A distância entre a saída do cano da espingarda e o pequeno animal deveria ser de uns 30 metros, pelo menos. Ele estava bem alto, batendo o bico na perobinha que ficava no meio da roça ao lado da casa. Iepê (sempre Iepê), no bom e velho sítio de tantas histórias. Ano? Difícil precisar. Eu já não era criança, para ter uma arma de pressão em mãos, com autorização do vô Cilas. Uns 15 ou 16 anos de idade, seguramente. Rapaizão com tamanho de adulto e algumas ideias de moleque. A brilhante ideia do dia: atirar num pica-pau.
Os tiros começaram algum tempo antes, quando meu tio Mário adquiriu a espingarda de pressão. Chegamos ao sítio em Iepê para férias de final de ano, e lá estava o “cano”. Meu tio – apenas 2 anos mais velho que eu – e a sobrinhada – que cresceu junto com ele, como se todos primos fossem – só queriam saber de ficar atirando nas coisas. Naquela temporada de 10 a 15 dias que passamos por lá, toda a curta grana de cada um era reunida para uma única finalidade: comprar caixas de chumbinhos. Assim conseguíamos a munição necessária para a brincadeira.
Nas pontas dos palanques, latas de óleo de cozinha, vidros usados de remédios para o gado, caixinhas de fósforo. Os alvos ficaram cada vez menores, inversamente proporcionais à nossa mira, cada vez maior e melhor. Piazada aprendeu rápido a atirar bem. Assim passávamos nossas tardes. Pela manhã, o tio Mário tinha suas responsabilidades no sítio, e de tarde podíamos todos nos divertir. Vez por outra íamos nadar na represa do João Manarin, e claro que a espingarda passeava conosco. Íamos atirando num alvo ali, outro acolá, até que cedo ou tarde aparecia alguém, um sitiante da área, e mandava a advertência de sempre: “Não atirem nos animais”.
O vô Cilas falava o mesmo. Ele, que tinha também no sítio sua espingarda (não de chumbinho), já havia atirado em alguns animais na vida. Três de seus grandes prazeres – além de amar intensamente minha vó Laurinda – eram pescar, caçar e tirar mel silvestre de tocos ou rochas nas matas. Assim ele deve ter passado milhares de horas de sua vida, em completa imersão num mundo de pequenos e grandes animais, árvores, sons e cenários incríveis. Alguns perigosos, com certeza. Lembro-me de várias histórias que ele contou, de situações de perigo real em meio à natureza.
Ele quase todos os dias nos repetia: “Não atirem nos animais”. Claro que desobedecemos. Piás crescidos são pinta braba. Numa das ocasiões na represa, o gado começou a descer para beber água. Entramos na água e por ali ficamos um tempo, e nada do gado subir. Ia entardecendo, hora de puxar o trecho de volta; uma caminhada de seus 3 a 4km cortando algumas propriedades rurais. Havia um boi com tipo de bravo, e esse nos assustava. Os demais animais – vacas de leite (desde que sem crias novas) – eram inofensivos. Bem, já que o boi não subia, precisamos espantá-lo. Mário deu alguns tiros de longe – talvez os mesmos 30 metros da primeira frase do texto – até que um acertou. O boi deu uma mexida no corpo e saiu apressado para cima. As vacas o seguiram, invertendo aquela velha cantiga da roça: “Aonde a vaca vai, o boi vai atrás”.
Voltamos para o sítio da família e vida que segue. Colecionando memórias. Lembro-me de ter perguntado para meu tio se aquele tiro de chumbinho não teria machucado o boi? Ele me respondeu que não, pois o couro do gado é grosso. Seria problema se o tiro acertasse nas partes moles, tais como nariz e olhos do boi. Especialmente nos olhos, claro, pois poderia cegar o animal. Mas não foi o caso. Aquele chumbinho foi nitidamente em seu corpo, como pudemos perceber na hora. E, afinal – e mais importante – não atiramos na maldade. Não falamos isso para o vô Cilas, claro. E assim a temporada de férias chegou ao fim.
