terça-feira, 29 de junho de 2021

037 O SABUJO E O PICA-PAU

A distância entre a saída do cano da espingarda e o pequeno animal deveria ser de uns 30 metros, pelo menos. Ele estava bem alto, batendo o bico na perobinha que ficava no meio da roça ao lado da casa. Iepê (sempre Iepê), no bom e velho sítio de tantas histórias. Ano? Difícil precisar. Eu já não era criança, para ter uma arma de pressão em mãos, com autorização do vô Cilas. Uns 15 ou 16 anos de idade, seguramente. Rapaizão com tamanho de adulto e algumas ideias de moleque. A brilhante ideia do dia: atirar num pica-pau.

Os tiros começaram algum tempo antes, quando meu tio Mário adquiriu a espingarda de pressão. Chegamos ao sítio em Iepê para férias de final de ano, e lá estava o “cano”. Meu tio – apenas 2 anos mais velho que eu – e a sobrinhada – que cresceu junto com ele, como se todos primos fossem – só queriam saber de ficar atirando nas coisas. Naquela temporada de 10 a 15 dias que passamos por lá, toda a curta grana de cada um era reunida para uma única finalidade: comprar caixas de chumbinhos. Assim conseguíamos a munição necessária para a brincadeira.

Nas pontas dos palanques, latas de óleo de cozinha, vidros usados de remédios para o gado, caixinhas de fósforo. Os alvos ficaram cada vez menores, inversamente proporcionais à nossa mira, cada vez maior e melhor. Piazada aprendeu rápido a atirar bem. Assim passávamos nossas tardes. Pela manhã, o tio Mário tinha suas responsabilidades no sítio, e de tarde podíamos todos nos divertir. Vez por outra íamos nadar na represa do João Manarin, e claro que a espingarda passeava conosco. Íamos atirando num alvo ali, outro acolá, até que cedo ou tarde aparecia alguém, um sitiante da área, e mandava a advertência de sempre: “Não atirem nos animais”.

O vô Cilas falava o mesmo. Ele, que tinha também no sítio sua espingarda (não de chumbinho), já havia atirado em alguns animais na vida. Três de seus grandes prazeres – além de amar intensamente minha vó Laurinda – eram pescar, caçar e tirar mel silvestre de tocos ou rochas nas matas. Assim ele deve ter passado milhares de horas de sua vida, em completa imersão num mundo de pequenos e grandes animais, árvores, sons e cenários incríveis. Alguns perigosos, com certeza. Lembro-me de várias histórias que ele contou, de situações de perigo real em meio à natureza.

Ele quase todos os dias nos repetia: “Não atirem nos animais”. Claro que desobedecemos. Piás crescidos são pinta braba. Numa das ocasiões na represa, o gado começou a descer para beber água. Entramos na água e por ali ficamos um tempo, e nada do gado subir. Ia entardecendo, hora de puxar o trecho de volta; uma caminhada de seus 3 a 4km cortando algumas propriedades rurais. Havia um boi com tipo de bravo, e esse nos assustava. Os demais animais – vacas de leite (desde que sem crias novas) – eram inofensivos. Bem, já que o boi não subia, precisamos espantá-lo. Mário deu alguns tiros de longe – talvez os mesmos 30 metros da primeira frase do texto – até que um acertou. O boi deu uma mexida no corpo e saiu apressado para cima. As vacas o seguiram, invertendo aquela velha cantiga da roça: “Aonde a vaca vai, o boi vai atrás”.

Voltamos para o sítio da família e vida que segue. Colecionando memórias. Lembro-me de ter perguntado para meu tio se aquele tiro de chumbinho não teria machucado o boi? Ele me respondeu que não, pois o couro do gado é grosso. Seria problema se o tiro acertasse nas partes moles, tais como nariz e olhos do boi. Especialmente nos olhos, claro, pois poderia cegar o animal. Mas não foi o caso. Aquele chumbinho foi nitidamente em seu corpo, como pudemos perceber na hora. E, afinal – e mais importante – não atiramos na maldade. Não falamos isso para o vô Cilas, claro. E assim a temporada de férias chegou ao fim.

Passado um tempo, coisa de 1 ano ou pouco mais, estava eu novamente em Iepê. Meu tio Mário já não morava por ali. Salvo engano, tinha saído de casa pela primeira vez. São Paulo, a selva de pedra. Foi em busca de trabalho. O sítio sem ele não era a mesma coisa. Por ser o “dono da área” (em meio à sobrinhada), ele comandava as ações. Sem ele, nós mesmos inventávamos as brincadeiras. Acho que nessa oportunidade, que nos coloca no contexto do primeiro parágrafo, os primos não estavam por lá. Apenas eu, meus pais e meus irmãos; além dos avós, claro, que lá moravam. Encontrei a espingarda de pressão no quarto do tio Mário, mostrei ao meu avô e avisei que iria comprar uns chumbinhos para usar. E assim foi.

Como já tivéssemos atirado bastante em oportunidades anteriores, e eu já sendo um rapaz crescido, por ele tudo bem. Rolou a advertência de sempre – “Não atire nos animais”. Mesmo roteiro de antes, com alvos variados nas pontas dos palanques. É praticamente certo que meu irmão Marcelo estivesse comigo todas as vezes que eu saía para atirar. A Pri deve ter ido uma ou outra vez, mas não era muito a praia dela. Devia estar mais interessada em sua pasta com aqueles papeis de carta colecionáveis, perfumados, que as meninas tinham nos anos 90. Lembro-me de ter pego um ou dois por “empréstimo” (sem avisá-la) para escrever cartinhas para meninas que eu era fã na escola. Quando a Pri descobria, rolava briga.

Até que numa ocasião eu estava ali pela casa e comecei a ouvir um barulho. Pequenas batidas na madeira. Fui atrás de encontrar o que seria aquilo, até que vi um pica-pau bicando o tronco da perobinha no quintal. Não era uma árvore idosa, daquelas gigantes que havia antigamente; também não era nova. Certamente com uns 15 metros ou mais de altura, com o característico tronco comprido e bem reto, e uma galhada no ponteiro. Perobas não formam copas amplas, como outras espécies. Buscam sempre o alto, e ficam muito altas. E lá no alto estava o bendito pica-pau... em seu último dia de vida. Ele ainda não sabia disso. Nem eu.

Ao identifica-lo, me ocorreu a “brilhante” ideia de correr atrás da espingarda de pressão e tentar acertá-lo. Da ideia à ação foram poucos instantes, para que ele não voasse embora. Rapidamente encontrei a arma, carreguei o chumbinho, fiz mira e apertei o gatilho. Pelo menos uns 30 metros. Ave de pequeno porte. Algum vento. Qual a chance? Pois é. Uma chance. De repente a ave foi para baixo.

Bateu aquele desespero, adrenalina lá em cima. “E agora? E agora”. Você fica igual cachorro em mudança, sem saber para que lado vai, então corri para o pé da perobinha. É uma cena muito vívida para mim, até hoje. O pica-pau ainda vivo, debatendo-se. Algum sangue. Parte de cima do bico quebrada. Ele se mexia violentamente, certamente com muita dor. A adrenalina subiu ainda mais, a sensação de cachorro em mudança duplicou, e tudo que consegui fazer foi sair correndo dali para encontrar meu avô. Correndo e gritando por ele, até que o encontrei.

Meio assustado com meus chamados por ele, como se algo grave tivesse acontecido (e tinha), contei-lhe que havia atirado num pica-pau e que ele estava machucado. Corremos juntos até o local e lá estava o quadro já descrito. O pobre animal, com bico quebrado, debatendo-se e gritando (ao seu modo). Outra cena muito vívida, que também jamais esquecerei. Cena ainda mais dramática. Meu avô tomou a arma das minhas mãos, correu até a casa e logo voltou com uma faca. Sacrificou rapidamente o animal, explicando-me que um pica-pau sem bico era uma ave condenada a morte lenta e certa. Como o tiro não fora em sua cabeça, ou no pescoço, ou corpo, ela não sofreu uma ferida imediatamente mortal. Mas sem bico, como um pica-pau poderia sobreviver?

Uma coisa é você ver sua avó matando um frango, ou seu avô matando um porco para comer; coisa, aliás, que eu já havia feito com ele uns tempos atrás. É, o vô Cilas me ensinou a matar porco... mas para comer. É outro quadro. Você o vê com certa naturalidade, embora também seja dramático. Não sou vegano, jamais serei. Eu como carne. Eu amo comer carne. Hoje, se preciso for, eu mato um porco para comer. Não sei se com a mesma habilidade de quem faz isso regularmente, mas a gente dá um jeito.

Outra coisa, quadro totalmente diferente, é você ver um lindo animal morrer por nada. Uma molecagem. Pica-pau cuidando da sua vida, na boa, na dele, sem fazer mal a ninguém. No máximo, “fazendo mal” a uns cupins, que são alimento para ele. Se tinha filhotes num ninho, não sei. Se estava de paquera com uma linda pica-pau, também não sei. Eu interrompi sua vida por nada. Por ser um menino crescido e irresponsável.

A arma retirada das minhas mãos foi muito bem escondida por meu avô, para que nada semelhante voltasse a acontecer. Não me lembro se chorei naquele dia. Mas são vívidas as imagens e as sensações pelo que fiz. Revivo-as como se fossem hoje.


Vários anos depois, num outro sítio, estávamos eu, meu pai e dois sabujos circulando na beira das matas. Algo que sempre me incomodou no sítio do pai é o fato – ainda hoje presente – de os cães ficarem praticamente o dia todo presos, com correntes de pescoço bem curtas, sem praticamente poderem circular. Uma prisão triste. Todo aquele cenário lindo à sua frente, do qual eles raramente usufruem. Então, quando eu via meu pai soltando-os, achava ótimo. Inclusive estimulava a fazê-lo. Nesse dia do passeio pela mata, foi o que ocorreu. Meu pai disse que iria subir pra matinha e ver se conseguia matar um carancho que estava dizimando os pintainhos do sítio. Pegou sua arma (não de chumbinho) e fomos. Já estávamos de saída, quando sugeri que levássemos os cachorros. Então ele os soltou e subimos.

Um dos sabujos era mais arisco. Não era bravo, mas daquele tipo de animal desconfiado, na dele, sempre longe. O outro, mais jovem, era todo brincalhão. Tentava pular em nós o tempo todo, mordiscar nossos calcanhares e coisas do tipo. Eu, que adoro interagir com animais, fazia festa com ele. Circulamos por aproximadamente 1 hora, e nada de ver o carancho. Foi legal conhecer aquela parte do sítio, na qual eu nunca tinha ido. Não chegamos a entrar na mata, que era densa, e certamente conteria alguns animais de pequeno porte. Conteria não. Continha. Um porco-espinho, com certeza.

