segunda-feira, 18 de julho de 2022

082 PALAVRAS AO VENTO

Uns dois ou três dias atrás fiz algo que há muito tempo abandonei. Numa rede social, após ver a postagem que me chamou a atenção – de temática que poderia gerar alguma controvérsia – notei que o número de comentários era bem alto. Cliquei e comecei a ler. Os minutos tomados foram cerca de 4 ou 5, não mais que isso. Tempo desperdiçado, claro; como quase sempre é nesses ambientes de discussões virtuais.

Eu já fui um aguerrido debatedor (ou discutidor), conforme expus no escrito 025 O EX-POLEMISTA. Daqueles de postar aguerridamente sobre o tema do momento – ao menos na minha percepção de relevância – e também de interagir consistentemente a partir das postagens de outras pessoas. Conforme minhas próprias palavras no 025, publicado pouco mais de 1 ano atrás, era desse jeito:

“No Face, embora já com a agressividade nas palavras sob controle, eu não me furtava de falar sobre tudo. Política, em especial. Acompanhava avidamente os acontecimentos, tirava o print de alguma notícia, e blá blá blá despejar minhas ideias. Rolava alguma influência nas pessoas? Acredito que sim, até onde sei. Pessoas não apenas curtiam, mas também comentavam, e sei que muitas se alinhavam ao “geralzão” do meu pensamento sobre Brasil, política e outras coisas bem complicadas de resolver. Até que um dia fiz uma postagem que repercutiu de uma maneira diferenciada. Postei numa noite, para na manhã seguinte descobrir que havia mais de 2 mil compartilhamentos, com milhares e milhares de mensagens, 50% me chamando de santo, e 50% de demônio. Alguma semelhança com os dias de hoje? (...) O pior, é que eu me dei ao trabalho de responder a cada uma – cada uma mesmo, 100% - daquelas milhares de mensagens, explicando para a imensa maioria que só leu a manchete e viu as imagens, sem ler o texto completo, ou compreendê-lo minimamente, que elas estavam me xingando por nada. Quem então se deu ao trabalho de ler, ou pediu-me desculpas pelo xingão, ou então soltou um lacônico “Ah, blz. Agora entendi”. Foram aproximadamente 3 dias para a coisa esfriar. Ao final, uma sensação estranha. Aqueles xingamentos todos, gente dizendo que eu era pior do que lixo, um ser desprezível, um cara que nem merecia viver, etc, etc, etc...”

Confesso que quase agreguei mais um dígito no elevado número de comentários da postagem que li nessa semana passada. Não o fiz. Seriam apenas palavras ao vento. Se algum tempo fora irremediavelmente perdido na leitura do debate por comentários, não haveria sentido em perder mais algum, por menos que fosse, dando minha contribuição para a construção de NADA. Porque é este o resultado de praticamente qualquer debate hoje em dia. Pessoas digladiando-se para provar que estão certas. O foco está nelas mesmas, em prevalecer, derrotar o outro. Nenhum foco sincero na busca da melhor compreensão sobre o objeto da conversa, ainda mais se isso as levar a admitir que estavam inicialmente equivocadas. Imagina! Afinal de contas, como pessoas convictas poderiam estar erradas sobre algo?

Felizmente, não caí na cilada. Não entrei no jogo. Fui investir meu tempo em algo muito mais produtivo, como uma soneca em fim de tarde, ou lavar a louça, ou sair para um treino de bike.

“O homem sábio que pleiteia com o tolo, quer se zangue, quer se ria, não terá descanso”. (Provérbios 29:9)

Não há tempo a perder. Nem para se cansar com debates inúteis. Fica a dica. Pense nisto na próxima vez que uma isca passar roçando na beiça.

domingo, 26 de junho de 2022

081 MANIFESTO PELA RADICALIDADE

Radical: adjetivo de dois gêneros; relativo ou pertencente à raiz ou à origem; original; elemento que contém o significado básico de uma palavra e a partir do qual pode constituir-se uma família de palavras.

Raiz: substantivo feminino; base ou parte inferior de algo; eixo de uma planta vascular, que se desenvolve a partir da radícula, geralmente descendente e subterrâneo, frequentemente com ramificações secundárias, e que serve para fixa-la a um substrato, além de absorver e conduzir água e minerais.

Radicalidade: substantivo feminino; condição de radical, do que pertence à raiz; relativo à raiz, à origem ou ao fundamento de alguma coisa; qualidade do que é inerente a algo ou alguém; característica do que não é convencional nem tradicional; de teor definitivo ou total.

Radicalismo: substantivo masculino; sistema político-ideológico que pretende a transformação imediata e completa da organização social.

Quatro rápidas pesquisas no Google, para quatro definições ou descrições de palavras que conhecemos. Sejamos bons ou não em descrever, internamente temos uma compreensão mínima de seus significados, fruto de imagens que se formaram em nossa mente em algum momento específico, ou ao longo da vida, num processo cumulativo e mais fragmentado.

Cá comigo, quando ouço/leio a palavra RAIZ, a primeira imagem que se forma é a de uma planta, com um eixo mais calibroso, do qual saem as muitas ramificações menores. No caso de RADICAL, não acesso nenhuma imagem específica, mas sim a ideia de INTENSIDADE, sem valoração positiva ou negativa. Para RADICALIDADE, semelhantemente ao seu radical radical (pegaram essa?!), acesso também a ideia de algo intenso, muito forte, extremo. Por fim, com RADICALISMO não me afasto muito das duas anteriores, mas sem me dar conta de seu viés mais sociopolítico.

Pois bem, lançadas essas pequenas bases para o assunto de hoje, vamos ao que interessa. Vamos ao meu MANIFESTO PELA RADICALIDADE.


Não sei quais imagens ou ideias se formaram em sua mente, quando leu o título deste escrito. Mesmo porque ainda não defini qual figura vou utilizar no Instagram, tampouco a música. Na maioria das vezes esses detalhes são pensados (muito rapidamente) quando o texto é finalizado.

Digamos que tenha sido algo na linha de “Vishi, lá vem paulada!”, ou “O Fer deve estar azedo hoje”, ou ainda “Na certa vai falar aqueles blábláblás de Deus, que quase sempre estão em seus textos”. Resposta: nem um, nem outro, nem outro tampouco.

Mas sim, claro que sim, tem sempre um textinho das Escrituras no rolê. Não blábláblá, porque a Palavra não é isso.

Colossenses 3:23 contém, no meu entender, o PRINCÍPIO DA RADICALIDADE: “E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens”.

Colossenses é um livro da Bíblia. Um dos pequenos, com apenas 4 capítulos. Somados, são 95 versículos. Molezinha, você conclui a leitura num tapa, vapt-vupt. Aliás, recomendo fortemente que o faça. Você poderá dizer, ao final deste dia: “Cara, hoje eu li um livro inteiro da Bíblia”. Massa, né?!

Beleza, Colossenses é um livro da Bíblia. Mas o que mais?

Ele é uma CARTA PASTORAL.

Toda carta possui um autor; no caso, o apóstolo Paulo. Toda carta possui também um ou mais destinatários; no caso, uma igreja fundada em Colossos, pelos fins da primeira metade do Século I depois de Cristo. Seu autor encontrava-se preso em Roma, aproximadamente uns 1960 anos atrás, aguardando julgamento por ter sido acusado de rebelar-se contra César, imperador de Roma.

Está aí o contexto do texto.

Transcrevo parte da introdução a Colossenses, contida em minha Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal. Por isso as devidas aspas:

“Colossenses é um livro de conexões. Escrevendo da prisão em Roma, Paulo combateu falsos ensinos que haviam se infiltrado na igreja de Colossos. O problema era o ‘sincretismo’, combinar ideias de outras filosofias e religiões (como o paganismo, variantes do judaísmo, e pensamentos gregos) com a verdade cristã. A heresia resultante mais tarde se tornou conhecida como gnosticismo, enfatizando o conhecimento especial (gnosis, em grego) e negando a Cristo a condição de Deus e Salvador. Para combater esse grave erro, Paulo enfatizou a divindade de Cristo – sua conexão com o Pai – e sua morte sacrificial na cruz pelos pecados. Somente por meio de uma conexão contínua com Ele alguém pode ter poder para viver. Cristo é Deus encarnado e o único caminho para o perdão e a paz com Deus Pai. Paulo enfatizou também as conexões dos crentes uns com os outros como o corpo de Cristo na terra. A introdução da carta de Paulo aos Colossenses inclui uma saudação, uma nota de ação de graças e uma oração pedindo sabedoria e força espiritual para os irmãos em Cristo (1.1-12). O apóstolo passa, em seguida, para uma discussão doutrinária a respeito da pessoa e da obra de Cristo (1.13-23), declarando que Ele é ‘a imagem do Deus invisível’ (1.15), o Criador (1.16), ‘a cabeça do corpo da igreja (1.18) e ‘o primogênito dentre os mortos’ (1.18). Sua morte na cruz possibilitou estarmos na presença de Deus (1.22). Paulo então explica como os ensinos do mundo são totalmente vazios quando comparados com o plano de Deus e desafia os colossenses a rejeitarem respostas superficiais e a viverem em união com Cristo (1.24 - 2.23). Tendo estabelecido esse cenário teológico, Paulo se volta às considerações práticas – o que a divindade, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo devem significar para todos os crentes (3.1 - 4.6). Devido à certeza quanto ao nosso destino eterno, nossos pensamentos devem ser preenchidos com assuntos referentes ao céu (3.1-4). A impureza sexual e outras luxúrias mundanas não devem sequer ser mencionadas entre nós (3.5-8); a verdade, o amor e a paz devem marcar a nossa vida (3.9-15). Nosso amor a Cristo deve também traduzir-se em amor aos outros – amigos, companheiros crentes, cônjuges, filhos, pais, servos e mestres (3.16 - 4.1). Devemos nos comunicar constantemente com Deus pela oração (4.2-4) e aproveitar todas as oportunidades para transmitir aos outros as Boas Novas (4.5,6). Em Cristo, temos tudo o que precisamos para a salvação e para vivermos a vida cristã. Provavelmente Paulo nunca tivesse visitado Colossos. Por isso, ele termina esta carta com comentários pessoais sobre as associações cristãs comuns dos irmãos naquela cidade, fornecendo uma lição viva das conexões no corpo de Cristo. Leia Colossenses como uma carta que tinha como destinatário uma igreja preparada para a batalha no primeiro século, mas leia-a também pelas verdades infinitas e atemporais nela contidas. Esta carta é atual! Renove seu apreço pelo Senhor Jesus Cristo como a plenitude de Deus e a única fonte para vivermos a vida cristã. Saiba que Ele é seu líder, cabeça e fonte de poder. E tenha certeza de estar conectado a Ele”.

