quarta-feira, 27 de outubro de 2021

068 VIDA INTEGRAL

Eu ansiava pela chegada desta série temática, que ora começamos. O escrito de hoje conta um pouco da história de como essa história de escrever começou. Ele também esclarece um pouco do que estamos fazendo por meio da escrita neste exato momento. E o mais legal: dá pistas do que vem pela frente, nos limites daquilo que eu já compreendi; os trilhos futuros que foram aparecendo no processo de escrever os primeiros 68 textos.

No 006 MAR DE GENTE, eu disse o seguinte: “"Meio milhão de pessoas cruzam o nosso caminho durante a vida!". Essa frase, aparentemente superdimensionada, chamou minha atenção algum tempo atrás. "Absurdo!", pensei. "Devem ter extraído esse número de uma daquelas pesquisas malucas que há por aí”. Mas fiquei mesmo intrigado e resolvi fazer as contas”. E naquele texto, prossegui com alguns pensamentos sobre as pessoas mais importantes da nossa vida, as que mais nos marcaram ou ainda marcam.

Eu consigo identificar com razoável precisão o momento em que me deparei com aquela ideia do “meio milhão”. Foi no final de 2014, quase 7 anos atrás. Sei disso porque me recordo ter sido num dos vários finais de ano que já passei em Iepê, e tenho certeza que foi antes do ano de 2016, por um fato especial que logo será mencionado. Hummm, mas então não poderia ter sido no final de 2015? Seguramente não, porque a distância entre o tal fim de ano no sítio e o tal fato especial levou mais de 1 ano, e nesse meio tempo, entre os dois fatos, eu escrevi muitas e muitas páginas da ideia mais embrionária que tive sobre a publicação de algum livro. Por isso, não foi no final de 2015. Também sei que não foi no final de 2013, porque naquele ano em morava em Curitiba, e me recordo bem que a ideia e os primeiros escritos ocorreram quando eu já tinha retornado para Maringá. Enfim, foi em dezembro de 2014.

Gastei um tempinho falando sobre esses marcos temporais, só para ilustrar como funciona na minha mente a organização do tempo, quando por tempo eu quero dizer as épocas em que algumas coisas aconteceram. Eu me mudei várias vezes de cidade, e me recordo exatamente dos anos vividos em cada lugar. Desta forma, ao buscar lembranças, consigo na maioria das vezes precisar o ano e, não raro, até o mês.

Coisa de doido, né?! Mais ou menos assim: Do meu nascimento em 1977, até a mudança da família para Cianorte, em 1980, obviamente de nada me lembro. Sei apenas que nesses primeiros anos da minha vida tivemos residências em Centenário do Sul e Jaguapitã. Meu nascimento em Ponta Grossa foi uma conveniência, pelo fato de lá haver uma estrutura melhor e meus pais estarem seguidamente naquela cidade, atendendo atividades da igreja. A partir daí, as caixinhas da minha vida ficam bem claras: 

1980 a 1986 – Cianorte

1987 e 1988 – Pirapozinho

1989 e 1990 – Cornélio Procópio

1991 a 1993 – Cianorte

1994 – Cascavel

1995 (1º semestre) – Londrina

1995 (2º semestre) – Cascavel

1996 a 2003 – Maringá

2004 e 2005 (1º semestre) – Porto Alegre

2005 (2º semestre) a 2008 – Maringá

2009 (1º semestre) – Vitória

2009 (2º semestre) – Brasília

2010 – Maringá

2011 (1º semestre) – Salvador

2011 (2º semestre) a 2013 (1º semestre) – Maringá

2013 (2º semestre) e 2014 (1º semestre) – Curitiba

2014 (2º semestre) em diante, até o presente momento – Maringá


Com essas referências temporais claramente organizadas na minha cabeça, eu identifico os muitos e muitos fatos ocorridos ao longo da vida. E o interessante é que nos períodos mais alongados no mesmo lugar, tais como 1996 a 2003 e 2014 até 2021, eventualmente eu enrosco um pouco na precisa identificação. Já nos demais, por serem porções bem menores de tempo, não tem erro. Enfim, tudo isso para... NADA (risos). Na verdade, só para compartilhar mesmo.


Bem, voltando então a dezembro/2014, quando li algo sobre as muitas pessoas que cruzam nossa vida, parei para pensar sobre quais dessas dezenas ou centenas de milhares, até então, teriam sido as mais importantes. Novamente colaciono um trecho do escrito 006: “Ao encarar a mesma tarefa, mas escalando os(as) 11 titulares da Seleção da Minha Vida, aconteceu exatamente a mesma coisa. Dois terços estavam na ponta da língua: mãe, pai, avós, irmãos, sobrinhos, uma tia com quem tenho forte afinidade, uma amiga de longuíssima data. E no terço final da lista, semelhantemente, deu aquela travada. A brincadeira fica instigante, divertida; faz realmente pensar. Começo a me dar conta do tanto de gente que conheço, sejam aqueles que chegaram e se mantiveram perto; sejam alguns que passaram um período na minha vida, depois sumiram; quem sabe até pessoas que já faleceram”.