De repente nos aparece o sabujo brincalhão com a boca toda ensanguentada e coberta de espinhos. Corria para todos os lados, roçava as patas dianteiras no focinho, chorava – não sei se cachorros choram, tecnicamente falando – e vinha até perto de nós, como que pedindo ajuda. Lembro que o pai falou: “Vamos correr para casa, senão a gente perde este cachorro. Os espinhos são vivos, caminham, vão entrando no animal, até que geram ferimentos que o matam. O bicho não vai conseguir respirar”. Saímos em disparada, e os dois sabujos na nossa cola. O mais novo e brincalhão, machucado pelos espinhos, fazia pequenas parada para novamente roçar o focinho com as patas, então voltava a correr atrás de nós.

Meu pai pegou um alicate e começou a puxar os espinhos. Aquilo devia doer pra burro! Como se sabe, esse tipo de espinho parece um anzol. Sua cerras são no sentido de entrada, e elas literalmente rasgam a carne se o espinho for puxado no sentido contrário, que era justamente o que tínhamos que fazer. Não havia tempo para anestesia, e sequer algum tipo de atendimento do tipo por ali. Região rústica, sítio ainda mais rústico. A coisa era à moda antiga. Como estivesse doendo muito – era nítido – o sabujo tentava morder meu pai a cada vez que ele aproximava o alicate. Era instintivo. Eu estava segurando o animal pela coleira, com seu corpo encaixado em meio às minhas pernas (eu por trás dele), e bem atento também para que ele não me mordesse. O bicho era forte, debatia-se muito, quanto mais tentávamos ajuda-lo.

O pai pediu que eu segurasse mais forte o animal. Foi o que fiz. Dei aquele “juntada” nele com minhas pernas, travando-o, e segurei mais firme a coleira. O pai rapidamente foi tirando os espinhos e chegou a comentar “Está acabando, vamos salvá-lo”. Tivemos a frágil sensação de sucesso. Quando destravei o sabujo de minhas pernas e soltei a coleira, caiu morto. Sufocado por mim. “Perdemos o animal”... foi a lacônica frase do meu pai. Olhamos um para o outro, meio que não acreditando, inconformados. Não olhares acusadores, mas de culpa própria, de cada um para si mesmo, por nossa falta de habilidade naquela situação. Matamos o pobre cão.

Meu pai pegou o enxadão e ali mesmo, praticamente no mesmo local onde ele foi morto, o enterramos. Eu ajudei a cavar a cova. Passei o restante daquele dia extremamente mal com a situação. Idem nos dias seguintes. Foi um acidente, claro. Ainda assim, a sensação de matar um ser vivo com suas próprias mãos é extremamente dramática e marcante. Espero nunca mais passar por algo semelhante. Certamente meu pai teve as mesmas sensações, pois sei que ele é um homem totalmente pacífico, daqueles que cresceram no mato e sofria por ter que sacrificar um animal, ainda que fosse para comer. Ainda hoje, já idoso, morando no mesmo sítio, ele não o faz. Se um animal para consumo precisa ser morto, ele terceiriza a tarefa.


Essas duas histórias, totalmente verídicas em cada detalhe, tem por objetivo registrar meu apreço pela vida; QUALQUER VIDA. “Então pare de comer carne!”. Não, não paro. O assunto não é este. Eu como carne, embora tal consumo implique na necessária morte de um animal. Isso é uma coisa; o matar por matar, é outra coisa. Falaremos sobre hábitos alimentares noutra oportunidade. O caso é que vejo a vida como um bem valioso, uma dádiva, algo que deve ser preservado por todos os meios.

Eu não surfo no HYPE. O tema do momento não me interessa; passo ao largo. Prefiro falar sobre as coisas que me parecem relevantes, ou que eu simplesmente tenha vontade. Não sou ligado no noticiário e raramente assisto TV. Muita coisa acontece e está bombando na massa, e o Fer lá em Nárnia. Meu REFÚGIO MENTAL, lembra? Texto 031. Não entrei em tantos detalhes nele, mas o farei num escrito complementar, onde basicamente falarei sobre atitudes práticas que preservam minha mente. Uma delas: distanciamento da avalanche de informações inúteis. Não. Não se trata de uma fuga da realidade. É importante estar bem informado, mas hoje o volume é tão avassalador, que preciso cuidar e filtrar.

Algo que tenho praticado faz uns anos, e vejo que funciona, é confiar que as notícias REALMENTE IMPORTANTES chegarão ao meu conhecimento. Não preciso correr atrás. Os informadores estão malucos atrás de público. As notícias banais, as manchetinhas de tabloides e programas apelativos, que bombam hoje e ninguém se lembra amanhã, dessas não quero nem saber. Tenho coisas muito mais importantes em que pensar e com que me ocupar. Assim tenho vivido. Minha saúde mental é excelente, pode acreditar. E sou muito bem informado, esteja certo.

Apreço pela vida. Seletividade das informações. Bora misturar e chegar ao ponto central da prosa. 


Mencionei as histórias dos animais que matei, para afirmar meu apreço pela VIDA. E mencionei o lance do HYPE, porque ontem choveram notícias sobre uma vida que se foi: LÁZARO BARBOSA. Foi o assunto do dia. Dificilmente alguém não teve notícia sobre ele nas últimas 3 semanas. “A caçada chegou ao fim”... “Alvo abatido”... “CPF cancelado...” “Foi pro inferno abraçar o capeta”... “Agora estamos seguros”... Todos os canais dando ampla cobertura. Redes sociais bombando. Os primeiros “memes”. Tias do zap zap a mil grau. Surgem críticas à ação policial... Direitos Humanos na área... Gente falando que a operação foi um fracasso, pois tinha que capturar vivo... e por aí vai. A “boa” e velha polarização de tudo pintando na área. Quando percebi a avalanche de informações, pulei fora na hora! Fui para meu refúgio mental.

Eu penso duas coisas sobre o “Caso Lázaro”.

1. Aquele homem, até onde sei, semeou violência e muito terror por onde passou. Viveu de uma forma contrária à vida pacífica e ordenada, que desejam a imensa maioria das pessoas. Sua colheita foi da mesma espécie. Sem surpresas, portanto. Vida de violência, morte violenta. Se houve erros ou acertos daqueles que estiveram diretamente envolvidos, não tenho como dizer, olhando de longe, especialista que não sou. Os diplomados vão analisar e opinar. Quem estava lá, no front, sabe como foi. O resto são opiniões de escritório. É fácil falar de longe, na poltrona chique, com ambiente climatizado a 20 graus. Eu não me sinto habilitado. Sei apenas que, pelo que me chegou ao conhecimento, Lázaro colheu na morte o que semeou em vida.

2. “Putz, lá vem o Fer falando de Deus”. Pois é, hoje tem também. “Para Fer, o cara mereceu morrer, era um monstro. Nem vem! Não tem o que falar de bem dele. Mereceu ir pro inferno!”... Calma, calma. Leia primeiro. Apedreje-me depois.

Não vim defender Lázaro neste escrito, nem avaliar a ação policial, muito menos celebrar sua morte. Dispus-me apenas a encarar uma séria reflexão. Pensar um pouco com minha própria mente, sem as influências da avalanche.

São quase 6h da manhã. Acordei pouco antes das 3h. Normalmente eu me sentaria em frente ao teclado pelas 21h de terça para escrever. Hoje foi diferente. Deitei muito cedo, por isso cedo despertei. Passeando por meus pensamentos, peguei-me lembrando das notícias do dia anterior. Imagens fortes, análises. Tudo aquilo que já falamos. De todo esse balaio, as que mais me impressionaram foram comemorações pela morte do homem. Mais que alívio pela sensação de segurança; notei boa dose de alegria e celebração. É como a Terra olhou para a cena.

Não julgo. Estou falando aqui da minha poltrona no escritório também. Se ele estivesse nas imediações de Maringá, acredito que eu também teria sentido as mesmas tensões e medo por sua proximidade, bem como alívio por novamente estar seguro, com sua captura ou morte. ALÍVIO, eu disse. Enfim, mas só quem esteve no front sabe mensurar.

Em meio aos passeios de pensamentos, decidi orar. Buscar um olhar “do céu” sobre as coisas, porque a visão dos homens estava bem clara. Sabe o que descobri em oração? Veio-me nitidamente a impressão de que não houve festa no céu ontem. Não rolou hashtag “CPF CANCELADO” no Twiter Celestial, nem compartilhamento de fotos da "peneira" no zap zap dos anjos. Não consegui enxergar o Senhor Jesus mandando um “bora pro Inferno, desgraçaaado”; nem o Senhor Deus sentindo-se mais seguro e celebrando. Não, nada disso. Lembrei-me naturalmente da passagem que diz HAVERÁ MAIOR ALEGRIA NO CÉU POR UM PECADOR QUE SE ARREPENDE, DO QUE POR NOVENTA E NOVE JUSTOS QUE NÃO NECESSITAM DE ARREPENDIMENTO (Lucas 15:17).

“Peraí Fer! Agora você foi longe demais. O cara era o demônio em forma de homem”.

Calma, calma. Leia primeiro. Apedreje-me depois.


Sabe aquele PAI AMOROSO do texto 018? Então. Até ontem, aquele Pai aguardava o arrependimento e a submissão de um homem chamado Lázaro. Até ontem havia esperança. Porque eu creio que enquanto há vida, há esperança e pode haver restauração PARA QUALQUER UM. Até para um Lázaro Barbosa. Do jeito que estava, sujo como estava, com toda a desgraceira em sua ficha... eu sei que até aquele último suspiro o Pai desejava arrependimento e restauração. Tenho convicção de que o Deus que creio não estava louco para postar CPF CANCELADO. Não! Ele queria ser o primeiro a puxar a festa no céu por um pecador arrependido, sendo imediatamente seguido pelo Filho e pelo Espírito, bem como por todas as legiões celestiais. Alegria por mais uma vida resgatada da Morte Eterna.

Mas tudo indica que não. As circunstâncias não apontam para arrependimento. Não sou o juiz dos homens. Digo apenas o que me parece. O Senhor da Glória um dia mostrará a todos qual a morada eterna de Lázaro. Tenho cá minhas impressões.

Mas festa no céu por sua morte? Disso eu certamente posso dizer que não houve. Porque o céu é lugar de vida e de celebração da vida. Não de morte. Se somos – e tenho convicção que somos – sua imagem e semelhança, e expressamos tristeza e dor por um pequeno pica-pau morto injustamente, ou por um sabujo matado acidentalmente, outro caminho não há que o de, no mínimo, não celebrar a morte de um homem, mesmo que morto em desgraça... e causando desgraça. Não estou a defendê-lo. De modo algum. Estivesse eu numa situação extrema, para defender minha vida ou a de pessoas que amo, poderia eu mesmo ter matado Lázaro. Dizer isto é forte, eu sei. Espero jamais descobrir se o faria mesmo.

Mas celebrar a morte? Não me cabe. Não me cabe.

