sábado, 31 de julho de 2021

047 POSICIONAMENTO

Esta palavra do Senhor veio a mim: Filho do homem, se uma nação pecar contra mim por infidelidade, estenderei contra ela o meu braço para cortar o seu sustento, enviar fome sobre ela e exterminar seus homens e animais. Mesmo que estes três homens – Noé, Daniel e Jó – estivessem nela, por sua retidão eles só poderiam livrar a si mesmos. Palavra do Soberano, o Senhor. Ou, se eu enviar animais selvagens para aquela nação e eles a deixarem sem filhos e ela for abandonada de tal forma que ninguém passe por ela com medo dos animais, juro pela minha vida, palavra do Soberano, o Senhor, mesmo que aqueles três homens estivessem nela, eles não poderiam livrar os seus próprios filhos ou filhas. Só a si mesmos livrariam, e a nação seria arrasada. Ou, se eu trouxer a espada contra aquela nação e disser: Que a espada passe por toda esta terra, e eu exterminar dela os homens e os animais, juro pela minha vida, palavra do Soberano, o Senhor, mesmo que aqueles três homens estivessem nela, eles não poderiam livrar seus próprios filhos ou filhas. Somente eles se livrariam. Ou, se eu enviar uma peste contra aquela terra e despejar sobre ela a minha ira derramando sangue, exterminando seus homens e seus animais, juro pela minha vida, palavra do Soberano, o Senhor, mesmo que Noé, Daniel e Jó estivessem nela, eles não poderiam livrar seus filhos e suas filhas. Por sua justiça só poderiam livrar a si mesmos. (Ezequiel 14:12-20)

Em minha jornada de aprendizado sobre as coisas do Reino, o profeta Daniel apareceu em três momentos bem distintos, meio que acompanhando meu crescimento natural. Em minha infância, tive notícia de sua existência. Na juventude, meu primeiro Amor por Cristo foi influenciado por sua vida piedosa. Na maturidade, quando comecei a me aprofundar nos estudos da Palavra, descobri que Daniel não era mencionado apenas no livro que leva seu nome, mas também no texto acima transcrito. Falemos, pois, um pouco desses três momentos.

No escrito 033 PALAVRAS, eu menciono aquele primeiro contato com Daniel: “Àquela altura da vida, adolescente, eu tinha lido alguns livros inteiros da Bíblia. Certamente com muita atenção Atos, Jonas e Daniel, porque havíamos participado uns anos antes, os jovens da igreja, de uma competição de perguntas e respostas. Com 10, 11 anos de idade, eu estava nessa. Praticamente decoramos os livros inteiros, todos os detalhes. E justo a menor igreja do presbitério, aquela com menos membros, venceu. Individualmente, contribuí bastante naquela ocasião. Tempos em que eu ainda tinha uma boa memória”.

Então eu ali, do “alto” dos meus 10 anos, lendo e relendo o livro de Daniel, uma vez após a outra, imaginando todas as perguntas possíveis que poderiam ser feitas na competição. O fato de terem sido levados cativos; os manjares do rei e a recusa de Daniel e seus três amigos em consumi-los; os novos nomes que receberam na Babilônia; as revelações e interpretações dos sonhos de Nabucodonosor; a colocação de Daniel como um governante importante em terra estrangeira; o sonho da grande árvore; os sete tempos de Nabucodonosor em meio às feras do campo; os amigos de Daniel na fornalha; o quarto homem em meio ao fogo; a fidelidade de Daniel em sua vida de oração e clamores ao Senhor; a interpretação da escrita na parede, vista pelo rei Belsazar; a noite passada em meio aos leões, já nos tempos de Dario. Tudo isso nos capítulos 1 a 6 do livro, parte mais focada em fatos ocorridos naqueles idos de 605 a 539 a.C., aproximadamente. Daniel tornou-se, desde logo, um dos meus personagens bíblicos favoritos, ladeado por José e Davi.

Vida que segue, e uns 5 ou 6 anos depois eu volto a ter a figura de Daniel bem presente no meu dia a dia. Escrito 032 ON THE ROCK: “Então pense: 1991. O disco do momento de Petra era Beyond Belief, considerado até hoje o melhor álbum da banda; Whitecross com In The Kingdom; Oficina G3 com Nada é tão Novo, Nada é tão Velho; Resgate com Vida, Jesus & Rock´n´Roll”. Então chega 1993, e com ele uma “bomba” na minha vida: NOVOS RUMOS, segundo álbum da Banda Resgate. Faixa número 1: DANIEL.

Pense! O carinha de 16 anos, totalmente apaixonado por Cristo, de repente se depara com aquela música incrível, que tocava sem parar no DVD player:

SE PROSTRAR TODO DIA

E PROVAR SER FIEL

SER LANÇADO NA COVA

SAIR ILESO COMO DANIEL

Meu segundo momento com Daniel ocorreu numa das fases mais lindas da minha vida. Eu queria ser como ele. Prostrar-me todos os dias e ser fiel a Deus. Horas e horas investidas na Palavra, onde eu sabia que conheceria mais do meu Senhor. Orando sempre. As lutas naturais da adolescência (entenda-se: hormônios a mil rs) e vamos que vamos. Que tempo gostoso de lembrar.

Vida seguindo, então lá pelos meus trinta e poucos anos – não consigo precisar exatamente o terceiro momento – numa das minhas leituras bíblicas eu me dou conta dos versos da Bíblia que abrem este escrito. “Caraaaca, que massa! Noé, Daniel e Jó aparecem no livro de Ezequiel!” Eu seguramente tinha lido aquele texto algumas vezes, mas sabe como é... nem sempre os olhos estão atentos aos detalhes e às riquezas da Palavra. Certamente, porque em algumas leituras foi só desatenção mesmo, e com certeza noutras eu estava mais focado em cumprir a meta diária de capítulos lidos. Até que chega um tempo em que você se desliga de metas e performances, entende que mais importante do que ostentar “X mil” páginas lidas por ano, é saber que aprendeu algo de verdade; ter a convicção de que a Palavra entrou em você e gerou vida. Eu estava nesse momento, quando do meu terceiro tempo com Daniel.


Daniel. O que falar de Daniel?

O que teria visto Deus na vida dele, de tão especial, que chamou a atenção do Senhor da Glória? Afinal, não é pouca coisa o que foi escrito no livro de Ezequiel. Deus dizendo que em uma nação inteira não encontrava RETIDÃO que se igualasse aos modos de viver daqueles três homens. Homens que viveram em períodos bem distanciados uns dos outros. Noé, segundo algumas estimativas de cronologia bíblica, por volta de 2500 a.C; Jó, 1900 a. C; Daniel em 500 e poucos anos a. C. Os mais retos e justos de suas gerações, seria possível dizer.

Mas voltando à pergunta, ouso dizer uma resposta: O QUE TANTO CHAMOU A ATENÇÃO DE DEUS EM DANIEL FOI SUA ATITUDE PERMANENTE E INTRANSIGENTE DE ACHEGAR-SE AO SENHOR; SEU POSICIONAMENTO.

Sujeitai-vos, pois, a Deus, resisti ao diabo, e ele fugirá de vós. CHEGAI-VOS A DEUS, E ELE SE CHEGARÁ A VÓS. Alimpai as mãos, pecadores; e, vós de duplo ânimo, purificai os corações. Senti as vossas misérias, e lamentai e chorai; converta-se o vosso riso em pranto, e o vosso gozo em tristeza. Humilhai-vos perante o Senhor, e ele vos exaltará (Tiago 4:7-10)

Esta CHAVE importantíssima para a vida cristã eu aprendi uns anos atrás numa ministração do Pr. Luciano Subirá. Aliás, mais um texto que a gente leu trocentas vezes na vida, estava sempre ali, mas faltava enxergar o óbvio: DEUS NÃO FAZ ACEPÇÃO DE PESSOAS, MAS FAZ ACEPÇÃO DE ATITUDES. “Nossa, parece que fulano é o queridinho de Deus! Em tudo ele é abençoado”. Hummm... será? Vamos olhar direito. Seguramente (sim, seguramente!) encontraremos uma atitude intencional de aproximação com o Senhor. Deus aprecia essa atitude. Deus distingue essa atitude. E isto é justo, carrega um princípio.

Daniel viveu assim.

Lá no capítulo primeiro de Daniel, que menciona a tomada do reino de Judá por Nabucodonosor, o envio dos tesouros e utensílios do templo do Senhor para um templo pagão em Sinear e, por fim, a leva de jovens da nobreza israelita para serem alimentados e instruídos na Babilônia, desde o primeiro momento vemos o nítido posicionamento de Daniel e de seus três grandes amigos, Hananias, Misael e Asarias.

Daniel, contudo, decidiu não se tornar impuro com a comida e com o vinho do rei, e pediu ao chefe dos oficiais permissão para se abster deles. (Daniel 1:8)

Imagine o contexto. Um jovem, que embora fosse da nobreza israelita – ou seja, deveria conhecer algum conforto e abastança material –, de repente se vê levado para uma nação mais poderosa que a sua. Via de regra, a história dos povos mostra que isso nunca era bom. Essas pessoas normalmente eram escravizadas e passavam um restante de vida terrível. Mas olhe só, Daniel e seus amigos não foram levados para serem destruídos em minas ou trabalhos forçados. Bem ao contrário: “Depois o rei ordenou a Aspenaz, o chefe dos oficiais de sua corte, que trouxesse alguns dos israelitas da família real e da nobreza: jovens sem defeito físico, de boa aparência, cultos, inteligentes, que dominassem os vários campos do conhecimento e fossem capacitados para servir no palácio do rei. Ele deveria ensinar-lhes a língua e a literatura dos babilônios. De sua própria mesa, o rei designou-lhes uma porção diária de comida e de vinho. Eles receberiam um treinamento durante três anos e depois disso passariam a servir o rei” (Daniel 1:3-5)

Que proposta, heim!

Imagine você, que já poderia se considerar de uma elite em sua terra, sendo levado para um país mais rico e poderoso que o seu, para 3 anos de acesso a tudo de melhor que por lá houvesse, em termos de ciência, bens materiais, alimentos... e no final ainda ter uma bela vaga bem perto do manda-chuva top das galáxias. Quem não quer?