E assim, identificadas algumas dessas pessoas importantes, resolvi escrever sobre elas. Sem planejamento, sem expectativas. Apenas abrir um arquivo e começar a digitar histórias com minha mãe, meu pai, Sarinha, Vó Laurinda, minha grande amiga Dayene, um Juiz Federal com quem trabalhei, uma ex-namorada, etc. Mas logo o processo de escrever parou. Passaram-se uns meses, escrevi mais um pouco, parei de novo; depois um ou dois textos e nova parada, até que cessou total. Nesse meio tempo, surgiu a ideia de organizar os textos num livro autobiográfico, não para publicação. Algo assim (essa parte está na Introdução que escrevi para o tal livro, que ainda não existe):

 

“Como já dei pista, amo livros e tenho uma relação intensa com eles. Venho agregando volumes e mais volumes à minha biblioteca pessoal - especialmente a partir dos 25 anos de idade - e adoraria ter em minha estante livros escritos pelos meus pais, avós, tios, bisavós. Interesso-me por suas histórias de vida, e também por seus pensamentos, sonhos, crenças, etc. Tais volumes não existem, e tudo o que sei sobre meus antepassados é fruto da tradição oral e/ou convivência. Assim como sou um homem comum do quarto final do século XX e primeira metade do XXI, pessoas que me significam foram homens e mulheres comuns dos séculos XX, XIX, XVIII... e tenho tão poucos detalhes. Suas histórias, como a minha, não interessariam ao grande público, mas interessam a mim. Pode ser que a vida de Fernando Veríssimo Neves desperte interesse em seu filho, seus netos, bisnetos, e quero proporcionar-lhes o conhecer-me, mesmo depois de deixá-los. Não sonegarei nada nas páginas que se seguem. O bonito e o feio serão expostos. Direi coisas que ninguém sabe. Pode ser que os leitores se frustrem, pode ser que se orgulhem. Não sei. Mas quero existir nessas linhas, conhecê-los depois que eu partir”.


Fala sério! A Língua Portuguesa é bonita, né?!


Enfim, mesmo com muitas páginas escritas, a tal autobiografia estacionou, ficou por aquilo mesmo, e eu me ocupei naquele restante de 2015 e início de 2016 com outras coisas. Até que em abril ocorreu o fato especial, que mencionei mais acima. Uma pessoa muito temente a Deus, e muito séria naquilo que chamamos “coisas de Deus”, recebeu dEle, dEle mesmo, do Eterno, do Senhor da Glória, uma palavra sobre mim. Uma palavra múltipla, com alcance em diferentes áreas da minha vida, coisas que talvez a gente comente em algum escrito futuro. Mas a parte dessa palavra que quero destacar é a seguinte:


- Então, Fer. Deu mandou te perguntar por que você não está escrevendo o livro que Ele te deu?

- Nossa! (eu em choque)

- Sério que você está escrevendo um livro?

- Sim. Bem. Mais ou menos. Eu estava, mas meio que parei.

- Pois então, Deus me mostrou que você vinha escrevendo, parou, só que Ele manda te dizer que esse livro foi Ele quem te deu, e que Ele tem muitos outros para te dar, mas isto só vai acontecer se você escrever o primeiro.


Uooow! Pense em como é receber uma palavra assim. E olha que eu nem falei as outras partes do que a pessoa me entregou. São coisas ainda mais impressionantes.


Claro que naquela mesma noite eu liguei o computador e escrevi um monte, e mais um monte na noite seguinte, e nos dias e semanas seguintes, até que parei de novo. Passavam-se umas semanas, vinha a consciência de que Deus queria que eu escrevesse, então retomava firme. Mais uns dias ou semanas de muita produção, e nova parada. Um processo irregular, inconstante, que se arrastou desde aquele abril/2016 até o início de 2021, mais precisamente o dia 25/03/2021, quando criei o blog Escritos Aleatórios e publiquei o escrito 001 AMOR EM TEMPOS DE PANDEMIA.


Foram exatos 5 anos tocando a escrita irresponsavelmente, até que me veio um temor muito grande por minha negligência. Pensei: “Caramba, Deus se dignou mandar uma pessoa me entregar uma palavra, foi claríssimo em dizer que tem livros para me dar, e eu aqui enrolando. Certeza que vai dar ruim pro meu lado, se eu não tomar vergonha na cara”. Bateu aquele senso de urgência urgentíssima, ao ponto de eu não sossegar até concluir o escrito 001, colocando-o no ar no mesmo dia. Isso sem saber mexer com blog, qual a melhor forma, questões de direitos autorais, nada. E, na real, preocupação zero com isso, pois eu sabia apenas que tinha que começar. Começar e permanecer, diferentemente das vezes anteriores, para que assim Deus pudesse me dar tudo que Ele tinha e tem através das letras.


