sábado, 29 de maio de 2021

025 O EX-POLEMISTA

Já que no estádio civilizatório em que nos encontramos, não cabem arenas para resolvermos fisicamente nossas tretas, os grandes duelos migraram para o campo da fala. Como já comentei nalgum escrito anterior, sou totalmente anti-violência física, ao ponto de nunca em toda a minha vida ter desferido ou sofrido uma agressão. Não que não haja uma base para tanto, se for necessário; não que já não tenhamos tido uns bons treinos de boxe e muay thai. Se o bicho pegar, a gente se vira. Mas o fato é que o ato de agredir é para mim extremo, sempre e sempre um último recurso. Jamais um ponto de partida. Um empurrão pode constituir-se em agressão. Neste mundo louco, pode até resultar na expulsão de uma celebridade num reality show. Por 1 milhão e meio, qualquer resvalão vira voadora...

Não, o tema principal deste escrito não serão as agressões físicas. Sim, abordaremos tangencialmente, mas o foco mesmo estará nas agressões de outra natureza: verbal/psicológica.

Quando morei em Curitiba (maio/2013 a maio 2014), naqueles treze meses eu estreitei a convivência com um precioso amigo: Marcelo Bomfim. Um cara que eu conhecera pouco antes, creio que em 2010 ou 2011, e de quem não gostei muito no início. Ele veio de Curitiba a Maringá para ministrar na igreja num fim de semana, e a certa altura na reunião de jovens, enquanto ele cantava e tocava teclado, eu me encontrava bem fechado. Azedo aquele dia. Não me lembro por qual razão, mas eu não queria estar lá, e para o azedume ficar completo, me aparece um cara que durante a ministração fica interagindo com os presentes naquele jeito que eu “adoro”: “Olhe para a pessoa que está ao seu lado e diga tal coisa...”, “Saia do seu lugar e cumprimente pelo menos 5 pessoas...”. Putz, eu quase saio do salão nessas horas. E o legalzão do Marcelo só fazia mandar uma dessa atrás da outra. Até que em algum momento o próprio desce lá do tablado e vai pro meio da geral, para também interagir. Veio justamente até mim. Eu sorri amarelo, cumprimentei com “a paz do Senhor”, dei um abraço de porco-espinho e só queria sair logo dali. Peguei aversão na hora. Isso foi num sábado.

Manhã de domingo, tradicional almoço na casa da Dona Mirian (minha mãe), e quem é o convidado especial do dia? Marcelo Bomfim. O próprio. Putz, de novo! Justo o cara. Mas beleza, colocamos o mesmo sorriso amarelo da noite anterior e bora sobrevier àquela hora, hora e meia à mesa. Conversa vai, conversa vem, fui vendo que o cara não era assim tão chato. Na verdade, uma figura, engraçado, e a coisa toda foi melhorando. Até que chegou o ponto alto das conversas: descobri que ele era filho do saudoso Professor Bomfim, que me deu aulas de História em Cornélio Procópio nos idos de 1989-90. Essa informação mudou por completo meu ânimo, então passei a conversar levemente com o Marcelo. Foram horas muito agradáveis. Naquele final de semana nascia nossa amizade, uma grande amizade.

Ah, a parte engraçadíssima daquele dia foi quando descobrimos que eu tinha sido fã de uma moça da minha igreja, nos mesmos idos de 89-90, que foi namorada dele. “Caaara, seu batedor de carteira! Estava de olho na minha mina”, e ríamos sem parar

Pois bem. Uns anos depois, morando em Curitiba, pude conviver de perto com meu amigo. Ele, sua esposa Josi, e as duas filhas adolescentes (na época, 2013-14) me adotaram. Desde meu primeiro dia na capital, até minha festa de despedida – surpresa, com dezenas de pessoas, às vésperas do meu aniversário de 37 anos – eles me acolheram de uma forma indescritível. Foram minha família. Além disso, o Marcelo era meu discipulador, uma figura automaticamente compreendida por quem é do meio evangélico. Para quem não sabe do que se trata, eu diria resumidamente que é uma pessoa mais experiente que você, e que caminha com você para te auxiliar na sua caminhada, e que acaba sendo ajudada por você também, cedo ou tarde. Uma interação muito positiva.

Tivemos muitas e muitas horas de boas conversas naqueles meus 13 meses em Curitiba. Conselhos, direções, comunhão, papos sérios, mas nunca uma enquadrada forte, daquelas que mais parecem broncas e que você fica até com vergonha. Afinal, eu não era de dar trabalho. Bem, aparentemente eu não dava, até que tempos depois eu vim a conversar com ele sobre algumas coisas não muito legais que eu fiz. Pedi perdão por não ter sido 100% transparente, etc. Algo que não precisamos entrar em detalhes. Nada gravíííííssimo. Mas um compromisso de transparência só se efetiva se você o faz por completo, e eu havia sonegado ao meu discipulador algumas coisas. Então, bora admitir o erro e consertar.

Enfim, vida que seguia por lá, o discipulado rolando, e uma forma que encontramos de tornar o processo muito leve e interessante, foi pedalando juntos. Fosse apenas em dupla, ou também com mais amigos, aquela atividade nos proporcionava um tempo de muita qualidade. Porque na bike, como todo praticante sabe, você consegue unir o esporte a uma excelente interação pessoal, com o bônus de conhecer lugares novos. Semanalmente marcávamos o rolê. Tudo corria assim, até que ao final de um passeio com vários amigos, quando um a um foi ficando nos seus bairros, restamos eu e o Bomfim. Tivemos esse pequeno-grande diálogo:

- Cara, nem acredito que este dia chegou...

- Hum...

- Fer, preciso te dar um puxão de orelha. Tem algo que você faz que não é legal.

- Opa, vamos lá. Diz aí.

- Você tem se perdido no falar. Eu noto que tuas postagens no Facebook são muito agressivas. Quando você entra em tal e tal temas, dá para sentir nos seus textos a raiva. Isso não é legal.

- Certo.

- O que você diz lá, no conteúdo, não é errado. Eu concordo. Mas está se perdendo na forma. Deus não te deu boca para falar com essa agressividade toda.

...eu ouvindo...

- Então, como seu discipulador, preciso chamar sua atenção para que corrija isso. Você não precisa se manifestar sobre tudo. E quando entender que um tema mereça ser falado, fale como Cristo falaria. Não use palavras que entristeceriam o coração de Deus.

- Está certo, mano. Eu reconheço que isso acontece. Vou corrigir.

- Yes, finalmente rolou a bronca no Fer. (risos de ambos)


Não foi exatamente com essas palavras, mas o sentido da prosa não está fora um milímetro da realidade.


Concluímos o pedal. Ele desceu pela Kennedy. Segui para o centro, pensando naquela conversa e já me organizando interiormente para os ajustes que eu faria. Tenho uma característica que gosto: sou ensinável. Tenho opinião, claro. Algumas convicções, claro. E quando encontro base para sustentá-las, não é muito fácil debater comigo. Porque eu defendo, e defendo com força o que eu acredito. Até que eu veja algo que me convença do contrário, gerando em mim uma resposta-mudança praticamente instantânea. Ser ensinável tem a ver com isso. Não é dizer amém para tudo de primeira, só “sim, senhor”, “Ok”, e nunca questionar nada. Mesmo uma pessoa mais experiente pode ter convicções erradas, o que não me obriga a concordar irrefletidamente. Discordar e questionar não me torna um rebelde. Eu questiono sim, mas se uma nova compreensão daquela realidade vem, minha resposta é imediata.


No mesmo dia, a partir daquela conversa e até hoje, o grau de agressividade naquilo que posto caiu muito. Eu era um POLEMISTA. Um plantonista fiscalizador de informações, que adorava contrapor argumentos. Logo postava no perfil das pessoas as minhas opiniões, contrárias às delas, invadindo sem pedir licença um espaço que não era meu. Que coisa feia. Fazia isso e ainda achava que tudo bem. E para ficar completão o ambiente de debates sem fim, eu também postava muito nos meus espaços as minhas opiniões, e pessoas semelhantes a mim vinham invadi-lo com seus argumentos contrários, gerando minha reação, e uma nova dela, num ciclo insano. Que coisa feia de todos.


Até o início de 2019 eu tinha conta no Facebook. Quase não utilizava o Instagram.


No Face, embora já com a agressividade nas palavras sob controle, eu não me furtava de falar sobre tudo. Política, em especial. Acompanhava avidamente os acontecimentos, tirava o print de alguma notícia, e blá blá blá despejar minhas ideias. Rolava alguma influência nas pessoas? Acredito que sim, até onde sei. Pessoas não apenas curtiam, mas também comentavam, e sei que muitas se alinhavam ao “geralzão” do meu pensamento sobre Brasil, política e outras coisas bem complicadas de resolver. Até que um dia fiz uma postagem que repercutiu de uma maneira diferenciada. Postei numa noite, para na manhã seguinte descobrir que havia mais de 2 mil compartilhamentos, com milhares e milhares de mensagens, 50% me chamando de santo, e 50% de demônio. Alguma semelhança com os dias de hoje?


O pior, é que eu me dei ao trabalho de responder a cada uma – cada uma mesmo, 100% - daquelas milhares de mensagens, explicando para a imensa maioria que só leu a manchete e viu as imagens, sem ler o texto completo, ou compreendê-lo minimamente, que elas estavam me xingando por nada. Quem então se deu ao trabalho de ler, ou pediu-me desculpas pelo xingão, ou então soltou um lacônico “Ah, blz. Agora entendi”. Foram aproximadamente 3 dias para a coisa esfriar. Ao final, uma sensação estranha. Aqueles xingamentos todos, gente dizendo que eu era pior do que lixo, um ser desprezível, um cara que nem merecia viver, etc, etc, etc...


Existe um princípio geral, que se aplica a quem crê e a quem não crê: TUDO O QUE O HOMEM SEMEAR, ELE TAMBÉM VAI COLHER. Você pode não gostar dele, mas o princípio existe e acontece do mesmo jeito. Embora eu tivesse feito correções na minha abordagem, e corrigido as pitadas de agressividade, ainda gastava meu tempo como um opinador sem propósito, talvez buscando likes, ou seguidores, ou a gostosa sensação de vencer um debate. Beleza, não era necessariamente errado. Mas, se me aventurei a ficar falando coisas a torto e a direito, cedo ou tarde chegaria a colheita de também ouvir coisas a torto e a direito. Fifty-Fifty. Metade me amando. Metade me odiando. É princípio. Não falha.


Naquela mesma semana eu tomei a decisão de encerrar minha conta no Fabebook. Decidi e executei. Nunca mais olhei para trás, quanto a isso. Deixei um histórico de muitos anos de uso, fotos, contatos, postagens, para um lugar no meu passado de polemista. Automaticamente migrei para o Instagram, cuja conta eu já possuía, mas raramente movimentava. Desde então, nesses pouco mais de 2 anos com maior participação no Insta, pautei-me por um critério: não trazer para cá os erros de lá; mostrar alguns aspectos da minha vida; passatempos; meu amor pelos livros; meu amor pela família; acabou acontecendo nesse mesmo período meu grande envolvimento com a bike, as postagens de pilates – de que tanto zombam alguns amigos meus, bem mal resolvidos na masculinidade rs – e tudo mais que eu tenha a ideia de colocar neste espaço.


