quarta-feira, 25 de agosto de 2021

053 MAIS QUE VENCEDORES

Dia desses eu conversava com uma pessoa muito querida, que acabara de alcançar um feito bem especial, algo realmente difícil. Ao longo dos meses essa conquista foi ganhando ares de possibilidade, mais e mais perto a cada tentativa, até que finalmente ela conseguiu. Não sem drama e sofrimento, claro. Dizia-me que quando tudo parecia concretizado, o gosto da vitória quase materializado, mas ainda faltando um último detalhe... o detalhe não acontecia, e não acontecia, e não acontecia... até que mentalmente ela começou a aceitar que, de novo, ficaria no “quase”. Algo assim: “Eu sei que nunca vou conseguir mesmo. Cheguei perto, mas a realidade é que este feito é muito pra mim”. Veio então uma prostração, a derrota mental, que quase foi seguida por uma derrota concreta. Mas no final tudo deu certo. Apesar de sua mente, ela conseguiu.

Conversávamos sobre isso e ela me dizendo que sempre foi assim. Sempre acreditando que as coisas não dariam certo. Eu ouvindo, atentamente. Uma oitiva acolhedora, atenta, não daquelas que a gente ouve, mas já tem falas e mais falas preparadas para colocar para a pessoa. Acho tão feio isso. Soa como falta de empatia pelo outro. Tem vezes que a gente precisa só ouvir, e não desconstruir tudo o que o outro colocou na conversa. No caso, eu faria esse papel se logo sacasse uns lugares comuns do tipo “Deixe disso!”, “Não pense assim”, “Você nasceu para brilhar”. São colocações válidas, sim, mas a gente pode comunicar tudo isso de outras formas.

Ouvi tudo e tal, até que em algum momento eu falei um pouco sobre como eu sou nessa área. Quem me conhece, já pode imaginar o que saiu: “Então, eu já costumo entrar com a certeza de que vai dar certo”, “Sempre espero o melhor resultado”, “Nunca deixo que a derrota na mente aconteça primeiro”. Afinal, por mais confiantes que sejamos, mais otimistas, isso por si não garante conquista alguma. Existe um lado concreto que precisa acontecer, que vai além dos pensamentos confiantes. E só na hora mesmo é que saberemos o resultado. Mas entrar mentalmente derrotado na questão, isso eu não faço não. Na minha mente, eu já entro na causa confiando que vai dar tudo certo.

- Poxa, eu queria ser assim. Ela disse.

- Mas você é. Somos mais do que vencedores. É a nossa identidade.

Foi quase possível escutar um sorriso do outro lado, embora a conversa fosse por áudio no zap.

Mais que vencedores. Expressão encontrada no seguinte texto:

Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? Como está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte todo o dia; somos reputados como ovelhas para o matadouro. Mas em todas estas coisas somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Pois estou convencido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor. (Romanos 8:35-39)

Acho interessante essa expressão, porque ela me leva a pensar num nível além da vitória. Afinal, se alguém é vencedor, significa que chegou ao topo, é o número um. Haveria, portanto, como estar à frente de quem já é o primeiro? Bem, parece que sim. O “parece” é meramente retórico, porque se a Palavra o afirma, é claro que há este lugar além do primeiro lugar.

Como seria isso? Sei não. Seguramente, sei não. Mas gosto de especular. Creio tenha a ver não com resultados naturais, rankings, posições ou scores. Ser mais do que vencedor tem a ver com IDENTIDADE, independentemente de circunstâncias. É um olhar todo particular sobre as situações da vida, que muda tudo. O próprio texto bíblico sinaliza neste sentido, pois coloca várias possíveis intercorrências da vida, sem que nenhuma delas tenha o potencial de roubar a mais que vitória que está em Cristo Jesus.


A estrutura do mundo é toda formatada para a competição, ao melhor estilo Highlander: SÓ PODE HAVER UM. Figurativamente, cabeças e mais cabeças precisam ser cortadas, para que ao final o mais forte sobreviva. Sozinho. Sem iguais para interagir. Cheio de poder e vazio de relacionamentos. Que chato. Quero não. O mítico personagem chegou ao topo, mas não conhecerá o lugar que fica acima desse teto. Um lugar celestial.

Gosto de pensar num mundo onde todos sejam vencedores. Bem utópico, eu sei, mas só se utopia agora signifique acreditar no modelo que a Palavra estabelece. Se ela não diz que haverá “apenas um mais que vencedor”, mas sim que “somos mais que vencedores”, significa que este lugar além do primeiro não é reservado para uma única pessoa, iluminada e privilegiadíssima. E nenhuma cabeça precisa ser cortada para chegar lá. Não. É um lugar onde cabem mais que um. E por que não uns três ou quatro? Haveria algum indicativo de que não caibam dezenas ou centenas? Seria abusar demais da fé crer que TODOS podem ser mais que vencedores?

A resposta me parece óbvia: Todos podem estar neste lugar e viver esta condição incrível.

Ser vencedor depende de nós. Ser mais que vencedor é quando dependemos dEle.

Não por acaso, no texto de João 16:33 Cristo diz para termos bom ânimo, pois Ele venceu o mundo. Venceu, e tornou a todos que estão nEle coerdeiros de todas as suas conquistas. Não há mais esforços de nossa parte. O herdeiro recebe. Aquele que nos dá a herança já fez o trabalho pesado. Agora é desfrutar.

Eu sempre fui assim. Confiante. Ousado. Sempre entrei numa questão com a certeza da vitória. Claro que na vida real houve vezes que fiquei em segundo, terceiro, ou bem mais para trás nas posições da lista, porque é como é. Mas mentalmente, jamais me coloquei no páreo visualizando antecipadamente aquelas posições mais afastadas. Uma mentalidade vencedora é um bom começo. Não raro, foi nela que encontrei uns Watts extras para o esforço final que me levou ao topo, quando fisicamente não havia mais reserva alguma.

Se alguma vez isso incomodou aos outros? Certamente. As pessoas apreciam muito uma falsa-modéstia, mas não lidam bem com a mentalidade confiante no outro. Acho pura bobagem. Como eu costumo dizer, são dois trabalhos: o de não gostar, e o de ter que lidar com tal desgosto, porque do lado de cá as coisas seguem normalmente.

Exemplos legais dessa temática eu extraio da bike. Pratico ciclismo faz 3 anos, e especialmente nos últimos 12 meses eu evoluí bem na minha performance. Pedais bastante longos, subidas dificílimas, tentativas de recordes em alguns segmentos. Coisas assim passaram a fazer parte da minha rotina de treinos e passeios. Como funciona? Bem simples: eu estabeleço uma meta e saio para batê-la. Saio para batê-la em 100% das vezes. Dá tudo certo em todas? Não. Mas seguramente dá, digamos, em 8 de cada 10 tentativas. E fico eu sofrendo pelas 2 que não consegui? Jamais. Sigo treinando, aprimoro, ajusto o que deu errado, e parto para novas tentativas. Dessas duas, quase sempre consigo mais uma. E fica pendente aquela 1 de 10, que a essa altura eu já aprendi que está além do meu alcance. Ela fica para trás. Sigo para outros objetivos. Mentalidade vencedora. Fiz tudo. Alcancei 9 de 10. A 10ª não era para mim. Venci em tudo que era possível. Segue o baile.

“Mas Fer, eu não sou assim. Como faz para ser?”

Sinceramente, não sei se consigo passar uma chave fácil. Por eu sempre ter sido assim, e não ter passado por um processo de virada de mentalidade derrotada para mentalidade vencedora, tenho pouco a dizer sobre o “como fazer”. Mas acredito em mudanças. Pensarei a respeito. Estudarei um pouco. Falarei com pessoas que sabem mais do que eu. E quando eu descobrir alguns trilhos, volto aqui para escrever mais deste tema.

domingo, 22 de agosto de 2021

052 HATERS

Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme suas próprias concupiscências. E desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas. Mas tu, sê sóbrio em tudo, sofre as aflições, faze a obra de um evangelista, cumpre o teu ministério. (2 Timóteo 4:3-6)

Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós. (Mateus 5:10-12)

Estes dois textos das Sagradas Escrituras comportam uma leitura conjugada. O primeiro, trecho de uma carta escrita pelo apóstolo Paulo a Timóteo; o segundo, fragmento do famoso Sermão do Monte, proferido por Cristo a uma grande multidão. Alguns anos os separam, cronologicamente falando, mas um mesmo tema os une: um mesmo alerta, sobre tempos difíceis que viriam. Claramente, tempos que já estamos vivendo.

Existe um fenômeno muito interessante atualmente, que costuma acontecer nas redes sociais. Uma “celebridade” está ali na sua, vivendo a vida que pediu a Deus, e tudo são flores: milhões de seguidores, monetização gorda em cada vídeo que sobe nas redes, eventualmente um programa de TV, matérias, patrocinadores, fama. O escrito 039 FAMA E SUCESSO fala um pouco sobre a diferença entre os dois conceitos. Recomendo uma releitura.