Daniel não quis.

Normalmente um jovem seria seduzido por todo aquele PACOTE DE BENEFÍCIOS BABILÔNICO. Galera, repito! Ele não estava sendo levado para quebrar pedras ou cavar minas sujas nas profundezas da terra. Não, não. A ele foi proposto ter acesso a tudo de bom e do melhor que o mundo tinha naqueles idos de 600 a.C. Mas ele não quis. Mesmo sendo jovem, não quis. Tenho certeza de que aquele pacote continha muito ouro, muita prata, acesso a lugares incríveis, documentos raros, quem sabe alguns prazeres físicos, seguramente barriga cheia com tudo de bom o de melhor, vinhos da adega do próprio rei. Não era pouco. Quem não iria querer?

Creio que Daniel não quis porque ele sabia, mesmo muito jovem, que aquelas coisas com aparência boa não eram para ele. Eram impuras. Não fosse assim, então porque estaria escrito que ele “decidiu não se tornar impuro com...”. Ele sabia disso, porque conhecia o seu Deus, suas leis, tudo aquilo que seu povo deveria seguir. A armadilha não o pegou. A sedução das riquezas, do conhecimento mundano, dos prazeres e sabores babilônicos, não o pegaram desprevenido. Ele sabia quem era. Ali não era seu lugar. Aquelas coisas não tinham a ver com ele. Estava em Sinear contra sua vontade. Escravizado para ter acesso a tudo de bom e do melhor. Mas nem tudo que reluz é bom.

Não! Obrigado.

Daniel estava muito bem posicionado. Ele DECIDIU não se tornar impuro. Não foi por medo do inferno, ou só porque estava escrito na Lei de Moisés. Ele conhecia o seu Deus, tinha relacionamento com Ele. Achegou-se. E assim atraiu a Presença e a benção para perto de si. “E Deus fez com que o homem fosse bondoso para com Daniel e tivesse a simpatia por ele” (Daniel 1:9). Não, ele não era um queridinho de Deus. Porque o Senhor não faz acepção de pessoas, mas seguramente distinguiu Daniel e seus amigos de todos os outros, porque eles decidiram ser fiéis.

Fato isolado? Não, não. A aventura dos nobres israelitas na Babilônia estava apenas começando. Anos depois, viriam o confronto sobre o culto à estátua de ouro de Nabucodonosor, e o decreto de Dario para que ninguém orasse a qualquer outro deus, exceto ao próprio rei. O sarrafo foi sendo colocado mais a mais alto. Num primeiro momento, “apenas” comer e ter acesso a coisas que os tornariam impuros. Depois, colocados diante de morte certa, se não adorassem a uma imagem e, enfim, prestassem culto a um mero homem, que se colocava como deus.

Não! Obrigado. Preferimos morrer.

Sadraque, Mesaque e Abede-Nego responderam ao rei: ‘Ó Nabucodonosor, não precisamos defender-nos diante de ti. Se formos atirados na fornalha em chamas, o Deus a quem prestamos culto pode livrar-nos, e ele nos livrará das tuas mãos. Mas, se ele não nos livrar, saiba, ó rei, que não prestaremos culto aos teus deuses nem adoraremos a imagem de ouro que mandaste erguer. (Daniel 3:16-18)

Quando Daniel soube que o decreto tinha sido publicado, foi para casa, para o seu quarto, no andar de cima, cujas janelas davam para Jerusalém e ali fez o que costumava fazer: três vezes por dia ele se ajoelhava e orava, agradecendo ao seu Deus. (Daniel 6:10)

Que homens admiráveis! Que inspiração.

 

Se prostrar todo dia, e prova ser fiel. Ser lançado na cova, sair ileso como Daniel...


Eu “garrei” um amor pelo exemplo daquele jovem, que quis me tornar como ele. Infelizmente, não consegui. Tropecei muitas vezes. Diferentemente do relato sobre a vida de Daniel, em cujas linhas não encontramos uma única palavra de desabono, eu tive minhas fases ruins. Desobediência. Infidelidade. Vida de chiqueiro (escrito 018 SEMPRE NA CASA DO PAI). Mas:


As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; novas são a cada manhã; grande é a tua fidelidade. (Lamentações 3:22-23)


Quisera eu ter vivido uma vida irrepreensível como a de Daniel, ao ponto de ser dito de mim, pelo Senhor da Glória, que Ele não via retidão igual em toda a nação. De Daniel não foi dito isso por ser um queridinho, mas porque ele mereceu. Ele foi distinguido por sua atitude radical e intransigente de obediência e amor ao seu Deus. Veio sua recompensa. Um reconhecimento do Alto por seu posicionamento.


Não por outra razão, é dito de:


Abraão ter sido o Pai da Fé;


Moisés, o maior Profeta que existiu;


Davi, um homem segundo o coração de Deus;


Elias, subindo para o Pai numa carruagem de fogo;


João Batista, o maior entre os nascidos de mulher.


Estou certo de que não nasceram com carimbo de queridinhos do Pai. Não, não. Eles se distinguiram na multidão, por suas atitudes e posicionamentos. Eles se achegaram a Deus, cada um no seu tempo, cada um a seu modo, e o Senhor se achegou a eles.


Seriam apenas histórias para nos inspirar? Poderíamos alcançar lugares assim? Ou essas expressões diferenciadas teriam ficado num passado distante? Poderia um cara com uma vida pregressa de chiqueiro ouvir, agora, coisas maravilhosas do Senhor a seu respeito?


Não crer nisso, seria desgraçadamente desconsiderar a eficácia do pleno perdão que há no sangue de Jesus. Isso mesmo. Deus não nos perdoa com um (*) asterisco para registro de coisas feias que sempre estarão ali para nos acusar. Ele perdoa mesmo, se do lado de cá há arrependimento. Seu perdão “zera” tudo. Vestes brancas. Sandália nos pés. Anel de autoridade no dedo. Cabeça levantada. Qualquer coisa diferente disso, sinto muito, mas nada tem a ver com o poder que há no sangue de Jesus.


Vez por outra, se me pego acreditando que não são para mim os lugares incríveis que foram pisados por aqueles homens de Deus, que vieram antes de mim, trato de descartar este sofisma o mais rapidamente possível. Por mim mesmo, não piso lugar nenhum. Por Ele e para Ele, que lugar seria elevado demais para os meus pés? Eis outra chave: NÃO É POR NÓS, MAS APESAR DE NÓS. TUDO TEM A VER COM ELE.

 

Eu quero andar

Eu quero ir

Nada pode impedir esses meus pés

 

Eu quero ver

E percorrer

Um território eu vou sentir sob os meus pés

 

Não só por humildade que meus pés Ele lavou

Foi uma marca e uma cura que me empurra

E eu digo: Sai, que agora eu quero andar!!!

Sai, que agora eu quero andar!

 

Eu vou entrar

Eu vou sair

Eu esmaguei uma serpente com os meus pés

 

Agora eu sei

Que vou subir

Ele subiu e eu vi a planta dos seus pés

 

Não só por humildade que meus pés Ele lavou

Foi uma marca e uma cura que me empurra

E eu digo: Sai, que agora eu quero andar!!!

Sai, que agora eu quero andar!

 

A coisa que eu mais gosto na minha vida é andar pra Jesus

Eu posso ir pra África

Eu posso ir pra Portugal

Eu posso ir pra qualquer lugar

Mas eu quero andar pra Jesus!

Eu quero andar no meio do povo

Eu quero glorificar a Deus

Eu quero ser cheio do Espírito Santo

Eu quero ser um homem de Deus

Eu tenho liberdade para caminhar!

Ele está destruindo as obras do diabo através dos seus pés que ficaram aqui na terra

São os pés apostólicos da sua igreja!

E a obra dele vai ser realizada com poder e grande glória!!!

 

Não só por humildade que meus pés Ele lavou

Foi uma marca e uma cura que me empurra

E eu digo: Sai, que agora eu quero andar!!!

Sai, que agora eu quero andar!


Meus pés. Resgate. 2005-2006, ano de gravação do álbum “Até eu Envelhecer”.


Mais uma vez minha banda nacional favorita me presenteando os ouvidos com uma mensagem libertadora: FOI UMA MARCA E UMA CURA QUE ME EMPURA... SAI, QUE AGORA EU QUERO ANDAR!


É possível, sim.


Andar na retidão de Daniel.


Andar na fé de Abraão.


Andar no profético de Moisés.


Andar sendo um homem segundo o coração de Deus, como Davi.


Andar e subir em carruagens de fogo, como Elias.


Andar preparando o caminho para a chegada do Messias, como João Batista.


Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas, porque eu vou para meu Pai. (João 14:12)


Sem queridinhos. Homens como nós, mas muito, muito posicionados.


Elias era homem sujeito às mesmas paixões que nós e, orando, pediu que não chovesse e, por três anos e seis meses, não choveu sobre a terra. (Tiago 5:17)


Basta achegar-se a Deus. Posicionar-se. Radicalizar mesmo. Nesta história não prosperam os meia-sola.


Quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha. (Mateus 12:30)


Tudo ou nada, como eu disse na parte final do escrito 045 LETRINHAS PEQUENAS.


“Nossa, o Fer anda tão radical ultimamente. Que bicho será que o mordeu?”

 

Bora andar comigo, que você logo estará neste acelero também. Posicionado! Sai, que agora eu quero andar.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

046 OS IMPROVÁVEIS

Uma das coisas que sempre me chamou a atenção na Palavra foi o fato de Deus utilizar-se de pessoas fora do padrão para cumprir seus propósitos. Pessoas improváveis.