Fechei os olhos para a realidade? De forma alguma. Continuo atento aos fatos da vida, às mazelas do país, estou por dentro das coisas. Não como em tempos passados, quando eu corria atrás de todos os detalhes. Hoje eu faço diferente, algo sobre que vou escrever muito em breve. Anoto um pequeno spoiler: você não precisa correr atrás das notícias, porque elas correm desesperadamente atrás de você; o que é realmente importante, ainda que você nunca ligue a TV, vai chegar ao seu conhecimento. Este futuro texto terá o título MEU REFÚGIO MENTAL. Será bem legal.


Caminhando pros finalmentes, hoje eu me considero um EX-POLEMISTA. Aquele gosto de sangue na boca, ao vencer um debate, felizmente não faz mais parte da minha vida. Talvez alguma maturidade tenha se instalado nesta área. Prefiro ter paz, do que mostrar que tenho razão. Porque razão eu normalmente tenho, só não preciso ficar esfregando isso na cara dos outros. Brincadeeeira!!!


“Evite as controvérsias tolas e inúteis, pois você sabe que acabam em brigas. Ao servo do Senhor não convém brigar, mas, sim, ser amável para com todos, apto para ensinar, paciente. Deve corrigir com mansidão aos que se lhe opõem, na esperança de que Deus lhes conceda o arrependimento, levando-os ao conhecimento da verdade, para que assim voltem à sobriedade e escapem da armadilha do diabo, que os aprisionou para fazerem a sua vontade”. (2 Timóteo 2:23-26)


E os anjos dizem amém.

quinta-feira, 27 de maio de 2021

024 O COLAR

Seguia eu com meus afazeres, quando de repente leio um nome: MARIA ANA. Lembrei-me no ato da única Maria Ana que conheci, mas era pouco provável tratar-se da mesma pessoa. Marias há muitas. Anas também. Marianas aos montes. Mas Marias Anas tem poucas. Bem, pelo menos eu só conheci uma até hoje, e mesmo em muitas situações que tive à minha frente listas com nomes, não me recordo de ter visto outra. Dois nomes simples, que normalmente são unidos no mais usual Mariana. Nome que desde bem jovem eu sempre dizia ser o que eu colocaria numa filha minha; com a concordância da esposa, claro.

Curioso, li o nome completo da tal Maria Ana, e lá estava um sobrenome germânico. Pensei: “Há uma chance de ser a Maria Ana que conheço”. Olhei mais, e vi então na cópia do documento pessoal a foto da minha professora de Química de 1992-93. Maria Ana, mas todos a chamavam de Mariana (sem o gap entre os nomes). Germânica, alta, cabelos e pele e olhos bem clarinhos. Séria e ao mesmo tempo cômica, naquele equilíbrio raro de encontrar. Uma moça muito bonita naquele início dos anos 90, como bela ainda se encontrava em 2016, ano da foto mais recente que vi. Sua voz era forte, como devem ser as vozes dos professores que nos marcam. Todos a respeitávamos. Ela tinha um domínio suave sobre aquela sala com pouco mais de 30 alunos de 15 para 16 anos de idade. Primero Ano do Educação Geral. Colégio Estadual Cianorte.

Quem acompanha meus escritos, já deve ter percebido que olho bastante para os fatos da minha juventude. Realmente. Ainda hoje aprendo muita coisa, e fatos importantes me ensinam, mas é na juventude que encontro alguns que marcaram muito, pois geraram determinado aprendizado pela primeira vez. Coisas que hoje nos parecem banais, impactavam muito mais quando tínhamos metade ou um terço da idade.

Com a professora Maria Ana, no início de 1992, aconteceu uma história e um aprendizado envolvendo um COLAR. Vindo do Princesa Izabel, onde quase reprovei na 8ª Séria, agora eu me encontrava no Colégio Estadual Cianorte. Dentre os públicos da cidade, era possivelmente o colégio mais desejado para se conseguir uma vaga. Eu consegui não apenas uma, mas duas vagas. Pela manhã o Educação Geral, e de noite o Curso Técnico de Contabilidade. Os tempos infantis e juvenis ficavam para trás. No Segundo Grau, novas e desafiadoras disciplinas na grade. Dentre elas, Química. A complexa e difícil Química.

O conteúdo daquele primeiro bimestre, de forma alguma eu seria capaz de lembrar. Só sei que era difícil, para mim e para todos. Alunos em pânico quando chegou a data da primeira prova. Nossa sala ficava nos blocos mais afastados, lá próximo ao campo de futebol, quadra de areia e pista de atletismo (de terrão batido). Eu e vários alunos chegamos bem mais cedo. A prova seria no primeiro horário, período da manhã. Cada um foi escolhendo seu lugar, e naturalmente quem chegou primeiro buscou aquelas carteiras de fórmica bem lisinha, num tom esverdeado muito, muito claro. Eram as ideais para anotarmos com lapiseira as fórmulas de Química para colar na prova. Fórmulas impossíveis de decorar. Quiçá aprender.

Todo mundo ali escrevendo com sua melhor e mais diminuta letra, debruçados sobre a carteira, calculando o tamanho ideal que nos permitisse ver, e ao mesmo tempo ser invisível aos olhos da professora Maria Ana. Além do tamanho, tinha que ser bem calibrada a carga de intensidade do grafite, para não ficar nem claro e nem escuro demais. Química prática. O desafio de encontrar as proporções perfeitas. E lá estou eu, praticamente concluindo minhas “anotações”, quando de repente ouço aquela conhecida e forte voz, falando bem baixinho e perto dos meus ouvidos: “Ali onde você colocou + (mais) o correto é – (menos). Se for para colar, pelo menos use a fórmula correta, Fernando”.

Ferrou!!!

Quando sou pego nalgum vergonhoso flagrante, tenho reações muito típicas. Gelo por completo; fico com o rosto vermelho, queimando de vergonha; e não consigo inventar nenhuma desculpa. Eu não me lembro se consegui ou não olhar para a professora Maria Ana. Fiquei paralisado. Ela saiu da posição inclinada que estava, fez que ia adiante, mas parou e inclinou-se novamente, para completar: “Aquela outra fórmula ali também está errada. Corrija”. Então seguiu e foi passando pelas carteiras de cada um daqueles diligentes alunos que comparecerem 30 minutos mais cedo aquele dia. Da mesma forma – com todo mundo congelado e sem reação – ela ia se inclinando e olhando cada cantinho da carteira, encontrando as fórmulas mágicas para o sucesso. Para alguns ela dizia “Hum, este aqui colocou todas as fórmulas corretas. Tem chance de ir bem”. E noutros casos soltava “Achei mais um que escreveu as fórmulas erradas”.

Após aquele pequeno passeio pelas 10 ou 12 carteiras de fórmica clarinha, que durou não mais do que 3 minutos, ela foi até a porta da frente da sala e falou calmamente: “A prova começa daqui a 20 minutos”. E saiu andando até a sala dos professores. Todo mundo ainda em choque, alguns voltando à vida depois da parada respiratória, e nos olhando meio abobados com a situação. Foi quando olhamos para os fundos daquela enorme sala e vimos a porta dos fundos aberta. Porta que nunca era utilizada. Foi por ali que a fantasmagórica Maria Ana surgiu do nada, pegando a todos de surpresa. Bem, o final é fácil imaginar: carteiras limpinhas no instante seguinte, nenhum vestígio de fórmulas (certas ou erradas) para usar na prova, e um festival de notas baixas no primeiro bimestre. Nenhum sermão. Nenhum olhar maquiavélico da professora. Entrou silente, distribuiu as provas, não trocou ninguém de lugar, não passou revisando nenhuma carteira ou bolsa ou borracha ou lápis, foi recebendo as provas e dizendo educados “bons dias” aos seus alunos que acabavam de aprender uma das importantes lições de vida: NÃO VALE A PENA TRAPACEAR.

Foi uma das lições mais eloquentes que aprendi na vida, e sem a necessidade de um decibel a mais na entonação da voz, ou uma enxurrada de argumentos e broncas. Foi muito louco. Ser pego em flagrante é péssimo. Antes desse fato em 92, uns 5 anos antes eu tinha sido pego furtando chocolate no mercado, e acho que as sensações foram parecidas. Só que na história do chocolate rolou mais bronca – com muuuitos decibéis a mais na voz da Dona Mirian – uma bela surra de cinta e um castigo gigante por várias semanas. Falaremos dessa historinha de bandidinho em escritos futuros. O filho do pastor, numa cidade minúscula, sendo pego furtando chocolate. Pensa...

Enfim, a nota ruim do primeiro bimestre foi absorvida e recuperada no restante do ano, e tudo ficou bem. Fechei em Química, bem como em todas as demais matérias, sem ter que colar. Estudando dá certo. Não houve naquele dia do flagrante, e nem posteriormente, nos 2 anos em que fui aluno da Maria Ana, qualquer menção àquela manhã de aprendizado. Era como se não tivesse acontecido. Sim, tinha acontecido, e tinha sido horrível, mas era um assunto desnecessário. Lição viva. Lição que levei, como disse, por todo o restante daquele primeiro ano, e também no segundo, e por fim no terceiro, então como aluno do Colégio Wilson Joffre, em Cascavel/PR. Fui um excelente aluno em todo o Segundo Grau. As notas que estão lá, anotadas nos meus boletins, não são fake. Elas são minhas de verdade. Refletem o aluno que eu era.

Vieram então os vestibulares, nos quais me dei muito bem. Primeiramente para Arquitetura, no início de 95, quando passei entre os primeiros e comecei os estudos na UEL. Após seis meses eu me encontrava novamente em Cascavel, preparando-me para alguns vestibulares em Direito. A história de minha desistência da Arquitetura merece um texto só para si, o que farei noutra oportunidade. Dos 4 vestibulares para Direito, obtive sucesso em 3, vindo então a ser aluno na Universidade Estadual de Maringá, no início de 1996. Um quarto de século atrás. Dito assim, parece tudo tão velho.

Cidade nova, tudo novo, e as coisas caminhavam bem. Primeira prova: Sociologia Jurídica. Eu e todos colamos. Embora fosse discursiva, algum colega prodígio não apenas fez sua prova rapidamente, mas também providenciou umas anotações resumidas que davam o trilho para todas as questões da prova. Esse papelzinho passou por mim, dei aquela olhada marota, relembrei os conteúdos, e passei adiante o veneno. Nota 80, sabida alguns dias depois. Creio que já na semana seguinte.

Assim como me recordo vividamente das sensações daquela manhã de 1992 com a professora Maria Ana, também me lembro do que senti naquela noite de 1996, quando tive acesso ao "meu" 80. Uma sensação de fraude. Colar é errado. É desonesto. Uma daquelas “pequenas e inofensivas corrupções” da vida, que não fazem mal a ninguém... aparentemente. Mas fazem, num aspecto que também não aprofundarei hoje. Mas, hipoteticamente falando, ainda que não causassem um mau diretamente percebido, continuariam sendo erradas. Regras do jogo. Se o combinado foi “você será avaliado quanto aos conteúdos que aprendeu, numa prova sem consulta”, qualquer mínima coisa que seja uma consulta constitui-se em fraude. E fraude é errado.

Eu me senti uma fraude com aquele 80 em mão. Fiquei pensando no tipo de profissional do Direito que eu viria a ser, se minha formação se fundamentasse em notas que não eram minhas, que não refletissem meus reais conhecimentos. Voltei instantaneamente à normalidade, ao aluno leal às regras, e não voltei a colar em todos os demais anos da faculdade, bem como em qualquer outro teste por que passei dali em diante. Isso me custou uma reprovação em Processo Civil no 3º ano. Custou-me também uma reprovação na disciplina Gestão Estratégica, no MBA que fiz de 2011 a 2013. Em ambos os casos, papeizinhos rolando pela sala, com todas as respostas à mão. Não peguei. No caso do Processo Civil, o colega queria quase me obrigar a pegar as respostas, pois sabia que eu não estava bem, e também sabia que isso significava reprovação. Por uma preocupação louvável para comigo, ele insistia, ao que eu por várias vezes recusei. Até que ele balançou a cabeça, naquele sinal silencioso de negativo, meio que dizendo “Tudo bem, você que sabe. Tentei te ajudar”.