E assim, passados 7 meses, publicados 68 textos (contando este), tenho persistido, aprendido muito, ensinado um pouco, e visto a cada dia o quanto Ele tinha para derramar na minha vida. E de uma forma tão leve, fazendo uma das coisas que mais gosto, que é escrever. Um processo simples, simples, simples: SE EU OBEDEÇO E ESCREVO, ELE FALA MAIS; SE EU FICO PARADO, ELE NÃO FALA. Os Escritos Aleatórios são o meu lugar secreto com Ele. Aqui rolam mais sobrenaturais com Deus, para mim, do que em muitos momentos de oração, ou de adoração na igreja, ou nas diversas outras formas que Ele usa para tratar com seus filhos. Sábio ao infinito, como Ele é, escolheu a linguagem certa para tratar comigo. Deus é top demais!


Certo, mas o que tudo isso que falamos até aqui tem a ver com o título deste escrito?


VIDA INTEGRAL...


Pois bem, naquele período irregular de 5 anos, de abril/2016 até o escrito 001, embora eu não estivesse em completa obediência à direção que recebi, fui pouco a pouco tendo compreensões sobre o que fazer. Claro que isso só acontecia nas fases em que eu escrevia. Uma compreensão importante e muito, muito clara, foi que o livro autobiográfico não era para publicação. Escrevendo sobre as pessoas mais importantes da minha vida, fui me entendendo, fui me organizando, enxergando claramente porque sou como sou em determinados aspectos, meu temperamento, meus modelos, o que me move, o que me trava, e muitos mais. A autobiografia foi – e ainda é – uma espécie de divã com o Senhor, um lugar muito particular, só nosso, para conversas que não são para o público. INTIMIDADE.


A compreensão que se seguiu, e que confirmava a palavra inicial, foi que se eu começasse a escrever o primeiro, Deus me daria os próximos livros. Só que uma coisa não precisava aguardar a outra. Assim como leio vários livros ao mesmo tempo, por que não escrever dois ou três, simultaneamente? Foi o que fiz. Paralelamente à autobiografia, começaram a brotar ideias para um primeiro livro publicável. Na verdade, ideias antigas, que eu tenho comigo desde o início da fase adulta da vida. Ideias para uma VIDA INTEGRAL.


A imagem escolhida para o Instagram neste escrito 068 é um retrato da ideia: A Vida Integral vista como um círculo perfeito, composto por 7 áreas fundamentais (cada área como uma fatia de pizza):


1) Espiritual

2) Corpo/Mente/Saúde

3) Emocional/Familiar/Social

4) Intelectual

5) Profissional

6) Patrimonial

7) Geracional/Legado


E, como a imagem sugere, cada área tem muitas subdivisões, que são os ingredientes de cada fatia da pizza.


Comecei então a escrever sobre isso – naquele intervalo 2016-2021 – de forma não muito planejada, como já dito. Algumas fatias bem adiantadas, prontas para o forno. Outras só na massa, sem ingredientes colocados. As partes prontas, vez ou outra eu mencionava numa conversa, ou num aconselhamento, uma ministração, e percebi que havia impacto. Ouvi de várias pessoas: “Fer, isso é muito precioso. Publique este livro logo, cara! É uma mensagem relevante”. E eu lá, vacilante, escrevendo igual a um vaga-lume. Mais adiante compartilhava outra parte com alguém e: “Cara, que top! Você deveria escrever um livro”. Vai vendo...


Só que tem um pequeno detalhe: É MUITA COISA PARA ESCREVER! Fazer bem feito, cobrir adequadamente cada uma das 7 áreas e suas muitíssimas subdivisões, é trabalho para muitos meses ou anos. E obviamente meu desejo era/é entregar um trabalho bem feito, não feito nas coxas. E mais: quando ter certeza que ficou pronto? Quando entender que ficou bom? Porque eu me conheço, gosto de fazer tudo com excelência – alguns dizem ser perfeccionismo – razão por que o livro Vida Integral correria o sério risco de ficar num processo interminável de escrita e revisão, escrita e revisão, sempre pintando um detalhe, um novo ingrediente para a fatia tal, ajustes, etc. Eu não terminaria nunca, mas estava claro que a mensagem era relevante e já impactava a todos aqueles para quem passei pequenas porções.


Então, num belo dia, numa conversa trivial com uma pessoa muito querida, falando justamente sobre essas ideias, e o livro em processo de construção, eu recebi a dica que virou o jogo: “Fer, por que você não faz um blog e já vai publicando as partes que estão prontas?” Uooow! Claro! Era isso. Apareceu a solução para o risco das revisões intermináveis. E, claro, eu não criei o blog na época dessa conversa, que foi anterior à pandemia. Mas o bom conselho foi dado, e eu não o esqueci.


Passado um tempo, quando bateu aquele peso pelas muitas procrastinações, tomei posição e fiz o que tinha que fazer. Escrevi o primeiro texto em 3 dias, revisando e re-revisando, e muda aqui, corta ali, até que claramente veio uma impressão em meu íntimo: “Deixe de perfeccionismo, Fer! Está bom, publique assim”. Obedeci, parei de mexer no texto, fui atrás de saber como se criava um blog e trombei com o Blogger (blogspot). A coisa não era tão complicada, bem intuitiva mesmo, e de repente eu estava com um ambiente para começar a postar os textos. O nome ESCRITOS ALEATÓRIOS brotou espontâneo. Foi o título que me ocorreu naquela hora, pois refletia exatamente o que seria e tem sido esta jornada de letras.