Farei de você um grande povo, e o abençoarei. Tornarei famoso o seu nome, e você será uma bênção. Abençoarei os que o abençoarem e amaldiçoarei os que o amaldiçoarem; e por meio de você todos os povos da terra serão abençoados. (Gênesis 12:2-3)

Tornarei a sua descendência tão numerosa como o pó da terra. Se for possível contar o pó da terra, também se poderá contar a sua descendência. Percorra esta terra de alto a baixo, de um lado a outro, porque eu a darei a você. (Gênesis 13:16-17)

Levando-o para fora da tenda, disse-lhe: ‘Olhe para o céu e conte as estrelas, se é que pode contá-las’. E prosseguiu: ‘Assim será a sua descendência. (Gênesis 15:5)

Estabelecerei a minha aliança entre mim e você e multiplicarei muitíssimo a sua descendência. (...) De minha parte, esta é a minha aliança com você. Você será o pai de muitas nações. (...) Eu o tornarei extremamente prolífero; de você farei nações e de você procederão reis. Estabelecerei a minha aliança como aliança eterna entre mim e você e os seus futuros descendentes, para ser o seu Deus e o Deus dos seus descendentes. (Gênesis 17:2, 4 e 6-7)

Eu a abençoarei e também por meio dela darei a você um filho. Sim, eu a abençoarei e dela procederão nações e reis de povos. (Gênesis 17:16)

Passaram-se 25 anos desde a primeira promessa de Deus a Abrão, registrada no capítulo 12, até a promessa feita à renomeada Sara, do capítulo 17. Pouco tempo atrás, Abraão chamava-se Abrão, e teve seu nome mudado. E numa das várias renovações da aliança, desta vez mencionando sua esposa, o nome dela passou de Sarai para Sara. Pai de muitas nações. Princesa. Seus novos nomes.

Quando lemos as histórias da Bíblia, por já sabermos os desfechos, meio que nos acostumamos. Deixamos de notar o espetacular de Deus. Mas imagine que você estivesse tendo contato pela primeira vez com a história de um casal chamado Abrão e Sarai. Por iniciativa de Deus, eles passam a ouvir promessas. Uma após outra, sempre com mais detalhes, e renovações, confirmações, até que finalmente você chega aos versos 1 e 2 do capítulo 21 de Gênesis:

O Senhor foi bondoso com Sara, como lhe dissera, e fez por ela o que prometera. Sara engravidou e deu um filho a Abraão em sua velhice, na época fixada por Deus em sua promessa.

Bem, aí você dá aquela franzida na testa, para tudo, e se vê surpreendido por uma palavrinha meio desconectada do quadro que vinha desenhando em sua mente até então: “VELHICE? Como assim? Eles são idosos?”

Pois é. Como eu disse, por conhecermos as histórias completas, nos acostumamos.

Seja sincero. Uma história como esta, com aquela primeira promessa no capítulo 12, e seu lindo desfecho no capítulo 21, se os vários textos não dissessem as idades dos seus personagens (omiti de propósito), por alguma razão você teria feito o filminho da história em sua mente com um casal de idosos? Pois é, pois é. Mas aí você descobre que tudo começou quando ele tinha 75, e se consumou já como um homem centenário. Papai aos 100 anos. Mamãe aos 90 anos.

Que história, né?

Hipoteticamente, sai hoje uma manchete nos jornais de que um casal moderno, destes nossos dias do século XXI, está tentando ter um filho já faz 25 anos. Hummm... rola a boa e velha franzida na testa. Você se dá ao trabalho de continuar lendo a matéria e descobre que eles começaram as tentativas quando tinham 75 e 65 anos, respectivamente. Faz as contas e hummm... mais franzida. “Para! Só pode ser brincadeira. Um homem de 100 e uma mulher de 90 brincando de serem papai e mamãe?! São loucos, só pode”.

Pois é, pois é.

Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias, e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes; e Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são; para que nenhuma carne se glorie perante ele. (1 Coríntios 1:27-29)

É assim que Deus faz. Para entregar uma promessa fundamental, aquela que implicava no estabelecimento de SEU POVO e, no longo alcance, a extensão de seu amor para todas as famílias da Terra, o Senhor escala um casal de improváveis velhinhos.


Vários anos se passam. Aquela promessa inicial se cumpre em Isaque, que também gera filhos com sua esposa. O caçula, Jacó – cujo nome significa “aquele que age traiçoeiramente” – fazendo jus ao nome, obtém para si as bênçãos da primogenitura. Em nossa cultura atual, na qual o fato de ser o primeiro ou o décimo filho pouco importam, pois todos terão rigorosamente os mesmos direitos, isso não nos gera espanto. Mas nos idos de aproximadamente 1800 a.C., não era bem assim. O primogênito tinha porção dobrada sobre todos os demais herdeiros. Materialmente falando e espiritualmente falando, as bênçãos proferidas pelo patriarca eram quase todas para o “primeirão” da turma.

Eu o constituí senhor sobre você, e a todos os seus parentes tornei servo dele; a ele supri de cereal e de vinho. Que é que eu poderia fazer por você, meu filho? (Gênesis 27:37)

Deveriam ser as palavras de Isaque ao filho mais velho, mas, na contramão da lógica da época, este ficou em segundo plano. Sim, sim, claro que houve aquela história de o mais novo ter ludibriado o pai, fazendo-se passar por Esaú, mas era apenas o caçula sendo ele mesmo, o enganador que agia traiçoeiramente. Tomou para si todas as bênçãos da primogenitura. Outro improvável.

Ué, mas onde estava Deus nisso tudo? Ele não viu a malandragem de Jacó para com seu pai? Por que Ele permitiu que algo tão ardiloso prosperasse? Coitado de Esaú!

Calma, calma. Muita calma nessa hora.

Certa vez, quando Jacó preparava um ensopado, Esaú chegou faminto, voltando do campo, e pediu-lhe: ‘Dê-me um pouco desse ensopado vermelho aí. Estou faminto!’ Por isso também foi chamado de Edom. Respondeu-lhe Jacó: ‘Venda-me primeiro o seu direito de filho mais velho’. Disse Esaú: ‘Estou quase morrendo. De que me vale esse direito?’ Jacó, porém, insistiu: ‘Jure primeiro’. Ele fez um juramento, vendendo o seu direito de filho mais velho a Jacó. Então Jacó serviu a Esaú pão com ensopado de lentilhas. Ele comeu e bebeu, levantou-se e se foi. Assim Esaú desprezou o seu direito de filho mais velho. (Gênesis 25:29-34)

Bora então repetir a pergunta: Onde estava Deus nisso tudo?

E formular uma nova: Coitado de Esaú?

Nada como parar um pouco mais no texto e falar com ele, né. E deixa o texto falar.

Jacó, o traiçoeiro, não roubou a primogenitura do irmão. Se o fizesse, estou certo de que o Senhor não o teria permitido, e jamais abençoado. O que ele fez, foi comprá-la. E o que seu irmão fez, foi desprezá-la. Um acordo. Um negócio. Ambos estavam cientes dos termos. Disseram SIM. Tudo certo. Não houve injustiça. Pão, ensopado e quem sabe um pouco de vinho, em troca das maravilhosas promessas feitas por Deus desde aquele início de conversa com o avô deles. Estou certo de que Isaque sabia das promessas, bem como seus filhos gêmeos. Um levou a sério. Outro não deu bola. Mas... favas contadas. Negócio fechado. O improvável caçula ficou com tudo.


Segue a história. Um dos muitos filhos de Jacó (renomeado para Israel; significado: “ele luta com Deus”), José foi outro improvável com história incrível. Os capítulos 37 a 50 de Gênesis contam todos os detalhes. O penúltimo filho, queridinho do pai, odiado por seus irmãos mais velhos. Numa saga de aproximadamente 95 anos, desde seus primeiros sonhos na juventude, até suas últimas palavras no Egito, ele vai de um menino sonhador até o segundo mais alto posto na maior nação de então no mundo. Também por conhecermos a história de antemão, lemos trivialmente. Mas não. Não foi nada trivial ou básico. Novamente, Deus utilizando-se das coisas fracas para mostrar às fortes que é do jeito dEle. José, mais um na longa lista de improváveis.


Moisés, o hebreu adotado pela filha do Faraó, criado à base de leite de pera no palácio, vem a tornar-se um homicida. Depois, um exilado, fugitivo da justiça. Longos quarenta anos na terra de Midiã. Aproximadamente 100 anos haviam se passado desde a morte de José, para vermos Deus levantar outro improvável para cumprimento de seus planos. Com seu passado enterrado na areia, o agora idoso Moisés vai tocando sua vida (80 aninhos). Casa-se. Gera um filho, cujo nome (Gerson) diz muito sobre questões mal resolvidas no íntimo do pai: “sou imigrante em terra estrangeira”. Moisés foi tocando em frente, mas ele sabia que lá no Egito estava sua raiz, seu povo. Deus também sabia disso. E o que Ele não saberia? Vem a sarça ardente, os sinais e maravilhas (escrito 041), a Páscoa, a saída extraordinária do Egito, 40 anos no deserto, o Sinai, as Tábuas da Lei, o Tabernáculo (escrito 044), o maná, a nuvem de dia, a coluna de fogo de noite, e mais e mais e mais. Eita! A vida de Moisés não foi nada básica! Mas também conhecemos a história de antemão, por isso lemos como se tivesse sido tão normal. Não foi, não. Foi incrível! E mais incrível ainda, por Deus ter feito tudo aquilo com um homicida, auto-exilado, octagenário, ruim de fala, cheio de desculpas para fugir da missão... vindo a tornar-se o maior profeta de Israel em todos os tempos.

Moisés tinha cento e vinte anos de idade quando morreu; todavia, nem os seus olhos nem o seu vigor tinham se enfraquecido. Os israelitas choraram Moisés nas campinas de Moabe durante trinta dias, até passar o período de pranto e luto. Em Israel nunca mais se levantou profeta como Moisés, a quem o Senhor conheceu face a face, e que fez todos aqueles sinais e maravilhas que o Senhor o tinha enviado para fazer no Egito, contra o faraó, contra todos os seus servos e contra toda a terra. Pois ninguém jamais mostrou tamanho poder como Moisés nem executou os feitos temíveis que Moisés realizou aos olhos de todo o Israel. (Deuteronômio 34:7-12)


Parafraseando Hebreus 11:32: “E que mais direi? Faltar-me-ia o tempo contando de”... Raabe, Gideão, Rute, Davi, a menina serva de Naamã, Daniel, Jonas, João Batista, os Doze, a mulher samaritana no poço, o endemoninhado gadareno, Pedro, Saulo (renomeado para Paulo), eu, você...

Mais do que chamar minha atenção, ENCANTA-ME o fato de Deus utilizar-se de pessoas improváveis para cumprir seus propósitos. Em histórias idealmente perfeitas, filmadas numa visão humana, as coisas incríveis que encontramos nas histórias da Bíblia só teriam personagens lindos e virtuosos, jovens (sempre), sem rastros complicados no passado. E sem Deus no enredo, por consequência.