Eu não sou perfeito. E o relato acima não visa a me apresentar como o SENHOR DA INTEGRIDADE, o cara modelo a ser seguido. De forma alguma. Eu tenho muitos defeitos e lacunas, e os conheço muito bem. Mas, dentre eles, um que não pode ser lançado em meu rosto é o ser desonesto. Nem nas grandes, nas médias, ou nas pequenas coisas. Se eu não posso consultar, não consulto. Se aquela linha demarca a área permitida, não avanço. Se o assento é azul e há uma placa de preferencial, eu não ocupo aquele lugar. Se o troco veio a mais, devolvo o que não me pertence E os exemplos poderiam brotar às dezenas.

Penso que as pequenas corrupções não têm nada de pequenas. Elas apenas não chocam tanto, ou (aparentemente) geram pouco dano, ou, ou, ou... As justificativas para continuar com elas, até uma criança consegue encontrar, sem que ninguém a ensine. É muito natural deixar-se seduzir por atalhos. Os resultados imediatos parecen “bons”, trazem uma sensação de “tudo certo”. Mas o grande problema é que um abismo chama outro abismo, e de pequena em pequena quebra das regras, nosso caráter vai se acostumando, e se transformando. Consciência anestesiada. Nem mais vê como errado. As pequenas corrupções crescem para médias, até que ficam grandes, e enfim temos um corrupto completo. Um transgressor. Quem sabe bonito. Respeitável. Referência. Alguém que fala de boca cheia, nas rodas de debates, sobre os desprezíveis e corruptos políticos, estes sim a corrupção personificada.

É hipocrisia que fala?

Eu não sei você, mas para mim eu quero um nível mais elevado de integridade. Honestidade total. É minha pequena contribuição para que algumas coisas sejam melhores no amanhã. E ainda que não passe de uma gota limpa no oceano sujo, é o certo.

terça-feira, 25 de maio de 2021

023 R.I.P. FOOTBALL

Domingo próximo passado o São Paulo Futebol Clube sagrou-se campeão do Campeonato Paulista de Futebol, temporada 2021. O conhecido Paulistão. Para os paulistas e para a enorme torcida dos times paulistas, espalhada pelo Brasil, seria o campeonato estadual mais difícil do país. Claro que os cariocas discordam, assim como os mineiros e os gaúchos. Melhor dizendo, os gaúchos não apenas discordam. Eles têm certeza que o Gauchão é o campeonato mais difícil do mundo. E não estou dizendo à toa, especulando sem base. Eu morei lá, 1 ano e meio em Porto Alegre, e te digo que a gauchada tem mesmo esta convicção; no futebol e em muitas outas áreas. Mas tudo bem. Regra número 1 é não ficar discutindo com pessoas convictas demais.

Sou São-paulino, o que significa ser adepto ou torcedor do São Paulo Futebol Clube.

Curioso que sou, fiz algumas pesquisas para um Pequeno Glossários de Coisas Relacionadas a São Paulo. Além do SÃO-PAULINO – que se escreve com hífem – encontrei várias derivações: paulista, paulistano, paulistinha, paulistismo, paulistês, paulistense, paulistaniense, Paulistânia, paulistada... e tinha mais.

Eu sou filho de uma paulista, Dona Mírian. Minha família materna também é toda paulista, e ainda hoje a propriedade rural próxima ao Rio Paranapanema é meu link com o Estado mais rico do país. Todos os meses faço uma pequena visita ao pujante Estado de São Paulo. NON DUCOR, DUCO.

Eu morei no Estado de São Paulo por um curtíssimo período, nos anos de 1987-88. Cidade de Pirapozinho, próxima a Presidente Prudente. Alguns fatos importantes aconteceram em minha vida nesse período, coisas que cedo ou tarde serão abordadas nestes escritos. Um spoilerzinho: meu primeiro beijo, aos 10 anos de idade. Piá precoce, beijão de novela rs. Por essa época, eu tomei conhecimento da existência do futebol. Uns anos antes, na Copa de 1986 (México), uma foto minha e dos meus irmãos em frente à nossa casa em Cianorte, todos trajados com camisetas amarelas, é a mais remota ligação do futebol à minha história. Acho que nem acompanhamos aqueles jogos. Também por aqueles anos, já caminhando para o final dos 80, lembro-me vagamente de ter visto frações de jogos na TV que havia em nossa casa. Jogos do Paulistão. Também eram comuns as transmissões de jogos do Campeonato Carioca, então posso dizer que tive o privilégio de ver o Zico jogar. O Galinho de Ouro. Eu mal entendia o jogo, porque a regra de impedimento complicava tudo. Para mim, desde sempre, e ainda hoje, penso que não deveria ter impedimento. Deixa rolar! Haveria mais gols, tudo mais legal e vibrante.

Nos dois anos seguintes, 1989-90, quando morei em Cornélio Procópio, tive meus primeiros contatos com o futebol jogado. Passava horas toda a tarde no SESC, onde o pessoal ia chegando e logo dava time. Futsal. Para quem entrou nas 4 linhas pela primeira vez aos 12-13 anos, até que o fiasco não foi completo. Legal que no SESC tinha uns treinamentos, escolinha mesmo, onde a gente aprendia fundamentos. Mas eu não torcia para nenhum time, só jogava mesmo. E na real, minha atenção estava no vôlei, meu esporte principal. Treinava todos os dias, às vezes até duas sessões de treinos na mesma tarde. A triste lembrança futebolística desse período foi o gol do Caniggia, na Copa do Mundo. Eu aprendi em 1990 que perder para a Argentina é sempre mais amargo.

O ano de 1991 foi um marco importante na minha relação com o futebol. Voltamos a morar em Cianorte, e lá todo mundo tinha um time. A maioria, paulistas. Estudando na Escola Princesa Izabel, logo fiz amigos, e um deles virou brother mesmo: Maykon Christer Britta. Ele jogava futebol muito bem e era um fanático torcedor do São Paulo. Creio que nele encontro a influência que me levou a também escolher este time. O cara tinha camisas e mais camisas do Tricolor, boné, caderno do SPFC, e tudo mais. Não existe uma foto minha de bebê com coisas do São Paulo, também não foi meu pai quem disse para que time eu deveria torcer. Nada disso. Eu escolhi meu time. Eu passei a me identificar como torcedor do São Paulo, e o fiz pelo começo daquele ano, sem imaginar o que viria pela frente. 

Em 1991 o Tricolor sagrou-se Campeão Brasileiro. “Caraca, escolhi do time certo!!!”, pensei. Foi demais toda a zoeira em cima dos rivais santistas, palmeirenses e corintianos. A famosa resenha, uma das partes mais legais desse universo de futebol. Quanto mais bravos os caras ficavam, mais zoeira. Esta é a regra. Se incomoda, é ali que a gente mais bate a tecla. Só que tudo de boas, sem brigas. A hora deles zoarem um dia iria chegar. Em 1991 era a nossa.

Vieram 1992-93 e, como todo são-paulino sabe muito bem, foram anos mágicos. Bi-Libertadores e Bi-Mundial. Se 91 tinha sido top, a gente mal imaginava que no biênio seguinte chegaríamos ao TOP (com maiúsculas). Ficamos insuportavelmente campeões, e zoeiros, e metidos e chatos. Os amigos torcedores dos outros times vinham com alguma tentativa de tirar onda, e só soltávamos um “Xiu! Bi-Libertadores! Bi-Mundial!”, “Ganhe 2 Mundiais primeiro, aí volte pra falar comigo”. Foi o auge da resenha. E assim foram vividos aqueles anos da minha segunda fase em Cianorte, futebolisticamente falando. Ah, em termos de futebol jogado, naquele período eu me dividia entre o vôlei e a bola nos pés, chegando a participar de jogos escolares nas fases municipal, regional e estadual. Tempinho bom.

O período vivido em Cascavel (1994-95) foi totalmente dedicado aos estudos, pois aproximava-se a conclusão do Segundo Grau e os desafios do Exame Vestibular. Mas isto não me afastou por completo do futebol. Nossa casa ficava no quintal de uma escola onde minha mãe era diretora, tendo a 10 metros de casa uma quadra poliesportiva. Eu, meu irmão e alguns amigos da igreja usávamos bastante. E o lance dos times que torcíamos, a resenha e tudo mais, sempre rolando. “Bi-Libertadores! Bi-Mundial!” continuava sendo o super-trunfo imbatível nas discussões.

E assim se passaram meus primeiros 5 anos com um time para torcer. O glorioso São Paulo Futebol Clube, até então Tri-Campeão Brasileiro, Bi-Libertadores e Bi-Mundial, fora todos os títulos menos expressivos. Éramos mesmo insuportavelmente campeões.

O ano de 1996 marcou minha chegada a Maringá, para iniciar os estudos em Direito na UEM. Logo me enturmei com o pessoal da igreja. Todo mundo tinha time. Todo mundo zoava e era zoado. Porque o povo de Deus também gosta de futebol. Mais legal ainda era o fato de a igreja possuir uma bela chácara nas proximidades da divisa entre Maringá e Paiçandu, com um excelente campo de futebol suíço. Ali foram anos e anos me reunindo com meus amigos, todas as tardes de sábado, para jogos, conversas, amizade. O lado bom do futebol. Nunca me envolvi ou presenciei brigas feias naquele lugar, o que é raro. Uma ou outra discussão, ok. Futebol é um jogo de contato, ora ou outra rola um entrevero leve. Mas jamais uma agressão efetiva, um soco, uma pancadaria geral. Sim, houve situações críticas onde a coisa quase foi pro espaço, mas felizmente ficou no quase.

O Tricolor não vinha ganhando nada relevante há um bom tempo. Ainda assim continuávamos nos sustentando no “Bi-Libertadores! Bi-Mundial”, já meio amarelado, mas ainda imponente. Era o argumento que ninguém conseguia contrapor. Quisessem zoar os são-paulinos, teriam que no mínimo fazer igual, quiçá superar. Mas ninguém estava com esta perspectiva tão próxima no horizonte, o que nos deixava tranquilos de jamais sofrermos o revide.

Por aquela época, meados da década de 90, o futebol mundial começava a passar por mudanças importantes, trazendo os primeiros traços do que temos hoje. Logo após a Copa do Mundo de 1994, que consagrou o Brasil Tetra, surgiram os jogadores-astros. Salários milionários. Publicidade forte. Tudo ganhou dimensões nunca antes imaginadas pelas gerações anteriores. Não olhando hoje, em retrospecto, mas já naquela época eu via esse movimento com um olhar desconfiado. Não me parecia completamente correto um cara receber fortunas para jogar seu futebol. Desonesto não era. Sei lá, eu achava estranho.

Segui jogando meu futebol todos os finais de semana, ao que se somaram mais jogos duas ou três vezes no meio da semana, quando me associei a um clube da cidade. Novos amigos, novos campos, amistosos, torneios. Conheci, enfim, um futebol mais “pegado”, onde a coisa não era brincadeira. Eu nunca me envolvi, mas presenciei brigas feias, de dois ou mais caras se engalfinhando na pancadaria. O lado ruim do futebol.

