domingo, 25 de abril de 2021

009 DESEJOS À VISTA

Não tive uma educação financeira adequada. Em casa ou na escola, o trato com o dinheiro foi acontecendo espontaneamente, na base da observação, aprendizado por meio de tentativas, erros e/ou acertos. Não é da nossa cultura educacional. Bem, ao menos não era no meu tempo dos bancos escolares. Havia um currículo cheio de matérias sobre coisas etéreas (a maioria), umas pouco interessantes (e não tão úteis para a vida prática), e pouquíssimos tópicos que levaríamos para a vida toda, em nosso dia a dia. Com pouca idade, quase nenhuma experiência, e (a verdade era essa) sem nada por fazer em sentido contrário - ainda que tivéssemos um ótimo senso crítico quanto a isso -, tínhamos que encarar aquela grade de uma forma ou de outra, se quiséssemos passar de ano e avançar na marcha da nossa educação formal.

Anos mais tarde, já na fase da graduação superior (estudei Direito), eu possuía uma boa percepção do que era importante e do que não passava de “encheção de linguiça”. Como continuasse não tendo opção de simplesmente ignorar algumas matérias por completo, eu assistia um pouco da aula, respondia a chamada e saía para fazer algo mais interessante lá fora. Ou, o que era mais comum, ficava de corpo presente na aula, só que viajando para outros lugares. Isso num tempo em que não tínhamos smartphones em mão.

Enfim, decorando nomes, datas, regras e fórmulas na escola, não aprendi nada sobre como lidar com dinheiro. Bem pouco dele me chegava às mãos por aquela época, na verdade. Não tínhamos mesada em casa. Até onde me recordo, eu e meus irmãos obtínhamos recursos por demanda, conforme precisássemos ou desejássemos algo. Anote estas palavras: PRECISA e DESEJAR. Então, não tínhamos um pequeno orçamento para chamar de nosso. Conforme a vida ia acontecendo, e alguma coisa que custasse dinheiro precisasse ou fosse escolhida ser comprada, dávamos um jeito de obter os recursos. Essa foi uma primeira falha no ensino-aprendizado da gestão financeira (do ponto de vista doméstico).

Não é uma crítica mogoadinha ao procedimento dos meus pais. De forma alguma. Eles davam o que tinham. Literalmente, e abstratamente falando. Podemos incorrer no erro de acreditar que quando éramos crianças, e nossos pais tinham lá seus trinta e poucos anos, eles soubessem de tudo, e tivessem se preparado para tudo. Não. Eles chegaram àquele momento da vida com muito menos preparo do que a minha geração. E o fizeram com menos conhecimento e menos recursos do que nós. Talvez não tenha sido a história de todos que leem este texto, mas acredito sim ter sido a história de uma maioria, e certamente foi a minha.

No caso específico da minha casa – e não entrarei em tantos detalhes – houve um agravante. Não apenas não tivemos um ensino ideal sobre como lidar com um orçamento, como também assistíamos às mágicas que eram necessárias para meus pais darem conta dos desafios de cada mês. Escrevo “meus pais”, mas a verdade é que eu aprendi muito mais observando minha mãe. Os dois tinham renda. Sim, certamente porções das rendas de ambos chegavam até nós em forma de comida, vestuário, materiais escolares, combustível para locomoção, um trocado para alguma coisa que quiséssemos comprar, etc. Mas a figura da mãe foi sempre mais proeminente nesta área. Era a ela que eu mais recorria, pelo que me recordo. E era ela que eu via se virando nos 30 para conseguir as coisas. Não consigo associar automaticamente ao meu pai a figura de um homem ensinando seu filho a pescar, ou a dar manutenção na sua bike. Não foi ele quem me ensinou a dirigir um veículo, como também não ensinou muitas outras coisas que teriam sido úteis. Como disse, eles (ambos) deram o que tinham, pois também pouco sabiam, e aprendiam enquanto a marcha da vida ocorria, com três filhos para criar e suas outras responsabilidades de adultos.

Assim cheguei aos bancos da faculdade, com 17 para 18 anos, sem um histórico de orçamento mensal, sem uma conta em banco, sem saber preencher uma folha de cheque, sem recursos acumulados desde a infância para encarar a graduação com mais tranquilidade. Lembro-me perfeitamente bem de já estar no 2º ou 3º anos da graduação em Direito, numa sequência de aulas sobre títulos de créditos, e boiar por completo na maioria dos temas, enquanto observava próximo a mim pessoas muito mais preparadas – eu estudava de noite, por isso havia muitos colegas mais velhos do que eu, vários na segunda graduação –, já inseridas no mercado de trabalho, professores, gerentes de banco, comerciantes, lidando naturalmente com aqueles conceitos que para mim eram totalmente novos. Eu era um jovem rapaz muito inteligente e com desenvoltura para muitas coisas, mas no início da vida adulta continuava despreparado para a lida com dinheiro.

Ainda nessa fase, lembro-me perfeitamente bem de uma conversa que tive com um colega de sala e grande amigo, que eventualmente me dava carona até em casa. Ele era como uma espécie de irmão mais velho. Em alguma conversa nossa, provavelmente falando sobre uma ideia minha que pegar dinheiro emprestado para comprar uma moto, ele fala o seguinte: “Fer, juros a gente evita ao máximo pagar; juros a gente busca receber, por menos que seja”. Sem a famigerada educação financeira, sem saber calcular a paulada que seria entrar num financiamento, eu só conseguia enxergar que a prestação da moto cabia no meu orçamento, sem muito me importar com o número de 50 ou 60 parcelas que me acompanhariam num longo e penoso relacionamento. Era o que eu via na minha casa. Era o que eu via nas vidas da maioria das pessoas. Vai-se dando um jeito.

