sexta-feira, 2 de abril de 2021

003 RECOMEÇAR

Recomeçar. Refazer. Renovar. Reciclar...

O prefixo “re”, de origem latina, pode ter três sentidos: repetição (como em repensar), reforço (revirar), ou retrocesso (reiniciar).

 

O “re” não tem vida própria. Você não o encontra isolado na fala ou texto, autonomamente, mas sempre grudado em alguém – com ou sem hífen, conforme as novas regras gramaticais que não decorei –, agregando algum daqueles sentidos à palavra original.

 

Começar algo, o que quer que seja, não é fácil.

 

Um texto como este, com suas mil e poucas palavras, pode te passar a impressão de que fluiu como a água que desce. Às vezes sim. Normalmente, não. Via de regra, é como carregar água morro acima. De antemão, nunca sei como será. Depois que começa, vai de boa, flui mesmo, é animador. O miolo é como agregar argila numa peça entre as mãos, assim como faz um oleiro. Depois ele a refina, retira excessos. A finalização do texto é demorada, mas razoavelmente simples; consiste na correção de detalhes e preenchimento de fissuras, a verdadeira lapidação do barro. De repente temos forma, função, beleza, algo concreto e apreciável. Basta então colocar no fogo (submeter à crítica) e podemos, enfim, ter fina peça em mão. É assim que eu escrevo.

 

A parte difícil, difícil mesmo, está no começo. O ato criativo por excelência: imaginar a peça, do zero, do nada. De alguma forma a coisa acontece. A imaginação ganha asas, vai-se tateando no escuro, até que se encontra uma linha. Sorrimos. “Vai dar bom!”. Mas de repente, não mais que de repente – como disse certa vez um oleiro muito melhor escritor do que eu –, algo não sai bem, a coisa desanda. Novamente uma massa informe em meio às mãos. Estaca zero. Todo o trabalho criativo inicial, o enchimento seguinte e, por fim, a lapidação que te deu vislumbres de forma final, perdem-se de uma hora para outra. Você retrocede ao início. Será preciso recomeçar.

 

Recomeçar encaixa-se no terceiro daqueles sentidos falados: retrocesso. Implica numa perda. E se começar não é fácil, como dito, recomeçar é muito pior. Porque além de todas as já sabidas e experimentadas dificuldades do primeiro processo, agregam-se neste segundo o desconforto, o aborrecimento, a frustração, dor, lágrimas... e uma lista enorme de muito mais. Há quem não consiga, justamente pelo peso desses sentimentos adicionais. A pessoa se entrega, joga a toalha. Conversa com seus botões e conclui que não dá conta de fazer tudo de novo. “Como? Por quê? Não consigo mais”.

 

Quem olha de fora, alheio ao peso dos “sentimentos adicionais”, pode achar que é frescura. Diz logo um “Deixe disso, não seja fraco!”. Mal comparando, é o mesmo que dizer para uma pessoa deprimida que magicamente “não sinta o que sente!”. Mas não funciona assim. Nossas emoções nos influenciam sobremaneira. Podemos até reunir os recursos necessários para recomeçar (externamente falando), mas faltar algo do lado de dentro. Algo que nos desanima, trava, prosta; e assim ficamos.

 

Parece-me que o recomeçar, por envolver a perda de todo um investimento inicial (de tempo, recursos, emoções), precisa de um estágio intermediário – “inter-processos” – para finalmente acontecer. Um tipo de luto. Algo estava por existir, mas foi abortado inesperadamente. Algo existia, mas morreu. Sim, eis um elemento importante demais na questão: a compreensão de que algo morreu. De algum modo teremos que lidar com a perplexidade do “E agora?”, o vazio e a tristeza pelo que se foi.

 

Enquanto você lia os parágrafos iniciais, provavelmente associou essas ideias a algo que já perdeu. Uma pessoa. Negócios. Bens. Um sonho quase concretizado. Uma condição confortável que, por circunstâncias alheias à sua vontade, pode ter se modificado completamente; e agora você experimenta grandes restrições. Há vida real neste texto. Ele é para todos.

 

Não apenas a vida morre. Coisas também. Sentimentos morrem. Projetos. E toda morte envolve luto. Ele faz parte do processo de recomeço. É seu-meu-nosso tempo de recolhimento e assimilação da perda, rearrumação do lado de dentro. Sem passar por este tempo, recomeçar fica muito mais difícil. Até este momento da minha existência, poucas pessoas próximas a mim morreram. Já idosas, vidas abundantes. Claro que houve luto, mas a assimilação foi razoavelmente tranquila, pelos contextos. Imagino o que deva ser o luto decorrente de uma morte inesperada, precoce. Uma criança, um jovem. Não, na verdade eu não consigo imaginar.

 

Mas já experimentei outros tipos de mortes: coisas, negócios, bens, sonhos, relacionamentos. É diferente do luto por uma vida que se foi, claro. Totalmente. Mas, à sua maneira, essas outras perdas geraram em mim a perplexidade, o olhar vazio voltado para o nada, a frustração do tempo anteriormente investido... e agora perdido. Sempre é difícil. Sendo sincero, digo que tem coisas que morreram na minha vida e consegui recomeçar mais facilmente. Outras estou ainda num processo de assimilação e luto pela perda. E tem umas terceiras que fico a imaginar se conseguirei encarar novo processo.

 

Um texto com o título “Recomeçar”, talvez gerasse a expectativa de uma mensagem positiva, motivacional, do tipo “Vamos lá, bola pra frente!”, ou “Segura na mão de Deus e vai!”. Ok, super válido. É bom dizer coisas assim. Mas também é válido lembrar que não é fácil recomeçar. Que se você está neste tempo de luto e ainda não consegue reunir forças para se mover de novo, não há necessariamente um problema. Talvez a validade deste escrito esteja em te dizer para ficar onde está, como está, e chorar o que precisa ser chorado. Tenha seu luto, processe, assimile. Não somos super. Chorar é humano. Existe dor na vida.

 

O importante detalhe – e aí vem a boa nova – é que se o luto precisa acontecer entre o primeiro e o segundo processos, ele também tem que findar. O luto não pode ser longo demais, muito menos eterno. A única forma possível de viver é um dia por vez. Assim como aquele começo, ora perdido, precisou de muitos dias e recursos (internos e externos) para existir, o novo começo, o recomeço também precisará. Talvez nossa dificuldade em recomeços esteja justamente no fato de desejarmos que aquela perda não tivesse acontecido, para na manhã seguinte tudo ser como antes. A má notícia é que não será assim. A boa é que pode e vai se ajeitar, mas dá trabalho, leva tempo e é difícil.

 

Agora que você foi lembrado disso, recomece. Um dia por vez.

 

Ah, ia me esquecendo: sim, segurar nas mãos de Deus vai ajudar, e muito! Afinal, ele é o maior especialista em recomeços. O Oleiro dos oleiros.

Um comentário:

  1. Mensagem real. Fiz uma reflexão interior sobre meus recomeços, me vi no texto.

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