida, esmerilhar, agir de forma intensa e até perigosa, porque “se pode não haver amanhã, então tenho que aproveitar tudo hoje”. Perigo. Perigo. Não é assim. Viver como se não houvesse amanhã é simplesmente encarar o fato de que essa é a mais pura verdade. Ninguém pode garantir para si mesmo o dia de amanhã – e temos base bíblica para afirmá-lo– mas apenas viver o hoje, que efetivamente existe;

2) Se, por hipótese, te fosse dado conhecer exatamente seu tempo de vida restante, e isso gerasse em você um desespero tal que o fizesse alterar drasticamente a forma como vive agora, nem preciso te dizer que a forma atual tem problemas. Porque se fosse boa, por que alterá-la, ante a singela notícia de que você está em sua ÚLTIMA HORA de vida? Notei esta atitude em pessoas bem mais velhas, lá com seus setenta e poucos, oitenta e tantos anos. Vislumbrando a horizontal, bate um senso de urgência em mudar coisas, dizer palavras, fazer consertos... quando tanto tempo já passou. Anos ou décadas antes poderiam ter feito tudo, mas foram levando, empurrando, na certeza de que o fim estava bem distante. Projetos são desengavetados no crepúsculo da vida, quando o sol está por se por. Pense nisto. Não viva como se houvesse muitos amanhãs para resolver as coisas. Eles podem realmente não chegar;

3) Internalize com todas as suas forças os princípios contidos no texto de Mateus 6, dando assim um novo significado aos seus dias, ao seu tempo. O BASTA A CADA DIA O SEU PRÓPRIO MAL é libertador. Libertador de quê? Especialmente da famigerada ansiedade. Eu tenho na agenda, para amanhã, pelo menos uma dúzia de itens. Anotei tudo. Tenho os recursos e as informações para encarar todos eles. Os horários foram organizados. Tudo bonitinho. Só que eu só vou olhar a agenda de 21/03 amanhã bem cedo, pelas 5h e pouco, ou 6h e pouco, quando eu despertar. Nada daquilo eu posso fazer hoje. Quando muito – e raramente eu faço – uma checada hoje. Mas ocupar-me com aquilo tudo, ficar pensando, perder o sono? Jamais. A agenda de hoje ainda está acontecendo, e poderá restar comprometida, se eu tolamente tentar misturar no tempo dela as coisas que devem ter seu tempo apenas amanhã. A não-ansiedade tem a ver com isto: viver um dia por vez, a única forma possível. Não perca seu tempo com o amanhã que pode (e pode) não chegar. Também não perca seu tempo batendo na madeira ao ler isto, pois essas batidas não desaceleram o mostrador, muito menos fazem parar os grãos de areia na sua ampulheta.

domingo, 13 de março de 2022

078 A PRIMEIRA PEDRA

Poucas vezes puxei nos Escritos Aleatórios um tema do momento, a notícia do dia ou semana. Embora muitos deles possam ser classificados como crônicas, eu não os encaro assim. Também não são um diário ou semanário. Eles são algo que cedo ou tarde conseguirei encaixar numa classificação, embora fazê-lo não me pareça importante.

Pois bem, última vez – talvez única – que embasei um texto aqui em notícia fresca, foi no 063 NADA ACONTECEU. Na oportunidade, meados de 2021, circulou a informação de que uma espécie de pica-pau fora declarada tecnicamente extinta, pois seu último avistamento na natureza ocorrera há aproximadamente 80 anos. Depois disso, nada. O de hoje, baseia-se num acontecimento de dias atrás – pelos finais de fevereiro e início de março/2022. Não mencionarei nomes, pois tenho por hábito só fazê-lo quando as palavras sobre a pessoa forem positivas. Vou me limitar aos fatos veiculados. Se eles forem suficientes para a identificação da pessoa, então é porque foram fatos relevantes e de grande alcance.

Pandemia global em curso. Invasão da Ucrânia pela Rússia em curso. Eleições no Brasil dentro de poucos meses. Um bom número de outros fatos importantes acontecendo no Brasil e no mundo. Mas o que movimentou o noticiário nos últimos dias, tanto nos veículos tradicionais de imprensa, como também nos canais mais recentes e tecnológicos, foram alguns áudios enviados por um deputado estadual de São Paulo num grupo de whatsapp. Áudios muito ruins.