Dahora, né?!

Tão melhor ler um texto bíblico com uma perspectiva mais ampla. Ler com entendimento é bom.

Daí a gente volta para o “E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens”, de Colossenses 3:23 e diz “AMÉM, GLÓRIA A DEUS! É ISSO MESMO. É ASSIM QUE VOU VIVER”.

Mas conseguiríamos manter o mesmo entusiasmo para gritar améns para os versos imediatamente anteriores (18 a 22), onde Paulo escreve da sujeição das mulheres aos maridos; ao dever destes em amá-las e não irritá-las; à obediência em tudo que os filhos devem aos pais; aos pais não irritarem seus filhos; aos servos obedecerem aos seus senhores neste plano horizontal?

Responda você para si mesmo se o entusiasmo de seu amém é mantido. Ou, antes disso, se você realmente consegue dizer um amém sincero para essas e tantas outras ordenanças bíblicas.


Este escrito tem um tríplice objetivo:

1 – levá-lo a ler o livro de Colossenses, ainda hoje;

2 – fazê-lo pensar nos fundamentos de sua vida, de sua fé, nas raízes que você tem, e em que substrato elas estão fixadas (rocha ou areia; na Palavra ou nas flexíveis filosofias deste mundo);

3 – compartilhar contigo um dos princípios da Palavra que mais aprecio, o da Radicalidade.

O objetivo 1 vai te tomar uns 15 minutinhos. O número 2, não tenho como estimar. O 3 é este próprio escrito.

Fazer tudo de todo o coração tem a ver com radicalidade, palavra que associo a intensidade (lembra, lá do início?!). Quando a compreensão deste princípio rolou pra valer em mim, eu me tornei um radical. Sou radical em tudo. No mínimo, procuro ser. Tem áreas que já alcancei a intensidade; outras estão no processo. Mas ser um MEIA-BOCA não está nos planos. Se fosse o caso, estaria escrito no 3:23 que “tudo quanto fizerdes, fazei-o de boinhas, do jeito que der, sem tanto compromisso, pois ser radical/intenso não é bom”. Percebe que não sou eu, não é o pastor, não é quem quer que seja, mas o próprio Deus, pela boca do apóstolo Paulo, quem te faz um chamado à radicalidade?! FAZEI-O DE TODO O CORAÇÃO. Somente uma pessoa absolutamente comprometida com o resultado, alguém radical, poderá dizer amém a este chamado.


Que este escrito possa ter trazido à sua mente um novo entendimento sobre a verdadeira radicalidade. É um textinho curto, como a carta de Paulo aos Colossenses. Deve ter tomado nem 15 minutinhos de seu dia. Que bom que chegou até aqui.

Uma boa semana! A gente se vê em breve.

domingo, 3 de abril de 2022

080 AO CHEIRO DAS ÁGUAS

“Visto que os seus dias estão determinados, contigo está o número dos seus meses; e tu lhe puseste limites, e não passará além deles. Desvia-te dele, para que tenha repouso, até que, como o jornaleiro, tenha contentamento no seu dia. Porque há esperança para a árvore que, se for cortada, ainda se renovará, e não cessarão os seus renovos. Se envelhecer na terra a sua raiz, e o seu tronco morrer no pó, ao cheiro das águas brotará, e dará ramos como uma planta”. (Jó 14:5-9)

De acordo com a Bíblia, essas foram palavras de Elifaz, de Temã, um dos amigos de Jó. Os outros dois: Bildade, de Suá; Zofar, de Naamate. Jó, por sua vez, vivia na terra de Uz.

Vamos ao contexto em que as palavras de Elifaz foram ditas:

“Quando os três amigos de Jó, Elifaz, de Temã, Bildade, de Suá, e Zofar, de Naamate, souberam de todos os males que o haviam atingido, saíram, cada um da sua região. Combinaram encontrar-se para, juntos, irem mostrar solidariedade a Jó e consolá-lo. Quando o viram a distância, mal puderam reconhecê-lo e começaram a chorar em alta voz. Cada um deles rasgou seu manto e colocou terra sobre a cabeça. Depois os três se assentaram no chão com ele, durante sete dias e sete noites. Ninguém lhe disse uma palavra, pois viam como era grande o seu sofrimento”. (Jó 2:11-13)

Passados esses sete dias, “Jó abriu a sua boca...” (capítulo 3, verso 1), tendo início uma conversa registrada nos capítulos 3 a 32 do mesmo livro. Trinta capítulos, ou o equivalente a três quartos de todo o conteúdo do livro, como uma transcrição daquele debate. Disse debate, e não conversa, porque essa conotação é bem evidente na obra. Havia uma divergência entre eles. Jó abriu a sua boca e começou a falar... Então respondeu Elifaz, de Temã... Então Jó respondeu... Então Bildade, de Suá, respondeu... Então Jó respondeu... Então Zofar, de Naamate, respondeu... até que “aqui terminam as palavras de Jó”. (Jó 31:40)

Então (olha o “então” aqui de novo)... “Então esses três homens pararam de responder a Jó, pois este se julgava justo. Mas Eliú, filho de Baraquel, de Buz, da família de Rão, indignou-se muito contra Jó, porque este se justificava diante de Deus. Também se indignou contra os três amigos, pois não encontraram meios de refutar Jó, e mesmo assim o tinham condenado. Eliú tinha ficado esperando para falar a Jó porque eles eram mais velhos que ele. Mas, quando viu que os três não tinham mais nada a dizer, indignou-se”. (Jó 32:1-5)

Segue-se um longo discurso – não mais um debate, e menos ainda uma conversa – pelos seis capítulos seguintes, porção do livro em que apenas o jovem Eliú se manifesta. Jó nada fala. Elifaz, Bildade e Zofar, semelhantemente, nada falam.

Enfim chega o capítulo 38 do livro e... “Então o Senhor respondeu a Jó do meio da tempestade e disse: Quem é esse que obscurece o meu conselho com palavras sem conhecimento? Prepare-se como simples homem; vou fazer perguntas a você, e você me responderá”. (Jó 38:1-3)

Pelos quatro capítulos seguintes o Senhor Deus diz muitas coisas, basicamente lançando perguntas – perguntas que apontam para a sua grandeza e a pequenez do ser humano – para as quais uma única voz ousa dizer algo:

“Então Jó respondeu ao Senhor: Sou indigno; como posso responder-te? Ponho a mão sobre a minha boca. Falei uma vez, mas não tenho resposta; sim, duas vezes, mas não direi mais nada”. (Jó 40:3-5)

e 

“Então Jó respondeu ao Senhor: Sei que podes fazer todas as coisas; nenhum dos teus planos pode ser frustrado. Tu perguntaste: Quem é este que obscurece o meu conselho sem conhecimento? Certo é que falei de coisas que eu não entendia, coisas tão maravilhosas que eu não poderia saber. Tu disseste: Agora escute, e eu falarei; vou fazer perguntas, e você me responderá. Meus ouvidos já tinham ouvido a teu respeito, mas agora os meus olhos te viram. Por isso menosprezo a mim mesmo e me arrependo no pó e na cinza”. (Jó 42:1-6)


E por fim o epílogo:

 

“Depois que o Senhor disse essas palavras a Jó, disse também a Elifaz, de Temã: Estou indignado com você e com os seus dois amigos, pois vocês não falaram o que é certo a meu respeito, como fez meu servo Jó. Vão agora até meu servo Jó, levem sete novilhos e sete carneiros, e com eles apresentem holocaustos em favor de vocês mesmos. Meu servo Jó orará por vocês; eu aceitarei a oração dele e não farei a vocês o que merecem pela loucura que cometeram. Vocês não falaram o que é certo a meu respeito, como fez meu servo Jó. Então Elifaz, de Temã, Bildade, de Suá, e Zofar, de Naamate, fizeram o que o Senhor lhes ordenara; e o Senhor aceitou a oração de Jó. Depois que Jó orou por seus amigos, o Senhor o tornou novamente próspero e lhe deu em dobro tudo o que tinha antes. (...) Depois disso Jó viveu cento e quarenta anos; viu seus filhos e os descendentes deles até a quarta geração. Então morreu, em idade muito avançada”. (Jó 42:7-10 e 16)



O livro de Jó, um dos meus favoritos na Bíblia. Nessa primeira parte do escrito 080, um pequeno resumo dele. Contadas, na minha Bíblia de Estudo, 50 páginas; resumidas em aproximadamente 900 palavras.