Temas vindo à mente aos montes. Alguns com páginas já escritas – daqueles anos irregulares anteriores – e a maioria ainda por escrever. Num app de anotações em meu celular, não deixo nada ficar para trás. Ocorre-me uma ideia, um possível título para o próximo texto, algo que me falou mais ao coração nas leituras bíblicas, um fato ocorrido em família, etc. Tudo, literalmente tudo pode ser matéria-prima para umas horinhas de reflexão aqui no teclado. E assim tem sido, já por 7 meses. Ideia para um dia parar? Não. Nenhum indicativo de parada no horizonte. Pelo contrário. Quanto mais eu vejo páginas e páginas vindo à existência, e o quanto isso descortina novos temas, percebo que será um trabalho para a vida toda.


“Beleza Fer, mas e o livro escrito? Não vai rolar?”


Vai sim. Tenho algumas direções sobre o processo seguinte, que não tardará. Mas agora, neste tempo específico, o mais importante era ver nascer um escritor disciplinado, cujos dois escritos semanais no blog são um termômetro dessa necessária constância. Li num dos meus muitos livros que um verdadeiro escritor escreve todos os dias. Bem, se é assim mesmo, eu não sei. Cá comigo, acabei encontrando uma regularidade que se encaixa bem na minha rotina, que tem diversas coisas demandando atenção. Além do mais, nos 3 ou 4 dias que separam um texto do outro, muito acontece aqui na cachola, no processo criativo. Por vezes venho ao teclado com tudo previamente elaborado. Noutras, o negócio é ao vivo, no FLOW. (Qual teria sido o processo hoje?)


Enfim, chegando nas partes finais do 068, está contada sucintamente a história do que nos trouxe até aqui, nestes Escritos Aleatórios. Um livro que está sendo escrito de pouco em pouco, num formato meio maluco, aleatório mesmo, como tinha de ser. Mas o pano de fundo, agora você sabe: é a ideia de uma VIDA INTEGRAL, com suas 7 áreas e muitas partículas, todas bem ajustadas, funcionais, equilibradas. É sobre isto que falaremos nas próximas 3 ou 4 semanas, abordando cada parte, numa série complementar ao texto de hoje.

domingo, 24 de outubro de 2021

067 PROJETO VERÃO

Setembro, Outubro, Novembro... mais ou menos nesta época do ano é colocado em ação, por muitas moças, o famoso PROJETO VERÃO. Se deixam para começar em dezembro, lascou! Prazo curto demais. Praia em janeiro sob risco!!! Prazo mais apertado do que aquela calça 36 em que ela não entra. Então, magicamente, com o Projeto Verão tudo se resolve. Conseguirá entrar nas calças, bem como dar nozinho nas camisetas para mostrar a barriga, usar os trajes de banho numa boa... e o Everest da autoconfiança: postar as fotos disso tudo nas redes sociais. Lindona. Empoderada. Sheipada. Tudo porque, num curtíssimo período, foram adotadas MEDIDAS EXTREMAS. Dieta, exercícios intensos, quem sabe alguns comprimidos emagrecedores, e tudo mais que tenha a ver com aquela forma física apresentada no verão.

Não importa como! O importante é que o objetivo foi alcançado.

“Hummm... senti uma pitada de pegação no pé das mulheres nesse primeiro parágrafo, Fer. E dos homens, não fala nada?”

Beleza, beleza. Para distribuir igualitariamente meu olhar crítico, basta reler o texto substituindo “moças” por “rapazes”, “calça 36” por “calça 40”, “nozinhos das camisetas” por “camisetas regata”, e “lindona, empoderada e sheipada” por quaisquer palavras mais masculinas semelhantes.

“Hummm... senti agore ume pitade de pegaçãe ne pé des amigues, Fer. E delxs você nãe fale nade?”

Putz, aí já é demais. Deixemos esta questão para um escrito futuro, que já está no forno e logo virá. Será uma beleza. Escrito para ganhar muitos HATERS. Imagine minha cara de preocupado... (risos).

Projeto Verão, da forma como colocado ali nas primeiras linhas, acredito ser uma realidade apreensível por qualquer pessoa. Ou porque já fez, ou porque conhece alguém que faz ou fez, ou porque já ouviu sobre essa prática. Basicamente, como descrito, são algumas medidas mais radicais aplicadas num curtíssimo período, com vistas a um rápido resultado estético, ainda que fisiologicamente questionável. Resultado que, sob circunstâncias tranquilas, normais, levaria um tempo bem maior para acontecer,  mas fisiologicamente melhor. Dito de outra forma: 9 meses no relaxamento, seguidos de 2 meses com restrições fortes, para ter 1 mês no shape incrível (ou no melhor que dava pra ter). O ciclo de todo ano.

Aí eu levanto a pergunta: Faz sentido? O “Ciclo 9-2-1” faz sentido?