“Eita! Só isso, Fer?!”. “Áudios muito ruins???”. “Bora adjetivar mais isso aí, colocando uns inflamados HORRÍVEIS, ODIOSOS, REPUGNANTES, ESCROTOS, MACHISTAS... etc, etc, etc na frase!”. Não, amiguinho. O texto é meu. A boca é minha. Eu falo do meu jeito. E minha opção é dizer ÁUDIOS MUITO RUINS, sem dobrar-me à obrigação quase imposta pela grande massa de adjetivar como todo mundo faz. Eu tenho minhas próprias impressões. Eu tive minha própria resposta interior, quando ouvi aquelas falas, e a forma como decido me expressar sobre elas é exatamente esta: MUITO RUINS. Porque tem disso agora, caso você ainda não tenha percebido: há uma vigilância sobre as manifestações, sobre as palavras que não se pode usar, e sobre algumas que se deve usar. A patrulha, sempre alerta. A patrulha, sempre pronta para cancelar quem fala as palavras proibidas, ou exaltar quem usa as palavras obrigatórias. Não, obrigado. Eu falo do meu jeito.

Pois bem. O resumo do resumo é que o deputado falou palavras muito ruins sobre as mulheres ucranianas, refugiadas, vulneráveis, com seu país sendo atacado numa guerra. Para seu azar, o deputado o fez nas proximidades do 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Claro, em qualquer tempo seriam palavras muito ruins, mas o contexto conseguiu piorá-las.

O que se seguiu, foi que os áudios enviados no grupo de “amigos” vazaram. E nestes nossos tempos, a velocidade de disseminação é impressionante. Dentro de poucas horas já alcançavam milhões de olhos e ouvidos. Mais ou menos assim: se até eu (Fer) fiquei sabendo, é porque foi uma notícia de razoável para grande alcance, pois sou – por opção – bastante desligado da TV e das notícias do momento. Procuro selecionar bem meus canais informativos e acessá-los no meu tempo; então, se algo sobre os áudios chegou até mim, é porque a notícia caminhou bastante.

Sabe o que fiz? Eu não ouvi de imediato os áudios muito ruins do tal deputado. Cedo ou tarde eu chegaria até eles – e cheguei – mas num primeiro momento dei mais atenção às reações das pessoas, dos veículos de comunicação e dos influenciadores. Aquela “sede de sangue”, a necessidade de ver o cadáver estraçalhado, a imagem embaraçosa, ouvir o áudio explosivo, e coisas do tipo, não tem a ver comigo. Não. Não se trata de fechar os olhos para a realidade. Trata-se de manter meu poder de decisão sobre o que entra por meus olhos, ouvidos, ou por qualquer outro meio.

Eu imaginava, a partir das dezenas de reações que vi, que os áudios seriam mesmo muito ruins. Quando os ouvi, uns 10 dias depois da divulgação, pude confirmar que sim. Àquela altura, eu poderia encher uma página deste escrito com os adjetivos usados pelo pessoal. Todo mundo bateu sem dó.

“Hummm... cheiro de que você vai defender o cara, Fer...”

Não. Não vou defendê-lo.

Ele falou, agora ele que se explique, que se defenda, que se desculpe. É a colheita dele. E não sou advogado. Meu bacharelado em Direito não me habilita automaticamente para a advocacia. Tem um exame da OAB neste sanduíche, entre a colação de grau e o número de registro na carteirinha. Número que não possuo, por sinal. Tchanããã, e assim você finalmente descobre que não sou advogado.

Não vou defendê-lo. Também não vou acusá-lo. Para uma e outra tarefas tem gente de sobra por aí.

Mas, enfim, por que então abordar este tema, se não é para acusar ou defender o deputado que falou coisas muito ruins sobre as mulheres ucranianas? Simples. Porque desejo puxar este fato, esta notícia fresca, para falar não dele, mas da multidão.

Cena parecida foi vista uns 2 milênios atrás:

“E os escribas e fariseus trouxeram-lhe uma mulher apanhada em adultério. E, pondo-a no meio, disseram-lhe: Mestre, esta mulher foi apanhada, no próprio ato, adulterando. E na lei nos mandou Moisés que as tais sejam apedrejadas. Tu, pois, que dizes? Isto diziam eles, tentando-o, para que tivessem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia com os dedos na terra. E, como insistissem, perguntando-lhe, endireitou-se e disse-lhes: Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela. E, tornando a inclinar-se, escrevia na terra. Quando ouviram isto, redarguidos da consciência, saíram um a um, a começar pelos mais velhos até os últimos. Ficou só Jesus e a mulher que estava no meio” (João 8:1-9)

Xeque Mate! A multidão não esperava por essa. De uma hora para outra desfez-se a jogada perfeita para acabar com o filho do carpinteiro José e de Maria. Não funcionou. A lei os encheu de coragem para pegar em pedras com toda força. A consciência dos próprios pecados fez seus dedos ficarem molinhos de vergonha. As pedras esquentaram nas mãos. Não tinham como prosseguir com a jogada perfeita.