Bem, eu nunca me envolvi, mas foi quase. Por muito, muito pouco não fui eu um dos atores em algumas dessas brigas. O fato de eu não ser violento, e nunca em todas as centenas de jogos que participei até hoje, jamais ter dado uma pancada por trás, ou por frente, ou buscado uma confusão deliberadamente, ajudou a manter-me longe dos entreveros. Nunca fui visto como um jogador encrenqueiro. Pelo contrário, um cara leal e correto dentro de campo. Nem de longe um craque, nem de longe. Um jogador razoável, esforçado, que quase sempre corria mais do que todos, embora com grandes lacunas técnicas. Na boa condição atlética eu chamava a atenção e conseguia meu espaço.

E o “Bi-Libertadores! Bi-Mundial” sempre e sempre funcionando, calando a todos.

Até que chegou um tempo em que eu comecei a me incomodar com algo. Como disse, nunca fui violento, dentro ou fora de campo. Aliás, sou complemente anti-violência. Julgo ser o último recurso, em situações extremas, ter que colocar as mãos em alguém. Na defesa da integridade física, minha ou de quem precise. Partir para uma agressão, jamais. “Aaah, Fer. Depende da ofensa. E se o cara bateu primeiro? Não tenho sangue de barata”. Claro que depende. Ter sido atingido primeiro não foi sua escolha. Dar o revide é sua escolha. Depende de você o que vai rolar, ou não. Até este momento da minha vida (hoje, 2021) – e os anos já se acumulam – eu contive todos os ímpetos de revide que me ocorreram. Jamais agredi fisicamente a alguém, e jamais fui agredido. Semeadura pacífica, vida pacífica.

Comecei a me incomodar com as alterações que o futebol provocava em mim. Embora eu nunca brigasse, a coisa parecia estar mais e mais perto de um dia ocorrer. Bate-bocas, gritos com alguém, aquela vontade de dar uma voadora no meio. Tudo contido, mas até quando? A gota d´água foi num amistoso pouco amistoso, onde a disputa estava acirrada e as caixas de ferramentas foram abertas por ambos os lados. Muitas faltas duras, provocações, cotoveladas. Recebi várias, mas não revidava. Só que a coisa foi se acumulando, acumulando, até que explodi. Basicamente parei o jogo e chamei o outro time inteiro pra briga, totalmente transtornado. Mas não truquei no facão, não. Eu chamei mesmo! Se viessem, eu iria pra cima. Claro que apanharia, pois valentia não cria braços e pernas extras, e muito menos potencializa as forças dos míseros pares que tenho. Não sei se por me acharem maluco, ou por terem percebido que aquele campo tinha se transformado num barril prestes a explodir, o jogo acabou. Pior de tudo, amistoso entre duas turmas de igrejas, dando lá seus vexames e mau testemunho.

Aquele fato, que não foi isolado, me levou a repensar as coisas. Eu me dei conta do que me deixava potencialmente violento: TRÂNSITO E FUTEBOL. Com o primeiro eu pouco poderia fazer, pois precisava seguidamente estar no trânsito. O jeito era buscar mais domínio próprio, não perder a calma por pouca coisa. Já o segundo era mais fácil resolver. Num processo gradual, passei a me envolver menos com futebol, amistosos, torneios, esses ambientes potencialmente violentos. Fiquei no meu futebolzinho de fim de semana, aquela galera de sempre, que se reunia desde que cheguei a Maringá em 1996. Estávamos então pelos anos de 2008-09. E o que tinha acontecido com meu São Paulo a essa altura?

“Xiiiiiu!!! Tri-Libertadores! Tri-Mundial! Hexa-Brasileiro!”. Os São-paulinos tinham saído da fila e vivido os mágicos anos de 2005, 2006, 2007 e 2008, agregando à sala de troféus uma sequência de títulos muito importantes, tornando-nos ainda mais terrível e insuportavelmente campeões. Coitados dos rivais. Os enferrujados “Bi e Tri” se transformaram em “Tri e Hexa”, para desespero geral dos demais. Era muito legal... para nós, rs. Nada obstante, eu vinha jogando menos bola e pouco a pouco perdendo o interesse. Nesses anos todos praticando futebol, eu nunca havia me machucado. Zero lesão. Nenhum entorse, distensão, câimbras, fratura. Nada. Coisa rara.

De meados de 2009 a meados de 2010 estive fora de Maringá, a serviço do Conselho Nacional de Justiça por vários lugares do Brasil. A única atividade física que consegui manter no período, regulamente, foi a corridinha de sempre. Em alguns momentos até fiz musculação, quando dava. Retornei para Maringá em 2010, ao que se seguiu minha ida para a Comunidade Alcance, e isso fez com que a prática do futebol nos finais de semana desaparecesse. Nesta nova igreja não tínhamos uma chácara com campo. Eu também não estava mais vinculado a algum clube. Havia raras oportunidades de jogo. Corrida e musculação tornaram-se minhas únicas atividades físicas.

A partir dali, ou seja, nos últimos quase 12 anos, eu seguramente não entrei num campo de bola 10 vezes. Isso mesmo, praticamente parei, e as poucas vezes ocorreram entre 2010 e 2015. De lá para cá, no último quinquênio, nenhuma. A última, a saideira, foi num sábado que reuniu o pessoal da Alcance num campo sintético, próximo ao Cemitério Municipal de Maringá, onde tive minha única lesão futebolística em toda a vida. Logo no início, numa mudança de direção, senti uma dor intensa num ligamento próximo ao joelho. Nunca me lembro se foi no direito ou no esquerdo. Sei que não conseguia colocar o pé no chão, saí auxiliado pelos amigos. Seguiram-se exames, consultas, tratamentos, e um diagnóstico de ruptura parcial de ligamento. Seria necessário operar.

Fiz um excelente trabalho pré-cirúrgico, tão excelente que a cirurgia não ocorreu. Num segundo exame de imagens foi constatado que a ruptura parcial não mais existia. Não manjo muito disso, mas o que me disseram é que aquele tecido não se regenera. Aí, das duas uma: ou houve uma análise errada do primeiro exame, ou então o tecido ficou bom milagrosamente. Bem, eu creio em milagres. Fiz o tratamento? Fiz. O tratamento faria o problema sarar? Não. Então...

Pois bem, nas proximidades do cemitério, naquele joguinho bobo em 2015, a prática do futebol foi sepultada na minha vida. Mas e o futebol na mente, no coração, na resenha? Ainda existia? Eu achava que sim. Mas, paradoxalmente, dei-me conta de que há anos não assisto a uma partida na TV. Uma das últimas foi o famoso 7 a 1 com a Alemanha.

No domingo próximo passado, quando meu time foi campeão após um jejum de 9 anos sem títulos, novamente não liguei a TV. Domingo eu me dei conta de que o futebol não importa mais nada para mim. Se a prática havia sido sepultada em 2015, o interesse foi sendo lentamente cremado desde então, até que em 2021 só restassem cinzas.

Jogo rolando, uma TV disponível por perto, alguns fogos pipocando pela cidade, e eu nem um pouco interessado em ver. Naturalmente, chegou ao meu conhecimento a notícia de que o SPFC venceu, mas zero vontade de postar algo a respeito, zero ânimo para zoar os caras dos outros times, zero empolgação para abrir um sorriso e gritar “O Campeão voltou”. Hoje, não sei o nome de um único jogador do São Paulo, quem é seu técnico, ou qualquer outra informação a respeito do clube. Mas sei a razão dessa desconexão. Não tem exatamente a ver com o meu time, mas com uma característica detestável do universo do futebol.

Não, não foi a fila de quase uma década sem títulos que me desconectou. Meu desinteresse foi acontecendo. O fato é que não consigo lidar bem com um jogo onde o erro pode prevalecer e ser glorificado. Os exemplos são muitos. Times que levantaram taças a partir de erros de arbitragem, malas brancas, contextos mal explicados. Mesmo com todos os recursos tecnológicos existentes, continua sendo um jogo onde a trapaça e o erro vencem. Algo assim não me interessa, porque não pode haver glória numa vitória ilegítima. Mas vejo torcedores achando o máximo, justamente por ter sido assim. "ROUBADO É MAIS GOSTOSO!“

"Ah, Fer. Deixa disso! É como as coisas são. E a possibilidade de erro é para os dois lados, então tá tudo certo”. Conversa. No tênis, por exemplo, é a coisa mais comum um dos jogadores desafiar a marcação e em instantes ter a verificação de IN ou OUT. E tudo certo, segue o jogo sem chororô. Noutros tantos esportes ocorre o mesmo. Mas no futebol me aparece o VAR, que logo é demonizado por todos. “Esse VAR trava o jogo, tirou do futebol sua graça”. Conversa. Pra mim não serve. O pessoal quer que os erros continuem, porque roubado é mais gostoso.

Mas roubado é errado.

Basicamente, foi nesta minha dificuldade para lidar com um esporte que consagra o erro, pequenas trapaças, enaltece a malandragem, que fui perdendo o interesse. Um processo lento e não percebido de imediato. Dei-me conta dele quando vi – ou melhor, fiquei sabendo – meu time sendo campeão, e nada senti. E até onde sei, o São Paulo não venceu de forma ilegítima. Parece que foi tudo OK. Mas aquilo não era comigo. Não me dizia mais respeito. Perdeu a graça. Morreu.

Ainda sou São-Paulino? Sim. Tri-Libertadores, Tri-Mundial, Hexa-Brasileiro, e mais trocentos outros títulos menores, inclusive 22 Paulistões.

O São Paulo Voltou? Não sei. Pode ser que sim. Só sei que eu me fui.

REST IN PEACE, FOOTBALL.

sábado, 22 de maio de 2021

022 LEGADO

Eles legam.

Vós legais.

Nós legamos.

Ele lega.

Tu legas.

Eu lego.


LEGO é considerado o brinquedo de maior sucesso em todo o mundo. De origem dinamarquesa, as primeiras criações vieram da oficina do marceneiro Ole Kirk Christiansen, pelos idos dos anos 30. Lego significa “brincar bem”. Após essa fase inicial da madeira, no pós-guerra surgiu o plástico injetado (acrilonitrila butadieno estireno), abrindo um mundo de possibilidades, formas, cores e tamanhos, fazendo surgir o Lego que hoje conhecemos: blocos plásticos de encaixar, em vários tamanhos e formatos diferentes. Virtualmente, pode-se criar qualquer coisa com Lego, se você tiver peças suficientes para dar conta de sua imaginação.

De acordo com algumas rápidas pesquisas que fiz, o Lego segue 4 princípios básicos:

- Alta qualidade;

- Segurança;

- Estimulação da criatividade;

- Imaginação.

Além do já mencionado sucesso, muitos o consideram o melhor brinquedo para auxílio no desenvolvimento das crianças, em qualquer faixa etária, assim cumprindo os princípios criatividade e imaginação. A segurança, penso eu, afere-se por algum critério técnico-normativo, relacionado à ausência de toxicidade, baixo risco de acidentes ou ferimentos, tamanho e formato que impeçam uma criança engolir as peças. Por fim, no quesito qualidade, alguns conjuntos conservam, mesmo após décadas de uso, suas características originais, com encaixes perfeitos, rigidez, cores vivas.

A grande popularização ocorreu na década de 50. Hoje existem 4 fábricas em diferentes locais do globo, produzindo mais de 36 bilhões de peças por ano, ou 68 mil por minuto, 1140 por segundo. A coleção Lego conta com aproximadamente 4200 itens diferentes, nos quais são utilizadas 58 cores distintas. Uau! Eu não sabia nada disso sobre o Lego. Recorri ao “Tio Google”, investi uns minutos na leitura de meia-dúzia de páginas, e fiquei impressionado com o tanto de informação que há a respeito. Uma ideia simples e despretensiosa, que num processo longo e natural foi se agigantando, até hoje ser este ícone em sua área (brinquedos), e indo muito além dela (educação, ensino, criatividade). Caso tenha um tempo, “dê um Google”, e veja/leia por si mesmo o tanto de coisas legais que há sobre um simples brinquedo.