Até que num belo dia a “celebridade” resolve falar o que pensa de verdade. Num lapso de “sincericídio” – momento de sinceridade equivalente a um suicídio – ela sobe uma publicação honesta, gerando um rebuliço nas redes sociais. O efeito é imediato e começa a gritaria: “Fulano é não-sei-das-quantas-fóbico!”, “Discurso de ódio!”, e blá blá blá. OPERAÇÃO CANCELAMENTO em curso, e a vida da “celebridade” torna-se o exato oposto de tudo que um dia pediu a Deus. Seguidores escoando pelos dedos, muitas reações de outras “celebridades”, patrocinadores ameaçando romper, perspectiva de menos grana para bancar a vida bacana... e logo ela se dá conta de que alguma coisa precisa ser feita. Ou então será o fim.

Aí é que o tal fenômeno ganha ares de piada. Piada que de engraçada nada tem.

Sai uma nota explicando que a fala foi tirada de seu verdadeiro contexto... e que ela não queria dizer nada daquilo... que foi mal interpretada... que é muita maldade o que estão fazendo... e mais blá blá blá, até que a cereja do bolo fica para o final (aliás, a cereja é sempre no final): “Mas ainda assim, embora eu não tenha ofendido ninguém e nem tenha sido a intenção, se alguém se sentiu ofendido eu peço desculpas”.

E a mágica acontece. Colocado em execução o “Protocolo Desculpa Esfarrapada” do Manual dos Consultores de Imagem, rapidão ele surte efeitos. O cancelamento perde o ritmo, muitos detratores voltam até a elogiar a celebridade, reforçando o discurso de que talvez tinha sido mal interpretada, e assim as melancias se acomodam na caçamba do caminhão. Vida que segue. Agora com a “celebridade” mais amestrada do que nunca, pós-graduada que está em sobre o que não falar para, assim, sempre manter sua bela e imaculada imagem, mais do que nunca formatada ao que as multidões gostam e toleram ouvir.

Acredito que você já viu coisas assim acontecerem em anos recentes. Se não, observe mais atentamente e logo se dará conta do poder da patrulha do politicamente correto. Eles nunca dormem. Eles nunca brincam em serviço.

Mas o que isso tem a ver com a Igreja, Fer?

Resposta: TUDO!

A mensagem do Evangelho é extremamente ofensiva aos ouvidos progressistas destes nossos tempos. Se já o era há 20 séculos, quando aqueles dois textos do início foram escritos, imagine agora?! “Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina”... Claramente, tempos que já estamos vivendo. Quanto a isso, realmente não vejo muita margem para dúvidas, então vou me concentrar não na tentativa de demonstrar que estes dias são os nossos, mas sim em qual será a postura da Igreja do Senhor.

O “em cima do muro” não é alternativa, claro. Só pode haver uma de duas opções, diante das reações do mundo à pregação franca do Evangelho:

1) A Igreja mentem-se firme e intransigente quando ao conteúdo da pregação, arcando com as consequências desta decisão;

ou

2) A “igreja” adota o “Protocolo Desculpa Esfarrapada” do Manual dos Consultores de Imagem, moldando suas falas e práticas àquilo que as massas aceitam e desejam... ainda que a partir dali não se possa mais falar em Igreja, e sim em “igreja”. Não mais a Noiva do Cordeiro; agora, apenas uma instituição humana, bastante desprezível por sinal.

As perguntas centrais deste escrito são: ESTAMOS PREPARADOS PARA O ÓDIO? VAMOS REALMENTE NOS ALEGRAR COM AS INJÚRIAS E PERSEGUIÇÕES? SOFREREMOS AS AFLIÇÕES DO EVANGELISTA ATÉ O FIM, CUSTE O QUE CUSTAR?

Ou vamos jogar o jogo dos “haters”? Permitiremos que a popularidade nos corrompa? Entraremos felizes nas mais odientas listas de cancelamento? Cantaremos louvores como Paulo e Silas, após açoites na prisão?

Estes dias estão próximos. Tenho certeza disso. As movimentações nos mais sujos esgotos estão a mil por hora. Um discurso politicamente correto aqui. Um Conselho pretensamente protetor de minorias ali. Projetos de Lei, cheios de “jabutis” e pegadinhas. A sempre presente e vigilante mídia. A normalização do absurdo pelas autoridades. Movimentos velados – e outros nem tanto – para calar as bocas dos pregadores. Sim, muitas coisas acontecendo abaixo da superfície, para na hora certa o cerco fechar. A minha geração verá estes dias. Não tenho dúvidas disso. Verei pastores sendo retirados do púlpito para o banco de uma delegacia, para ali assinar um termo circunstanciado, e começar sua coleção de processos por propagar o que a Nova Agenda já tem chamado de Discurso de Ódio da Igreja.

Sim, isso mesmo. Agora o Evangelho é tomado por discurso de ódio. Estes dias chegaram, e as consequências práticas para a Igreja que realmente se posicionar, intransigente, logo chegarão também.

Fomos alertados pelo Senhor de que estes dias chegariam. Sem surpresas, portanto. E se alguém se surpreende, digo que me surpreende mais o fato de que tal pessoa não soubesse disso. Porque está na Palavra desde sempre, há 20 séculos. Mas tem muita gente que só gosta de ler as partes sobre vitória, bênçãos, prosperidade, etc. Tudo isso está lá também. Está lá com todas as demais partes que ela evita ler. Mas continuam lá e vão rolar. Já está rolando.

Quem tem ouvidos, ouça!

Hoje de manhã eu fui cultuar a Deus no templo. Eu o cultuo diariamente na minha casa, sobre a minha bike, enquanto caminho pela cidade. Não há limites de forma ou lugar. Mas cultuar no templo é bom. Faz parte da vida cristã. Por isso eu vou.

Eu ali, observando o prédio bonito e moderno, os recursos tecnológicos, poltronas confortáveis, aparelhos de ar-condicionado (super benvindos nestes dias de temperatura acima dos 30 graus), estacionamento para os veículos, e diversas outras comodidades, de repente começo a imaginar se as pessoas continuariam vindo se nada disso estivesse ali. Fui mais longe nos meus pensamentos: e se além de não termos essas comodidades, a coisa fosse para um quadro muito pior, de perseguições, reuniões clandestinas, riscos de prisões e mortes? Estaríamos todos dispostos a pagar tal preço?

Reformulando: estaríamos não... ESTAMOS?

Porque o “estaríamos” pode sugerir (enganosamente) tratar-se de uma mera HIPÓTESE. Enquanto que o “estamos” deixa muito claro tratar-se de uma CERTEZA. Vai rolar! Já está rolando em muitos lugares do mundo. Logo baterá em nossas portas brasileiras. Certeza, viu.

Um “evangelho fofo” não vai dar conta. Acenará a bandeira branca da covardia e ajustará seu discurso ao que os ouvidos do mundo desejam ouvir. Já tem aos montes por aí. Mas um “evangelho” assim sempre precisará de aspas e será escrito com “e” minúsculo, porque pode ser qualquer coisa, menos o Evangelho da Verdade, com “E” bem maiúsculo, radical, aquele que incomoda mesmo os ouvidos do mundo. A Verdade incomoda o Mal.

Os joios e os trigos muito se parecem. A separação já começou.

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

051 O CONSELHO DE JETRO

No dia seguinte Moisés assentou-se para julgar as questões do povo, e este permaneceu em pé diante dele, desde a manhã até o cair da tarde. Quando seu sogro viu tudo o que ele estava fazendo pelo povo, disse: ‘Que é que você está fazendo? Por que só você se assenta para julgar, e todo este povo o espera em pé, desde a manhã até o cair da tarde?’ Moisés lhe respondeu: ‘O povo me procura para que eu consulte a Deus. Toda vez que alguém tem uma questão, esta me é trazida, e eu decido entre as partes, e ensino-lhes os decretos e leis de Deus”. Respondeu o sogro de Moisés: ‘O que você está fazendo não é bom. Você e o seu povo ficarão esgotados, pois essa tarefa lhe é pesada demais. Você não poderá executá-la sozinho. Agora, ouça-me! Eu lhe darei um conselho, e que Deus esteja com você! Seja você o representante do povo diante de Deus e leve a Deus as suas questões. Oriente-os quanto aos decretos e leis, mostrando-lhes como devem viver e o que devem fazer. Mas escolha dentre todo o povo homens capazes, tementes a Deus, dignos de confiança e inimigos de ganho desonesto. Estabeleça-os como chefes de mil, de cem, de cinquenta e de dez. Eles estarão sempre à disposição do povo para julgar as questões. Trarão a você apenas as questões difíceis; as mais simples decidirão sozinhos. Isso tornará mais leve o seu fardo, porque eles o dividirão com você. Se você assim fizer, e se assim Deus ordenar, você será capaz de suportar as dificuldades, e todo este povo voltará para casa satisfeito’. Moisés aceitou o conselho do sogro e fez tudo como ele tinha sugerido. Escolheu homens capazes de todo o Israel e colocou-os como líderes do povo: chefes de mil, de cem, de cinquenta e de dez. Estes ficaram como juízes permanentes do povo. As questões difíceis levavam a Moisés; as mais simples, porém, eles mesmos resolviam. Então Moisés e seu sogro se despediram, e este voltou para a sua terra. (Êxodo 18:13-27) Deserto do Sinai, maio de 1462 a.C.

