quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

074 PROFISSIONAL (parte 5/7)

Um pensamento de quando eu era criança, a respeito do trabalho - que hoje recordo achando graça -, era mais ou menos assim: “Trabalhar deve ser muito chato. Quando eu crescer, vou viver em férias”. Sinal que eu era um menino normal, totalmente absorvido e feliz pelo estilo de vida daquela fase, cujas maiores “preocupações” eram estudar, brincar, comer, brincar mais um pouco, assistir TV, dormir, e repetir tudo no dia seguinte. A rigor, criança não trabalha - ou não deveria, pelo menos não muito precocemente -, salvo algumas tarefas domésticas colocadas pelos pais. Assim funcionava meu lar na infância.

Os exemplos de trabalho que tive dentro de casa foram positivos. Meu pai, pastor evangélico, tinha uma rotina profissional um pouco diferente das demais pessoas que eu conhecia. Digamos que consistia em estudar a Bíblia e outros livros para aprendizado dos temas que expunha em suas pregações; orar; visitar pessoas para o necessário acompanhamento pastoral; conduzir o culto no templo, que normalmente ficava ao lado ou bem próximo das casas onde moramos. Não era, como se percebe, aquela rotina profissional “padrão”, igual à dos pais dos meus amigos de infância. Eles saíam para trabalhar, alguns voltavam para almoçar em casa, e tinha o retorno para o lar no final da tarde. O quê exatamente seus pais faziam naquelas horas de trabalho, creio que a maioria dos meus amigos nem saberia descrever. Eu, pelo contrário, via meu pai trabalhando e sabia como era.

Minha mãe cumpria uma rotina profissional mais “típica”. As lembranças mais remotas que consigo acessar, são de nosso primeiro período em Cianorte, do início até meados dos anos 80. Naqueles anos, não lembro  dela trabalhando fora de casa. Estudava, creio que concluindo o Magistério. Mas, esposa de pastor que era, trabalhava muito nas atividades da igreja. Sempre (sempre!!!) muito ativa e envolvida; uma líder nata. Pouco tempo depois, nos anos de 1987-88, consigo enfim encontrar a primeira lembrança do trabalho que eu veria minha mãe realizando pelas décadas seguintes. Começou a lecionar em Pirapozinho/SP, onde cheguei a acompanhá-la algumas vezes nas escolas. Uma vez na Vila Santa Rosa, numa turma noturna; outra, numa escola rural na localidade Noite Negra, entre Pirapozinho e Presidente Prudente. Dali em diante, o que posso dizer sobre a Dona Mírian profissional, é que conheço poucas palavras para descrever sua dedicação e entrega à missão educacional.

Um terceiro exemplo de dentro de casa, foi meu irmão Marcelo. Bem cedo, pelos anos de 1991/92, aos 12-13 de idade, ele iniciou sua jornada profissional como boy numa farmácia em Cianorte, em nossa segunda passagem por lá. Uns 3 anos depois, após nova mudança de cidade (Cascavel), foi só o menino fazer um curso básico de informática (DOS, Windows, Word, Excell), que na turma seguinte já era instrutor, seguindo-se sua imersão na área de computadores e tecnologia, com o que trabalhou por vários anos.

Para fechar, falta falarmos dos outros dois elementos da casa: eu e a Pri, irmã caçula. Nesse enredo profissional, fomos os últimos a entrar em cena. Ótimos alunos - creio que um pouco à frente do Mar em notas e performance -, cedo entendemos que nos estudos estava a chave para nosso futuro. Família simples, sem empresa, fazendas, ou possibilidade de nos legar grandes recursos para a fase adulta, era nítido que precisávamos nos preparar para o vestibular, ingressar num bom curso e, consequentemente, ganhar o mercado de trabalho. Teríamos que cumprir o roteiro normal para adolescentes dos anos 1990. Particularmente, não tínhamos o perfil empreendedor do irmão do meio. Não sei dizer exatamente qual o primeiro trabalho formal que vi a Pri realizar. Já adulta, advogando ou como servidora pública, seguiu os bons exemplos de dentro de casa, sendo também uma trabalhadora exemplar. Mas, e o Fernando profissional? O que dizer dele?

Minha atitude inicial (infantil) para com o trabalho, como dito na abertura, era de achá-lo algo bem chato. Anos depois, quando finalmente parei de escrever “estudante” como minha profissão, tendo efetivamente uma para chamar de minha, descobri-me um cara muito trabalhador. Mas um pouco antes disso, pelo período que foi do segundo grau até o início da faculdade, tive algumas experiências profissionais informais que merecem menção.

Dentro de casa não havia o sistema de mesadas. Quando precisávamos de algum dinheiro, recorríamos (eu e meus irmãos) aos nossos pais. Havia tarefas para cada um de nós: a Pri normalmente ficava responsável pela cozinha; eu e o Mar nos revezávamos entre a limpeza das calçadas, lavar o banheiro, e passar pano nos móveis, ou o que mais a mãe mandasse fazer. Fato que considero muito positivo sobre esse período era não recebermos dinheiro pela realização dessas tarefas. Já observei famílias que escolheram um modelo de remuneração dada aos filhos pelo que fazem dentro da casa. Particularmente, não gosto e não adotaria com filhos meus. Penso que todos os integrantes da família devem trabalhar e contribuir para a manutenção e o bom funcionamento do lar, mesmo que haja recursos para uma empregada. E se não há, acho péssima a ideia de tornar a mulher/mãe/esposa empregada da casa. Não faz sentido. Infelizmente, vivemos num contexto social em que isso acontece quase naturalmente. Mulheres cansadas e sobrecarregadas são o resultado... enquanto o maridão degusta a cervejinha assistindo ao futebol, e as crianças não saem do videogame, incapazes de levar os pratos da sala até a pia.

Bem, o modelo de minha casa na infância não era perfeito. Acabava que Dona Mírian ficava sim com a maior parte dos afazeres, mas por menor que fossem as contribuições do esposo e filhos, no fim das contas era algo a menos para ela. Para nós, crianças da casa, penso que um grande efeito era justamente esse aprendizado do conceito de que todos ali dentro podem e devem fazer algo, e que trabalhar faz parte da vida. Queríamos, claro, terminar o mais rapidamente possível para poder sair e brincar, ver TV, ficar de bobeira. E quantas vezes, por fazermos correndo, aconteceu de sermos chamados para refazer o serviço. Alguém aí se identifica? Coisas assim acontecem na vida adulta?

Nos meus 15 para 16 anos de idade, tive enfim as duas primeiras experiências profissionais. A primeiríssima, ainda intramuros, consistia na “datilografação” de apostilas para minha professora de História (Eneida), na máquina do meu pai. Ela me passava os livros, devidamente marcadas as partes e a sequência que eu deveria escrever, e eu realizava o serviço em papel carbono (sem possibilidade de errar), para depois serem rodadas cópias naqueles mimeógrafos a álcool. O material era utilizado em diversas turmas da escola, inclusive na minha sala. Naturalmente, eu chegava muito preparado para as provas, sendo um dos mais bem avaliados na matéria. Não me recordo de detalhes das tratativas, apenas o fato de que tinha uma pequena remuneração pelo trabalho, conforme o número de folhas datilografadas. Por essa época eu havia concluído meu curso de datilografia na escola Remington em Cianorte.