Penso que não. Passar 9 meses na forma como você não gosta, para depois ter 2 meses sofridos na busca da forma que você gosta, e ter como prêmio 1 único mês nela, realmente não faz sentido. Mas tudo bem. Cada um vive como quiser, come o que quiser, e digere da forma que puder. Cá do lado de cá, estou apenas no papel de questionador, colocando um olhar crítico – não a crítica pela crítica – para fazer pensar, e quem sabe brotar uma perspectiva diferente.

“Ah, Fer. Pára! Você não tem problema com peso, não pode falar nada! Tem a mesma forma física desde os primeiros fios de barba na cara, e vem criticar quem não se sente bem com uns quilos a mais, e tenta fazer algo para ficar melhor. Deixa disso!”

Pois é, pois é. Caso tal sentimento tenha passado pelo seu ser, a esta altura do texto, faltou mesmo ler com atenção a parte em que destaco não ser uma crítica pela crítica, mas minha tentativa de apresentar um outro olhar sobre a questão.

O que te parece melhor? O Ciclo 9-2-1? Ou ciclo nenhum, mas a manutenção permanente do shape que você gosta?

Penso que a resposta seja natural. No fundo, no fundo, parece ser o que todos gostariam. Por razões variadas, muitos não conseguem de forma permanente o shape que gostam, então veem-se obrigados a apelar para os Projetos Verão. Por razões variadas, podemos elencar situações fisiológicas sensíveis, biotipo, compulsões, desleixo, e outras tantas. Claro que há razões muito difíceis de contornar, como o exemplo de um desequilíbrio hormonal. Mas não está aí nosso foco. Quero direcionar o olhar para os desleixados.

Nova pergunta: veem-se OBRIGADOS mesmo? Ou poderiam SIM ter o shape permanente, pagando um preço menos drástico, mas que exige paciência e constância?

Acho que todos sabemos que a resposta, no caso dos desleixados, é “SIM, PODERIAM”. Vou sacar um exemplo doméstico, processo que vi completo, de ponta a ponta. Ela não era uma desleixada completa, do tipo que vivia em extravagâncias gastronômicas. Mas, por ter uma genética apontada para o "sempre em forma", mesmo sem exercícios, mesmo comendo sem preocupações, foi mantendo seu estilo de vida normal, o de sempre, até que algo nessa conta mudou.

Dona Mírian, minha adorável mãe, aquela que vive cuidando do meu prato. Quando digo “cuidando”, é no sentido de ficar reparando; coisa que eu detesto e ela sabe. E, claro, como toda mãe, não está nem aí para o meu aborrecimento; continua cuidando toda vez. Mas não vamos falar do meu prato, e sim do dela. Dona Mírian sempre foi uma mulher lindíssima, em todas as fases da vida. Nem falarei sobre suas qualidades interiores hoje, que são imensamente maiores. Fisicamente falando, ela é uma mulher linda hoje, aos 65. Também o era aos 55, 45, 35, 25, 15. Uma bela menina-moça-mulher-senhora, em todas as fases da vida. Naturalmente bela. Não apenas na minha opinião, mas também na de muitas pessoas, algo que ouvi ao longo desses muitos anos.

Felizmente para ela, como também para mim, e várias outras pessoas que observei ao longo da vida, o tal SHAPE IDEAL estava sempre ali, sem a necessidade de medidas drásticas. Genética. Uma abençoada genética. Tão abençoada que não apenas medidas extremas não eram necessárias, mas medida alguma. Dona Mirian nunca foi de atividades físicas regulares – do ponto de vista esportivo, registre-se; porque o tanto que ela sempre trabalhou e trabalha, seria uma atleta olímpica –; também não se besuntava de cremes anti-age toda noite, nem tinha horário semanal fixo para massagens e drenagens, não fez cirurgia alguma na vida com objetivos estéticos. E lá está ela hoje, como se vê: Lindona. Empoderada. Sheipada. Dentro da normalidade de uma jovem senhora de 65 anos.

Mas Dona Mirian não é parâmetro. O Fernando Veríssimo também não é parâmetro. E gente que nunca brigou com a balança também não é. Pontos fora da curva. Comparações indevidas com aqueles que não tem essa facilidade genética. Mas... mesmo estes podem ver o jogo um dia virar.

Então de repente, não mais que de repente, o ponto fora da curva aconteceu na vida da Dona Mirian, que até então era (ela) um ponto fora da curva. Ao superar a barreira dos 60 anos, ela começou a mudar. Engordou rapidamente. Mesma rotina, mesmos hábitos, e muitos quilos a mais, acumulados em poucos meses. Algo mudou em seu organismo. De repente, muitas de suas roupas não serviam mais. Putz! O que fazer? Projeto Verão? Hummm... acho que não.

Se ela tentou alguma medida drástica em algum momento, eu sinceramente não sei. Se o fez, foi com muita discrição. E se o fez, não deu resultado. Até que nos últimos 2 anos, período praticamente correspondente ao da Pandemia Covid-19, eu acompanhei um consistente processo de reeducação alimentar por ela implementado. Basicamente alimentar, pois com atividades físicas hoje ela tem restrições. Não é mais porque não gosta. Hoje não faz porque o corpo não permite mesmo.

