sexta-feira, 30 de abril de 2021

012 REMÉDIO NA PANDEMIA

Finalizado o treino de ontem, dirigi-me à Avenida Horário Raccanello Filho – sim, a grafia correta é com dois “C” e dois “L”, nome do meu saudoso professor de Introdução ao Estudo do Direito e de Direito Constitucional, da saudosa Turma 32, noturno, no curso de graduação em Direito, na excelente Universidade Estadual de Maringá, idos de 1996 e 1997 – onde fiz um pequeno regenerativo. Via de regra, rolam 3 giros semanais. Nas terças, treino de base: coisa duns 30 a 40km (pouco, perto do que deveria ser); quinta-feira rola o amado treino de subida; e sábado o bom e velho e tão esperado longão com meus amigos do Grupo de Ciclismo Pebas 4ever. Neste último, exploramos as estradas rurais de Maringá e região, em pedais de 50 a 100km. Vez por outra, pinta um desafio especial, na casa dos 120 a 150km, pedais estes que costuram gerar boas DR´s para os caras casados do grupo, com suas esposas reclamando por terem passado o dia todo fora de casa.

Como se percebe, a bike parece ter se tornado algo importante para mim. Com tal nível de detalhamento, planejamento, tempo dispendido e empenho, só pode! Sim, e foi isso mesmo que aconteceu. Vou quebrar a sequência de textos do meu Pequeno Decálogo de um Cara Sistemático, para hoje contar minha pequena história sobre duas rodas não motorizadas, que vem acontecendo nos últimos 2 anos e meio.

Há muito tempo atrás, num reino tão tão distante... Não. Não foi assim.

O médico avalia meu joelho – nunca me lembro se foi o direito ou o esquerdo –, olha mais uma vez para as imagens da ressonância magnética e fala aquelas amargas palavras:

- “É, filhão, os seus dias de corredor ficaram no passado”.

- “Sério que não vou mais conseguir correr?”

- “Não como antes, do jeito que você está acostumado. Mas se pra você tudo bem correr de leve, um trote no parque, então vai correr sim. Competições, busca por bons tempos, isto não far[a mais parte da sua vida”.

- “Hummm...” (por dentro, eu negando a realidade e elaborando um plano perfeito para conseguir correr sim)

- “Ah, e vamos fortalecer estes joelhos aí”. (ele começa a anotar uma lista de exercícios de musculação que eu não poderia fazer ou, quando muito, deveria executar com baixíssima carga)

- “Certo, Doutor”. (eu olhando a lista com certa tristeza)]

- “Se você tiver uma bike, pedale. Vai ajudar muito com seu joelho lesionado”.

Assim saí do consultório. Olhar perdido no infinito, imaginando como seria uma vida sem correr. Quem me viu correr, nos tempos áureos, sabe do que estamos falando. Era muito massa. Eu simplesmente não me cansava. Tanto nos treinos de corrida, propriamente ditos - que eu realizava em torno do Parque Ingá ou pelas ruas de Maringá – como também nos esportes que envolviam a corrida vigorosa (futebol, especialmente), eu performava com excelência, acima da média. Simplesmente não me cansava nunca, além de dar aquele tapa na bola, sair 3 metros atrás e chegar 2 na frente. Coisa linda de se ver. Uma história que havia começado nos meus 10 anos de idade, e que consegui levar até os 40. Trinta anos de corrida, mas “the end”. Chegou o boleto de tão excelente performance. A idade chegou, trazendo consigo as primeiras limitações.

Nada de deprê! Bora mostrar para aquele médico que não é bem assim!!!

Fiz os ajustes na musculação. Não comecei a pedalar com a bike que eu tinha parada em casa. Tentei umas corridas. Não deu mesmo. Cedo ou tarde, sensibilidade no joelho (direito ou esquerdo?). Aí tive outra ideia brilhante: “Bora tentar jogar tênis”. Pois é, teimoso é teimoso, e fui tentar justo um esporte que não apenas envolve corrida, mas corrida variada, exigindo muito mais dos joelhos. Doeu. Na verdade, doeram: joelho e tendões de aquiles. Mas da fracassada tentativa no tênis resultou algo muito bom. Um amigo com quem eu jogava, certa vez estava precisando demais conversar, aflito com certa situação, chamou-me para um pedal. Que bacana, uma atividade física que nos permitia conversar longamente. Rolou um giro por ruas e avenidas de Maringá, seguidas de água de coco no Ingá, e tratamos do tal assunto. Ao final do passeio, ele comenta que eu pedalei muito bem. Ali começava essa minha história de bicicleta.