Logo a seguir, ainda nos meus 15 de idade, fiz um curto estágio num escritório de arquitetura. Essa sim a primeira atividade profissional fora dos muros protetores do lar. A arquiteta (Valéria Tramontini) era muito agradável, mas seu auxiliar... um perfeito xarope. Sempre tive facilidade com desenhos, especialmente os técnicos. Chamando a atenção logo no teste inicial, a arquiteta elogiou e viu em mim um bom potencial. Mas o tal assistente, só fazia criticar, nitidamente incomodado com o novato que desenhava melhor que ele. Tudo, tudo, tudo que eu fazia era solenemente criticado por ele, por melhor que estivesse. Lembro-me de muitas vezes refazer um trabalho, que de início eu considerara bom, mas era reprovado pelo “controle de qualidade” do abençoado. Ao final, repassando todos os estudos e desenhos que produzi, não raro a arquiteta escolhia aquela primeira opção. Era frustrante a sensação de ter feito diversos outros estudos à toa, simplesmente porque um infeliz auxiliar se sentia ameaçado pelo caçula do time. Fiquei pouco tempo ali, menos por esse tipo de situação, mas mais por entender a necessidade de pegar firme nos estudos. A palavra VESTIBULAR estava no radar.

Passados 2 anos, tive meu terceiro trabalho. Segundo semestre de 1995, Cursinho Alfa de Cascavel. Acabara de voltar de Londrina, onde cursei parte do 1º ano de Arquitetura e Urbanismo na UEL. Deixei o sonho da Arquitetura para encarar a realidade de uma faculdade que me permitisse trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Para tanto, precisava primeiro passar novamente no vestibular, então fui ao Alfa e chegamos num entendimento. Uma permuta: eu poderia frequentar o cursinho como aluno em qualquer período (manhã, noite, ou manhã e noite), e em troca eu cumpriria X horas de monitoria no período da tarde, na sala de estudos, ficando à disposição de todos os alunos do cursinho para revisão de matérias, resolução de exercícios ou o que mais precisassem. Uowww, foram 3 meses muito loucos! E foi daquele jeito mesmo que aconteceu. Eu assistia aulas de manhã, ia para casa almoçar; retornava ao cursinho para 4 horas de monitoria, ia para casa comer e tomar banho; voltava ao cursinho para as aulas da noite. Envolvido das 7h30 da manhã às 22h30 no meu trabalho de estudar e ensinar. Umas 15 horas diárias na função.

O resultado veio (quase como planejado). Fui aprovado em diversos vestibulares, menos no que eu mais queria (UNESP), fato que culminou no término de meu primeiro namoro – a expectativa com a UNESP era porque isso me levaria para a mesma cidade dela. Acabei optando por Maringá, dentre as que passei. Em meados de 1996, durante meu primeiro ano no Curso de Direito (UEM), passei numa seleção para trabalho temporário no IBGE, no Censo daquele ano. Por ser o melhor colocado, tive a opção de trabalho interno, juntamente com os servidores de carreira do órgão. Meu chefe, Sr. Laercio Aralli, foi uma bênção. Que homem trabalhador, dedicado e inspirador. Aprendi muito com ele, como também com alguns dos demais servidores do IBGE. Mas teve um que não era nada legal; bem desprezível, por sinal. Já tiozão, dava muito em cima das moças recenseadoras, e via-se nitidamente incomodado com minha presença na equipe interna. Como se o “leão velho” quisesse mostrar ao “leão novo” que ali era o território dele. Realmente, um cara com atitudes totalmente reprováveis. Lembro-me que a certa altura ele foi repreendido pela chefia, e os assédios cessaram. Naquele semestre no Censo eu conheci a realidade de que a vida profissional nos coloca, eventualmente, em contato com pessoas ruins, e por vezes você não tem como escolher ficar longe delas.

Findo o Censo, já no início de 1997 passei numa seleção para vendedor de cursos de inglês em 12 meses, na British & American. Justo eu, que não falava (e não falo) inglês, vendendo cursos pelas calçadas de Maringá. Claro que era uma fria, e não fiquei por lá mais do que algumas semanas. A tal seleção merece um escrito só para ela, que virá em algum momento. Coisas bem hilárias aconteceram.

Pelos 3 anos e meio seguintes, trabalhei como Auxiliar Administrativo no Núcleo Regional de Educação de Maringá. Estive em quase todos os setores internos daquele órgão, o que muito contribuiu para o aprendizado de diversas competências que me acompanharam por toda a vida profissional. No NRE fiz processamento de dados, RH, auxílio em concurso de provas e títulos, motorista, vistorias em escolas de todas as cidades da região, controle de patrimônio, datilógrafo em sindicâncias e muito mais. O Fer – sim, por toda a vida e em todos os lugares nunca fui chamado de Fernando – era o polivalente. Salário baixinho, mas isso não me movia. Eu fazia o que tinha que fazer, ajudava em casa – salvo engano, o condomínio do apartamento era por minha conta – pagava minhas pequenas contas pessoais, e guardava um pouco todo mês para adquirir minha primeira moto. Eu sonhava com a Honda Shadow, mas a primeira foi uma CGzinha mesmo... e com o precioso auxílio da Dona Mirian.

Finalmente, em meados de 1999, ocorreram os fatos minuciosamente descritos no escrito 059 MEIA VIDA, que culminaram no meu ingresso na Justiça Federal, em pleno 3º ano de faculdade. Trabalho ao qual me dedico há exatos 22 anos, ou seja, metade da minha vida até aqui. Com o texto já se alongando, não entrarei em detalhes específicos sobre a JF, porque realmente não tem como resumir. Muitos escritos sobre essas histórias virão no futuro, sempre num contexto de extrair ensinamentos a partir daqueles acontecimentos, como sempre procuro fazer. Mas o que se pode dizer, resumidissimamente, é que nesses muitos anos de Justiça Federal, uns poucos no NRE, semanas na escola de inglês, e poucos meses no IBGE, Alfa e escritório de arquitetura, e também no freelance como datilógrafo, minhas marcas mais características foram ENTREGA e DEDICAÇÃO.

Nunca comi o pão da preguiça, graças a Deus. E claro, muito disso deveu-se aos bons exemplos profissionais que tive nessa longa jornada, mas o principal, a fonte que realmente me moveu profissionalmente, é um importante PRINCÍPIO encontrado na Palavra do Senhor:

E TUDO QUANTO FIZERDES, FAZEI-O DE TODO O CORAÇÃO, COMO AO SENHOR, E NÃO AOS HOMENS, SABENDO QUE RECEBEREIS DO SENHOR O GALARDÃO DA HERANÇA, PORQUE A CRISTO, O SENHOR, SERVIS. (Colossenses 3:23-24)

Aqueles parágrafos iniciais podem ter passado a impressão do Fer como um trabalhador excelente. E está correto. Eu fui. Eu sou. Mas mesmo pessoas muito dedicadas tem seus dias ruins, semanas, às vezes até meses inteiros em que a coisa não vai bem lá na firma. Passei por isso, como também você que me lê. Nenhum de nós é à prova de bala. Às vezes o caso é você estar num trabalho muito distante daquele que sempre sonhou; noutras, um “colega” assediador; salário notadamente abaixo do que você deveria receber (injustiça); problemas pessoais; desânimo; uma preguicinha... (eita!!!).

Pois é, eu já me encontrei em todos aqueles cenários ali, e não é fácil. Não, não é fácil. Mas é um pouco menos difícil quando você tem, por fé, o entendimento de que tudo está sob o controle das Mãos do Senhor. Ele é o verdadeiro patrão. Ele provê seu salário. Ele permitiu aquela equipe perto de você. Ele observa enquanto você trabalha. Ele te recompensará, positiva ou negativamente, por tudo quanto você fizer. E TUDO é TUDO! Sempre destaco isso. Por isso eu trabalho diligentemente. Pela mesma razão que pedalo com muito empenho, durmo como um urso, como igual a um pedreiro depois de cavar buracos para a fundação, leio e estudo consistentemente, procuro escrever como um escritor de verdade, amo a quem eu amo com muita intensidade, e etc, etc e etecetera. TUDO é TUDO! Trabalho faz parte deste TUDO.