Ele colheu das sementes que amplamente semeou. Estamos mais seguros com sua saída de cena? Sim, parece que sim. Ele mereceu aquele fim? Não sei. No mínimo, correu de braços abertos ao encontro da morte certa, quando decidiu enfrentar a tudo e a todos da forma mais louca possível. Violência aflorada. Rebeldia em último grau. Que outro desfecho se poderia esperar? Lázaro morreu da forma que escolheu viver. Agora nada mais pode ser mudado. Alea jacta est. A sorte dele está lançada. Até ontem ele tinha um Pai Amoroso que ansiava por seu arrependimento e restauração. Daquele último suspiro em diante, não terá mais um Pai à sua frente, mas sim o Justo Juiz, que pesará de cada homem e mulher desta Terra tudo que foi feito. E em sua Sabedoria e Justiça, dará a cada um seu destino eterno.

O melhor e mais feliz desfecho dessa trágica história, penso eu, teria sido seu arrependimento e restauração. O que não o livraria da necessária aplicação da justiça dos homens. Pagar por seus crimes, ainda que isso significasse o resto dos seus dias trancafiado numa cela. Seria a justa colheita por tudo que fez. Arrependimento não exonera ninguém dos frutos de suas ações. Ele teria que pagar, de alguma forma. Pelo visto, escolheu morrer como estava, sem sinal algum arrependimento por seus crimes.

A sorte dele está lançada. Não vou celebrar sua morte. Entendo que ele colheu exatamente o que plantou. Mas não vou celebrar na Terra, pois tenho convicção de que no Alto não houve festa.


Agora que lido, tudo bem. Que voem as pedras. É apenas a opinião de um homem que deseja reproduzir na Terra a CULTURA DO CÉU.

(João 8:5-7) *ler antes de atirar a primeira.

domingo, 27 de junho de 2021

036 A CARNE É FRACA?

Talvez a expressão “A CARNE É FRACA” já tenha sido utilizada por muitas pessoas com a conotação de ser apenas mais um dito popular. Na verdade, há um texto nas Escrituras que a menciona expressamente:

“Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; na verdade, o espírito está pronto, mas a carne é fraca”. (Mateus 26:41)

Dia de papo sério. Não um escrito teológico, propriamente dito, mas certamente com algumas pinceladas de teologia. Porque mesmo os leigos, os não diplomados, tem sim total liberdade para debruçar-se sobre a Palavra e buscar entendimento. Ela não é, de forma alguma, propriedade dos encastelados em suas formações teológicas, como se só a esses fosse dado entender as verdades eternas. Eu posso fazê-lo, e a própria Bíblia diz que sou muito feliz se o fizer:

“Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes tem seu prazer na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite. Pois será como árvore plantada junto a ribeiros de águas, a qual dá o seu fruto no seu tempo; as suas folhas não cairão, e tudo quanto fizer prosperará”. (Salmo 1:1-3)

É, amigão. É, amiguinha. Você pode! Aliás, como dito, você será muito feliz – o mesmo que bem-aventurado(a) – se o fizer. Não precisa ficar refém de interpretações dos outros. Embora “os outros” possam sim trazer excelentes compreensões sobre a Palavra, há também muitos problemas, equívocos; e o pior dos quadros: deturpações, omissões, corrupção intencional nalgumas análises. Por isso não abra mão de seu direito de buscar de forma direta, na fonte, aquilo que precisa saber do Senhor.


Mas voltemos ao tema...

E aí, a tal da carne é fraca mesmo?

Vamos a outros três textos:

“Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que quando quero fazer o bem, o mal está comigo”. (Romanos 7:18-21)

“Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; apaga as minhas transgressões, segundo a multidão das tuas misericórdias. Lava-me completamente da minha iniquidade, e purifica-me do meu pecado. Porque eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim. Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que é mau à tua vista, para que sejas justificado quando falares, e puro quando julgares. Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe”. (Salmo 51:1-5)

“Digo, porém: Andai em Espírito, e não cumprireis as concupiscências da carne. Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis”. (Gálatas 5:16-17)

O que eu vejo nestes textos é a descrição de uma oposição essencial. Espírito e Carne sempre se opondo, numa verdadeira batalha. E o grande problema está numa palavrinha que aparece nos três textos: PECADO. Nos dois primeiros, expressamente. No terceiro, facilmente compreendida em contexto.

PECADO. Aí está a chave do tema.

Há quem não suporte sequer a menção à palavra PECADO, por desejar um estilo de vida livre de dogmas, leis e amarras. A mentalidade progressista, essencialmente. “Nada é errado, se te faz feliz”. “Pecado? Sai fora! Eu pago minhas contas, vivo da forma que eu quiser”. “Pecado é coisa desses crentes radicais, uns recalcados que não sabem viver, e querem que todo mundo viva conforme suas regras”. E por aí vai. É fácil bater em crente por falar em pecado, e mais fácil ainda ganhar a multidão, com uma mensagem de “liberdade”, de “vale tudo”, desde que você não machuque ninguém. Discursinho fácil de abraçar. Temperado com enxofre.

Pois é, mas gostemos ou não, o pecado é uma realidade. E uma realidade tal que está impregnada na carne de cada ser humano que nasceu sobre a face dessa Terra. Mas não foi sempre assim.

É dito na Palavra, quando da criação do homem, que Deus o fez conforme à sua imagem (Gênesis 1:27), do pó da terra, sendo soprado em suas narinas o fôlego da vida; ele foi feito uma alva vivente (Gênesis 2:7).

Reparem, tudo isso num estado de perfeição. O aspecto físico em perfeição, e os aspectos imateriais (espírito e alma) em perfeição. Ao ver sua obra feita, a cada dia Deus foi dizendo que era bom, era bom, era bom... (só conferir no capítulo 1 de Gênesis), mas ao final, com tudo completo, e a última criação pronta – o homem feito à sua imagem, com espírito, alma e corpo – o Senhor falou algo mais: era MUITO BOM! (Gênesis 1:31).

Com este olhar, encontramos uma primeira verdade: a CARNE, em si, não é o problema. Ele nos fez de carne, e disse de nós que assim era muito bom. Quando eu era pequeno, e pensava nessas coisas, imaginava o Éden como um lugar mágico, meio que protegido por uma redoma, onde as coisas flutuavam, a matéria nem seria como a conhecemos hoje. Eu imaginava os primeiros pais como seres quase angelicais, não de carne e osso. E então, somente após o pecado, tudo teria sido transformado, inclusive a matéria. Só que não. Só que claro que não, porque não está dito assim na Palavra. As coisas materiais eram como as conhecemos hoje. O pecado trouxe sim, depois, corrupção, sendo inclusive dito que a Terra tornou-se maldita por causa do primeiro erro dos primeiros pais (Gênesis 4:17). As consequências vieram.

Mas até então, até aquele fatídico dia do primeiro pecado humano, não havia problema algum com a carne. Não se poderia dizer dela que era fraca. A carne que o Senhor nos dotou (nosso aspecto material) era uma das expressões da Sua imagem e semelhança, tanto quanto o eram os aspectos imateriais (espírito e alma). Ele disse que era muito bom! Ele não disse “espírito e alma são bons, mas a carne é fraca”. Naquele momento original, tudo era muito bom.

Um engano comum, que vez por outra eu ouço – e este é bem ridículo – é que o tal fruto proibido, a maçã que zoou a coisa toda – e a Bíblia nem diz que era maça – foi o sexo, e que a partir dele teria entrado a corrupção na carne. Bem, já disse que é ridículo. Basta ler os dois primeiros capítulos de Gênesis para “descobrir” que o “unir-se o homem à sua mulher” (ou seja, união sexual, de suas carnes) foi estabelecido e ordenado pelo próprio Senhor no estado original de perfeição, antes da queda. (Gênesis 2:24)

A queda, o primeiro pecado humano, a decisão que ferrou com tudo, não foi o sexo. Foi sim a DESOBEDIÊNCIA. Uma ordenança direta, clara, que nem dava margem para interpretações ou mal-entendidos. “Não coma desse fruto. Todos os demais vocês podem, mas esse não” (Gênesis 2:16-17)

Falamos, falamos, falamos. Colocamos vários textos. Agora bora amarrar tudo isso.


O que eu penso?

A carne é fraca! Sim, ela é fraca porque a Palavra assim o diz. Mas não apenas isso. Ela não foi criada fraca, mas sim em perfeição, e muito boa, recebendo o “selo MUITO BOM de qualidade”, que Deus colocou em toda a sua obra, ao final. O pecado foi o grande problema, trazendo corrupção à carne, a toda a carne nascida após aquele fatídico dia. Desde então, todos nós, eu e você, adultos, que certamente já pecamos algumas vezes, bem como aquela criança que acabou de nascer, a respeito de quem as pessoas dizem ser um anjinho, um ser perfeito e sem pecado, tem ela também a mesma carne que nós. Corrompida. Ela também, o bebezinho. Cedo ou tarde aquela pequena carne entrará em guerra com seu espírito, tentando vencer.

É assim mesmo. Não se assuste. Aquele bebê lindinho é tão pecador, em carne, quanto nós, que já fizemos tantas coisas feias. O que nos difere, e é apenas questão de tempo, é que o bebezinho não está na prática do pecado, mas sua natureza é tão caída quanto a nossa; carente da Graça, carente do Novo Nascimento, carente de tantas coisas que ela ainda não compreende. Afinal, eu e você fomos um dia aquele bebê lindinho, aparentemente sem pecado. Até que num outro dia as obras da carne se fizeram manifestas (Gálatas 5:19-21)

De certa forma, portanto, se por um lado é possível (e correto) afirmar que a carne é fraca, por outro é possível (e correto também) dizer que ela pode se tornar muito forte, a depender de nós. Se nos conformarmos com o famigerado “a carne é fraca”, utilizando-o como muleta para nossas quedas, caídos ficaremos. De pecado em pecado, cada vez piores. A chave está no já mencionado texto de Gálatas 5:16: “Andai em Espírito, e não cumprireis as concupiscências da carne”.

Pensamento positivo não resolve. Disciplina, idem. Clausura, tampouco. Algumas dessas ferramentas podem até ser úteis e interessantes, mas apenas como complemento, como condutas de prudência e sabedoria para não nos colocarmos em situações de risco, que poderiam abrir oportunidade para quedas. Mas a chave, a única coisa que realmente nos leva a prevalecer sobre o pecado, sobre a carne, é uma VIDA NO ESPÍRITO. Relacionamento com Deus. Intimidade. Oração. Sensibilidade às impressões que Ele vai derramando em nosso interior. Todo o mais se resumiria em performance humana, tentativas fatalmente frustradas pela nossa incapacidade de fazer o bem por nós mesmos. Porque nossa carne, sem Ele, hoje é fraca. Tornou-se fraca. E fraca será até o dia em que Ele nos der corpos glorificados, como sua Palavra também diz que acontecerá. Até lá, não confie em si mesmo. Não pise perto demais das linhas que você sabe (sim, sabe bem) serem perigosas para você.

Todo pecado é uma ofensa ao Senhor. Toda manifestação das obras da carne o entristecem. Inversamente, toda manifestação do Fruto do Espírito (Gálatas 5:22-24) coloca um sorriso em seu rosto. Lembra? Texto 029 O DEUS QUE SORRI. Sim, Ele se alegra e sorri quando vê a luta sendo vencida pelo Espírito sobre a Carne.