É assim, porque a visão humanista predomina por aí. O que se puder fazer para colar a ideia de um mundo funcionando sem Deus, será feito. “O homem é a medida de todas as coisas”; “Acredite em seu potencial”; “Você quer, você pode”. Isso soa como veludo nos ouvidos, mas não passa de uma doce mentira, com o mau e velho cheiro de enxofre.

Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. (João 15:5)

Somos todos improváveis. Eu sou um, por excelência. De mim mesmo, o que eu poderia apresentar como credenciais ao Senhor? A resposta é simples: NADA. Entretanto, Ele me quer. Ele se importa. Ele me direciona para coisas que quer fazer. Mas nada disso é por causa de mim. É tudo apesar de mim. Sem o Sangue do Cordeiro nos umbrais das minhas portas, seu Justo Juízo chegaria e me encontraria inabilitado. Eu seria o primeiro primogênito na fila dos imolados. Mas glória a Deus que não! Cristo vive em mim.

Finalizo este escrito com minha porção favorita das Escrituras Sagradas:

Quem deu crédito à nossa pregação? E a quem se manifestou o braço do Senhor? Porque foi subindo como renovo perante ele, e como raiz de uma terra seca; não tinha beleza nem formosura e, olhando nós para ele, não havia boa aparência nele, para que o desejássemos. Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores, e experimentado nos trabalhos; e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum. Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós. Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca. Da opressão e do juízo foi tirado; e quem contará o tempo da sua vida? Porquanto foi cortado da terra dos viventes; pela transgressão do meu povo ele foi atingido. E puseram a sua sepultura entre os ímpios, e com o rico na sua morte; ainda que nunca cometeu injustiça, nem houve engano na sua boca. Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do Senhor prosperará na sua mão. Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento O MEU SERVO, O JUSTO, JUSTIFICARÁ A MUITOS; porque as iniquidades deles levará sobre si. Por isso lhe darei a parte de muitos, e com os poderosos repartirá ele o despojo; porquanto derramou a sua alma na morte, e foi contado com os transgressores; mas ele levou sobre si os pecados de muitos, e intercedeu pelos transgressores. (Isaías 53, capítulo completo)

Os improváveis.

Quem somos nós para considerar alguém improvável?

Quem somos nós? todos improváveis, que também somos.

A prostituta Raabe, o medroso Gideão, a estrangeira Rute, o sanguinário Davi, a anônima menina serva de Naamã, o radical Daniel, o fujão Jonas, o esquisitão João Batista, os desordenados Doze, a indesejável mulher samaritana no poço, o endemoninhado gadareno, o bipolar Pedro, o perseguidor Saulo (renomeado para Paulo), eu, você...

Todos improváveis. Todos insuficientes. Todos injustos. Justificados pelo único Justo, sem o qual NADA PODEMOS FAZER.

sábado, 24 de julho de 2021

045 LETRINHAS PEQUENAS

Meus irmãos, considerem motivo de grande alegria o fato de PASSAREM POR DIVERSAS PROVAÇÕES, pois vocês sabem que a PROVA da sua fé produz perseverança. E a perseverança deve ter ação completa, a fim de que vocês sejam maduros e íntegros, sem lhes faltar coisa alguma. (Tiago 1:2-4)

Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; NO MUNDO TEREIS AFLIÇÕES, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo. (João 16:33)

Entrai pela PORTA ESTREIRA; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela; e porque estreita é a porta, e APERTADO O CAMINHO que leva à vida, e poucos há que a encontrem. (Mateus 7:13-14)

Porque para mim tenho por certo que as AFLIÇÕES DESTE TEMPO presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada. (Romanos 8:18)

E outros experimentaram ESCÁRNIOS e AÇOITES, e até CADEIAS e PRISÕES. Foram APEDREJADOS, SERRADOS, TENTADOS, MORTOS ao fio da espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, DESAMPARADOS, AFLITOS e MALTRATADOS (dos quais o mundo não era digno), ERRANTES pelos desertos, e montes, e pelas covas e cavernas da terra. E todos estes, tendo tido testemunho pela fé, não alcançaram a promessa, provendo Deus alguma coisa melhor a nosso respeito, para que eles sem nós não fossem aperfeiçoados. (Hebreus 11:36-40)

Recebi dos judeus cinco quarentenas de AÇOITES menos um. Três vezes fui açoitado com varas, uma vez fui APEDREJADO, três vezes sofri NAUFRÁGIO, uma noite e um dia passei no ABISMO; em viagens muitas vezes, em PERIGOS de rios, em perigos de salteadores, em perigos dos da minha nação, em perigos dos gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre os falsos irmãos; em trabalhos e FADIGA, em vigílias muitas vezes, em FOME e SEDE, em JEJUM muitas vezes, em FRIO e NUDEZ. (2 Coríntios 11:24-27)

Porque aquele que quiser salvar a sua vida, PERDÊ-LA-Á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á. (Mateus 16:25)

Ficarei nestes setes textos, apenas. Haveria muitíssimos mais.

Dia de papo sério.

Não que estivéssemos de brincadeira em qualquer um dos escritos anteriores, mas tem alguns temas que queimam no coração. Aí você já leu algumas coisas, viveu um bom tanto da caminhada, meio que entendeu alguns processos, e percebe que algo está fora do lugar. Letrinhas Pequenas para coisas muito sérias.

 

Textos como os acima, e muitíssimos outros semelhantes, são o que eu chamaria hoje de as “cláusulas em letrinhas pequenas no contrato para seguir a Jesus”. Estranho, né?! “Aonde será que o Fer quer chegar com essa conversa? Ah, claro, hoje é sábado, ele pedalou demais, forçou, e não deve estar muito bom das ideias”.

Letrinhas pequenas, colocadas indevidamente no lugar de CAIXA ALTA. Textos como esses deveriam ter destaque, mas não tem sido o que vejo.

Se voltarmos ao escrito 006 SEXTOU, veremos que já no início dessa jornada de letras, eu abordei uma questão muito séria: A MENSAGEM DO ARREPENDIMENTO NÃO MUDOU. João Batista, a Voz que clamou no deserto, aquele que preparou o caminho para o Senhor, e a seguir o próprio Senhor, Jesus, o Cristo, começaram seus ministérios proclamando a mensagem do arrependimento com letras garrafais. Um chamado radical e inequívoco para mudar. Eles não aparecerem com uma proposta suave e embrulhada em papeis brilhosos, falando apenas de promessas e bênçãos, para ganhar as multidões num primeiro momento, e depois, bem depois, ler para eles as letrinhas pequenas do contrato. Não. Foi tudo na lata! Algo assim:

- “Quem fizer essa escolha, deixará tudo para trás. Terá que renunciar aos seus desejos. Tem cruz pesada para tomar nos ombros (diariamente). Perigos de morte serão sua rotina. Vocês ouvirão blasfêmias, mesmo sem merecer. Perseguição? Podem contar com isso... Sim, haverá bênçãos também, perdão, salvação, promessas, e muitas outras coisas maravilhosas – a maioria delas para além desta vida – mas tem no pacote tudo aquilo que eu falei antes. Avaliem bem o preço de me seguir. Comigo é tudo ou nada!”.

Letras grades. Caixa Alta. Negrito. Ninguém entrava enganado no barquinho de Jesus.

Mas hoje, com segurança, eu afirmo que alguma coisa está fora do lugar

 

Ide e apresentai-vos no templo, e dizei ao povo TODAS AS PALAVRAS desta vida. (Atos 5:20)

Sim, existe uma lacuna importante na pregação deste tempo. Se não uma completa omissão às “partes menos apetitosas ou prazerosas de ouvir”, seguramente, em muitos casos, um intencional escanteamento de parte da Palavra Revelada para momentos secundários ou terciários, quando muito. Mas o apelo, o convite aberto às multidões... hummm, este tem sido feito com embrulho de papel brilhoso (bênção, poder, prosperidade, etc) – e olha só, que delícia! – às vezes, até com uns chocolatinhos de presente.

Exatamente o que Jesus não fez.

“Credo, Fer! Mas que papão é este hoje?! E a parte de que Cristo muda a nossa vida?! De que as bênçãos vão nos alcançar?! De que agora somos filhos do Rei?!” e tal e tal e tal?

Sim, eu sei. Os textos sobre promessas são muitíssimos! Glória a Deus por isso. Não há como negar as promessas, as bênçãos, a vida plena que há somente em Jesus. E isto é maravilhoso. Eu creio e me aproprio (pela fé) de cada uma delas.

O grande problema, no meu entender, está na apresentação incompleta do Evangelho. Como disse, se não há uma completa e deliberada omissão das “partes difíceis”, quando muito elas ficam bem guardadinhas, veladas, para quem sabe um dia serem contadas quando a pessoa já está dentro do barco. Letrinhas pequenas de um contrato, que ela não leu antes de assinar, porque lhe foram omitidas.

Como costumeiramente faço, vamos olhar pelo retrovisor.

 

Nestes 44 anos de vida, 30 dos quais (praticamente) estudando regularmente a Palavra do Senhor, ouvindo-a dos púlpitos desde que me entendo por gente, fui notando que determinados momentos tiveram maior ou menor ênfase em certas porções das Escrituras.

Eu nasci em meados da década de 70. Embora vivendo naquele tempo, não me lembro dos acontecimentos. Por ouvir falar, sei que ocorreram mudanças importantes na igreja brasileira, especialmente na denominação que meus pais pertenciam. O cisma da IPI, que originou a IPR, trouxe um tempo de forte rigor nos usos e costumes, marca daqueles anos. A igreja (com “i” minúsculo, instituição) machucou muita gente. Machucou meus pais, que eu bem sei. Tanto que, já no início da década de 80, eles se encaminhavam para o ministério pastoral na IPI, que os acolheu. A IPR, com o passar do tempo, felizmente deixou alguns rigores desnecessários. É uma denominação séria e zelosa, que errou e acertou naqueles primeiros passos. E com quem de nós não foi assim?