Quem sabe as coisas ainda não melhoraram porque o Senhor não tem visto TODO O SEU CORAÇÃO aplicado em algo que está sob sua responsabilidade. Algumas vezes, quando em meu íntimo me senti acusado por não ter procedido diligentemente em algo, não foi legal. Vem a culpa, rola o arrependimento, então um sincero pedido de perdão pelo erro, e a necessária mudança de atitude. Como que por “mágica” – mas não é mágica – no dia seguinte há uma motivação renovada, um homem diferente, uma mulher diferente, pura e simplesmente porque a Palavra trouxe vida onde havia morte, ânimo onde havia prostração, dedicação onde havia relaxamento. Nenhum livro auto motivacional consegue gerar isso por longo tempo. Na melhor das hipóteses, um verniz de mudança. Só que mudança real mesmo, só no Senhor.

Seria isso por hoje. A lembrança de que uma VIDA INTEGRAL precisa ter seu aspecto laboral muito bem resolvido. Seu salário não é o mais importante. O “nome” do seu cargo não determina muita coisa. Seu nível de influência e poder – pasme! – não são seus; quando muito, estão contigo, e muito provisoriamente. Mas o COMO VOCÊ FAZ é que conta. É para isto que seu verdadeiro chefe está olhando, e com base nisto ele te recompensará.

sábado, 11 de dezembro de 2021

073 INTELECTUAL (parte 4/7)

Aprendi a ler muito cedo. Sobre esses dias longínquos, minhas lembranças remetem a uma casa em Cianorte, onde passei a primeira metade dos anos 80. Um jardim simples na frente, separado da calçada por uma grade metálica de 1m de altura. Garagem lateral que se estendia por um corredor (descoberto) de piso bruto, desembocando no quintal gramado que toda criança deveria ter: enorme, muito grande mesmo, ao ponto de podermos brincar de bicicleta, apostar corridas, cavar buracos, bolar pistas para nossos carrinhos, subir no pé de ameixa. Um pequeno mundo de aventuras e imaginação.

Do quintal, entrávamos em casa pela porta dos fundos, passando pela área de serviço, cozinha e sala de TV. Um rápido vislumbre da copa à esquerda, onde ficava o lindo jogo de jantar dos meus pais, feito em madeira de lei. Uma das cadeiras daquele jogo - creio que a última sobrevivente - encontra-se comigo, resgatada do sítio do meu pai há pouco tempo. A mesa e o balcão ainda estão com ele, tão lindos quanto 4 décadas atrás. A partir dali o caminho natural da casa levava para os cômodos mais à direita, onde estavam o corredor com entradas para banheiro e 3 quartos.

Banho tomado, lanche ou jantar realizados, e o que fazer até a hora de dormir? Penso que a bênção daquela época era não ter tantas coisas disponíveis para roubar minha atenção. Nossa vida simples não envolvia games, TV até tarde, tablets, smartphones ou coisas assim. Lembro-me de muitas e muitas vezes estarmos na copa ou sala, ouvindo os disquinhos coloridos com histórias da Bíblia, que geraram em minha cabeça as figuras ou enredos que ainda hoje são acionados quando me deparo com alguns personagens. Ao ouvir pela primeira vez a história da criação, um pequeno filme rolou em minha mente infantil, conforme a descrição de cada um dos 7 dias era narrada. Hoje, adulto, rolam as mesmas imagens mentais.

Mas havia um último cômodo na casa, sobre o qual ainda não falei: o escritório do meu pai. Entre ele e a copa, estava nossa sala. No escritório, carpê no chão, cortina simples, um pequeno gaveteiro de aço cinza claro, mesma cor das duas estantes, também de aço; dessas que ainda hoje se usa em bibliotecas. Uma mesinha de estrutura metálica com tampo e gavetas de madeira, sobre a qual ficava a boa e velha máquina Olivetti, que fazia barulho toda vez que meu pai datilografava alguma mensagem em que estivesse trabalhando para os sermões da igreja. O templo, aliás, ficava bem ao lado dessa casa que descrevi, bastando abrir a porta do escritório e caminhar uns poucos metros.

Mas vamos falar daquelas duas estantes de aço. Naturalmente, continham livros. Muitos livros. Não uma coleção sortida e bem equilibrada com exemplares da boa literatura brasileira e universal, ou livros técnicos sobre diversas áreas do conhecimento. Basicamente, livros de temática cristã, Bíblias, revistas de estudos, e a Barsa – vermelha, com aquelas letras douradas na lombada lateral – destacando-se em meio às outras centenas de volumes. Essa, desde que entrou em nossa casa, atraiu-me. Vagamente, consigo me recordar do dia em que foi adquirida. Estávamos todos em casa, quando um vendedor apresentou-a ao meu pai, e vimos a negociação acontecer. Aquela coleção ainda existe na atual biblioteca dele, lá no sítio em São José; surrada, amarelada, e ladeada por muitos outros livros da mesma época, que sobreviveram às numerosas mudanças de cidade por que passamos. Interessante que uns anos atrás eu também adquiri uma Barsa para minha coleção de livros. Consegui a última edição impressa, que raramente leio, mas está em local de destaque na biblioteca. Ela é meio que um símbolo do meu despertar para a leitura e a vida intelectual.

Eu ia muito à biblioteca do meu pai. Ele dava livre acesso, pedindo apenas que houvesse cuidado no manuseio, que as páginas não fossem riscadas ou amassadas. Mas havia liberdade para estar lá. E muito cedo eu escolhi a companhia dos livros. Coisa mais comum era puxar um volume qualquer da enciclopédia, abrir aleatoriamente, e ler o conteúdo do verbete que saísse. Cultura Geral, Antiguidade Clássica, Ciência e Tecnologia, Corpo Humano, Animais, Sistema Solar, etc. Um pequeno mundo de conhecimento, dentro daquele meu pequeno e gostoso mundo infantil, situado na Rua Guararapes, 390, fone 22-1646, CEP 87200-000, Cianorte/PR, Brasil.


Que gostosas lembranças essas da infância. Que anos bons. E a minha foi longa, heim! Eu diria que fui criança até os 15 anos de idade. Claro, por aí eu já me aproximava de uma transição para a fase de adulto; tecnicamente, era um adolescente. Mas com 15 eu tinha muito mais a ver com o Fernando de 10 anos do que com o que viria a ser o Fer de 20. Eu gostava de brincar, praticar meus esportes favoritos, fazia muita bagunça na rua, tinha zero preocupações importantes sobre a vida. Um ou dois anos depois, viveria um contexto totalmente diferente, com definições importantes para meu futuro, tais como qual faculdade fazer, que profissão abraçar, estava em meu primeiro namoro e os planos para uma vida a dois entravam no radar, etc. Coisas de adulto, após curtíssimos 2 anos. Mas aos 15... nada disso. Uma rotina muito semelhante à infantil de sempre, até então.

Algo que se instalou em mim muito cedo, conforme parágrafos iniciais deste escrito, foram o gosto e uma rotina consistente de leituras. Eu não posso cravar, mas suspeito que aos 6 anos já lia fluentemente. Não mais uma catação de letras ou sílabas, e sim leitura boa, com compreensão, níveis iniciais de interpretação. Ali tinha início a ÁREA INTELECTUAL da minha vida. Leitura era o que havia na época. Outros recursos, amplamente acessíveis a todos nos dias de hoje, nem existiam: podcasts, vídeo-aulas, canais culturais, cursos on-line, streaming, etc. Imagine. Naquela metade final dos anos 80 e a primeira metade dos 90, as informações eram encontradas basicamente por três meios: TV, rádio e livros.

