terça-feira, 28 de setembro de 2021

061 IGNORÂNCIA SELETIVA

Acordado que fui, minutos atrás, por um inconveniente pernilongo que saboreava meus pés, não deu outra: passei a mão no celular, olhei duas ou três coisas, deixei de lado e me coloquei na posição (também de lado) para novamente dormir, mas não rolou. Foi quando notei que se passasse novamente a mão no celular, acabaria “investindo” um bom tempo por ali vendo nada. Leitura? Hum... não animei às 3h da madrugada. Já o fiz muitas vezes, mas hoje não. Levantar para comer algo? Claro! Já o fiz. Então vim para cá.

Semana de férias e de repouso forçado ao mesmo tempo. Pós-operatório correndo bem demais, graças a Deus. Ontem até rolou uma zoeira no grupo de bike, após um amigo ter feito uma montagem de foto minha, com aqueeeela franja de respeito, e foi a maior risadeira. E sabe que ficou legal?! (risos). O resultado final não ficará como o daquela imagem, pois eu precisaria agregar à região transplantada um volume de fios bem maior do que a realidade permitiu, mas te digo que se algo próximo daquilo acontecer, a versão com cabelo ficará bem, bem, bem legal. Como eu imaginava, aliás. Problemas com a imagem atual no espelho? Sim e não. Sim, porque comecei a me perceber usando demais o boné e me sentindo confortável assim. Não, porque nem de longe em algum momento da vida me achei feio, algo com que meus amigos discordarão totalmente, e eu acho ótimo isso. Que continuem achando horrível qualquer versão minha, careca ou de topete.

Duzentas e poucas palavras te enrolando, então vamos ao que interessa. Bora falar sobre minha IGNORÂNCIA SELETIVA.

Este escrito constitui-se numa das muitas pequenas continuações de um que curti demais escrever: o 031 REFÚGIO MENTAL. Aliás, para que as melhores compreensões deste 061 sejam absorvidas, eu recomendaria fortemente a releitura daquele. Mas, se você não o fizer, ou deixar para depois, eu transcrevo um trechinho que resume bem a ideia lá trabalhada, pouco mais de três meses atrás:

“Pincelamos então umas ideias sobre quatro tipos de bolhas, para finalmente, depois de eu te enrolar com quase 1000 palavras, naquela conhecida meada meio caótica da minha construção textual, captar sua atenção e começarmos a falar do que realmente importa. Nosso quinto tipo de bolha: um REFÚGIO MENTAL.

Essa bolha é diferente das quatro anteriores, mas contém um pouco de cada. A melhor parte de cada. Chegaremos lá. Antes, porém, importa dizer que um refúgio mental é importante. Precisamos ter. Refúgio remete a um lugar de proteção. Mental remete a mente, o objeto que será protegido neste refúgio. Disse da importância desse lugar, porque entendo que hoje uma das coisas mais desejadas de quem detém o poder é conseguir captar mentes. Em qualquer nível: comercialmente falando. Politicamente. Emocionalmente. Espiritualmente. E tantos e quantos “...mentes” que impliquem em fisgar mentes. Nossa atenção é o grande prêmio. Uma mente capturada vale ouro”.

Pois é. Como você viu, dar uma enrolada antes de ir ao ponto central, é artifício habitual nos meus escritos. Quem segue o blog com mais regularidade, já “fragou” essa e umas outras manias minhas, quanto ao estilo textual.

Segue mais um recorte:

“Lembra-se das 4 bolhas que falamos no começo do texto? Pois então, nós pegaremos o melhor de cada uma delas para construir a nossa. Um lugar de proteção para a mente. Nosso REFÚGIO MENTAL. Vamos lá. Vou te contar como eu elaborei o meu. É tipo receitinha de bolo mesmo”.

Cara, na boa, corre lá para o escrito 031. Ele é viajadão, malucão, mas é DE LONGE um dos textos que mais me orgulho de ter produzido. Sem falsa-modéstia – coisa que deixei bem claro desprezar, no escrito 053 MAIS QUE VENCEDORES – eu considero mesmo o 031 um textão de respeito. Aquele dia o teclado esquentou. E foi assim, e eu gosto tanto dele, porque ele representa meu cuidado com algo que considero importantíssimo, como já dito: NOSSA MENTE, O GRANDE PRÊMIO. Tem muita gente atrás dela, quer você se dê conta, e ligue ou não para isso. Alguém vai fisgá-la.

Antepenúltimo recorte, se você não foi mesmo para o meu textão de estimação:

“O terceiro ingrediente para construção da nossa bolha, nosso refúgio mental, é a colocação das barreiras necessárias para que as contaminações do mundo exterior não nos matem. Semelhantemente àquela imagem que trago do filme que assisti, penso ser necessário estabelecer o que pode e o que não pode agora estar dentro. Gases tóxicos ou ar puro? Palavras de vida ou mensagens de morte? Boa música ou lixo sonoro? Você já entendeu. Filtros. É necessário colocar filtros para que entre o que é bom, e fique fora o que é ruim”. (...) “E falando então em alimentação da nossa mente, o pouco que tocamos, cheiremos ou degustamos fica ainda menor. Aquilo que vemos e ouvimos é o arroz com feijão, carne de panela, salada e ovo (zóião) da nossa mente. A sustança entra por estes dois canais principais”.

Quais canais?

VISÃO e AUDIÇÃO.

“Na navegação na internet o troço fica mais melindroso. Embora eu tenha a impressão de que estou no controle, a coisa é feita para que eu veja o que “eles” – o que quer que “eles” signifique – querem que eu veja. Vez por outra caio na cilada. Lembro-me de algo que preciso pesquisar, então puxo o celular e lá estão 3 ou 4 ou 10 notificações de Apps diferentes. Acabo deixando de olhar o que eu precisava, para perder preciosos minutos com bobeiras. Ainda acontece, mas cada vez menos. Desabilitei as notificações da maioria dos Apps. Cedo ou tarde deixarei Off para todos, de modo que eu acesse apenas voluntariamente o que eu decidir ver, e não reagir como um cão treinado aos comandos condicionantes. Pavlov total no rolê”.

Pronto. Agora sim, com o penúltimo recorte do 031, novamente te enrolando com umas mil e poucas palavras – na verdade, estava te re-contextualizando – a gente parte pra prosa de verdade, algum conteúdo novo.


Em dias recentes, separadas por poucos dias, tive duas conversas. De forma não planejada ou intencional, em ambas as situações eu usei uma mesma expressão: “ÀS VEZES EU ME SINTO TÃO BURRO”. As reações foram mais ou menos as mesmas. Sou péssimo para descrever expressões faciais, mas o caso é que uma delas nem falou nada. Deu aquela olhada do tipo “Cala a boca, Fer. Você burro? Nada a ver”, e seguiu com a prosa numa outra direção, deixando claro que eu só estava querendo bolinho (para quem não conhece a expressão, seria autodepreciar-se só para colher um elogio). Não era o caso. Já a outra pessoa foi bem mais dramática e enfática: “Você burro, Fer? Meu Deus! Ooooonde? Olha quantos livros você já leu; quantos textos fantásticos escreve, um após o outro; quantas vezes já te vi ensinando sobre algum assunto, e fico ali pensando ‘como ele consegue conectar tantas coisas e ser tão claro?’; como eu aprendo contigo a cada conversa e nem vejo as horas passarem?!”. Enfim, ela parecia minha advogada defendendo-me de mim mesmo, que tentava me dar um auto-veredito de burro. E não, eu também não estava querendo bolinho. No fim a gente riu bastante, e tinha bolo. Um bolo de milho. Aliás, nas duas conversas recentes havia bolo de milho à mesa. Eu amo bolo de milho.

Mas pior que é sério. Eu sou sincero quando digo que às vezes me sinto meio burro. No fundo, sei que não sou. Mas sei também que, eventualmente, questionar-se sobre isso é bem salutar. Tipo uma checagem. Você sabe o seu peso, mas sobe na balança mesmo assim.

Tá, tá, tá, mas e o tal REFÚGIO MENTAL? E a IGNORÂNCIA SELETIVA?

“Eu vivo numa bolha. Todos vivemos. Mas eu vivo numa que eu fiz, e que vai sendo feita de pouco em pouco, do meu jeito, com os meus critérios, com os elementos que escolhi voluntária e conscientemente inserir. Ele é boa. Ela é segura. Ela é muito bem filtrada. Ela é leve, móvel e transparente, como essa da imagem que escolhi para o escrito. E ela tem uma outra característica muito preciosa, encontrada nas bolhas de sabão: quando encontra outras, não se repelem; não estouram. Elas se ligam. Novas e inusitadas estruturas acontecem. Mas isto é tema para outro dia”.

Assim eu finalizei o 031. E assim chegamos ao “outro dia”, trinta escritos depois.

Dia de contar meu segredo da aparente inteligência, quem sabe até SABEDORIA que dizem ver em mim: ser AUTORAL. Ter IDEAIS PRÓPRIAS. Abraçar uma IGNORÂNCIA SELETIVA. Largar mão de ser um papagaio citador de coisas que os outros pensaram ou escreveram. O mundo está precisando disso. Gente que pensa. É o que eu tento fazer aqui, cada vez que separo umas horas para escrever.

Em meu refúgio mental, cuja barreira de entrada é beeem seletiva, os filtros são rigorosíssimos. Eu cuido de tudo que olho. Eu cuido de tudo que ouço. Mas isso você já entendeu. Agora eu te digo a razão: assim como a saúde do meu corpo – que é fantástica – depende do que eu como, do que eu bebo, da pureza do ar que respiro, do quanto eu consigo gerar estímulos diferentes e complementares neste esqueleto de 44 anos, que tem basicamente a mesma aparência e peso desde quanto eu contava 18 (ééé, tô no shape!!! e agora de cabelo novo), o que acontece no âmbito mental é RIGOROSAMENTE IGUAL. De novo. Em caixa alta: RI-GO-SO-SA-MENTE IGUAL!

Tudo que eu olho com a minha mente precisa ser de qualidade. Tudo o que eu ouço silenciosamente no meu espírito, idem. O ar que oxigena minhas ideias tem que ser puro. E se você acha – digo isso aos que conhecem minha rotina de atleta – que eu sou caprichoso e organizado nos meus muitos estímulos físicos (bike, academia, pilates, terapia manual, sono top, etc), você nem imagina o quanto mais, muito mais eu sou cuidadoso com tudo que se refere aos alimentos do meu interior. A saúde que importa mesmo depende disso. Esses são os verdadeiros alimentos.