“Aaaah, então Jesus foi um passapanista! Fez vista grossa para o pecado”. Não. Não foi isto que ocorreu. Ele não fez vista grossa. Apenas, antes de tratar com a mulher, tratou com a multidão. Mas ele jamais perderia aquela oportunidade de trazer uma ovelha perdida para o lugar certo. Afinal, Jesus é o BOM PASTOR (escrito 048):

“E, endireitando-se Jesus, e não vendo ninguém mais do que a mulher, disse-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? E ela disse: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais” (João 8:10-11).

Que MESTRE perfeito! Que DICIPLINADOR perfeito! Que AMOR perfeito! Jesus fez tudo esplendidamente bem nessa passagem. E olha, nenhuma surpresa! Ele fez tudo certo, todo o tempo, com todos. Sempre esplendidamente bem.

O que eu diria ao deputado que falou palavras muito ruins sobre as mulheres ucranianas, é: “Arrependa-se! Não diga mais coisas como aquelas. Mude o seu olhar, mude seu linguajar, mude suas atitudes. Se você não sabe como fazê-lo, creia-me que o Caminho é Jesus. Qualquer tentativa sua de tornar-se um cara melhor, repensar a vida, etc e tal – como vi/ouvi em declarações suas, posteriores ao escândalo – estão fadadas ao fracasso. A verdade do seu coração continuará sendo exatamente aquela que as palavras ruins expuseram, por mais que consiga maquiar, como vinha fazendo muito bem até aqui. Mas não queira ser um túmulo caiado. Não passe tinta nova sobre uma parede arruinada. Vai cair. Sem Jesus e mudança real, vai cair”.

Quanto à multidão de agora, trata-se da mesma de décadas, séculos e milênios atrás. Agarrados nas pedras. Loucos para abrir crânios com elas. Mas alguém tem condições de fazê-lo?

A resposta é bem simples, a mesma de sempre: AQUELE QUE DENTRE VÓS ESTÁ SEM PECADO SEJA O PRIMEIRO QUE ATIRE A PEDRA.

Minhas mãos estão vazias.

Um excelente restante de domingo pra você!

quarta-feira, 2 de março de 2022

077 ESTÁTUAS DE SAL

Alguns anos atrás tive contato com uma história bem peculiar, mencionada pelo Pastor Luciano Subirá. Salvo engano, ele não estava presente no fato, mas teve conhecimento em conversa com algum de seus amigos pastores.

É dada a palavra para que uma pessoa conte seu testemunho, cena bastante comum nas igrejas de linha pentecostal, e mais rara nas tradicionais. E quando se fala, então, em cultos transmitidos pela TV, não pode faltar; é um dos carros-chefe da programação. Então o rapaz recebe o microfone e começa a discorrer sobre seu passado de pecados, dando vários detalhes: “Eu fazia isso, eu fazia aquilo, meu carro era tal, saía com uma mulher diferente por dia, era temido, e pá, pá, pa...”, até que no meio do testemunho (ou tristemunho) ele para, respira fundo, dá aquela olhada perdida no vazio, suspirando em voz alta o que se passava no coração: “AOOOOOW TEMPINHO BOM!!!”

Ixi, deu ruim! O pastor, mais que correndo, manda cortar o som do microfone, agiliza a retirada do irmão lá do púlpito, e de alguma forma tenta administrar a saia-justa causada pela fala inapropriada. E o pior, é que só teve a parte triste da história, pois não houve tempo para que o rapaz discorresse sobre a nova vida em Jesus, que ele vinha experimentando desde que “deixou para trás” aquele tempinho bom.

Vigorasse ainda a ordenança dada para quando Ló e sua casa saíram de Sodoma, o irmão do testemunho agora seria uma estátua de sal. Sentiu saudades do que não deveria. Olhou para trás. Deu ruim!


Pois bem. Esta seria aquela parte do texto onde eu escrevo que “devemos olhar só para frente, passos firmes avante, sem um pingo de saudades do que passou”, etc, etc, etc. É a coisa certa. É o texto certo. Mas, e quando, mesmo sabendo o que é certo e melhor, tem lá no fundo um sentimento inapropriado de saudades pelo que não deveria?! Isso ocorre contigo? Como lidar com isso? Significa que não somos de Jesus? Meu Novo Nascimento foi fake? É possível que pessoas verdadeiramente de Deus sintam-se tentadas a essas espiadelas e suspiros pela vida que deixaram?