 

Se nos fosse dado a conhecer apenas o registrado nos versos 11 e seguintes do capítulo 2, bem como todo o mais dos capítulos 3 a 42, ficaríamos confusos. Digo isso porque os discursos de Elifaz, Temã e Zofar (inicialmente) e até mesmo o de Eliú (mais adiante) nos parecem corretos. E o são, de certo modo. Tomemos como exemplo o trecho inicial deste escrito (Jó 14:5-9), atribuído a Elifaz. Ao lermos: “Visto que os seus dias estão determinados, contigo está o número dos seus meses; e tu lhe puseste limites, e não passará além deles”; ou: “Porque há esperança para a árvore que, se for cortada, ainda se renovará, e não cessarão os seus renovos. Se envelhecer na terra a sua raiz, e o seu tronco morrer no pó, ao cheiro das águas brotará, e dará ramos como uma planta”, elas não pareceriam as palavras de um louco. Menos ainda, pareceriam palavras de um homem que quisesse afrontar ao Senhor. Não, de forma alguma. Elas são corretas, de certo modo. Elas contêm verdades. Tanto é que exatamente o que disse Elifaz, cumpriu-se na vida de Jó: sua condição era como a de uma árvore cortada, seca e sem vida... mas ao cheiro das águas – a presença do Senhor – brotou, foi tornado novamente próspero, deu ramos como uma planta (viu seus filhos e os filhos dos filhos dos filhos) e por aí vai.


Há vários outros textos nas Escrituras que afirmam serem os nossos dias conhecidos pelo Senhor. Ele tem a conta de cada um deles. Igualmente, muitos e muitos textos sobre o poder de Deus em transformar milagrosamente uma situação, transformando em poderoso exército o que até instantes atrás era um monte de ossos secos. Assim, colocando estes óculos, digo que as palavras de Elifaz não soam como loucura. Há verdades nelas.


Mas então (olha o “então” aqui de novo) por que sobre essas e outras tantas palavras aparentemente corretas, tanto de Elifaz, como de Bildade, Zofar – e até poderíamos estender a Eliú – está registrado que o Senhor se indignou? Mais que isso, consta que eles mereciam ser castigados pela loucura que cometeram.


Uow!!!


Exatamente por isso eu falei lá atrás que ficaríamos confusos. E Ficamos mesmo, toda vez que dizemos algo sobre as coisas (qualquer coisa), sem conhecermos o que Deus pensa a respeito delas; ou os propósitos e desígnios dEle, que por vezes não nos foram revelados.


O conhecimento do capítulo 1 de Jó, bem como dos versos 1 a 10 do capítulo 2, muda tudo. Ali é aberta a visão completa sobre o que estava acontecendo com Jó. Mas seus amigos não sabiam. Previamente a todas as tribulações de Jó, houve uma conversa entre Deus e Satanás nas regiões celestiais. Uma permissão foi dada ao inimigo para tocar num homem “íntegro e justo, que temia a Deus e evitava fazer o mal” (capítulo 1, verso 1), sobre quem o Senhor da Glória dizia “meu servo Jó; não há ninguém na terra como ele, irrepreensível, íntegro” (verso 8).


“Nossa, mas por que Deus fez isso com ele? Ou, visto de outra forma, por que permitiu que o inimigo o tocasse? Que Deus ruim!”... poderá alguém questionar ou afirmar.


Ouso lançar duas respostas.


Primeira: Deus é SOBERANO, pode fazer o que quiser. Simples e direto.


Segunda: Para o bem de Jó, para que ele finalmente VISSE ao Senhor. Lembra?! “Meus ouvidos já tinham ouvido a teu respeito, mas agora os meus olhos te viram”. O servo Jó, homem íntegro, justo, temente a Deus, irrepreensível, que evitava o mal, inigualável na terra, já era assim apenas por OUVIR FALAR de Deus. Então (olha o “então” aqui de novo)... que homem ele não se tornou após VER a Deus?! Contemplar ao Deus Eterno com seus próprios olhos, algo que nem a Moisés foi dado.


Tenho cá comigo a convicção de que a “simples” visão do Senhor fez Jó agradecer por cada perda, cada desastre, cada ferida, cada lancinante dor que sentiu nos dias de árvore cortada. E ainda que (por mera hipótese) não viesse restauração, restituição, porção dobrada, filhos dos filhos dos filhos, e longa velhice, ele findaria sua existência afirmando ter valido tudo a pena, pedindo mais e mais perdas, mais e mais chagas, mais e mais dor, para um segundo e breve momento de VISÃO DE SEU DEUS.



Com este singelo escrito, reflito eu aqui sobre o seguinte:


- O ser humano é bastante ousado e louco por falar de coisas que não conhece completamente. Nossos dias são exuberantes nisto, quando vemos especialistas em nada opinando sobre tudo;


- Falamos muito sobre Deus, rápido demais, convictos demais, com dúvidas de menos. Isso também me parece loucura. “Por que quem compreendeu a mente do Senhor?” (Romanos 11:34; 1 Coríntios 2:16);


- Não temos a menor noção do que é a visão da Glória do Senhor, e do quanto isso evidencia nossa limitação;


- Acredito mesmo que todas as tribulações deste mundo, as piores e mais duras que possamos passar, são nada, nada, nada, quando comparadas com a oportunidade de VER a Deus, conhecê-lo além das palavras.



E finalizando, digo não a você, mas ao meu Senhor, que se nestas poucas palavras eu disse algo errado, incompleto, ou que tenha entristecido ao Seu coração, ou ainda a terrível condição de tê-lo feito indignar-se contra mim, eu menosprezo a mim mesmo e me arrependo no pó e na cinza, pedindo perdão por minhas incompreensões sobre o que pouco ou nada sei.


* Este escrito é minha oferta de gratidão a Deus pela vida do Tio Cilas, e por tudo que passamos em família nessa semana. Escrevo-o no domingo, 03/04/2022, pelo fim de tarde. Exatamente uma semana atrás, chegava-nos a notícia de que o tio precisaria passar por uma cirurgia cardíaca urgentemente, com altíssimo risco. No dia seguinte isso ocorreu, e na mesma tarde ele precisou ser aberto uma segunda vez. Na noite de segunda ouvimos dos médicos que “se a família quiser se reunir, a hora é agora; as chances dele sobreviver são mínimas”. UTI. Entubação. Vida ou morte por um fio. Cinco dias depois, na manhã de sábado (ontem), saiu da UTI. Andando. Sorrindo. Sereno. Ouvindo sons do Céu. Imagino o quanto mais não deve ter visto e experimentado das coisas celestiais. No final da tarde de segunda era como uma árvore cortada. Dias depois, ao cheiro das águas, está lá, vivo, renovado, e creio totalmente transformado por hoje conhecer ao seu Senhor de um modo mais profundo.

domingo, 20 de março de 2022

079 A ÚLTIMA HORA

No filme O PREÇO DO AMANHÃ, os personagens Will Salas (Justin Timberlake) e Sylvia Weis (Amanda Seyfried) vêem seus caminhos se cruzando num mundo futurista, onde um ativo preciosíssimo foi finalmente dominado pelo homem: O TEMPO. Como a película é de 2011, não reclame agora de spoiler, blz! Você teve mais de uma década para vê-lo. Mas, mas, mas... caso não assistiu, ou nem sabia de sua existência até agora, fica anotado que vou contar algumas partes nas próximas linhas. Ah, e recomendo finalmente assistir, pois é um bom filme, além de gerar reflexões legais.

Naquele mundo hipotético, por alguma razão que não me recordo, toda pessoa nasce com um mostrador digital em seu pulso, inicialmente zerado. O bebê vem a ser criança; a criança, um adolescente; este chega à juventude, quando finalmente duas coisas muito críticas acontecem: 1) no instante em que a pessoa completa 25 anos de idade, ela para de envelhecer. Terá aquela forma pelo resto da vida. Um mundo de jovens (ao menos na aparência); e 2) naquele mesmo instante, o mostrador digital no pulso é ativado, indicando o tal RESTO DA VIDA que a pessoa tem. Uma determinada quantidade de anos, meses, semanas, dias, horas, minutos e segundos aparece na parte interna de seu pulso, e a temida CONTAGEM REGRESSIVA começa. Não me recordo, no filme, o quanto era carregado para cada um, mas sei que aos 25 toda pessoa tinha seu relógio ativado com a mesma quantidade. Digamos que fossem 5 anos.

Dado então aquele start no RESTO DA VIDA, dois cenários possíveis entravam no radar: 1) se nada fosse feito, bastando seguir um curso de vida “normal”, dali a exatos 5 anos a pessoa morreria. Puf! OFF. Simplesmente desligava. Sem dor, sangue, explosões ou efeitos especiais. Era como se puxasse o plug da tomada; 2) a pessoa poderia carregar ou descarregar mais tempo em seu mostrador no pulso, o que significava a possibilidade de ampliar ou diminuir volitivamente a duração de sua vida.

Doidão, né?!

Genial, né?!

Bora abrir um parêntese.

Eu sou muito fã de filmes de ficção científica, desde menino. Poderia elencar dezenas deles, que apreciei ao longo da vida. E sabe, quando pinta um enredo novo, um cenário surreal como este – e outros – eu acho o máximo. É a criatividade humana gerando frutos, bolando coisas nunca antes pensadas, ou dando nova roupagem para outras que já haviam sido. Um traço em nós – que somos IMAGEM E SEMELHANÇA – de um atributo maravilhoso do Senhor: CRIATIVIDADE. Penso sempre nisso. Naqueles dias criativos iniciais, Deus pensando e executando cada elemento, cada design, cor, textura, sabor, cheiro, dinâmica... para ver um mundo completo e harmônico criado por Ele mesmo, pelo PODER DAS PALAVRAS DE SUA BOCA. E ao final, contemplando Sua obra, afirmar que É TUDO MUITO BOM! (Gênesis 1:31).

Eu demorei para enxergar a beleza e a importância da criatividade humana. Embora eu mesmo tenha alguns dons artísticos (desenhar é um deles; projetar ambientes belos e funcionais, outro), nas fases iniciais da minha vida era muito resistente a leituras ficcionais. Pensava ser perda de tempo. Algo assim: “Preciso me ocupar com livros técnicos, científicos, objetivos. Semelhantemente, com atividades práticas da mesma espécie, que me levem a ser mais produtivo, profissional, eficiente”. Em outras palavras, quase caí na cilada de me tornar APENAS UM DENTE NA ENGRENAGEM (escrito 064), esquecendo-me que minha essência é ser parte de um corpo, não de uma máquina. Até que me deparei, anos atrás, com um texto que falava da importância da literatura como arte, em suas várias formas de expressão: poesia, crônicas, aventuras, fantasia, ficção, etc.