Já numa fase em que consigo me recordar perfeitamente das coisas, minha lembrança e meus sentimentos sobre o que eu ouvi na igreja nos anos 80 são muito fáceis de resumir: CAMINHO ESTREITO. Pequena expressão que contém dois elementos importantíssimos, e tão certos. Se é caminho, significa que meu lugar não é aqui, estou numa jornada, dirigindo-me para algum outro lugar. E se é estreito, significa que não é fácil a jornada.

Sim, o Fer menino de 5, 6, 7 anos de idade tinha essa visão como fundamental do Cristianismo que estava começando a conhecer. Havia dois lugares principais, duas fontes, de onde eu extraí todo o meu conhecimento inicial: o púlpito da Igreja e as salinhas de Escola Dominical. Nestes dois lugares eu bebi as primeiras palavras da Palavra, lá pela época em que eu começava a juntas as letras em palavras, e as palavras em frases, e das frases começava a formular pensamentos mais elaborados sobre tudo. Uma criança em formação. Que processo precioso.

“Mas Fer, não era meio pesado para uma criança já receber essas informações tão densas? Não seria cedo demais? Será que não teria sido melhor apresentar a alguém tão jovem o Evangelho de uma forma mais palatável, para somente depois, quando ela tivesse mais entendimento, serem mostradas as partes mais difíceis?”

A própria Palavra responde:

E Esdras, o sacerdote, trouxe a lei perante a congregação, tanto de homens como de mulheres, e todos os que podiam ouvir com entendimento, no primeiro dia do sétimo mês. E leu no livro diante da praça, que está diante da porta das águas, desde a alva até ao meio-dia, perante homens e mulheres, E OS QUE PODIAM ENTENDER; e os ouvidos de todo o povo estavam atentos ao livro da lei. (Neemias 8:2-3)

Educa a criança no caminho em que deve andar; e até quando envelhecer não se desviará dele. (Provérbios 22:6)

Pais, não irritem seus filhos; antes criem-nos segundo a instrução e o conselho do Senhor. (Efésios 6:4)

Que todas estas palavras que hoje lhe ordeno estejam em seu coração. Ensine-as com persistência a seus filhos. Converse sobre elas quando estiver sentado em casa, quando estiver andando pelo caminho, quando se deitar e quando se levantar. (Deuteronômio 6:6-7)

Porque desde criança você conhece as Sagradas Letras, que são capazes de torná-lo sábio para a salvação mediante a fé em Cristo Jesus. (2 Timóteo 3:15)

Ouça, meu filho, a instrução de seu pai e não despreze o ensino de sua mãe. Eles serão um enfeite para a sua cabeça, um adorno para o seu pescoço (Provérbios 1:8-9)

Todos os seus filhos serão ensinados pelo Senhor, e grande será a paz de suas crianças (Isaías 54:13)

Novamente, sete textos para fundamentar. Igualmente, haveria muitíssimos mais.

Não, não. A exposição completa e franca da Palavra do Senhor não trouxe nenhuma dificuldade para o jovem Fernando. Pelo contrário. Recebi tudo com muita naturalidade, ouvindo do púlpito as mesmas pregações que os mais velhos e, nas salinhas da EBD, numa linguagem mais conforme a minha idade, com tempo para conversas, perguntas, atividades, mas sempre o Evangelho completo. As “letrinhas pequenas” do contrato também! Neste ponto, na pessoa da Dona Clorinda, lá dos tempos da IPI de Cianorte, eu homenageio todos os meus vários professores e professoras da Escola Bíblica Dominical, que fizeram sua parte para plantar em mim os fundamentos da Palavra de Deus.

Hoje, quase 4 décadas depois, sou professor das crianças na Igreja. Venho ministrando há vários anos. E sabe, minha conversa com eles é rigorosamente igual a qualquer ministração que eu já tenha feito para um grupo de adolescentes, jovens ou adultos. Em caixa alta, para não ficarem dúvidas: RIGOROSAMENTE IGUAL. E sabe da maior? A piazada fica esperando na porta do templo para me perguntar “Tio Fer, hoje a aula é com você?”. Se eu respondo “sim”, é bastante comum eles soltarem um “Yeeees”, e saírem correndo para contar aos outros meninos e meninas. E ali, na parte inicial do culto, até chegar o momento de irmos para a sala, ficam me acenando de suas cadeiras, sorriem, fazem “joinha”. Eles são demais!

“O quêeee? O Feeeer e as crianças com esse apego todo?”

Pois é, e os muitos amigos e amigas meus, cujos filhos já foram ou são meus alunos, estão aí para não me deixarem mentir. O Tio Fer, de poucos sorrisos, na dele, sempre sérião, é muito querido e amado pelos pequenos. Cobro ordem, respeito entre eles e com o professor, não levo doces nas aulas, utilizo o tempo completo previsto para aquele encontro (sem “matação” de tempo) e falo sem parar, passo tudo que eu conseguir. E sempre, sempre, sempre me recordo dos meus tempos de salinha de EBD, sabendo que alguns fundamentos que eles aprenderão ali, irão acompanhá-los por toda a vida. Faço-o com toda a dedicação do mundo. Aliás, amanhã estou na escala. Hoje revisarei a lição dos pequenos.

Pois é, disse tudo isso para deixar muito claro que uma criança ouviu a Palavra completa, com suas promessas de bênçãos, mas também a notícia das perseguições e lutas, renúncia em vida, galardão na glória, cruz, novo nascimento, ordem, decência, disciplina, e tantas realidades aparentemente complexas, e nada disso a assustou. Não, não. Essa exposição plena e franca deu-lhe fundamentos muito sólidos para sua vida. Um “contrato completo”, com as cláusulas gostosas de ler, mas também com as necessárias “cláusulas difíceis”, justamente as que tão frequentemente vejo serem escondidas hoje em dia.

 

Hoje, em contrapartida, uma infantilização da pregação aos adultos, vendendo-se apenas um evangelho de bênçãos. Ops! Acabei contando o final. Então bora detalhar um pouco mais o que observei desde a minha infância até aqui.

Falei dos meus fundamentos nos anos 80. Na década seguinte (90), quando eu já era um adolescente a caminho de ser jovem adulto, uma mudança importante aconteceu. Não apenas no conteúdo da pregação, mas também na própria imagem e presença do evangélico. Se na minha juventude era bastante comum ser o único ou um dos únicos evangélicos na sala de aula da escola, ou no clube, ou em qualquer lugar, isso mudou rápido. Igrejas de massa chegaram, programações na TV, denominações com uma linguem atrativa. De repente, mais e mais evangélicos. Um crescimento avassalador.

Inversamente proporcional ao grande volume de membros, notei uma diminuição na densidade da mensagem proclamada. Os anos 90 foram os tempos da primeira onda da Teologia da Prosperidade no Brasil. “Venha e você receberá as bênçãos do Senhor”. Vou resumir nessa frase a essência do que foi vendido no “contrato” para os novos crentes. Claro, havia muito mais. Só que essa frase condensa bem a coisa toda. Basicamente, você está numa vida lascada, então vem pra Jesus e agora é só bênção, só vitória. Ooooooow, glória!!! Quem não quer? E poucas menções às partes “difíceis” do Evangelho. Poucas demais.

Qual seria o resultado?

Crescimento, uai! E teria como não ser assim? Quem não quer?

Calma, calma. Não estou batendo gratuitamente na Igreja do Senhor (com “I” maiúsculo). Sou nem doido de fazer isso. Ela é a Noiva do Cordeiro. Linda. Amada. Preciosa. Mas uma coisa é a Igreja Noiva, e outra bem diferente é a igreja instituição, estrutura eclesiástica e humana. É desta segunda que falo sobre essa grande omissão na pregação. A igreja dos anos 90 passou a vender um evangelho fácil e incompleto, bombando nos números... para inevitavelmente, lamentavelmente, assistir a um fenômeno raro nos meus tempos de menino: milhões e milhões de ex-evangélicos. Ou, o que foi mais comum de ver: gente pulando de denominação em denominação, ao sabor do vento. Aconteceu algo que a pessoa não gostou? “Tô fora!”, e parte para a próxima igreja. Um ciclo previsível. Vi muito disso. Vejo ainda. A omissão das “letrinhas pequenas” custou um enfraquecimentos dos crentes.

 

Vira o milênio, novo tempo, novas mudanças na igreja. Começou-se a investir bastante em estrutura. Prédios legais, poltronas que só faltavam fazer massagem (não duvido que as dos líderes tivessem lá seus botões para isso), climatização, mesas e equipamentos de som (que poderiam tocar shows em estádios), chácaras de lazer, turismo gospel, moda gospel... e alguma mensagem sendo pregada. Alguma. Completa ou incompleta, mas desde que tudo formatado numa bela, tecnológica e atrativa estrutura. As “letrinhas pequenas” do contrato ainda sendo omitidas da massa. A essa altura, ser evangélico não era mais ser minoria. Dezenas de milhões, de acordo com o IBGE. Anos 2000 e seguintes. Todo mundo tinha vários amigos evangélicos na escola, no trabalho, no clube. Denominações aos montes, cada qual com suas peculiaridades.

Novamente... Calma! Calma! Novamente não estou batendo gratuitamente na igreja. E agora nem me refiro à Noiva, mas à igreja com “i” minúsculo mesmo, a estrutura eclesiástica. Entendo como natural uma multiplicidade de expressões de fé, no que toca a diferentes possibilidades de liturgias, formas de governo, e mesmo – e principalmente – entendimentos e posicionamentos doutrinários. Quando se fala em IGREJA EVANGÉLICA, tem tanta, mas tanta, mas tanta coisa diferente no mesmo balaio. Não é simples. E é natural, como disse, que haja diferentes expressões da Igreja (Noiva) por meio das igrejas (estruturas humanas), para que Cristo seja conhecido. Neste sentido, nenhum problema. Em se preservando as bases corretas da fé em Cristo, claro que entendo absolutamente normal que haja muitas “casas”, muitas formas diferentes de se expressar a fé e o amor pelo Senhor.

 

Finalmente, chegando ao nosso tempo, da última década para cá (2010-20), o que eu observo?

Agora é que o caldo entorna.

O mundo está complexíssimo. E o mundo entrou bastante na igreja.