Passado um tempo, coisa de 1 ano ou pouco mais, estava eu novamente em Iepê. Meu tio Mário já não morava por ali. Salvo engano, tinha saído de casa pela primeira vez. São Paulo, a selva de pedra. Foi em busca de trabalho. O sítio sem ele não era a mesma coisa. Por ser o “dono da área” (em meio à sobrinhada), ele comandava as ações. Sem ele, nós mesmos inventávamos as brincadeiras. Acho que nessa oportunidade, que nos coloca no contexto do primeiro parágrafo, os primos não estavam por lá. Apenas eu, meus pais e meus irmãos; além dos avós, claro, que lá moravam. Encontrei a espingarda de pressão no quarto do tio Mário, mostrei ao meu avô e avisei que iria comprar uns chumbinhos para usar. E assim foi.
Como já tivéssemos atirado bastante em oportunidades anteriores, e eu já sendo um rapaz crescido, por ele tudo bem. Rolou a advertência de sempre – “Não atire nos animais”. Mesmo roteiro de antes, com alvos variados nas pontas dos palanques. É praticamente certo que meu irmão Marcelo estivesse comigo todas as vezes que eu saía para atirar. A Pri deve ter ido uma ou outra vez, mas não era muito a praia dela. Devia estar mais interessada em sua pasta com aqueles papeis de carta colecionáveis, perfumados, que as meninas tinham nos anos 90. Lembro-me de ter pego um ou dois por “empréstimo” (sem avisá-la) para escrever cartinhas para meninas que eu era fã na escola. Quando a Pri descobria, rolava briga.
Até que numa ocasião eu estava ali pela casa e comecei a ouvir um barulho. Pequenas batidas na madeira. Fui atrás de encontrar o que seria aquilo, até que vi um pica-pau bicando o tronco da perobinha no quintal. Não era uma árvore idosa, daquelas gigantes que havia antigamente; também não era nova. Certamente com uns 15 metros ou mais de altura, com o característico tronco comprido e bem reto, e uma galhada no ponteiro. Perobas não formam copas amplas, como outras espécies. Buscam sempre o alto, e ficam muito altas. E lá no alto estava o bendito pica-pau... em seu último dia de vida. Ele ainda não sabia disso. Nem eu.
Ao identifica-lo, me ocorreu a “brilhante” ideia de correr atrás da espingarda de pressão e tentar acertá-lo. Da ideia à ação foram poucos instantes, para que ele não voasse embora. Rapidamente encontrei a arma, carreguei o chumbinho, fiz mira e apertei o gatilho. Pelo menos uns 30 metros. Ave de pequeno porte. Algum vento. Qual a chance? Pois é. Uma chance. De repente a ave foi para baixo.
Bateu aquele desespero, adrenalina lá em cima. “E agora? E agora”. Você fica igual cachorro em mudança, sem saber para que lado vai, então corri para o pé da perobinha. É uma cena muito vívida para mim, até hoje. O pica-pau ainda vivo, debatendo-se. Algum sangue. Parte de cima do bico quebrada. Ele se mexia violentamente, certamente com muita dor. A adrenalina subiu ainda mais, a sensação de cachorro em mudança duplicou, e tudo que consegui fazer foi sair correndo dali para encontrar meu avô. Correndo e gritando por ele, até que o encontrei.
Meio assustado com meus chamados por ele, como se algo grave tivesse acontecido (e tinha), contei-lhe que havia atirado num pica-pau e que ele estava machucado. Corremos juntos até o local e lá estava o quadro já descrito. O pobre animal, com bico quebrado, debatendo-se e gritando (ao seu modo). Outra cena muito vívida, que também jamais esquecerei. Cena ainda mais dramática. Meu avô tomou a arma das minhas mãos, correu até a casa e logo voltou com uma faca. Sacrificou rapidamente o animal, explicando-me que um pica-pau sem bico era uma ave condenada a morte lenta e certa. Como o tiro não fora em sua cabeça, ou no pescoço, ou corpo, ela não sofreu uma ferida imediatamente mortal. Mas sem bico, como um pica-pau poderia sobreviver?