E assim estava organizada a primeira estrutura judiciária do povo de Deus.

Tenho 44 anos de idade. Daqui um mês completarei 22 anos do meu primeiro dia de trabalho no Poder Judiciário. Literalmente, MEIA VIDA. É clichê dizer, mas não tem como não dizer: o tempo voa. Metade dos meus dias como Técnico Judiciário na Justiça Federal. Uau!!!

Eu poderia ter vivido uma história bem linear nesses vários anos. Ingressei por concurso público em 1999. A história de como fiquei sabendo da vaga, e os poucos minutos que separaram o momento dessa notícia e a confirmação da minha inscrição, no interior da agência central da Caixa Econômica Federal de Maringá, foi algo muito doido. Noutra oportunidade contarei detalhes; uma historinha que vale muito a pena. Até que no dia previsto eu estava numa carteira de aula do Colégio Gastão Vidigal, trajando meus tradicionais chinelo, bermuda e camiseta, mais uma caneta não mão, e um caderno de questões à minha frente. Como de costume, respondi a tudo muito rapidamente e fui seguir minha vida, como se nada tivesse acontecido. Semanas depois, recebo a ligação de um amigo – Raul Ignatius, eufórico do outro lado da linha – contando que eu havia ficado em 2º lugar no concurso para o meu cargo. Havia uma vaga. Seiscentos e tantos candidatos. Boa chance de chamarem mais de um, e isso realmente aconteceu. Depois fiz o teste de digitação (bem molezinha), documentação providenciada, exames admissionais realizados em Curitiba, assinatura do Termo de Posse, e finalmente o início do exercício no cargo: dia 20/09/1999. Muita coisa na minha vida iria mudar a partir daquele dia, mas eu não tinha noção do quanto.

Sim, eu poderia ter vivido uma história bem linear, e digamos que nos primeiros 4 anos de trabalho foram mesmo. Um ou outro fato que mereceriam menção, mas tudo dentro da normalidade da carreira de um modesto Técnico Judiciário. Dificuldades iniciais, novos colegas, finalmente uma aplicação prática dos conhecimentos da Faculdade – que eu ainda cursava, pois ingressei na JF quando estava no 3º ano de Direito – uma mudança de Vara Federal para uma nova, instalada no início de 2001. Este último fato teve consequências importantes, localmente falando, pelos 2 anos seguintes. E depois, na década contada de 2004 a 2014, consequências muitíssimo maiores, que me levaram a conhecer boa parte do Brasil e da estrutura do Poder Judiciário Brasileiro, enquanto realizava meu trabalho. Disso também falarei mais detalhadamente em escritos futuros, senão este aqui ficará com dezenas de páginas.

No meu nível de atuação – modesto, se comparado com outros tantos agentes do sistema de Justiça: advogados, servidores de cargos mais importantes, juízes, promotores, delegados, ministros – eu posso dizer que conheci em boa medida a estrutura, os órgãos, as diferenças regionais de atuação, os bastidores da Justiça. Numa busca rápida aqui, de memória, anoto que estive em pelo menos 12 Estados brasileiros a trabalho. Para um Técnico Judiciário, não é pouca coisa. Realmente, conheci muito mais do que normalmente teria oportunidade, se tivesse me mantido confortavelmente trabalhando todo o tempo em Maringá. Mas sempre fui daqueles que metiam a cara em novos projetos, aceitando (sem pensar muito) convites que me tirariam de casa por meses ou mais de ano. Nada como os ímpetos da juventude! Confesso que hoje uns bons sacos de dinheiro não me tirariam de casa, quanto menos um convite para um projeto que, muitas vezes (como foram alguns casos da minha história) não traziam significativa compensação financeira. Eu ia mesmo é pelo amor à camisa e pelo senso de estar realizando algo importante no Sistema de Justiça.

Enfim, tudo isso para dizer que, claro, um Sistema de Justiça precisa de muitos órgãos e pessoas envolvidas para bem funcionar. Mesmo a maioria das pessoas que não tenham qualquer formação jurídica, apenas com base no bom senso e noções mínimas de organização, chegariam a esta mesma conclusão. Mas o grande profeta da história do povo de Deus não se deu conta disso.

As estimativas apontam para 2 a 3 milhões de pessoas no deserto. As 12 Tribos multiplicaram-se e cresceram muito. De repente estavam livres. Uma multidão liderada por Moisés. Para permitir um olhar mais concreto sobre a coisa toda, as regiões metropolitanas de Campinas/SP e de Curitiba/PR têm, cada uma, pouco mais de 3 milhões de habitantes. Agora imagine que nestes dois lugares houvesse apenas 1 juiz para decidir todos os conflitos ocorridos no âmbito de suas jurisdições territoriais. Isso mesmo! Um único juiz para Campinas e região. Um único juiz para Curitiba e região.

CAOS.

Não tinha como funcionar. E não funcionou mesmo! O texto bíblico de abertura deixa isso muito claro. Precisou vir um olhar de fora – o sogro de Moisés não era israelita – para enxergar o óbvio, e então passar o precioso conselho ao atarefadíssimo profeta. Ocorre-me agora a lembrança de uma cena do filme “O Todo Poderoso”, quando Jim Carrey recebe poderes divinos e suas responsabilidades. Uma delas, responder aos pedidos de oração de toda a humanidade. Como eram muitos e ele não conseguia analisar cada um, teve a brilhante ideia de responder SIM para todos, numa espécie de mala-direta. Quem viu o filme deve se recordar das cenas hilárias. O que me leva a pensar, criativamente, que Moisés poderia ter feito o mesmo. Ao invés de ocupar-se com cada questão em particular, como fazia desde a manhã até o baixar do Sol, ele poderia ter brandido aquele mesmo cajado que abriu o Mar Vermelho, para magicamente dar solução do tipo SIM-MALA-DIRETA para todas as controvérsias daquelas 2 ou 3 milhões de pessoas.

Mas não era assim. Cada caso precisava de um olhar atento. Somente assim haveria Justiça efetiva.

Como disse, eu trabalho no Poder Judiciário. Diariamente abro o sistema de processo eletrônico e encontro centenas de processos aguardando movimentação. Seria maravilhoso poder resolver todos eles num brandir de cajado – no caso, de teclado – e concluir meu expediente com tudo zerado, processos em dia. Entretanto, semelhantemente ao caso de Moisés com a multidão, não posso fazer isto. Porque na verdade eu não tenho apenas centenas de processos à minha frente. É muito mais que isso: cada processo representa questões que envolvem PESSOAS. É mais que uma sequência de números. Muito mais do que um amontoado de documentos digitalizados em pdf. São vidas e direitos em jogo. Tudo precisa ser visto com atenção e respeito. Dá muito trabalho. Muitos amigos acham que tenho um "emprego molezinha" e que paga extraordinariamente bem. Nem um nem outro. O game é bem complexo. A grana já foi muito melhor em tempos passados.

Não sei se Moisés não se dava conta de que o formato era insustentável, embora isso nos pareça óbvio. O fato é que ele concentrou em suas mãos todas as decisões, desde as mais graves, até as de mínima complexidade. Pense naquele único juiz de Curitiba fazendo o mesmo... Questões penais, trabalhistas, empresariais, previdenciárias, cíveis, de comércio internacional, sanitárias, regulamentações, fiscais, etc, etc, etc... todas sendo depositadas sobre uma única mesa – ou caixa de entrada, já que agora os processos são digitais – para que um único homem (ou mulher) se debruce sobre cada uma. Sem chefes de gabinete, sem secretaria, sem estagiários... e os demandantes esperando ali mesmo a decisão. Imagine agora o tamanho da fila. O texto bíblico ganha nova perspectiva né?!

Felizmente, Moisés deu ouvidos ao sogro e implementou a tal primeira estrutura judiciária do povo de Deus. O texto não prossegue com detalhes sobre o resultado, mas presumo que tudo passou a caminhar muito melhor. É a presunção lógica. Sem brandir de cajado. Apenas a aplicação de um bom princípio de administração, que envolve a delegação de tarefas e poderes.

Eu sempre apreciei este texto.