Aquele texto está num capítulo de algum dos muitos livros que tenho em casa. Como costumo grifar as partes que me chamam a atenção, se eu dedicar alguns minutos ali na biblioteca, consigo encontrar. Talvez eu o faça. Se o fizer, reproduzirei aqui neste escrito. Se não reproduzir, é porque não fui atrás. Mas o fato é que fui mesmo convencido da importância da literatura – e não apenas ela – ficcional e fantástica.

Numa história como O Senhor dos Anéis, por exemplo, encontramos uma enormidade de informações e expressões humanas da mais alta complexidade, profundidade e importância. Filosofia. Teologia. Sociologia. História. Porque não podemos simplesmente tomar uma folha em branco (como antigamente), ou um arquivo em branco (como agora, neste escrito), sem acessar – conscientemente ou não – todo o depósito que temos dentro de nós. Ao abrir Hamlet com um “Ser ou não ser, eis a questão”, Shakespeare trouxe à baila uma das indagações humanas essenciais, sendo ainda hoje – e o será para sempre (provavelmente) – lembrado, estudado, revisitado. Cá pelos trópicos, ao primeiro contato do cinzel com as pedras-sabão que dariam vida aos Doze Profetas, em Congonhas/MG, Antônio Francisco Lisboa, mais conhecido como Aleijadinho, não o fez de forma atabalhoada, caótica. Ele precisou acessar séculos e séculos de cultura cristã, referências, mestres anteriores a ele, no intento de expressar visivelmente, fisicamente, literalmente em 3D, algo que fizesse sentido. Não uns bonecões de posto, descartáveis, mas algo que ecoasse pelos séculos. E assim poderíamos falar das grandes catedrais, dos monumentos de todas as culturas, da música clássica – porque o que se toca hoje nas paradas não é música – das esculturas gregas, do Renascimento como um todo, bem como dos milhares e milhares de livros até aqui escritos, os quais, na Eternidade, caso ainda subsistam, pedirei autorização ao Pai para ler. Pois é. Mais uma descoberta sobre mim: eu gostaria muito de ler todos os livros que já foram escritos.

Todo este parêntese para destacar a importância e a beleza da CRIATIVIDADE.

Mas voltemos ao TEMPO.

Tente imaginar como funcionaria um mundo como o representado em O PREÇO DO AMANHÃ. Ricos acumulando mais e mais, virtualmente com acesso à imortalidade, vivendo como se houvesse milhões de amanhãs. Pobres vendendo tempo para poder sobreviver, comer, ter o básico... vivendo como se não houvesse amanhã. Um mercado promíscuo se estabeleceu. Tem partes boas no enredo, outras nem tanto. No geral, o filme é bom. Não vou aprofundar nos spoilers. Veja lá.

E olha só, que interessante, novamente a arte imita a vida...

E se eu te disser que no seu pulso tem um mostrador invisível?! Logicamente, por definição, você não o vê. Mas ele está aí, garanto que está. CONTAGEM REGRESSIVA ROLANDO.

Diferentemente do marcador do filme, que permitia créditos ou débitos de tempo, no seu (meu, nosso) tem apenas saída. Uma ampulheta invisível, com sua minúscula passagem para os grãos de areia. Só que você não conhece o tamanho da sua. Pode ser pequenina como um saleiro, resultando que ainda hoje você pode estar na horizontal. Ou gigante como um grande silo para grãos, o que em nossa alegoria equivale a muitos anos pela frente. Ou qualquer recipiente intermediário, entre o saleiro e o silo, equivalentes a dias, semanas ou meses restantes. Qual o tamanho da sua ampulheta? Quais números se lê no seu marcador invisível? Você não sabe, né...

Pois é. É assim que vivemos. Não nos foi dado conhecer o tempo restante. Só o Senhor tem o preciso registro da nossa existência.

“Os teus olhos viram o meu embrião; todos os dias determinados para mim foram escritos no teu livro antes de qualquer deles existir” (Salmo 139:16).

O Deus Todo Poderoso tem à sua frente os bilhões de marcadores de todas as pessoas que passaram, os das que estão vivas agora, e ainda as ampulhetas de todas as pessoas que passarão pela Terra. E de todas elas, simultaneamente, precisamente, conhece cada dígito, a conta exata dos grãos de areia que há no frasquinho de sal ou no silo gigante de cada uma. Entende agora o que é ONISCIÊNCIA? Fosse “só” isso, Ele já seria um Deus tremendo! Mas de quebra Ele ainda é ONIPRESENTE e ONIPOTENTE. O Deus dos deuses. O Senhor dos senhores.

Mas tranquilo, de boa, não se aflija. Essa montoeira de marcadores não precisa tirar seu sono. Você deve ocupar-se apenas com o seu. Ocupar-se. Não preocupar-se.

“Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário? Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas? E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura? E, quanto ao vestuário, por que andais ansiosos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé? Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos? Porque todas estas coisas os gentios procuram. Decerto vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas. Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu próprio mal. (Mateus 6:25-34)


E assim, finalmente, chegamos ao ponto central deste escrito. A pergunta é: DEUS É ANSIOSO? DEUS TERIA ALGUMA QUESTÃO MAL RESOLVIDA COM O TEMPO? Porque tempo e ansiedade estão na mesma equação. Percebe? Poderia a ansiedade ser uma característica encontrada no Príncipe da Paz? Característica essa (ou atributo) replicada em nós, feitos à sua imagem e semelhança? Meditar implica em fazer perguntas. Lembra?: Ser ou não ser?...

Cá comigo, não creio. Trago a firme convicção de que a ansiedade entrou no homem com o pecado, após a desobediência e a queda. Assunto que poderemos abordar muito mais profundamente em escrito futuro. Por ora, quero apenas registrar minha convicção. Sei que há situações clínicas. Sei também que há muito estudo sobre isso, compreensões já firmadas, e muitas coisas por se desvendar no tema ansiedade. E eu, especialista que não sou, nem de longe quero vir falar categoricamente sobre o que não estudei. Entretanto, cá comigo, com as minhas firmes convicções, e destacando que isso se baseia num olhar integral com base na Palavra, creio mesmo que a ansiedade nunca foi plano de Deus para seus filhos. Os primeiros pais caíram em ansiedade; igualmente Abraão, Davi, Pedro e tantos outros. Mas você poderia apontar algum traço de ansiedade em Jesus? Não. E eu sei a razão. Porque ele não teve pecado. Ele lidava muito bem com o tempo. Embora tenha assumido a forma de homem, foi em tudo tentado, e em tudo prevaleceu. Já os discípulos, lembra?! Já estavam lá discutindo entre si quem iria sentar-se à direita e à esquerda do Senhor quando implantasse seu Reino, quando nem tinham começado suas missões específicas. Olhos nos tronos... no tempo errado. Queriam a glória antes da cruz. Ansiosos. Desejando os dias futuros, gloriosos, quando o que realmente existia era (é!) o dia que se chama hoje.

Beleza, Fer. Falou, falou, falou, mas e aí? Qual é o lance?

O lance é o seguinte. Tenho três coisas por falar sobre o tempo:

1) Não conhecemos nosso tempo, os dígitos no marcador, ou o volume de areia em nossa ampulheta. Daí que é nosso dever viver cada dia da forma mais excelente, o mais intensamente possível, gerando sorrisos na face do Senhor, porque cada dia pode ser o último. VIVER COMO SE NÃO HOUVESSE AMANHÃ, expressão que eventualmente ouço por aí, tem sido tomada como se jogar com tudo na vida, esmerilhar, agir de forma intensa e até perigosa, porque “se pode não haver amanhã, então tenho que aproveitar tudo hoje”. Perigo. Perigo. Não é assim. Viver como se não houvesse amanhã é simplesmente encarar o fato de que essa é a mais pura verdade. Ninguém pode garantir para si mesmo o dia de amanhã – e temos base bíblica para afirmá-lo– mas apenas viver o hoje, que efetivamente existe;

2) Se, por hipótese, te fosse dado conhecer exatamente seu tempo de vida restante, e isso gerasse em você um desespero tal que o fizesse alterar drasticamente a forma como vive agora, nem preciso te dizer que a forma atual tem problemas. Porque se fosse boa, por que alterá-la, ante a singela notícia de que você está em sua ÚLTIMA HORA de vida? Notei esta atitude em pessoas bem mais velhas, lá com seus setenta e poucos, oitenta e tantos anos. Vislumbrando a horizontal, bate um senso de urgência em mudar coisas, dizer palavras, fazer consertos... quando tanto tempo já passou. Anos ou décadas antes poderiam ter feito tudo, mas foram levando, empurrando, na certeza de que o fim estava bem distante. Projetos são desengavetados no crepúsculo da vida, quando o sol está por se por. Pense nisto. Não viva como se houvesse muitos amanhãs para resolver as coisas. Eles podem realmente não chegar;

3) Internalize com todas as suas forças os princípios contidos no texto de Mateus 6, dando assim um novo significado aos seus dias, ao seu tempo. O BASTA A CADA DIA O SEU PRÓPRIO MAL é libertador. Libertador de quê? Especialmente da famigerada ansiedade. Eu tenho na agenda, para amanhã, pelo menos uma dúzia de itens. Anotei tudo. Tenho os recursos e as informações para encarar todos eles. Os horários foram organizados. Tudo bonitinho. Só que eu só vou olhar a agenda de 21/03 amanhã bem cedo, pelas 5h e pouco, ou 6h e pouco, quando eu despertar. Nada daquilo eu posso fazer hoje. Quando muito – e raramente eu faço – uma checada hoje. Mas ocupar-me com aquilo tudo, ficar pensando, perder o sono? Jamais. A agenda de hoje ainda está acontecendo, e poderá restar comprometida, se eu tolamente tentar misturar no tempo dela as coisas que devem ter seu tempo apenas amanhã. A não-ansiedade tem a ver com isto: viver um dia por vez, a única forma possível. Não perca seu tempo com o amanhã que pode (e pode) não chegar. Também não perca seu tempo batendo na madeira ao ler isto, pois essas batidas não desaceleram o mostrador, muito menos fazem parar os grãos de areia na sua ampulheta.

domingo, 13 de março de 2022

078 A PRIMEIRA PEDRA

Poucas vezes puxei nos Escritos Aleatórios um tema do momento, a notícia do dia ou semana. Embora muitos deles possam ser classificados como crônicas, eu não os encaro assim. Também não são um diário ou semanário. Eles são algo que cedo ou tarde conseguirei encaixar numa classificação, embora fazê-lo não me pareça importante.