Uma coisa é você ver sua avó matando um frango, ou seu avô matando um porco para comer; coisa, aliás, que eu já havia feito com ele uns tempos atrás. É, o vô Cilas me ensinou a matar porco... mas para comer. É outro quadro. Você o vê com certa naturalidade, embora também seja dramático. Não sou vegano, jamais serei. Eu como carne. Eu amo comer carne. Hoje, se preciso for, eu mato um porco para comer. Não sei se com a mesma habilidade de quem faz isso regularmente, mas a gente dá um jeito.
Outra coisa, quadro totalmente diferente, é você ver um lindo animal morrer por nada. Uma molecagem. Pica-pau cuidando da sua vida, na boa, na dele, sem fazer mal a ninguém. No máximo, “fazendo mal” a uns cupins, que são alimento para ele. Se tinha filhotes num ninho, não sei. Se estava de paquera com uma linda pica-pau, também não sei. Eu interrompi sua vida por nada. Por ser um menino crescido e irresponsável.
A arma retirada das minhas mãos foi muito bem escondida por meu avô, para que nada semelhante voltasse a acontecer. Não me lembro se chorei naquele dia. Mas são vívidas as imagens e as sensações pelo que fiz. Revivo-as como se fossem hoje.
Vários anos depois, num outro sítio, estávamos eu, meu pai e dois sabujos circulando na beira das matas. Algo que sempre me incomodou no sítio do pai é o fato – ainda hoje presente – de os cães ficarem praticamente o dia todo presos, com correntes de pescoço bem curtas, sem praticamente poderem circular. Uma prisão triste. Todo aquele cenário lindo à sua frente, do qual eles raramente usufruem. Então, quando eu via meu pai soltando-os, achava ótimo. Inclusive estimulava a fazê-lo. Nesse dia do passeio pela mata, foi o que ocorreu. Meu pai disse que iria subir pra matinha e ver se conseguia matar um carancho que estava dizimando os pintainhos do sítio. Pegou sua arma (não de chumbinho) e fomos. Já estávamos de saída, quando sugeri que levássemos os cachorros. Então ele os soltou e subimos.
Um dos sabujos era mais arisco. Não era bravo, mas daquele tipo de animal desconfiado, na dele, sempre longe. O outro, mais jovem, era todo brincalhão. Tentava pular em nós o tempo todo, mordiscar nossos calcanhares e coisas do tipo. Eu, que adoro interagir com animais, fazia festa com ele. Circulamos por aproximadamente 1 hora, e nada de ver o carancho. Foi legal conhecer aquela parte do sítio, na qual eu nunca tinha ido. Não chegamos a entrar na mata, que era densa, e certamente conteria alguns animais de pequeno porte. Conteria não. Continha. Um porco-espinho, com certeza.
De repente nos aparece o sabujo brincalhão com a boca toda ensanguentada e coberta de espinhos. Corria para todos os lados, roçava as patas dianteiras no focinho, chorava – não sei se cachorros choram, tecnicamente falando – e vinha até perto de nós, como que pedindo ajuda. Lembro que o pai falou: “Vamos correr para casa, senão a gente perde este cachorro. Os espinhos são vivos, caminham, vão entrando no animal, até que geram ferimentos que o matam. O bicho não vai conseguir respirar”. Saímos em disparada, e os dois sabujos na nossa cola. O mais novo e brincalhão, machucado pelos espinhos, fazia pequenas parada para novamente roçar o focinho com as patas, então voltava a correr atrás de nós.