Convido você a pensar comigo a respeito.

A Palavra do Senhor diz em Lucas 9:62 que “Ninguém que lança mão do arado e olha para trás é apto para o Reino de Deus”. São palavras do próprio Cristo.

Então me lembro que 3 décadas atrás, pelos idos de 1992, eu tive meu encontro real com o Senhor. Fato mencionado no escrito 033 PALAVRAS, sobre minha descoberta das Escrituras, o início do meu amor pela Bíblia, e como no processo de sua leitura eu entreguei meu coração a Jesus. Foi tão especial. O Fernando de 15 anos tendo seu coração ganho pela Palavra.

Assim, podemos concluir que desde então houve uma mudança de direção na minha vida. Um novo caminho. O Caminho. Assim era chamado o Cristianismo nos tempos da Igreja Primitiva. Ou seja, conheci a Jesus, entreguei minha vida a Ele, rolou o novo nascimento, e assim eu começava a trilhar seus passos. Lancei mão do arado.

Passados 30 anos, seria maravilhoso poder dizer que tudo correu perfeitamente bem: sem pecados; sem vacilos; sem olhadelas para trás; também alguns retrocessos importantes – que já chamei em escritos anteriores de UMA VIDA DE CHIQUEIRO. Pois é, quisera eu ter este testemunho lindo para compartilhar aqui, mas não foi bem assim. Eu conheci a Jesus, eu o amei (e amo), eu comecei a trilhar O Caminho, mas em algumas oportunidades olhei para trás. Ferrou! Estátua de Sal no rolê.

Penso que o texto-base deste escrito (Lucas 9:62) tenha uma dupla finalidade: a primeira, um chamado à firmeza de propósito; a segunda, menos evidente, comunicar que o "olhar para trás" pode ocorrer na vida de alguns, com graves consequências. Pode, mas não deve. Pela segunda, escancara-se nossa inaptidão, sempre que acreditarmos na força do nosso braço para mantermos firme o arado em mão. O fato é que não temos condições de concluir a caminhada sozinhos. Sem chance. Sem Ele, nada podemos fazer (João 15:5). Vem-me à mente agora, em qualquer fase desses 30 anos passados, quantas vezes disse a mim mesmo “isso eu não faço mais”, “tal coisa não tem mais lugar na minha vida”, “daqui pra frente será assim e tal”, para admitir que falhei miseravelmente em todas elas, quando essas declarações sustentaram-se na minha própria força de vontade. Você leva bem um dia, dois, talvez semanas, mas cai. Sem o Espírito Santo te ajudando... cai. Sozinho, cai. Não se engane.

A conclusão, portanto, é que não sou apto para o Reino de Deus? É correto dizê-lo? Então, é correto sim, mas há espaço para pensarmos mais fundo. Vamos além da superfície, para melhor compreender. 

Eu não sou apto, mas Ele me habilita. Eu sou responsável por manter-me no rumo certo, mas sozinho não consigo. O que precisamos ter em mente TODOS OS DIAS da nossa vida, é que Ele deseja andar conosco. Não se trata de ter um encontro com o Senhor no Novo Nascimento, e um segundo momento com Ele no Grande Julgamento. Não, não. De jeito nenhum. Nos muitos - ou poucos dias - entre esses dois eventos importantíssimos, o Espírito Santo deseja caminhar conosco. Dizer isto parece óbvio, mas por vezes precisamos ser lembrados do óbvio, senão olhamos para trás.

O Senhor, mais do que eu mesmo, deseja me ver em pé no final da caminhada. Seguramente, a frase mais importante que eu poderei ouvir em toda a minha vida, é a mesma que Ele mais deseja verbalizar: “Servo bom e fiel, entra no gozo do teu Senhor” (Mateus 25:23).