Em minha primeira função de chefia, pelos idos de 2004, quando trabalhei no Tribunal Regional Federal em Porto Alegre, eu não sabia delegar. Não por querer concentrar poderes em minhas mãos, mas porque eu não sabia mesmo dar ordens, passar tarefas, cobrar respostas, e coisas do tipo, comuns no dia a dia de qualquer gestor. Na verdade, eu passava as tarefas básicas, só que não tinha nenhum jeito para fechar o ciclo. Se notava que algo estava demorando para acontecer, puxava logo para mim e dava eu mesmo a solução, sobrecarregando-me. As questões difíceis, imagine, não delegava de jeito nenhum. E naqueles projetos que eu me envolvia, quase tudo era complexo. Como Moisés, era de sol a sol meu expediente. Quantas e quantas vezes eu entrei naquele Tribunal antes de o sol aparecer, e fui para casa muito depois de ele desaparecer no horizonte. Modelo insustentável! Tempo para mais nada. Comer o que desse, banho e cama. Tudo igual no dia seguinte e no seguinte e no seguinte. Um Fer-Moisés.

Embora não tenha havido um Jetro na minha história, felizmente eu mesmo consegui perceber a insustentabilidade do modelo de trabalho. A impossibilidade material de continuar daquele jeito me levou a aprender na marra. Ou era isso, ou era um colapso físico e mental. Precisei pisar num chão novo, arriscar-me no escuro da delegação e ver no que daria. Felizmente, para descobrir que existem muitas outras pessoas excelentes no que fazem. Não raro, melhores do que eu. Foi libertador. Foi um alívio. Imagino que as minhas sensações de 2004, possam ter sido muito parecidas com as de Moisés em 1462 a.C, ao passear pelo arraial israelita, vendo os líderes de mil, de cem, de cinquenta e de dez cumprindo seus papeis, assim dando a ele tempo para observar melhor as coisas, conversar mais com Deus, estudar as muitas leis que o Senhor havia acabado de passar. Agora existia algo sustentável.

Quanto a isso, lembro-me perfeitamente bem de um momento de minha história profissional. Certa vez eu organizei um evento muito grande na Justiça, algo que envolvia centenas de pessoas, vários atores de diferentes órgãos. Foram semanas de preparação, muito, muito, muito trabalho mesmo. O resultado seria uma semana com dezenas de audiências simultâneas, em várias mesas colocadas num grande salão. Juízes, advogados, as partes dos processos, servidores da Justiça, prestadores de serviço, imprensa. E eu ali coordenando tudo. Como era de se esperar, no primeiro dia o que mais se ouvia era gente chamando o Fernando para resolver detalhes. Mas era apenas o ajuste fino. No geral estava tudo onde deveria estar. Cada pessoa em sua função e com os recursos necessários para fazer o show acontecer.

No segundo dia, três ou quatro vezes ouvi meu nome sendo chamado para resolver algo. No terceiro eu já estava invisível. O evento não precisava mais do Fer para acontecer. Era por aí que eu me dirigia a um local onde tinha visão completa do salão, normalmente lá pelas últimas e mais altas cadeiras do auditório. Sentava-me, descansava o queixo sobre as mãos, e ficava quieto. Apreciava a orquestra funcionando sozinha. Nem de maestro ela precisava mais. Meus chefes de mil, de cem, de cinquenta e de dez resolvendo tudo. Por vezes me dava um nó na garganta. Teve uma vez que efetivamente chorei. Justiça estava sendo feita. E eu sentindo a alegria indizível por ter cumprido minha missão naquele lugar.

domingo, 15 de agosto de 2021

050 NON DUCOR DUCO

 - Seu idiota!

- Idiota é você, sua louca!

- Louca? Você me chamou de louca?! Seu fracassado!

- Fracasso foi um dia ter escolhido você!

- Então o fracasso foi dos dois, porque me arrependo amargamente daquele dia.

... e por aí vai. Desse jeito. Pela próxima meia-hora.

Então a temperatura baixa um pouco; impera um silêncio sepulcral na casa; ela chora no banho, para que ele não veja; ele pega a moto no fim de tarde e sai por aí sem destino (acaba tomando umas, coisa que não fazia há muito tempo); ela nem sente vontade de comer nada no restante do dia; ele chega levemente alterado, nem toma banho e dorme no sofá; ela mal prega os olhos por toda a noite, e acaba levantando algumas vezes para dar uma olhada na sala, preocupada se ele teria saído novamente. E assim termina o dia de um casal em crise.

Discussões me incomodam muito. Jamais me sinto confortável nesse ambiente conflituoso. Seja no efetivo, seja nas “discussões” que simulamos em nossa mente. É pesado. É estressante. Toma conta de você e o resultado nunca é bom. A sensação de vencer um debate é boa. A de perder, péssima. E indago se numa discussão poderia sair alguém vencedor realmente? Cá comigo, penso que os envolvidos sempre perdem. Discussões não são positivas.

Não que eu tenha alcançado uma condição tal de controle dos meus ímpetos debatedores, mas certamente hoje o quadro é muito melhor do que foi no passado. Conforme anotei no escrito 013 AS OPINIÕES DOS OUTROS, com o tempo eu consegui enxergar que nem toda palavra a mim dirigida merece atenção. Existem pessoas que importam mais; outras, um pouco menos; por fim, aquelas cujas opiniões não fazem a menor diferença.

Calma, calma, com essa classificação não estou a sugerir que estas últimas, em especial, eu queira ver pelas costas, ou que deseje a elas coisas terríveis na vida. Isso seria péssimo. Não é o coração de Cristo batendo em mim; e preciso andar como ele andou. Seu amor era/é imenso e estava/está disponível para todos, mas ele tinha um grupo de pessoas mais próximas, com quem caminhava mais, conversava mais, ensinava mais. Ele não estava desprezando as outras, de forma alguma. Essa concentração de sua atenção nos Doze tinha a ver com a realização de seu propósito, por isso estava plenamente justificada e coerente com seus valores.

Houve dias em que eu apreciava um “bom” debate. No escrito 025 O EX-POLEMISTA eu falo um pouco disso: “Eu era um POLEMISTA. Um plantonista fiscalizador de informações, que adorava contrapor argumentos. Logo postava no perfil das pessoas as minhas opiniões, contrárias às deles, invadindo sem pedir licença um espaço que não era meu. Que coisa feia. Fazia isso e ainda achava que tudo bem. E para ficar completão o ambiente de debates sem fim, eu também postava muito nos meus espaços as minhas opiniões, e pessoas semelhantes a mim vinham invadi-lo com seus argumentos contrários, gerando minha reação, e uma nova dela, num ciclo insano”.

Embora hoje subjugado, aquele ímpeto de debater e prevalecer sempre precisa ser mortificado em mim. Domínio próprio – um Fruto do Espírito – tem a ver com isso. Se percebo que me brota uma sensação “boa” ao sair vencedor de um debate, ou ruim (sem aspas) por ter sido derrotado, já logo me dou conta de que tem coisa errada no ar. Porque, na verdade, não é preciso sair vencedor ou perdedor de uma conversa. Pior ainda quando a conversa vira debate. E o Everest às avessas é quando o debate vira discussão. Daí para a briga e níveis mais subterrâneos desse quadro dantesco, é um pulo. Um pulo no abismo.

- Você é um idiota, Fer!

- Sério? Mas por que idiota eu seria? Não me vejo assim. Ajude-me a enxergar, por favor. Quem sabe haja algum ponto idiota mesmo, e não percebo.

- Pare de ironia, Fer!

- Estou falando sério. Eu não me vejo como um idiota. Vamos conversar.

É beeem diferente de responder “Idiota é você, sua louca!”. O CICLO INSANO não se instala automaticamente. Você não fez sua parte nesta fogueira. A outra pessoa jogou um gravetinho no fogo; você não. Sem combustível, o fogo se apaga rapidinho. Sua palavra branda – não um revide irrefletido – pode não apenas ter evitado uma briga feia, mas aberto a possibilidade de um diálogo sobre algo que já estava passando da hora de ser conversado.

“Aaah, Fer. Fala sério! Vai dizer que você tem este autocontrole todo aí?” Então... não em 100% das situações, mas com certeza hoje as coisas estão bem melhores do que já foram na minha história. Eu estudei Direito na graduação superior. Ser um bom debatedor é ferramenta importante na área jurídica. Assim, além de alguma medida de satisfação inata que sempre esteve em mim, um prazer por prevalecer num debate, depois vieram também o conhecimento de técnicas para fazê-lo, boa parte aprendida nos bancos da faculdade. É possível até vencer uma disputa sem ter o conhecimento mais profundo sobre algo, se as ferramentas “certas” forem utilizadas.

Quantas e quantas vezes, num passado que (felizmente) vai ficando distante, eu me recordo de vencer debates de Facebook com argumentos incompletos e frágeis. Mas minhas habilidades retóricas emprestavam a eles algum lustro, um verniz de consistência, e eu conseguia fazer o oponente pedir arrego. Para minha vergonha, houve oportunidades em que saquei de argumentos falsos, mas que convenciam por minha veemência no falar. Como alguém já disse por aí: “Não importa tanto o QUE se fala, mas o COMO se fala”. Claro que há um problema fundamental neste conselho, que não recomendo a ninguém seguir irrefletida e indistintamente.

