Certa ocasião eu ouvia uma pessoa falando sobre seu empenho no trabalho. Gabava-se de ser do tipo “Missão dada. Missão cumprida”. Não havia dia, hora ou circunstância que o impedisse de realizar o que lhe fosse ordenado. Quando todos os demais estavam se levantando, certamente ele já estava com metade do expediente cumprido. Só faltou dizer – embora deva ter pensado – que na certa o fez muito melhor do que qualquer outra pessoa faria. Uau! Esse era o cara, heim! Com uma dúzia assim na equipe, como não chegar ao topo? Quem não o quer no seu time? Bem, talvez eu não quisesse. Vamos falar sobre isto.
Eu devo ter uns 37 anos de vida profissional, agora que me aproximo dos 44 de vida. Estranho? Talvez não. Sempre ouvi que a profissão do estudante é estudar. Se é assim, não vejo razão para não considerar as fases iniciais da vida acadêmica como trabalho. O trabalho de uma criança é exatamente este: estudar. O de um adolescente também. Idem para o jovem. E o já mais maduro, que optou por emendar graduação, especialização, mestrado, doutorado e sabe-se-lá-mais-o-quê, para ter um título, cargo ou função bem depois, lá pelos 40 e poucos anos de vida, também teve nos estudos seu trabalho por todo esse longo período.
“Aaaah, mas ele não produziu nada! Não gerou riqueza” e blá, blá, blá. Discordo, claro! Nem tudo se resume a grana, monetização, cifras. Existe trabalho doméstico, o voluntário, arte, sacerdócios, e muitos outros ofícios que não se ligam necessariamente a um salário ou à produção de riquezas materiais, mas nem por isso deixam de ser o digno trabalho de alguém, ou sua missão de vida, ou simplesmente o que a pessoa escolheu fazer. É de se pensar, e eu realmente penso assim, que algumas dessas ocupações sejam até mais belas do que ofícios socialmente destacados, com seus pomposos diplomas na parede. O que dizer então de uma pessoa que abriu mão do mercado de trabalho, para dedicar-se exclusivamente à melhor formação de seus filhos e o estabelecimento de um lar?! Isso não tem preço!
Assim, colocadas essas bases sobre a minha visão do trabalho, insisto que estou nessa jornada já há quase 85% do meu tempo de vida. Gosto de trabalhar. Sempre gostei. Quando meu trabalho era estudar, e eu não sabia disso, realizava-o naturalmente. Era bom aluno e tal, ia bem, uma criança normal. A certa altura, lá pelos 14 anos de idade, fui apresentado à vida adulta. Reprovei na 8ª série. Após um caloroso “Conselho de Classe”, fui aprovado, mas não livrado de uma bela conversa com a Dona Mírian. Algo assim: “Você chegou ao 2º Grau, vai ter que levar as coisas mais a sério. Vou te matricular em dois cursos: de manhã você fará o Educação Geral, que irá te preparar para o vestibular; de noite fará o Técnico de Contabilidade, que te habilitará para uma profissão logo após concluí-lo, caso não opte pela faculdade”. E ponto final.
Aquela quase reprovação marcou uma virada na minha vida profissional de estudante. Pela primeira vez eu me dei conta de que daquilo dependia muita coisa, especialmente meu futuro, a vida real que eu teria. Quando fui reprovado, meu medo era tomar uma surra, ficar de castigo, ser tachado de burro. Mas ao ser aprovado pelo Conselho e depois confrontado por minha mãe, entendi que aqueles pequenos medos não eram nada. Minha vida profissional já havia começado faz tempo, sem eu saber, e por um pequeno período eu a levei com certo desleixo, colhendo os primeiros frutos ruins. Então instalou-se em mim uma nova consciência do que estava acontecendo. Eu precisava levar a sério, estudar, porque todo mundo estava estudando e a boca do funil é estreita.
E como eu mudei! Completei o 1º ano, tanto do Educação Geral como também na Contabilidade, sendo um dos melhores alunos da escola. Em Matemática, onde não consegui média para passar direto na 8ª série, fiquei com médias 98,75 e 95,00 no ano seguinte. Interessante como a mágica acontece, quando a realidade da vida bate à porta. E assim seguiram-se excelentes desempenhos em todo o restante do Segundo Grau – prossegui apenas com o Educação Geral –, aprovações em vários vestibulares, continuei sendo um ótimo trabalhador-estudante durante a faculdade, fase concomitante aos primeiros registros em CTPS, e enfim a aprovação no concurso que me colocou no cargo público que exerço há quase 22 anos (exatamente metade do meu tempo de vida). Sem entrar em detalhes, anos esses em que realizei coisas muito legais, projetos, premiações, conheci o Brasil e órgãos variados do Poder Judiciário, mesmo eu ocupando um cargo modesto em sua estrutura.