Vem-me à mente a história do povo de Israel no deserto. Tirados do Egito em meio a sinais e maravilhas (escrito 041), com cenas que os melhores estúdios computadorizados de hoje não poderiam reproduzir, não tardou para que olhassem para trás. “Pois que melhor nos fora servir aos egípcios, do que morrermos no deserto” (Êxodo 14:12); “E os filhos de Israel disseram-lhe: quem dera tivéssemos morrido por mão do Senhor na terra do Egito, quando estávamos sentados junto às panelas de carne, quando comíamos pão até fartar! (Êxodo 16:3); “E não havia água para a congregação; então se reuniram contra Moisés e Arão. E o povo contendeu com Moisés, dizendo: quem dera tivéssemos perecido quando pereceram nossos irmãos perante o Senhor! E por que trouxestes a congregação do Senhor a este deserto, para que morramos aqui, nós e os nossos animais? E por que nos fizestes subir do Egito, para nos trazer a este lugar mau? Lugar onde não há semente, nem de figos, nem de vides, nem de romãs, nem tem água para beber. (Números 20:2-5); “Mas vendo o povo que Moisés tardava em descer do monte, acercou-se de Arão, e disse-lhe: levanta-te, faze-nos deuses, que vão adiante de nós; porque quanto a este Moisés, o homem que nos tirou da terra do Egito, não sabemos o que lhe sucedeu” (Êxodo 32:1). Mais exemplos das revoltas e rebeldias do povo poderiam ser colacionados aqui, enchendo páginas e páginas.

Diante desses relatos, indignamo-nos: “Como podem eles ter visto tantas coisas extraordinárias e ainda assim olharem para trás?!”. Fácil ser juiz, né?! Mas o fato é que nós somos eles. Eventualmente, fazemos o mesmo que eles. A natureza caída deles continua sendo a nossa. Sem Deus eles nada podiam fazer, como hoje (século XXI) continuamos nada podendo fazer. Sozinhos, não tinham aptidão alguma para atravessar o deserto e chegarem à Terra Prometida. Sozinhos, encontramo-nos tão inaptos quanto eles, mas agora para concluirmos o Caminho Estreito e termos acesso à Casa do Pai.

A grande verdade é que não somos aptos. Entenda isso! Sem Ele, nada podemos fazer.

Mas a Graça do Senhor se manifesta hoje, como se manifestou no deserto. Suas misericórdias, que não tem fim, renovam-se a cada manhã (Lamentações 3:22-23). Seu desejo não é tragar-nos pela terra que abre sua boca, como na rebelião dos filhos de Corá; nem transformar-nos numa estátua de sal, como a esposa de Ló; tampouco digerir o fujão Jonas no ventre do grande peixe; ou esfregar na face de Pedro suas negações ao amado Jesus. Não, não. Todos, todos, rigorosamente todos inaptos, como inaptos também somos, mas alcançados por sua maravilhosa Graça, ainda disponível... até que Ele volte. Uma hora a Graça findará, você sabia disto? Mas ainda estamos neste tempo propício. Ainda é possível voltar ao rumo certo. Qual seu posicionamento? (Escrito 047).


Sim, sim. Para minha vergonha, nesses 30 anos de caminhada eu já olhei para trás. Fosse um tempo em que as misericórdias do Senhor não mais estivessem disponíveis, eu já seria uma estátua de sal à beira do caminho; ou um walkin dead de sal no caminho largo, rumo à perdição eterna. Eu tenho plena consciência da minha inaptidão para cumprir a jornada... sozinho. Só que a boa nova é que Ele não tem prazer na morte. Ele deseja a vida para todos. “Os céus e a terra ponho por testemunhas contra vós, de que tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência (Deuteronômio 30:19). Traduzindo: sim, a Graça e as Misericórdias do Senhor estão pulando de alegria para te tocar, mas elas só o farão se você (eu, todos nós) se arrepender dos maus cominhos, tirar os olhos daquela espiadela para trás, voltá-los para o alvo, e seguir na direção correta. Fora disso, você (eu, todos nós) está fora. O Deus de Amor, é o mesmo Deus de Justiça, e Ele é tão perfeitamente amoroso quanto perfeitamente justo. Não espere um final feliz, se você (eu, todos nós) continuar num caminho infeliz. Não vai dar tudo certo, invariavelmente, qualquer que seja seu posicionamento. Posicionamento bom, final legal; posicionamento mau, final ruim. Eternamente.

E assim, com essa reflexão, inauguramos a temporada 2022 dos Escritos Aleatórios. Trazendo a lembrança de nossa inaptidão, bem como a deliciosa notícia de que o Senhor nos habilita, e o entendimento de que está em nossas mãos – ou nosso pescoço – continuar ou não olhando para trás. Aliás, falando em pescoço, acho que você (eu, todos nós) tem apreço pelo seu, então sabemos o que fazer.

Bora seguirmos firmes no Caminho Estreito em 2022?!

Bora?

Boro!

082 PALAVRAS AO VENTO

Uns dois ou três dias atrás fiz algo que há muito tempo abandonei. Numa rede social, após ver a postagem que me chamou a atenção – de temáti...