O grande problema de ser alvo de uma palavra ofensiva, e dar seguimento ao ciclo insano de ofensas, é que você aceitou falar sobre o que o outro colocou sobre a mesa. “Seu idiota”. “Sua louca”. Etc etc etc... A pauta foi dada e você caiu na cilada. Alguém te conduziu para aquilo. Sem refletir, você foi colocado no meio do turbilhão.

Entretanto, diversamente, ao responder com um “Sério? Mas por que idiota eu seria? Não me vejo assim. Ajude-me a enxergar...” você tomou as rédeas para suas mãos, sendo a partir dali o condutor dos próximos passos. Sim, sim, a outra pessoa pode estar bastante inflamada e predisposta para brigas, mas é muito verdade o velho ditado de que SE UM NÃO QUER, DOIS NÃO BRIGAM. Pode ser que ela ainda insista, lance nova ofensa, e uma terceira, até que desista. Se você fizer sua parte e não colocar nenhum graveto na fogueira, os gravetos dela não serão suficientes para manter o fogo acesso, pois discussão é uma fogueira que só se mantém com gravetos dos dois. Conduza! Deixe seus gravetos bem longe do fogo.

Sim, eu sei que não é fácil. Continua sendo um desafio para mim. O gostinho do prevalecimento ainda meio que aparece na boca, mas já notaram que de gostos a gente acha que lembra, mas na verdade não lembra? De pudim, meu doce favorito, eu sei o gosto. Aliás, melhor dizendo, eu sei os muitos gostos de pudins, porque graças a Deus existem dezenas de receitas diferentes. Umas melhores que as outras. Quisera eu poder um dia provar todas. Sim, eu conheço o gosto do pudim, mas não consigo lembrar dele. Se eu pensar neste doce maravilhoso, pode até formar água na minha boca, mas o gosto mesmo eu não sinto. O gosto eu só vou sentir quando puser novamente uma bela colher de pudim na minha boca.

Da mesma forma ocorre com a lembrança do “doce” gostinho da vitória numa conversa, debate ou briga. Você conhece a sensação, sabe que conhece, mas por mais que mentalize o quadro e tente sentir todas as “delícias” do prevalecimento, não é igual. Somente quando você prevalecer de novo, numa situação real, sentirá novamente o gosto real daquelas sensações. Então cabe a você manter-se longe delas, na prática, para que cada vez mais aquele gosto se torne uma lembrança distante.

NON DUCOR DUCO – NÃO SOU CONDUZIDO. CONDUZO.

Esta expressão latina está presente no brasão da cidade de São Paulo. É como São Paulo se vê. Sabe de sua força, pujança, influência. São Paulo não aceita ser conduzida, porque seu papel é conduzir.

Cabe um pouco disso em nossas relações pessoais. Claro, claro, não todo o tempo, não para tudo. Porque não sabemos tudo, e muitas vezes teremos que humildemente reconhecer e aceitar sermos conduzidos pelos outros, naquilo que sabem mais do que nós. Não sendo assim, seríamos arrogantes, soberbos, altivos, “donos da verdade”.

Mas nessa questão das discussões, precisamos sim conduzir, sempre que percebermos o perigo de um potencial ciclo insano. Calar é a primeira medida. Colocar outro objeto sobre a mesa é a seguinte. Não ceder às tentativas seguintes da outra pessoa, insistir num outro assunto, e insistir, e insistir... até que o tema mude. Se você conseguir, pode ter evitado um desastre. Quem sabe até obtido grande êxito, consistente numa conversa produtiva sobre o que realmente deveria ser conversado; e não um festival de ofensas insanas. Ninguém precisa disso. O ciclo insano nunca será bom. De novo, só que agora em caixa alta: NUNCA SERÁ BOM.

“Fer, mas eu não tenho esse dom. Quando vejo, já respondi e não paro mais”.

Fruto do Espírito é algo que não está naturalmente em você. É derramado em você. Peça a Deus. Um novo coração. Novos sentimentos. Reações controladas pelo Espírito Santo. Pensar em como Jesus agiria na mesma situação é sempre muito válido. Devemos andar como ele andou, falar como ele falou, reagir (ou não reagir) como nosso modelo supremo fazia.

Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca. (Isaías 53:7)

Cristo sabia quem era. Ele não caía nas ciladas dos seus detratores. Palavras terríveis e mentirosas foram ditas sobre ele, das quais creio nem possamos dizer que entravam por um ouvido e saíam pelo outro. Não. Elas nem entravam. Ele sabia quem era. As opiniões dos outros a seu respeito eram apenas tentativas natimortas de acender uma fogueira que não tinha nada a ver com ele. Ele deu o exemplo. De nós é dito que somos ovelhas, como coloquei em várias referências bíblicas no escrito 048 O BOM PASTOR, figura cuja característica mais marcante é ser silenciosa, não barulhenta, nada extravagante. Grunhir é para porcos. Ovelhas são tranquilas.

Que Deus me ajude (e te ajude) a ter este coração. Uma língua menor. Ouvidos mais sensíveis às Suas Palavras. É por elas que precisamos ser conduzidos.

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

049 CAVALOS BRANCOS

Século XVII. Numa cidade de porte médio, em um principado de razoável importância no Reino, vivia um homem comum. Nem da realeza nem da pobreza. Teve lá algumas oportunidades na vida, quando mais jovem, e aproveitou-as bem. Numa época de mudanças, em que alguma mobilidade social despontava nos horizontes das pessoas, ele fez sua parte. Dedicado ao trabalho, prosperou. Prova disso: no início da vida adulta, já possuía um cavalo.

Naqueles tempos, tudo girava em torno de cavalos. Tudo!

Também pudera. Com cavalos as longas distâncias tornavam-se curtas. A força do animal equivalia à de muitos homens, fazendo o serviço render. Havia também, para as classes abastadas, um pujante mercado de cavalos de luxo. Como seria de se esperar, toda uma gama de serviços para a manutenção dos cavalos, alimentação, veterinários, selas, vestimentas para equitação. Ah, sim, as disputadíssimas corridas e as apostas. E mais, muito mais. Tudo o que as mentes criativas pudessem conceber, relativamente a cavalos, era rapidamente absorvido pelas pessoas.

Aquele homem comum, quando ainda menino, naturalmente sonhava ter o seu. Passava em frente aos locais onde os cavalos eram criados e/ou comercializados, e ficava a imaginar-se no dia que conseguiria ter algo tão valioso e valorizado. Ele olhava para os lados, e percebia que jovens como ele, rigorosamente iguais a ele em todo o mais, eram vistos de forma diferente pelas pessoas, apenas pelo fato de possuírem cavalos. Por ser de uma origem mais modesta (financeiramente) do que aqueles seus amigos – que ganharam seus cavalos dos pais – o jovem homem comum sabia que precisaria ter paciência para “nivelar” as coisas, e enfim colocar-se no mesmo patamar dos demais.

A certa altura de sua vida, na transição entre o final da infância e começo da juventude, ele pode finalmente ter um contato maior com cavalos; sua família conseguiu comprar um. Não era dele, exatamente, mas meio que era, porque tinha autorização dos pais para cuidar do animal e, eventualmente, passear um pouco com ele. Assim, mais e mais se aguçava o desejo de possuir um somente seu. Mas isto ainda demoraria uns anos para acontecer.

O jovem seguiu os passos naturais da vida, logo começando a trabalhar. A família continuava com aquele mesmo cavalo, que agora ele podia usar livremente, por já estar mais velho e ter mais responsabilidade. O quadro era ótimo, teoricamente. Mas continuava lá dentro aquele desejo de ter um cavalo só seu. Ele queria comprar alguns acessórios, alimentá-lo e cuidá-lo do seu jeito, mas sempre e sempre precisava pedir autorização dos seus pais. Isso o aborrecia. Bobeiras da juventude.

Certo dia, querendo que a família possuísse um cavalo melhor que o atual, ele fez uma proposta: “Vamos colocar nosso cavalo num negócio, pois eu soube de um muito melhor que está à venda. Eu assumo o pagamento da diferença do valor, mas assim o cavalo também será meu”. Não havia necessidade, é verdade. Mas também não havia um problema enorme no que estava por ser feito, além do fato de o jovem homem comum não dispor dos recursos para pagamento da diferença. Precisaria emprestar o valor. Naturalmente, generosos e compostos juros fizeram parte dessa história. Mas tudo bem para ele. O que importava é que ele tinha condições de pagar as parcelas previstas no negócio. E assim o fez, pois sua família aceitou a ideia.

Claro que cedo ou tarde ocorreriam ruídos. Seus pais, de outra geração, com outro olhar sobre o que significava possuir um cavalo (meio de locomoção e força para o trabalho), não concordariam completamente com todas as decisões do jovem a respeito do animal. Seu olhar era outro. Possuir um cavalo era sinal de status. Quase todos naquele tempo viam da mesma forma. O jovem fora contaminado pela mentalidade consumista. Um cavalo não era só para te levar para lá e para cá, ou para te emprestar uma força enorme, mas ele te ressignificava aos olhos dos demais: você se tornava mais poderoso sobre os lombos de um cavalo. Muitas pinturas da época passam essa visão de mundo.