Meu pai pegou um alicate e começou a puxar os espinhos. Aquilo devia doer pra burro! Como se sabe, esse tipo de espinho parece um anzol. Sua cerras são no sentido de entrada, e elas literalmente rasgam a carne se o espinho for puxado no sentido contrário, que era justamente o que tínhamos que fazer. Não havia tempo para anestesia, e sequer algum tipo de atendimento do tipo por ali. Região rústica, sítio ainda mais rústico. A coisa era à moda antiga. Como estivesse doendo muito – era nítido – o sabujo tentava morder meu pai a cada vez que ele aproximava o alicate. Era instintivo. Eu estava segurando o animal pela coleira, com seu corpo encaixado em meio às minhas pernas (eu por trás dele), e bem atento também para que ele não me mordesse. O bicho era forte, debatia-se muito, quanto mais tentávamos ajuda-lo.
O pai pediu que eu segurasse mais forte o animal. Foi o que fiz. Dei aquele “juntada” nele com minhas pernas, travando-o, e segurei mais firme a coleira. O pai rapidamente foi tirando os espinhos e chegou a comentar “Está acabando, vamos salvá-lo”. Tivemos a frágil sensação de sucesso. Quando destravei o sabujo de minhas pernas e soltei a coleira, caiu morto. Sufocado por mim. “Perdemos o animal”... foi a lacônica frase do meu pai. Olhamos um para o outro, meio que não acreditando, inconformados. Não olhares acusadores, mas de culpa própria, de cada um para si mesmo, por nossa falta de habilidade naquela situação. Matamos o pobre cão.
Meu pai pegou o enxadão e ali mesmo, praticamente no mesmo local onde ele foi morto, o enterramos. Eu ajudei a cavar a cova. Passei o restante daquele dia extremamente mal com a situação. Idem nos dias seguintes. Foi um acidente, claro. Ainda assim, a sensação de matar um ser vivo com suas próprias mãos é extremamente dramática e marcante. Espero nunca mais passar por algo semelhante. Certamente meu pai teve as mesmas sensações, pois sei que ele é um homem totalmente pacífico, daqueles que cresceram no mato e sofria por ter que sacrificar um animal, ainda que fosse para comer. Ainda hoje, já idoso, morando no mesmo sítio, ele não o faz. Se um animal para consumo precisa ser morto, ele terceiriza a tarefa.
Essas duas histórias, totalmente verídicas em cada detalhe, tem por objetivo registrar meu apreço pela vida; QUALQUER VIDA. “Então pare de comer carne!”. Não, não paro. O assunto não é este. Eu como carne, embora tal consumo implique na necessária morte de um animal. Isso é uma coisa; o matar por matar, é outra coisa. Falaremos sobre hábitos alimentares noutra oportunidade. O caso é que vejo a vida como um bem valioso, uma dádiva, algo que deve ser preservado por todos os meios.
Eu não surfo no HYPE. O tema do momento não me interessa; passo ao largo. Prefiro falar sobre as coisas que me parecem relevantes, ou que eu simplesmente tenha vontade. Não sou ligado no noticiário e raramente assisto TV. Muita coisa acontece e está bombando na massa, e o Fer lá em Nárnia. Meu REFÚGIO MENTAL, lembra? Texto 031. Não entrei em tantos detalhes nele, mas o farei num escrito complementar, onde basicamente falarei sobre atitudes práticas que preservam minha mente. Uma delas: distanciamento da avalanche de informações inúteis. Não. Não se trata de uma fuga da realidade. É importante estar bem informado, mas hoje o volume é tão avassalador, que preciso cuidar e filtrar.
Algo que tenho praticado faz uns anos, e vejo que funciona, é confiar que as notícias REALMENTE IMPORTANTES chegarão ao meu conhecimento. Não preciso correr atrás. Os informadores estão malucos atrás de público. As notícias banais, as manchetinhas de tabloides e programas apelativos, que bombam hoje e ninguém se lembra amanhã, dessas não quero nem saber. Tenho coisas muito mais importantes em que pensar e com que me ocupar. Assim tenho vivido. Minha saúde mental é excelente, pode acreditar. E sou muito bem informado, esteja certo.
Apreço pela vida. Seletividade das informações. Bora misturar e chegar ao ponto central da prosa.