Ah, da forma resumida como coloquei acima, pode-se ter a impressão de uma “história linear e perfeita”, onde tudo deu certo sempre, numa ininterrupta, crescente e vitoriosa saga do marceneiro que construiu um império. Mas não foi bem assim. Houve fases difíceis. Crises financeiras. Versões piratas. O booom dos videogames. Decisões estratégicas equivocadas. Os conjuntos Lego, numa certa fase, perderam sua característica original, pelo acréscimo de componentes eletrônicos, peças que já vinham prontas (com nada por montar... ???). Estava virando outra coisa, qualquer coisa, menos o Lego originalmente pensado. Até que a empresa voltou ao rumo certo numa troca de CEO, que fez tudo voltar à essência. Tiraram o que desnaturava, todo penduricalho desnecessário, e o Lego voltou ao topo. É uma bela história. Ole Kirk Christiansen deixou seu legado.


Legado é um termo jurídico. Significa “disposição de última vontade pela qual o testador deixa a alguém um valor fixado ou uma ou mais coisas determinadas”. Analogicamente, também pode ser “bem ou missão confiada a alguém por pessoa que está a ponto de morrer”. Novamente recorri ao Google para anotação destes conceitos, pois faz já uns 25 anos que estudei essas coisas na faculdade. A memória aqui é péssima, você nem imagina o quanto. Precisei de uma colinha.

Cá comigo, quando penso em legado, encontro uma terceira forma de ver. Ela não é jurídica ou científica, mas fruto de percepções e sentimentos naturais. Acredito até que muitos entendam de forma semelhante à que vou compartilhar, sequer imaginando que legado seja uma figura jurídica. Gosto destas percepções. São as coisas que o homem comum (um não-especialista) apreende da vida. Pode não corresponder ao conceito exato, mas tem o seu valor. Eu valorizo, como deixo bem claro no texto “015 MAIS SABEDORIA, MENOS TÍTULOS”. Diplomas não me impressionam. Os especialistas são apenas os especialistas, caso lhes falte sabedoria.

Legado, para mim, é um tipo de HERANÇA IMATERIAL. Herança é outro conceito jurídico, que significa o “conjunto de bens, patrimônios, direitos e obrigações deixados por uma pessoa falecida aos seus herdeiros”. Este, um conceito muito mais presente e compreensível para todos. Quando eu ou você pensamos em herança, muito provavelmente vinculamos àquilo que o conceito científico enuncia. Ou, nas palavras de um homem comum, “é o que vai sobrá pros fio, depois que os véio morre”. Cash. Grana. Cascaio. Bufunfa. Bens.

Legado, portanto, é um tipo diferente de herança.

Pequena pausa... (enxugando umas lágrimas aqui).

Escrevo este texto em Iepê/SP, terra que tanto amo. É difícil passar 1 mês sem que eu venha para cá. Minha família materna, a partir dos bisavós, originou-se de Iepê. Tenho mais histórias aqui do que em qualquer outro lugar, isso sem nunca ter morado na cidade. Mas Iepê mora em mim. Iepê tem influências profundas em mim. Nesta terra, ao longo de pelo menos três gerações, foi forjado e passado um grande legado. Tudo que sei, sinto, penso, vivo ou projeto viver em termos de FAMÍLIA, é fruto do legado deixado por meus bisavós, bem como – e de forma mais direta – pelos saudosos avós Cilas e Laurinda. A geração seguinte, composta por suas três filhas e dois filhos, continua me legando muito.

Cilas e Laurida. Inesquecíveis. Viveram um casamento intenso por 60 anos. História linda, de filme mesmo. Mas um filme de gente real, carne e osso, não a “história linear e perfeita”, onde tudo deu certo sempre, numa ininterrupta, crescente e vitoriosa saga dos sitiantes que construíram um império. Não foi bem assim. Houve fases difíceis. Tudo aquilo que escrevi para o Lego, vale para os meus avós, ao seu modo. Dificuldades tais, que fossem noutra época – hoje, talvez, com sua notória fragilidade e descartabilidade dos relacionamentos – eles teriam sucumbido. Mas não. Assim como o CEO da Lego, que encontrou o rumo certo no retorno às origens, à essência do que aquele pequeno mundo de brinquedos verdadeiramente era, meus avós também venceram, firmando seu casamento e sua família em Valores Eternos. Cada passo orientado pela Palavra de Deus. A direção do Espírito Santo. Mas, principalmente, pela DECISÃO DE FAZEREM TUDO O QUE LHES CABIA FAZER PARA DAR CERTO. Porque não adianta você saber o que é o certo, ler na Bíblia o que é certo, ouvir do próprio Deus Espírito Santo o que é certo, mas fazer o contrário. Obedecer é a chave.

Cilas e Laurinda obedeceram. A partir do que receberam da geração anterior, cultivaram em si, e plantaram em seus filhos, netos e bisnetos, Valores Eternos. Eu escreveria 10 livros, para seguramente não conseguir compartilhar tudo o que eles significam para mim. São coisas que só eu sei. Sentimentos que ninguém de fora poderia compreender. Porque é a minha história, o legado que eu recebi deles. Palavras ou gestos que vi nas vidas de Cilas e Laurinda, coisa simples, que para você ou tantos outros não teriam sentido, mudaram-me para sempre... (mais uma pausa para lágrimas).

Meu avô faleceu primeiro, em 2009, dias depois da grande festa dos 60 anos de casamento. Como ele dizia, “Bodas de Ouro todo mundo faz. Mas 60 anos de vida conjugal, aí não é pra qualquer um”, e seu sorriso tímido no rosto. Eu e meu avô fomos confidentes. Tivemos muitas e muitas conversas excelentes, fosse enquanto ele me ensinada a matar e carnear um porco, ou a plantar, e principalmente nas pescarias que eu tanto detestava, mas ia com um sincero sorriso no rosto, pelo puro prazer de estar com ele. Minha última pesca foi com ele. Nunca mais fui a outra, e provavelmente não irei a nenhuma outra, para que nossa última pesca juntos continue sendo minha última. Como eu amei aquele lindo senhor. O Cilas Verdureiro. Tempos atrás, numa pequena conversa espontânea com uma pessoa na cidade, com um senhor bem mais velho do que eu, cedo ou tarde veio à tona a informação de que eu era neto do Cilas. Como foi gostoso ouvir aquele homem dizer, tantos anos depois da morte do meu avô, o quanto ele foi um homem bom, honesto, generoso, temente a Deus. Legado.

Dona Laurinda, minha avó, faleceu 3 anos depois de seu amado, no dia exato do meu aniversário: 5 de junho de 2012. Eu pude honrá-la em vida e também nas últimas homenagens. Disse algumas palavras, em meio ao choro. Alguém concluiu por mim, pois não consegui fazê-lo. Chorei sua partida. Carreguei seu caixão. Abracei meus familiares. Vi sua morte em minha data natal como um presente único. Tivemos 35 anos de convivência sem um único problema, nenhuma palavra atravessada, nada. Pelo contrário. Dela só recebi os risos extravagantes, sabedoria, testemunho impecável, palavras e gestos de amor. Jamais desrespeito, abuso, violência. Minha querida avó foi, sem dúvida, a pessoa mais parecida com Jesus que eu conheci. O Jesus que estava sempre em seus lábios. Não tenho notícias de alguém que tenha passado por sua casa, sem ouvi-la falar vividamente do grande Amor de Deus. Legado.

O deles estava entregue.

Herança? Uma pequena área de terras – o sítio onde me encontro neste instante – que, dividida entre os 5 filhos, deu pouco mais de 1 alqueire para cada. Briga na partilha? De forma alguma. Um empurrando para o outro a melhor parte: “Fique você com este pedaço, é o melhor, você merece mais”. “Nada disso, você cuidou mais do pai e da mãe. Você fica com essa”. Uma discussão às avessas, onde cada um queria que o outro tivesse o melhor. Legado.

Pequenina herança, mas um legado imensurável.

Eu, que me viro bem com palavras, realmente em 10 livros não conseguiria expressar tudo que eles legaram. Isso, apenas para cobrir o legado familiar, sem contar os volumes extras que seriam necessários para falar do que Cilas e Laurinda deixaram na sociedade, na Igreja, no Reino.

Então você sabe o que é legado. Sabe do que estamos conversando. Bom ou mal, você recebeu algum. Triste vida a daqueles que não receberam herança alguma, material e imaterial. Quão pobres também os que receberam apenas milhões em herança, mas legados vazios. Felizes os que não receberam um vintém furado para chamar de seu, mas legados que ouro nenhum pode comprar. Felizes também aqueles que puderam receber boa medida de ambos, né?! Por que não? Neste último caso, os bens foram o que chamo de “efeito colateral positivo”. Falaremos dele em texto futuro.

Muitas linhas sobre o legado de minha família materna. Muitas outras seriam necessárias para falar do lado paterno. Não o farei hoje, apenas para não tornar este escrito extenso demais. Haverá oportunidade. Direi apenas, muito resumidamente, que a lembrança do meu avô Veríssimo de Paula Neves, de quem carrego o nome Veríssimo (muito verdadeiro), traz consigo grande responsabilidade. Um patriarca. Homem honrado, de palavra, trabalhador, temente a Deus, guiado pelo Espírito Santo, pai de muitos filhos, avô de muitos netos, um homem simples. Simples como eu sou. Pacífico como eu sou. Bravo, como às vezes também sou. Saber de onde você veio, diz muito sobre para onde você vai. Somos flechas. Legado.


Eu não tive hoje, do nada, a “brilhante ideia” de vir ao meu notebook escrever sobre este tema. Penso nele não há algumas semanas, nem meses, mas há muitos e muitos anos. Porque penso no meu legado. Porque, diferentemente da figura jurídica, bem como da ideia análoga, ambas descritas no início, a minha percepção homem-comum de legado não é para tempo distante, daqui a algumas possíveis décadas restantes de vida. Não, de forma alguma. Penso que toda pessoa tenha um legado presente. Hoje, 22 de maio de 2021, eu e você já temos um legado estabelecido e entregue.

Posso morrer hoje. Você também, por mais que não goste da ideia e dê 3 batidinhas na madeira. As batidinhas não mudam nada. São superstição boba. E assim, se hoje eu partir, e palavras forem ditas sobre mim, cânticos de despedida, e as alças do meu caixão forem sustentadas pelas mãos das pessoas que mais me amam, e os últimos abraços forem dados entre os que ficarem, e o lamento inexprimível de uma mãe chegar ao Trono da Graça, por ter enterrado um filho, tudo findou. O que eu poderia ter dito, disse. Amado, amei. O que me teria sido possível fazer, fiz ou não fiz. O último grão de areia na ampulheta do Fer desceu. Finito.