Ruído aqui, ruído ali, e não tardou para que outra conversa ocorresse naquela casa: “Quero ter o cavalo somente para mim. Eu compro a parte de vocês. Assim fico com um excelente animal, e vocês poderão comprar um mais simples. Cada um cuidará do seu, do jeito que quiser”. “Mas meu filho, isto não é necessário. Você pode usar livremente o cavalo, por também ser dono”. “Na verdade, não é bem assim. Às vezes eu quero fazer as coisas do meu jeito, mas vocês discordam”. “Claro, porque somos donos dele também, e vemos que nem sempre o que você pretende gastar com o cavalo é necessário. Bem, já que entramos no assunto... tem horas que você joga dinheiro fora com ele”. “Então, é sobre isso que estou falando. Eu já cresci, trabalho, quero tomar as minhas decisões, mesmo que na opinião de vocês não sejam as melhores”. Mais umas duas ou três conversas semelhantes ocorreram, até que finalmente o novo negócio se concretizou.

Finalmente, lá pelos seus 22 anos de idade, o jovem homem simples tinha um cavalo para chamar de seu, somente seu. A sensação era incrível!

Ia para onde quisesse. Comprava os acessórios de cavalaria que tanto apreciava. Mandava o animal para banho e manutenção por pessoas especializadas. Não importava o alto custo. Ele só queria que seu animal estivesse sempre perfeito. Seus pelos avermelhados chamavam muito a atenção. Claro, não era dos caríssimos, dos de raça que os ricos tinham, mas não deixava muito a desejar. E com todo aquele investimento, o belo animal passava por muito superior em qualidade. Isso deixava o rapaz feliz. Ele se sentia mais forte e poderoso com os olhares de admiração das pessoas. É como se a beleza e a força do animal fossem suas.

O tempo foi passando, e pela década e meia seguinte as coisas mantiveram-se mais ou menos como sempre. O antes jovem, e agora homem maduro comum, possuindo seu cavalo, que veio a ser trocado por um mais novo, e outro mais novo... tudo como ele gostava. Belos animais. Dinheiro gasto sem peso na consciência. Até que certo dia ele se deu conta de algo: “Nossa! Eu já sou um homem feito, trabalho muito no meu ofício, ganho um bom dinheiro, e a única coisa de valor que possuo é este cavalo”. Rolou uma pequena crise. Ele deu novamente uma olhada para os lados, mas agora, ao invés de ver seus amigos apenas com cavalos, via também casas e propriedades. Enquanto o pessoal tomou boas decisões, ele ficou lá obcecado por cavalos e a pretensa sensação de poder que ele lhe emprestava.

Alguma lucidez se instalou. Àquela altura da vida, ele já deveria possuir uma casa. Mas não. Morava com seus pais ainda, num tempo em que poderia perfeitamente bem ter construído uma estrutura de vida para si. Veio uma boa decisão: vendeu seu cavalo de pelos avermelhados e, com os recursos – mais um bom montante que ele precisou reunir depois – adquiriu sua primeira casa. Ficar à pé não foi fácil, e essa foi sua realidade por uns anos. Precisou, humildemente, submeter-se a pedir emprestado o cavalo dos pais, quando precisasse. Como todos os bons pais fariam, claro que eles cederam. As coisas estavam indo bem.

Anos se passaram, até que finalmente a casa era sua. Linda. Muito além do que ele sonharia para um primeiro imóvel. E paga! Sem dívidas; a melhor característica sobre qualquer coisa que se possa ter. Realmente, as perspectivas dali para frente eram ótimas. Boas decisões foram tomadas. E mais: o homem simples viu que era possível viver um tempo sem possuir cavalo, se o resultado disso significasse ter um bem maior.

Vida que segue, até que aparece uma oferta por sua casa. Ele não estava tão atualizado sobre os valores para negócios naquela localidade, mas pareceu-lhe bem fechar. De repente, uma montoeira de dinheiro em sua frente. Dinheiro vivo, trazido em sacos. Uma imagem impressionante. “Uooow! Que demais. Com este dinheiro eu poderei comprar outra casa, e também um novo cavalo para mim. Valeram a pena aqueles anos a pé”. Assim era para ser. Teria funcionado bem. Pena que não foi.

Estava tudo certo para ele comprar, prioritariamente, uma nova casa. Mas ao passear pela região e ver todos aqueles criadores de cavalos, e como novos animais esplêndidos estavam no mercado, a velha e conhecida sensação de “poder” o fisgou. Ele pensou: “Estou com muito dinheiro. Posso deixar para comprar a casa depois e finalmente realizar o sonho de ter aquele CAVALO BRANCO que eu sempre quis. Eu me esforcei muito para ter essa bolada de dinheiro na minha frente. Eu mereço me dar este presente”.

Andou pela região, pesquisou, pesquisou, até encontrar o cavalo perfeito. Chegou a falar com o proprietário, ver preço para o negócio, tudo praticamente certo. Quando na véspera aparece uma oportunidade única: um cavalo raro, o sonho de consumo de qualquer outro homem de seu tempo. Não era tão jovem como o cavalo branco que tinha encontrado, mas o preço era equivalente. Ele teria apenas que ter paciência para tratá-lo, “arribá-lo” – como se diz – e o prêmio seria possuir um animal muito raro. Investindo nesta arribada, ele bem mais que dobraria o valor do animal.

A péssima decisão foi tomada.

O cavalo branco ficou no “quase”, e agora ele possuía um raro e – por enquanto – não tão belo cavalo de pêlos amarelados. Realmente não estava nos seus melhores dias, precisando de algum investimento, mas com seu olhar projetado para o futuro, o homem simples já conseguia imaginar como o animal ficaria depois de bem tratado, alimentado e sarados todos os seus problemas de saúde. Era um plano perfeito.

Só que não...

Os problemas do cavalo eram muito maiores do que ele imaginava. Chegou quase a perdê-lo. Mas não tinha muita opção: ou era investir tudo o que fosse preciso para salvá-lo, ou era perder tudo. Ninguém compraria o animal como estava. Nem para açougue servia, pois naquele país não se comia carne de cavalo. Bem... dizem para nunca investigar muito a fundo como são feitas as linguiças.

Anos e anos se passaram, muito daquele dinheiro da casa precisou ser gasto com o animal, para não perdê-lo. Não todo, felizmente. O homem conseguiu sim uma casa nova, mas uma muito aquém da que teria comprado se o fizesse logo que vendeu a primeira. Uma decisão ruim e suas consequências. Vida adulta é assim. Choramingar não resolve.

E ele ali, tendo um cavalo raro e sempre doente, no qual jamais montara uma única vez. Foi se virando com um animal emprestado aqui, outro alugado ali, sempre que as circunstâncias da vida exigiam. E assim ele se adaptou a uma vida sem cavalos. Aquele seu, de pêlos amarelados, tornou-se um elefante branco (ironicamente, não um cavalo branco), do qual tudo que o homem mais queria era livrar-se, dando algum novo destino a ele. Mas o animal na mesma, sempre doente, ficava amarrado à sua vida. Um problema aparentemente insolúvel.

Enfim, como diz aquele velho ditado: “O que não tem solução, solucionado está”. O homem não podia parar sua vida por suas decisões equivocadas de anos anteriores. Tinha sim é que administrá-las, minorar o quanto pudesse novos prejuízos, e seguir em frente. O cavalo de pêlos amarelados não estava mais condenado à morte. Sobreviveu. Mas não se prestava para passeios. O jeito era mantê-lo, dar um final de vida digno a ele. Àquela altura, não era mais tão oneroso mantê-lo. Virou um elefante branco e como elefante branco ficou.

O que fazer então? Comprar outro? Finalmente dar-se de presente aquele tão  sonhado cavalo branco, que teria sido a compra mais certa (ou menos errada) de alguns anos antes?

O homem simples concluiu que não. Ele realmente tinha aprendido a viver sem cavalos. Sua casa era bem localizada, com tudo o que ele precisava a distâncias não muito longas de seu portão. Andar a pé não doía; pelo contrário, trazia-lhe saúde. Mas, e as coisas que realmente demandavam a força e/ou a velocidade do animal? Bem, isso já não era problema. Com o passar dos anos, aquela arcaica sociedade centrada na figura dos cavalos, continuava tão centralizada como sempre, mas algo mudou. A obsessão de cada pessoa em possuir um animal para chamar de seu, meio que arrefeceu. Tudo ainda era feito e pensado em torno dos cavalos, seu ritmo e sua força, mas cada pessoa ter um animal próprio, não era mais imprescindível.

O que ocorreu?

