domingo, 3 de abril de 2022

080 AO CHEIRO DAS ÁGUAS

“Visto que os seus dias estão determinados, contigo está o número dos seus meses; e tu lhe puseste limites, e não passará além deles. Desvia-te dele, para que tenha repouso, até que, como o jornaleiro, tenha contentamento no seu dia. Porque há esperança para a árvore que, se for cortada, ainda se renovará, e não cessarão os seus renovos. Se envelhecer na terra a sua raiz, e o seu tronco morrer no pó, ao cheiro das águas brotará, e dará ramos como uma planta”. (Jó 14:5-9)

De acordo com a Bíblia, essas foram palavras de Elifaz, de Temã, um dos amigos de Jó. Os outros dois: Bildade, de Suá; Zofar, de Naamate. Jó, por sua vez, vivia na terra de Uz.

Vamos ao contexto em que as palavras de Elifaz foram ditas:

“Quando os três amigos de Jó, Elifaz, de Temã, Bildade, de Suá, e Zofar, de Naamate, souberam de todos os males que o haviam atingido, saíram, cada um da sua região. Combinaram encontrar-se para, juntos, irem mostrar solidariedade a Jó e consolá-lo. Quando o viram a distância, mal puderam reconhecê-lo e começaram a chorar em alta voz. Cada um deles rasgou seu manto e colocou terra sobre a cabeça. Depois os três se assentaram no chão com ele, durante sete dias e sete noites. Ninguém lhe disse uma palavra, pois viam como era grande o seu sofrimento”. (Jó 2:11-13)

Passados esses sete dias, “Jó abriu a sua boca...” (capítulo 3, verso 1), tendo início uma conversa registrada nos capítulos 3 a 32 do mesmo livro. Trinta capítulos, ou o equivalente a três quartos de todo o conteúdo do livro, como uma transcrição daquele debate. Disse debate, e não conversa, porque essa conotação é bem evidente na obra. Havia uma divergência entre eles. Jó abriu a sua boca e começou a falar... Então respondeu Elifaz, de Temã... Então Jó respondeu... Então Bildade, de Suá, respondeu... Então Jó respondeu... Então Zofar, de Naamate, respondeu... até que “aqui terminam as palavras de Jó”. (Jó 31:40)

Então (olha o “então” aqui de novo)... “Então esses três homens pararam de responder a Jó, pois este se julgava justo. Mas Eliú, filho de Baraquel, de Buz, da família de Rão, indignou-se muito contra Jó, porque este se justificava diante de Deus. Também se indignou contra os três amigos, pois não encontraram meios de refutar Jó, e mesmo assim o tinham condenado. Eliú tinha ficado esperando para falar a Jó porque eles eram mais velhos que ele. Mas, quando viu que os três não tinham mais nada a dizer, indignou-se”. (Jó 32:1-5)

Segue-se um longo discurso – não mais um debate, e menos ainda uma conversa – pelos seis capítulos seguintes, porção do livro em que apenas o jovem Eliú se manifesta. Jó nada fala. Elifaz, Bildade e Zofar, semelhantemente, nada falam.

Enfim chega o capítulo 38 do livro e... “Então o Senhor respondeu a Jó do meio da tempestade e disse: Quem é esse que obscurece o meu conselho com palavras sem conhecimento? Prepare-se como simples homem; vou fazer perguntas a você, e você me responderá”. (Jó 38:1-3)

Pelos quatro capítulos seguintes o Senhor Deus diz muitas coisas, basicamente lançando perguntas – perguntas que apontam para a sua grandeza e a pequenez do ser humano – para as quais uma única voz ousa dizer algo:

“Então Jó respondeu ao Senhor: Sou indigno; como posso responder-te? Ponho a mão sobre a minha boca. Falei uma vez, mas não tenho resposta; sim, duas vezes, mas não direi mais nada”. (Jó 40:3-5)

e 

“Então Jó respondeu ao Senhor: Sei que podes fazer todas as coisas; nenhum dos teus planos pode ser frustrado. Tu perguntaste: Quem é este que obscurece o meu conselho sem conhecimento? Certo é que falei de coisas que eu não entendia, coisas tão maravilhosas que eu não poderia saber. Tu disseste: Agora escute, e eu falarei; vou fazer perguntas, e você me responderá. Meus ouvidos já tinham ouvido a teu respeito, mas agora os meus olhos te viram. Por isso menosprezo a mim mesmo e me arrependo no pó e na cinza”. (Jó 42:1-6)


