segunda-feira, 12 de abril de 2021

006 MAR DE GENTE

"Meio milhão de pessoas cruzam o nosso caminho durante a vida!". Essa frase, aparentemente superdimensionada, chamou minha atenção algum tempo atrás. "Absurdo!", pensei. "Devem ter extraído esse número de uma daquelas pesquisas malucas que há por aí”. Mas fiquei mesmo intrigado e resolvi fazer as contas.

Parti, em meus cálculos, do seguinte raciocínio: (i) se é razoável afirmar que a partir da segunda metade do século XX - com todos os avanços tecnológicos e médicos -, as pessoas passaram a alcançar mais facilmente 80 anos de vida, ou mais; (ii) se "cruzar nosso caminho" for tomado como a totalidade de nossas interações durante essa longa vida, desde os laços mais profundos - tais como os que temos com nossos pais, irmãos, filhos, cônjuge -, até aqueles bem superficiais, como um cumprimento trivial durante uma caminhada, o pagamento a um caixa no comércio, uma informação que você pede a um estranho quando não se localiza no trânsito, etc; e (iii) se é certo que a vida urbana aumentou exponencialmente as possibilidades de contatos, comparativamente à vida rural ou de pequenas cidades... concluí que não seria impossível o número 500 mil. Repetindo: QUINHETOS MIL! Para tanto, bastam pouco mais de 6.000 interações a cada ano de vida; ou 17 novas pessoas por dia (em 80 anos).

Hummm, meio forçado né?! Beleza então! Jogando o pêndulo para o extremo oposto, sendo agora muito conservador com os números, consideremos apenas 1 novo contato por dia de vida (em cerca de 82 anos), e chegamos a 30 mil interações. Bem menos que meio milhão, mas ainda assim um número considerável. Equivale a uma cidade de porte médio-pequeno aqui no meu Estado do Paraná. Para ficar um pouco mais palpável, tomemos por base o número de seguidores de uma pessoa comum na rede social: 500, 1000, 2000. Raramente vejo alguém com 5000 contatos. Percebe-se que ainda assim os 30 mil são muita gente.

Bem, qualquer que seja o montante mais realista, 30 mil, 500 mil (ou qualquer número intermediário), penso ser gente demais para administrar. Ninguém dá conta. Impossível interagir e continuar linkado com tantas pessoas. Lembrei-me agora de uma música, de não sei quem, com uma parte assim: “eu quero ter 1 milhão de amigos...”. Acho que não dá, né bicho. Seriam tantas emoções.

Essa constatação realmente chamou a minha atenção, ficou na mente. Pensando nisso, peguei-me a imaginar qual seria meu número. Quantas milhares de pessoas já cruzaram meu caminho? O nível 2, a reflexão natural que se seguiu, foi pensar em quais dessas muitas pessoas foram as que mais fortemente marcaram a minha vida. Se a vida é um Mar de Gente, quais se destacam? Que critérios devo utilizar para formar minha lista dos “mais mais”, os tops, os diferenciados. A fina flor da nata da cremosidade.

Um time titular de futebol, em campo, conta com 11 atletas. Fiz uma rápida pesquisa no Google para “quantos jogadores profissionais de futebol existem no Brasil”. Os resultados variaram muito, mas uma página indicou 28 mil. Tomei por razoável. Certo, então somamos mais uns 2 mil que jogam em outros países (devem ser bem mais), e finalmente temos nosso universo de 30 mil jogadores profissionais; aquele mesmo número conservador que apareceu numas contas acima. Assim, os parâmetros estão colocados: escolher 11 dentre 30 mil.

Agora imagine que você é o Tite, atual técnico da Seleção Brasileira de Futebol, e precisa escalar esses caras. Que função, hein! Acredito que você nunca pensou nisto com seriedade. Sim, damos pitacos a cada nova escalação, concordamos com uns nomes, demonizamos outros, sempre tem aquele carinha que não poderia ter ficado de fora, blá, blá, blá, e assim somos não apenas o País do Futebol, mas nos tornamos também o “País dos Técnicos de Futebol”. Todo mundo manja muito... em tese. Porque na verdade é muito fácil escolher em teoria, quando uma escolha nossa não vai mesmo acontecer. Duro é estar no papel real, na pele do Tite; escolher e colher os frutos – bons e ruins – daquela lista de 11 titulares.