Inventaram um negócio chamado Uber, com o qual as pessoas facilmente localizavam outras pessoas com seus cavalos,  e uma delas vinha até você, levando-te de garupa para onde precisasse. Bastava pagar uma pequena quantia. Foi uma das invenções mais fantásticas daqueles tempos. Século XVII, pessoal! Incrível, né?! Cavalos compartilhados! Como ninguém tinha pensado nisso antes?

O homem simples, assim, sentiu-se afinal e absolutamente confortável por não possuir um cavalo. Era visto de forma estranha pelas muitas pessoas que ainda tinham a velha mentalidade. Havia até qbem afirmasse, categoricamente, que todo homem DEVERIA ter um; que era estranho não ter. Ele chegou a ouvir isso de duas donzelas que conhecera. Riu-se por dentro e, por essa e outras razões, saiu correndo dos potenciais relacionamentos. Ele não queria ter seu valor medido pelo cavalo que montava. Havia muito mais nele do que um belo cavalo branco sob seu traseiro, mas esse “muito mais” aquelas donzelas jamais teriam a oportunidade de ver.

Fim

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

048 O BOM PASTOR

Mas quando acenderam um fogo no meio do pátio e se sentaram ao redor dele, Pedro sentou-se com eles. Uma criada o viu sentado à luz do fogo. Olhou fixamente para ele e disse: ‘Este homem estava com ele’. Mas ele negou: ‘Mulher, não o conheço’. Pouco depois, um homem o viu e disse: ‘Você também é um deles’. ‘Homem, não sou!’, respondeu Pedro. Cerca de uma hora mais tarde, outro afirmou: ‘Certamente este homem estava com ele, pois é galileu’. Pedro respondeu: ‘Homem, não sei do que você está falando!’. Falava ele ainda, quando o galo cantou. O SENHOR VOLTOU-SE E OLHOU DIRETAMENTE PARA PEDRO. Então Pedro se lembrou da palavra que o Senhor lhe tinha dito: ‘Antes que o galo cante hoje, você me negará três vezes’. Saindo dali, chorou amargamente. (Lucas 22: 55-62) Sexta-Feira, 15 de abril de 29 d.C.

Quando voltaram do sepulcro, elas contaram todas estas coisas aos Onze e a todos os outros. Mas eles não acreditaram nas mulheres; as palavras delas lhes pareciam loucura. Pedro, todavia, levantou-se e correu ao sepulcro. (Lucas 24: 9, 11 e 12) A seguir, Simão Pedro entrou no sepulcro e viu as faixas de linho, bem como o lenço que estivera sobre a cabeça de Jesus. Ele estava dobrado à parte, separado das faixas de linho. Eles ainda não haviam compreendido que, conforme a Escritura, era necessário que Jesus ressuscitasse dos mortos. Os discípulos voltaram para casa. (João 20: 6, 7, 9 e 10) Domingo, 17 de abril de 29 d.C.

Ao amanhecer, Jesus estava na praia, mas os discípulos não o reconheceram. Ele lhes perguntou: ‘Filhos, você têm algo para comer?’. Eles responderam que não. Ele disse: ‘Lancem a rede do lado direito do barco e vocês encontrarão’. Disse-lhes Jesus: ‘Tragam alguns dos peixes que acabaram de pescar’. Depois de comerem, Jesus perguntou a Simão Pedro: ‘Simão, filho de João, você me ama mais do que estes?’ Disse ele: ‘Sim, Senhor, tu sabes que te amo’. Disse Jesus: ‘CUIDE DOS MEUS CORDEIROS’. Novamente Jesus disse: ‘Simão, filho de João, você me ama?’ Ele respondeu: ‘Sim, Senhor, tu sabes que te amo’. Disse Jesus: ‘PASTOREIE AS MINHAS OVELHAS’. Pela terceira vez, ele lhe disse: ‘Simão, filho de João, você me ama?’. Pedro ficou magoado por Jesus lhe ter perguntado pela terceira vez “Você me ama?’ e lhe disse: ‘Senhor, tu sabes todas as coisas e sabes que te amo”. Disse-lhe Jesus: CUIDE DAS MINHAS OVELHAS’. E então lhe disse: ‘Siga-me!’ (João 21: 4, 5, 6, 15 a 17 e 19b) Domingo, 24 de abril de 29 d.C.

Muitos anos atrás, pelos idos de 1996-97, num livro que não me recordo o título, num capítulo que muito se assemelhava ao estilo destes escritos aleatórios – texto relativamente curto, com pensamentos sobre um tema específico – reparei pela primeira vez este precioso detalhe das Escrituras Sagradas: o olhar de Jesus para Pedro, no instante imediato à terceira negação. Era sobre este olhar aquela reflexão.

Lembro-me que o autor conjecturava sobre como teria sido. Bem, certamente – porque a própria Palavra o afirma – não foi um relance. Cristo FIXOU seus olhos nos olhos de Pedro. Alguns segundos, longuíssimos segundos. Quanta coisa deve ter se passado na mente de Pedro. Quão nada surpreso estava o Nosso Senhor com Pedro, posto que o advertira antecipadamente sobre o que ele faria. O que será que os olhos de Jesus comunicaram a Pedro, naquela última oportunidade em que o olhava, antes de ser morto?

Horas depois, o Homem de Dores morria na NOSSA cruz. Ele a tomou para si, tornou-se SUA. Mas era nossa.

Como também predito, Ele venceu a morte. Ressuscitou! Desceu à morte como Cordeiro; retornou de lá como Leão. As mulheres deram a notícia, mas os discípulos não acreditaram. Foram certificar-se da tumba vazia e voltaram para casa. Não entenderam que Ele estava vivo; presumiram apenas que seu corpo havia sido roubado. 'Aquelas mulheres doidas...'. Vida que segue... o sonho acabou.

Costurar as redes. Ver se aquele barco parado há três anos ainda se prestava para o serviço. Reencontrar os antigos amigos de profissão. Seguramente, alguns olhares pesados de julgamento das pessoas. Era quase possível ouvir o que se passava nas mentes deles:

- “Eeee Pedrão, estava se achando no topo do mundo, né? Mas e aí, cadê aquele Reino que o seu Mestre estava trazendo ao mundo?”

- “Eu acho é pouco! Tem que se dar mal, mesmo. Com esse jeito ‘pra frente’ aí, todo falador, impulsivo. Nunca gostei de você”.

- “Saiu falante, parecendo que ia ganhar o mundo; voltou quieto e de cabeça baixa, vindo pedir lugar para pescar aqui entre nós novamente. Bem, Pedro está lascado mesmo, não vou pisar ainda mais. Além disso, sabe pescar. Vou aceita-lo de volta”.

Vida que segue. O homem que seria pescador de homens, voltando a pescar peixes.

‘Vou pescar’, disse-lhes Simão Pedro. E eles disseram: ‘Nós vamos com você’. Eles foram e entraram no barco, mas naquela noite não pegaram nada. (João 21:3)

Ao amanhecer, Jesus estava na praia... (João 21:4a)

A vida tinha seguido para Pedro. Seu sonho acabado. Um lugar ao lado do Mestre em seu futuro Reino, agora não passava de um desejo que ficou no "quase". Que três anos intensos foram aqueles! Sinais e Maravilhas. Ensinos. Viagens. Visões. A entrada triunfal em Jerusalém. ‘Hosana ao Filho de Davi. Bendito é o que vem em nome do Senhor!’. A Ceia. Seus pés sendo lavados pelo Mestre. ‘Meu Deus, que mestre faria aquilo?’ O Getsêmani e os clamores de Jesus sobre o amargo cálice. O traidor Judas. A orelha de Malco. O Mestre enfim nas mãos dos que tanto o odiavam. O julgamento. As três negações. Seu último cruzar de olhares... a morte do Messias.

Pedro estava lá, em cada um daqueles mais de 1000 dias de ministério de Jesus. Ele viu tudo. Participou de muito. Ele viveu a história do Mestre aqui na terra. História que, aquela altura, parecia ter chegado ao fim.

Mas veio o domingo como um sopro de esperança, e o todo alvoroço causado pela notícia das mulheres. Apenas para ficar novamente frustrado: ‘Ah, essas mulheres loucas! Não tem mais com que se ocupar? A tumba estava vazia. Corri tanto, pois achei que encontraria Jesus por lá". Novamente a centelha se apagou. Jesus não estava lá. Por não tê-lo visto naquela manhã de domingo, concluiu que tudo acabou mesmo. O jeito era ir para casa e seguir em frente. ‘É o que tem pra hoje. Quem sabe ele não fosse mesmo o Messias’.

Mas (uma semana depois) Jesus estava na praia...

Imagino o mestre naquela noite, dali de onde estava, em meio à escura noite, observando cada movimento daqueles homens e de Pedro no barco. E observando cada pensamento que em suas mentes rolava. Rede pra um lado, rede pra outro; havia peixes ali, claro que havia. Mas o Senhor da Criação ordenava, sem abrir seus lábios, que o cardume fosse para lá, depois para cá, ali pertinho de onde o barco estava. Mas não era a hora de serem pescados. O Senhor desejava que aqueles homens sentissem a tristeza por tanto esforço e nenhuma recompensa. Essa era a “vida normal” de um pescador. Por vezes, nada traziam.