Se eu ouvia rádio? Sim, só que bem pouco. TV? Sim, como qualquer criança da época, e muito, muito menos do que viriam a consumir as crianças de épocas posteriores à minha. Mas nos livros eu gastava um tempão. Mais que a média das crianças contemporâneas a mim, e muito mais do que as das gerações que me sucederam. Um típico nerd? Não, acho que não. Apenas uma criança normal, que adorava adquirir conhecimentos sobre a vida e o mundo. Menos pelas notas, mais pelo prazer do saber. Tirante a quase reprovação na 8ª Série, um ótimo aluno. Interessado. Assíduo às aulas. Mas eu não ligava muito mesmo para as notas. Se elas fossem suficientes para aprovação, por mim tudo bem. Importava-me mais em saber as coisas. E continuo exatamente o mesmo neste ponto. Despreocupado com títulos, como falamos no escrito 015 MAIS SABEDORIA, MENOS TÍTULOS: “Não foi apenas a Língua Inglesa que eu conscientemente decidi não aprender. Houve outras habilidades que não quis pra mim. Fiz apenas uma Especialização, e depois de vários anos de formado na graduação em Direito. Não quis Mestrado. Doutorado, nem pensar. Não porque eu despreze o conhecimento. Pelo contrário. Tenho muito apreço por ele, e quem me conhece o sabe muito bem. O caso é que nunca me apeguei a títulos, diplomas, ou coisas semelhantes. Importa-me mais o saber. Há também quem saiba muito e tenha os seus títulos na parede. Nenhum problema. Parabéns. Mas eu não quis nada além do básico na minha parede. Meio espartano”.


Pois bem. Acho que já ficou claro o quanto eu considero importante a ÁREA INTELECTUAL da vida. Mas o que a compõe? Quais seus ingredientes? (para mantermos sempre viva aquela analogia com a pizza). Bem, eu estruturaria a intelectualidade pessoal em dois blocos, um consistente na Educação Formal, e outro consistente no Autodesenvolvimento. Como se verá a seguir, não são blocos estanques. Há zonas de intersecção, onde você bebe um pouco das duas fontes.

EDUCAÇÃO FORMAL: escrita, leitura, idiomas, escola, cursos, graduação superior, especialização, MBA, mestrado, doutorado.

AUTOEDESENVOLVIMENTO: leitura, escrita, cursos, inteligência emocional, cultura geral, sabedoria.

Evidentemente, não temos ali duas listas fechadas. Coloquei alguns exemplos, de um leque que pode se abrir para muitos mais itens em ambos os blocos.

“Mas Fer, explique melhor essa coisa de um mesmo elemento da vida intelectual estar nos dois blocos. A escrita e a leitura, por exemplo, o que as distingue numa abordagem e na outra?”. Boa pergunta. A resposta tende a clarear as coisas.

Após o aprendizado da fala, esta sim o “marco zero” para a apreensão de conhecimentos e, por consequência, sendo ela o veículo primário para aquisição de alguma bagagem cultural – ou muita, pois há pessoas analfabetas que dão show em diplomadas – chega a hora do próximo nível: LER e ESCREVER. Parêntesis: a essa altura você pode estar se perguntando por qual razão estou me detendo em elementos tão básicos, ao invés de partir para o que realmente interessa. Resposta: então, é justamente aí que a coisa enrosca. Se o básico não foi bem feito, como avançar para os idiomas, cursos, especs e tudo mais?! Modestamente (ou não, rs), digo que sou um bom leitor e um escritor em processo de formação. Sabe por quê? Porque uma base muito boa foi lançada lá atrás, desde umas 4 décadas para cá. Iniciou-se um ciclo virtuoso de conhecimento, no qual o domínio da linguagem foi, é e continuará fundamental. Se eu não acreditasse nisso, por qual razão ainda hoje eu continuaria estudando a Língua Portuguesa? Eu já a conheço suficientemente bem para produzir mais 1000 escritos como este. Mas não sei tudo. Seguramente jamais a dominarei completamente. E por isso vou me contentar com os poucos anos de Ensino Formal de Língua Portuguesa que tive nos bancos escolares? Certamente que não. Investi muito mais horas nela na fase do Autodesenvolvimento, do que na primeira. É disso que estamos falando.

Eu me recordo perfeitamente bem que nos meus tempos de escola, quando o caderno de algum colega passava por minha mão, era tudo compreensível. As pessoas sabiam escrever, liam fluentemente; uma interpretação básica de texto não era uma luta. Mas não apenas hoje, mas já de vários anos para cá, noto a escassez desses fundamentos. Pessoas graduadas mal sabem escrever. Comunicam-se, é verdade... com um vocabulário de 500 palavras. Eu lido com textos e documentos diariamente – não entrarei em detalhes, por óbvio – mas quantas e quantas petições de advogados eu preciso decifrar, para dar o encaminhamento seguinte. E olha que hoje há modelos para tudo na internet. Mas precisou produzir algo inédito, autoral... vixi, a coisa é feia.

Enfim, para você que não viu muito sentido nos dois parágrafos acima, só peço um pouco de paciência. Pessoas bem jovens podem ter acesso a este escrito, e está em tempo de serem alertadas para a importância dos fundamentos. Ou pessoas em etapas já mais avançadas da vida, que deixaram também de lado essas bases, poderão ainda correr atrás e tornarem-se boas leitoras, e escreverem fluentemente na própria língua natal. Vi exemplos de ambas as categorias. Dentre os mais jovens, a filha de um amigo meu, que do alto dos seus 12 ou 13 anos adorava tirar onda comigo porque eu sempre estava com um livro em mão. Chamava-me de nerd, esquisitão, intelectual, etc. De meu turno, eu pegava muito no pé dela para começar a ler, até que consegui. Não muito tempo depois, a Júlia estava concluindo um volume após o outro. Hoje é uma moça, deve se casar em breve. Até onde sei, participou com um texto num livro já publicado, de diversos autores adolescentes. Por estas lentes, ela me ultrapassou, pois ainda não publiquei meu primeiro. E dentre pessoas mais maduras, que vi se voltarem para o básico, na busca de crescimento, está meu tio e grande amigo Mário Lago. Já na faixa dos 40 anos, com várias lacunas em sua Educação Formal – precisou trabalhar muito cedo – algumas circunstâncias da vida exigiram dele mais preparo do que ele possuía. Detestava ler. Um cara inteligentíssimo, construiu muito, venceu. Mas havia lacunas intelectuais, leituras básicas que nunca tinha feito, cursos, etc. Decidiu entrar no processo e começou a ler mais, sozinho, na raça, X horas por dia todas as manhãs; e assim foi crescendo, crescendo, e crescendo em conhecimento. Conversar com ele é sempre enriquecedor. Antes de ele ter se tornado um leitor, já era; depois, então, aí fica até difícil acompanhar os raciocínios 3.0 dele. É genial. Quantas pessoas você conhece que se tornaram Químicos, sem ter passado pela Educação Formal?! Pois é... titio é o cara!

Resumindo: LEIA! LEIA! LEIA! “Mas ler o quê, Fer?!”. Comece. Apenas comece. O refinamento virá com o tempo e a experiência.

Ler, portanto, situa-se tanto no bloco da Educação Formal, como também no do Autodesenvolvimento. Assim, se suas leituras mais intensas ficaram num passado distante dos bancos escolares, e de lá para cá você malemá concluiu 1 ou 2 livros por ano – estou sendo generoso; as estatísticas afirmam menos que isso – está na hora de acordar e colocar isso em ordem. “Ah Fer, mas eu não gosto de ler. Ainda assim eu me graduei e pós-graduei, tudo isso sem ter essa tua paixão aí pelos livros”. Eu sei, eu sei. Ter bons diplomas na parede é possível, mesmo sem ter lido ou estudado muito; ou estudado apenas para as provas e o TCC. Mas e aí, deixando os canudos de lado, você conseguiria olhar para o espelho e ver ali uma pessoa intelectualmente notável? Obs: é nessa parte que muita gente passa a não gostar de mim, rs.