Mencionei as histórias dos animais que matei, para afirmar meu apreço pela VIDA. E mencionei o lance do HYPE, porque ontem choveram notícias sobre uma vida que se foi: LÁZARO BARBOSA. Foi o assunto do dia. Dificilmente alguém não teve notícia sobre ele nas últimas 3 semanas. “A caçada chegou ao fim”... “Alvo abatido”... “CPF cancelado...” “Foi pro inferno abraçar o capeta”... “Agora estamos seguros”... Todos os canais dando ampla cobertura. Redes sociais bombando. Os primeiros “memes”. Tias do zap zap a mil grau. Surgem críticas à ação policial... Direitos Humanos na área... Gente falando que a operação foi um fracasso, pois tinha que capturar vivo... e por aí vai. A “boa” e velha polarização de tudo pintando na área. Quando percebi a avalanche de informações, pulei fora na hora! Fui para meu refúgio mental.
Eu penso duas coisas sobre o “Caso Lázaro”.
1. Aquele homem, até onde sei, semeou violência e muito terror por onde passou. Viveu de uma forma contrária à vida pacífica e ordenada, que desejam a imensa maioria das pessoas. Sua colheita foi da mesma espécie. Sem surpresas, portanto. Vida de violência, morte violenta. Se houve erros ou acertos daqueles que estiveram diretamente envolvidos, não tenho como dizer, olhando de longe, especialista que não sou. Os diplomados vão analisar e opinar. Quem estava lá, no front, sabe como foi. O resto são opiniões de escritório. É fácil falar de longe, na poltrona chique, com ambiente climatizado a 20 graus. Eu não me sinto habilitado. Sei apenas que, pelo que me chegou ao conhecimento, Lázaro colheu na morte o que semeou em vida.
2. “Putz, lá vem o Fer falando de Deus”. Pois é, hoje tem também. “Para Fer, o cara mereceu morrer, era um monstro. Nem vem! Não tem o que falar de bem dele. Mereceu ir pro inferno!”... Calma, calma. Leia primeiro. Apedreje-me depois.
Não vim defender Lázaro neste escrito, nem avaliar a ação policial, muito menos celebrar sua morte. Dispus-me apenas a encarar uma séria reflexão. Pensar um pouco com minha própria mente, sem as influências da avalanche.
São quase
6h da manhã. Acordei pouco antes das 3h. Normalmente eu me sentaria em frente
ao teclado pelas 21h de terça para escrever. Hoje foi diferente. Deitei muito
cedo, por isso cedo despertei. Passeando por meus pensamentos,
peguei-me lembrando das notícias do dia anterior. Imagens fortes, análises.
Tudo aquilo que já falamos. De todo esse balaio, as que mais me impressionaram foram comemorações pela morte do homem. Mais que alívio pela sensação de segurança; notei boa dose de alegria e celebração. É como a Terra olhou para a cena.
Não julgo. Estou falando aqui da minha poltrona no escritório também. Se ele estivesse
nas imediações de Maringá, acredito que eu também teria sentido as mesmas tensões e medo por sua proximidade, bem como alívio por novamente estar seguro, com sua
captura ou morte. ALÍVIO, eu disse. Enfim, mas só quem esteve no front sabe mensurar.
Em meio aos passeios de pensamentos, decidi orar. Buscar um olhar “do céu” sobre as coisas, porque a visão dos homens estava bem clara. Sabe o que descobri em oração? Veio-me nitidamente a impressão de que não houve festa no céu ontem. Não rolou hashtag “CPF CANCELADO” no Twiter Celestial, nem compartilhamento de fotos da "peneira" no zap zap dos anjos. Não consegui enxergar o Senhor Jesus mandando um “bora pro Inferno, desgraçaaado”; nem o Senhor Deus sentindo-se mais seguro e celebrando. Não, nada disso. Lembrei-me naturalmente da passagem que diz HAVERÁ MAIOR ALEGRIA NO CÉU POR UM PECADOR QUE SE ARREPENDE, DO QUE POR NOVENTA E NOVE JUSTOS QUE NÃO NECESSITAM DE ARREPENDIMENTO (Lucas 15:17).