E o Senhor ali, olhando a noite toda para os seus amados. Esperando por eles no ponto onde sabia que voltariam com o barco. Quem sabe andou um pouco sobre as águas, sem se revelar, só para olhá-los de pertinho. Jesus é relacional. Ele gosta de gente perto dele. E nunca falta ao encontro.

Eles chegam à praia e se deparam com um desconhecido. Jesus estava na praia, mas os discípulos não o reconheceram (João 21:4). Agora ele tinha um corpo glorificado. Sua aparência mudou.

Estranhamente, um estranho os aborda, pede comida, e diz para lançarem sua rede do lado direito do barco. A aparência ainda era de um estranho, mas a pesca maravilhosa não poderia ser fruto de outra pessoa. Só podia ser Jesus. João diz a Pedro: “É o Senhor” (João 21:7). Cento e cinquenta e três grandes peixes, mas a rede não se rompeu. Só podia ser Jesus. ‘Venham comer’ (João 21:12). O Mestre que a tantos tinha manifestado maravilhas, e a tantos feito comer fartamente... Só podia ser Jesus. Sobravam tantos pães e peixes antes; agora cento e tantos peixes enormes. Seu estilo não tinha mudado. Abundância era sua marca. Só podia ser Jesus. A aparência era outra, mas eles sabiam que o Mestre tinha voltado. Entretanto, ‘nenhum dos discípulos tinha coragem de lhe perguntar ‘Quem és tu?’ (João 21:12b)

Quando os olhos de Pedro e de Cristo haviam se cruzado pela última vez, naquela fatídica e amarga sexta-feira, 15 de abril de 29 d.C., muita coisa entre eles foi dita sem palavras. Passados 9 dias, o REENCONTRO. Olhos que voltavam a se fixar um no outro. Mas o que ele veria nos olhos do Mestre ressurreto? Julgamento? Acusações? Juízo?

‘Simão, filho de João, você me ama? Você me ama? Você me ama?’

Três vezes. Uma para cada negação. Um caminho de volta completo, sem atalhos, sem ‘Tudo bem, eu te entendo. Deixa prá lá, a carne é fraca mesmo’. Não, não. ‘Eu sei que você é fraco, Pedro. Mas eu preciso que você se arrependa, que reconheça que sem mim, toda aquela tua ousadia não passava de palavras ao vento. Sem mim, você e ninguém podem fazer coisa alguma. Sem mim, sua vida será isso que você vivenciou nessa noite escura, fria e frustrante. Se eu quisesse que você pescasse peixes, Pedro, eu teria dito isso a você quando caminhamos juntos por aqueles 3 anos. Mas foi para pescar homens que eu te escolhi (Mateus 4:19). A pesca desta manhã foi milagrosa e inesperada, mas aqui não é o seu lugar. Eu ainda quero que você me siga, mas preciso que entenda o que é amar. Apascente os meus cordeirinhos e as minhas ovelhas. Se você fizer isto por mim, as palavras “eu te amo, Senhor”, que você diz agora, deixarão de ser um discurso, materializando-se numa expressão de amor real por mim’.

Cá com meus botões, nesta mente criativa que Deus me deu, imagino o Senhor Jesus comunicando tudo isso a Pedro naquele 24 de abril de 29 d.C., apenas com seu fixo olhar. Poucas palavras – ‘Tu me amas?’ e “Apascenta!” – mas uma longa conversa entre aqueles dois que se olhavam novamente, depois de alguns dias longe. O Senhor nunca falta ao encontro. Pedro deixou as redes pela segunda vez, para nunca mais ser o mesmo. O que três anos não haviam sido suficientes para gerar nele, três perguntas, três respostas, e três curas o fizeram em uns poucos instantes. Os olhos do Mestre o transformaram naquela manhã. Olhos de amor. O bálsamo do BOM PASTOR.

- Mas o que fazer com essa montoeira de peixes, Pedro? O que você fará com sua parte?

- Nada disso é meu. Fiquem com tudo. Eu finalmente conheci ao meu Senhor. Uma nova pesca me espera.


Existem muitas formas de expressar amor pelo Senhor, de acordo com a Palavra. Uma das que mais me impacta é “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele”. (João 14:21)

Essa expressão de amor em forma de obediência aos seus mandamentos continua válida e é para TODOS. E é bem simples. Obedecê-lo é amá-lo. Sem pegadinha. Sem contorcionismos interpretativos. OBEDECER = AMAR.

Mas veja que interessante. Existe uma forma de amar ao Senhor que extrapola nossa relação individual com Ele. Porque Ele é um Deus relacional, que ama gerar links entre seus filhos. Então surge naquela conversa com Pedro uma nova expressão de amor: APASCENTAR = AMAR.

O BOM PASTOR (João 10:11), aquele que deu sua vida pelas ovelhas, requereu de nós que as apascentássemos. E isto fazendo, o amamos. Não pediu que também déssemos nossas vidas pelas ovelhas, porque ovelhas todos somos, e nenhum novo sacrifício é mais necessário.

Porque é impossível que o sangue dos touros e dos bodes tire os pecados. Por isso, entrando no mundo, diz: ‘Sacrifício e oferta não quiseste, mas corpo me preparaste; holocaustos e oblações pelo pecado não te agradaram. Então disse: ‘Eis aqui venho (no princípio do livro está escrito de mim), para fazer, ó Deus, a tua vontade. Como acima diz: Sacrifício e oferta, e holocaustos e oblações pelo pecado não quiseste, nem te agradam (os quais se agradam segundo a lei). Então disse: ‘Eis aqui venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade. Tira o primeiro, para estabelecer o segundo. Na qual vontade temos sido SANTIFICADOS PELA OBLAÇÃO DO CORPO DE JESUS CRISTO, FEITA UMA VEZ”.  (Hebreus 10:4-10)

Fazer a vontade do Pai, sempre foi a motivação suprema do Senhor Jesus. Ele viveu para isto.

Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. (João 6:38)

Clareza de missão. Clareza de propósito. Missão dada. Missão cumprida.

Naquele mesmo domingo, 24 de abril de 29 d.C., não mais à beira do Mar de Tiberíades, mas agora na Galiléia, Cristo reuniu-se com os Onze para deixar uma missão muito especial:

Foi-me dada toda a autoridade nos céus e na terra. Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos. (Mateus 28:18-20)

Apascentar os cordeirinhos e as ovelhas dEle. Ir e fazer discípulos. Ensiná-los a obedecer a tudo que foi ordenado. Suas últimas ordens estavam dadas e muito claras.

Três negações. Três “Tu me amas?”. Três comandos deixados pelo Senhor: Pastorear. Discipular. Ensinar.

Tenho convicção de que NADA, NADA, NADA (três vezes) é mais importante e expressa mais amor a Deus do que cumprir esses três comandos, que em verdade acabam por se constituir numa coisa só. O BOM PASTOR apascentou perfeitamente bem nos seus dias aqui, fez discípulos melhor do que ninguém, obedeceu ao Pai e ensinou a todos obedecerem também, por seu exemplo vivo.

Por tudo isso ele foi e é o BOM PASTOR. Nele está a condição plena de apascentar cada pessoa sobre a face da terra. Ele é Deus. Tem todo o Poder, está em todo lugar. Ele não precisaria de Pedro ou de nós para cuidar perfeitamente de cada uma de suas muitas ovelhas, mas (e eu amos esses MAS de Deus), soberanamente Ele nos escolheu para fazermos parte deste projeto. Estabeleceu sua Igreja, a partir dos Onze, que pouco depois voltaram a ser Doze – mais os muitos outros discípulos que já havia, e os que foram se somando – para que nos cuidássemos, nos apascentássemos, nos amássemos, assim evidenciando nosso amor por Ele.


Sei que há muitas compreensões sobre o que seja estabelecer o Reino de Deus, mas para mim nenhuma ação neste sentido é mais importante do que apascentar e apresentar vidas transformadas para Deus. Estruturas ficarão. Títulos serão nada. Ondas e movimentos são fumaça. A única coisa que importa, falando em Reino de Deus, é aplicarmos tudo que há em nós com o único e eterno objetivo de apresentarmos vidas resgatadas da morte para Deus. Frutos vivos. Não obras mortas.

Pastorear. Discipular. Ensinar.

Todo o mais é acessório. Todo o mais não passará, quando muito, de uma expressão menor de amor pelo Senhor. Quando muito...

Que Deus me dê, e dê também a você a Graça de sermos bons pastores. Nisto estará nossa maior expressão de amor por Ele.

082 PALAVRAS AO VENTO

Uns dois ou três dias atrás fiz algo que há muito tempo abandonei. Numa rede social, após ver a postagem que me chamou a atenção – de temáti...