E por fim o epílogo:

 

“Depois que o Senhor disse essas palavras a Jó, disse também a Elifaz, de Temã: Estou indignado com você e com os seus dois amigos, pois vocês não falaram o que é certo a meu respeito, como fez meu servo Jó. Vão agora até meu servo Jó, levem sete novilhos e sete carneiros, e com eles apresentem holocaustos em favor de vocês mesmos. Meu servo Jó orará por vocês; eu aceitarei a oração dele e não farei a vocês o que merecem pela loucura que cometeram. Vocês não falaram o que é certo a meu respeito, como fez meu servo Jó. Então Elifaz, de Temã, Bildade, de Suá, e Zofar, de Naamate, fizeram o que o Senhor lhes ordenara; e o Senhor aceitou a oração de Jó. Depois que Jó orou por seus amigos, o Senhor o tornou novamente próspero e lhe deu em dobro tudo o que tinha antes. (...) Depois disso Jó viveu cento e quarenta anos; viu seus filhos e os descendentes deles até a quarta geração. Então morreu, em idade muito avançada”. (Jó 42:7-10 e 16)



O livro de Jó, um dos meus favoritos na Bíblia. Nessa primeira parte do escrito 080, um pequeno resumo dele. Contadas, na minha Bíblia de Estudo, 50 páginas; resumidas em aproximadamente 900 palavras.

 

Se nos fosse dado a conhecer apenas o registrado nos versos 11 e seguintes do capítulo 2, bem como todo o mais dos capítulos 3 a 42, ficaríamos confusos. Digo isso porque os discursos de Elifaz, Temã e Zofar (inicialmente) e até mesmo o de Eliú (mais adiante) nos parecem corretos. E o são, de certo modo. Tomemos como exemplo o trecho inicial deste escrito (Jó 14:5-9), atribuído a Elifaz. Ao lermos: “Visto que os seus dias estão determinados, contigo está o número dos seus meses; e tu lhe puseste limites, e não passará além deles”; ou: “Porque há esperança para a árvore que, se for cortada, ainda se renovará, e não cessarão os seus renovos. Se envelhecer na terra a sua raiz, e o seu tronco morrer no pó, ao cheiro das águas brotará, e dará ramos como uma planta”, elas não pareceriam as palavras de um louco. Menos ainda, pareceriam palavras de um homem que quisesse afrontar ao Senhor. Não, de forma alguma. Elas são corretas, de certo modo. Elas contêm verdades. Tanto é que exatamente o que disse Elifaz, cumpriu-se na vida de Jó: sua condição era como a de uma árvore cortada, seca e sem vida... mas ao cheiro das águas – a presença do Senhor – brotou, foi tornado novamente próspero, deu ramos como uma planta (viu seus filhos e os filhos dos filhos dos filhos) e por aí vai.


Há vários outros textos nas Escrituras que afirmam serem os nossos dias conhecidos pelo Senhor. Ele tem a conta de cada um deles. Igualmente, muitos e muitos textos sobre o poder de Deus em transformar milagrosamente uma situação, transformando em poderoso exército o que até instantes atrás era um monte de ossos secos. Assim, colocando estes óculos, digo que as palavras de Elifaz não soam como loucura. Há verdades nelas.


Mas então (olha o “então” aqui de novo) por que sobre essas e outras tantas palavras aparentemente corretas, tanto de Elifaz, como de Bildade, Zofar – e até poderíamos estender a Eliú – está registrado que o Senhor se indignou? Mais que isso, consta que eles mereciam ser castigados pela loucura que cometeram.


Uow!!!


Exatamente por isso eu falei lá atrás que ficaríamos confusos. E Ficamos mesmo, toda vez que dizemos algo sobre as coisas (qualquer coisa), sem conhecermos o que Deus pensa a respeito delas; ou os propósitos e desígnios dEle, que por vezes não nos foram revelados.