Temos a tendência de deixar muitas coisas para o fim da vida, sempre e ilusoriamente pensando que chegaremos aos 100, 150, 200 anos. Então, lá pela década final, colocaremos tudo em ordem. Muitos só pensam em legado quando a ampulheta está no fim. Meu Salmo favorito (139), entretanto, faz um importante alerta:

Senhor, tudo me sondaste, e me conheces. Tu sabes o meu assentar e o meu levantar; de longe entendes o meu pensamento. Cercas o meu andar, e o meu deitar; e conheces todos os meus caminhos. Não havendo ainda palavra alguma na minha língua, eis que logo, ó Senhor, tudo conheces. Tu me cercas por detrás e por diante, e puseste sobre mim a tua mão. Tal ciência é para mim maravilhosíssima; tão alta que não a posso atingir. Para onde me irei do teu espírito, ou para onde fugirei da tua face? Se subir ao céu, lá tu estás; se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali estás também. Se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar, até ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá. Se disser: decerto que as trevas me encobrirão; então a noite será luz à roda de mim. Nem ainda as trevas me encobrem de ti; mas a noite resplandece como o dia; as trevas e a luz são para ti a mesma coisa; Pois possuíste meus rins; cobriste-me no ventre de minha mãe. Eu te louvarei, porque de um modo assombroso, e tão maravilhoso fui feito; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem. Os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui feito, e entretecido nas profundezas da terra. Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe; E NO TEU LIVRO TODAS ESTAS COISAS FORAM ESCRITAS; AS QUAIS EM CONTINUAÇÃO FORAM FORMADAS, QUANDO NEM AINDA UMA DELAS HAVIA. E quão precioso me são, ó Deus, os teus pensamentos! Quão grandes são as somas deles! Se as contasse, seriam em maior número do que a areia; quando acordo ainda estou contigo. Ó Deus, tu matarás decerto o ímpio; apartai-vos portanto de mim, homens de sangue. Pois falam malvadamente contra ti; e os teus inimigos tomam o teu nome em vão. Não odeio eu, ó Senhor, aqueles que te odeiam, e não me aflijo por causa dos que se levantam contra ti? Odeio-os com ódio perfeito; tenho-os por inimigos. Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece os meus pensamentos. E vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno.

E Tiago 4:13-16 coloca uma pá de cal sobre qualquer pretensão nossa quanto às certezas do futuro:

Eia agora vós, que dizeis: hoje ou amanhã, iremos a tal cidade, e lá passaremos um ano, e contrataremos, e ganharemos; Digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um tempo, e depois se desvanece. Em lugar do que devíeis dizer: se o Senhor quiser, e se vivermos, faremos isto ou aquilo. Mas agora vos gloriais em vossas presunções; toda a glória tal como esta é maligna.

Se for preciso mais, Ele desenha. Mas você e eu já entendemos. E ainda que não aceitemos, é assim que é. Não sabemos o tamanho da nossa vida. Ele sabe. Só ele sabe. E como a Palavra deixa bem claro, qualquer presunção quanto ao futuro é má. Temos o hoje. E nem do hoje temos total certeza, porque pode ser que hoje seja meu último hoje, sem amanhã, sem aniversário daqui uns dias, sem casamento, sem filhos, netos. Fechada a cortina do meu palco, finda a minha história. O legado estará entregue. Ele já está.

Não fico pensando na morte. Sequer a temo. Penso muito mais no que eu fiz com estes quase 44 anos de vida. Muitas coisas excelentes, com certeza. Algumas péssimas. Tempos incríveis. Também tempos perdidos. Capítulos passados, que não voltam mais. Só existe o dia que se chama hoje, e a cada hoje me cabe escrever mais uma pequena fração do meu legado, mais um tijolinho no Lego da minha vida. A Palavra diz para eu não me inquietar pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo, bastando a cada dia seu próprio mal (ou seu próprio cuidado) (Mateus 6:34). Isto me lembra que não está em mim o poder de viver qualquer coisa além daquelas que cabem no meu hoje, um dia por vez. O que passa disto, é presunção. É maligno. Só a Ele, que é Santo e Eterno, é dado estar em cada dia e lugar, passado, presente ou futuro. Porque Ele é Deus. Nós não.

Tenho um legado hoje. Tenho também minhas impressões sobre o meu legado de hoje. Se eu vier a ter alguns ou muitos hojes futuros, terei com eles o mesmo número de oportunidades para mexer neste legado presente. Para o bem ou para o mal. Cá comigo, tomei a decisão de investir o restante dos hojes que Ele me der, da melhor e mais excelente forma possível. Se hoje for o último, tombar feliz, sabendo que cumpri minha carreira, combati bem, e fui um homem de fé até o fim. Entretanto, se apenas daqui a muitas décadas eu tombar, desejo nesta segunda metade da vida fazer muito, muito, muito mais do que na primeira. Perder tempo algum. Ofender ninguém mais. Tocar positivamente tantas e quantas vidas cruzarem meu caminho. Ser Sal e ser Luz todos os dias da minha vida. É o mais profundo e sincero desejo do meu coração. Minha escolha e decisão. Um dia por vez. Sempre em frente. Firme e constante.

O que eu tinha por dizer sobre legado, poderia concluir aqui. Mas preciso fazer algo. Honrar um precioso legado.


Muitas pessoas partiram no último ano e meio. Muitas mais do que se esperava. Dentre várias causas possíveis, destaca-se a pandemia. Mas muitos tombaram por outras razões. A pessoa que vou honrar, foi por outra razão. Tem sido um período de lutas e de luto. Luta pela vida. Luto quando finda a vida. Em meu núcleo familiar mais restrito, tanto pelo lado materno, quanto pelo paterno, até aqui não tivemos o luto por alguém nesse ano e meio. Dou graças a Deus por isso. E em tudo darei graças, quando o dia de luto chegar. Ele tem nos sustentado.

Uma pessoa partiu neste ano. Uma pessoa muito especial. Uma pessoa com um legado extraordinário. A ela dedico este escrito: Maria Isabel Meirelles de Andrade, a Mariazinha. A esposa do tão conhecido Pastor Palmiro. A mãe da Sula. A vó do Samuel e do Benja. A mãe de outros vários filhos; a avó de muitos netos. Deixou-nos em boa velhice. Deus deu a ela muitos “hojes” para viver e escrever seu legado. Nesses tempos difíceis, quando chegou seu último dia, não houve ocasião para reunir todas as pessoas que a amavam, para honrá-la. Seus familiares, alguns deles, o fizeram. Mas nossa igreja não pode estar lá, eu e meus familiares também não, e muitos mais, não tivemos a oportunidade de prestar as últimas homenagens, cantarmos as canções, darmos entre nós os abraços nos que ficamos. Em parte, houve tudo isso, mas não com todos que gostariam de estar lá. Eu queria estar. Seria precioso estar.

Mariazinha faz parte da minha história e da história da minha família. Tudo começou na década de 70, quando meus pais ainda nem namoravam. Trocando correspondências por alguns meses, chegou enfim o dia de se conhecerem pessoalmente, num evento da igreja em Cianorte. Enfim frente a frente. O jovem Alvino cumprimentou a bela e jovem Mirian com um beijo no rosto, e por ali conversaram um pouco. Mas um zóiudo e linguarudo, e certamente péssimo “telefone sem fio”, foi dizer ao Pastor Palmiro que o famigerado casal estava aos beijos, e ainda mais na tenda de reuniões do congresso. Foi o suficiente para Mirian ser chamada às pressas e receber uma disciplina no ato. Nenhum contato com o Alvino pelos dias restantes do congresso. Imagino a frustração. Um simples beijo de cumprimento.

Poderia aquela disciplina ter gerado um dissabor tal nos dois, que ali morresse o relacionamento. Mas eles foram em frente, ainda que com dificuldades e com vigiada distância a eles imposta. Não julgo o Pastor Palmiro. Ele agiu conforme as informações que recebeu, e agiu de acordo com as regras da época. Não fez por mal. Só sei que minha existência esteve sob risco, por conta daquela disciplina que ele aplicou. Passado algum tempo, minha jovem e bela futura mãe Mirian veio a ser aluna da Mariazinha no Instituto Bíblico de Arapongas, em distantes mais de 4 décadas e meia atrás. A vida seguiu, Alvino e Mirian se casaram. Fernando nasceu em 77, Marcelo em 79, Priscilla em 80. O pessoal não brincava em serviço!

Muitos anos depois, já no século 21, mais precisamente em 2014, as histórias dessas duas famílias voltaram a se cruzar. Comunidade Alcance de Maringá. Mariazinha, juntamente com uma de suas filhas, e dois de seus netos, estavam conosco. Finalmente vim a conhecer uma das personagens de momento tão crítico da minha pré-história. A viúva do tão conhecido e lembrado Pastor Palmiro. Conhecer Mariazinha foi como viajar no tempo, ver alguém daqueles tumultuados e pentecostais anos 70. Uma senhora lindíssima, sempre elegante, distinta, que tinha em si a característica que considero mais brilhante em qualquer pessoa, mas principalmente numa mulher: DISCRIÇÃO. Jamais a vi em arroubos tolos, conversas inúteis ou mal testemunhando. Que pessoa exemplar. Um modelo.

Décadas depois, mestra e aluna, como num hoc de xadrez, trocaram de lugar. A agora senhora Mirian, mãe de filhos, avó de netos, estabelecida como líder de uma Célula de Mulheres, semanalmente reunida em sua casa. Mariazinha estava lá, agora no papel de aluna, comparecendo semana após semana para compartilhar as belezas do Evangelho. Diz minha mãe que Mariazinha muito se alegrava por estar sob seus cuidados e sob sua autoridade como líder, ainda que uma líder mais jovem. Isto tanto me ensina sobre humildade, sobre a correta compreensão da autoridade, e muitas coisas mais. Que pessoa exemplar. Um modelo.

Eu e minha mãe não pudemos estar lá, naquele 17 de março de 2021, para nos despedirmos e honrarmos vida tão inspiradora. Sei que é insuficiente, mas faço-o hoje com este pequeno escrito, porque devemos dar a cada um o que é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; A QUEM HONRA, HONRA. E a ninguém dever coisa alguma, a não ser o amor com que devemos nos amar uns aos outros; porque quem ama aos outros cumpriu a lei (Romanos 13:7-8).

Mariazinha não está lendo este escrito. Não está mais nela a condição de fazê-lo. Mas sei que alguns de seus filhos e netos, com quem sempre tenho contato, o lerão. Que seus corações se alegrem pelo legado imenso que receberam de seu pai, que partiu há mais tempo, e de sua mãe, até tão poucos dias atrás ainda entre nós. E que tal legado os inspire, e me inspire, e inspire a tantos e quantos este texto chegar, a vivermos cada hoje como se fosse o último – pois pode ser – e colocarmos mais uma pecinha na construção do nosso próprio legado. Porque é assim que é. Cada dia uma pecinha, cada dia um tijolinho no LEGO DA VIDA.

quinta-feira, 20 de maio de 2021

021 TODAS AS COROAS

Hoje é quinta. Toda manhã de quinta, logo que acordo, uma das primeiras coisas que eu lembro é que “quinta é dia de treino forte”, o treino que mais gosto. Isto implica que praticamente todas as demais atividades do dia foram pensadas para que eu chegue bem no fim de tarde. Preparado, alimentado e focado para executar algum objetivo que defini previamente. Hoje foi exatamente assim. Hoje deu bom!

Uma noite bem dormida. Um café bem tomado. Minha leitura bíblica. Orientações para a zeladora do prédio onde sou síndico. Aquela olhada rápida nas mensagens. Então, pelas 8h30, eu funciono a CB 750 Four e me dirijo à Clinisport. Como costumo chegar mais cedo, e tenho sempre à mão um livro, aproveito aqueles minutos de espera para consumir algumas páginas. Então o fisioterapeuta chega e vamos para a sessão de terapia manual. Tenho quase 44 anos de vida, e pelo menos desde os 10 eu mantenho uma rotina de atleta amador. Comecei com a corrida, depois veio a fase do vôlei, natação, futsal, tênis de mesa, futebol society, academia, artes marciais... e a corrida sempre fazendo par com alguma dessas modalidades, e outras que não citei. Claro que o corpo uma hora iria doer, machucar. Machucou. Aposentei o tênis de corrida. Descobri a bike e cá estou, envolvido neste esporte maravilhoso.

