Nunca me embriaguei com álcool, ao longo desses quase 44 anos de vida. O mais perto que estive de uma leve “alegria extra”, foi num Dia dos Namorados, muito tempo atrás. Após jantar romântico num bom restaurante – comida refinada, duas garrafas de champagne... ou frisante... ou espumante (nunca sei) –, eu me dirigia até a casa da namorada, para deixá-la. Fomos parados numa blitz policial. Aproximava-se o início da vigência do Novo Código de Trânsito, trazendo normas bem mais rígidas para situações de embriaguez ao volante, dentre outras novidades. Por essa razão, várias operações de caráter educativo-informativo estavam ocorrendo por aqueles dias. Foi nesse contexto a abordagem.
Eu não estava embriagado, mas havia consumido álcool umas 2 ou 3 horas antes. Como houvesse passado um tempo razoável, qualquer eventual pequeno efeito entorpecente já havia se dissipado. Algum riso extra, certo relaxamento, e só. Todavia, o fato é que eu havia consumido álcool e, não muito depois, estava dirigindo. Quando da abordagem, fui perguntado sobre isso. Respondi que sim, obviamente, mas expliquei que havia sido pouco e que muito raramente eu bebia, e menos ainda me colocava ao volante. Exatamente tudo que acabara de fazer, rs. O policial sorriu, dizendo que todo bêbado fala isso. A namorada gargalhava ao meu lado, pois sabia que era verdade. Insistiu com o policial que era isso mesmo – “seu guarda, é sério, ele não bebe” – ao que o policial respondeu que toda namorada de bêbado diz a mesma coisa. Ou seja, um típico flagrante, só que sem o bêbado, embora parecesse. Nós três rimos da situação.
Como estávamos a duas quadras da casa dela, foi tranquilo convencer o policial a nos deixar prosseguir. Ele disse que minha sorte foi ser uma blitz orientativa, pois no caso de o novo Código de Trânsito estar em vigor naquele dia, eu teria sérios problemas. Agradeci, rindo (claro), e insisti com ele que era realmente verdade a minha história. Uma chance em mil. No final, acho que ele viu sinceridade.
Aquela garrafinha extra de champagne foi a única vez. Tenho por regra, quando se trata de bebida alcoólica, tomar uma. Uma-o-que-quer-que-seja. Uma latinha. Um copinho. Uma dose. Uma garrafa (que normalmente fica pela metade). Porque assim eu tenho certeza de que não me embriagarei. Em sendo uma bebida forte (vodka, por exemplo), uma dose pequena. Algo mais fraco (cerveja), fico na latinha solitária. Sempre faço assim. Provei muitas bebidas diferentes. Da imensa maioria eu não gostei.
O fato de ter álcool, para mim, é o que menos importa. Afinal, não estou atrás dos seus efeitos, em absoluto. Assim como não como nenhum alimento esperando algum efeito secundário, além dos primários e importantes “matar minha fome” e “ter um bom sabor”, não olho para qualquer bebida visando a efeitos entorpecentes. Espero delas, simples e tão somente, que matem minha sede e tenham bom sabor. Como sei – e muitos de vocês sabem – há bebidas alcoólicas com sabores horríveis, e muitas delas não se prestam a matar a sede. Ah, mas tem o lado social, cultural, histórico de cada bebida... Conversa mole! Desculpinha para justificar os excessos. Na hora ali, o que vejo no pessoal é apenas o desejo de sentir os efeitos. Não vejo ninguém pensando em nada histórico ou cultural, embora essas facetas existam e, sim, tenham a ver com cada bebida específica. Mas isso já é coisa para uma prosa mais sofisticada. No geral, o pessoal quer só é beber mesmo e sentir os efeitos.
Longe de mim pintar na área como julgador. É apenas o que eu observo e concluo com meus botões. O foco do texto está em mim, nos meus critérios, na minha forma de consumir. Digamos que uma regra do meu Pequeno Decálogo de um Cara Sistemático. Há um princípio que sigo, que diz que todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convém. Coloquei para mim, portanto, o limite de uma só. Funciona. Se é algo que já provei, conheci o sabor e não gosto, naturalmente recuso. Se é algo que gosto, pode ser que eu tome, ou não. Mas se for champagne... quase sempre tomo. Uma taça. Quem sabe uma garrafa. Duas não, pois naquela noite da blitz eu vi que a alegria extra estava se instalando.
Ocorre de eu parar na primeira e única latinha, e o pessoal que toma bastante insistir para que eu continue. Recuso. Alguém mais insistente chega a trazer a segunda lata, abre, coloca na minha frente e fica me olhando. Talvez na esperança de que ela magicamente me hipnotize, assim como faz com ele rs. Não. Não hipnotiza. Outra pessoa toma aquela lata, ou ela fica esquentando na mesa. O cara trouxe porque quis. Eu não pedi.
É um fenômeno interessante. Quando envolve comida, seja num restaurante, seja numa reunião com amigos, não vejo ninguém achando estranho você ter comido apenas uma porção, e insistindo para que coma a próxima, e uma terceira, e outra. Não. Simplesmente comemos o quê e quanto queremos, sem ninguém se importar com nosso prato (avós não se enquadram, pois sempre fiscalizam o quanto comemos). Com a bebida alcoólica, né bem assim não. Rola o tal fenômeno. Você é mais acolhido ou menos acolhido, se entra ou não na roda e senta pra beber junto. Rola pressão e muitos cedem.
Caminhando pros finalmentes da minha primeira regra do Pequeno Decálogo de um Cara Sistemático, o fato é que nunca me embriaguei, não estou embriagado neste exato momento, e não pretendo fazê-lo pelo resto da minha vida. Para mim, não convém. Sim, eu sei, há inclusive orientações na Palavra quanto a isso, mas sinceramente te digo que não foi por isso minha decisão. Acredito que, de qualquer modo, eu me portaria assim. É como sou. Sempre sóbrio. Não tenho curiosidade, nem vontade de saber como é a sensação do entorpecimento. De observar nos outros, sei que não quero.
Diz a “sabedoria” popular que “quem não bebe, não tem história pra contar”. Hum... sinto informar, mas sou prova do contrário. Tenho muitas.
Tin tin!
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