Pois bem, última vez – talvez única – que embasei um texto aqui em notícia fresca, foi no 063 NADA ACONTECEU. Na oportunidade, meados de 2021, circulou a informação de que uma espécie de pica-pau fora declarada tecnicamente extinta, pois seu último avistamento na natureza ocorrera há aproximadamente 80 anos. Depois disso, nada. O de hoje, baseia-se num acontecimento de dias atrás – pelos finais de fevereiro e início de março/2022. Não mencionarei nomes, pois tenho por hábito só fazê-lo quando as palavras sobre a pessoa forem positivas. Vou me limitar aos fatos veiculados. Se eles forem suficientes para a identificação da pessoa, então é porque foram fatos relevantes e de grande alcance.

Pandemia global em curso. Invasão da Ucrânia pela Rússia em curso. Eleições no Brasil dentro de poucos meses. Um bom número de outros fatos importantes acontecendo no Brasil e no mundo. Mas o que movimentou o noticiário nos últimos dias, tanto nos veículos tradicionais de imprensa, como também nos canais mais recentes e tecnológicos, foram alguns áudios enviados por um deputado estadual de São Paulo num grupo de whatsapp. Áudios muito ruins.

“Eita! Só isso, Fer?!”. “Áudios muito ruins???”. “Bora adjetivar mais isso aí, colocando uns inflamados HORRÍVEIS, ODIOSOS, REPUGNANTES, ESCROTOS, MACHISTAS... etc, etc, etc na frase!”. Não, amiguinho. O texto é meu. A boca é minha. Eu falo do meu jeito. E minha opção é dizer ÁUDIOS MUITO RUINS, sem dobrar-me à obrigação quase imposta pela grande massa de adjetivar como todo mundo faz. Eu tenho minhas próprias impressões. Eu tive minha própria resposta interior, quando ouvi aquelas falas, e a forma como decido me expressar sobre elas é exatamente esta: MUITO RUINS. Porque tem disso agora, caso você ainda não tenha percebido: há uma vigilância sobre as manifestações, sobre as palavras que não se pode usar, e sobre algumas que se deve usar. A patrulha, sempre alerta. A patrulha, sempre pronta para cancelar quem fala as palavras proibidas, ou exaltar quem usa as palavras obrigatórias. Não, obrigado. Eu falo do meu jeito.

Pois bem. O resumo do resumo é que o deputado falou palavras muito ruins sobre as mulheres ucranianas, refugiadas, vulneráveis, com seu país sendo atacado numa guerra. Para seu azar, o deputado o fez nas proximidades do 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Claro, em qualquer tempo seriam palavras muito ruins, mas o contexto conseguiu piorá-las.

O que se seguiu, foi que os áudios enviados no grupo de “amigos” vazaram. E nestes nossos tempos, a velocidade de disseminação é impressionante. Dentro de poucas horas já alcançavam milhões de olhos e ouvidos. Mais ou menos assim: se até eu (Fer) fiquei sabendo, é porque foi uma notícia de razoável para grande alcance, pois sou – por opção – bastante desligado da TV e das notícias do momento. Procuro selecionar bem meus canais informativos e acessá-los no meu tempo; então, se algo sobre os áudios chegou até mim, é porque a notícia caminhou bastante.

Sabe o que fiz? Eu não ouvi de imediato os áudios muito ruins do tal deputado. Cedo ou tarde eu chegaria até eles – e cheguei – mas num primeiro momento dei mais atenção às reações das pessoas, dos veículos de comunicação e dos influenciadores. Aquela “sede de sangue”, a necessidade de ver o cadáver estraçalhado, a imagem embaraçosa, ouvir o áudio explosivo, e coisas do tipo, não tem a ver comigo. Não. Não se trata de fechar os olhos para a realidade. Trata-se de manter meu poder de decisão sobre o que entra por meus olhos, ouvidos, ou por qualquer outro meio.

Eu imaginava, a partir das dezenas de reações que vi, que os áudios seriam mesmo muito ruins. Quando os ouvi, uns 10 dias depois da divulgação, pude confirmar que sim. Àquela altura, eu poderia encher uma página deste escrito com os adjetivos usados pelo pessoal. Todo mundo bateu sem dó.

“Hummm... cheiro de que você vai defender o cara, Fer...”

Não. Não vou defendê-lo.

Ele falou, agora ele que se explique, que se defenda, que se desculpe. É a colheita dele. E não sou advogado. Meu bacharelado em Direito não me habilita automaticamente para a advocacia. Tem um exame da OAB neste sanduíche, entre a colação de grau e o número de registro na carteirinha. Número que não possuo, por sinal. Tchanããã, e assim você finalmente descobre que não sou advogado.

Não vou defendê-lo. Também não vou acusá-lo. Para uma e outra tarefas tem gente de sobra por aí.

Mas, enfim, por que então abordar este tema, se não é para acusar ou defender o deputado que falou coisas muito ruins sobre as mulheres ucranianas? Simples. Porque desejo puxar este fato, esta notícia fresca, para falar não dele, mas da multidão.

Cena parecida foi vista uns 2 milênios atrás:

“E os escribas e fariseus trouxeram-lhe uma mulher apanhada em adultério. E, pondo-a no meio, disseram-lhe: Mestre, esta mulher foi apanhada, no próprio ato, adulterando. E na lei nos mandou Moisés que as tais sejam apedrejadas. Tu, pois, que dizes? Isto diziam eles, tentando-o, para que tivessem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia com os dedos na terra. E, como insistissem, perguntando-lhe, endireitou-se e disse-lhes: Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela. E, tornando a inclinar-se, escrevia na terra. Quando ouviram isto, redarguidos da consciência, saíram um a um, a começar pelos mais velhos até os últimos. Ficou só Jesus e a mulher que estava no meio” (João 8:1-9)

Xeque Mate! A multidão não esperava por essa. De uma hora para outra desfez-se a jogada perfeita para acabar com o filho do carpinteiro José e de Maria. Não funcionou. A lei os encheu de coragem para pegar em pedras com toda força. A consciência dos próprios pecados fez seus dedos ficarem molinhos de vergonha. As pedras esquentaram nas mãos. Não tinham como prosseguir com a jogada perfeita.

“Aaaah, então Jesus foi um passapanista! Fez vista grossa para o pecado”. Não. Não foi isto que ocorreu. Ele não fez vista grossa. Apenas, antes de tratar com a mulher, tratou com a multidão. Mas ele jamais perderia aquela oportunidade de trazer uma ovelha perdida para o lugar certo. Afinal, Jesus é o BOM PASTOR (escrito 048):

“E, endireitando-se Jesus, e não vendo ninguém mais do que a mulher, disse-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? E ela disse: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais” (João 8:10-11).

Que MESTRE perfeito! Que DICIPLINADOR perfeito! Que AMOR perfeito! Jesus fez tudo esplendidamente bem nessa passagem. E olha, nenhuma surpresa! Ele fez tudo certo, todo o tempo, com todos. Sempre esplendidamente bem.

O que eu diria ao deputado que falou palavras muito ruins sobre as mulheres ucranianas, é: “Arrependa-se! Não diga mais coisas como aquelas. Mude o seu olhar, mude seu linguajar, mude suas atitudes. Se você não sabe como fazê-lo, creia-me que o Caminho é Jesus. Qualquer tentativa sua de tornar-se um cara melhor, repensar a vida, etc e tal – como vi/ouvi em declarações suas, posteriores ao escândalo – estão fadadas ao fracasso. A verdade do seu coração continuará sendo exatamente aquela que as palavras ruins expuseram, por mais que consiga maquiar, como vinha fazendo muito bem até aqui. Mas não queira ser um túmulo caiado. Não passe tinta nova sobre uma parede arruinada. Vai cair. Sem Jesus e mudança real, vai cair”.

Quanto à multidão de agora, trata-se da mesma de décadas, séculos e milênios atrás. Agarrados nas pedras. Loucos para abrir crânios com elas. Mas alguém tem condições de fazê-lo?

A resposta é bem simples, a mesma de sempre: AQUELE QUE DENTRE VÓS ESTÁ SEM PECADO SEJA O PRIMEIRO QUE ATIRE A PEDRA.

Minhas mãos estão vazias.

Um excelente restante de domingo pra você!

quarta-feira, 2 de março de 2022

077 ESTÁTUAS DE SAL

Alguns anos atrás tive contato com uma história bem peculiar, mencionada pelo Pastor Luciano Subirá. Salvo engano, ele não estava presente no fato, mas teve conhecimento em conversa com algum de seus amigos pastores.