Como eu a visito sempre, notei seus estudos nesta área. Apostilas, vídeos, “lives” no YouTube com a nutricionista que escolheu. Eu abria a porta de seu apartamento, e já reconhecia a voz e o jeito de falar da “nutri”. Então Dona Mirian fazia um arroz com cebola para mim, dois ou três ovos fritos, que eu saboreava como o melhor pós-treino da vida, fosse num de meus fins de tarde na academia, fosse após meus giros de bike. Depois, já na minha casa, eu suplementava. E ao lado da panelinha do meu arroz, sempre estava a panela da Dona Mirian. Comida de verdade. Comida boa. Às vezes eu filava um pouco da dela para o meu prato. E que delícia!

E assim, num processo suave, orientado, científico e saboroso, Dona Mirian foi perdendo medidas. Não me lembro exatamente, mas posso praticamente cravar que foram uns 15 quilos. Muita coisa né?! E sem Projeto Verão. A mulher com a super genética favorável de toda a vida, em algum momento precisou se adequar à nova realidade trazida pelos anos, pelas mudanças hormonais, por seu não-gosto por exercícios físicos, e teve que fazer a lição de casa, se não quisesse perder todo o seu guarda-roupas. Ela o fez, e lá está, tão linda como sempre. Repito: SEM PROJETO VERÃO.

“Gordofóbico! Gordofóbico! Você está sugerindo que pessoas gordas não são lindas. Gordofóbico!!!”

Sério? Pára! Sem MIMIMI.

Dona Mirian ganhou medidas e se incomodou. Aos meus olhos, ela não ficou legal com 15kg a mais. E eu não sou do tipo hipócrita politicamente correto que fala o que todo mundo espera, só para não receber críticas. Ela aumentou e já não estava tão bela como antes. Simples assim. É o meu olhar, e tenho todo o direito de tê-lo. É o meu senso de beleza estética, e tenho todo o direito de tê-lo. E não, não se trata do famigerado PADRÃO IMPOSTO PELA SOCIEDADE. Papinho chato de gente chata.

Dona Laurinda, mãe da Dona Mírian, avó do Fer, era enorme. Enorme e linda. Interiormente, nem se diga. Impossível descrever o quanto. E exteriormente também. Com seus muitos e muitos quilos era uma senhora linda. Achava-se linda. Seu marido, ainda mais. Apaixonado por ela toda a vida, por 60 longos anos de casamento. E com seu tamanhão todo, lindona, minha avó não corria atrás de medidas que não tinham a ver com ela. Era uma mulher grande, combinava, tudo certo. Tudo isso para dizer que não, não estou a sugerir TODO MUNDO DO MUNDO SHEIPADO e no mesmo padrão. Tem pessoas magras lindas, e gordinhas lindas, e gordonas lindas. E tem gente magra, gorda e gordona muito feia.

Agora, a questão é a seguinte: se você não está satisfeito com o que vê no espelho – e o apelo ao Ciclo 9-2-1 prova isso – por que não pensar numa forma melhor de eliminar seu descontentamento? Uma forma mais sustentável, suave e prazerosa. Este é o ponto!

Medidas drásticas, extremas e desesperadas são REATIVAS. Penso ser muito melhor uma postura PROATIVA na busca de objetivos. Vai demorar mais? Vai. Só que será duradouro. Eu compararia a uma situação financeira disfuncional, no mesmo padrão 9-2-1: três trimestres todo zoado com o dinheiro, dois meses no desespero, até que se apela para medidas drásticas (empréstimo, agiota, etc), para viver 1 pequeno período de aparente tranquilidade. Tudo pago, mas porque foi devidamente refinanciado em 60 prestações, que vão andar de mãos dadas contigo pelos próximos 5 anos. Elas não te soltam de jeito nenhum, te garanto! Quando o melhor, bem sabemos, seria (É!) uma disciplina financeira permanente, que jamais te conduzisse à necessidade de medidas desesperadas. Outra comparação possível é com os estudos: semanas e mais semanas relaxado, sem tocar nos cadernos ou materiais, para de véspera precisar varar uma ou duas noites estudando igual a um condenado, e quem saber ter o êxito de uma boa nota. Quando o melhor seria (É!) uma rotina de estudos constantes. Ciclo 9-2-1 total no rolê. Pegue o que for, em qualquer área da vida. É sempre assim, pois tem um PRINCÍPIO envolvido. E princípios não falham.

Minha proposta com este palavrório todo é estimulá-lo à disciplina e a um estilo de vida sustentável, que te livre de medidas drásticas. Situações urgentes na vida ocorrerão, eu sei. Necessidade de atitudes fortes também, eu sei. Mas a grande verdade, é que elas serão poucas numa VIDA DE PROATIVIDADE, e serão muitas numa VIDA DE REATIVIDADE. Seja no shape, seja na conta bancária, seja no boletim, seja no que for. Projeto Verão te dá uma falsa ideia de êxito. Afagos pelo número legal na balança, ou pelo saldo positivo no banco, ou pela nota e aprovação na escola. SUCESSOS LÍQUIDOS. Bolhas de sabão. Vão passar. E um novo ciclo disfuncional começa.