Que nunca, jamais, em hipótese alguma voltemos a utilizar a muleta do A CARNE É FRACA para sucumbirmos ao pecado. Não é assim. Tem que ter luta. Muita luta. Resistir até sangrar. Porque sacar do bolso um “a carne é fraca” para justificar nossos erros, é leitura incompleta do que a Palavra nos ensina. Em certo sentido, se a carne tem prevalecido, é porque na verdade ela está bem forte na luta. Cabe aquela velha alegoria dos dois cães de briga, na qual o dono sempre sabe qual será o vencedor: aquele que estiver melhor alimentado. Semelhantemente, rigorosamente igual, acontece na perene luta da carne contra o espírito.

quinta-feira, 24 de junho de 2021

035 A INSUSTENTÁVEL BELEZA DO SER

O processo criativo de um texto é muito interessante. Por vezes, começo com a ideia toda desenvolvida na mente, introdução, meio e fim, ilustrações... a escrita vai fluindo, fluindo, mas não tenho a menor ideia de um título para aquele escrito. Nesses casos, dá mais trabalho encontrar o título certo, do que desenvolver o texto em si. Não raro, na última revisão eu acrescento um pequeno detalhe, e dali sai a “manchete”, o bendito título que ficará gravado na mente dos leitores. Assim foi com o 002 LET´S DANCE, 005 SEXTOU, 007 SEMPRE SÓBRIO, 020 O JARDIM QUE EU NÃO CONHECI, 028 AS TRÊS VISÕES, e certamente mais alguns.

Noutros, como neste escrito 035, bem como no 003 RECOMEÇAR, 009 DESEJOS À VISTA, 013 AS OPINIÕES DOS OUTROS, 021 TODAS AS COROAS, e outros, o ponto de partida foi justamente a manchete, e a partir dela se desenrola todo o novelo. Não sei onde vai dar, o que vai sair dali, então vou escrevendo, tateando, para de repente “encontrar” algo pronto. Um texto nasceu. E sabe, sendo bem franco, eu gosto muito quando é assim. Rola um tipo de improviso. Eu, que via de regra sou organizado e reúno previamente os recursos para as coisas que me proponho fazer, acho interessante essa sensação de pisar no escuro quando escrevo. Hoje será assim. Escrevi dois parágrafos e não tenho a menor ideia do que tem pela frente. Bora descobrir?


A Insustentável Beleza do Ser. A inspiração para o título, claro, veio do livro do Milan Kundera. Li recentemente, embora a obra esteja disponível para o grande público há muito tempo. Um filme também foi gravado. Nem um nem outro são aqueeeela maravilha. O filme, fraquinho até. O livro, bonzinho. E como sabemos, assim como em “bonitinho”, tudo que termina com “inho” é apenas legalzinho. Nada extraordinário. Mas o título... ah, o título. O cara soube escolher um título. Ele chama mais a atenção do que a obra em si. Talvez até por isso tenha alcançado tamanha fama.

Quem sabe este escrito 035 tenha igual destino. Vou me esforçar para que não, para que seu conteúdo supere o bom título. Se não der, tudo bem. Enquanto isso, enquanto não escrevo nada substancial, sigo aqui te enrolando. Pronto. Parei.



Disse algo no escrito 031 REFÚGIO MENTAL, que tem alguma ligação com a beleza: “Nosso mundo interior é alimentado pelos 5 sentidos. Eles se constituem em canais de ligação entre o externo e o interno. Dois deles tem maior relevância: VISÃO e AUDIÇÃO. Os três restantes (tato, olfato e paladar), embora existentes e importantes, acabam tendo um papel secundário no dia a dia”.

Vejamos.

Algo que você toca e que te agrada a sensação nas mãos, normalmente será descrito como GOSTOSO, MACIO;

Algo que você cheira e que te agrada o aroma nas narinas, normalmente será descrito como GOSTOSO, CHEIROSO;

Algo que você come e te agrada o paladar, normalmente será descrito como GOSTOSO, SABOROSO.

Estes três, que já noutro dia considerei menos relevantes na alimentação do nosso interior, dificilmente associaríamos ao belo. Um toque tende mais a ser gostoso do que bonito. Idem com cheiros e gostos.

Agora, algo que você ouve e te agrada o som nos ouvidos, aí sim poderemos caminhar para uma classificação do tipo BONITO. Um som bonito. Um som gostoso e bonito.

Mas o ápice mesmo, o que se destaca totalmente neste tipo de descrição, é o que captamos pela visão. Descrever como BONITO ou FEIO, algo que vemos, é natural como respirar. Mesmo uma criança pequena, antes de saber falar, muito antes de ser condicionada pelos adultos a achar bonito algum padrão de beleza, parece conseguir distinguir o belo e o feio. Estou especulando. Não estudei isso. São impressões e observações. Tudo isso para dizer que acredito existirem formatos e padrões que são apreendidos quase unanimemente como belos, e outros como feios. Os especialistas devem ter muitos estudos sobre isso.

Pois bem. Mas saindo dos extremos, das formas e padrões “TOP BEAUTIFUL” e “TOP UGLY”, mencionados acima, o que existe entre esses polos é muito variado. Assim, entre o extremamente feio e o extremamente belo, há muita margem para dissensos. Reparem que tudo que foi dito até o momento é absolutamente genérico, desvinculado de qualquer objeto ou ser específico. Tudo muito conceitual. Abstrato.

Bem, para linkar com o título estiloso, vamos tomar as PESSOAS como objeto do nosso experimento reflexivo e enrolativo (sim, ainda estou escrevendo e te enrolando). Poderíamos falar de objetos de decoração, automóveis, casas, e tantas outras coisas que podem ser horrorosas, lindíssimas, ou estarem no meio termo. Mas vamos falar de pessoas.

O que falar sobre a beleza ou não-beleza das pessoas?

De plano, necessário lembrar o óbvio: que temos um aspecto interior (espírito e alma) e um aspecto exterior (corpo). Portanto, tomada na plenitude de seu ser, todo ser tem esses dois lados. O fato de o lado interno ter duas partes não será aprofundado hoje, bastando o registro desta notícia. Falaremos noutra oportunidade.

Ainda sobre obviedades, é notório que nosso mundo valoriza extremamente mais o aspecto exterior do ser. O belo, o exteriormente belo recebe maior atenção.

É fenômeno recente? Penso que não. As artes visuais, bem como a escrita de milênios passados, enfocam a beleza humana. A figura que escolhi para a publicação deste escrito – Nefertiti, nascida há aproximadamente 3400 anos – parece-me bela hoje, e acredito tenha sido percebida como bela pelos povos ao longo desses muitos séculos. Ela seria, a meu ver, um exemplo daquilo que disse mais acima, um tipo de beleza quase unanimemente percebida como tal. Eu, particularmente, considero seus traços perfeitos. Certamente há quem não os veja tão dramaticamente lindos, mas provavelmente não feios. Quem sabe um ou outro chegariam a tanto. Penso que bem poucos. Temos nossas predileções, afinal.

Mas e hoje, saltando 34 séculos no tempo, como está a questão da beleza do ser? Indo direto ao ponto, penso que as coisas estão extremamente desequilibradas. A beleza interior num cantinho secundário. A exterior sendo buscada como nunca. Loucamente. Até irresponsavelmente, nalguns casos. Imagem virou tudo, para muitos. “Aaaah, lá vem o careca feio defendendo a beleza interior. Se fosse bonitão, estava é achando ótimo”. Trata-se disso não, rs. Predileções, lembra? Sempre haverá alguém para achar bonito um careca magrelo. Nem que seja a mãe dele.

Ser bonito exteriormente, por si, não é um problema. Pelo contrário, parece ser algo bom e desejável. Não vejo neste desejo um problema por si. Mas pode tornar-se problemático, quando uma dessas coisa acontece:

1. Ser belo apenas exteriormente, sem a menor preocupação com o lado interior; e

2. Ser belo exteriormente, não conseguir enxergar isso, e mexer no que está bom.


Eu, o careca magrelo, que a mãe e (talvez) uma ou outra moça achem bonito, depois de aproximadamente 25 anos convivendo com a “pouca telha”, resolvi mexer no que tá quieto. Percebi que me agradavam mais as fotos com boné ou capacete de ciclismo, mais do que as fotos com testão à mostra. Charme? Pode até ser, mas acho que esse negócio de calvície ser charme é migué. Não noto muitos homens a desejando, para aumentarem seu charme. Resolvi trocar uns fios de endereço. Reuni os recursos e em breve vou eliminar o tal charme. Prefiro um topetinho ralo do que uma porção de charme. Quem viver, verá.

Seria o meu caso um exemplo de busca errada pelo belo? Acredito que não. Porque dos dois problemas que vejo nesta área, não consegui me enxergar em nenhum deles. Primeiro, porque me preocupo imensamente mais com o desenvolvimento de uma beleza interior; segundo, porque não estou num processo amalucado de procedimento em cima de procedimento, na busca de um padrão que tentam me impor. Pelo contrário. Eu gosto da minha aparência. Ela nunca foi um problema, algo que me deixasse mal comigo mesmo. Decidi mexer, por ser um procedimento bastante tranquilo, seguro, e que me proporcionará uma mudança interessante, uma versão diferente, que não é vista há um quarto de século. Eu ficava bem com cabelo, no início da juventude. Creio que fiquei bem com menos fios, no prosseguimento da juventude e chegada à maturidade. E creio que ficarei bem novamente agora, na casa dos “enta”, com os cabelos redistribuídos.

Simples assim. Sem neura, sem crise, sem autoimagem distorcida, narcisismo ou coisas do tipo. Apenas acho que ficará legal. Diferente, com certeza. Mudar é bom.

Minha sobrinha de 14 anos disse que vai rir quando me vir com cabelo, rs. Eu achei graça. Porque não vejo as pessoas rindo de quem coloca facetas nos dentes, próteses de silicone, quando mudam completamente seus narizes, ou espetam um canículo para chupar gordura da pança. Mas um pobre e magrelo careca precisa ver risos quando muda uns 4000 folículos de endereço? Aaaah, Sarinha. Titio vai ficar top, rs.

Como disse no escrito 028 AS TRÊS VISÕES, por ocasião do meu aniversário de 44 anos, “Eu gosto de completar aniversário. Gosto também de estar envelhecendo”. O passar dos anos me trouxe novo olhar sobre o belo. Muito por eu ter mudado, claro. Mas muito mais por ter aprendido a ver a beleza da maturidade e da velhice. Aliás, uma das mulheres que considero mais lindas no mundo é minha vizinha de apartamento.  Dona Conceição, uma senhora que já deve contar mais de 80 anos. Com seus cabelos branquinhos e lindos olhos azuis, vejo nela uma beleza ímpar. Além de toda a educação, polidez, gentileza que a caracterizam, certamente frutos da ainda mais bela beleza interior que há em seu ser. Beleza integral.


