É bastante comum eu estar de saída, já com a mão na maçaneta da porta, e dar uma rápida olhada para trás, conferindo se tudo está em ordem. Daquele ponto da casa eu enxergo toda a área comum, composta por cozinha e três salas (estar, jantar e TV). Dali também se vê um pouco da área externa, onde ficam minhas bikes e a lavanderia. Os outros 3 cômodos (banheiro e 2 dormitórios), não são visíveis daquele ponto. Um pequeno e aconchegante apartamento, pensado e montado por mim ao longo dos últimos 4 anos.
Qual a finalidade dessas espiadelas pré-saída? Creio sejam duas: 1) a primeira, já mencionada, conferir se tudo está em ordem; 2) sentir a costumeira satisfação por constatar que tudo está em ordem. Porque sempre está. E mesmo eu sabendo disso, confiro. Quando muito, volto para dentro e fecho a janela da sala de estar (vai que chove?!), ou acomodo melhor as almofadas no sofá estampado, ou pego no aparador uns papeis que ia me esquecendo. Rotina. Hábito. Hábito adquirido uns poucos anos antes, por meados de 2013.
Demorei para ter uma casa integralmente sob minha responsabilidade. Vim a morar sozinho, num viés de “saí da casa dos pais”, quando completei 35 anos. Antes disso, já a partir dos meus 17, eu havia morado sozinho algumas vezes, para estudo ou trabalho. Londrina e Maringá, inicialmente (faculdade), e anos depois fui para Porto Alegre, Brasília e Curitiba, realizando projetos especiais pelo Poder Judiciário. Além dessas capitais, o trabalho me levou para muitos outros locais, só que por períodos bem curtos.
Fui para a capital paranaense em meados de 2013, com a ideia de lá me estabelecer. Mudanças importantes e rápidas ocorreram no meu trabalho em janeiro daquele ano. Recebi um convite e fui. Sem fazer muitas contas e ponderações, é verdade. Eu já havia me mudado antes, estava acostumado ao desconhecido e ao novo. Sou paranaense, havia morado nalgumas das principais cidades do Estado, mas não na capital. Foi natural aceitar o convite e ter essa experiência. Capitais são legais. Muita coisa acontece, o ritmo é outro. Claro que eu iria, e fui mesmo.
Após o primeiro mês morando numa pensão, descolei um estúdio bem no centro de Curitiba. Trinta e três metros quadrados, compostos pelo estúdio em si, um pequeno banheiro e mini-sacada, de onde eu tinha uma ampla vista do centro e zona leste da capital. Pelas manhãs, quando o sol se levantava, ao longe estava a silhueta da Serra do Mar. Dirigindo o olhar para baixo, Rua 24 de Maio, Santa Casa, Praça Rui Barbosa. Centrão, com aquele movimento intenso desde cedo até o início da noite, e sempre alguma coisa acontecendo de madrugada: sirenes, brigas entre bêbados, Hornet cortando giro, etc. Naquele cubículo, nessas coordenadas, por esse período, eu finalmente experimentei a sensação de ter uma casa para chamar de minha.
Tratei de arrumar tudo, ainda que “tudo” significasse poucas coisas. O lugar era mesmo bem pequeno. Roupas de banho e cama, tapetes, talheres, panelas, um pequeno aramado para calçados, estante para alguns livros. A Casa China, bem próxima a um dos tubos da Rui Barbosa, tornou-se o caminho natural, a cada vez que eu listava itens que faltavam em casa. Como faço ainda hoje, tenho uma cadernetinha em local estratégico na cozinha, onde anoto isso. Então, numa próxima saída, arranco a folhinha e não me esqueço de comprar. Minha memória é péssima. Cadernetinhas ou apps de anotações servem justamente para isso, serem memórias extras para nós.