É dada a palavra para que uma pessoa conte seu testemunho, cena bastante comum nas igrejas de linha pentecostal, e mais rara nas tradicionais. E quando se fala, então, em cultos transmitidos pela TV, não pode faltar; é um dos carros-chefe da programação. Então o rapaz recebe o microfone e começa a discorrer sobre seu passado de pecados, dando vários detalhes: “Eu fazia isso, eu fazia aquilo, meu carro era tal, saía com uma mulher diferente por dia, era temido, e pá, pá, pa...”, até que no meio do testemunho (ou tristemunho) ele para, respira fundo, dá aquela olhada perdida no vazio, suspirando em voz alta o que se passava no coração: “AOOOOOW TEMPINHO BOM!!!”

Ixi, deu ruim! O pastor, mais que correndo, manda cortar o som do microfone, agiliza a retirada do irmão lá do púlpito, e de alguma forma tenta administrar a saia-justa causada pela fala inapropriada. E o pior, é que só teve a parte triste da história, pois não houve tempo para que o rapaz discorresse sobre a nova vida em Jesus, que ele vinha experimentando desde que “deixou para trás” aquele tempinho bom.

Vigorasse ainda a ordenança dada para quando Ló e sua casa saíram de Sodoma, o irmão do testemunho agora seria uma estátua de sal. Sentiu saudades do que não deveria. Olhou para trás. Deu ruim!


Pois bem. Esta seria aquela parte do texto onde eu escrevo que “devemos olhar só para frente, passos firmes avante, sem um pingo de saudades do que passou”, etc, etc, etc. É a coisa certa. É o texto certo. Mas, e quando, mesmo sabendo o que é certo e melhor, tem lá no fundo um sentimento inapropriado de saudades pelo que não deveria?! Isso ocorre contigo? Como lidar com isso? Significa que não somos de Jesus? Meu Novo Nascimento foi fake? É possível que pessoas verdadeiramente de Deus sintam-se tentadas a essas espiadelas e suspiros pela vida que deixaram?

Convido você a pensar comigo a respeito.

A Palavra do Senhor diz em Lucas 9:62 que “Ninguém que lança mão do arado e olha para trás é apto para o Reino de Deus”. São palavras do próprio Cristo.

Então me lembro que 3 décadas atrás, pelos idos de 1992, eu tive meu encontro real com o Senhor. Fato mencionado no escrito 033 PALAVRAS, sobre minha descoberta das Escrituras, o início do meu amor pela Bíblia, e como no processo de sua leitura eu entreguei meu coração a Jesus. Foi tão especial. O Fernando de 15 anos tendo seu coração ganho pela Palavra.

Assim, podemos concluir que desde então houve uma mudança de direção na minha vida. Um novo caminho. O Caminho. Assim era chamado o Cristianismo nos tempos da Igreja Primitiva. Ou seja, conheci a Jesus, entreguei minha vida a Ele, rolou o novo nascimento, e assim eu começava a trilhar seus passos. Lancei mão do arado.

Passados 30 anos, seria maravilhoso poder dizer que tudo correu perfeitamente bem: sem pecados; sem vacilos; sem olhadelas para trás; também alguns retrocessos importantes – que já chamei em escritos anteriores de UMA VIDA DE CHIQUEIRO. Pois é, quisera eu ter este testemunho lindo para compartilhar aqui, mas não foi bem assim. Eu conheci a Jesus, eu o amei (e amo), eu comecei a trilhar O Caminho, mas em algumas oportunidades olhei para trás. Ferrou! Estátua de Sal no rolê.

Penso que o texto-base deste escrito (Lucas 9:62) tenha uma dupla finalidade: a primeira, um chamado à firmeza de propósito; a segunda, menos evidente, comunicar que o "olhar para trás" pode ocorrer na vida de alguns, com graves consequências. Pode, mas não deve. Pela segunda, escancara-se nossa inaptidão, sempre que acreditarmos na força do nosso braço para mantermos firme o arado em mão. O fato é que não temos condições de concluir a caminhada sozinhos. Sem chance. Sem Ele, nada podemos fazer (João 15:5). Vem-me à mente agora, em qualquer fase desses 30 anos passados, quantas vezes disse a mim mesmo “isso eu não faço mais”, “tal coisa não tem mais lugar na minha vida”, “daqui pra frente será assim e tal”, para admitir que falhei miseravelmente em todas elas, quando essas declarações sustentaram-se na minha própria força de vontade. Você leva bem um dia, dois, talvez semanas, mas cai. Sem o Espírito Santo te ajudando... cai. Sozinho, cai. Não se engane.

A conclusão, portanto, é que não sou apto para o Reino de Deus? É correto dizê-lo? Então, é correto sim, mas há espaço para pensarmos mais fundo. Vamos além da superfície, para melhor compreender. 

Eu não sou apto, mas Ele me habilita. Eu sou responsável por manter-me no rumo certo, mas sozinho não consigo. O que precisamos ter em mente TODOS OS DIAS da nossa vida, é que Ele deseja andar conosco. Não se trata de ter um encontro com o Senhor no Novo Nascimento, e um segundo momento com Ele no Grande Julgamento. Não, não. De jeito nenhum. Nos muitos - ou poucos dias - entre esses dois eventos importantíssimos, o Espírito Santo deseja caminhar conosco. Dizer isto parece óbvio, mas por vezes precisamos ser lembrados do óbvio, senão olhamos para trás.

O Senhor, mais do que eu mesmo, deseja me ver em pé no final da caminhada. Seguramente, a frase mais importante que eu poderei ouvir em toda a minha vida, é a mesma que Ele mais deseja verbalizar: “Servo bom e fiel, entra no gozo do teu Senhor” (Mateus 25:23).

Vem-me à mente a história do povo de Israel no deserto. Tirados do Egito em meio a sinais e maravilhas (escrito 041), com cenas que os melhores estúdios computadorizados de hoje não poderiam reproduzir, não tardou para que olhassem para trás. “Pois que melhor nos fora servir aos egípcios, do que morrermos no deserto” (Êxodo 14:12); “E os filhos de Israel disseram-lhe: quem dera tivéssemos morrido por mão do Senhor na terra do Egito, quando estávamos sentados junto às panelas de carne, quando comíamos pão até fartar! (Êxodo 16:3); “E não havia água para a congregação; então se reuniram contra Moisés e Arão. E o povo contendeu com Moisés, dizendo: quem dera tivéssemos perecido quando pereceram nossos irmãos perante o Senhor! E por que trouxestes a congregação do Senhor a este deserto, para que morramos aqui, nós e os nossos animais? E por que nos fizestes subir do Egito, para nos trazer a este lugar mau? Lugar onde não há semente, nem de figos, nem de vides, nem de romãs, nem tem água para beber. (Números 20:2-5); “Mas vendo o povo que Moisés tardava em descer do monte, acercou-se de Arão, e disse-lhe: levanta-te, faze-nos deuses, que vão adiante de nós; porque quanto a este Moisés, o homem que nos tirou da terra do Egito, não sabemos o que lhe sucedeu” (Êxodo 32:1). Mais exemplos das revoltas e rebeldias do povo poderiam ser colacionados aqui, enchendo páginas e páginas.

Diante desses relatos, indignamo-nos: “Como podem eles ter visto tantas coisas extraordinárias e ainda assim olharem para trás?!”. Fácil ser juiz, né?! Mas o fato é que nós somos eles. Eventualmente, fazemos o mesmo que eles. A natureza caída deles continua sendo a nossa. Sem Deus eles nada podiam fazer, como hoje (século XXI) continuamos nada podendo fazer. Sozinhos, não tinham aptidão alguma para atravessar o deserto e chegarem à Terra Prometida. Sozinhos, encontramo-nos tão inaptos quanto eles, mas agora para concluirmos o Caminho Estreito e termos acesso à Casa do Pai.

A grande verdade é que não somos aptos. Entenda isso! Sem Ele, nada podemos fazer.

Mas a Graça do Senhor se manifesta hoje, como se manifestou no deserto. Suas misericórdias, que não tem fim, renovam-se a cada manhã (Lamentações 3:22-23). Seu desejo não é tragar-nos pela terra que abre sua boca, como na rebelião dos filhos de Corá; nem transformar-nos numa estátua de sal, como a esposa de Ló; tampouco digerir o fujão Jonas no ventre do grande peixe; ou esfregar na face de Pedro suas negações ao amado Jesus. Não, não. Todos, todos, rigorosamente todos inaptos, como inaptos também somos, mas alcançados por sua maravilhosa Graça, ainda disponível... até que Ele volte. Uma hora a Graça findará, você sabia disto? Mas ainda estamos neste tempo propício. Ainda é possível voltar ao rumo certo. Qual seu posicionamento? (Escrito 047).


Sim, sim. Para minha vergonha, nesses 30 anos de caminhada eu já olhei para trás. Fosse um tempo em que as misericórdias do Senhor não mais estivessem disponíveis, eu já seria uma estátua de sal à beira do caminho; ou um walkin dead de sal no caminho largo, rumo à perdição eterna. Eu tenho plena consciência da minha inaptidão para cumprir a jornada... sozinho. Só que a boa nova é que Ele não tem prazer na morte. Ele deseja a vida para todos. “Os céus e a terra ponho por testemunhas contra vós, de que tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência (Deuteronômio 30:19). Traduzindo: sim, a Graça e as Misericórdias do Senhor estão pulando de alegria para te tocar, mas elas só o farão se você (eu, todos nós) se arrepender dos maus cominhos, tirar os olhos daquela espiadela para trás, voltá-los para o alvo, e seguir na direção correta. Fora disso, você (eu, todos nós) está fora. O Deus de Amor, é o mesmo Deus de Justiça, e Ele é tão perfeitamente amoroso quanto perfeitamente justo. Não espere um final feliz, se você (eu, todos nós) continuar num caminho infeliz. Não vai dar tudo certo, invariavelmente, qualquer que seja seu posicionamento. Posicionamento bom, final legal; posicionamento mau, final ruim. Eternamente.