Escrever então... aí já é pedir muito, né? Calma, Calma. Não estamos aqui a sugerir que todos cheguem a ser um Machado, um Camões, um Lobato (para citar apenas caras que produziram em Português). Esses foram pontos fora da curva, gênios. Refiro-me a escrever meramente como uma disciplina intelectual, para colher todos os seus benefícios. Diferentemente da leitura, que é um processo mais passivo, na escrita você precisa acessar toda a sua bagagem de vida (cultura, leituras, lembranças, criatividade, dados, etc) para que uma frase venha à existência. Processo ativo. Processo criativo por excelência. E pensar que desse nada que passa a existir, com PALAVRAS você pode tocar vidas, fazer rir ou chorar, matar ou trazer vida. Tomo como exemplo o que é, para mim, o maior discurso do século XX:

“Muito embora grandes extensões da Europa e antigos e famosos Estados tenham caído ou possam cair nos punhos da Gestapo e de todo o odioso aparato do domínio nazista, nós não devemos enfraquecer ou fracassar. Iremos até ao fim. Lutaremos na França. Lutaremos nos mares e oceanos. Lutaremos com confiança crescente e força crescente no ar. Defenderemos nossa ilha, qualquer que seja o custo. Lutaremos nas praias, lutaremos nos terrenos de desembarque, lutaremos nos campos e nas ruas, lutaremos nas colinas; NUNCA NOS RENDEREMOS. E se, o que não acredito nem por um momento, esta ilha, ou uma grande porção dela fosse subjugada e passasse fome, então nosso império de além-mar, armado e guardado pela Frota Britânica, prosseguiria com a luta, até que, na boa hora de Deus, o Novo Mundo, com toda a sua força e poder, daria um passo em frente para o resgate e liberação do Velho”. (Winston Churchill, ante a ameaça de invasão nazista na Inglaterra)

Link deste discurso no filme “O Destino de uma Nação”: https://youtu.be/3vQ8LCdIfAw

Toda vez que leio estas palavras, sou tomado por emoções. Quase todas nobilíssimas. Mas uma, ao menos, não muito bonita: uma pontinha de inveja (risos). Poderia eu algum dia escrever algo tão bom? Tão vibrante? Tão potencializador? Quem sabe, quem sabe... Comparado a Churchill, que escreveu tais palavras já no crepúsculo de sua vida, ainda sou um menino. Há tempo. Preciso apenas continuar escrevendo, para que os grandes textos venham à existência.

Dito isto, concluo que faz parte de uma VIDA INTEGRAL, no seu aspecto intelectual, não apenas consumir conteúdos, ou colecionar certificados, mas produzir algo para além de si. E vejo na escrita uma das ferramentas mais espetaculares para este mister. Algo que você pode começar hoje mesmo, com o que tem. Sem pretensões. Sem comparar-se aos que são gigantes. Eu já havia escrito muito, mas cerca de 9 meses atrás decidi subir o primeiro texto no blog, e cá estamos hoje no meio da escrita do 73º. Até onde sei, algumas pessoas foram tocadas por alguns deles, de forma muito positiva. Só por isso, tudo valeu a pena.

Quanto ao mais, não vamos nos deter em cada um dos vários itens dos dois blocos da ÁREA INTELECTUAL da vida. A reflexão que pretendo deixar para hoje, a lembrança – pois você já sabe – é que a atenção dada a esta área é importante demais para continuar sendo desprezada, como por muitos tem sido. Instruídas – pelos outros ou por si, autodidaticamente – as pessoas tomarão decisões melhores, terão relacionamentos mais ricos, escaparão de armadilhas e enganos, trabalharão melhor, deixarão legados maiores; tudo diretamente proporcional ao tamanho que decidirem dar ao seu intelecto. Sim, aí está a grande chave de hoje: o tamanho da sua vida intelectual está em suas mãos. Porque ninguém nasce inteligente. Porque ninguém nasce burro. Porque QI é apenas uma referência. Porque QE também o é. Potencialmente, TODOS PODEMOS MUITO. Só que dá trabalho. Ter esta área da vida em plenitude não é para quem quer, mas para quem paga o preço.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

072 RELACIONAMENTOS (parte 3/7)

“Busca satisfazer seu próprio desejo aquele que se isola; ele se insurge contra a verdadeira sabedoria” (Provérbios 18:1)

Tomando este único verso das Escrituras como fundamento para um princípio amplamente encontrado por todo o Texto Sagrado, vamos conversar um pouco sobre relacionamentos. De diversas formas e níveis, eles são componentes de uma área extremamente importante da vida. A terceira de sete partes; e seu lugar não é este por acaso. Depois aprofundaremos esta ideia.

Uma das questões mais inacessíveis para a mente humana é a Trindade; palavra não encontrada na Bíblia, mas apresentada em outros termos. Pai, Filho e Espírito Santo sendo um único Deus, mas cada qual mencionado especificamente, como uma pessoa completa. Doideira, né?! Um Deus que diz de si mesmo ser o ÚNICO DEUS (Isaías 44:6-19 – texto esplêndido, por sinal. Leia!), mas que em Si são TRÊS PESSOAS.

Não me recordo dos detalhes, e o objetivo também não é este, mas sei que ao longo dos séculos houve muitos debates sobre este tema, com “Escola A”, “Escola B”, “Escola C” e etc, trazendo suas conclusões sobre a Trindade. Havendo interesse em conhecer mais, não será difícil encontrar textos sobre o assunto. Aqui nos Escritos Aleatórios vamos nos concentrar naquilo que penso ser uma das características mais essenciais de Deus: ELE É UM DEUS RELACIONAL. Para além – muito além – dos relacionamentos que Deus tem, Ele é relacional em Si mesmo. Pai, Filho e Espírito Santos existindo desde sempre – Eternidade – de uma forma perfeita. Se nada mais houvesse, nenhum ser celestial – do bem ou do mal – ou a criação, e nem o homem (homens e mulheres, claro), estou certo de que Deus não seria um Deus solitário. Muito pelo contrário: Ele desfruta em Si mesmo o relacionamento mais perfeito que pode existir, algo que só podemos imaginar (e com muita dificuldade, por limitações óbvias).

Assim colocado, vejo que RELACIONAMENTO não é apenas um princípio encontrado na Palavra, uma diretriz para a vida, mas é parte da essência do Criador. Consequência natural, por sermos IMAGEM E SEMELHANÇA dEle, é que também está no nosso DNA, na nossa identidade fundamental, a necessidade de relacionamentos. Prova disso é que o Senhor não deixou o homem ao léu. Pelo contrário: Deus deu-se a conhecer, conversava com o homem, deu-lhe atribuições e penso que desfrutavam muito da companhia um do outro. Tudo isso para nos mostrar que o relacionamento fundamental de qualquer pessoa, a base de tudo, é o RELACIONAMENTO COM DEUS.

Sabedor de todas as coisas, em dado momento Deus enxergou no homem uma tristeza. Vendo que todas as criaturas tinham uma companheira, menos ele (capítulo 2 de Gênesis), rolou a primeira BAD da história, e foi justamente por não ter alguém. Então amiguinho, então amiguinha, não se sinta o mais injustiçado e derrotado das galáxias por olhar ao redor e ver todo mundo com alguém, sendo feliz. A primeira tristeza do homem foi bem essa, o primeiro grito silencioso da alma: TAMBÉM PRECISO DE ALGUÉM COMIGO, UMA COMPANHEIRA.