Claro, claro, não descuido do alimentos físicos e estímulos físicos. De jeito nenhum. VIDA INTEGRAL. Saúde Integral. Mas está cheio, está lotado de gente que coloca as esculturas gregas no chinelo em termos estéticos, mas que interiormente não conseguiriam conversar por 3 minutos com o pior aluno de um dos grandes pensadores de 24 séculos atrás. Gente linda de olhar, mas enfurnada na Caverna. Gente que sequer ouviu falar do Mito da Caverna. Porque os plugs estão bem firmes e conectados, jogando pra dentro do shape perfeito os “nutrientes” minimante necessários para que eles permaneçam “vivos”, gerando energia para que o sistema continue funcionando. MATRIX BEBÊ. Cara, como eu amo esse filme e a alegoria perfeita que ele conseguiu trazer. O quarto da série vem aí, com Neo no jeitão total de John Wick, outra trilogia que está na minha lista de favoritos.

“Beleza, Fer. Mas e aí? Falou, falou, e qual é boa? Resume pra mim, que tô apressado!”. É a Matrix te chamando para mais um dia como os de sempre? Relaxa, brother. Desacelere.

Essa é a questão. Este o segredo da minha aparente inteligência: IDEIAS PRÓPRIAS. REFÚGIO MENTAL. IGNORÂNCIA SELETIVA. Dica pra vida: Faça o mesmo! Escreva! Pense! Componha! Desenhe! Crie! Gere algo novo. Alimente-se, em todos os sentidos, do melhor que houver. Será um bom começo. Um processo de desintoxicação vai rolar. Vez por outra você ainda dá uma errada, mas cada vez menos. E não se preocupe se você comer, comer, e mais comer coisas boas, e não conseguir citar os autores, ter a eloquência dos famosinhos, colecionar seguidores na casa dos 5 dígitos ou mais, visualizações na casa dos 6, 7 dígitos ou mais. Tem muita gente VERDADEIRAMENTE MUITO BURRA com tudo isso, coberta de ouro, balbuciando lixo todo santo dia. Fuja disso! Pague o preço da autenticidade. Colha os frutos da verdadeira saúde e liberdade. Dê pelota para uma fama de 15 minutos. Seja um anônimo brilhante. Escolha influenciar verdadeira e profundamente uma única vida que seja, do que bovinamente mover  multidões em direção ao nada.

Essa é minha vida. Preocupação ZERO com seguidores, visualizações, impulsionamento, monetização. Comprometimento MIL com tocar positivamente uma única vida que seja, com minhas palavras, minha atitude, gentileza, integridade, bondade, amor. Sem isso, eu nada seria. Ainda que eu falasse a língua dos homens. Ainda que eu falasse a língua dos anjos.

Haveria muito mais por dizer, mas um sono bom deu as caras de novo por aqui.

Duas horas bem investidas.

Dormirei em paz. Meu refúgio mental preservado, cuidadinho. Meu processo de ignorância seletiva sempre no modo ON.

A gente se vê em breve. Nesta semana vamos produzir bastante.

domingo, 26 de setembro de 2021

060 FORÇA, FOCO E FÉ

Força. Foco. Fé. Conjuntinho de três palavras que você já deve ter visto tatuado no braço de alguém, ou então numa camiseta, um pingente, canecas ou onde mais a criatividade humana conseguir colar. Certamente já trombamos com sua hashtag alguma vez nos ambientes virtuais. Particularmente, não posso dizer nem que gosto, nem que “disgosto”. De bate-pronto, soa-me como uma daquelas muitas expressões-amuleto, tais como “Deus no Comando”, “Tamo Junto”, “Foi Deus Que Me Deu”, e tantas semelhantes.

DEUS NO COMANDO mesmo? Pense bem. Dizê-lo é algo muito sério. Implica em dobrar-se ao Seu senhorio, estando pronto a obedecer o que quer que Ele te ordene. Ou existiria a opção de escolher o que obedecer e o que não obedecer? Se sim, se for este o caso, então precisamos atualizar a tatuagem para DEUS NO COMANDO *QUANDO EU ACHAR QUE É LEGAL. Hummm... haja braço para colocar essa frase grandona, heim.

TAMO JUNTO mesmo? Pense bem. Dizê-lo também é algo muito sério. Implica em estar aliançado com alguém a tal ponto, que você permanecerá firme ao seu lado, venha o que vier. Ou seria opção você estar junto nas horas boas, e sair de fininho quando os perrengues começarem a chegar – e vão chegar – na vida do brother? Se for assim, deixe muito claro para ele seu nível de comprometimento, atualizando para algo como TAMO JUNTO QUANDO TUDO ESTIVER DE BOAS, MAS SE VIRE A HORA QUE O BICHO PEGAR. Bem, acho que essa ninguém tatuaria, né.

FOI DEUS QUE MEU DEU mesmo? Continue pensando bem. Porque reconhecer uma dádiva recebida diretamente dEle, implica em reconhecer também que Ele é o Senhor de todas as coisas. O mesmo Deus que dá, é o que pode tirar. E se Ele tira, seu coração continua grato? Seu amor por Ele sofre alguma sombra de variação? Sua alegria é afetada? Ou você só o reconhece como SENHOR quando as coisas vêm, e o despreza quando vão? Pense bem. E tem ainda outro aspecto: as 72 prestações que você pagou pelo carro, o mesmo carro que recebeu no vidro traseiro o adesivo “foi Deus que me deu”, foram pagas direitinho, com dinheiro limpo, todos os impostos recolhidos, seus dízimos e ofertas consagrados ao Senhor, foram antes supridas todas as prioridades em seu lar? Você orou antes de decidir comprar? Ele realmente fez parte do negócio, como seu parceiro na melhor decisão, e como provedor dos recursos em sua vida? Se sim, se você consegue anotar CHECK para toda essa extensa lista, então cole feliz o adesivo no vidro, amigão. E seja pontual em cada uma das 72 prestações, pois atrasar ou dar calote não honrará ao nome do Deus do adesivo.

Poooooxa, Fer! Chegou chegando hoje, heim. Na voadora. Sem anestesia. Qual foi? Tá azedo com o mundo?

Negativo. Tô é muito feliz. Fiz meu transplante capilar nessa semana, dois dias atrás, e tô felizão com o impacto inicial do que vem pela frente. Uma frente que até então tinha um palmo de testa, rs. Agora vai ficar diferente, mais ou menos com o mesmo jeitão que eu usava aos 17 anos de idade, quando raspei a cabeça pela primeira vez na vida – aprovação no vestibular para Arquitetura e Urbanismo (UEL) – e reparei que eu tinha umas entradas. Dali em diante, foram só saídas, porque entradas na verdade significam saída de fios e mais fios do cocuruto.

Mas voltemos ao tema.

“Força. Foco. Fé” pode ter vários sentidos para quem decida usá-los como mensagem. Quem sabe, e eu acho que seja o mais provável, justamente o objetivo de comunicar para as outras pessoas que você é uma pessoa que tem essas características: Uma pessoa forte. Uma pessoa focada. Uma pessoa de fé. Que demais! Se tem mesmo essas três coisas bem evidentes em sua vida, que top! Que tooop mesmo! E eu estimo que tenha, de verdade. Porque um mundo com pessoas assim será bem legal. Um mundo com pessoas fortes para segurar os perrengues de sua própria vida, e ainda fortalecer os que não dão conta sozinhos. Um mundo com pessoas focadas o bastante para encontrarem a direção certa, e orientar aos perdidos em seus caminhos errôneos. Um mundo com pessoas de tamanha fé, que vejam o invisível, andem sobre as águas, movam montes de lugar, ou simplesmente reconheçam em cada amanhecer a presença do Criador... e com sua vida de fé possam inspirar aqueles que ainda não tiveram a mesma revelação.

Este é o mundo que eu quero. Um mundo lotado de pessoas com Força, Foco e Fé. Tem mais coisas, claro, mas esse pacotinho já seria um excelente começo.

E cá estou eu, falando ao vento, falando da janela pra fora, e meu leitor aí do outro lado pode estar se perguntando: “Tá legal bonitão, futuro cabeludo, mas e você? Você tem força, foco e fé?”. Hummm... descobriremos juntos.

O que me trouxe para este escrito, a escolha de seu tema, foi algo que ouvi alguns dias atrás. Não me recordo da fonte, como sempre. Tenho uma memória ridícula, como todos sabem. Eu consigo me lembrar de detalhes específicos de acontecimentos de 40 anos atrás, quando eu mal sabia me equilibrar numa bicicleta com rodinhas, e não consigo gravar um único número de telefone, ou me recordar dos nomes de 2 ou 3 pessoas a quem eu tenha sido apresentado minutos antes, e por aí vai. Para coisas específicas, minha memória é simplesmente péssima. Mas eu gravo a mensagem. O conteúdo fica. A fonte se esvai. O nome eu não lembro. Mas o rosto eu nunca esqueço. É como eu sou.

E o que eu ouvi dias atrás, de uma fonte ora esquecida, é que a característica comum a TODAS a pessoas que realizaram grandes coisas, atende pelo nome de FOCO. Sim, não foi uma pesquisinha qualquer, de um instituto qualquer, que costumeiramente erra quem vai vencer nas eleições. Era algo sério e com método. Centenas e centenas de pessoas proeminentes foram listadas e analisadas, dissecadas em suas características. E imagine a imensidade de itens possíveis: genialidade, riqueza, educação formal, patrocinadores, cargos importantes, longevidade, etc, etc, etc. As mais variadas características humanas identificadas e colocadas nalgum tipo de formulário, para que aquela lista gigantesca de personalidades fosse checada e cotejada, na busca do item fundamental, comum a todas elas.

O resultado: FOCO!

A pessoas que realizaram grandes coisas, todas elas tiveram muito FOCO.


Foco, de acordo com o Tio Google, pode ter alguns significados:

No dicionário: foco é um substantivo masculino que significa a nitidez de uma imagem, a visão de um objeto bem definido, o centro e o ponto de convergência. É uma palavra de origem latina focus que significa o mesmo que FOGO, fogão ou lume;

Num outro dicionário: foco é ter um objetivo, ser determinado a alcançar ou atingir uma meta, ter prioridade em fazer algo, não desvirtuando para outro caminho;

Figurativamente: foco é o ponto para o qual converge alguma coisa (ex: na festa, ele foi o foco das atenções);

Na Física: foco é qualquer ponto para o qual converge, ou do qual diverge, um feixe de ondas eletromagnéticas ou sonoras ou feixe de raios luminosos;

Na Medicina: foco é o ponto dentro do corpo de onde se propaga uma doença;

Na Geologia: foco é o ponto de origem de ondas de um terremoto.

E a lista poderia estender-se mais e mais.

Sabe o que eu não sabia até agorinha, e que agora sei, e que sempre esteve bem à minha frente – talvez também à sua – e que quando a gente se dá conta, parece até bobo, de tão óbvio? FOCO É FOGO!

Que definição simples. Que figura perfeita.

