quarta-feira, 28 de abril de 2021

011 120 KM/H

Vez por outra saio com minha moto para um pequeno passeio. Eu deveria fazer isto mais vezes. No último quinquênio foi pouco, mas tão pouco, que não alcancei 1000km por ano. Em 2020, então, um recorde às avessas: sequer 500km rodados com a famosa Honda CB 750 Four ano 1974. Em contrapartida, no mesmo ano, passei dos 7000km sobre minhas duas bikes. Resultado: um pequeno-grande problema num dos 4 carburadores, que demandou retífica no conserto. De tão pouco uso, deu problema. Acontece.

O pessoal da minha idade ou um pouco mais velho (sou de 1977), dentre os que gostam de motocicletas, sempre comenta ou sinaliza algo quando circulo com a 7-Galo pela cidade: “Aí sim, heim!”, “Essa é clássica!”, “É uma Quinhentas?”, “Ela dá quanto de final?”, “Vende?”. Para esta última pergunta, que ocorreu apenas 2 vezes nesses quase 9 anos que a Four está comigo, a resposta foi “não”, que normalmente não é seguido de uma insistência do curioso. Os caras perguntam por perguntar, pois sabem que quem tem uma dessas, raramente vende. A minha deve seguir comigo por mais algumas décadas.

Outra daquelas perguntas recebe a resposta que deixa os caras intrigados: “Ela dá 120km/h”. Essa sim faz com que a conversa se alongue um pouco mais. “Como assim? Ela é uma 750cc. Anda só isso?” Ao que explico que sim, na minha mão a velocidade final da moto são modestos e seguros 120 km/h”. É a 5ª regrinha do Pequeno Decálogo de um Cara Sistemático, que muito se assemelha à do texto “Sempre Sóbrio”, publicado dias atrás. Trata-se de uma regra de segurança, um limite auto-imposto. Visa a fazer com que eu não quebre o pescoço por aí.

No dia 07 de fevereiro de 2003 ocorreu meu primeiro e único acidente de motocicleta. Uma CBR 450 SR 1991 em mão, mais um jovem rapaz de 26 anos com sua primeira moto de cilindrada superior a 250cc... cedo ou tarde daria ruim. E deu. Bem, o primeiro “ruim” aconteceu justamente na aquisição, pois não época eu não tinha adotado a regrinha “Desejos à Vista”. Busquei um financiamento integral do valor para comprá-la. Saiu mais caro, claro. O segundo ruim começou silencioso e imperceptível, como naquela alegoria do veneno que vai sendo ministrado a conta-gotas.

Sobre uma moto como aquela, e qualquer outra de maior cilindrada, você não se dá conta do quanto começa a andar mais rápido. Quem já teve várias motos sabe bem do que estou falando. Nas grandes as tecnologias são outras; os componentes te permitem acelerar mais, frear mais em cima, deitar nas curvas, etc. E assim eu fui pegando confiança na CBR, circulando cada vez mais rápido, até que tive uma “brilhante” ideia. De calção, camiseta e tênis – vestuário padrão no meu dia a dia – eu vou até o Contorno Sul de Maringá para ver se ela realmente chega aos 200km/h indicados no painel.

Eu poderia florear nesta parte, fazer uma descrição toda emocionante da experiência, valorizar o momento e tal, mas vou me limitar a dizer que “não, a moto não chegou a 200km/h”. Porque moto não chega a nada, não vai a lugar nenhum, não faz nada sozinha. Quem chegou a 200km/h naquele dia fui eu, não casualmente sobre uma motocicleta. Eu escolhi fazer aquilo. Ela, apenas um objeto. Um amontoado de peças, componentes e tecnologias que se presta, não por acaso, à locomoção humana. Locomoção esta que pode, naquele modelo específico, ocorrer a 200km/h ou mais (se você quiser), ou a qualquer velocidade abaixo disso (se você também quiser). E eu escolhi ter a sensação dos 200km/h.