A imagem que ilustra este escrito tem a ver com o que falamos. É uma foto do meu jantar de hoje. Arroz com cebola, pouquíssimo sal. Tomate, sal e azeite. Legumes cozidos, um fio de azeite e sal na água do cozimento. Ovos cozidos, também com pouquíssimo sal. Suco de uva integral (claro, sem sal). Isso tudo no prato de um cara que não tem problema nenhum com pressão alta, glicemia em ordem, demais exames exemplares, genética top, mesmo peso há quase 3 décadas. “Puuutz, que chato deve ser ser você, Fer!. E que mala! Se acha!”. Negativo, pequeno padawan. Bem, quanto ao "ser mala", se for o caso, é só a sua opinião, e sobre isso eu já disse o que penso no escrito 013. Mas se o "que chato" se referir à minha rotina alimentar, saiba que tomo uns refris de vez em quando; como chocolate (pouco) todos os dias; não dispenso a picanha com a deliciosa capa de gordura; sobremesa então, nem pensar que eu pulo. Mas essas delícias não rolam sempre (exceto chocolate). São comidas especiais, não rotina. O grande problema de viver uma vida de festa, com comida de festa todo dia, é que não tem como viver assim sem pagar a fatura. Ela virá. Seja na forma de quilos a mais, exames ruins no check-up anual (que você deveria fazer), nas dores que começam a brotar pelo corpo, na dificuldade de dar aquela namorada top com a patroa, mesmo sendo ainda tão jovem. É, amigão, viva como se não houvesse amanhã, e pode ser mesmo não haja.

O artifício do PROJETO VERÃO não passa de um... artifício. É ARTIFICAL, na essência. Por que não adotar um consistente PROJETO VIDA TODA? Algo NATURAL, funcional, estável. Na balança, no saldo da conta, nos conhecimentos; em tudo. É sobre isto que falaremos nos próximos textos.

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

066 A COLCHA DE RETALHOS

Quando me chega um elogio do tipo “Fer, como você escreve bem!”, ou “seus escritos são excelentes”, não nego que me envaideço; chego até a acreditar. Minha Linguagem de Amor são PALAVRAS DE AFIRMAÇÃO, então é natural que toda manifestação elogiosa, a mim dirigida, sempre tenha um impacto maior do que teria sobre uma pessoa com outra linguagem predominante. Curiosamente, minha linguagem como receptor não é a mesma de quando estou no papel de emissor. E qual seria esta? Deixo a pergunta no ar para que pensem um pouco e, se se animarem, me enviem opinião.

Ao dizer que “chego até a acreditar”, não coloco sob suspeita a sinceridade de quem faz tais elogios. De modo algum. Acredito e recebo com muita alegria. Mais que isso. Quando sei que algum desses 65 escritos anteriores não apenas agradaram aos olhos, ou serviram para preencher uns minutos de alguém, mas que de algum modo foram efetivamente úteis, geraram uma reflexão profunda sobre o tema, ou – aí é o Everest pra mim – conduziram a pessoa a alguma atitude prática de mudança, em algo que precisava, minha alegria é completa. Vai muito além do envaidecimento pelo elogio. Aí estamos falando da convicção de estar cumprindo um propósito.

Mas a realidade é que eles são apenas razoáveis, a grande maioria. Esboços do que virão a ser, após futura lapidação. Sempre releio. Vez por outra, uns ajustes, correções, melhorias na construção. Aí acabo considerando alguns bons. Muito bons? Também, mas em menor número. Excelentes são bem poucos, de acordo com a finíssima peneira do meu filtro de qualidade. “Hummm... percebo traços do Fer perfeccionista no ar”. Talvez, talvez. E se for, que o seja. Embora eu vise a EXCELÊNCIA, não posso negar que o fato de, na maior parte da vida, ter sido PERFECCIONISTA, tenha deixado uns traços em mim. Com o tempo isso some.

Ao abrir um texto dos grandes mestres da literatura, como fiz hoje, eu cogito rapidamente editar minha BIO no Instagram, para retirar da descrição o tal “escritor aleatório”. Porque ante um texto enorme de verdade, sinto-me pequenininho. A beleza, o estilo, o ritmo, a riqueza vocabular, as referências riquíssimas... são algo bastante intimidador. Considerar-se um escritor é ousado. Se já sou, não sei. Mas desejo fortemente sê-lo, ainda que jamais me iguale em excelência aos grandes mestres. Provavelmente não o farei. Mas tudo bem. Não escrevo por glória, e sim por propósito. Mas por que não cumprir meu propósito com excelência, né?!

“A Colcha de Retalhos”, conto escrito por Monteiro Lobato no ano de 1915, pouco mais de um século atrás, é carregado de genialidade, beleza e maturidade na arte. É difícil adjetivar de forma econômica um texto como aquele. Não darei spoiler, embora a essa altura ninguém possa mais reclamar disso, por estar o texto a tantas décadas disponível. Mas não falarei mais que o mínimo, para instigá-los a ler. Confiem quando digo que valerá cada minuto investido.