Por conta daquela conversa, eu não fiz o financiamento da moto. Mas vim a fazer muitos outros ao longo da vida. Alguns foram terrivelmente danosos. Também não entrarei em detalhes, senão este texto acabará por ser classificado como um conto de lamentações. As histórias seriam muitas, e várias delas ainda serão contadas, seja nestes escritos aleatórios, sem em livros que estou escrevendo neste exato momento.

Passados 25 anos daquele pequeno-grande conselho do meu amigo – que não segui em todo o tempo – eu finalmente cheguei a um momento da vida em que posso dizer, com experiência de causa e alguns resultados efetivos, que hoje sei lidar com o dinheiro. Não, não foi tudo um show de horrores nesses anos passados. Construí várias coisas, adquiri um patrimônio básico, pude ajudar pessoas. Mas a verdade é que eu poderia ter feito muito, muito mais. Com a mesma liberalidade, a mesma generosidade, sem mão-de-vaquice, e ter muito mais. Nada disso pode ser mudado, quanto ao que ficou nos dias passados. São uma lembrança e foram a escola que não tive lá na base. Paguei literalmente o preço de ir aprendendo com a vida.

Neste exato momento, com pouco mais de 40 anos, não sei tudo sobre dinheiro. Sei apenas bem mais do que com metade dessa idade. Tenho cá minhas regras próprias para lidar com ele, e uma que observo à risca, inegociável mesmo é: os meus desejos, eu pago à vista. Sei lá, de repente continua pintando a vontade de ter uma moto, assim como alguns anos atrás. Não vou lá fazer um consórcio, muito menos compro parcelando no cartão de crédito, e de jeito nenhum busco financiamento para a aquisição. É um desejo que brotou de repente. Não é uma necessidade. “Legal, vamos ver se ele fica, se continua”. Bora pesquisar opções, estudar todos os detalhes da moto, assistir a dezenas de reviews, comparativos, etc, e nestas semanas iniciais já ir começando a guardar o dinheiro para a compra. Se o desejo se consolidar, mas se firmar meeesmo, cumprirei com certa tranquilidade o processo de acumulação da grana, para ter a alegria de comprá-la à vista, na melhor condição possível, com desconto, emplacamento, IPVA “grátis” e, se der, até um capacete de presente. Mas, se não consolidar – algo que normalmente acontece – eu não terei entrado numa decisão precipitada, com 50 ou 60 boletos já impressos e grudados em mim pelos próximos anos.

É assim que eu tenho vivido. Assim tenho prosperado. Assim tenho sabido, já faz alguns anos, o que é não ter dívidas ou contas parceladas a perder de vista. A leveza é indescritível. A sensação de não estar perdendo dinheiro com juros embutidos é maravilhosa. “Ah, Fer, mas você tem um trabalho top, salário de rico, então é fácil falar isso!”. Calma, calma, não é disso que estamos falando. Sim, eu tenho um trabalho legal. E não, eu não tenho um salário de rico. Mas ainda que tivesse, eu poderia lidar bem ou mal com a grana. Assim como lidei de forma errática e desorganizada por um quarto de século. Estamos falando de princípios de boa administração financeira, de regrinhas que se aplicam para o assalariado e também para o milionário. Claro que este vai prosperar mais rápido e em maior escala que aquele. Mas ambos podem prosperar. Ambos têm a opção de pagar seus desejos à vista.

Quanto às necessidades, elas nem sempre podem esperar. O milionário talvez as pague à vista também. O assalariado não. Ele vai dar seus jeitos, contrairá o empréstimo. Vai demorar mais para prosperar, como decorrência disso. Mas não tinha o que fazer. Era uma necessidade. Vai custar mais caro. São fatos da vida real.

Mas os desejos que temos, os pequenos ou grandes luxos, é sobre eles esta conversa. Precisamos dominá-los. Encontrar meios de não cair nas armadilhas, promoções, parcelamentos sem fim. Os desejos precisam ser dominados e saber esperar. Ou pagaremos mais caro por algo que não precisava ser. O senso de urgência era outro, mas a ansiedade venceu, trazendo consigo 50 ou 60 boletos que não precisavam ter nossos nomes impressos. É esta a reflexão que pretendo trazer com minha 3ª regrinha do Pequeno Decálogo de um Cara Sistemático. Algo prático, instantâneo. Aplicação imediata, pelo milionário e pelo assalariado, independentemente de como estão suas contas hoje. Se estiverem bem, se seu salário é de rico, mas você se acostumou a comprar apressadamente seus desejos, pagando juros que não precisa... repense. “Respeite o dinheiro”, é outro conselho que recebi lá atrás, mas não ouvi. Mas se suas contas estiverem trágicas, com muita coisa por arrumar numa bagunça de dívidas... tudo que você não precisa é de mais uma, principalmente se ela envolver algo não necessário. Talvez o primeiro passo para a virada seja não agregar novas contas, para pouco a pouco ir eliminando as antigas, a começar pela menor, depois a segunda menor, e assim por diante. Mas isto é conversa para textos futuros.

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