Ter foco é ter fogo. É queimar por algo. Uma pedra enorme de gelo poderia estar a alguns centímetros de nós, sem nada causar. Mas um pequeno palito de fósforo acesso, à mesma distância, não passa desapercebido de jeito nenhum. Porque o fogo é poderoso. Embora instintivamente o temamos, o fogo é causa de vida. O zero absoluto negativo, equivalente a -273,15 graus Celsius, que nos mataria só de pensar, não o faz porque a aproximadamente 149 milhões e 600 mil quilômetros de nós encontra-se um FOCUS, um FOCO, um FOGO que permite a vida.

A galera do Big Bang dirá milhões de coisas para demonstrar que tudo foi a maior e mais complexa conjunção de improbabilidades do Universo, para que as coisas chegassem hoje a serem como são. De minha parte, creio, continuo crendo e sempre crerei que as habilidosas e criativas mãos de Deus pensaram e executaram cada detalhe, para que hoje nos déssemos conta do quão importante é o fogo, o focus, o foco, para que as coisas aconteçam.

Que na manhã de amanhã, segundona, quando você se deparar com os primeiros raios de sol, de fora para dentro de sua janela, você se lembre que as grandes coisas em sua vida acontecerão quando você fizer serem vistos e sentidos os seus feixes, os seus raios, o seu calor, de dentro para fora.


*E para finalizar, respondendo à pergunta que deixei em aberto lá pelo meio do texto: sim, cara, com certeza eu tenho muito foco!

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

059 MEIA VIDA

- E aí, Fernando! Já fez sua inscrição para o concurso?

- Qual concurso, Dr. Mário?

- O da Justiça Federal. Tem edital aberto.

Ele me passa o Jornal de Concursos – fonte primária deste tipo de informação nos idos de 1999 – e eu começo a ler e buscar maiores detalhes.

- Nossa! As inscrições encerram-se hoje!

- Então corra fazer, pois a Justiça Federal é um excelente local para trabalhar.

- Vi aqui no edital que a taxa de inscrição deve ser paga até o horário de término do atendimento ao público, então preciso correr para lá agora.

- Pode ir. As coisas estão tranquilas aqui no setor. Utilize o tempo que for necessário.

Esse diálogo ocorreu em algum momento do primeiro semestre de 1999, na sala do Departamento Jurídico do Núcleo Regional de Educação de Maringá, onde então eu trabalhava. Encontrava-me então no 3º ano de minha graduação em Direito (UEM). Estava interessado em fazer alguns concursos de nível médio por Maringá e Região. O salário no NRE não era tão bom, o caráter jurídico do que eu fazia ali resumia-se em acompanhar procedimentos administrativos disciplinares e, claro, eu queria o quanto antes me colocar numa nova atividade, mais bem remunerada, e que tivesse um envolvimento maior com o Direito como um todo.

Eu sequer ouvira falar, até aquele dia – ou não tinha prestado muita atenção – sobre a existência da Justiça Federal, e muito menos sabia que em Maringá havia uma Subseção Judiciária em pleno funcionamento. Bem, mas já que tinha um edital aberto e vagas para nível médio, bora lá fazer inscrição. Depois eu acabaria olhando melhor o edital, pesquisaria sobre a JF e tal. Mas naquele momento específico, tudo o que importava era correr para a Agência Centro da Caixa Econômica Federal de Maringá e garantir que eu poderia concorrer a uma vaga.

Três quadrinhas à pé, caminhadas rapidamente no final daquela manhã, e lá estava eu no interior da agência. Fui lendo um pouco mais do edital no trajeto, quando notei uma informação muito, muito importante: havia vagas para 2 cargos de nível médio em Maringá: 1 vaga para Atendente Judiciário; 5 vagas para Técnico Judiciário. Valor da inscrição R$30,00. Localizei a ficha de inscrição e enquanto aguardava minha vez na fila do caixa, fui olhando mais detalhes do edital e preenchendo. Não podia haver erro. Foi quando tomei a decisão que mudou minha vida profissional. Uma decisão sobre em qual daqueles quadradinhos anotar um X, que indicaria para qual cargo eu desejava concorrer.

A escolha natural apontava para as 5 vagas de Técnico, e lembro-me perfeitamente bem de ter aproximado a caneta para anotar, mas de repente ocorreu-me um pensamento: “Acho que todo mundo vai nessas 5 vagas. Certeza que a concorrência será absurdamente grande. Vou naquela única vaguinha de Atendente”. E foi o que fiz. Anotado um X no quadradinho da vaga solitária. Fiz com convicção, imaginando ser uma questão lógica.

Beleza. Ficha de inscrição preenchida, documentos pessoais em mão, e chega a minha vez no caixa. Casualmente, a pessoa que me atendeu era uma conhecida de vista. Não me recordo seu nome, mas perfeitamente de seu rosto. Cabelos curtos e encaracolados. Puxei a carteira para pegar os R$30,00 da inscrição e... adivinha? NADA! Eu não tinha um tostão no bolso. Meu Deus! Lascou! E agora?

Eu olho para a moça, ela percebe a situação, e me diz que se eu fosse correntista da Caixa, era só sacar o dinheiro e tudo certo. Mas eu tinha conta no Banestado. É... pois é... eu sou do tempo do Banestado (risos). Não se esqueçam que sou um jovem senhor, nascido no século passado, em plenos anos 70, quando Elvis ainda era vivo. Uai! Mas ele morreu? Diz-se por aí que ainda está vivo. Bem, se sim ou não, eu não sei, mas quando eu nasci, certeza que ele ainda era vivo. Aí eu digo a ela que não tinha conta na Caixa, e ela me dá a informação mais problemática possível naquele momento tão crítico: “Olha, o horário de atendimento ao público está quase fechado. Se você sair da agência, é praticamente certo que não dará tempo de ir até o outro banco e voltar. Se a porta já estiver fechada, você não poderá entrar”. E era isso mesmo, eu teria no máximo uns 20 minutos para correr até o Banestado. Não era opção.

Muita tensão naquela hora.

Eu olhando para o nada, dando a inscrição como perdida, quando a moça do caixa me saca uma sugestão: “Você não conhece alguém aqui da agência? Poderia emprestar o dinheiro”. E eu quase respondo: “Conheço você, mas só de vista. Me empresta trintão?”. Mas não, eu não fiz isso (risos novamente). E olha, foi justamente a sugestão improvável que abriu uma possibilidade de ainda salvar aquela inscrição. Lembrei-me que um amigo meu, da Faculdade (o Paiva) era gerente naquela agência. Não era um simples colega de sala, mas um amigo mesmo. Fazíamos parte do mesmo grupo de estudos, conversávamos muito, dele recebi muitos e bons conselhos para a vida. Um cara que figurava para mim com um tipo de irmão mais velho.

Falei para a moça sobre esta possibilidade e ela foi muito bacana. Disse-me que como eu estava dentro da agência, tinha ainda a possibilidade de concretizar minha inscrição, mas tinha que ser até a hora de fechamento do caixa, que seria dali mais 1 ou 2 horas (não me lembro ao certo). Ela falou que estaria por ali, provavelmente mais ninguém nas filas, mas que me aguardaria até o máximo que pudesse, com o caixa aberto. E vai o Fer atrás desse Paiva. Ela me indicou mais ou menos onde eu encontraria sua mesa, no segundo andar da agência, e fui para lá. Consegui a informação mais precisa sobre sua mesa com um vigilante da agência. Havia várias mesas de gerentes, lado a lado, e quase todas com seus ocupantes ali no momento, menos uma. Justamente a do Paiva. Falei com um de seus colegas e fui informado de que ele estava no horário de almoço, logo voltaria.

Sentei-me num sofá por ali e dá-lhe esperar. Pelo visto ele havia acabado de sair para comer, pois passa meia-hora, passa 1 hora... e nada. Vai inteirando 1 hora e meia de espera e nada. Começou a parecer tudo perdido de novo. Desci aos caixas, certifiquei-me com a moça que ainda estava em tempo, mas ela precisaria fechar meio logo. Não poderia esperar indefinidamente. Corri lá para cima, para ter a visão da esperança: todas as mesas estavam agora com seus ocupantes. O Paiva tinha voltado do almoço. Ele todo feliz pela visita, querendo prosear e tal, me chamando para tomar um café e tal, e eu tentando acelerar ao máximo o processo das trivialidades cordiais, para ir direto ao ponto. Consegui fazê-lo. Expliquei o mais rapidamente possível todo o contexto, para finalmente fazer a pergunta de ouro: “Cara, você poderia me emprestar R$30,00?”

- Não, Fer. Eu não empresto.

Para emendar:

- Eu te dou estes R$30,00, mas não empresto.

- Não, Paiva. Eu tô pedindo emprestado, te devolvo hoje mesmo na Faculdade.

- Não, Fer. Eu não empresto. Estes R$30,00 eu faço questão de te dar de presente.

- Mas se for assim eu não quero.

- Tudo bem, então vai ficar sem sua inscrição (falou ele rindo alto)

- Poxa, se é assim eu aceito (eu disse rindo ainda mais que ele, agora de alívio).

- Fer, você é meu amigo, cara. Eu faço questão de te dar estes R$30,00. Aceite como um presente meu. E vá lá, conclua sua inscrição e passe neste concurso.

Eu mal sabia como agradecer. Devo ter dado um abraço nele, mas sinceramente não me recordo.

Só sorrisos. Só alegria.

Peguei aqueles 30 pila, desci correndo até aquele último caixa onde ainda havia alguém, e lá se encontrava um anjo de cabelos curtos e encaracolados me aguardando, para finalmente efetivar minha inscrição. Ela me disse que segurou até onde pode, que dali alguns minutos teria mesmo que encerrar, mas felizmente deu tempo. Ficha de inscrição preenchida, documentos pessoais em mão, e os TRINTÃO consumaram a coisa toda. Era já pelo meio da tarde. Eu devo ter ficado umas 3 ou 4 horas dentro daquela agência. Capítulo importante da minha história estava acontecendo ali, naquele específico lugar, naquele curtíssimo espaço de tempo. Efeito Borboleta total. Muita coisa teria sido bem diferente, sem a conjunção de todos aqueles pequenos detalhes.

Saber do concurso no último dia de inscrição.

Anotar o X no quadradinho da vaga isolada de Atendente Judiciário.

Encontrar uma conhecida de vista, que ainda hoje eu suspeito ter sido um anjo colocado por Deus naquele lugar para me ajudar.

Ter um amigo como o Paiva exatamente naquela agência, a única pessoa para quem eu teria coragem de pedir uma grana emprestada, naquele contexto.

E o resto é história.

Fiz a prova. Passei no concurso (Ah, se eu tivesse concorrido às 5 vagas de Técnico Judiciário, não teria entrado). Tomei posse em Curitiba no dia 20 de setembro de 1999. Entrei em exercício como Atendente Judiciário na 2ª Vara Federal de Maringá, prédio na esquina das Avenidas XV de Novembro com Duque de Caxias, no final da manhã do dia 22 de setembro de 1999. Exatos 22 anos atrás. E hoje, que conto 44, posso dizer, LITERALMENTE, que já passei MEIA VIDA  a serviço da Justiça Federal. Não é pouca coisa.