E assim, com essa reflexão, inauguramos a temporada 2022 dos Escritos Aleatórios. Trazendo a lembrança de nossa inaptidão, bem como a deliciosa notícia de que o Senhor nos habilita, e o entendimento de que está em nossas mãos – ou nosso pescoço – continuar ou não olhando para trás. Aliás, falando em pescoço, acho que você (eu, todos nós) tem apreço pelo seu, então sabemos o que fazer.

Bora seguirmos firmes no Caminho Estreito em 2022?!

Bora?

Boro!

domingo, 16 de janeiro de 2022

076 GERACIONAL (parte 7/7)

E finalmente chegamos à sétima parte da série de escritos sobe a VIDA INTEGRAL. Área GERACIONAL, composta por legados, heranças e toda e qualquer outra coisa que passe de nós, transcenda nossa existência em carne. Digo “em carne”, porque a existência de cada ser – criaturas ou filhos – jamais terá um fim permanente. Ou vida eterna, ou morte eterna, mas existindo para sempre numa dessas duas diametralmente opostas condições. Ah, e o não crer nisto não muda em nada as coisas, viu?! Só pra te alertar.

Como o tema LEGADO foi bem trabalhado um tempo atrás, no escrito 022, hoje iremos de “copiar-colar”. Porque não vejo sentido em reescrever a mesma ideia com novas palavras, quando considero as primeiras tão precisas e certeiras, naquilo que me propus compartilhar. Vamos lá!


Eles legam.

Vós legais.

Nós legamos.

Ele lega.

Tu legas.

Eu lego.

LEGO é considerado o brinquedo de maior sucesso em todo o mundo. De origem dinamarquesa, as primeiras criações vieram da oficina do marceneiro Ole Kirk Christiansen, pelos idos dos anos 30. Lego significa “brincar bem”. Após essa fase inicial da madeira, no pós-guerra surgiu o plástico injetado (acrilonitrila butadieno estireno), abrindo um mundo de possibilidades, formas, cores e tamanhos, fazendo surgir o Lego que hoje conhecemos: blocos plásticos de encaixar, em vários tamanhos e formatos diferentes. Virtualmente, pode-se criar qualquer coisa com Lego, se você tiver peças suficientes para dar conta de sua imaginação.

De acordo com algumas rápidas pesquisas que fiz, o Lego segue 4 princípios básicos:

- Alta qualidade;

- Segurança;

- Estimulação da criatividade;

- Imaginação.

Além do já mencionado sucesso, muitos o consideram o melhor brinquedo para auxílio no desenvolvimento das crianças, em qualquer faixa etária, assim cumprindo os princípios criatividade e imaginação. A segurança, penso eu, afere-se por algum critério técnico-normativo, relacionado à ausência de toxicidade, baixo risco de acidentes ou ferimentos, tamanho e formato que impeçam uma criança engolir as peças. Por fim, no quesito qualidade, alguns conjuntos conservam, mesmo após décadas de uso, suas características originais, com encaixes perfeitos, rigidez, cores vivas.

A grande popularização ocorreu na década de 50. Hoje existem 4 fábricas em diferentes locais do globo, produzindo mais de 36 bilhões de peças por ano, ou 68 mil por minuto, 1140 por segundo. A coleção Lego conta com aproximadamente 4200 itens diferentes, nos quais são utilizadas 58 cores distintas. Uau! Eu não sabia nada disso sobre o Lego. Recorri ao “Tio Google”, investi uns minutos na leitura de meia-dúzia de páginas, e fiquei impressionado com o tanto de informação que há a respeito. Uma ideia simples e despretensiosa, que num processo longo e natural foi se agigantando, até hoje ser este ícone em sua área (brinquedos), e indo muito além dela (educação, ensino, criatividade). Caso tenha um tempo, “dê um Google”, e veja/leia por si mesmo o tanto de coisas legais que há sobre um simples brinquedo.

Ah, da forma resumida como coloquei acima, pode-se ter a impressão de uma “história linear e perfeita”, onde tudo deu certo sempre, numa ininterrupta, crescente e vitoriosa saga do marceneiro que construiu um império. Mas não foi bem assim. Houve fases difíceis. Crises financeiras. Versões piratas. O booom dos videogames. Decisões estratégicas equivocadas. Os conjuntos Lego, numa certa fase, perderam sua característica original, pelo acréscimo de componentes eletrônicos, peças que já vinham prontas (com nada por montar... ???). Estava virando outra coisa, qualquer coisa, menos o Lego originalmente pensado. Até que a empresa voltou ao rumo certo numa troca de CEO, que fez tudo voltar à essência. Tiraram o que desnaturava, todo penduricalho desnecessário, e o Lego voltou ao topo. É uma bela história. Ole Kirk Christiansen deixou seu legado.


Legado é um termo jurídico. Significa “disposição de última vontade pela qual o testador deixa a alguém um valor fixado ou uma ou mais coisas determinadas”. Analogicamente, também pode ser “bem ou missão confiada a alguém por pessoa que está a ponto de morrer”. Novamente recorri ao Google para anotação destes conceitos, pois faz já uns 25 anos que estudei essas coisas na faculdade. A memória aqui é péssima, você nem imagina o quanto. Precisei de uma colinha.

Cá comigo, quando penso em legado, encontro uma terceira forma de ver. Ela não é jurídica ou científica, mas fruto de percepções e sentimentos naturais. Acredito até que muitos entendam de forma semelhante à que vou compartilhar, sequer imaginando que legado seja uma figura jurídica. Gosto destas percepções. São as coisas que o homem comum (um não-especialista) apreende da vida. Pode não corresponder ao conceito exato, mas tem o seu valor. Eu valorizo, como deixo bem claro no texto “015 MAIS SABEDORIA, MENOS TÍTULOS”. Diplomas não me impressionam. Os especialistas são apenas os especialistas, caso lhes falte sabedoria.

Legado, para mim, é um tipo de HERANÇA IMATERIAL. Herança é outro conceito jurídico, que significa o “conjunto de bens, patrimônios, direitos e obrigações deixados por uma pessoa falecida aos seus herdeiros”. Este, um conceito muito mais presente e compreensível para todos. Quando eu ou você pensamos em herança, muito provavelmente vinculamos àquilo que o conceito científico enuncia. Ou, nas palavras de um homem comum, “é o que vai sobrá pros fio, depois que os véio morre”. Cash. Grana. Cascaio. Bufunfa. Bens.

Legado, portanto, é um tipo diferente de herança.

Pequena pausa... (enxugando umas lágrimas aqui).

Escrevo este texto em Iepê/SP, terra que tanto amo. É difícil passar 1 mês sem que eu venha para cá. Minha família materna, a partir dos bisavós, originou-se de Iepê. Tenho mais histórias aqui do que em qualquer outro lugar, isso sem nunca ter morado na cidade. Mas Iepê mora em mim. Iepê tem influências profundas em mim. Nesta terra, ao longo de pelo menos três gerações, foi forjado e passado um grande legado. Tudo que sei, sinto, penso, vivo ou projeto viver em termos de FAMÍLIA, é fruto do legado deixado por meus bisavós, bem como – e de forma mais direta – pelos saudosos avós Cilas e Laurinda. A geração seguinte, composta por suas três filhas e dois filhos, continua me legando muito.

Cilas e Laurida. Inesquecíveis. Viveram um casamento intenso por 60 anos. História linda, de filme mesmo. Mas um filme de gente real, carne e osso, não a “história linear e perfeita”, onde tudo deu certo sempre, numa ininterrupta, crescente e vitoriosa saga dos sitiantes que construíram um império. Não foi bem assim. Houve fases difíceis. Tudo aquilo que escrevi para o Lego, vale para os meus avós, ao seu modo. Dificuldades tais, que fossem noutra época – hoje, talvez, com sua notória fragilidade e descartabilidade dos relacionamentos – eles teriam sucumbido. Mas não. Assim como o CEO da Lego, que encontrou o rumo certo no retorno às origens, à essência do que aquele pequeno mundo de brinquedos verdadeiramente era, meus avós também venceram, firmando seu casamento e sua família em Valores Eternos. Cada passo orientado pela Palavra de Deus. A direção do Espírito Santo. Mas, principalmente, pela DECISÃO DE FAZEREM TUDO O QUE LHES CABIA FAZER PARA DAR CERTO. Porque não adianta você saber o que é o certo, ler na Bíblia o que é certo, ouvir do próprio Deus Espírito Santo o que é certo, mas fazer o contrário. Obedecer é a chave.

Cilas e Laurinda obedeceram. A partir do que receberam da geração anterior, cultivaram em si, e plantaram em seus filhos, netos e bisnetos, Valores Eternos. Eu escreveria 10 livros, para seguramente não conseguir compartilhar tudo o que eles significam para mim. São coisas que só eu sei. Sentimentos que ninguém de fora poderia compreender. Porque é a minha história, o legado que eu recebi deles. Palavras ou gestos que vi nas vidas de Cilas e Laurinda, coisa simples, que para você ou tantos outros não teriam sentido, mudaram-me para sempre... (mais uma pausa para lágrimas).

Meu avô faleceu primeiro, em 2009, dias depois da grande festa dos 60 anos de casamento. Como ele dizia, “Bodas de Ouro todo mundo faz. Mas 60 anos de vida conjugal, aí não é pra qualquer um”, e seu sorriso tímido no rosto. Eu e meu avô fomos confidentes. Tivemos muitas e muitas conversas excelentes, fosse enquanto ele me ensinada a matar e carnear um porco, ou a plantar, e principalmente nas pescarias que eu tanto detestava, mas ia com um sincero sorriso no rosto, pelo puro prazer de estar com ele. Minha última pesca foi com ele. Nunca mais fui a outra, e provavelmente não irei a nenhuma outra, para que nossa última pesca juntos continue sendo minha última. Como eu amei aquele lindo senhor. O Cilas Verdureiro. Tempos atrás, numa pequena conversa espontânea com uma pessoa na cidade, com um senhor bem mais velho do que eu, cedo ou tarde veio à tona a informação de que eu era neto do Cilas. Como foi gostoso ouvir aquele homem dizer, tantos anos depois da morte do meu avô, o quanto ele foi um homem bom, honesto, generoso, temente a Deus. Legado.