Olhando para trás, mas sem dar pistas específicas sobre quem, em quantos relacionamentos eu dei uma desanimada quando percebi pequenos detalhes estéticos que não me agradavam tanto. Mesmo em moças belíssimas interiormente. Para minha vergonha, houve situações em que esses “pequenos detalhes” me levaram a romper, partir para uma próxima, mais perfeitinha. Jovem costuma ser bem burro, ainda mais quando o hemisfério Sul fica dominante sobre o Norte. Péssimas decisões. Desistência de algo com grande potencial, por causa de uma medida maior aqui, uma flacidez ali. Sim, jovem é muito burro quando olha demais para isso. Bem, eu fui. Várias vezes.

Até que você finalmente amadurece. E maduro, continua apreciando o belo. Mas agora um belo integral. Rostinhos angelicais e sorrisos de porcelana não te fisgam cegamente como antes. Continuam sendo lindos? Claro que sim. Mas não bastam. As silhuetas aviolonadas continuam desejáveis? Sem dúvida. Mas o violão precisa ter bons sons também, melodias, harmonias, conteúdo. Não mais apenas as curvas que antes – só elas – importavam tanto. Beleza integral.

A insustentabilidade da beleza só existirá, em tese, no lado externo. E mais: existirá se incorrermos no erro de acreditar que a beleza ideal está naquela faixa áurea dos 16 aos 20 e poucos anos de idade, tomada de rostos e corpos de atores e atrizes "perfeitos", cuja vida é malhar, comer certinho e fazer todos os tratamentos disponíveis. Vidas e rotinas diferentes das "pessoas comuns". Padrões que acorrentam e fazem sofrer. É necessário libertar-se disso.

Há beleza exterior em todas as fases. As crianças e pré-adoles sofrem desnecessariamente, tentando antecipar um processo de amadurecimento físico que tem seu tempo natural para acontecer. Meninas pequenas, mimetizando padrões de mulheres feitas, sofrendo por não enxergarem a beleza de sua fase atual de criança. Pessoas maduras, semelhantemente, tentando a todo custo manter-se com aparência de décadas atrás, como se apenas nos 20 ou 30 pudesse haver beleza. Sim, tem beleza lá. Tem também nos 40, 50... 80 ou mais. Como disse, uma das mulheres mais lindas que conheço, tem idade para ser minha avó. Porque linda ela sempre foi. O que mudou foram meus olhos, que passaram a ver e a entender essa multiplicidade de beleza. O padrão 20-30 é insustentável. Libertemo-nos! Aceitemo-nos.

De forma alguma eu sugiro desleixo. É bom cuidar-se. Primariamente, pela saúde; mas se alguma beleza estética vier como bônus desses cuidados, que bom. Vamos mudar. Inexoravelmente, vamos mudar. Entender e aceitar isso também é libertador. Neste tema, não tenho como não lembrar da querida e saudosa vó Laurinda, que do alto dos seus muitos anos e muitos quilos, via-se - como de fato era - linda, uma princesa. Brincávamos com ela, dizendo que a vó tinha "síndrome de celebridade", porque estou para encontrar alguém que se gostasse como ela. Visão correta. Beleza integral.

Pra fechar, importante enfatizar que a beleza do lado de dentro não tem data de validade. Nela não rola insustentabilidade. É possível ser belo interiormente, tão belo como sempre. Mais que isso, é possível tornar-se mais e mais belo, justamente pelo acúmulo dos anos. E é mais simples, mais barato, sem procedimentos invasivos.

Era isso por hoje. Passeei por ideias variadas, puxando pensamentos aleatórios. Quem sabe algo de bom possa ser extraído. Se sim, valeu. Se não, pelo menos eu mandei bem no título.

terça-feira, 22 de junho de 2021

034 LUTO

“O Luizinho morreu”.

Esta foi a primeira informação do meu dia, que li por volta das 7h50 desta terça, 22 de junho de 2021.

Luizinho era/é meu irmão em Cristo. Somos da mesma família. Família da fé.

Tivemos poucos contatos. Fizemos um curso juntos há 2 anos, convivendo por algumas semanas. Um cara massa! Queridão, maridão, paizão.

Luizinho foi a pessoa mais próxima a mim que faleceu em decorrência da Covid-19. Pessoas do meu núcleo familiar mais próximo (mãe, pai, irmão, irmã, cunhada, cunhado, sobrinhos) tiveram contaminação, mas superaram. Também alguns do segundo nível familiar mais próximo (tios, tias, primos e primas), mesma situação. Todos sobreviveram. Tive notícias de parentes distantes que sucumbiram, mas com esses eu mal convivi durante a vida, devo ter visto uma ou duas vezes em décadas. Assim, foi sim o Luizinho a pessoa mais próxima a mim que faleceu, dentre as que tenho contato regularmente.

Dia estranho. As coisas parecem fora do lugar. Dia de estar quieto. Por mais que não houvesse uma proximidade maior, a gente sente. Um irmão morreu. O luto bate na porta.

No dia de luto, não costumo falar muito. Eu, que sempre tenho muitas palavras para dizer, instintivamente entendo que dias assim são de silêncio. Chorar com os que choram. Chorar com os que choram.

Meus sentimentos aos familiares e amigos e irmãos.

sábado, 19 de junho de 2021

033 PALAVRAS

Eu poderia ficar a vida inteira
Ouvindo a tua voz, tão doce
Eu poderia ficar a vida inteira
Ao som das tuas palavras


Nem só de pão o homem viverá

Mas da palavra que sai da tua boca


Eu poderia ficar a vida inteira

Ouvindo a tua voz, tão doce

Eu poderia ficar a vida inteira

Ao som das tuas palavras


Como uma lâmpada para os meus pés

E como luz no meu caminho

As tuas palavras

Que alimentam

O meu interior

 

Eu poderia fica a vida inteira

Ouvindo a tua voz, tão doce, tão doce, tão doce



Palavras. Banda Resgate. Álbum On The Rock (1995). Compositor Zé Bruno.


A música favorita, do álbum favorito, da minha banda nacional favorita. Aquele riff inicial de guitarra inconfundível, que informa no primeiro acorde ser “aquela”. Voz e guitarra, apenas elas, nos exatos primeiros 60 segundos. Então entram batera e contrabaixo, numa levada de muito bom gosto. Que música linda, melódica, cheia de variações. Coisa de quem sabe fazer. Fino som.


E a letra. Ah, a letra. Uma letra que exalta a Palavra do Senhor, a voz tão doce do Senhor. Palavra que eu amo. Historinha de amor que começou quando eu tinha 15 para 16 anos de idade. Foi assim.


Encontrava-me no culto em nossa igreja, com a Bíblia em mão. Meu pai pregando o sermão daquela noite. Àquela altura da vida, adolescente, eu tinha lido alguns livros inteiros da Bíblia. Certamente Atos, Jonas e Daniel, porque havíamos participado uns anos antes de uma competição de perguntas e respostas. Novíssima juventude da igreja, com 10, 11 anos de idade, envolvida nessas atividades tão positivas. Praticamente decoramos os livros inteiros, todos os detalhes. E justo a menor igreja do presbitério, aquela com menos membros, venceu a gincana. Individualmente, contribuí bastante naquela ocasião. Tempos em que eu ainda tinha uma boa memória. Hoje não consigo decorar quase nada, de coisa alguma. Minha memória é bem estranha; eu lembro de tudo, mas não decoro nada. Uma hora eu explico melhor essa bagunça.


Enfim, eu conhecia algumas coisas da Palavra. As histórias clássicas, os personagens, um ou outro versículos de cor. Um dos primeiros que gravei está na letra da música acima: “Lâmpada para os meus pés é a Tua Palavra, e Luz para o meu caminho” (Salmo 119:105). Estava a brincar na praça central de Pirapozinho, pouco mais de 30 anos trás, quando de repente me deparei com uma daquelas placas de bronze, que normalmente estão ali como marcos de inauguração, com nomes de prefeito, vereadores e outras autoridades. Acho que tinha uma dessas também, mas a que me refiro só continha o texto bíblico. Parei em frente, li o texto, li a referência, e nunca mais me esqueci. Todas as vezes que leio, ouço ou penso em Salmo 119:105, automaticamente minha memória carrega a imagem daquele dia na pracinha.


Com os 10-11 de então, eu não imaginava o que viria pela frente, o quão intenso seria meu relacionamento com a Palavra de Deus. Uns poucos anos se passaram, e lá estava eu no culto (Cianorte), com uma Bíblia em mão, viajando nas ideias. Abri em Gênesis, li os primeiros versos do capítulo 1. Pulei para o 50, li os últimos. Passei para Êxodo, fiz o mesmo nos capítulos 1 e 40. Idem para Levítico no 1 e no 27. Até que enfim cheguei aos versos finais do capítulo 22 de Apocalipse. Corri os 66 livros, num pequeno passeio durante o culto. Pensei: “se alguém me perguntar se já li a Bíblia inteira, não poderei responder que sim, mas agora posso falar que já li alguns trechos de todos os livros que a compõem”. Garotos se pensando espertos.


Terminou a reunião, fomos para casa, e naquela mesma noite eu decidi começar uma leitura completa das Sagradas Escrituras. O pequeno pensamento “li alguns trechos de todos” foi seguido de um impulso para preencher os “vãos” existentes em cada um dos 66 livros; descobrir o que de tão especial haveria naqueles muitos versos existentes entre os primeiros e os últimos, muitos dos quais eu tinha lido pela primeira vez naquela noite. Aliás, muitos livros da Bíblia eu só conhecia os nomes. Até ali, não tinha a menor ideia de seus temas. Quinze anos dentro da igreja... Bateu um senso de “Isso não está certo. Eu preciso conhecer”.


Fiz o básico e o óbvio naquela noite. Peguei uma “bibliona” do meu pai, abri em Gênesis e comecei a ler. Um verso após o outro, vários capítulos, até cansar. Repete-se o processo no dia seguinte, e no próximo. Uma rotina lenta e cumulativa, na qual não pode haver ansiedade. Somente assim você encara um “tijolo” de 1000 a 2000 páginas. Sim, o tamanho varia bastante, a depender da letra, se o texto é seco ou com muitas notas explicativas, e outras variáveis. Eu possuo 13 diferentes em casa, meio que compondo uma coleção na minha biblioteca.


Segui firme no processo e realmente dispus-me a fazê-lo todos os dias, sem falhar, até finalmente concluir. Levei muito a sério, ao ponto de antecipar meu retorno para casa, muitas vezes deixando de fazer algo divertido, porque já estava ficando tarde e eu não tinha lido a Bíblia naquele dia. Ou seja, aos 15-16 anos eu já tinha manias e sistemas, e a disciplina que me caracteriza ainda hoje. Com o tempo vamos nos tornando mais quem somos. O tempo não nos muda; pelo contrário, ele nos acentua.