Falei tudo isso para contextualizar que fui assertivo e dedicado em toda a minha vida profissional, seja na fase estudantil, como também nos primeiros trabalhos mais curtos, e enfim na profissão que hoje exerço e que provavelmente irá comigo até uma longínqua aposentadoria. E sim, em muitos momentos dessa longa jornada, fui também o cara “Missão dada. Missão cumprida”, aquele que não escolhia dia, hora ou circunstância. Sangue nos olhos 100%! O assessor que dava jeito pra tudo. Isso me levou, como disse, a participar de projetos especiais, algum retorno financeiro por esses esforços, viagens e vivências. Dava para tocar naquele ritmo por mais um bom tempo, só que um dia eu percebi algo.
Fiz uma conta rápida e grosseira sobre quanto a mais eu já teria trabalhado, além daquilo que era meu estrito dever funcional. Não consigo precisar exatamente quando fiz isso, mas digamos que eu já tivesse uns 14 anos de trabalho na Justiça Federal. Àquela altura, considerando-se 200 dias de trabalho por ano, com 1 hora extra por dia em 14 anos, cheguei ao fabuloso número de 2800 horas trabalhadas a mais no período. Ou exatos 2 anos extras. De graça. Doados. Na faixa. 0800. Putz!!!
Claro que em muitos momentos houve efetiva necessidade de trabalhar 1 hora a mais por dia. Também houve aqueles em que precisei tocar numa jornada de 15, 16 horas. Aconteceu até uma ocasião de eu virar 36 horas seguidas para deixar tudo pronto para um evento importante. Foram pontos fora da curva, e em situações diferenciadas a gente faz uma entrega diferenciada. Mas houve também dias em que não era preciso. Fiquei a mais para dar conta de um relatório de processos que podia perfeitamente ser zerado no dia seguinte. Mas eu queria zerar todo dia, mesmo isso me custando vida lá fora (sem que eu percebesse). E assim os 14 anos se passaram.
Quando me dei conta dessa insanidade, com o número palpável de 2 anos de vida pessoal trocados pelo status de ser “o cara diferenciado no trabalho”, rolou um espanto. Sei lá, digamos que 1 desses 2 anos tivesse sido mesmo necessário, ou mesmo que tenha valido muito a pena, pelo retorno financeiro que veio como contrapartida, ou pelas experiências incríveis pelo Brasil, etc. Ainda assim, eu havia dado pelo menos 1 ano da minha vida particular ao trabalho, sem nada, nada, nada de contrapartida que justificasse. Foi uma constatação triste. Não rolou crise. Eu raramente tenho crises. Mas fiquei espantado por ter feito isso sem perceber o alto preço pessoal.
Posicionei-me no mesmo instante. A partir daquele dia, eu faria o meu expediente regulamentar. Começaria a dizer não para alguns convites. Levaria uma vida profissional mais normal, colocando limites e tendo tempo para todas as outras áreas. Não era possível, àquela altura, imaginar cada coisa que deixei de fazer em cada um daqueles 2800 dias passados. Quantos relacionamentos não tive. Quantos KM deixei de praticar minha corrida. Quantas páginas não li. Quanto tempo com Deus eu deixei de ter. Ou apenas descansado. Tudo passado. Lamentar não mudava nada. Mudava então a postura.
A partir daquele fatídico dia da conta rápida e grosseira, eu mudei isso. Era preciso. E era o certo. Passei a cumprir meu horário e finalizar o trabalho no horário estipulado, sem culpa. “Amanhã tem mais”. “Eu retomo de onde parei”. Basta a cada dia o seu próprio mal. Há tempo para todas as coisas. Princípios – ou regras da vida – que eu estava negligenciando, apenas para ser o cara top das galáxias no trabalho. Só que havia vida do outro lado do balcão, vida que eu estava perdendo. E por tempo demais. Só que não mais.
Tempo para todas as coisas, minha 4ª regrinha do Pequeno Decálogo de um Cara Sistemático. Espero que este texto o/a leve a refletir sobre como tem lidado com isso.
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