O conhecimento do capítulo 1 de Jó, bem como dos versos 1 a 10 do capítulo 2, muda tudo. Ali é aberta a visão completa sobre o que estava acontecendo com Jó. Mas seus amigos não sabiam. Previamente a todas as tribulações de Jó, houve uma conversa entre Deus e Satanás nas regiões celestiais. Uma permissão foi dada ao inimigo para tocar num homem “íntegro e justo, que temia a Deus e evitava fazer o mal” (capítulo 1, verso 1), sobre quem o Senhor da Glória dizia “meu servo Jó; não há ninguém na terra como ele, irrepreensível, íntegro” (verso 8).


“Nossa, mas por que Deus fez isso com ele? Ou, visto de outra forma, por que permitiu que o inimigo o tocasse? Que Deus ruim!”... poderá alguém questionar ou afirmar.


Ouso lançar duas respostas.


Primeira: Deus é SOBERANO, pode fazer o que quiser. Simples e direto.


Segunda: Para o bem de Jó, para que ele finalmente VISSE ao Senhor. Lembra?! “Meus ouvidos já tinham ouvido a teu respeito, mas agora os meus olhos te viram”. O servo Jó, homem íntegro, justo, temente a Deus, irrepreensível, que evitava o mal, inigualável na terra, já era assim apenas por OUVIR FALAR de Deus. Então (olha o “então” aqui de novo)... que homem ele não se tornou após VER a Deus?! Contemplar ao Deus Eterno com seus próprios olhos, algo que nem a Moisés foi dado.


Tenho cá comigo a convicção de que a “simples” visão do Senhor fez Jó agradecer por cada perda, cada desastre, cada ferida, cada lancinante dor que sentiu nos dias de árvore cortada. E ainda que (por mera hipótese) não viesse restauração, restituição, porção dobrada, filhos dos filhos dos filhos, e longa velhice, ele findaria sua existência afirmando ter valido tudo a pena, pedindo mais e mais perdas, mais e mais chagas, mais e mais dor, para um segundo e breve momento de VISÃO DE SEU DEUS.



Com este singelo escrito, reflito eu aqui sobre o seguinte:


- O ser humano é bastante ousado e louco por falar de coisas que não conhece completamente. Nossos dias são exuberantes nisto, quando vemos especialistas em nada opinando sobre tudo;


- Falamos muito sobre Deus, rápido demais, convictos demais, com dúvidas de menos. Isso também me parece loucura. “Por que quem compreendeu a mente do Senhor?” (Romanos 11:34; 1 Coríntios 2:16);


- Não temos a menor noção do que é a visão da Glória do Senhor, e do quanto isso evidencia nossa limitação;


- Acredito mesmo que todas as tribulações deste mundo, as piores e mais duras que possamos passar, são nada, nada, nada, quando comparadas com a oportunidade de VER a Deus, conhecê-lo além das palavras.



E finalizando, digo não a você, mas ao meu Senhor, que se nestas poucas palavras eu disse algo errado, incompleto, ou que tenha entristecido ao Seu coração, ou ainda a terrível condição de tê-lo feito indignar-se contra mim, eu menosprezo a mim mesmo e me arrependo no pó e na cinza, pedindo perdão por minhas incompreensões sobre o que pouco ou nada sei.


* Este escrito é minha oferta de gratidão a Deus pela vida do Tio Cilas, e por tudo que passamos em família nessa semana. Escrevo-o no domingo, 03/04/2022, pelo fim de tarde. Exatamente uma semana atrás, chegava-nos a notícia de que o tio precisaria passar por uma cirurgia cardíaca urgentemente, com altíssimo risco. No dia seguinte isso ocorreu, e na mesma tarde ele precisou ser aberto uma segunda vez. Na noite de segunda ouvimos dos médicos que “se a família quiser se reunir, a hora é agora; as chances dele sobreviver são mínimas”. UTI. Entubação. Vida ou morte por um fio. Cinco dias depois, na manhã de sábado (ontem), saiu da UTI. Andando. Sorrindo. Sereno. Ouvindo sons do Céu. Imagino o quanto mais não deve ter visto e experimentado das coisas celestiais. No final da tarde de segunda era como uma árvore cortada. Dias depois, ao cheiro das águas, está lá, vivo, renovado, e creio totalmente transformado por hoje conhecer ao seu Senhor de um modo mais profundo.

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