“E da costela que o Senhor Deus tomou do homem, formou uma mulher, e trouxe-a a Adão. E disse Adão: esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada mulher, porquanto do homem foi tomada” (Gênesis 2:22-23).

Mas veja que interessante: Faria sentido o homem sentir falta de algo, se ele tinha relacionamento direto com o Pai, o Deus Eterno, a relação mais perfeita que poderia existir? Pois é, pois é. O fato é que um vazio bateu no sujeito. Um vazio que a Presença poderia perfeitamente suprir – penso eu – mas o Senhor em Sua sabedoria quis deixar aquele buraco no homem, para que a partir dele, e deixando um outro buraco nele – a costela retirada – criasse algo sublime: a mulher. Dele. E para ele. Cara, se isso não te faz enxergar a beleza e a criatividade do Senhor, não sei o que mais fará. É muito perfeito!

Chegamos então ao segundo nível de relacionamento: HOMEM E MULHER, como Deus projetou. O que passa disso é criação humana. “Ah, mas tem isto, isso e aquilo; esta, essa e aquela forma também; e blá, blá, blá”. Não ignoro. Mas é o que é: criação humana. Não é o modelo pensado por Deus. Simples assim. “E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma adjutora idônea para ele” (Gênesis 2:18). Não está escrito lá “um adjutoro”, ou “adjutore”, ou “adjutorx”. É adjutora. Mulher. Cromossomos XX.

O relacionamento HOMEM / MULHER veio para suprir a única coisa sobre a qual é dito na Palavra – antes da Queda, tudo ainda no estado original – que não era bom. Ao final de cada dia, conforme o Senhor ia concluindo seu trabalho criador, ele olhava, analisava e dizia “É BOM”, “É BOM”, “É BOM”, e no sexto dia rolou um “É MUITO BOM”. Numa leitura rápida do texto, temos a impressão de que um curtíssimo período de dias separa os acontecimentos de Gênesis 1 e 2, mas não há certeza objetiva sobre isso. Pode ser que sim. Pode ser que não. Adão viveu 930 anos. Imaginemos – e imaginar não é pecado – que um bom número de anos tenha se passado desde a criação até a instalação daquele forte sentimento de solidão nele. Dia após dia, ano após ano, quem sabe década após década, vendo os animais multiplicando-se, tendo suas crias, formando suas famílias – sim, muitas espécies tem um forte sentido de núcleo familiar – e ele vendo estes processos bem diante do seu nariz. A aproximação do macho para a fêmea, as tentativas, as unhadas que elas às vezes dão – mas é só charme, te querem perto; enfim a união, os prazeres, a geração de novas vidas, os ensinamentos da sobrevivência para os filhotes... para tudo se repetir dali um tempo, em novos ciclos de vida, geração após geração. 

Tinha como não sentir um vazio? Tinha como não querer o mesmo? A Palavra diz que as obras do Senhor são maravilhosas (Salmo 92:5). Penso que ao ver as obras do Pai em pleno funcionamento, a vida que Ele criou florescendo em todo o seu potencial, o solitário homem desejou o mesmo. Mas olhava para um lado: boi, vaca; olhava para outro: tartaruga, tartarugo; elefante e elefoa; e nada que se parecesse com ele. Simplesmente não existia. E assim, naquele mundo perfeito, onde tudo era BOM, BOM, MUITO BOM, pela primeira vez ouviu-se a declaração “NÃO É BOM”, dita pela boca do próprio Criador: “Não é bom que o homem esteja só” (Gênesis 2:18). Mas não foi um esquecimento, um erro de cálculo, quem sabe um remendo que Ele precisou improvisar para que pudesse novamente dizer TUDO É BOM! Não, não. De jeito nenhum. Foi assim porque Ele queria que o homem sentisse a dor e o vazio da solidão, o desejo de ter alguém, para então conhecer a maravilhosa sensação de ter esse vazio preenchido por algo criado pelo Pai, a partir dele, e para ele. Um relacionamento conjugal.

Do seio deste segundo relacionamento, brota um terceiro: FAMÍLIA. “Uai, Fer. Mas o homem e a mulher não formavam uma família? Pessoas que não geram filhos não são também família?”. A resposta é positiva para ambos os questionamentos, mas acho válido fazer uma distinção: RELACIONAMENTO CONJUGAL aqui entendido como a união do homem e da mulher. RELACIONAMENTO FAMILIAR entendido como todas as ligações parentais que temos (marido, mulher, filhos, avós, tios, sobrinhos, primos, etc). O conjugal veio antes, e a partir dele foram geradas as famílias. Assim, entendidos os termos, precisamos destacar a importância dos relacionamentos familiares.

Felizmente, e graças a Deus por isso, fui gerado no seio de famílias muito especiais. Tanto pelo lado do pai, como também pelo da mãe, famílias que conheciam e amavam – e continuam conhecendo e continuam amando – a Deus. E dessa mistura, da união conjugal originada a partir de um homem dessas famílias e de uma mulher dessas famílias, nasceu uma nova. Outro princípio bem raiz, fundante: “Portanto deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e unir-se-á à sua mulher, e serão uma só carne” (Gênesis 2:24). Este o “marco zero” das famílias. Curiosidade bíblica: o mesmo texto é encontrado em Marcos 10:7-8 e Efésios 5:31.

Gosto muito de uma frase amplamente repetida pelo Pastor Saulo de Mello: FAMÍLIA É PROJETO DE DEUS.

Não por acaso, por volta de 1900 a.C., de repente o Senhor puxa prosa com um homem chamado Abrão: “Sai da sua terra, do meio dos seus parentes e da casa do seu pai, e vá para uma terra que eu lhe mostrarei. Farei de você um grande povo, e o abençoarei. Tornarei famoso o seu nome e você será uma bênção. E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as FAMÍLIAS da terra” (Gênesis 12:1-3). Algumas traduções trazem “todos os povos da terra”, mas a minha favorita (Almeida Corrigida Fiel) fala em FAMÍLIAS.

FAMÍLIA É PROJETO DE DEUS. Família é uma bênção. Família é também algo abençoador. Ela tem propósitos que extrapolam as suas “fronteiras”, os seus componentes propriamente ditos. É algo sobre o que tenho até certa dificuldade de colocar em palavras as minhas impressões e entendimentos. Quem sabe numa revisão deste escrito – o que sempre acontece nos 2 ou 3 dias seguintes à publicação – eu venha acrescentar algumas linhas. Por ora, fica registrado ser este o terceiro nível de relacionamento estabelecido por Deus, e que deve fazer parte de uma VIDA INTEGRAL.

Um quarto nível, que muito se assemelha ao anterior, é a FAMÍLIA DA FÉ, ou FAMÍLIA DE DEUS (Gálatas 6:10; Efésios 2:19; Marcos 3:33-35; Gálatas 4:4-7; Efésios 1:5-6; João 1:12-13; e muitos outros textos). A IGREJA, a Noiva do Cordeiro, formada por todas as pessoas que deixaram de ser apenas criaturas, passando para a especialíssima condição de FILHOS DE DEUS. “Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus, ou seja, aos que crêem no seu Nome” (João 1:12). Neste lugar, muito parecido com a família natural, ocorre um processo de crescimento, aprendizado, maturidade, entendimento de propósito, e enfim frutificação. Da mesma forma que na família natural não faria sentido simplesmente crescermos (em tamanho) e ali estacionarmos, na família de Deus não cabe a estagnação. Pelo contrário: encontramos na Palavra muitos e muitos textos que deixam claro o desejo do Senhor em ver seus filhos alcançando maturidade, frutificação, legado. Em outras palavras, nosso relacionamento na Igreja não pode se limitar a reuniões mecânicas, previsíveis e agendadas, cuja liturgia conhecemos de cor e salteada. Se é certo que ali recebemos muito, especialmente quando somos crianças na fé, a coisa só estará no lugar certo se crescermos, amadurecermos, e chegarmos à condição de passar para outros tudo aquilo que recebemos primeiro. Uma visão geracional. A geração atual deve entregar uma próxima melhor, e assim sucessivamente. Gerações melhores e melhores, até que a Noiva esteja preparada para o casamento com o Cordeiro de Deus. Ficar sempre na mesma, não me parece refletir algum princípio do Reino.