Estamos falando de uma moto ano 1991. Se ela era bem mais avançada do que minha atual 1974, com certeza era muito menos do que as atuais 2021. Com o agravante de estar sendo acelerada num local inadequado, via pública com conservação razoável, sem áreas de escape, e o pretenso piloto com trajes de passeio no shopping. A sensação foi de morte. Sim, o primeiro pensamento racional que me veio logo após a euforia de ver o ponteiro no 200km/h foi: “se eu cair agora, eu morro na hora!”. Instantaneamente desenrolei o cabo do acelerador, senti a adrenalina baixar e toquei “pianinho” para casa, repetindo para mim mesmo que eu nunca mais faria algo tão estúpido. Por nada, sem propósito algum, eu poderia ter morrido naquele dia, nos idos de 2003.

Desacelerei do extremo, mas ainda assim uma moto como aquela te incita a andar um pouco mais rápido. E assim segui girando com minha linda CBR 450 SR, até precisar duma frenagem de emergência, que não rolou. Derrapei forte e colidi com uma F-4000 na Av. João Paulino, bem em frente ao obelisco do Novo Centro de Maringá. Uma pancada seca e feia, que não me gerou fraturas, mas uma laceração importantíssima na perna esquerda. Eu poderia também fazer uma emocionante descrição de tudo que se passou naqueles centésimos de segundo, e todo o atendimento inicial feito por estranhos na rua, depois o Siate, Santa Casa, e a enfermeira que flertou comigo enquanto eu aguardava a entrada na sala de cirurgia. Mas noutra oportunidade a gente fala disso.

O fato é que a história teve um final feliz. Eu poderia ter perdido minha perna, mas não perdi. Poderia, com enorme probabilidade, carregar até hoje uma grave sequela, mas não carreguei. Então sou muito grato a Deus por hoje continuar com um corpo saudável e funcional, que me permite realizar tudo a que me proponho no dia a dia, na vida normal e nos esportes que tanto amo. O conserto da CBR foi custeado pelo cara da F-4000, que por acaso estava errado no acidente. Logo em seguida ela foi vendida. Usei o dinheiro para quitar o financiamento dela mesma, claro que com algum prejuízo, pois as financeiras não são muto boas na arte de perdoar juros componentes de um financiamento tolo, tomado por um jovem de 26 anos.

Não desisti das motos. Tive várias delas, após o acidente de 2003. Motos menores, a maioria. Quatro bem potentes, com as quais eu poderia novamente chegar aos 200 km/h. Não fui tão longe. Cheguei a “seguros” 140, 160, 180 km/h, só para voltar com a mesma velocidade a um estado de sanidade, lembrando-me que não preciso disso. Não vale a pena. A vida é preciosa demais para ser colocada em risco por nada, ou por um momento de euforia. Se tudo dá certo, e dá na maioria das vezes, a gente relaxa. Então vamos colocando o pé mais um pouco fora da risca, e mais um pouco, e mais... até que dá ruim grandão. O pior acontece. Ou várias outras coisas ruins na imensa lista de sequelas possíveis.

Muito provavelmente a atual Honda CB 750 Four 1974 será minha última motocicleta. Pode ser que não, mas tem grande chance de sim. Se o for, uau! Eu não poderia fechar meu currículo melhor nesta área. Um dos modelos com mais admiradores. Com certeza foi o mais revolucionário na indústria mundial, quando surgiu em 1969 no Japão. Tudo mudou a partir daquele 4 cilindros em linha, com 4 carburadores e 4 saídas de escapamento. Daí o nome “Four”. A 7-Galo. A Mãe-de-Todas. A premiada “Moto do Século 20”. Tenho uma ali na garagem, toda linda, reformada e customizada. Com seu painel duplo substituído por um simples de Suzuki Intruder 250cc. Nele se encontra a indicação de velocidade máxima 120km/h. Coloquei-o não por acaso. É meu limite. Poucas vezes chego perto dele. Desde então nunca cheguei nem porto de novo acidente. E assim pretendo continuar pelo resto da vida.

No livro de Jeremias, capítulo 31, verso 21, parte “a”, encontra-se um precioso conselho: “Ergue sinais, coloca postes indicadores, olha bem o caminho, a senda que percorres”. Não foi com este texto em mente que troquei o painel da Four por um de “moto fraca”, mas é disto que estamos falando. As regras e os limites existem para nos proteger de nós mesmos, especialmente quando somos jovens e sem juízo.

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