Contar os capítulos principais dessa longa jornada, por si só, renderia um livro enorme. Muita, muita, muita coisa nessa jornada. Devo contar alguns causos em escritos futuros. Boas histórias. Porque meus 22 anos na JF foram e ainda tem sido muito bons. Pouquíssimos capítulos com alguma tristeza ou dissabor. Quase sempre as coisas correram bem, muito mais do que um dia eu imaginaria, quando ainda piazão, naquele 22 de setembro de 1999, apresentei-me para meu primeiro dia de trabalho. Uma jornada muito rica estava começando. Sim, histórias que vale a pena contar. Vou contar.

Hoje, 22 de setembro de 2021, com MEIA VIDA na Justiça Federal, tudo que posso fazer é ter um coração grato, muito grato por tudo. Por aqueles personagens iniciais – e sim, tudo nas linhas acima aconteceu exatamente como descrito; pelos meus primeiros colegas de trabalho e pelos muitos que vieram depois e foram se sucedendo nas muitas fases por que passei em setores diferentes; a composição inicial da 3ª Vara Federal de Maringá; minhas primeiras audiências com o Dr. Erivaldo; os aprendizados incríveis com meu Diretor Elsion; o 1 ano e meio que morei em Porto Alegre e trabalhei no TRF4, com as viagens e audiências no Projeto Conciliação; os tempos da Vara Federal do SFH e do Idoso (novamente em Maringá); meu 1 ano a serviço do CNJ viajando pelo Brasil, com os mais de 90 mil processos de presos revisados no período (dos quais 1/3 resultaram em medidas para liberdade); os 2 Prêmios Innovare no currículo; o retorno para Maringá e minha indicação para a Direção de Secretaria (sonho por tanto tempo acalentado); as muitas inovações que pude implementar nos meus 2 anos e meio como Diretor, sempre respaldado pelo Dr. Matheus, e excelentemente auxiliado por toda a equipe da 4ª Vara Federal de Maringá; meu 1 ano como Chefe de Gabinete na Turma Recursal do Paraná, em Curitiba; novo retorno para a Cidade Canção em 2014 e a intensa greve de 2015, com minhas 8 viagens até Brasília; aquela vez, no dia da votação do VETO, em que dormi no gramado da Esplanada dos Ministérios (dias de muita luta, porque não sei não ser intenso em tudo que me envolvo); até que chegamos ao HOJE, quando me encontro na mesma 4ª Vara Federal de Maringá, no mesmo cargo, analisando diariamente petições iniciais, minutando atos, despachos e sentenças, eventualmente substituindo na Direção, sempre participativo nas reuniões, ajudando nos dias de perícias médicas da 4ª Vara (diz a lenda que sempre que estou nesta escala, algum B.O. acontece), mais ou menos adaptado ao Home-Office imposto pela Pandemia de Covid-19, mas agora tendo já alguns dias de trabalho presencial na minha boa e velha mesa lá na JF da Avenida Herval.

É... muita coisa em 22 anos. Muita coisa para um carinha de 44 anos. Tem horas que bate uma sensação meio Forrest Gump, do tipo “Caraca, eu fiz tudo isso mesmo? Estive em todos esses lugares mesmo? Trabalhei em praticamente todos os níveis e setores e funções que um servidor poderia mesmo?”. Pois é. A resposta é SIM. Tudo isso rolou mesmo. E como passou rápido. E como foi bom. E como ainda é bom.

Não sei o dia de amanhã. Parece que ainda terei um longo tempo pela frente na JF. Se sim, que bom. Que venham e sejam excelentes. Se não, se por alguma razão eu não completar uma jornada na Justiça Federal até minha aposentadoria, sempre serei grato pelo muito que vivi, aprendi e ensinei neste precioso lugar. Mas principalmente, grato pelas pessoas que fizeram comigo esta caminhada, influenciando-me e sendo parte do processo que me tornou o homem que sou.

Gratidão. Muita gratidão. MEIA VIDA na Justiça Federal do Paraná.

domingo, 19 de setembro de 2021

058 GUINADA DE 360 GRAUS

“Vou dar uma guinada de 360 graus na minha vida!”, falou o cara, cheio que convicção.

“Aham, só para ficar um pouco tonto com o rodopio e continuar exatamente no mesmo sentido”, pensou o Fer (no “modo xarope”).

Não, eu não falei assim para ele. Pensei quieto, para dentro. Mas de uma forma mais gentil fui explicar que a tal guinada, no SENTIDO de sua fala, deveria então ser de 180 graus. Nele um olhar de incompreensão e tal, testa franzida e tal, e vou lá eu esmiuçando que 180 graus seriam uma “meia volta”, esta sim a mudança total para o sentido oposto, enquanto que 360 graus resultariam numa volta completa, mas sem mudar a sentido.

“E eu lá sou pessoa de dar meia volta?! Nããão, comigo nada é pela metade. Tudo ou nada. Vou dar uma volta completa e mudar tudo na minha vida!”

Aquela respirada. Ele não tinha (ou tinha?) culpa por não compreender Física.

“Você tem uma caneta e um papel?”, eu prossegui.

Então vieram a caneta e o papel. Desenhei os conceitos (ora copiados de algum lugar da internet, mas que na hora eu me recordava das aulas do 2º Grau): Direção e Sentido são orientações utilizadas em Física, necessárias para expressar grandezas vetoriais. Por exemplo, na direção vertical, temos o sentido de baixo para cima, e o sentido de cima para baixo. Enquanto que, na direção horizontal, temos o sentido da direita para a esquerda, e da esquerda para a direita.

Olhos estalados, naquela nítida expressão de quando se descobre algo que é bem simples, mas você compreendeu errado a vida toda. Ficou um pouco quieto, passando a impressão de estar envergonhado por ter insistido na expressão equivocada, quando expliquei verbalmente da primeira vez, e mais envergonhado ainda quando precisei literalmente desenhar na segunda, para que ele finalmente pudesse compreender. E o que veio logo a seguir, nem lembro.

Eu não fiz isso para mostrar ao cara que eu sabia mais do que ele. De verdade, não foi a intenção. Aliás, ele sabe mais, muito mais do que eu em um monte de coisas práticas da vida, mas seguramente sabe bem menos conceitos teóricos que eu gravei na escola. De todo modo, a motivação naquela conversa foi a melhor possível. Apenas a de fazê-lo entender que a forma correta de expressar o seu profundo desejo de mudança, seria dizê-lo no formato “GUINADA DE 180 GRAUS”. E vida que segue. Na mesma direção. Mas agora num novo sentido.

Hoje falaremos sobre MUDANÇAS.

Novamente sem fazer suspense, vou direto ao ponto: EU ACREDITO EM MUDANÇAS.

Acredito, antes de passar qualquer fundamentação teórica, pelo simples fato de eu ter visto mudanças dramáticas acontecerem nas vidas de algumas pessoas. Pessoas próximas. Pessoas que amo. Pessoas que conheço as histórias há décadas. Pessoas que hoje são muito diferentes (para melhor) do que algum (muito ou pouco) tempo atrás. E também acredito porque mudanças importantíssimas já aconteceram em mim, para início de conversa.

E falando em conversa, recordo-me agora de uma em que eu me encontrava, anos atrás, em que o tema era justamente esse: UMA PESSOA PODE REALMENTE MUDAR DRASTICAMENTE? Eu defendia veementemente que sim. A outra pessoa tinha toda a certeza do mundo que não. E nada de consenso entre nós. Argumento pra lá, argumento pra cá; ambos marcando posições inflexíveis sobre suas opiniões a respeito, até que rolou uma tensão mais forte na prosa. Não era o que eu classificaria como discussão, mas chegou bem perto. E para que não virasse nisso, paramos ali. Realmente, sem chance de concordarmos.

- Eu não acredito que ninguém mude de verdade

- Pois eu acredito totalmente que uma pessoa possa mudar.

E fim de papo. Os dois certos, sob seus próprios pontos de vista. Os dois errados, sob os critérios do outro.

E sabe, passados alguns anos, e observadas mais algumas coisas na vida, continuo afirmando, como já o fiz de partida, que EU ACREDITO EM MUDANÇAS.

Aliás, como não acreditar, se este é o chamado essencial do Evangelho?!

Como eu disse no escrito 005 SEXTOU, o “arrependei-vos” inaugurou o ministério de Cristo, assim como tinha sido esta mesma mensagem a tônica de João Batista: Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus”. Palavras ditas por um homem que confrontou sua geração. João Batista, primo e precursor de Jesus. A voz que clamava no deserto, aquele que preparou o caminho do Senhor.

Arrependimento pressupõe algo presente que não está OK, para a entrada num processo imediato que te leve a uma condição diferente. Basicamente, o arrependimento implica numa mudança que precisa ocorrer. Porque se for para arrepender e permanecer exatamente como antes, estaríamos falando na tal Guinada de 360 Graus. A coisa está caminhando e tal, acontece então um rodopio completo na pista (volta completa), e você segue exatamente para onde se dirigia. Mudança nenhuma, a não ser o fato de alguma zonzeira ter ocorrido na hora da derrapada, além da possibilidade de alguns ferimentos naquele processo. Mas tudo como dantes no quartel de Abrantes, expressão sempre repetida pelo meu chefe em conversas nossas (no cafezinho).

Aí eu me pergunto: Por que cargas d´água, se não existe mudança, Jesus requereria de nós arrependimento? já que arrependimento pressupõe mudança. Não faria o menor sentido, como efetivamente não faz.

Abraçar o Evangelho e intencionar permanecer como o de sempre, não tem como. Escolher as partes apetitosas (escrito 045 LETRINHAS PEQUENAS) e descartar as difíceis, não tem como. Almejar uma nova vida, sem morrer para a velha, definitivamente não tem como. Qualquer coisa parecida com isso, redundará em Guinadas de 360 Graus. E como tem disso! Aliás, como eu já fiz isso!!! Sem entrar em detalhes sobre minha fase “vida de chiqueiro” (escrito 018 SEMPRE NA CASA DO PAI) – porque não vejo propósito em ficar contando detalhes e picâncias dos pecados passados – eu muitas e muitas vezes tentei levar as coisas sem a mudança real... apenas para rodopiar e seguir no mesmo estropiado sentido.

Mas mudei.

E sabe o que eu aprendi sobre mudar? Que o processo pode ser lento ou rápido, algo que depende tão somente de mim. De você. Porque mudar é decisão. Decisão que implica em nova atitude. Uma GUINADA DE 180 GRAUS significa – Oooh, que gênio!!! – dar meia volta e seguir para o lado (sentido) oposto de antes. Simples assim. Ou é meia-volta, ou nada mudou.