Na Igreja Noiva do Cordeiro ele jamais entrará. Mas na igreja instituição a coisa ficou e está bem feia. Sim, claro que há uma parcela que persiste nas Veredas Antigas, no Caminho Estreito, na defesa intransigente e inegociável dos Princípios do Reino de Deus. Mas é uma minoria. Não por acaso, conforme um dos 7 textos iniciais, diz a Palavra que “estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e POUCOS há que a encontrem”. Só que uma parcela enorme de gente que se identifica como cristã, na verdade quer viver do seu jeito, do seu mesmíssimo e exato jeito de sempre, encontrando uma estrutura eclesiástica para chamar de sua, desde que ali ela só ouça o que gosta de ouvir, e possa continuar fazendo tudo ao seu modo. Se mexer demais nos fundamentos... “Tô fora! Parto pra outra. Eu sou assim. Nisto eu não admito interferência. Eu tenho o direito de ser feliz!”

Veio a segunda onda da Teologia da Prosperidade. Se antes a coisa era focada nos bens e posições, hoje o que voga é massagear os sentimentos e as emoções da massa. Mensagens suaves e motivacionais, que contém apenas parte do Evangelho (quando muito). “Você tem o direito de ser feliz”. “Deus te aceita como você é”. “Esqueça esses fundamentalistas, agora você está no tempo da graça”. E por aí vai.

Esquecem-se, os que assim “pregam”, que a felicidade segundo Deus é diferente do conceito do mundo.

Sim, Deus te aceita como é, ele te acolhe, e TAMBÉM deseja e espera que você se arrependa dos seus maus caminho e se torne parecido com Jesus. Um cristão (pequeno Cristo).

A Graça é inegável, superabundante, um presente imensurável. Mas continuam na Palavra todos os muitíssimos textos que afirmam se aproximar um Dia de Juízo, onde todos comparecerão diante do Senhor para prestarem contas de tudo que fizeram.

Sobre felicidade, sobre como viver, e sobre Graça, poderíamos colacionar aqui também 7 ou mais textos de cada, para muito bem demonstrar tudo isso que resumi.

E o pior de tudo, não bastassem as mazelas internas da igreja, que a si mesma tantas vezes se sabota, e noutras sofre influências veladas da mentalidade do mundo (errando por não conhecer as Escrituras), há também a sempre e sempre presença do inimigo das nossas almas. Satanás. Diabo. Ele mesmo. Ele odeia a Igreja. Rouba, mata e/ou destrói tudo o que pode. Sabe que é derrotado, mas cumpre bem demais sua função existencial. Nunca para. Nunca descansa. E tem seu trabalho muito facilitado, quando encontra uma igreja fofa e tranquila, achando que a vida cristã é moleza, só vitória, riqueza e prosperidade... por causa das “letrinhas pequenas” naquilo que deveria ser garrafal.

Éfeso, contra você, tenho isto: abandonaste o seu primeiro amor.

Esmirna, conheço a blasfêmia dos que se dizem judeus mas não são, sendo antes sinagoga de Satanás.

Pérgamo, tenho contra você algumas coisas: você tem aí pessoas que se apegam aos ensinos de Balaão, que ensinou Balaque a armar ciladas contra os israelitas, induzindo-os a comer alimentos sacrificados a ídolos e a praticar imoralidade sexual. De igual modo você tem também os que se apegam aos ensinos dos nicolaítas.

Tiatira, você tolera Jezabel, aquela mulher que se diz profetiza.

Sardes, conheço as suas obras. Você tem fama de estar vivo, mas está morto. Esteja atento! Fortaleça o que resta e que estava para morrer, pois não achei suas obras perfeitas aos olhos do meu Deus. Lembre-se, portanto, do que você recebeu e ouviu; obedeça e arrependa-se.

Filadélfia, retenha o que você tem, para que ninguém tome a sua coroa.

Laodicéia, conheço as suas obras, sei que você não é frio nem quente. Melhor seria se você fosse frio ou quente. Assim, porque você é morno, não é frio nem quente, estou a ponto de vomitá-lo da minha boca. Você diz: ‘Estou rico, adquiri riquezas e não preciso de nada’. Não reconhece, porém, que é miserável, digno de compaixão, pobre, cego, e que está nu.

As sete cartas, aos sete anjos (pastores) das sete igrejas da província da Ásia. Capítulos 2 e 3 do Apocalipse.

Aproximadamente 98 d.C., e o apóstolo João já identificava tamanhos problemas. Hoje, passados 2 milênios, quais dessas advertências cabem às igrejas dos nossos dias, aqui pelas províncias brasilianas? Acredito que muitas delas, senão todas.

 

O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar. (Mateus 24:35)

Os tempos mudaram. O mundo mudou. A igreja mudou e está mudando a cada dia. Mas a Palavra do Senhor é a mesma para sempre. O fato de os homens terem colocado com “letras pequenas”, não muda a urgência e a importância da mensagem. E quem o fez, certamente será cobrado pelo Senhor por isso.

E se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus lhe tirará a sua parte da árvore da vida, e da cidade santa, que estão escritas neste livro. (Apocalipse 22:19)

O convite ao Caminho Estreito não prescreveu. O negar-se a si mesmo e tomar a sua cruz continuam mais válidos do que nunca. A garantia de aflições é real. Seremos (e somos) blasfemados por falar a Verdade. Tidos por loucos. Poderemos ser mortos por amor ao Senhor. Mas quantas vezes estamos mais preocupados e incomodados com a temperatura do ar-condicionado no fofo e majestoso prédio que chamados de igreja; ou não gostamos da Palavra mais dura, e logo começamos a cogitar para qual próxima igreja iremos; ou nos limitamos a um encontro congregacional por semana, sem vida nenhuma de intimidade com Deus nos outros 6 dias.

A mensagem da cruz não mudou. Fomos e somos chamados diariamente para morrer. Figuradamente. Literalmente. Inevitavelmente.

Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim. E quem não toma a sua cruz, e não segue após mim, não é digno de mim. Quem achar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a sua vida, por amor de mim, achá-la-á. (Mateus 10:37-39)

E chamando a si a multidão, com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me. Porque qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas, qualquer que perder a sua vida por amor de mim e do evangelho, esse a salvará. Pois, que aproveitaria ao homem ganhar todo o mundo e perder a sua alma? Ou, que daria o homem pelo resgate da sua alma? (Marcos 8:34-37)

Jesus está voltando, galera! Ele logo vem. Maranata!

E nós aqui, preocupados com tantas coisas passageiras.

E Jesus, respondendo, disse-lhes: Acautelai-vos, que ninguém vos engane; porque muitos virão em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo; e enganarão a muitos. E ouvireis de guerras e de rumores de guerras; olhai, não vos assusteis, porque é mister que isso tudo aconteça, mas ainda não é o fim. Porquanto se levantará nação contra nação, e reino contra reino, e haverá fomes, e pestes, e terremotos, em vários lugares. Mas todas estas coisas são o princípio de dores. Então vos hão de entregar para serdes atormentados, e matar-vos-ão; e sereis odiados de todas as nações por causa do meu nome. Nesse tempo muitos serão escandalizados, e trair-se-ão uns aos outros, e uns aos outros se odiarão. E surgirão muitos falsos profetas, e enganarão a muitos. E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará. Mas aquele que perseverar até ao fim, esse será salvo. E este evangelho do reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as nações, e então virá o fim. Quando, pois, virdes que a abominação da desolação, de que falou o profeta Daniel, está no lugar santo; quem lê, entenda; então, os que estiverem na Judéia, fujam para os montes; e quem estiver sobre o telhado não desça a tirar alguma coisa de sua casa; e quem estiver no campo não volte atrás a buscar as suas vestes. Mas ai das grávidas e das que amamentarem naqueles dias! E orai para que a vossa fuga não aconteça no inverno nem no sábado; porque haverá então grande aflição, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem tampouco há de haver. E, se aqueles dias não fossem abreviados, nenhuma carne se salvaria; mas por causa dos escolhidos serão abreviados aqueles dias. Então, se alguém vos disser: Eis que o Cristo está aqui, ou ali, não lhe deis crédito; porque surgirão falsos cristos e falsos profetas, e farão tão grandes sinais e prodígios que, se possível fora, enganariam até os escolhidos. Eis que eu vo-lo tenho predito. Portanto, se vos disserem: Eis que ele está no deserto, não saiais. Eis que ele está no interior da casa; não acrediteis. Porque, assim como o relâmpago sai do oriente e se mostra até ao ocidente, assim será também a vinda do Filho do homem. Pois onde estiver o cadáver, aí se ajuntarão as águias. E, logo depois da aflição daqueles dias, o sol escurecerá, e a lua não dará a sua luz, e as estrelas cairão do céu, e as potências dos céus serão abaladas. Então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem; e todas as tribos da terra se lamentarão, e verão o Filho do homem, vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória. E ele enviará os seus anjos com rijo clamor de trombeta, os quais ajuntarão os seus escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus. Aprendei, pois, esta parábola da figueira: Quando já os seus ramos se tornam tenros e brotam folhas, sabeis que está próximo o verão. Igualmente, quando virdes todas estas coisas, sabei que ele está próximo, às portas. Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas estas coisas aconteçam. O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar. Mas daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos do céu, mas unicamente meu Pai. E, como foi nos dias de Noé, assim será também a vinda do Filho do homem. Porquanto, assim como, nos dias anteriores ao dilúvio, comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e não o perceberam, até que veio o dilúvio, e os levou a todos, assim será também a vinda do Filho do homem. Então, estando dois no campo, será levado um, e deixado o outro; estando duas moendo no moinho, será levada uma, e deixada outra. Vigiai, pois, porque não sabeis a que hora há de vir o vosso Senhor. Mas considerai isto: se o pai de família soubesse a que vigília da noite havia de vir o ladrão, vigiaria e não deixaria minar a sua casa. Por isso, estai vós apercebidos também; porque o Filho do homem há de vir à hora em que não penseis. Quem é, pois, o servo fiel e prudente, que o seu senhor constituiu sobre a sua casa, para dar o sustento a seu tempo? Bem-aventurado aquele servo que o seu senhor, quando vier, achar servindo assim. (Mateus 24:4-46)

Veredas Antigas.

Caminho Estreito.

Cruz.