Alguns nomes brotam naturalmente. O craque maior do país. O goleiro. Uns 4 ou 5 da defesa e meio-campo, que vem aparecendo seguidamente em convocações anteriores. Esses dois terços são fáceis. Mas o fechamento do time titular enrosca um pouco, demanda muito mais estudo e análise. É nessa parcela que pode estar o escorregão, o tiro no pé, ou então o nome novo, o garoto brilhante que merece a oportunidade em meio aos medalhões. Para quem gosta de futebol, certeza que lembrou de algumas histórias. Acho que a analogia é válida.

Ao encarar a mesma tarefa, mas escalando os(as) 11 titulares da Seleção da Minha Vida, aconteceu exatamente a mesma coisa. Dois terços estavam na ponta da língua: mãe, pai, avós, irmãos, sobrinhos, uma tia com quem tenho forte afinidade, uma amiga de longuíssima data. E no terço final da lista, semelhantemente, deu aquela travada. A brincadeira fica instigante, divertida; faz realmente pensar. Começo a me dar conta do tanto de gente que conheço, sejam aqueles que chegaram e se mantiveram perto; sejam alguns que passaram um período na minha vida, depois sumiram; quem sabe até pessoas que já faleceram.

1 vaga do meu time titular, preencho com pai/mãe.

1 vaga com avô/avó.

1 vaga com meus irmãos.

1 vaga dos sobrinhos.

1 vaga dos tios.

1 é preenchida por minha amiga residente em Cascavel.

E assim, os/as 6 titulares mais destacados aparecem. Bem, vocês perceberam que usei um artifício para deixar a brincadeira mais interessante, colocando duas pessoas da “mesma categoria” numa única vaga. Foi necessário, senão todas as minhas 11 se esgotariam no núcleo familiar próximo, e a ideia do exercício é levar-nos a pensar mais longe. Ir além da família, buscar craques no universo muito maior dos “de fora”. No meu caso, preciso então de outros 5 nomes para colocar um time em campo.

É neste ponto que o verdadeiro trabalho do Tite começa. Às vezes ele saca um nome inesperado, dum time que ninguém sabe nada. Ou chama um cara lá do Qatar, cujo campeonato nem é transmitido na TV aberta brasileira. A geral não entende, aí começam as perplexidades dos demais 220 milhões de técnicos. Claro. O Tite tem seus critérios. Seu olhar é único. Suas percepções, cálculos, o “feeling” e o “timing” para experimentar uma promessa de craque. Conosco é igualzinho.

Pensando aqui nos meus demais 5 titulares, deu mesmo uma travada. Você se dá conta de que conhece uma tonelada de gente, mas não crava tão rapidamente nenhum nome fora dos óbvios. Joga o olhar para sua ampla história, os lugares onde morou, escolas por que passou... e não é automático cravar o 7º titular, o 8º, 9º... Necessariamente, pensa nos relacionamentos amorosos que teve, colegas de trabalho, gente da igreja, etc. Precisa olhar não apenas para os clubes da 1ª Divisão do Campeonato Brasileiro, ou alguns que estão na Champions League. Tem gente preciosa também na Série B, na C, no Campeonato Alagoano. Quem sabe até o Ibis te forneça um craque.

Eis o convite do nosso novo e pequeno texto: identificar seus 11 titulares. Encare o exercício, invista um tempo para pensar nisto. Descubra seus critérios. Olhe para sua história toda até aqui. Pense na pessoa que você se tornou e, sabedor que não chegou sozinho ou sozinha até este momento, honre aqueles te tocaram de uma forma diferenciada. Pessoas que te impulsionaram, deram oportunidades quando ninguém mais o fez. Pessoas que te fizeram sentir emoções únicas (alegres ou ruins). Pessoas que se foram, e somente naquela hora triste você se deu conta da magnitude.

Eu completei minha lista, a Seleção da Minha Vida. Não foi tarefa para 5 minutos. Mergulhei profundo nesse Mar de Gente, para voltar à tona sabendo mais sobre mim mesmo. Acredito que possa acontecer o mesmo contigo.

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