“Fer, você está simplificando demais as coisas. Não é bem assim. Tem coisas que são complexas”.

Eu sei. Não ignoro. O processo será mais rápido ou demorado, a depender do tamanho do problema.

Dar meia-volta à pé, enquanto se caminha, você o faz num segundo ou menos. Numa bike em meio às trilhas, molezinha, rapidão. Girar 180 graus um automóvel pequeno, a depender do tipo de estrada, vai levar uns instantes ou mesmo alguns minutos, até que você chegue ao ponto de retorno. Um barco grande fará meia-volta num tempo bem maior, e maior ainda se se tratar dum trem, e aqueeeela voltona grande no ar se estivermos pilotando um Airbus A380-800, com suas mais de 275 toneladas (vazio), ou meio milhão de quilos (se carregado).

Tudo depende da carga.

Um novo sentido na caminhada vai depender das cargas que você colocou (ou colocaram) na sua bagagem. Sim, porque tem pesos que você mesmo escolheu carregar, mas também há a possibilidade de você ter sido vítima de abusadores que colocaram pesadas pedras em sua mochila ou porta-malas ou compartimento de carga.

Quando as palavras de Cristo impressionaram o jovem rico, ele rapidamente correspondeu e disse ao mestre que o seguiria aonde quer que fosse. Para logo a seguir calcular o preço da mudança, dar uma Guinada de 360 Graus, ficar triste pelo que lhe parecia difícil demais, e seguir nas mesmas direção e sentido. Afinal, ele tinha muito peso em sua vida para administrar. Deixar tudo por Jesus era uma decisão radical demais para alguém como ele. Enquanto que o jovem conhecido como endemoninhado gadareno teve o mesmíssimo e impressionante encontro com Jesus e correspondeu totalmente, seguiu totalmente, radicalizou. Guinada de 180 Graus. Na mesma hora, um novo sentido. Afinal, ele não tinha nada. Quem sabe uns restos de algemas quebradas em seus pulsos e tornozelos, que Jesus gentilmente fez cair com um simples toque de suas mãos, para fazer daquele rapaz um novo homem. Livre.

É dito na Palavra que esse jovem, até então perdido, violento e sem rumo, tornou-se um propagador do Evangelho pela região de Decápolis (palavra que significa Dez Cidades). Ele foi fundo na mudança. Ganhou para o Senhor não apenas os de sua casa e mais uns conhecidos, mas 10 cidades. Ele era a prova da mudança! A PROVA VIVA. Tento imaginar o espanto de todos aqueles que conheciam sua condição miserável de antes, ao depararem-se agora com um novo homem, organizado, vestido, limpo, em perfeito juízo. Sem palavras, tenho certeza que muitos foram impactados por sua mudança e mudaram também.

Digo pela terceira vez neste pequeno escrito: EU ACREDITO EM MUDANÇAS!

Pelos exemplos que a Palavra nos traz. Pelas pessoas que vi passarem pelo processo. E porque eu mudei também.

Meu processo foi rapidíssimo. Num segundo, como quem anda à pé pelas ruas. Porque vivo uma VIDA DE MOCHILA – escrito que está na fila para vir à existência – com pouco peso, sem cargas desnecessárias, vapt-vupt. Quem sabe sua mudança esteja mais complicada, não porque mudar seja impossível, mas porque as cargas em sua vida sejam grandes demais. Quem sabe as 500 toneladas do Airbus.

Libere os pesos. Não faça cálculos demais, como o jovem rico. Senão você fica nos 360 graus. Se tiver que olhar para algum lugar, olhe para as algemas quebradas em seus pulsos e tornozelos, dê meia-volta na mesma hora; 180 graus, e vá ganhar o mundo para Ele.

Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres. (João 8:36)

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

057 SORTE, COMPETÊNCIA E EXCELÊNCIA

Anos atrás, numa época em que eu ainda assistia TV - tempos distantes, quando dava atenção para o futebol - ouvi a seguinte entrevista:

– Quais seus objetivos no futebol?

– Ganhar tudo duas vezes.

– Como assim? Tipo... ser campeão do mundo duas vezes, ser eleito o melhor jogador da temporada duas vezes, ganhar título continental duas vezes?

– Isso mesmo.

– Mas por qual razão "duas vezes"?

– Ganhar tudo uma vez já seria um feito enorme, muito maior do que algum dia sonhei. Mas outros jogadores já fizeram isso antes. Então, se eu quiser realmente entrar para a história, precisarei fazer mais. Precisarei deixar muito claro que nenhuma daquelas conquistas foi por sorte. Porque com muito trabalho, uma pitada de sorte, e a junção de alguns favores improváveis, ainda seria possível uma pessoa improvável chegar ao topo. Mas duas vezes, não. Para vencer tudo duas vezes, só com muita competência mesmo.

Uns poucos segundos de entrevista, mas que ficaram registrados na minha mente para sempre. Havia uma chave importante ali, uma ideia consistente, que fez todo sentido para mim. Vencer uma vez pode envolver sorte. Vencer duas, só com competência. Mas três vezes... apenas para os que alcançaram a excelência. O acréscimo do TRI foi por minha conta.

Bem, este escrito tende a ser curtíssimo, talvez um dos menores da coleção. Não criei suspense, não ilustrei com dois ou três exemplos da minha própria vida, já fui mandando a letra completa nas primeiras linhas. Tem vez que é assim mesmo; a gente vai pelo simples, porque o melhor costuma estar no simples. Preto no branco. Pá‐pum.

Exemplos de pessoas que foram as melhores em algo uma vez, vamos encontrar muitos. Os que conseguiram repetir o feito, já raleia bastante o lote. Topzera mesmo, bem mais raros, são os que foram ainda mais longe, consolidando-se por três ou mais vezes no topo. Aí já estamos falando em carreiras dominantes, incontestáveis. O cara (ou a mina) chegou a um nível de EXCELÊNCIA!

Aplicação: avaliar se nos contentamos com um resultado isoladão, dando-nos por satisfeitos com uma glória solitária que nos acompanhará pelo resto de nossas vidas, ou se "superamos" esse lugar dourado, para ir além. Pense: daqui 10, 20 ou 30 anos, você falando daquele resultado incrível que alcançou uma vez, e repetindo a mesma história randomicamente, que todos no churrasco já ouviram trocentas vezes. Nada mais aconteceu de relevante? Acomodou? Parou no tempo? Pois é, pois é. Um voo só. Samba de uma nota só.

Alguém já disse que alcançar o topo é difícil, mas manter-se lá é muito, muito mais. Outra verdade, uma verdade que conversa totalmente com a ideia do “um é sorte, dois é competência, três é excelência”. Porque à medida que você chega ao lugar mais alto, um alvo é imediatamente colocado em suas costas. As atenções que não eram direcionadas para você, até então; e relativa menor pressão por resultados, de um tempinho atrás; a coleção de haters que colam um pôster seu no espelho, para dizer todo santo dia “vou ganhar desse cara”... tudo isso agora vem no pacote do Número 1. Um novo contexto. Conseguir ser o melhor novamente significa mais trabalho e dificuldades do que da primeira vez. E se tudo der certo, e você mostrar nos resultados a competência para tal, fazê-lo ainda uma terceira vez aumenta exponencialmente o pacote. Tem gente que nem te conhece, que vai te odiar pela simples perspectiva do seu TRI. “Aonde esse palhaço acha que vai chegar? Tri, não. Tri, não. De jeito nenhum!”

Você é uma pessoa legal, gente boa, trabalhadora, honesta e competente. Mas uma galera te quer pelas costas, porque incomoda ver alguém se destacando. Como dizia um professor meu no MBA, com voz de psicopata: O MUNDO É MAAAAAU!!! E a sala caía na gargalhada. Contava lá uma historinha do mundo corporativo e... O MUNDO É MAAAAAU!!! Módulo incrível de Contabilidade para Executivos. É, galera, o piazão aqui já encarou umas estudações bem fora da curva. Amo aprender, até Contabilidade. Será por isso que algumas vezes cheguei ao topo? (pra pensar com carinho...)

Sim, houve vez em que cheguei ao topo.

Duas vezes? Sim.

Três??? Ahã! Positivo e Operante.

Paremos no Tri, porque seu falar que já fui Tetra, pode soar meio arrogante né.

É TETRAAAAA, É TETRAAAAA! A icônica cena do Galvão Bueno e do Pelé no final da Copa do Mundo de 1994. Tipo, eu detesto o Galvão como narrador e/ou comentarista, mas curto demais aquela cena. Espontaneidade pura. O Brasil não tinha chegado ali por sorte. Já tinha demonstrado competência. Alcançou a excelência em 1970. Para 24 anos depois colocar a quarta estrela no escudo e assim se tornar o alvo de todos. Tinha que gritar mesmo, extravasar, pagar mico em transmissão global. As grandes conquistas devem ser celebradas.

Fica sempre o alerta para não perder a simplicidade, o respeito pelos que foram superados, as boas maneiras enfim. Porque chegar ao topo, e chegar de novo, e de novo e de novo, não te dão um salvo-conduto para se achar o bichão-da-goiaba. Tá, você é, beleza. Mas saiba ser. A excelência sem a decência pode muito bem descambar para uma excrecência. Há tantos multicampeões sem fãs, sem amigos, sem alegria. Têm apenas seus troféus, medalhas ou diplomas, que fatalmente serão alcançados um dia pela traça e pela ferrugem.

Vitórias virtuosas são melhores. Poder segurar as mãos do segundo e terceiro no mesmo pódio, sorrir com eles, ser amigo deles, é tão melhor. Assisti ao vivo uma única prova das Olimpíadas Tokyo 2020 (que ocorreram em 2021, por causa da pandemia). Final da canoagem C1 1000m. Izaquias Queiroz (brasileiro) em primeiro. Foi demais!!! Torci como há muito tempo não fazia. O cara alcançou o topo, finalmente. Nas olimpíadas anteriores, aqui no Brasil, ele conseguiu duas pratas e um bronze. Agora colocou seu nome num rol seleto: poucos atletas brasileiros alcançaram 4 medalhas olímpicas. Top demais! Fiquei feliz por ele. Mas sabe o que mais me chamou a atenção naquele dia? O chinês Hao Liu, segundo colocado na prova. Cara, nunca tinha visto um vice-campeão tão feliz da vida como ele. E justo um chinês, povo que é tido por ser obcecado pelo número 1, mostrando naquele dia uma alegria incontida, um sorrisão rasgado, beijo na medalha, abraço no campeão, abraço no medalhista de bronze. Que cena marcante. Inspirador.