As “letrinhas pequenas” do contrato permanecem. As numerosas e maravilhosas bênçãos também. Um evangelho capenga não existe, galera. É tudo ou nada.

TUDO OU NADA.

quarta-feira, 21 de julho de 2021

044 CASA FAVORITA

Após aquele almoço gostoso da roça, que normalmente me faz comer como um pedreiro depois de bater massa na enxada, fiquei por ali com os familiares. Pequeno sítio no interior de SP, os cachorros tirando uma soneca, galinhas ciscando (elas nunca param), clima agradável; nem quente, nem frio. Prosa com um, prosa com outro, algumas fotos para registrar o encontro não tão habitual. Eu gosto de conversar. Fiquei por ali um tempo razoável, até que foi se instalando o inevitável sono pós-refeição. Também pudera, com aquelas duas pequenas montanhas de comida que venci horas antes, não tinha como ser diferente.

Vi uma brecha. Nenhum parente por perto para mais prosa, saí de fininho para o trailer onde eu estava hospedado. Uma estrutura que teve seus dias de glória, quando era utilizada como carrinho de lanches. Muito hambúrguer deve ter sido grelhado ali. Queijos derretidos, ovos fritos, salsichas, bacon... X-Tudo. Aaaah, o X-Tudo! E teria como não dormir bem num lugar abençoado como aquele?! Puxei a cobertinha no pequeno sofá-cama a mim destinado, fechei todas as entradas de claridade, celular no modo silencioso, e bora dormir. Encolhido, pois o leito era pequeno para mim (ou eu grande para ele), e uns 2 minutos depois o Fer estava apagado. Pois é, eu durmo assim: deito e durmo. Com aroma de bacon, então...

Sei lá, deviam ser umas 15h. Certamente houve movimentação no trailer, pois notei sinais disso quando despertei. Três horas de sono, em plena tarde de sábado. Mas e aí, depois dorme normal de noite? Ooow se dorme! Problema nenhum. É puxar a cobertinha, virar de lado, pressionar um segundo travesseiro entre as pernas e já era. Mais 6 a 8 horas de sono garantidas. Aliás, jamais passei uma noite em claro, involuntariamente, por insônia ou algo do tipo. Se tive uma dúzia de noites varadas acordado, em toda a vida, foi muito. Dos tempos que eu gostava duma balada, a maioria delas; e duas ou três vezes por querer amanhecer acordado nalgum 1º de janeiro de anos passados. Coisa de quando era mais novo. Hoje, o que mais me interessa é poder saborear a Ceia de Réveillon com a família e não demorar muito para dormir.

Lavei o rosto. Não procurei nada para comer, pois realmente o abastecimento no almoço foi para colocar o ponteiro no FULL. Saí do trailer, fiz cafuné nos dois dogs do sítio que eram mais amistosos, e caminhei um pouco pelo pátio. Havia outros dois cães mais na deles. Normalmente eu teria feito amizade, mas deixei pra lá. Muitas árvores no lugar, que era afastado da cidade. Nas pouco mais de 24h passadas desde que cheguei ali, eu havia explorado praticamente toda a pequena propriedade, com área de pouco menos de 1 alqueire paulista. Várias pequenas casas, uma de cada filha dos meus tios. O único filho homem do casal morava na cidade. Pomar. Galinheiro. Pequeno lago artificial. Canavial. Reserva de eucalipto. Horta. Poço. Paiol. Praticamente todos os elementos de um bom sítio.

Perambulando por ali, meio que acordando da boa tarde de sono, dirigi-me para a parte mais alta da propriedade, onde o sinal do celular era melhor. Lá perto do portão de entrada, colado à estrada de terra que levava (para a esquerda) até a rodovia Marília-Bauru, e (à direita) para outras propriedades da região de Duartina. Conferi as mensagens recebidas, devo ter respondido algumas, e olhei também a rede social. Sentei no gramado. Uma das cachorrinhas amistosas veio rápido até onde eu estava, sempre em busca de cafuné. Malhada, branca e preta, focinho comprido, pelo de comprimento médio. Bem simpática. Se respondia por algum nome, não sei.

Família em movimento lá nas casas. Todo mundo mexendo com comidas e lanches, porque de noite teria o segundo round da luta que começamos no almoço. Fartura e mesa cheia, coisa garantida na roça. Até por aquela hora, passadas quase 6 desde o almoço, eu não tinha nenhum traço de fome.

Claro que eu já havia notado uma pequena construção localizada bem na entrada do sítio. Ao passar portão adentro, é a primeira estrutura que se vê. Mas eu não tinha ido até ela. Explorei a propriedade toda, como disse, mas fiquei mais focado em ver seus aspectos naturais. Mas naquele segundo fim de tarde no sítio, levantei-me e fui até o pequeno salão. Talvez uns 50 metros quadrados. Estimo essa área, porque o lugar não era nem muito maior, nem muito menor do que uma oficina que construí num outro sítio que sempre frequento, também no interior de SP. Retangular. Colunas de eucalipto. Duas águas. Sem paredes altas; apenas muretas de cerca de 1 metro na parte da frente e nas laterais. Fundo totalmente fechado com tábuas rústicas de madeira. Sem mata juntas. Sem selante ou verniz. Uma entrada pela frente. Outra pela lateral direita. Chão com piso cerâmico marrom, bem apropriado para o sítio, já que a terra da região era bem arenosa. Por ser inverno e ali esfriar um pouco de noite, foram colocadas, provisoriamente, lonas nas laterais, fechando desde a mureta até o telhado.

Mas alvenaria não me chama muito a atenção. Gosto é de madeira. Já fiz algumas coisas em madeira, meio que explorando habilidades manuais. É legal aprender. Informação não ocupa espaço, além de ser um bom passatempo. Alguns anos atrás fiz um pequeno portão em madeira para acesso ao bosque que plantei no sítio em Iepê. Ele não está mais lá. Aguentou uns 6 ou 7 anos de uso. Madeira comum, pouca resistência ao uso e às intempéries. Enfim, o que me chamou mesmo a atenção no salão foi o madeiramento do telhado. Tudo aparente, por não ter forro. Tudo bem “amarrado”, como se diz no linguajar dos construtores. Afinal, telhado não pode cair. Tem toneladas de material ali, mesmo num pequeno salão de 50 metros.

Fiquei reparando em como a estrutura era toda conectada. Aquele monte de tábuas, vigas, vigotas, caibros e telhas sobre nossas cabeças. A gente não costuma reparar nessas coisas. É como se nascessem prontas, estivessem ali desde sempre. Mas não. É obra de trabalho humano. Entender e dominar as técnicas construtivas, para cobrir aquele pequeno retângulo com suas estacas e muretas. Sem o “gran finale”, um telhado, o que seria aquilo? Não se diria ser um salão. Puxo aqui na memória uma leitura que fiz em 2019: “A Disputa que Mudou a Renascença”. Conta parte da história de Filippo Brunelleschi, arquiteto florentino. E conta a história de um telhado. Na verdade, de uma abóbada, a da Santa Maria Del Fiore, grande catedral de Florença. As histórias dos dois – homem e edifício – se misturam por completo. Brunelleschi e Santa Maria del Fiore são indissociáveis. Livro incrível! Recomendo fortemente.

Grandes catedrais foram construídas naqueles séculos XIII a XV. Claro, muitas outras foram erguidas antes e depois. Mas a Fiore está nesse período. Décadas de construção, às vezes mais de 1 século para obras como ela ficarem prontas. Quem dava início aos trabalhos, já o fazia sabendo que não era para si, mas para a posteridade. Uma visão geracional, bem diferente dos nossos tempos apressados. Assim foi com a catedral florentina. Após muitos anos de construção, nave e periféricos todos erguidos, mas restava um buraco no teto. Um buracão! Vão gigante, que precisaria ter a maior abóbada do mundo. E tudo isso a dezenas de metros do chão, sem guindastes, sem concreto armado, gruas, tecnologias que hoje permitem edifícios de 1000 metros ou mais de altura.

Não vou dar maiores detalhes, para te estimular a ler o livro. O fato é que a abóbada está lá até hoje. Um mistério. Como Brunelleschi preferiu não fazer registros detalhados da técnica que utilizou, muito se estuda e se especula sobre como algo daquela magnitude foi realizado naquele momento histórico e tecnológico. É realmente uma história incrível. A Santa Maria Del Fiore é um dos lugares que mais anseio conhecer, em todo o mundo. Mencionei nalgum escrito anterior que não fiz viagens internacionais, até este momento da minha vida. Firenze, seguramente, está no topo da minha lista de desejos. O “Berço do Renascimento”, período histórico que mais me fascina.

Assim como a imponente catedral, nosso pequeno salão no interior de SP precisava de uma cobertura. Com técnicas muito mais simples e nada secretas, dois ou três trabalhadores devem tê-la feito em poucos dias. Para eles, que são do ofício, foi fácil. Mas enquanto eu ficava ali, circulando pelo salão com a cabeça virada para cima, contemplando os detalhes do madeiramento todo amarrado, eu me perguntava se eu saberia fazer aquilo. Digo, fazer e ter certeza que não desabaria. Porque se o meu simples portão do outro sítio não durou nem 10 anos, acho que temos resposta (risos). É fácil fazer... para quem sabe fazer.


Banho tomado. Uma camisa e um corta-vento por cima. De fato, a noite prometia ser fria. Graças a Deus pela brilhante ideia de colocarem lonas nas laterais. Foi providencial. Pelas 19h15 subi até o salão e tomei meu lugar. Um a um foram chegando, boa parte moradores dali mesmo, no sítio (meus familiares), também alguns de sítios vizinhos, e uns poucos que vieram de longe, lá da cidade. Umas 30 pessoas, no máximo. Às 19h30, pontualmente, começamos. Era um culto de ações de graças por três razões: os 62 anos de casamento dos meus tios; 38 de casamento de uma prima minha e seu marido, meu xará; 3 anos do início daquele trabalho no salão do sítio, representado exatamente pela pequena construção onde estávamos.

Instantes antes de começarmos, eu vi uma movimentação e já sabia onde aquilo iria dar. Meu pai se levanta e vem até mim.

- Filho, você poderia dar uma pequena palavra? Mencionando as bodas de casamento de seus tios e de sua prima e do marido.