Por menos impacto que a bike gere, quando comparada com a corrida, cedo ou tarde aparece alguma dor. Ora lombar, ou cervical, ora no antebraço esquerdo, ora no quadríceps direito. Ela vai passeando pelo corpo, de tempos em tempos muda de lugar. Por isso eu visito o fisioterapeuta todas as semanas. Temos lá uma fichinha onde anoto de 0 a 10 a percepção de dor que eu tinha antes da sessão de terapia manual, e depois anotamos de 0 a 10 a nova percepção de dor, uma vez realizado o tratamento. Via de regra, chego com 2 a 3, e saio com 0. Já cheguei com 5, 6, acho que no máximo 7, e nessas vezes saí com 2. O negócio é muito efetivo. Literalmente, as dores são eliminadas com as mãos. Por isso estou lá semana após semana. Não é barato. Só que vale demais o investimento. Afinal, se me proponho a ter uma rotina de atleta, preciso fazer direito. Nutrição. Treinos. Pilates. Fisoterapia. Descanso. Além de todas as demais responsabilidades extra-esporte.

Enfim, todo este empenho para construir uma condição atlética excelente, e nos finais das tardes de quinta subir na bike para o tal treino forte. Eu curto demais o processo. Como sempre, defini previamente o percurso que iria fazer. Saio de leve, começando a aquecer o corpo, então solto o treino no local de costume. Normalmente giro por avenidas de Maringá, num percurso de 30km, passando por regiões mais planas, e outras com os tobogãs (como as Avenidas Franklin, Palmeiras e Nildo Ribeiro). As subidas normalmente assustam os ciclistas. Eu gosto delas. Treino subida com muito prazer. Tenho facilidade. Aliás, as subidas me renderam o apelido que tenho no ciclismo: LAGARTIXA. Um amigo soltou espontaneamente a fala “Putz, o cara sobe os morros parecendo uma lagartixa escaladora”. Foi a maior risadeira entre os amigos. E como apelido a gente não escolhe, e muito menos luta para não colar, o jeito foi curtir e passar a ser o tal Lagartixa das subidas de Maringá.

Uns 9 meses atrás eu consegui um objetivo legal no ciclismo: minha primeira COROA. O famoso KOM, do aplicativo que todo mundo usa para registrar os treinos. KOM vem de King Of Mountain. O Rei da Montanha. Significa que o detentor do KOM foi quem obteve o melhor temo num determinado percurso de bike, o que chamamos de SEGMENTO no aplicativo. Foi bem legal quando consegui a primeira coroa. O app mostra uma tela com a mensagem “Seu tempo é o melhor do mundo”. Então, naquele primeiro KOM, eu olho a lista de todas as pessoas que fizeram tempo naquele segmento e... descubro que foram só três. Comédia rs. Mas ainda assim eu fui o melhor do mundo naquele segmento. Um mundo de 3 pessoas.

Não tardou a vir a segunda coroa, então num segmento mais disputado. Não me lembro exatamente, acho que agora entre uns 60 competidores. Opa! Melhorou bem, o melhor entre sessenta. Estamos no caminho. Treinos e giros. Academias. Pilates. Fisoterapia. Nutrição. Todo um sistema para evoluir na condição atlética, curtir os passeios, e nos meios de semana correr atrás das coroas. Acho muito divertido. Tornou-se um passatempo. Não jogo videogame, RPG, pôquer, ou qualquer tipo de jogo. Meu jogo é correr em busca dos recordes de bike. Como na pandemia não tem havido corridas propriamente ditas, encontro nos giros de quinta a competição que tanto gosto. Tem dias que volto com o objetivo alcançado. Noutros, não. Tudo normal. Hoje saí para o treino forte e voltei com os objetivos estabelecidos (2 coroas), e mais duas marcas extras, não planejadas (1 coroa e 1 Top 10). Dias assim são legais, muito satisfatórios. Você se percebe no caminho certo. Seus esforços estão dando resultado.

Mas o que eu ganho com tudo isso? Financeiramente falando, absolutamente nada. Pelo contrário, gasto bastante. Todo esse sistema de bikes, acessórios, atividades complementares, nutrição, custam dinheiro. É um passatempo que cobra seu preço, se você decidir encará-lo em alto nível. Eu decidi, e como gosto de fazer tudo com excelência, não tem saída: mão no bolso. Vai dinheiro. Mas gasto com um largo sorriso no rosto, porque é meu passatempo. Não gasto com outras coisas. Acho que o custo é baixo, quando penso em todo prazer que isso me traz, saúde, amigos, experiências e lugares novos, o gostinho de sentir-se atleta (ainda que amador). Enfim, minha rede social bem demonstra o quanto todo esse universo de bike hoje faz parte da minha vida.

Tudo legal, tudo bem. Vida seguindo numa boa, Lagartixa pegando seus KOMs, seus TOP 10, até que certo dia um amigo me chama para trocar ideia:

- Fer, você não acha que está muito obcecado por esse negócio aí de ser o número 1?

- Não, não estou.

- Cara, certeza que não?

- Certeza que não.

- Então, é que eu me preocupo com você, cara. Você sai para pegar esses KOMs e desce as ladeiras como se fosse um louco. Irmão, uma hora dessas acontece o pior e você acaba todo arrebentado. Além disso, será que você não está muito focado em ser o número 1, o melhor? Acho que tem uma dose de vaidade nisto.

- Brother, relaxa. É só um passatempo.

A conversa terminou e vida que segue.

Mas claro que conversas assim sempre me levam a pensar. Por mais que na hora eu tivesse respostas negativas prontas, quem sabe até um pouco secas, para a prosa terminar logo, depois eu pensei seriamente no que ele havia dito. Sondei meu coração. Sim, havia uma pequena dose de vaidade. Nada grotesco, distorcido. Eu lido bem com o fato de saber que nalguns segmentos eu não terei perna para pegar a coroa. Então me contento com o Top 10, ladeado por caras muito, muito fortes de Maringá e região. É quando me lembro que já sou um quarentão, e que não faz nem 3 anos que pedalo. Então me dou conta de que fui além de qualquer expectativa. Disputar coroas com a molecada de vinte, trinta e poucos anos, e alguns caras com 10, 15, 20 anos de ciclismo nas costas. Sim, fui além das expectativas. Está mais do que bom.

Após sondar o próprio coração, fui falar com Deus. Eu oro. Na verdade, eu mais fico em espírito de oração, do que orando-falando. Depende do dia. Então, com a tal constatação de uma leve vaidade envolvida na história, fui perguntar a Deus se eu deveria renunciar a essas conquistas, parar de buscar as coroas. Como não posso mentir para Deus, e nem para mim mesmo, eu digo sinceramente que eu ficaria triste se Ele me pedisse tal renúncia. Mais triste ainda se ele me desse uma direção para parar com o ciclismo. Mas se viesse algo assim, eu obedeceria. Tristemente, mas obedeceria.

Então, orando-ouvindo, de início não veio nada. Deus nada falou. Como naquilo que não é literal, eu costumo agir por princípios, entendi que aquela conversa com meu amigo serviu para que eu pensasse na vaidade, e passasse a buscar motivações melhores, não me sentisse o bonzão. Entendi que não era preciso parar com tudo, mas sim alinhar as motivações e os sentimentos. Afinal, eu não estava fazendo algo errado. Era só ajustar. Prossegui com minha busca por recordes e eles foram chegando, um após o outro. Até que duas coisas aconteceram.

Uma pessoa que conheço, muito temente a Deus, com quem pouco falo, entrou em contato comigo e descreveu-me um sonho que teve:

- Fer, eu via você e seus amigos de bike cavando covas. Vocês riam, divertiam-se, levavam a coisa na brincadeira, como se não fosse com vocês. Mas dava para perceber no sonho que as covas eram para vocês mesmos.

Eu não sei o que você pensa dessas coisas. Eu sei que coisas assim são reais. Tenho inúmeras experiências. Pensei no sonho que ela me contou, vi como um alerta para potenciais perigos com a bike. Guardei no coração aquela informação.

Poucos dias depois, aquele mesmo amigo da primeira conversa me procura:

- Fer, sonhei com você. Cara, você descia uma ladeira igual maluco e se quebrava todo. Não morria, mas ficava todo arrebentado, num estado vegetativo

- Nossa! Cara, poucos dias atrás uma outra pessoa sonhou comigo e me descreveu um sonho assim, assim, assado.

- Ow cabeção, você ainda não entendeu que Deus está te alertando para parar com essas descidas kamikaze?! Cara você é o Lagartixa, o cara que escala bem. Não precisa dos KOMs nas descidas. Deixei isso para os outros. Se quiser firmar um nome no ciclismo, então firme como um bom escalador que você é.

- Você está certo. Não vou mais buscar os recordes nos locais que tenham descidas malucas.

- E viu, Deus não está te falando para parar. Ele sabe que você se diverte com a competição. Ele está apenas te cuidando, para que você não faça coisas idiotas por nada, coloque seu pescoço em risco por nada, e acabe numa cama ou cadeira de rodas por nada. Seu nome não precisa estar no primeiro lugar de uma lista tola de melhor tempo. Seu nome precisa estar num único lugar que importa: no Livro da Vida.

Eu agradeci muito a ele pela conversa e então ajustei meu objetivos e motivações. Risquei da lista tudo que envolvia descidas fortes, para não rolar sequer a tentação de ir atrás de recordes perigosos. Desde então tenho feito assim. As coroas continuam vindo. Os Top 10 também. Aliás, mais do que nunca. Porque foquei naquilo que faço de melhor sobre uma bike: ESCALAR. O pulmão não queima. As pernas não queimam. A câimbra não vem. É assim que eu sou, é meu jeito de pedalar, sempre para cima e com força.

Hoje trouxe 3 coroas para casa. Todas em subida. Peguei um Top 3 numa descida. Desci segurando. Claro que quando vi que por 5 segundos eu poderia ter pego também a coroa na descida, rolou a tola ideia de na próxima vez descer mais forte e pegar aquela coroa também. Para logo em seguida eu ser lembrado por Deus que aquela coroa não é para mim. Que outro a pegue. Que outro se arrisque. Ficarei nas subidas. Só nas subidas.

Algo inédito aconteceu recentemente: perdi umas coroas. Em 3 semanas consecutivas, o app me sinalizou que alguém bateu meus tempos. Semelhantemente, vem aquele impulso natural de no próximo treino ir lá e pegar tudo de volta. Aaaah, vaidade. Como disse Al Pacino no filme Advogado do Diabo, naquela memorável cena final, A vaidade é o pecado favorito dele. Perigosa e mortal vaidade. Pensei: “Vou não! Deixa lá. Alguém foi mais rápido que eu, e depois haverá um mais rápido do que o cara, e outro”. Eu não serei o número 1 eternamente. A coroa não é minha. Ela apenas está comigo. Apenas pelo tempo necessário até que alguém mais preparado vá lá e a conquiste. É um processo natural.

O segredo é não se apegar à coroa. Curti-la pelo tempo que for minha, e vê-la partir com naturalidade para repousar na cabeça de um cara mais forte. E tudo certo.