Por outro lado, já vi atletas mal deixando a medalha de prata encostar no peito, para logo tirá-las, envergonhados. Lembro-me até de alguns que as jogaram para a torcida, nitidamente comunicando “Não quero essa droga! Só o número 1 importa”. Lamentável. Hummm... não, não. Que bom que não conseguiram. Com tal espírito, a medalha dourada estaria no peito errado. Que a vitória seja sempre virtuosa. E a derrota, ainda mais.

domingo, 12 de setembro de 2021

056 O PIOR DE MIM

De onde vêm as Guerras e pelejas entre vós? Porventura não vêm disto, a saber, dos vossos deleites, QUE NOS VOSSOS MEMBROS GUERREIAM? Cobiçais, e nada tendes: matais, e sois invejosos, e nada podeis alcançar; combateis e guerreais, e nada tendes, porque não pedis. Adúlteros e adúlteras, não sabeis vós que a amizade do mundo é inimizade contra Deus? Portanto, qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus. Ou cuidai vós que em vão diz a Escritura: O Espírito que em nós habita tem ciúmes? Antes, ele dá maior graça. Portanto diz: Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes. Sujeitai-vos a Deus, e ele se chegará a vós. Alimpai as mãos, pecadores; e, vós de duplo ânimo, purificai os corações. Senti as vossas misérias, e lamentai e chorai; converta-se o vosso riso em pranto, e o vosso gozo em tristeza. Humilhai-vos perante o Senhor, e ele vos exaltará. (Tiago 4:1-10)

Porque o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, me enganou, e por ele me matou. E assim a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom. Logo tornou-se-me o bom em morte? De modo nenhum; mas o pecado, para que se mostrasse pecado, operou em mim a morte pelo bem; a fim de que pelo mandamento o pecado se fizesse excessivamente maligno. Porque bem sabemos que a lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido sob o pecado. Porque não faço o bem que aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço. E, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo. Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas VEJO NOS MEUS MEBROS OUTRA LEI, que batalha contra a lei do meu entendimento, e me prende debaixo da LEI DO PECADO QUE ESTÁ NOS MEUS MEMBROS. Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. Assim que eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado. (Romanos 7:11-25)

Portanto, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus. Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra; porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória. MORTIFICAI, POIS OS VOSSOS MEMBROS, que estão sobre a terra: a fornicação, a impureza, a afeição desordenada, a vil concupiscência, e a avareza, que é idolatria; pelas quais coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência; nas quais, também, em outro tempo andastes, quando vivíeis nelas. Mas agora, despojai-vos também de tudo: da ira, da cólera, da malícia, da maledicência, das palavras torpes da vossa boca. Não mintais uns aos outros, pois já vos despistes do velho homem com os seus feitos, e vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou; onde não há grego, nem judeu, circuncisão, nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre; mas Cristo é tudo, e em todos. Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de entranhas de misericórdia, de benignidade, humildade, mansidão, longanimidade; suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também. E, sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição. E a paz de Deus, para a qual também fostes chamados em um corpo, domine os vossos corações; e sede agradecidos. A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao Senhor com graça em vosso coração. E, quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei tudo em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai. (Colossenses 3:1-17)

Como diriam os mineiros: NUUUH!!! (traduzindo para o restante do Brasil: NOSSA!!!)

Três textões daqueles! Dos que a gente lê, relê, lê, relê... pra começar a entender um pouco, e de repente notar um outro detalhe, que se liga a outro, e outro. Bem, isso cada texto em si, isoladamente, já tem. Aí venho eu e misturo os três, como que pegando três novelos de linha e fazendo um emaranhado caótico. As lembranças me levam naturalmente a uma situação bem inusitada. Em um dos namoros que tive, auxiliei a digníssima na arrumação de um salão para uma festa caipira que haveria em seu condomínio. Diversas linhas com bandeirolas foram trazidas e uma das minhas funções na arrumação era esticá-las no espaço sobre nossas cabeças. Ficou incrível! Linhas com bandeiras para lá e para cá, se cruzando e entrecruzando, nas mais variadas e possíveis direções. Era entrar no salão e ser impactado por aquela visão magnífica. Para ficar ainda mais top, nos pontos de intersecção de várias linhas foram colocados alguns balões. Sucesso! Um salão espetacular.

Na manhã seguinte veio o trabalho difícil. Engraçado que normalmente é o contrário: a arrumação é muito trabalhosa e demorada, e a desmontagem tende a ser simples e rápida. Só que nessa situação específica tinha um componente inesperado. Embora eu mesmo tivesse montado toda aquela estrutura pendurada sobre nossas cabeças, fui fazendo de forma espontânea, na base do “estica essa pra lá”, “estica aquela pra cá”, e não tinha como lembrar certinho onde a coisa toda começava e/ou terminava. Tinha virado um novelo com muitas linhas. O componente inesperado foi: “Fernando, as bandeirinhas de tecido não são minhas, mas emprestadas de Fulana, e são bandeirinhas que ela usa faz décadas (tipo relíquia de família), então nem pense em danificá-las. Preciso devolver tudo bonitinho, do jeito que vieram. Nem pense em partir as linhas e depois emendar, porque Fulana vai notar”. Pensei, “Lascou!!!”. E ia eu lá imaginar, quando daquela esticação toda de linhas, que em meio a bandeirolas nitidamente descartáveis, havia também um “tesouro familiar”?! Bandeirolas que tinham sido, sei lá, da tatataravó da bendita Fulana?

Mas aí o rolo (literalmente) já estava feito. E eu tinha que desenrolá-lo. Contarei o desfecho no final deste escrito.

E cá estou eu novamente, fazendo mais ou menos a mesma coisa. Puxa uma linha de textos pra lá, outra pra cá, cruza tudo, e vamos ver no que vai dar. A diferença é que naquela festa caipira eu tinha algo especial (para alguém) embolado com bandeirolas descartáveis, enquanto aqui temos apenas coisas especiais. Porções riquíssimas e complexas da Palavra, cada uma consistente num grande desafio de compreensão, se consideradas isoladamente, e quanto mais se torna imensamente maior o desafio de olhar para estes três textos em conjunto. Mas vamos tentar. Bora organizar essas bandeiras e ver se conseguimos um salão maravilhoso como aquele da festa no condomínio da ex-namorada.

Hoje falarei sobre O PIOR DE MIM.

Quando pequeno, eu batia nos meus irmãos. Especialmente no Marcelo, o irmão do meio, que tinha o dom da provocação. Na Pri era menos. Ela era fisicamente mais frágil, e eu todo grandão para minha idade; então, qualquer empurrão meu e já rolava um “Mãããe, o Fer me bateu”. Mas bateeeer, bater, bater mesmo, não. É possível que eles digam o contrário, pois nessas coisas cada um tem sua própria perspectiva. O que para mim talvez tenha sido um tapa bobo, na pele de quem levou pode ter ficado marcado como uma violência. Sempre penso nisso, no quanto coisas bem pequenas ocorridas em nossa infância tem o potencial de nos marcarem para sempre. Qualquer toque na infância pode gerar efeitos positivos ou negativos muito intensos.

Mas tirando esses entreveros caseiros, aquilo que eu chamaria de briguinhas naturais entre irmãos, o fato é que dos muros para fora eu pouquíssimas vezes evidenciei violência física contra outras pessoas, em todos esses anos de vida até aqui. Nunca dei um tapa numa pessoa. Nunca desferi um soco no rosto de alguém. Em três únicas oportunidades, algo classificável como violento aconteceu comigo.

Aos 10 anos de idade, numa discussão no campo de futebol da escola, dei tipo um pé-na-bunda num garoto que folgava demais com os outros. Por ter um irmão mais velho para protegê-lo, ele agia assim. Como eu era grandão para minha idade, interferi numa dessas situações e o coloquei no lugarzinho dele, para depois colher semanas e mais semanas com o tal irmão mais velho me cercando na saída da escola para tentar “vingar” o pé-na-bunda. Até que um dia, enquanto soltava pipa, ele me pegou desprevenido e devolveu na mesma moeda. Semeei pé-na-bunda, colhi na mesma espécie. Isso aconteceu em Pirapozinho/SP.

Uns 6 anos depois, em nossa segunda passagem por Cianorte, novamente num campo de futebol rolou um entrevero entre o pessoal. Um jogo que era para ser amistoso, mas começou a ficar aguerrido. Um carinha bem maldoso fazia muitas faltas desleais, distribuía cotoveladas, paulistinhas, socos nos rins do pessoal do meu time. E eu ali, só esperando a hora que ele tentaria um lance desses comigo. Foi dito e feito. Veio a canelada, voltou a bicuda que levantou o piá do chão. Fomos os dois expulsos do jogo. Salvo engano, minha única expulsão em toda a vida. E o carinha me encarando, jurando que ia ter volta, que ia falar com os caras da vila e tal, e não-sei-quê, e sei-quê-la... e eu só olhando, até que mandei um “Pode chamar! Pode chamar quem você quiser da tua vila. Tenho medo não”. Palavras valentes... de um adolescente que não sabia brigar.

Novamente, dito e feito. Cena parecida com a de 6 anos antes. Os tais caras da vila cercando a saída da minha escola um dia após o outro. Eu era ligeiro e ligado nas movimentações. E como tivesse um amigo que morava perto, pulava o muro e ia para a casa dele, onde almoçava e assim o tempo passava. Os caras desistiam de esperar e assim se passava mais um dia. Eles se ligaram no lance da corrida até a casa do meu amigo, mas ainda assim não me pegavam. Eu variava as rotas de fuga. Fiquei expert. As semanas se passaram, os caras sumiram, e o final do ano chegou. “Escapei”, foi meu pensamento. E justamente quando baixei a guarda, fui pego no contrapé. Último dia de aula, todo aquele congraçamento entre os colegas, galera escrevendo de canetinha nas camisetas uns dos outros – para guardar de lembrança –, farinha e ovo na cabeça, aquela zoeira. Tempos legais. E a gente subindo em turma numa daquelas largas avenidas próximas ao Colégio Estadual Cianorte, quando de repente eu vi que estava cercado.

Uma galera fechando a rua de baixo, outra a rua de cima, e eu no meio. Pensei “Lascou, vou ser linchado hoje”. Havia vários colegas de sala meus naquele dia, alguns que sabiam da ocorrência no jogo, meses antes, e que se dispuseram a ficar ali comigo e me defender numa briga coletiva. A verdade é que não teríamos a menor chance. Os caras estavam em número muito maior, e eram acostumados com brigas. Eu e meus colegas éramos adolescentes da escola, mais preocupados com o vestibular que se aproximava, do que com tretas e porradaria na rua. Falei para eles seguirem, que eu resolvia a situação sozinho. “Resolver” no sentido de passar por aquilo sozinho (apanhar sozinho), pois na verdade era um problema só meu, e não deles. Eles se afastaram e aos poucos se aproximaram o carinha do jogo e um outro cara, mais velho e bem mais forte. Acho que era o irmão do piá. Lembro-me que o cara falou “Isso é entre vocês dois. Se ninguém dos seus amigos entrar, nosso pessoal também não entra. Resolvam aí!”.