Por fim, chegamos ao que eu chamaria de TODOS OS DEMAIS RELACIONAMENTOS. O quinto tipo. Amigos. Colegas variados. Conhecidos. Pessoas estranhas, mas que cruzam nosso caminho. No escrito 006 MAR DE GENTE eu falo sobre isso. Milhares de pessoas estão neste nível relacional. Embora com laços muito menos fortes e estruturantes que os 4 anteriores, precisamos deles também. Talvez – um talvez meramente retórico – eles precisem mais de nós do que nós deles. Explico: se conhecemos ao Senhor e fomos alcançados por seu Amor, é papel de cada um dos seus filhos fazê-Lo conhecido. Sal fora do saleiro. Luz sobre o velador. Mateus 5:13-16. Poderíamos aprofundar, mas você já entendeu.

O que gostaria de destacar nesses “demais relacionamentos”, é o quanto eles nos moldam. Afinal, se nos 4 tipos anteriores a tendência é que encontremos muito mais afinidades, acolhimento, amor, convergências, neste nicho “residual” (todos os demais) existem muito mais pessoas que não pensam como nós. Há mesmo aquelas que nem escolheríamos manter proximidade, mas por circunstâncias da vida precisamos conviver. E isso é bom, sob alguns aspectos. Um deles, pelo menos, o de nos permitir lidar com as divergências, ouvir opiniões contrárias às nossas, oportunidades para aprender a resolver conflitos; coisas assim. Isolamento não é bom, também nesta quinta categoria de relacionamentos. Fazê-lo seria entrar numa bolha hermética demais, impermeável, de onde o sal não passaria sabor, de onde a luz não alcançaria aos que estão no escuro. É de se pensar.

E para finalizar, o pequenino aprofundamento sugerido lá no parágrafo inicial: “A terceira de sete partes; e seu lugar não é este por acaso”.

Coloquei os RELACIONAMENTOS como a terceira área de uma VIDA INTEGRAL, porque acredito que ela deva ser prioridade sobre as 4 que ainda iremos tratar: Intelectual; Profissional; Patrimonial; Geracional. Especialmente as de número 5 e 6 costumam ser bem mal alocadas: dinheiro, poder e bens no topo do pódio da vida, e o resto que se acomode. Uma inversão catastrófica, que observo mais, muito mais do que gostaria. Aos que tiverem acesso a este escrito, deixo o conselho para investirem um tempo pensando nesta escala de prioridades. E se estiver difícil chegar a uma conclusão, eu desenho: RELACIONAMENTOS SÃO MAIS IMPORTANTES DO QUE COISAS.

Eu já fui um cara bem isolado. Hoje, muito menos. Penso ter um relacionamento muito especial com Deus. O conjugal ainda não rolou, mas não jogamos a toalha. O familiar é maravilhoso, muita gratidão a Deus. Os relacionamentos na família da fé já foram mais intensos, e sofreram um baque importante nesses quase 2 anos de pandemia. E os relacionamentos “residuais” (todos os demais) existem e são valorizados. Uma certa proeminência do pessoal da bike, nesses 3 anos que me envolvi muito no esporte. Noutros tempos eram a turma do futebol, ou do clube, das motos, academia, faculdade, MBA. Ciclos que agregam relacionamentos. Alguns poucos permanecem. Muitos findam. E tudo bem. Finalizarei com algo especial que li hoje, escrito pelo Pr. Júlio César (que não conheço):

“Aqueles que deixam você.

Por isso você precisa estar curado(a) para entender que:

Há pessoas que caminharão por longos caminhos com você. Outros, apenas uns passos.

Há pessoas que estarão em muitas páginas da sua vida. Outras, apenas em alguns capítulos.

Algumas pessoas entoarão melodias com você. Outros, apenas algumas estrofes.

Há pessoas que estarão no portão da sua vida, mas não à sua mesa.

Algumas pessoas serão parte da sua história, mas não do seu destino. Elas passarão, mas não vão ficar... Não tenha medo de virar a página. Avance!”

Sobre relacionamentos e ciclos e tudo que tem a ver com coisas do tipo, um dos textos mais sucintos e bacanas que li ultimamente. Possivelmente, seja ele a melhor parte de tudo que você encontrou por aqui hoje.

Relacione-se! É bom. É sábio fazê-lo.

A gente se vê no domingo.

domingo, 5 de dezembro de 2021

071 SAÚDE (parte 2/7)

“Em caso de despressurização da cabine, máscaras de oxigênio cairão automaticamente. Puxe uma das máscaras, coloque-a sobre o nariz e a boca, ajustando o elástico em volta da cabeça e respire normalmente. Depois auxilie a criança ao seu lado”.

Eu não me recordava das palavras exatas deste texto que é lido pouco antes do início de cada vôo. Gosto de fazer as coisas 100% de memória aqui nos Escritos Aleatórios, sem recorrer a consultas, mas como quis ser preciso na citação, apelei para o Tio Google. Encontrei rapidamente o texto, e qual não foi minha surpresa quando vi que a matéria que o continha trazia exatamente a mesma ideia que eu havia pensado para este início do 071. Basicamente, a perplexidade que ele causou em mim, quando o escutei pela primeira vez.

Convidado para um trabalho rápido em Porto Alegre, em fins de 2003, precisei me deslocar de carro até Londrina, pois naquele momento não havia vôos partindo de Maringá até a capital dos gaúchos. Eu, com 26 anos, em minha primeira viagem aérea. Poderia tê-la feito muito antes, mas viajar pra lá e pra cá nunca foi uma pira pra mim. Sou caseiro. Após essa primeira, vieram tantas em anos posteriores, que eu não suportava mais não parar em casa. Pagaria para ter uns dias sossegado no meu canto, sem cortar os céus do Brasil de ponta a ponta, semana após semana, por anos seguidos. Mas outra hora a gente conta essa história.

Enfim, tudo normal, avião taxiando, quando de repente eu ouço a frase que não encaixou bem nos ouvidos. Em outras palavras, mas no mesmo sentido: “coloque a máscara primeiro em você, e somente depois ajude aos outros”. Meu senso de sobrevivência deve ser menor que o de compaixão, pois meu sentimento automático foi o de que aquilo estava errado. Algo como “Não, de jeito nenhum! Eu tenho que ajudar as pessoas. Eu sou forte, jovem e saudável. Dane-se máscara para mim, eu fico sem. Preciso ajudar as outras pessoas”. Jovem padawan total, sem conhecimento sobre as reais circunstâncias de uma cabine despressurizada. Sem oxigênio, eu apagaria em segundos, nada mais podendo fazer pelos outros, e muito menos por mim.

Assisti recentemente a um documentário sobre um alpinista de grandes montanhas, que encarou o desafio de chegar ao cume dos 14 picos com mais de 8000m de altitude que há no mundo, num período curtíssimo de tempo. Isso mesmo, são apenas 14. O famosão Everest no topo da lista. Outro famoso, o K2. E a dúzia restante com seus nomes na ponta da língua da tribo super exclusiva daquele esporte, sendo absolutamente desconhecida do restante da humanidade, parcela em que me incluo. Bem, pelo menos até dois dias atrás, quando liguei a TV. Mas já esqueci os nomes dos demais 12.