“Peraí Fer! Agora você foi longe demais. O cara era o demônio em forma de homem”.
Calma, calma. Leia primeiro. Apedreje-me depois.
Sabe aquele PAI AMOROSO do texto 018? Então. Até ontem, aquele Pai aguardava o arrependimento e a submissão de um homem chamado Lázaro. Até ontem havia esperança. Porque eu creio que enquanto há vida, há esperança e pode haver restauração PARA QUALQUER UM. Até para um Lázaro Barbosa. Do jeito que estava, sujo como estava, com toda a desgraceira em sua ficha... eu sei que até aquele último suspiro o Pai desejava arrependimento e restauração. Tenho convicção de que o Deus que creio não estava louco para postar CPF CANCELADO. Não! Ele queria ser o primeiro a puxar a festa no céu por um pecador arrependido, sendo imediatamente seguido pelo Filho e pelo Espírito, bem como por todas as legiões celestiais. Alegria por mais uma vida resgatada da Morte Eterna.
Mas tudo indica que não. As circunstâncias não apontam para arrependimento. Não sou o juiz dos homens. Digo apenas o que me parece. O Senhor da Glória um dia mostrará a todos qual a morada eterna de Lázaro. Tenho cá minhas impressões.
Mas festa no céu por sua morte? Disso eu certamente posso dizer que não houve. Porque o céu é lugar de vida e de celebração da vida. Não de morte. Se somos – e tenho convicção que somos – sua imagem e semelhança, e expressamos tristeza e dor por um pequeno pica-pau morto injustamente, ou por um sabujo matado acidentalmente, outro caminho não há que o de, no mínimo, não celebrar a morte de um homem, mesmo que morto em desgraça... e causando desgraça. Não estou a defendê-lo. De modo algum. Estivesse eu numa situação extrema, para defender minha vida ou a de pessoas que amo, poderia eu mesmo ter matado Lázaro. Dizer isto é forte, eu sei. Espero jamais descobrir se o faria mesmo.
Mas celebrar a morte? Não me cabe. Não me cabe.
Ele colheu das sementes que amplamente semeou. Estamos mais seguros com sua saída de cena? Sim, parece que sim. Ele mereceu aquele fim? Não sei. No mínimo, correu de braços abertos ao encontro da morte certa, quando decidiu enfrentar a tudo e a todos da forma mais louca possível. Violência aflorada. Rebeldia em último grau. Que outro desfecho se poderia esperar? Lázaro morreu da forma que escolheu viver. Agora nada mais pode ser mudado. Alea jacta est. A sorte dele está lançada. Até ontem ele tinha um Pai Amoroso que ansiava por seu arrependimento e restauração. Daquele último suspiro em diante, não terá mais um Pai à sua frente, mas sim o Justo Juiz, que pesará de cada homem e mulher desta Terra tudo que foi feito. E em sua Sabedoria e Justiça, dará a cada um seu destino eterno.
O melhor e mais feliz desfecho dessa trágica história, penso eu, teria sido seu arrependimento e restauração. O que não o livraria da necessária aplicação da justiça dos homens. Pagar por seus crimes, ainda que isso significasse o resto dos seus dias trancafiado numa cela. Seria a justa colheita por tudo que fez. Arrependimento não exonera ninguém dos frutos de suas ações. Ele teria que pagar, de alguma forma. Pelo visto, escolheu morrer como estava, sem sinal algum arrependimento por seus crimes.
A sorte dele está lançada. Não vou celebrar sua morte. Entendo que ele colheu exatamente o que plantou. Mas não vou celebrar na Terra, pois tenho convicção de que no Alto não houve festa.
Agora que lido, tudo bem. Que voem as pedras. É apenas a opinião de um homem que deseja reproduzir na Terra a CULTURA DO CÉU.
(João 8:5-7) *ler antes de atirar a primeira.