O carinha mais novo, meio perplexo, deu aquela olhada pro irmão num jeitão de “Como assim?!”, achando que viriam ele e mais a vila toda pra me encher de porrada. Mas o negócio era entre nós dois mesmo. O mais velho se afastou um pouco. Meus amigos e amigas da escola todos por ali ainda. Nós dois no meio de um canteiro de grama em uma avenida, rodeados de gente. Uma típica cena dessas de filme da Sessão da Tarde, que passavam por aquele início dos anos 90. Eu não sabia brigar, efetivamente. Era maior e nitidamente mais forte que o carinha. E aquele dilema: “Seu eu moer ele no pau, certeza que a galera da vila vai entrar, aí ferrou”. Ele tentava me chutar, me socar, dar umas voadoras bem sem noção, e eu ia desviando. Mas eu não batia, pelo temor de os caras da vila entrarem. Os minutos foram se passando e nada. Foi como um primeiro round dessas lutas que assistimos e ficamos bem irritados com os lutadores, pois só se estudam. O irmão mais velho do cara foi ficando sem paciência: “Vai logo! Vocês não sabem brigar?!”

O carinha se animou e veio com mais ímpeto, acertou um chute nas minhas pernas, tentou mais alguns golpes e tal, e tudo voltou à enrolação do round anterior. Chutes no ar, socos no ar, voadoras frustradas, até que o árbitro interrompeu definitivamente o “combate” por falta de combatividade. Pegou o irmão mais novo pelo braço e foram saindo. Tudo isso deve ter durado no máximo uns 5 minutos. A adrenalina baixou. Meus amigos ainda estavam por perto. Reuni-me a eles e segui embora para casa, no meu último dia de aulas em Cianorte, e a última vez na vida em que vi a maioria deles, pois naquele final de ano finalizamos nosso tempo ali, para em 1994 passarmos a morar em Cascavel/PR. Resumindo: eu semeei um chute nas pernas do piá no campo de bola, e colhi um chute nas minhas no canteiro da Av. São Paulo.

A terceira e última vez que coloquei as mãos em alguém, no sentido de uma atitude de força, ocorreu muitos anos depois. Em 2012 ou 2013, aproximadamente. Um homem tentava agredir uma mulher e eu entrei na cena. Ele estava montado sobre ela, praticamente como fazem os lutadores quando passam as duas guardas de quem está por baixo, podendo socar livremente a face. Eu o agarrei pelas costas, travei bem e o retirei de sobre a mulher. Foi como pegar um fardo de feno. Não era um homem grande; deveria ter seu 60 e poucos quilos. Eu, com quase 80, muito mais forte que ele. Por mais força que ele fizesse, não sairia nunca daquela “chave”. Lutou, lutou, fez força. E a chave fechada para ele. Até que se acalmou, começou a chorar e caiu em si. Soltei e tudo terminou bem. Umas cervejas a mais o levaram àquela situação. Felizmente, sem maiores consequências.

Como visto, meu histórico de violência não impressiona muito. Umas briguinhas de criança com irmãos. Um entrevero aos 10 anos. Outro entrevero ao 16. Uma apartada de agressão aos 30 e poucos, e só. Nada que me habilite para um card preliminar nesses eventos de lutas. Eu não teria a menor chance. Não contra caras preparados, claro. Numa hipotética situação real da vida, não sei. Nunca sabemos do que somos capazes, até que a coisa acontece de verdade. Algum preparo, temos. Fiz artes marciais em algumas oportunidades ao longo da vida. Muay Thai e Boxe, basicamente. Bem basicamente. Em lutas de solo, conhecimento praticamente zero. Eu seria facilmente vencido por alguém que tenha um jiu-jitsu feijão-com-arroz.

A verdade é que espero jamais descobrir seu eu venceria ou não um combate real. Porque violência não é bom. Não é algo que quero presente na minha vida.


Certo, certo. E o que tudo isso que falamos acima tem a ver com os textos iniciais? Que embolada foi essa no novelo de linhas?

Vamos lá.

O primeiro texto começa indagando “De onde vêm as Guerras e pelejas entre vós?”. A resposta é dada a seguir: “Porventura não vêm disto, a saber, dos vossos deleites, QUE NOS VOSSOS MEMBROS GUERREIAM?” O segundo e o terceiro textos também falam dos NOSSOS MEMBROS. Nitidamente, trata-se da nossa carne. Estamos em carne. Ainda sujeitos às fraquezas da carne,

O deleitar-se tem a ver com sensações prazerosas. A guerra nos membros tem a ver com batalhas que ocorrem na nossa mente.

Quando falamos em CARNE, embora possamos, equivocadamente, pensar que se trata apenas do físico, o fato é que a questão profunda está na mente. O grande campo de batalha do ser humano é sua mente. Dentre os livros muito bem recomendados que ainda não li, um que está na lista é o conhecido “Campo de Batalha da Mente”, de Joyce Meyer. Só conheço o título. Não li sinopse. Ouvi um ou outro comentário positivo de pessoas, na época em que o livro esteve mais em evidência no Brasil, mas o fato é que o título é tão bom, mas tão bom, que sua mera menção já produz uma ideia do que vamos encontrar.

E sabe, NA MINHA MENTE EU SOU MUITO VIOLENTO. Já bati em muita gente. Já dei voadora. Já dei tiro, porrada e bomba. Por vezes visualizei o filminho completo de brigas de cinema, que deixariam Jack Chan no chinelo. Tudo isso, de um cara que na vida toda deu uns petelecos nos irmãos mais novos, um pé-na-bunda do piá folgado da escola, uma bicuda nas pernas do jogadorzinho maldoso, e uma chave no bêbado que queria bater na mulher. Violência efetiva, quase nenhuma. Nada que me levasse sequer para um depoimento em delegacia hoje, que sou maior de idade. Mas violências tantas e tão graves aqui na mente, que me condenariam ao fogo do inferno, se não fossem a Graça e o Perdão de Deus sobre tais pecados.

Pecados, Fer? Mas esses filminhos violentos ficaram apenas no campo da imaginação, sem produzir consequência alguma.

Hummm... será mesmo?

Qualquer que odeia a seu irmão é homicida. E vós sabeis que nenhum homicida tem a vida eterna permanecendo nele. (1 Jo 3:15)

Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar será réu de juízo. Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e qualquer que disser a ser irmão: Raca! será réu do Sinédrio; e qualquer que lhe disser: Louco, será réu do fogo do inferno. (Mateus 5:21-22)

E ainda tem este terrível:

Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela. Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno. (Mateus 5:28-29)

E vários outros exemplos semelhantes no mesmo capítulo 5 de Mateus.

Mas daí aparece a galerinha da HIPERGRAÇA, sugerindo que agora é tudo molezinha, que foi tudo resolvido na cruz, que no final tudo vai dar certo para todos, e que claro que Deus entende a nossa carne fraca.

Não, não.

Uma coisa é Ele saber que somos fracos. Outra coisa bem diferente é Ele dizer “tudo bem” para isso.

Ele não diz.

O nível foi elevado no tempo da Graça. O adultério, que antes precisava da conjunção carnal para se concretizar, agora está feito com a mera cobiça do corpinho alheio. O homicídio, que antes precisava de um ato físico de violência extrema, agora está consumado com um “simples” estado de cólera contra o outro, ou um “inocente” xingamento.

O caminho é estreito mesmo, brother.

O carinha com 2 ou 3 episódios violentos em toda a vida, coisa que não assustaria quase ninguém, pode estar em péssimos lençóis diante de Deus, pelas cóleras que sente seguidamente no seu dia a dia, sem nunca ter concretizado nada no mundo real. Mas o mundo real para Deus é mais amplo. Ele não se deixa enganar por uma conduta externa irrepreensível, se no íntimo há um coração cheio de ódios, violências e contendas.

Não por acaso, é dito na mesma Palavra que “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida”. (Provérbios 4:23)

Seguidamente eu me vejo envergonhado perante o Senhor, pelos episódios de violência que ocorrem na minha mente e coração. Pelas discussões que tenho sozinho com outros. Pelos adultérios envolvendo pessoas que nem imaginam já terem sido cobiçadas por mim. Pela cobiça de coisas que não me cabem. Por “n” pecados efetivados na minha mente e coração, sem que minha conduta exterior irrepreensível jamais dê qualquer pista do que ocorre nos porões da minha vida.

“Credo, Fer! Você está me assustando”.

Pois é, pois é. Ou encaramos de frente nossas mazelas agora, e as resolvemos, ou as encararemos num dia futuro perante o Justo Juiz, quando nada mais poderá ser feito, além de se ouvir a pior sentença jamais imaginada, descrita no capítulo 25 de Mateus:

Em verdade vos digo que vos não conheço (verso 12). Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos (verso 41-b)

Pesadão, né?!

Uhum. São essas apenas algumas LETRINHAS PEQUENAS do escrito 045. A Bíblia está cheia delas. Um “evangelho fofo” e fácil de tocar com a barriga pode ser legal para encher templos climatizados, mas a verdade é que o caminho estreito é dureza. Não basta cumprir exteriormente um punhado de regras e passar uma aparência de virtude. Tem que ter virtude mesmo, 100%, até nos mais profundos compartimentos da nossa vida. Quantas e quantas vezes eu sinto vergonha de coisas que penso, de juízos que faço sobre os outros, de violências que pratico nos meus “filminhos de luta” na cabeça, das mulheres com quem me relaciono sem elas terem a menor ideia disso, e etc, etc, etc...

“Credo, Fer! Agora você está me assustando mesmo. Precisa se expor assim? Pra quê isso?”

Sabe, haverá um dia em que todos compareceremos diante do Senhor. Todos os nossos atos, todos os nossos pensamentos, tudo que tenha a ver conosco será colocado diante dEle. Naquele dia, Ele não estará no Trono Branco como Pai Amoroso, mas sim como Justo Juiz. As oportunidades para arrependimento e conserto terão findado. A Graça e o Perdão estiveram disponíveis todo o tempo. Naquele dia, não mais. Naquele dia a conversa será outra. Alguns ouvirão o tão sonhado “Vinde benditos de meu Pai”; outros o desesperador “Afastai-vos de mim malditos”; e tanto uns quanto outros terão suas vidas inteiramente expostas. Não apenas a Ele, mas também a toda a grande assembleia reunida em Sua presença. Não será uma audiência a portas fechadas. Será o julgamento mais “televisionado” da história. Até os pensamentos serão vistos. Vistos e julgados.

Se isso não te causa algum nível de temor, eu não sei o que mais poderia fazê-lo.