Este amigo tinha outros amigos – alguns que eu já conhecia –, pessoal que se reunia nas tardes de sábado para passeios por estradas rurais de Maringá e região. Fui com eles e logo no primeiro dia rolou um giro de 73km. Conheci a cachoeira de Marialva. Finalizei bem cansado, mas feliz por ter concluído um pedal tão longo já na primeira vez. Dia seguinte: corpo todo dolorido, até febril, pelo esforço além do que meu corpo estava preparado. Domingão de molho total, cozido, comendo e dormindo. Cara de acabado. Mas segunda já estava tudo certo, e eu mal via a hora de chegar o próximo final de semana para o novo passeio.

Assim os sábados foram se sucedendo. Novos e mais lugares sendo descobertos. Pessoas. Amigos dos amigos. Muitas prosas, risadas, papos sérios. Fotografias, claro. Então comecei com os treinos no meio da semana, pelas ruas de Maringá. Conheci o aplicativo Strava (aí lascou! rs), comecei a ter noção do meu desempenho, quando comparado aos amigos e a todos os demais ciclistas do planeta que também registram seus treinos no app. Upgrades na bike que eu tinha. Aquisição de bike nova e melhor (a Cannondale laranja, de carbono, grupo de 12, freios XT, suspa Fox, top das galáxias). Mais noção ainda do meu ótimo desempenho, e o resto é história. Primeiro pedal lá por julho ou agosto de 2018, para 1 ano depois eu me encontrar totalmente envolvido com este esporte maravilhoso.

Final de 2019 estive duas vezes em Santa Catarina. Descobri mais uma faceta deste universo: viagens de cicloturismo, e os morros gigantes. Em novembro fui numa excursão para Barra Velha, oportunidade em que encarei as primeiras subidas verdadeiramente desafiadoras até então, além de experimentar lugares novos e fazer muitos contatos. Alguns se tornaram amigos, gente com quem pedalo até hoje. Para finalizar 2019, numa viagem de última hora, acabei por conhecer a famosa Serra do Rio do Rastro, e no dia seguinte a extraordinária Serra do Corvo Branco, e no dia seguinte ao seguinte um pedal na Inter-praias (Itapema e Camboriú). Até hoje, a sequência de pedais mais bruta que já fiz. E acho que só fiz porque eu não sabia onde estava me metendo. Se tivesse mais informações, pesquisado, levado em conta os dados e parâmetros, eu concluiria que não o momento para um ciclista iniciante, com aproximadamente 15 meses no novo esporte, encarar aquelas subidas tão duras. Mas, como diz um ditado que gosto, em certas circunstâncias a ignorância é uma bênção.

“Vini. Vidi. Vici”. Fui. Vi. Venci. Sem saber onde estava me metendo, subi tudo, e subi bem. Bem para um iniciante, claro. Mal vejo a hora de subir tudo de novo, e poder comparar minha evolução. Àquela altura eu estava não mais apenas fotografando os pedais. Rolavam os primeiros vídeos no Instagram. Tem um que gosto de rever, quando venci a Serra do Corvo Branco. Foi muito emocionante. No Rio do Rastro foi de chorar, literalmente, mas parei a filmagem quando percebi que não conseguiria segurar as lágrimas. Que pena. Seria legal ter gravado aquele momento. Não tem como explicar. Algo difícil, doloroso, que quando você percebe que vai terminar, você quer mais. Não foi apenas um choro de emoção pela conquista. Havia um quê de tristeza por ter acabado. Rola uma interação que realmente não sei explicar em palavras.

Em 2020 eu faria muitas coisas sobre duas rodas. Canais de bike no Youtube, já seguindo um monte. Entendendo as manutenções básicas, feitas em casa. Novos upgrades. Uma agenda projetada para o ano todo: Rota das Catedrais, Serra da Canastra, Estrada da Graciosa, pedal com 4000m de elevação... então estourou a pandemia. Eu havia realizado exatos 18 pedais até o dia 15/03/2020, todos devidamente registrados no Strava, bem como anotados num app que tenho (Evernote), com dia de cada atividade, distância percorrida, velocidade média, elevação acumulada, coeficiente de elevação geral, e as conquistas... aaah, as conquistas. (É, o cara é meio doido sim).