Pensando nessas coisas, e nas insignificantes coroas que tenho no ciclismo, lembrei-me de um texto:

Depois destas coisas, olhei, e eis que estava uma porta aberta no céu; e a primeira voz, que como de trombeta ouvira falar comigo, disse: Sobe aqui, e mostrar-te-ei as coisas que depois destas devem acontecer.

E logo fui arrebatado em espírito, e eis que um trono estava posto no céu, e um assentado sobre o trono.

E o que estava assentado era, na aparência, semelhante à pedra jaspe e sardônica; e o arco celeste estava ao redor do trono, e parecia semelhante à esmeralda.

E ao redor do trono havia vinte e quatro tronos; e vi assentados sobre os tronos vinte e quatro anciãos vestidos de vestes brancas; e tinham sobre suas cabeças coroas de ouro.

E do trono saíam relâmpagos, e trovões, e vozes; e diante do trono ardiam sete lâmpadas de fogo, as quais são os sete espíritos de Deus.

E havia diante do trono um como mar de vidro, semelhante ao cristal. E no meio do trono, e ao redor do trono, quatro animais cheios de olhos, por diante e por detrás.

E o primeiro animal era semelhante a um leão, e o segundo animal semelhante a um bezerro, e tinha o terceiro animal o rosto como de homem, e o quarto animal era semelhante a uma águia voando.

E os quatro animais tinham, cada um de per si, seis asas, e ao redor, e por dentro, estavam cheios de olhos; e não descansam nem de dia nem de noite, dizendo: Santo, Santo, Santo, é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, que era, e que é, e que há de vir.

E, quando os animais davam glória, e honra, e ações de graças ao que estava assentado sobre o trono, ao que vive para todo o sempre,

Os vinte e quatro anciãos prostravam-se diante do que estava assentado sobre o trono, e adoravam o que vive para todo o sempre; E LANÇAVAM AS SUAS COROAS DIANTE DO TRONO, dizendo:

Digno és, Senhor, de receber glória, e honra, e poder; porque tu criaste todas as coisas, e por tua vontade são e foram criadas. (Capítulo 4 do livro de Apocalipse)

Eu não sei quem são os Vinte e Quatro Anciãos. Haveria muita coisa para especular sobre eles. Quem sabe noutro escrito. Mas de uma coisa eu sei: suas coroas são muito, muito, mas infinitamente muito mais preciosas do que minhas míseras coroas de ciclismo. Aí eu penso: Se eles lançam suas coroas ao chão, ao se depararem com a Glória do Senhor, quem sou eu para me apegar a uma desprezível coroa virtual de um passatempo?

A Palavra não diz que aqueles Anciãos não podiam ter suas coroas. Da mesma forma, não diz que não posso ter as minhas. Posso tê-las. Posso ter as coroas no aplicativo de ciclismo. Ou as coroas que representam títulos duramente conquistados. Uma formação acadêmica. Uma posição de autoridade. Muitas coisas diferentes podem ser nossas coroas. Coroas são símbolos e poder, nobreza, destaque. Se não as temos literalmente, como alguns reis e rainhas ainda hoje, certamente temos coroas de outra natureza.

Talvez sua coroa seja uma mente brilhante. Um nome destacado. Ampla influência na sociedade. Não são coroas ruins. São lícitas. Você batalhou e as conquistou, assim como pedalei-batalhei e ganhei as minhas no ciclismo, ou batalhei-estudei e alcancei minhas coroas acadêmicas e intelectuais. Podemos tê-las. Nosso Pai permite que as tenhamos. Ele não pediu ou ordenou que os Vinte a Quadro Anciãos as tirassem de suas cabeças. Deus não tem melindres. Ele sabe quem é. Sua coroa é única, perfeita, mais brilhante que qualquer outra. Afinal, Ele é O REI DOS REIS. À vista de sua coroa, o único e natural impulso possível é retirar as nossas o mais rapidamente possível, lançando-as humildemente aos seus pés.

Hoje ganhei 3 coroas. Ótimo. Estarão sob minha guarda por um tempo. Cedo ou tarde passarão para as mãos – ou cabeças – de outros. Mas hoje mesmo, enquanto elas estão comigo, eu as retiro e alegremente as lanço diante do Trono. Porque só Ele é digno de toda glória, honra e poder.

terça-feira, 18 de maio de 2021

020 O JARDIM QUE EU NÃO CONHECI

Há exatos 29 anos eu descobri que no dia do meu aniversário (5 de junho) era/é comemorado o Dia do Meio Ambiente. Consigo precisar o tempo dessa descoberta, porque naqueles dias só se falava na Eco-92. A primeira Convenção Mundial sobre o Meio Ambiente. Cobertura intensa dos meios de comunicação, as pessoas só falando nisso, escolas mobilizadas. Foi um alvoroço. Parecia que algo extraordinário iria acontecer, algo quase palpável. Aquele junho/92 seria um divisor de águas. Porém, quem estava lá e hoje aqui está, e viveu as últimas 3 décadas, talvez concorde comigo que poucas mudanças foram efetivamente sentidas.

Eu não disse que nada mudou. Falo de percepção concreta. Tivemos no período alguns calorões fora do normal, ou secas prolongadas, quem sabe chuvas demais noutras épocas... e por aí vai. Mas vamos ser sinceros, eu ou você só conseguimos afirmar algumas dessas mudanças, porque lemos ou ouvimos sobre isso de alguma fonte (científica ou não). Repito, tivemos mudanças, algumas coisas hoje são diferentes. Mas insisto que poucas delas foram efetivamente sentidas de uma forma importante, individualmente falando. Bem, falo por mim. Sua percepção pode ser outra.

Penso ser assim, porque numa escala global, e num lapso temporal mais elastecido, nossos sentidos não conseguem captar totalmente as mudanças. Se hoje pela manhã fez 15 graus, e no meio da tarde 30, claro que eu e você percebemos. Somos homeotérmicos , afinal (lembra dessa? lá dos tempos da escola...). A temperatura dos nossos corpos não acompanha a do ambiente. Ele trabalha para manter-se constante. Agora, se a temperatura nos polos variaram 1, 2 ou 3 graus nas últimas três décadas – o que é uma enormidade – daqui de longe jamais perceberíamos, e menos ainda detectaríamos os efeitos gerados pelo aquecimento, porque tudo é muito lento, o planeta é enorme, e mudanças assim são graduais.

Aonde quero chegar? Vamos lá.

Somos muitos. Ouvi em algum local, creio que hoje, que nos aproximamos de 8 bilhões de pessoas na Terra. É muita gente. Além da quantidade, temos que considerar também a qualidade desse montante. Somos muita gente, que causa muito impacto. Vorazes. Insaciáveis. O ser humano é um predador. Onde se estabelece, o ambiente muda radicalmente. Isto é um fato. Todos sabemos. Ainda ontem eu lia as primeiras páginas de um livro que conta a história do Município de Cornélio Procópio. Fotos e matérias que descrevem o que era o Norte do Paraná há 80 anos. Oitenta anos é o tempo de vida de uma pessoa. Quando essa pessoa nasceu, extensíssima área de terras era pura mata nativa por aqui, com incontáveis espécies de flora e fauna, provavelmente outro regime de chuvas, rios mais caudalosos, tudo original. Então, passado o tempo de uma vida humana, a fotografia é totalmente outra. Resquícios da natureza que havia. Cidades e mais cidades cobrindo a região, milhões de pessoas. Pouca mata. Pouco bicho. Menos água.

Longe de mim apresentar-me como um pregador da primitividade, sugerindo que não devêssemos ter ocupado a região e a modificado. Somos humanos. É isso que fazemos. Só acho que fazemos um pouco (ou muito) pesado demais. A humanidade não brinca em serviço. Primeira impacto é sair cortando todas as árvores possíveis, e tacando fogo em tudo. As famigeradas "limpezas" com fogo.

Lembro que alguns anos atrás, quando meus avós eram vivos e decidiram arrendar uma área do sítio para o plantio de cana, não demorou para aquele mágico ambiente se tornar mais pobre. Para ter uns metros de terra a mais, e quem sabe também facilitar o manejo das máquinas, belas e antigas árvores do sítio foram cortadas e enterradas pela usina que arrendou a terra. Enterradas, porque aquelas árvores não podiam ser cortadas. Mas depois de tudo feito, e sem deixar vestígios, o que se pode fazer? Multar? Quem sabe alguma multa prosperasse. Se eventualmente paga, não mudava o fato de que uma árvore de dezenas de anos não mais existia. Para compensar, eles malemá faziam algum reflorestamento nas beiras dos rios. Na verdade, fios d´água, se comparados ao que foram antes.

Nesse mesmo sítio, cerca de dez anos atrás, eu adquiri uma pequena parte da terra. Menos de 4 mil metros quadrados. A primeira coisa que fiz foi riscar a área ao meio, e numa dessas metades plantar um pequeno bosque de árvores nativas. Para mim, de nada vale uma área descampada. Curiosamente, não demorou a me chegarem opiniões: “Cara, pensa bem, depois que você colocar essas árvores aí e elas estiverem crescidas, você perdeu metade do terreno”. Meus Deus! Como pensamos diferente! Aquela metade reflorestada é a principal, a mais valiosa, e justamente por conter árvores que não estão ali para serem cortadas, mas sim morrerem de velhas, e frondosas, sendo o microambiente para muita vida em si e em seu entorno.

Não tardou para que a passarinhada aparecesse, pequenos roedores, marrecos selvagens, lontras, coelhos, cobras, de tudo um pouco. Naqueles menos de 2 mil metros quadrados de árvores ainda em formação, que nem de longe se assemelham a uma floresta ou mata nativa, tanta vida. Fico a imaginar o que era a região Norte do Paraná há 80 anos, com suas perobas, figueiras, jequitibás gigantes, variedade de animais, insetos, cores, sons, aromas. Eu não conheci aquele Paraná. Nasci em Ponta Grossa, mas me criei pelo Norte do Estado, quando já há pelo menos meio século a ação humana se fazia sentir. Cianorte, cidade da minha infância, ainda continha um bom cinturão verde nos anos 80, quando eu era criança. Eu costumava me aventurar em seu interior. A sensação de estar no mato sempre me agradou, desde menino.

Cornélio Procópio, Londrina, Maringá, outras hoje prósperas cidades da região Norte Paranaense, onde também escrevi parte de minha história até aqui. Elas eram floresta nativa nesses mesmos 80 anos passados. O ambiente mudou muito. Quando saio para pedalar pela região e vejo os campos de soja ou milho – antigamente se plantava trigo também – é bonito de ver. Creio que para os proprietários, mais lindo ainda, pois aquele verde-soja e verde-milho significam muitos milhões. Não estão errados. A mata se foi, o progresso chegou, o verde-floresta deu lugar para outros nuances, e isso não será desfeito. É como as coisas são... quando o homem chega.

Creio que quando tudo era ainda um grande jardim, e Deus nos legou o encargo de dele cuidar, tinha algo diferente em mente. Não necessariamente um jardim intocado e original, mantido por milênios, igualzinho ao que era lá atrás. Mas não exatamente o que temos hoje, com tudo que fizemos, fazemos, e ainda faremos. Passamos muito do ponto. Matamos bichos demais. Cortamos e enterramos árvores demais. Sujamos a água. Derretemos o gelo. Um mundo aparentemente OK, mas disfuncional, colapsando.

O objetivo do texto? Não sei. Apenas conversando com meus botões (embora eu raramente use algo com botões). Quem sabe, lá no fundo, uma saudade ancestral do jardim que eu não conheci.

082 PALAVRAS AO VENTO

Uns dois ou três dias atrás fiz algo que há muito tempo abandonei. Numa rede social, após ver a postagem que me chamou a atenção – de temáti...