A mim me causa. Não gosto de muitas coisas que penso. São feias. Minha conduta exterior ilibada nem sempre bate com coisas que ocorrem apenas no campo das ideias. Calma, não sou um malucão psicopata. Mas... seu eu fosse, eu diria a você para ter calma, pois não sou um malucão psicopata. Então, como ter certeza? Que dilema, né?! O fato, o grande fato, é que nossas manifestações exteriores podem comunicar às pessoas uma realidade muito diferente do que é a verdade sobre nós.

O que fazer?

Mas, como está escrito: As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam. Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito; porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus. Porque, qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus. Mas nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que provém de Deus, para que pudéssemos conhecer o que nos é dado gratuitamente por Deus. As quais também falamos, não com palavras que a sabedoria humana ensina, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais. Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido. Porque, quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo? MAS NÓS TEMOS A MENTE DE CRISTO. (1 Coríntios 2:9-16)

Resposta: buscar a mente de Cristo.

A Palavra afirma que ele nunca pecou. Nem por ações. Também não por omissões. Em nenhum pensamento. Tampouco por intenções. Nada. Perfeito. Irrepreensível em tudo. E o fez como homem. Venceu o pecado. Ele, ele mesmo, que subiu o nível de exigências em relação à Antiga Aliança, fez por onde e mostrou que é possível.

Eu quero ter a mente de Cristo. Agir como ele. Reagir como ele. Pensar como ele. Não pecar como ele. É possível. Fácil, não. Mas possível. Um caminho para toda uma vida. Como dizia o mesmo Paulo, já citado em vários textos bíblicos deste escrito:

Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus. (Filipenses 3:13-14)

Um escrito relativamente confuso, eu sei. Lembre-se que, à semelhança da alegoria inicial, fiz dele um novelo com muitas ideias. Várias pontinhas estão aí. Puxe uma e vá encontrando aquilo que o Senhor pode trabalhar em sua vida. Na minha, o que foi ministrado pelo Espírito Santo e é meu desafio diário, eu colocaria como TER MEUS PENSAMENTOS TOTALMENTE GANHOS PELO SENHOR. Pensar nas coisas do Alto, todo o tempo. Olhar com olhos santos. Tocar com mãos abençoadoras. Falar apenas e tão somente o que edifica. Remir o tempo. Viver totalmente para o louvor da Sua Glória.

Coisas basiquinhas. NUUUH!!!

E pra fechar, o final da história da festa caipira:

Claro que deu tudo errado. O emaranhado de linhas de bandeirolas ficou “desimbolável”. E a então namorada só de “rabo-de-zóio” me filmando. Umas franzidas na testa. Todo o restante do salão já desmontado e o Fer ali, lutando com o novelo impossível. Até que ela sai de onde está, pega da minha mão o nó-cego e vai arrebentando linha por linha, olhando bem fixamente pra minha cara. Dava pra ver que ela queria que aquelas linhas fossem meus ossos, rs. “Eeee, Fer...”, foi sua única manifestação verbal. Mas no íntimo, silenciosamente, com toda certeza, ela me deu uns bons petelecos, ou me xingou, ou me matou. Assim como eu já fiz. Como você também já fez.

Quem de nós poderia atirar a primeira pedra?

O único que podia ter feito isso, em toda a História, não o fez.

Eu quero ter a mente de Cristo.

O pior de mim está onde nenhuma pessoa pode olhar. Por isso preciso, tão desesperadamente, da mente dEle em mim.

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

055 SEMENTES

Um quadro que pode ser extremamente tenso: você na condição de paciente; um médico olhando para os exames; aquele silêncio ensurdecedor no consultório; a tensão enquanto você aguarda ele falar alguma coisa. Ele rola o mouse, para um pouco, continua. Alguns minutos nesse clima estranho e você ali, querendo saber logo se está tudo bem. Eu passei por algo assim uma ou duas vezes na vida. Gostei não.

Via de regra, faço dois check-ups por ano. Um simples em janeiro, e o mais completão pelo meio do ano, julho ou agosto. Rotina que a maioria dos caras não tem. É sabido que homens são mais reativos aos problemas de saúde, enquanto as mulheres são mais preventivas. Neste tema, eu muito cedo me dei conta da importância de não deixar um pequeno problema tornar-se grande, quando está nas minhas mãos o poder administrá-lo. Não que eu seja um desesperado que corre para o médico ao menor mal-estar. Mas também não sou daqueles que espera a dor tornar-se insuportável, para somente então se mexer. Com o tempo a gente vai entendendo os sinais do organismo, meio que sabendo a hora certa de agir.

Na imensa maioria das vezes, aquele quadro do primeiro parágrafo não foi nada tenso para mim. Sempre espero bons resultados, porque naquilo que me cabia, fiz o dever de casa. Alimentação legal, rotina de exercícios, bom sono, pouco estresse, segurança em vários aspectos da vida... ingredientes ideias para que as coisas caminhem bem. E tem caminhado, graças a Deus – naquilo que está além de mim – e graças a mim – naquilo que não cabe a mais ninguém.

Hoje cedo, por exemplo, fiz minha visita anual ao cardiologista. A boa prosa de sempre, umas trocas de ideias sobre pedais que fizemos nos últimos meses – o meu médico também pedala – e lá vamos nós para a sala do eletrocardiograma, e a seguir para o ecocardiograma. Tudo corre bem, e finalizamos aquela 1 hora e meia na clínica com as análises dos resultados. Eu paciente; médico olhando para os exames; silêncio na sala; e tensão alguma enquanto aguardo ele falar praticamente as mesmas palavras de 1 ano atrás:

- Cara, esses seus exames sempre vêm lindos. Coração de atleta. Siga firme, porque você está melhor do que quase todo mundo que eu examino.

E o cara é médico especializado na galera do alto desempenho, triatletas, maratonistas, ciclistas de alto nível, etc. Então... ouvir que você está melhor do que quase todo mundo não é pouca coisa. É um TODO MUNDO em caixa alta. E se você está no nível, ou até melhor que esses caras, é para abrir o sorrisão e caprichar ainda mais no próximo treino, só pra comemorar.

Uma bênção. Bênção no que toca – como falei mais acima – àquilo que não tenho controle. Uma genética favorável e privilegiada não se escolhe ter. Ou você tem, ou não. Felizmente, fui abençoado com ela. Mas não me escoro nela, vivendo doidamente como se não houvesse amanhã, como se saúde fosse um bem infinito. Faço minha parte – como também falei acima, a parte que cabe a mim – com as melhores rotinas e os melhores hábitos possíveis. Nada escravizante ou radical: eu consumo doces, eventualmente um refri, uma ou duas cervejas por ano (POR ANO!), gosto muito de picanha com gordura (claro!), e diria que seriam essas as práticas mais potencialmente nocivas que eu teria na minha rotina. Quanto a drogas, álcool em excesso, privação do sono e mais uma montanha de possibilidades, nada disso passa perto de mim.

O resultado? Aquele que o médico leu hoje cedo. Saúde de menino aos 44 de idade. Índices melhorando, capacidades mais e mais ampliadas, hormônios em dia... pacote completo. Eu não poderia querer estar melhor. Maaas... como a gente é meio insatisfeito, daqui uns dias rola aquela cirurgia capilar que mencionei no escrito 035 A INSUSTENTÁVEL BELEZA DO SER. Afinal, se tem um detalhe ou outro para melhorar, por que não, né?!

Tudo isso são frutos de sementes que comecei a lançar muito cedo. E como sabemos, tudo o que o homem semear, isso também ceifará (ou colherá). Assim, se há pelo menos 3 décadas e meia eu comecei a praticar esportes regularmente, e a ter uma disciplina de atleta amador, onde estaria a surpresa de eu performar super bem em toda e qualquer atividade atlética que me propus a fazer? Surpresa alguma. Houve uma construção do corpo para resultados sempre bons. Semelhantemente, se há pelo menos 2 décadas e meia passei a ter hábitos alimentares muito saudáveis, também não causa surpresa eu não saber o que é uma alergia, uma intolerância, gastrites ou coisas do tipo, bem como esperar e sempre encontrar resultados excelentes nos exames clínicos de sangue. Boas sementes, bons frutos.

Esses dois pilares eu resolvi bem cedo. O terceiro, acabei demorando um pouco mais, porque não era tão simples. Aproximadamente 1 década atrás eu desacelerei da vida maluca de trabalho, trabalho, trabalho. Pude fazer essa escolha, e tomar atitudes neste sentido, quando alguma segurança financeira já estava consolidada. Seguir naquele ritmo era insustentável, a não ser que eu quisesse só ganhar mais e mais dinheiro, mas pouco viver, e bem pouco usufruir do que eu havia construído até então. Penso ter feito a escolha certa: uma vida mais simples e modesta, mas muito leve. MUITO LEVE.

Uma banqueta de 3 pés não ficaria de pé sem um deles. Uma vez resolvido o terceiro pilar, as coisas ficaram ótimas. É a vida que vivo hoje: saudável, equilibrada, muito prazerosa. Gosto demais dela.

Cedo ou tarde ela vai mudar, claro. Como disse no escrito 038 O DIA MAU:

 

“- Isso por que você está passando agora passará, Fer. Parece que não, eu sei. Parece que tudo vai desmoronar, sem saída. Mas passará, e as coisas vão melhorar. E sabe o quê mais?

- O que, Prôfe?

- Quando as coisas estiverem ótimas, tudo funcionando, e você se sentir invencível, nada podendo ficar melhor... tudo aquilo vai passar também. Não necessariamente para um quadro seguinte terrível e arrasador, mas quem sabe para algo não tão excelente quanto era até há pouco. E este novo contexto vai existir por um tempo, para também passar. E o seguinte, idem. Idem. Idem. Tudo isto passará, Fer.

- Uooooow

- Circunstancialmente falando, neste plano, tudo passará.”


Assim, seu eu ficar me ocupando com pensamentos sobre um futuro incerto, onde as coisas serão diferentes de hoje, não desfrutarei do excelente hoje que está aqui e agora. Se eu ficar pensando nas possíveis doenças ou limitações que um dia serão ditas por um médico, não me alegrarei tão plenamente com a saúde topíssima que tenho hoje. Semelhantemente, seu eu sofrer por antecipação pelo que quer que seja, em qualquer área da vida, só farei desperdiçar o precioso e irrecuperável tempo, mencionado no último escrito (054 TUDO A SEU TEMPO).


Após aquelas esperadas e animadoras palavras do cardiologista hoje cedo, o que se faz então? Quinta (amanhã), dia de treino, o jeito é pegar a bike e fazer um treino daqueles! Intensidade. Entrega. Máxima performance. Porque é algo que a vida e a saúde me permitem hoje. Seria desperdício fazer qualquer coisa menos que o EXCELENTE. Na bike. No trabalho. Na família. No amor. No Reino. No que quer que seja.


E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens. (Colossenses 3:23)

082 PALAVRAS AO VENTO

Uns dois ou três dias atrás fiz algo que há muito tempo abandonei. Numa rede social, após ver a postagem que me chamou a atenção – de temáti...