Estourou a pandemia, mas na oportunidade não havia como saber a dimensão que isso tudo teria. Em férias, mantive uma viagem até Salvador, onde fui visitar familiares. Então a ficha caiu. Tudo fechando. Álcool gel custando ouro. Risco de lockdown. “Parece que o aeroporto vai fechar”... dei um jeito de antecipar meu retornoi. Dia 21/03 eu estava em casa, colocando os pés na terra no meu amado Paraná, pelas 14h15 da tarde (sim, também anoto minhas viagens no Evernote. Falei que o cara é doido). Naquele mesmo dia, fim de tarde, eu fazia um girinho de 25km pelas ruas de Maringá, num pequeno circuito que ainda hoje gosto muito de ir.

Novos pedais nos dias 22, 24, 26, 29, 31 de março (eu estava em férias), sempre sozinho. Todo mundo recolhido dentro de casa. Tudo parado. Chegou o fim de semana e nada de marcação de pedal no grupo. “Fer, não vai rolar. O negócio é sério, melhor não irmos”. Claro que eu entendia. Já que não tinha atividade em grupo, eu ia sozinho mesmo. Sobre uma bike o distanciamento social é natural. Sozinho então, tudo certo. Mas para mim a coisa estava meio sem graça, girando apenas pelas ruas vazias da cidade. Eu queria ir para as trilhas, explorar lugares novos e bonitos. Ficar em casa fechado não era legal. Sair um pouco por Maringá ajudava, claro. Mas as trilhas... ah, as trilhas.

Foi quando por um outro amigo, que participava de outro grupo, eu casualmente soube que eles não tinham parado. Não me lembro se fui convidado ou se me convidei. Não importa. O fato é que então conheci os Pebas 4ever, exatamente 1 ano atrás (abril/2020), e de lá para cá o grupo se tornou uma espécie de família, confraria, time, com uma boa dose de hospício. Tudo doido, que nem eu! Uns bem tantãns mesmo. Só figuras. Fizemos dezenas de pedais nesse período. Pandemia correndo e comendo solta. Contabilizados 400 mil mortos ontem. A coisa é séria, muito séria. Eu não adoeci nesse 1 ano e pouco. Casualmente ou não, nenhum dos meus amigos de pedal também não. Se devido a algum famigerado histórico de atleta, ou não, não sei dizer. Talvez mais pelo fato de sermos atletas no momento. É bem possível que eu ou algum dos meus amigos tenhamos nos contaminado e passado assintomáticos pelo ciclo do vírus. Uma hora farei o exame dos anticorpos, coisa que minha família sempre fala para eu providenciar.

O fato é que essa tal de bicicleta foi meu remédio na pandemia. Para o corpo, muito provavelmente. Para a mente, com toda certeza. Solteiro, morando sozinho, em home-office, tudo fechado ou semi-aberto há mais de 1 ano. Pensa no peso emocional... Sim, eu sei, você está passando pelas mesmas coisas. Mas se tem alguém na tua casa, um marido, uma marida, filhos, pets, acredito que o lance emocional tenha sido atenuado pelas presenças. Claro, seu contexto foi outro, rolaram mais conflitos, talvez o excesso de presença tenha sido um problema. Mas as coisas se adaptaram, e no final das contas você deve ter percebido o quanto foi importante ter pessoas que você ama bem perto, durante tão longo distanciamento de outras pessoas.

Eu estive bastante com meus familiares. Passado o choque inicial da pandemia e os isolamentos que fizemos, depois passamos a nos visitar regularmente. Mãe, irmã, cunhado. Como foram e são essenciais suas presenças. Além deles, a família da bike, e a própria bike, e o universo de bike foram e são importantes para mim neste tempo tão complicado. Alguém poderia ver minhas postagens semanais e me e taxar de “meninão crescido”, um cara que gasta tempo demais com uma bobagem dessa de bicicleta. “Vai trabalhar mais”. “Vai fazer uma pós”. Sei lá. As pessoas julgam e concluem coisas sem muito saber. Eu entendo. Não me afeto. Sei quem sou. E faço o que quero, pelas razões que me fazem sentido. Bike é algo que chegou à minha vida sem quer, aconteceu naturalmente, e de certa forma tomou conta. Tem tudo a ver com meu estilo de vida, meu gosto por desafios, meu lado sistemático de anotar as coisas, ajuda-me a conhecer novas pessoas, traz diversão e riso naquele grupo de loucos no zap zap, e a gostosa sensação de que a vida é um grande passeio. Porque é mesmo.

*a figura desta postagem contém destacados todos os caminhos porque passei de bike na região de Maringá.

*a imensa maioria deles, conheci durante a pandemia.

*se puder, vá de bike.

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