segunda-feira, 5 de abril de 2021

004 PERGUNTE-ME COMO

Analisando uma semana padrão da minha rotina, encontrei a seguinte média por dia:

Sono/Descanso - 8 horas
Trabalho - 7 horas
Leitura/Escrita/Estudos - 2 horas
Atividade Física - 2 horas
Entretenimento (música/tv/rádio) - 2 horas
Manutenção da casa - 1 hora
Cuidados pessoais - 1 hora
Deslocamentos - 1 hora
Tempo com Deus - 1 hora
Igreja e Ministérios - 1 hora
Família e Amigos - 1 hora
Alimentação - 1 hora
Burocracia (contas, pagamentos, e-mails) - 1 hora
Outros - 1 hora

Um dia de 30 horas!? Como assim?

A lista é falha, claro. Assemelha-se a uma velha mensagem que circulou anos atrás, pontuando todos os dias de feriados para um trabalhador no Brasil, mais férias, pontos facultativos, afastamentos, etc… “provando por A + B” que essa pessoa trabalhava no máximo 1 mês por ano. A malandragem da conta estava na sobreposição: um mesmo dia continha, simultaneamente, várias daquelas rubricas, mas era contado uma vez para cada uma delas, fazendo um dia valer por 2, 3 ou mais. A contagem era sobreposta, de forma errônea e intencional, mas bem criativa.

No cálculo dos 30 dias trabalhados por ano no Brasil, essa fórmula não vale. Entretanto, entendo que na contabilização do tempo utilizado em nossas tarefas diárias, serve sim. Afinal, somos multitarefas. Semelhantemente aos nossos computadores e smartphones, não focamos numa única atividade por vez, pausando todas as demais. Nossa RAM é potente. As demandas são numerosas e não podemos nos dar ao luxo de focarmos numa só, para somente depois na seguinte, e assim sucessivamente.

Ou você tem dúvidas de que nos 15 minutos da minha ida do trabalho até o banco eu realizei várias coisas simultaneamente?! O deslocamento em si; atividade física (caminhada leve); estudos (podcast rolando no fone de ouvido); alimentação (açaí com creme de morango que peguei e fui comendo); uma atividade burocrática prevista na agenda (depósito de cheques). Isso se formos muito conservadores, pois posso nesse trajeto ter encontrado um amigo, feito uma oração, dado uma esmola, lido e respondido várias mensagens, passado uma orientação por whatsapp ao estagiário, etc.

Tudo acontece ao mesmo tempo. Quinze minutos não são apenas 15 minutos. Temporalmente falando, sim. Mas no campo das realizações, tornamos esse período muito maior. Quinze minutos podem valer por 1 hora! Eu sei disso e você também sabe. Nossos filhos ou sobrinhos de 10 anos sabem. Na verdade, nós nos movemos no ritmo da nossa época e tudo nos parece natural, porque não conhecemos outra forma. Ou, ao menos, não nos damos conta de que pode haver outros jeitos.

O ritmo que vivemos hoje é impensável para os povos da Antiguidade, bem como para as gerações de alguns séculos atrás, e até mesmo para nossos pais ou avós. Se eu pensar nos meus - já falecidos - vivendo meu ritmo de hoje, acho que seria complicado. Falo de pessoas nascidas nos anos 20/30 do século XX, num mundo muito diferente. Avançando para os bebês dos anos 40/50 (meus pais), percebo-os um pouco mais inseridos nessa “roda vida”, mas não totalmente. Rola um descompasso. Há dificuldades para acompanharem o ritmo da minha geração, e mais ainda o ritmo dos netos.

Na minha geração - galerinha top nascida nos anos 70/80 - encontramos as pessoas que literalmente viveram a transição da era analógica para a digital. Uns com mais facilidade - como meu irmão -, outros sem nunca entender plenamente o funcionamento dos aparelhos eletrônicos em suas mãos (eu), mas nos adaptamos e aprendemos a viver assim, na velocidade alucinante de hoje. Por termos experimentado uma infância e juventude mais tranquilas, lá no fundo sabemos que existem jeitos mais leves e gostosos de viver. Aquelas memórias emocionais positivas.
 
Com a geração nascida na década final do século XX - já na era digital - e os supersônicos milleniuns, a velocidade aumentou ainda mais. Minha sobrinha Sara, quando contava 3 anos de idade, corria naturalmente os dedos sobre a tela de um antigo celular meu e, vendo que nada acontecia, me pergunta: “Titio, não funciona?”. Pouco tempo depois eu adquiri meu primeiro smartphone com tecnologia de toque na tela.
Mas, afinal, qual o propósito com esse palavrório todo sobre tempo e multitarefas?
Desde sempre, ouço/vejo pessoas reclamando que o tempo é escasso para tudo que precisam fazer. Concordo, em parte. Acho mais válido dizer que há pouco tempo para realizar tudo o que precisa ser feito, bem como para dar conta do que inventamos fazer e, claro, também para fazer aquilo que não tem o menor sentido fazer, mas continua sempre e sempre na nossa agenda. Este é o ponto.
 
Quantas vezes paramos um pouco para olhar nossa rotina, fazermos uma boa análise de tudo que está nela, e então ordenar melhor as coisas? (a velha alegoria do “afiar o machado”). Creio que uma resposta sincera da maioria das pessoas seja “quase nunca faço isso”. Seguem no “piloto automático” mesmo, fazendo tudo o que precisa ser feito, mais os extras desnecessários. Era para ser uma mochila, mas tocam suas vidas carregando duas ou três malas grandes e pesadas. Boa parte dos itens está ali apenas para agregar peso morto.
 
Eu reviso minha agenda constantemente. Faço isso há muito tempo, muito mesmo. Hoje, organizo-a pelo app no celular. Antigamente, era no bom e velho lápis e papel. Puxava à mão uma folha e rabiscava uma planilha, onde cada coluna correspondia a um dia da semana, e nas linhas eu ordenava cronologicamente as tarefas. Tudo que era semelhante, pintava com a mesma cor. Ficava claro o que se destacava na minha agenda semanal, bem como as áreas que estavam recebendo pouca atenção. E de tempos em tempos, revisão, ajustes. Eu sei, eu sei, não tem nada de novo ou genial nisso, mas tanta gente se desespera por falta de tempo, quando na verdade parte da solução está em melhor organizá-lo.
 
Com essa prática incorporada à minha vida – há pelo menos uns 25 anos –, sinto que usufruí bem o tempo vivido até aqui. Claro, nem sempre fui tão assertivo e produtivo; houve épocas de tempo desperdiçado, especialmente na juventude. Mas quando os anos se acumulam e acende aquele sinal amarelo de “você tem mais passado do que futuro pela frente”, rapidinho a gente toma tenência e começa a desperdiçar menos.
 
Já tive a oportunidade de auxiliar diretamente algumas pessoas na ordenação de suas agendas semanais e, em curtíssimo período, ver mudanças práticas e ganho de eficiência. Lembrando que por mais eficiência não devemos entender apenas produzir mais, ganhar mais dinheiro, ou coisas do tipo. Ser mais eficiente em tudo, ter tempo para dormir mais e melhor, dedicar-se às pessoas que amamos, mais lazer, alguma ação voluntária, ler um livro extra no mês, etc. Com organização, garanto que um dia se consegue dizer a quase surreal frase “eu tenho algum tempo de sobra”. Sim, é possível.
 
Lembro-me de um adesivo que via nos carros, anos atrás, que continha o seguinte dizer: “Quer emagrecer? Pergunte-me como”. Bem, acho que posso parafrasear, se a questão for colocar ordem na sua agenda. Eu sei como.

Um comentário:

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