- Poxa, pai. O senhor podia ter me pedido isso mais cedo, para que eu preparasse algo durante o dia. Não gosto muito de falar no improviso. Mas tudo bem, eu falo.

De fato, não gosto de coisa feitas assim, em cima da hora. Não que tudo precise ser agendado comigo com dias de antecedência. Não é isso. Mas uma coisa que aprendi com um ex-chefe no trabalho, é que verdadeiras urgências e emergências na vida são poucas. A maior parte das coisas, nós conseguimos fazer com certa tranquilidade e planejamento. Basta organização. Se algo que não tinha nada para ser urgente, acaba se tornando, é porque houve uma falha primária de organização. E esse era exatamente o caso ali. O culto começando, pessoal todo reunido, e eu não tinha um mínimo esboço do que falar. Nenhum texto bíblico anotado. Duas ou três frases para conduzir o raciocínio. Enfim, uma urgência desnecessária. O que se faz nessas horas?

Bem, eu só falei naquela noite por dois motivos: primeiro, porque foi um pedido do meu pai; segundo, porque tenho por regrinha pessoal nunca recusar um convite para ministrar, salvo alguma circunstância realmente impeditiva (por exemplo, dois convites para a mesma data e horário). No caso, embora de forma atabalhoada, havia como contornar o problema do convite feito em cima da hora: ESPONTANEIDADE e SIMPLICIDADE. Eu falaria sem roteiro.

O culto foi acontecendo, e eu ali tentando bolar algo. Não vinha nada especial ou original. “Parabéns´, tio e tia! Parabéns, primo e prima!” Putz, e eu lá sabia Bodas-de-Quê se completava com 62 e 38 anos? Sabia nada, e nem sinal de internet para uma pesquisa de última hora. Tenso. Seria ao vivo mesmo, 100%. A programação (não tão programada) foi rolando, a tensão baixou, relaxei – afinal, o que não tem solução, solucionado está – até que: “Fernando, você tem a palavra”...


Eu falo em público há muitos anos. Não tenho dificuldade. Jamais fui o aluno do trabalho em grupo, que ficava apenas segurando o cartaz lá na frente. Pelo contrário, normalmente eu puxava a apresentação, e vez por outra invadia as falas dos meus colegas. Um falador nato. Dona Mirian fez um bom trabalho. Inseriu-nos desde muito pequenos em todas as atividades da Igreja e da Escola, tais como teatros, jograis, danças, mostras culturais, jogos, gincanas. Timidez e travamento não faziam parte do vocabulário em casa. Bem, não em todas as outras coisas, mas sim e muito fortemente num único item da vida (vide escritos 002 LET´S DANCE e 027 APENAS UM BEIJO).

Então lá estou eu. Microfone na mão esquerda. Mão direita apoiada numa mesa ao meu lado. Pernas trêmulas. Nenhum roteiro à minha frente para seguir. Mas eu sabia exatamente o que dizer.

Passado o aborrecimento inicial pelo convite em cima da hora, e abandonadas as esperanças de uma rápida pesquisa na internet, eu relaxei e deixei o Senhor me dirigir. Pensei: “Deus, eu tenho um combinado contigo. Quando um convite para ministrar me é feito, eu sempre entendo que o Senhor tem algo a dizer e quer me usar para isso; seja porque quer falar a mim, seja porque deseja ministrar aos outros, por meio de mim. Então, tudo certo. Fala comigo e por mim”. Orar é simples. Fazer algo em cooperação com Deus é muito simples. Ele só precisa dum “eis-me aqui”, um “usa-me”, ou um “bora lá”.

Nos minutos que antecederam minha até a frente daquele auditório, Deus falou profundamente comigo. Ele me deu o que dizer. “Você não veio a este salão de tarde por acaso, Fer. (é, Deus me chama de “Fer”). Você não ficou reparando neste madeiramento simples e rústico sem um motivo. Eu estava te mostrando a beleza da simplicidade. Eu sou dono do ouro e da prata. Eu criei e colori cada pedra preciosa que existe. Eu pensei a textura de cada fibra que veio a ser tecida pelo homem. Eu plantei habilidades e criatividade em vocês, para que façam o belo, o esplêndido, o extraordinário. Eu pensei cada detalhe do magnífico Tabernáculo levantado por Moisés no deserto. Da mesma forma, instruí Salomão sobre cada mínimo elemento do ainda mais espetacular Templo erguido em Jerusalém. Tudo lindo. Tudo belo. Tudo muito rico. Mas sabe, Fer, embora Eu mesmo tenha ordenado aqueles locais de adoração, existiu um outro, muito especial. E você sabe do que estou falando”.

“Depois que Davi tinha feito casas para si na Cidade de Davi, ele preparou um lugar para a arca de Deus e armou uma tenda para ela” (1 Crônicas 15:1). “Então Davi, com grande festa, foi à casa de Obede-Edom e ordenou que levassem a arca de Deus para a Cidade de Davi” (2 Samuel 6:12). “Assim, com grande festa, Davi, as autoridades de Israel e os líderes dos batalhões de mil foram buscar a arca da aliança do Senhor que estava na casa de Obede-Edom. Como Deus havia poupado os levitas que carregavam a arca da aliança do Senhor, sete novilhos e sete carneiros foram sacrificados. Davi vestia um manto de linho fino, como também todos os levitas que carregavam a arca, os músicos e Quenanias, chefe dos músicos. Davi vestia também o colete sacerdotal de linho. E todo o Israel acompanhava a arca da aliança do Senhor alegremente, ao som de trombetas, cornetas e címbalos, ao toque de liras e de harpas” (1 Crônicas 15:25-28). “Eles trouxeram a arca do Senhor e a colocaram na tenda que Davi lhe havia preparado; e Davi ofereceu holocaustos e sacrifícios de comunhão perante o Senhor” (2 Samuel 6:17). “Após oferecer os holocaustos e os sacrifícios de comunhão, ele abençoou o povo em nome do Senhor dos Exércitos, e deu um pão, um bolo de tâmaras e um bolo de uvas passas a cada homem e a cada mulher israelita. Depois todo o povo partiu, cada um para a sua casa” (2 Samuel 6:18-19).

Espontaneidade e Simplicidade.

No rigor da Lei de Moisés, Davi deixou de observar várias coisas: o lugar de adoração era improvisado; ausência da preparação cerimonial; ele era da tribo de Judá, e não um levita (não lhe competia ministrar como sacerdote); não se diz que houvesse um véu cobrindo a arca, que raramente era vista pelo povo; também não são mencionados diversos utensílios e protocolos dos sacrifícios. Foi muita coisa no improviso.

Para se ter uma ideia, em situações anteriores, quando sacerdotes ou líderes deixaram de observar as formalidades da adoração, houve consequências graves. Pessoas morreram por isso. Um Deus que leva a sério suas ordenanças. Mas com que olhar Ele teria olhado para aquela tenda improvisada? Não seria o caso de descer juízo sobre Davi, por fazer as coisas de Deus sem toda a ordem e planejamento?

Pois não houve juízo. Pelo contrário. Séculos depois, falando a Israel pela boca do profeta Amós, Deus disse que “Naquele dia tornarei a levantar o tabernáculo caído de Davi, e repararei as suas brechas, e tornarei a levantar as suas ruínas, e o edificarei como nos dias da antiguidade”. (Amós 9:11)

“Sabe do que eu sinto saudades, Fer? Não é do Tabernáculo, tampouco do majestoso Templo de Jerusalém. Eu senti e sinto saudades da CABANINHA DE DAVI, meu servo. Daquela simplicidade e espontaneidade do meu menino Davi, homem segundo o meu coração. Ele quebrou quase todos os protocolos possíveis, mas eu recebi sua adoração. Ele não olhou para nada além de um desejo incontido de me adorar e levar todo o meu povo a adorar junto com ele. Por coisas assim ele foi gravado na história como o HOMEM SEGUNDO O CORAÇÃO DE DEUS. E sabe da maior, Fer?! Você está numa cabaninha muito parecida com a dele, aí mesmo, neste pequeno salão”.

Escrever esses parágrafos faz brotar algumas lágrimas em mim. Calcule então como foi no dia lá... Tudo isso sussurrado pelo Espírito Santo diretamente ao meu espírito, naqueles minutos anteriores à minha ida até a frente. A Presença era real e tão forte. O Senhor estava ali. Por isso eu mal conseguia falar. Também por isso minhas pernas praticamente não se continham. Soltasse minha mão direita da mesa em que me apoiava, seguramente teria caído de joelhos ao chão. Mal me lembro do que falei. Bem no finalzinho, sei que fiz menção às bodas dos tios e primos, mas eu só conseguia pensar e entender que eu estava na Cabaninha de Davi. Na beleza da simplicidade. Na espontaneidade que Deus quer ver em nós.

Ele não disse que o Tabernáculo não prestou para nada, nem algo parecido sobre o Templo. Não, não. Eles tiveram seus lugares e propósitos. Assim como hoje, estruturas, projetos e estratégias da Igreja do Senhor tem sim seu valor e lugar, podem ser utilizados normalmente. Mas a essência da adoração... aquela que fez Deus sentir saudades da Tenda de Davi, é essa que Ele anseia ver nos seus filhos e filhas. “Porque a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem. Deus é espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade” (João 4:23-24).

Espontaneidade e Simplicidade.

O Senhor deseja que sejamos seu lugar de habitação.

É dito de nós que somos templo do Espírito Santo (1 Coríntios 6:19). Palavra tão preciosa. Mas, que tipo de templo o Senhor estará a procurar? Por tudo que refletimos nas linhas acima, penso que o desejo do Senhor seja algo muito, muito simples. Sem cortinas. Nada de ouro ou prata. Os utensílios não têm mais lugar. Adoração pura, direta, face a face. Nenhum acessório o impressionará mais do que um coração extravagantemente desesperado por relacionar-se com Ele, sem olhar para os protocolos, os títulos, liturgias. Ele só quer ver um Davi e sua cabaninha. A CASA FAVORITA.

082 PALAVRAS AO VENTO

Uns dois ou três dias atrás fiz algo que há muito tempo abandonei. Numa rede social, após ver a postagem que me chamou a atenção – de temáti...