Os meses se passaram, chegou dezembro, e logo estávamos em Iepê, interior de São Paulo, pequena cidade onde meus avós moravam. Trinta anos atrás, como ainda hoje, é tradicional nossa família reunir-se por lá. Não apenas o núcleo próximo, com meus avós, seus 5 filhos, respectivos cônjuges e a netaiada, como também muitos amigos da família que passavam por lá nos finais de ano. Vinham também vários outros familiares, dos núcleos dos irmãos e irmãs da minha avó Laurinda. Um deles, tio Cyro, nunca falhava. Todos os anos ele vinha estar um ou dois dias conosco. Também pastor, mas de uma grande igreja em Limeira/SP, ele chamava um dos irmãos para dirigir o veículo e logo chegava. Normalmente trazia pernil de carneiro ou leitoa para um gostoso almoço. E como ele comia!!! Dava gosto de ver. Magro, calvo como eu sou hoje, voz um pouco anasalada. Um típico Pereira do Lago. Um grande homem.


A certa altura daqueles dois dias que passou conosco no sítio, tio Cyro me percebeu na rede, lendo a Bíblia. Ele foi até mim.


- Você já leu a Bíblia toda, Fernando?

- Li sim, tio. Terminei minha primeira leitura há poucos dias. Comecei em meados de 1993 e concluí agora, dezembro de 94.

- Que maravilha! E como você fez?

- Ah, comecei por Gênesis e fui lendo na ordem.

- Legal, mas tem um outro jeito muito bom também. Vou pegar para você um cartão de leitura que utilizamos lá em Limeira. Você lê na base de 3 capítulos por dia, sendo normalmente 2 do Antigo e 1 do Novo testamento. Poucos minutos por dia. Se não falhar, conclui em 1 ano.

- Legal, tio. Eu quero sim.


Ele foi até seu carro, retornando com o tal cartão de leitura e uma Bíblia novinha em suas mãos.


- Que bom que você concluiu sua primeira leitura “capa a capa” da Palavra de Deus. Se você se comprometer a continuar lendo, a fazer sua próxima no meu plano do cartão, vou te dar de presente esta Bíblia aqui. Ela tem uma tradução chamada “contemporânea”, difere um pouco das tradicionais. Se se comprometer, ela é sua.

- Claro, tio. Aceito e comprometo-me. Farei minha segunda leitura nela.

- Compromisso é compromisso, heim.



Assim chegou à minhas mãos, no dia 8 de janeiro de 1995, a Bíblia cuja imagem ilustra este escrito. Com a preciosa dedicatória do meu tio Cyro Pereira do Lago, já falecido. Um grande homem de Deus. Dentre os muitos legados que deixou, está o de ter feito e incentivado milhares de leitores da Palavra, juntamente com sua esposa, também pastora, tia Ozaide. Eu, seu sobrinho, sou um dos frutos dessa sua obsessão por ver o povo de Deus em permanente contato com a Bíblia. Embora eu já tivesse sentido esse impulso e essa necessidade, antes daquele encontro com ele no sítio, seu estímulo e o presente que me deu, foram importantes no meu processo pessoal. Gerou disciplina. A primeira Bíblia da minha coleção. Hoje treze, das mais variadas traduções, com seus variados suplementos e recursos para estudo. Foco numa por vez. Leio tudo. O texto sagrado, claro, mas também cada comentário, cada notinha de rodapé. Tudo.


Li a Bíblia muitas vezes, como se pode imaginar. Nas várias versões. Mais de uma vez no ano. Cheguei a ler em voz alta, inteirinha. Ordem cronológica. Trás pra frente. E outras variações que a criatividade inventou.


“Não cansa, Fer? Não chega uma hora em que tudo se repete?” Respondo tranquilamente que não, de forma alguma. Como também diz a letra da música, são palavras que alimentam o interior. Assim como comemos todos os dias, e precisaremos comer um pouco mais no outro, e no outro, sob pena de definhar e morrer, ocorre o mesmo com o alimento Palavra de Deus. Não tem como comer de uma vez por todas, ou imaginar-se saciado o suficiente para o resto da vida. Cada dia tem sua porção. Às vezes é bem simples, como “arroz com feijão, salada e carne”; noutras vezes é banquete; feijoada; rodízio japa; tem até brigadeiro de colher, pudim... Ela contém todos os sabores, nutrientes, cores, fibras e gorduras que meu interior precisa. A Palavra é completa.


Eu a como todos os dias, e continuarei a fazê-lo até o final da minha vida. Não mais como em outros tempos, de juventude, anotando o recorde de leitura em menos meses, ou contabilizando quantas “capa a capa” concluídas, e coisas assim, que para nada servem. Aliás, hoje eu nem sei quantas vezes a li completa. Porque pouco importa, como pouco importaria saber quantos almoços ou jantas comi na vida. Importa é que esse alimento todo – natural ou espiritual – manteve-me vivo até aqui. Cada dia com sua porção. É só continuar comendo... para viver.

 

Ah, e o melhor de tudo: você pode comer muito, que não engorda! (...) Bem, isso vale para o alimento espiritual. No natural, já não garanto. Aí é entre você e a balança.

terça-feira, 15 de junho de 2021

032 ON THE ROCK

Cheguei da escola, almocei, cumpri minha rotina normal e fiquei por ali o dia todo, só esperando uma janela de oportunidade. Mas toda hora tinha alguém por perto. Ou era o pai no escritório, ou a mãe na cozinha, meus irmãos assistindo TV, e nada de eu ficar sozinho em casa. Pelo que me recordo, rolou somente no final da tarde, quando já começava a escurecer. Ninguém por perto, bora!!!

Corri até minha mochila escolar e peguei a fita K-7 que eu havia encontrado no chão, a caminho de casa. Muitas crianças de hoje, ao terem em suas mãos uma dessas, talvez achassem estranho. Num lado da fita estava escrito GUNS N´ ROSES. No outro, LEANDRO & LEONARDO. Não tinha a menor ideia de quem eram. O ano dessa historinha é 1991. Lado A com November Rain, Live And Let Die, Don´t Cry, You Could Be Mine, Welcome To The Jungle, Paradise City, Sweet Child O´ Mine. Algumas dessas músicas foram os primeiros rocks que ouvi em toda a minha vida, já na casa dos 14 anos de idade. Lado B com Não Aprendi a Dizer Adeus, Pense em Mim, Talismã, Desculpe mas eu vou Chorar...

Não éramos de ouvir rádio em casa. Também não havia nenhuma proibição de ouvirmos o que quer que fosse. Os discos de vinil, que ficavam junto ao aparelho 3 em 1, eram todos de conjuntos corais, duplas evangélicas, quartetos, e havia também um disco de músicas clássicas. Essa era minha trilha sonora de então, à qual somavam-se os cantos congregacionais da igreja. Hinos e os corinhos; assim denominávamos as músicas da igreja naquele tempo. Um tempo muito diferente, onde havia acalorados debates sobre se podia ou não ter bateria na igreja, ou guitarra, ou se o Rock era do diabo. Com todas essas questões superadas hoje em dia – espera-se, ao menos – pode parecer estranho para os mais novos, mas assim é que era. Novidades costumam assustar.

Nossa igreja era o que se chamava de TRADICIONAL. Meu pai, o pastor. E eu, o filho mais velho do pastor, curtindo demais os Guns n´ Roses. Escondido, claro. Como eu disse, não havia uma proibição expressa, mas lá com meus botões eu entendia que aquilo estava um pouco fora da linha. Assim, por alguns dias, segui ouvindo minha fita secreta quando não tinha ninguém por perto. Mais o lado A, do Rock, e vez por outra o labo B também. Com um pequeno esforço, e alguma desafinação, eu conseguiria hoje lembrar a letra completa e cantar Talismã.

Mas, diferentemente de outras coisas que garotos de 14 anos fazem escondido, ouvir música era muito fácil identificar. Não havia fones de ouvido em casa. Assim, sempre pela mesma hora, quando eu me percebia sozinho, colocava a fita no 3 em 1 e ouvia um pouco, até perceber movimento. Então desligava rapidão e fingia estar mexendo nos discos de vinil. Claro que mãe logo percebe movimentos atípicos das crias. E claro que as crias sempre acreditam que conseguirão enganar. Tadinhas, sabem de nada (as crias).

Certo dia a Dona Mirian entrou bem na hora que o procedimento padrão acontecia. Fiz um movimento rápido para desligar. Ela deu sinal que não, e o som continuou rolando. Ouvimos uma ou duas músicas juntos.


- Você gosta dessas músicas?

- Não, mãe. Não gosto.

- Hum, então você fica ouvindo todos os dias músicas que não gosta. Interessante.

- Não, mãe. Eu ia jogar a fita fora.

- Se fosse jogar, já teria jogado. Não foi isso que eu perguntei, Fer. Você gosta dessas músicas?

- Sim, mãe. Eu gosto. Eu acho legal o estilo.

- Certo. Tem um cara que você vai conhecer. Ele se chama Vágner, é da Comunidade, e vai te mostrar umas músicas como essas que você gostou.

- Certo, mãe.

- Ele tem 1 hora semanal na Rádio Porta Voz, toca uns discos de rock. Você irá lá e depois me fala o que achou.


No dia determinado, na hora marcada, eu estava lá na rádio. Ela ficava pertinho de casa, cerca de uma quadra de distância, bastando virar à esquerda na esquina da Rua Guararapes com a 19 de Dezembro, e caminhar mais uma quadra. A Rádio Porta Voz ficava na esquina da Rua 19 com a Avenida Goiás. Conheci o tal Vágner, que todos chamavam de Vaguinho, e acompanhei o pequeno programa de rock cristão. Não me recordo de nenhuma música daquele dia. Sei que saí de lá com um combinado: eu iria até sua casa para, com mais calma, ouvir seus discos e gravar umas músicas.

Rolou a visita. Então fui melhor apresentado a algumas bandas de rock cristão, gênero musical relativamente novo para nós, do interiorzão do Paraná. Petra, Whitecross, Stryper, dentre as gringas. Oficina G3, Regaste, Katsbarnea, Rebanhão, nacionais. Os cabeludos barulhentos do questionado rock gospel. O Vágner tinha vários discos, tudo vindo de São Paulo. As lojas de Sampa traziam de fora, aí o restante do Brasil ia lá comprar. O mundo era totalmente diferente de hoje.

Então pense: 1991. Tinha muita coisa fina no acervo. Que safra! O disco do momento de Petra era Beyond Belief, considerado até hoje o melhor álbum da banda; Whitecross com In The Kingdom; Oficina G3 com Nada é tão Novo, Nada é tão Velho; Resgate com Vida, Jesus & Rock´n´Roll; Katsbarnea com o disco de mesmo nome, bombando com as faixas Extra, Apocalipse Now, Revolução. Não tinha como dar errado. Vaguinho soube fazer o serviço direito. Eu curti tudo do novo estilo. Era tudo muito bom! Bem, ainda hoje eu considero aqueles discos excelentes e ouço muitos deles 30 anos depois. Tinha levado comigo duas fitas K-7 virgens para gravar, e como o material era muito maior do que nelas cabia, selecionei as faixas favoritas de cada banda e álbum. Ficamos um dia inteiro na função.