Informação interessante foi a de que acima de 8000m respiramos apenas 30% do oxigênio disponível ao nível do mar. Ou seja, você puxa algo para dentro, mas é um ar tão ralinho das vitais moléculas de oxigênio, que você começa a desfalecer. Vêm as fraquezas, as tonturas, alucinações, e enfim o apagão. Eu não conheço essa sensação de puxar o ar e não ter a oxigenação completa, algo que imagino seja experimentado basicamente em duas situações: 1) justamente essa de estar numa altitude extrema; ou 2) ter um problema fisiológico (asma, bronquite, etc) que mesmo em baixas altitudes você não seja oxigenado plenamente.

Tudo isso para dizer que toda a minha saúde e excelente capacidade pulmonar nos 500m de altitude de Maringá, valem quase nada acima dos 8000m dos 14 picos do documentário, e menos ainda nos 10 a 12 mil de um vôo comercial. É despressurizar e apagar. Se não agir rápido, já era.


Passado o desconforto inicial nos ouvidos com a orientação que me parecia errada e egoísta, fiquei pensando naquilo e logo entendi a razão. Fazia sentido, claro. Você precisa estar bem para poder ajudar aos outros. É simples. Por tal razão, a SAÚDE vem como parte 2 das 7 que falaremos nesta série sobre a VIDA INTEGRAL. E essa posição na ordem dos temas não foi sem propósito. Quando minhas reflexões me levaram a entender quantas e quais seriam essas áreas da vida, e esse número de 7 ficou bem consolidado, foi natural pensar também se haveria alguma distinção entre elas, do tipo “Qual é mais importante?”, “Alguma precisa acontecer antes das outras?”, “Legado seria mesmo apenas a última área da vida a se completar?”, “O Espiritual tem proeminência sobre todos os temais temas?”. Lembrando que filosofar tem muito a ver com fazer perguntas.

E paradoxalmente, pensar numa escala de importância ou sequência parece ir na contramão da ideia de que a VIDA INTEGRAL tem várias partes, e que todas elas podem e devem acontecer simultaneamente. Mas é apenas um aparente paradoxo, pois eu realmente entendo que todas as 7 áreas devem acontecer juntas. Aliás, assim o sendo, o processo é mais leve e rápido, uma coisa puxa a outra. Assim, a tal “ordem” seria apenas um exercício do pensamento.

É mais importante ter uma vida saudável ou uma vida espiritualmente plena?

É mais importante ter uma vida saudável ou bons relacionamentos?

É mais importante ter uma vida saudável ou estudar e aprimorar-se sempre?

É mais importante ter uma vida saudável ou ser muito produtivo no trabalho?

É mais importante ter uma vida saudável ou focar na construção de um bom patrimônio?

É mais importante ter uma vida saudável ou deixar um precioso legado?

Vamos lá. Não apenas leia rapidão e prossiga para as próximas linhas do texto. Responda com franqueza, sendo sensível ao primeiro impulso que te vier. Se o fizer, acredito que para todas as 6 perguntas, a segunda parte será considerada mais importante do que a saúde. Afinal, como colocar em segundo plano Deus e todo o mais que tenha a ver com a área espiritual da nossa vida? Ou a boa saúde na frente dos nossos relacionamentos? Assim também, vale o mesmo para os estudos, o trabalho, a importância de um bom patrimônio e o tão especial legado que cada pessoa gostaria de deixar, como uma marca que falará por ela, mesmo depois de partir.

Mas sabe o que eu acho? Eu acho que tem uma pegadinha nessas perguntas. Um desconforto nos ouvidos, semelhante ao que senti quando ouvi a leitura do texto das máscaras de oxigênio. Tirante uma vida espiritual plena, que você poderá desfrutar em toda e qualquer circunstância, aconteça o que for, haja o que houver, esteja você vendendo saúde ou no pó da sequidão (como Jó), as outras 5 áreas da vida dependerão da máscara de oxigênio da saúde para que você possa vive-las plenamente. Ou você conseguirá desfrutar todos os melhores relacionamentos da vida, se estiver definhando numa cama? Poderá estar com seus amigos? Poderá desfrutar o amor com quem você ama? Haverá meios de estudar e aprimorar-se se toda a sua energia precisar ser direcionada para mantê-lo vivo, numa luta ingrata contra um vírus mortal? Qual será seu nível de motivação para ter um bom trabalho ou construir excelente carreira se você não estiver saudável? Questões patrimoniais parecerão (porque efetivamente passarão a ser) secundárias para você, ante um diagnóstico terrível. E legado, quem conseguirá dedicar-se a um legado, se o dia de hoje pode ser o último?!

“Poooxa Fer, apelando heim?!” É, eu sei. Apelei de leve, mas tudo com o bom propósito de alertar para a importância da saúde, como uma premissa para que todas as demais coisas da nossa vida, que são sim IMPORTANTÍSSIMAS também, alcancem sua máxima efetividade. A criança ao meu lado (meu filho), ou a mulher na poltrona que aperta minha mão (meu amor) são evidentemente muito mais importantes para mim do que a minha própria pele, e a maior expressão de amor que poderei lhes dar é querer o seu bem no lugar do meu, a sua vida preservada no lugar da minha. Mas quando tudo estiver um caos, quando as cabines da vida despressurizarem, eu só poderei expressar este grande amor se eu puxar primeiramente para mim a máscara de oxigênio. Eu serei o melhor pai, o melhor marido, o melhor amante (da espooosa, ow!!!), o grande amigo, um bom discípulo, se eu estiver bem, respirando, saudável, funcional. E isso não tem a ver apenas com saúde física, mas especialmente a tão negligenciada saúde emocional, e a por tantos desconhecida saúde espiritual.

Uma saúde integral será (é!) a oxigenação que precisamos para que todas as outras 5 áreas da vida aconteçam bem. A sétima – e 1ª em importância – pode ser incrível com ou sem saúde, mas as demais não. Elas dependem de você bem.

A ideia original para este escrito 071 seria, semelhantemente ao que fiz no anterior, colacionar diversos tópicos relacionados à saúde (exercícios, sono, alimentação, redução do estresse, etc) e comentar um pouco de cada, quase sempre mencionando algumas práticas que tenho. Mas preferi fazer diferente. Você já sabe o que uma boa saúde pede. Estamos carecas – eu, mais que você – de saber o que precisa ser feito. E se fazemos ou não, aí é decisão pessoal de cada um. Porque escolher, deliberadamente, não ser saudável, é um caminho. Um péssimo, na minha opinião, mas ele está aí, e muita gente vai por ele. Ou, se não o escolhe propositadamente, acaba enveredando meio que sem se dar conta. E ao adoecer lentamente, seja física, seja emocional, seja espiritualmente, começa a colher disfuncionalidades nas demais áreas. E corre atrás, e estuda mais, e trabalha mais horas, e tenta e tenta e tenta acumular mais e mais, na esperança de que isso melhore as coisas. Mas ao final, doente e destruído, não desfrutou tudo que poderia.

Mais do que uma lista de receitinhas sobre o que e como fazer para alcançar boa saúde, o escrito de hoje vem como uma reflexão sobre como olhar para ela, e vê-la como um elemento potencializador de tudo mais que tenha a ver com as outras áreas da vida. A máscara de oxigênio que precisamos, não apenas para nossa sobrevivência, mas para que as vidas de quem amamos possam ser tocadas positivamente por nós.

082 PALAVRAS AO VENTO

Uns dois ou três dias atrás fiz algo que há muito tempo abandonei. Numa rede social, após ver a postagem que me chamou a atenção – de temáti...