Dona Laurinda, minha avó, faleceu 3 anos depois de seu amado, no dia exato do meu aniversário: 5 de junho de 2012. Eu pude honrá-la em vida e também nas últimas homenagens. Disse algumas palavras, em meio ao choro. Alguém concluiu por mim, pois não consegui fazê-lo. Chorei sua partida. Carreguei seu caixão. Abracei meus familiares. Vi sua morte em minha data natal como um presente único. Tivemos 32 anos de convivência sem um único problema, nenhuma palavra atravessada, nada. Pelo contrário. Dela só recebi os risos extravagantes, sabedoria, testemunho impecável, palavras e gestos de amor. Jamais desrespeito, abuso, violência. Minha querida avó foi, sem dúvida, a pessoa mais parecida com Jesus que eu conheci. O Jesus que estava sempre em seus lábios. Não tenho notícias de alguém que tenha passado por sua casa, sem ouvi-la falar vividamente do grande Amor de Deus. Legado.

O deles estava entregue.

Herança? Uma pequena área de terras – o sítio onde me encontro neste instante – que, dividida entre os 5 filhos, deu pouco mais de 1 alqueire para cada. Briga na partilha? De forma alguma. Um empurrando para o outro a melhor parte: “Fique você com este pedaço, é o melhor, você merece mais”. “Nada disso, você cuidou mais do pai e da mãe. Você fica com essa”. Uma discussão às avessas, onde cada um queria que o outro tivesse o melhor. Legado.

Pequenina herança, mas um legado imensurável.

Eu, que me viro bem com palavras, realmente em 10 livros não conseguiria expressar tudo que eles legaram. Isso, apenas para cobrir o legado familiar, sem contar os volumes extras que seriam necessários para falar do que Cilas e Laurinda deixaram na sociedade, na Igreja, no Reino.

Então você sabe o que é legado. Sabe do que estamos conversando. Bom ou mal, você recebeu algum. Triste vida a daqueles que não receberam herança alguma, material e imaterial. Quão pobres também os que receberam apenas milhões em herança, mas legados vazios. Felizes os que não receberam um vintém furado para chamar de seu, mas legados que ouro nenhum pode comprar. Felizes também aqueles que puderam receber boa medida de ambos, né?! Por que não? Neste último caso, os bens foram o que chamo de “efeito colateral positivo”. Falaremos dele em texto futuro.

Muitas linhas sobre o legado de minha família materna. Muitas outras seriam necessárias para falar do lado paterno. Não o farei hoje, apenas para não tornar este escrito extenso demais. Haverá oportunidade. Direi apenas, muito resumidamente, que a lembrança do meu avô Veríssimo de Paula Neves, de quem carrego o nome Veríssimo (muito verdadeiro), traz consigo grande responsabilidade. Um patriarca. Homem honrado, de palavra, trabalhador, temente a Deus, guiado pelo Espírito Santo, pai de muitos filhos, avô de muitos netos, um homem simples. Simples como eu sou. Pacífico como eu sou. Bravo, como às vezes também sou. Saber de onde você veio, diz muito sobre para onde você vai. Somos flechas. Legado.

Eu não tive hoje, do nada, a “brilhante ideia” de vir ao meu notebook escrever sobre este tema. Penso nele não há algumas semanas, nem meses, mas há muitos e muitos anos. Porque penso no meu legado. Porque, diferentemente da figura jurídica, bem como da ideia análoga, ambas descritas no início, a minha percepção homem-comum de legado não é para tempo distante, daqui a algumas possíveis décadas restantes de vida. Não, de forma alguma. Penso que toda pessoa tenha um legado presente. Hoje, 22 de maio de 2021, eu e você já temos um legado estabelecido e entregue.

Posso morrer hoje. Você também, por mais que não goste da ideia e dê 3 batidinhas na madeira. As batidinhas não mudam nada. São superstição boba. E assim, se hoje eu partir, e palavras forem ditas sobre mim, cânticos de despedida, e as alças do meu caixão forem sustentadas pelas mãos das pessoas que mais me amam, e os últimos abraços forem dados entre os que ficarem, e o lamento inexprimível de uma mãe chegar ao Trono da Graça, por ter enterrado um filho, tudo findou. O que eu poderia ter dito, disse. Amado, amei. O que me teria sido possível fazer, fiz ou não fiz. O último grão de areia na ampulheta do Fer desceu. Finito.

Temos a tendência de deixar muitas coisas para o fim da vida, sempre e ilusoriamente pensando que chegaremos aos 100, 150, 200 anos. Então, lá pela década final, colocaremos tudo em ordem. Muitos só pensam em legado quando a ampulheta está no fim. Meu Salmo favorito (139), entretanto, faz um importante alerta:

Senhor, tudo me sondaste, e me conheces. Tu sabes o meu assentar e o meu levantar; de longe entendes o meu pensamento. Cercas o meu andar, e o meu deitar; e conheces todos os meus caminhos. Não havendo ainda palavra alguma na minha língua, eis que logo, ó Senhor, tudo conheces. Tu me cercas por detrás e por diante, e puseste sobre mim a tua mão. Tal ciência é para mim maravilhosíssima; tão alta que não a posso atingir. Para onde me irei do teu espírito, ou para onde fugirei da tua face? Se subir ao céu, lá tu estás; se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali estás também. Se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar, até ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá. Se disser: decerto que as trevas me encobrirão; então a noite será luz à roda de mim. Nem ainda as trevas me encobrem de ti; mas a noite resplandece como o dia; as trevas e a luz são para ti a mesma coisa; Pois possuíste meus rins; cobriste-me no ventre de minha mãe. Eu te louvarei, porque de um modo assombroso, e tão maravilhoso fui feito; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem. Os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui feito, e entretecido nas profundezas da terra. Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe; E NO TEU LIVRO TODAS ESTAS COISAS FORAM ESCRITAS; AS QUAIS EM CONTINUAÇÃO FORAM FORMADAS, QUANDO NEM AINDA UMA DELAS HAVIA. E quão precioso me são, ó Deus, os teus pensamentos! Quão grandes são as somas deles! Se as contasse, seriam em maior número do que a areia; quando acordo ainda estou contigo. Ó Deus, tu matarás decerto o ímpio; apartai-vos portanto de mim, homens de sangue. Pois falam malvadamente contra ti; e os teus inimigos tomam o teu nome em vão. Não odeio eu, ó Senhor, aqueles que te odeiam, e não me aflijo por causa dos que se levantam contra ti? Odeio-os com ódio perfeito; tenho-os por inimigos. Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece os meus pensamentos. E vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno.

E Tiago 4:13-16 coloca uma pá de cal sobre qualquer pretensão nossa quanto às certezas do futuro:

Eia agora vós, que dizeis: hoje ou amanhã, iremos a tal cidade, e lá passaremos um ano, e contrataremos, e ganharemos; Digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um tempo, e depois se desvanece. Em lugar do que devíeis dizer: se o Senhor quiser, e se vivermos, faremos isto ou aquilo. Mas agora vos gloriais em vossas presunções; toda a glória tal como esta é maligna.

Se for preciso mais, Ele desenha. Mas você e eu já entendemos. E ainda que não aceitemos, é assim que é. Não sabemos o tamanho da nossa vida. Ele sabe. Só ele sabe. E como a Palavra deixa bem claro, qualquer presunção quanto ao futuro é má. Temos o hoje. E nem do hoje temos total certeza, porque pode ser que hoje seja meu último hoje, sem amanhã, sem aniversário daqui uns dias, sem casamento, sem filhos, netos. Fechada a cortina do meu palco, finda a minha história. O legado estará entregue. Ele já está.

Não fico pensando na morte. Sequer a temo. Penso muito mais no que eu fiz com estes quase 44 anos de vida. Muitas coisas excelentes, com certeza. Algumas péssimas. Tempos incríveis. Também tempos perdidos. Capítulos passados, que não voltam mais. Só existe o dia que se chama hoje, e a cada hoje me cabe escrever mais uma pequena fração do meu legado, mais um tijolinho no Lego da minha vida. A Palavra diz para eu não me inquietar pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo, bastando a cada dia seu próprio mal (ou seu próprio cuidado) (Mateus 6:34). Isto me lembra que não está em mim o poder de viver qualquer coisa além daquelas que cabem no meu hoje, um dia por vez. O que passa disto, é presunção. É maligno. Só a Ele, que é Santo e Eterno, é dado estar em cada dia e lugar, passado, presente ou futuro. Porque Ele é Deus. Nós não.

Tenho um legado hoje. Tenho também minhas impressões sobre o meu legado de hoje. Se eu vier a ter alguns ou muitos hojes futuros, terei com eles o mesmo número de oportunidades para mexer neste legado presente. Para o bem ou para o mal. Cá comigo, tomei a decisão de investir o restante dos hojes que Ele me der, da melhor e mais excelente forma possível. Se hoje for o último, tombar feliz, sabendo que cumpri minha carreira, combati bem, e fui um homem de fé até o fim. Entretanto, se apenas daqui a muitas décadas eu tombar, desejo nesta segunda metade da vida fazer muito, muito, muito mais do que na primeira. Perder tempo algum. Ofender ninguém mais. Tocar positivamente tantas e quantas vidas cruzarem meu caminho. Ser Sal e ser Luz todos os dias da minha vida. É o mais profundo e sincero desejo do meu coração. Minha escolha e decisão. Um dia por vez. Sempre em frente. Firme e constante.

082 PALAVRAS AO VENTO

Uns dois ou três dias atrás fiz algo que há muito tempo abandonei. Numa rede social, após ver a postagem que me chamou a atenção – de temáti...