Como a turminha mais Old School sabe, gravar do vinil para as K-7 dava muito trabalho. Você colocava a agulha do tocador no ponto certo do bolachão, e tinha que rolar o timing perfeito para apertar o REC no 3 em 1, naquele espacinho exato de silêncio entre uma faixa e outra. E o mesmo acontecia quando terminava a gravação de cada música. O lance era artesanal. Você então pegava uma caneta Bic, girava um pouco da fita K7, e deixava um espaço entre essa música e a próxima. Mas arte mesmo era gravar a última. Tinha que torcer para caber. Se não desse, ficava com música pela metade mesmo. Aí repetia todo o processo para encher o outro lado, e novamente tudo igual para os dois lados da segunda fita. Trampo, hein!

Obviamente que essas fitas se perderam, não estão mais comigo. Mas até que caminharam um tempinho razoável, quem sabe uns 2, 3 ou 4 anos. Então apareceram os CD´s, numa primeira onda de mudanças no modo como consumíamos música. As fitas K-7 resistiam. Até que os computadores se popularizaram, com seus drives e os CDs graváveis. Depois os regraváveis. Depois mp3, Napster, Torrent, Streaming. E o século 21 concluiu o sepultamento das antigas tecnologias. Ainda há entusiastas do vinil, por ouvir dizer, mas não estou entre eles. Alguns que eu tinha, também sequer tenho ideia de onde foram parar.

Abandonei os Guns n´ Roses? Não totalmente. Vez em quando ainda ouvia. Casou que em 92 teve o segundo Rock n´ Rio, e muita banda famosa da gringa veio ao Brasil. Os Guns estavam lá. Como eu conhecesse todas principais músicas, ficava mais interessante assistir às transmissões ao vivo na Globo. O rock já não assustava tanto, nem na casa do pastor. Ainda hoje é uma das bandas que ouço, e as músicas mais conhecidas – coincidentemente algumas que estavam naquela fita maluca “Lado A Rock / Labo B Sertanejo” – são as minhas favoritas. Das levadas, certamente Sweet Child O´ Mine e Paradise City, que eu canto bem alto no chuveiro, com meu inglês tabajara; das tranquilas, Patience e November Rain. Ow, músicas bonitas... A gente ligava na Cianorte FM pra pedir músicas e oferecer para as meninas que éramos fãs, numa remota esperança de que iriam ouvir.

Acordei lembrando dessas histórias hoje, e muitas que se seguiram, que foram pouco a pouco moldando meu gosto musical e me trazendo as bandas e os estilos que hoje compõem minha playlist. Ouvi muitas músicas o dia todo, dezenas, dessas do baú. Até alguns clipes. Facilidades destes nossos tempos de Spotify, Youtube e outros serviços de streaming. E eu quero lá alguma coisa com fita K-7? Que nada!!!

O Escrito de hoje, apenas uma sessão nostalgia. Provavelmente, leitura silenciosa aí do seu lado da tela, lendo nomes de bandas que nunca tinha ouvido falar. Mas do lado de cá, músicas rolando no player e lembranças de 3 décadas de relacionamento com o bom e velho Rock.


DICA: Diariamente eu releio pelo menos um desses escritos. Sempre rola um ajuste no texto, acréscimo ou supressão; eles estão em permanente construção. Então, caso tenha lido algum anterior e resolva reler, pode ser que note diferenças. Neste aqui já deixo a bola cantada: ao longo da semana vou listando algumas das minhas músicas favoritas de Rock Cristão.

Petra: Beyond Belief, I Am on the Rock, Love

Bride: Psichedelic Super Jesus, Heroes

Whitecross: In the Kingdom, Holy War

Stryper: To Hell with the Devil

Oficina G3: Naves Imperiais, Espelhos Mágicos

Resgate: Daniel, Palavras, 5:50, Leve Fardo, Doutores da Lei

sábado, 12 de junho de 2021

031 REFÚGIO MENTAL

“Fulano vive numa bolha”.

Esta expressão, conhecida por praticamente qualquer pessoa, contém uma metáfora. Metáfora, como alguns se lembrarão, é a designação de um objeto ou qualidade que designa outro objeto ou qualidade que tem com o primeiro uma relação de semelhança. Os exemplos seriam quase infinitos: vontade de ferro; magro como um palito, quente como o Sol, etc...

Viver numa bolha, portanto, é uma figura de linguagem. A bolha que pensamos, no caso, não seria aquela bela e translúcida feita com água e sabão, mas quer significar que a pessoa busca viver rodeada por aquilo que lhe agrada mais, impermeável a influências, ideias ou práticas diferentes das que prefere. Seria meio que tapar os olhos e ouvidos para o diferente. Isolamento. Bem, são estas as minhas impressões quando ouço a expressão “Fulano vive numa bolha”. E, no caso, não a considero uma condição ideal. Pode até ter alguns aspectos positivos, mas a maioria dos efeitos dessa postura será limitante.

Outra forma de entender aquela frase, tomando-a agora na literalidade, poderia significar um ambiente com segurança tal - real, onde literalmente entramos - que nenhuma ameaça externa, física ou biológica, nos afetaria. Uma barreira intransponível, colocada para evitar os malefícios do mundo exterior. Um abrigo sanitário. Ou um bunker. Puxo aqui na memória a cena dum filme que vi numa Sessão da Tarde, lá pelos idos de 80 ou 90, em que um milionário se mantinha vivo numa espécie de bolha médica, cheia de tecnologias e recursos. No caso, a estrutura não visava a alongar sua vida, numa utopia de imortalidade; o personagem tinha algumas fragilidades em sua saúde, e qualquer contaminação poderia ser fatal.

Por fim, para finalizar o começo do escrito, falemos também de uma espécie de bolha que tem a ver com cada um de nós. Todos já estivemos lá, embora não lembremos. No tempo certo, pulmões maduros, pessoinhas formadas, viemos à luz. Vida exterior começando. A bolha uterina foi nosso primeiro lugar em vida. Lá já havia vida, claro. O fato de haver debates sobre seu termo inicial, se com X, Y ou Z semanas, para mim é tempo perdido. Havida a fecundação, com a união dos gametas masculino e feminino, e gerado o zigoto, que passa a multiplicar-se avassaladoramente, temos vida. Se não houvesse, tudo ficaria estático. Vida é sinônimo de movimento. Não por acaso, seu termo final será marcado justamente pela inércia absoluta. Mas o povo gosta de complicar, né...

Uma bolha metafórica (lugar de isolamento). Uma bolha médico-tecnológica (lugar de proteção máxima). Uma bolha uterina (lugar de formação para a vida exterior). Vários tipos de bolhas. E há outras. Falaremos de mais duas.

A bolha de sabão é uma estrutura frágil, leve, dinâmica, instável. Deve haver outras propriedades, mas não pesquisei. Quando escrevo, raramente investigo detalhes na internet, pois gosto de puxar na memória aquilo que me lembro, o que eu sei das coisas; também algumas impressões, ou o que penso saber das coisas; e certamente muitos pitacos, ou seja, aquilo que eu acho que sei, mas pode estar certo ou errado. Costumo acertar. Basta ter bom senso e lógica. Mas abri uma exceção e fiz rápida pesquisa sobre bolhas de salão. Encontrei que ela é uma estrutura estudada seriamente pela Matemática. Dentre outros objetivos, para tentar compreender o que acontece em volta dos buracos negros. Básico. Trivial.

Ao misturarmos água e sabão, passando essa solução por uma estrutura de arame, soprando ou então fazendo um movimento rápido com a mão, aprisionamos certo volume de ar e surge uma bolha de sabão. Aquela bela, leve e flutuante estrutura translúcida que encanta as crianças. Ela contém uma propriedade rara, que é a que chama a atenção dos centistas: SUPERFÍCIE MÍNIMA. Para se ter uma ideia da importância do tema, recentemente um jovem matemático recebeu o Prêmio Carlos Gutierrez de Teses de Doutorado, que reconhece a melhor tese em Matemática no Brasil. Bolhas de sabão, galera. Bolhinhas de sabão... Quem diria que a brincadeira de criança tem algo a ver com Geometria e Equações Diferenciais, fenômenos celestes, teses de Doutorado e pós-Doc, ligas metálicas, Engenharia. O céu é o limite. E é para lá que as bolhas vão... se o vento ajudar.

Não vou cansá-los com tantos detalhes, mas vale anotar duas curiosidades legais: 1) o recorde brasileiro de maior bolha de sabão foi obtido em 2013 por um paranaense: 7,36 metros! e 2) o recorde mundial foi estabelecido em 2012 em Vancouver, quando 181 pessoas foram colocadas dentro de uma bolha. Na gringa os recordes são pela quantidade de pessoas “embolhadas”, enquanto no Brasil o que vale são as medidas. Bora lá! Pesquise no Tio Google e mate sua curiosidade com as imagens desses recordes.

Pincelamos então umas ideias sobre quatro tipos de bolhas, para finalmente, depois de eu te enrolar com meu velho e conhecido novelo textual, capturar sua atenção e começarmos a conversar sobre o que realmente importa. Um quinto tipo de bolha: O REFÚGIO MENTAL.

Essa bolha é diferente das quatro anteriores, mas contém um pouco de cada. A melhor parte de cada. Chegaremos lá. Antes, porém, importa dizer que um refúgio mental é importante. Precisamos ter. Refúgio remete a um lugar de proteção. A mente é o objeto que será protegido. Disse da importância desse lugar, porque entendo que hoje uma das coisas mais desejadas de quem detém o poder é conseguir capturar mentes. Comercialmente falando. Politicamente. Emocionalmente. Espiritualmente. Em tantos e quantos “...mentes” possíveis, objetivo máximo é fisgar mentes. Nossa atenção é o grande prêmio. Uma mente capturada vale ouro.

Não por acaso, há tanto investimento em tecnologias para entender nossos hábitos, preferências, padrões de consumo, temas de interesse. Basta você buscar no Tio Google uma expressão qualquer, que no minuto seguinte todos os seus ambientes virtuais começarão a receber sugestões relacionadas. O algoritmo não descansa. Ele está sempre por aí, a rodear a terra e cirandar por ela... Negócio é cabuloso, tem horas que assusta. Mas está tão cristalizado no nosso jeito superconectado de ser, que não nos damos conta. Ou não ligamos. “Ligar pra quê? O negócio é bom, faz o serviço por mim. Nem preciso perder meu tempo procurando nada. Vem tudo na mão”.

E aí está o grande problema. Ao aceitarmos passivamente que alguém, ou algo, ou sei lá o quê, com sei lá qual intenção, pense por nós, no que seríamos diferentes dos desumanizados seres vivos aprisionados nas bolhas-máquinas-uterinas da fictícia Matrix? Aquela cena dramática dos “campos sem fim”, de pessoas semi-vivas, cultivadas com a única finalidade de produzir energia. Aquele filme é muito forte. Ele mexeu comigo há 20 anos, quando surgiu. Continua mexendo hoje. Não tem como não pensar muito sério a respeito.