Por essa época eu não sabia cozinhar. Não que eu seja grande coisa hoje, mas então era muito pior. Comprei panelas ruins, embora parecessem boas. Vim a descobrir, depois, que as boas são caras e pesadas. Fica a dica. No Mercado Municipal, que eu visitava regularmente, uma variedade incrível de itens. Tipos e mais tipos de grãos, frutas e verduras, carnes e tudo mais. Assim eu supria a minha despensa, com tudo organizado e guardado em recipientes de vidro. Dava até gosto de ver aquela pequena cozinha do cara recém-chegado à capital. Só faltava saber transformar aquilo tudo em comida pronta, gostosa, cheirosa e apetitosa.
Recorri às Donas Mirian (mãe) e Meire (tia), pegando as receitas iniciais: arroz com legumes e alguma carne; e torta salgada com massa batida em liquidificador. Tudo isso, rs. Vai, pode rir. Mas era melhor do que viver de pizza ou lanches. E com 5 ou 6 tipos diferentes de grãos de arroz, e uns 3 ou 4 de farinhas, eu meio que me enganava, fazendo parecer que sabia fazer muitas coisas diferentes. Nas reuniões de células, no meio da semana, quando meu nome estava na escala do lanche, era sempre aquela expectativa do pessoal sobre a próxima torta salgada do Fer. “Pessoal, essa fiz com farinha de arroz, ovos orgânicos, linguicinha apimentada, mandioquinha salsa, cebola e tomatinhos”. Uooow, quase um cheff! Quando, em verdade, tudo não passava de gourmetização e valorização de uma torta básica. Mas, como dizem, a propaganda é a alma do negócio. E assim todo mundo acreditava, inclusive eu mesmo, que o Fer sabia cozinhar.
Não era uma rotina ruim, nem de longe. Adorei meu primeiro semestre em Curitiba. Tudo funcionava bem. No trabalho, tive que me desdobrar (inicialmente) para organizar e dar um rumo legal para o gabinete, então começou a fluir: equipe entrosada, juízes felizes com a produção, até algumas sondagens de outros setores que me queriam. Na igreja, sem comentários; muito feliz e adaptado, participava de tudo. Veio o recesso de final de ano, mais as férias em janeiro de 2014, uns “remenbers” com uma ex por quem eu era apaixonado, e não tardou para que eu desmontasse acampamento em Curitiba, para encarar nova mudança. Não foi só isso, claro. Lá no fundo eu não me via encarando o resto da vida – o que quer quê, e sei lá quanto tempo isso significasse – em Curitiba. Fui com um “animus” de definitividade, mas eu sentia muita falta do jeitão de viver do Norte do Paraná. Lá (aqui) estava minha raiz. O resto é história e cá estou.
Cá estou com casa montada, panelas melhores (caras e pesadas), mobília estilosa e escolhida a dedo. E sempre conferindo, a cada saída, se tudo está arrumado. Porque penso que uma casa bonita e organizada seja reflexo de muitas outras coisas na vida da pessoa. Tanta gente sai com a missão de mudar o mundo, quando sequer estendeu a colcha sobre a cama, ou secou a água na pia, ou tirou dos braços do sofá as migalhas da bolacha comida no fim de semana. A segunda regrinha do Pequeno Decálogo de um Cara Sistemático consiste justamente nisto: ordem na casa, para somente depois, a partir disto, dispor-se a ordenar o que quer que seja. Afinal, as verdadeiras mudanças ocorrem de dentro para fora!
Vez por outra posto fotos da minha casa. Quando entra um item novo, ou mudo tudo de lugar para “reformar” o apartamento sem ter comprado nada (mania que peguei da Dona Mirian). Minha vocação inicial era para Arquitetura e Urbanismo, tenho alguma noção. Uma amiga perguntou, tempos atrás: “Beleza Fer, tudo lindo, mas é sério que sua casa está sempre assim, linda e arrumada, como nos comerciais de margarina?”. Hum... uns 90% sim, e os 10% restantes eu arrumo com aquelas espiadelas antes de sair.
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