As pessoas nascidas na fictícia Matrix não se davam conta das estruturas que as dominavam. Afinal, nasceram nela, com tudo funcionando como deveria ser. Em nossa Matrix real ocorre rigorosamente o mesmo. Os mais novos, nascidos em gerações recentes, não conheceram o mundo analógico. Eu não apenas conheci, como vivi essa transição. Tenho um pé no passado e outro no presente-futuro. Eu não tenho o plug na nuca. Considero isso uma dádiva. Sim, porque isso me permite ver algumas coisas pelos olhos da geração que tinha ideias próprias, conhecia pessoas da forma antiga, telefonava, saía para pesquisar preços e comprar coisas, fazia uma viagem sem saber como estaria o tempo e as condições do trânsito, recorria à Tia Barsa para fazer um trabalho escolar. E o trabalho tinha que ser feito à mão, letra bonita. Old School!

Calma, calma. Não desprezo em nada os avanços tecnológicos. Apenas fico alerta ao que a tecnologia pode – E QUER – fazer comigo. Eu tenho uma Enciclopédia Barsa na minha biblioteca pessoal, mas não prego que todos tenhamos que voltar para ela. O Tio Google é incomparavelmente melhor para pesquisas. Só que a Barsa não moldava seu conteúdo, a depender de minha última visita, para fazer-me ver apenas temas semelhantes. Não. Ela permanecia como era, rica e variada, limitada sim, mas honesta e disponível com o conteúdo que possuía, para que EU FIZESSE A ESCOLHA do que queria ver na pesquisa seguinte. Eu pensava num verbete qualquer, ou abria suas páginas aleatoriamente, e começava a ler. Eu aprendi a ler nela, por isso tenho uma no acervo.

O Tio Google, diferentemente, metamorfoseia-se permanentemente para levar aos seus olhos o que você viu recentemente, ou algo novo que ele quer que você veja, privando-te de todo um universo de diversidade de conhecimento. Ele cria a BOLHA RUIM, a limitante, a castradora de horizontes. Neste sentido, ele é terrível. A título de sugestão, indico o documentário “O Dilema das Redes” (Netflix), que me gerou profundas reflexões sobre meu uso da internet e sobre a hiperconexão. Se puder, assista.

Mas então, o que fazer? Se existe esta estrutura pensada para capturar minha mente, qual a saída? Ficar OFF total? Fugir para as montanhas? Não parecem ser opções viáveis.

FOGO CONTRA FOGO. Você vai enfrentar a bolha ruim com uma boa. A sua bolha. E vamos aprender juntos a fazê-la. Lembra-se das 4 bolhas que falamos no começo do texto? Pois então, pegaremos o melhor de cada uma delas para construir a nossa. Um lugar de proteção para a mente. Nosso REFÚGIO MENTAL. Vamos lá. É tipo receitinha de bolo mesmo.

Daquela primeira bolha, a metafórica, aproveita-se a bolha em si, atual. Ela é o ponto de partida. A consciência de que bolhas existem. Porque ninguém nega que tem-está numa. A minha, por exemplo, tem a ver com o quê? Cristianismo. Família. Ciclismo. Livros. Motocicletas. Há mais coisas; pincei só uns itens. Onde quero chegar, é que as coisas que nos interessam compõem nossa bolha atual. Ela não será desprezada. Somos quem somos, e chagamos onde chegamos, por causa dela ou apesar dela. Talvez tenhamos chegado de forma intencional. Mas é bem possível que vários itens atuais tenham sido incluídos sem nosso OK.

A chave inicial, então, é sair do automático, olhar atentamente para tudo que hoje faz parte da sua vida, e começar a colocar OK ou NÃO Ok. Um diagnóstico, preparação para a faxina. Provavelmente, algo que você nunca fez. Da primeira bolha, portanto, você vai utilizar toda a sua bagagem atual, seja ela qual for, boa ou ruim, para ter o primeiro ingrediente da receita: CONSCIÊNCIA. Morpheus andou falando contigo. Você suspeitava. Agora as pílulas azul e vermelha estão à sua frente. Você se deu conta de que o lance é real. Matrix.

Da bolha que todos conhecemos (a materna), sem nunca tê-la visto, mas que teve um papel literalmente vital para todos nós, vamos extrair o segundo ingrediente: A NECESSIDADE DE SAIR. Tomar a pílula certa. Nunca me lembro se Neo tomou a vermelha ou a azul (depois eu vejo no Tio Google). Enfim, detalhes. O fato é que ele decidiu sair. Embora aquela bolha inicial do filme, assim como a nossa inicial, da vida, são aparentemente boas, a vida plena não cabe nelas. Ao sairmos, viveremos e poderemos crescer. Se ficarmos, morreremos. Assim que é, na ficção e na vida.

Uma vez fora, somos colocados – ou escolhemos nos colocar – num ambiente hostil. Sujeira. Ruídos. Germes. Intempéries. Maldades de toda ordem. Não é brinquedo, não. Como dizia um professor meu no MBA (com voz de psicopata): “O MUNDO É MAAAAAAU!!!” Sim, o mundo é mau. E somos frágeis. Não sabemos nos cuidar, de início. Diferentemente de outras espécies, que mal saem da primeira bolha, são lambidos pelas mães e entram instintivamente em marcha com a manada, o processo de crescimento do ser humano é bem demorado. Nos primeiros dias, tudo conspira contra a vida. Se sobrevivermos, passando os dias, semanas e meses iniciais, será uma vitória imensa. Hoje, com toda a tecnologia, a regra é viver. Nos tempos dos nossos avós ou bisavós, isso que escrevi fazia muito mais sentido. Pais enterravam filhos por coisas que hoje não matam mais.

O terceiro ingrediente para construção da nossa bolha, nosso refúgio mental, é a COLOCAÇÃO DE FILTROS para que as contaminações do mundo exterior não nos matem. Semelhantemente àquela imagem que trago do filme que assisti, penso ser necessário estabelecer o que pode e o que não pode agora estar dentro. Gases tóxicos ou ar puro? Palavras de vida ou mensagens de morte? Boa música ou lixo sonoro? Você já entendeu. Filtros. É necessário colocar filtros para que entre o que é bom, e fique fora o que é ruim.

Sei que o texto vai se alongando, mas este terceiro elemento, dos quatro que proponho, é muito, muito importante. Preciso aprofundar. Falarei sobre como eu faço.

Nosso mundo interior é alimentado pelos 5 sentidos. Eles se constituem em canais de ligação entre o externo e o interno. Dois deles tem maior relevância: VISÃO e AUDIÇÃO. Os três restantes (tato, olfato e paladar), embora existentes e importantes, acabam tendo um papel secundário no dia a dia. Afinal, vemos e ouvimos imensamente mais coisas do que tocamos, cheiramos ou degustamos. E falando então em alimentação da nossa mente, o pouco que tocamos, cheiremos ou degustamos fica ainda menor. Aquilo que vemos e ouvimos é o arroz com feijão, carne de panela, salada e ovo (zóião) da nossa mente. A sustança entra por estes dois canais principais.

Daí que eu cuido muito deles. Eu já tomei a pílula certa (azul ou vermelha?), saí da Matrix. Eu não permito mais que a programação da TV, encharcada das narrativas que alguém quer que eu siga, chegue até mim. Não me coloco em frente a uma tela de forma passiva, de jeito nenhum. Falando em ouvidos, jamais que carrego uma rádio qualquer para ouvir mecanicamente. Só o que eu colocaria para dentro, em 99% das estações, seria um lixo de música, todas iguais, banais, descartáveis. Na navegação na internet o troço fica mais melindroso. Embora eu tenha a impressão de que estou no controle, a coisa é feita para que eu veja o que “eles” – o que quer que “eles” signifique – querem que eu veja. Vez por outra caio na cilada. Lembro-me de algo que preciso pesquisar, então puxo o celular e lá estão 3 ou 4 ou 10 notificações de Apps diferentes. Acabo deixando de olhar o que eu precisava, para perder preciosos minutos com bobeiras. Ainda acontece, mas cada vez menos. Desabilitei as notificações da maioria dos Apps. Cedo ou tarde deixarei Off para todos, de modo que eu acesse apenas voluntariamente o que eu decidir ver, e não reagir como um cão treinado aos comandos condicionantes. Pavlov total no rolê.

Os exemplos seriam muitos, mas você já entendeu. Criar os filtros para sua bolha, seu refúgio mental, significa tomar as rédeas dos canais de entrada de tudo que te alimenta. Assim como você tem o poder de decisão sobre o que estará no seu prato – caso tenha recursos e possa fazer este tipo de escolha, algo que infelizmente ainda é luxo para tantos – e alimentarão o seu corpo, trazendo (ou não) saúde, da mesmíssima forma está no seu poder decidir o que colocará no prato que comerá com seus olhos e ouvidos, trazendo saúde ou doença para seu mundo interior. Não adianta sair da Matrix, ter uma impressão inicial de liberdade, mas no mundo real continuar comendo porcaria.

Por fim, da quarta bolha mencionada no início deste escrito, quero aproveitar a beleza, a leveza, a elasticidade, a mobilidade e a transparência. RESSIGNIFICAR, eis o quarto ingrediente. Seu lugar seguro, seu refúgio mental, não precisa ser um bunker, uma toca ou caverna. Isso te isolaria. Lugar fechado, inacessível, sombrio até. Prefiro olhar para meu refúgio mental como uma bolha de sabão. O que tem ali dentro, eu escolhi deixar entrar. O que tem fora, fica fora. Mas quero um lugar de proteção não preso ao solo – e menos ainda no subsolo – , mas um que me permita passear por diferentes lugares, voar, um que seja bonito de se olhar, tanto para quem está dentro (eu e meu mundo), como para quem está do lado de fora (pode ser que entre). Eu quero ver o mundo por todos os ângulo da parte interna de uma bolha de sabão. Visão 4D. E assim ser visto também. Não fui trazido à existência para ficar sob o velador.

Mobilidade e elasticidade para ter mais. Em meu refúgio mental não cabem apenas Cristianismo, Família, Ciclismo, Livros e Motocicletas. De forma alguma. Estes elementos o compõem, e certamente continuarão até o final da minha vida, mas há espaço para mais. Lembra-se? Uma bolha de 7,36 metros! Uma super bolha com 181 pessoas dentro. Ela terá o tamanho que eu quiser, com as coisas que eu permitir entrar. Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convém. Uma bolha pode ser rica, muito rica de conteúdo e significado. RESSIGNIFICAR.

Eu vivo numa bolha. Todos vivemos. Mas eu vivo numa que eu fiz (ou refiz), e que vai se fazendo e refazendo num continuum, do meu jeito, com os meus critérios. Eu escolho, voluntária e conscientemente, o que fica de cada lado dela. FREE WILL. Ele é boa, segura, e muito bem filtrada. Ela é leve, móvel e transparente, como essa da imagem que escolhi para o escrito. E ela tem uma outra característica muito preciosa, verificada quando do encontro de uma ou mais bolhas de sabão: ao se tocarem, não estouram, nem se repelem. Pelo contrário. Ou se conectam para formar uma maior; ou se conformam num aglomerado de bolhinhas, cada qual com seu refúgio interior, mas unidas como num só corpo. Instigante tema para outro escrito...

082 PALAVRAS AO VENTO

Uns dois ou três dias atrás fiz algo que há muito tempo abandonei. Numa rede social, após ver a postagem que me chamou a atenção – de temáti...