Um conto rural, passado em 2 anos, tempo que separa duas visitas a um malacabado sítio. Personagens: o narrador (cujo nome não é dito), Pingo d´Água (apelido da menina Maria das Dores), Sinh´Ana (mulher do Zé Alvorada), Nhá Joaquina (avó da Pingo), o próprio Zé Alvorada, e o Labreguinho (sedutor de donzelas). O centro da história: uma colcha de retalhos, tecida por Nhá Joaquina para o enxoval de Pingo d´Água. Sério, leiam! É um texto magnífico.

Meu primeiro contato com A Colcha de Retalhos foi em 2014, quando este conto se aproximava de 1 século de sua publicação. Comprei para enriquecer minha biblioteca pessoal um volume intitulado “Monteiro Lobato – Contos Completos”. De todos que li, este foi o que me pegou. Um grande texto tem o poder de mexer com você. Fazê-lo rir. Fazê-lo chorar. Sentir raiva. Parar tudo e não saber a razão, devido ao impacto. E assim foi comigo, quando li pela primeira vez A Colcha de Retalhos. Seguramente um dos grandes textos que encontrei na minha vida de garimpagem. Lembra-se do escrito 062 O GARIMPO? Então, naquela parte que digo “Vez por outra, de forma totalmente aleatória, eu o retiro, dou uma olhada, releio as partes sublinhadas, as que destaquei com 1, ou 3, ou 5 asteriscos, símbolos indicativos (e classificatórios) do grau de importância encontrado naquela frase ou parágrafo ou página inteira. Os tesouros dentro dos tesouros”. E prossigo: “Basta-me saber que o meu tesouro está ali, bem perto, e mais preciosas do que as muitas milhares de páginas comuns, sei exatamente onde estão algumas milhares boas, as centenas excelentes, e algumas dezenas extraordinárias. Isso é ter um tesouro e saber desfrutá-lo”. O conto A Colcha de Retalhos está no ápice. Recebeu 5 asteriscos. São 9 das melhores e mais geniais páginas pelas quais meus olhos já passaram. Sério, leiam!

Aí eu resolvo, ousadamente, dar a um destes meus simples escritos o título homônimo. Pois é. O nome Fernando significa OUSADO, como mencionei pela primeira vez no escrito 028 AS TRÊS VISÕES. Visões que tive naquele mesmo ano de 2014, quando morava em Curitiba, e comprei meu precioso volume de Monteiro Lobato. Além do conto, leiam o 028 também. Valerá os minutos investidos.

O que são os ESCRITOS ALEATÓRIOS, senão uma grande colcha de retalhos? Pensamentos que estão sendo costurados semana após semana. Um material pensado, projetado, organizado para ser sistêmico, poderia ser melhor comparado a uma lindíssima colcha de algodão pima, trama de 1000 fios. Mas aqui reina o (aparente) caos. Um dia fala da infância, no outro de trabalho, aí aparece um escrito que poderia perfeitamente bem ser pregado num púlpito da igreja, pulo para minhas dores com a degradação da natureza, passo para confissões francas de erros cometidos. É assim mesmo! Nesta “bagunça” vai sendo tecida A COLCHA DE RETALHOS dos meus pensamentos, histórias, convicções, dúvidas, e tudo mais que me compõe.

Escrever é uma necessidade para mim. Escrever me organiza.

Por vezes, como no 013, no 031, ou no 065, tenho os temas bastante amadurecidos. Começo a teclar e o processo vai que vai, veloz, pensamento estruturado há muito tempo. Noutras, entretanto – a maioria, aliás – eu começo com um título, sem a menor ideia de para onde estamos viajando. Mas o texto acontece, sempre acontece. E seu processo rola de uma vez só. Tirante o 001 AMOR EM TEMPOS DE PANDEMIA, que escrevi em 3 dias, todos os demais vieram à existência em alguns minutos ou horas, numa pegada. Lembro-me sempre, sobre isso, de uma cena do filme Encontrando Forrester (ano 2000), em que William Forrester (Sean Connery) diz ao jovem Jamal Wallace (Rob Brown) que escreva. Bem à frente de Jamal há uma máquina de escrever com a folha de papel em branco, na posição. O garoto trava. “Mas escrever o quê?”. “Escreva!”. “Mas o quê?”. “Apenas escreva, droga! É o que um escritor faz. Escreva!!!”. Ao que Forrester assume a posição em frente à máquina e começa a datilografar avassaladoramente, trazendo à existência um belo texto em instantes. Jamal o lê, sem poder acreditar no que aconteceu diante dos seus olhos.

Escrever é espontaneidade, puro feeling.

Se eu pensar demais no retalho da vez, ocupando-me com combinações, estratégias, uma visão completa do que será esta colcha um dia, perde a graça. A beleza está justamente em dar 100% em todo escrito, a cada noite de quarta, a cada tarde de domingo, semana após semana, mês após mês, e – acredito que assim será – ano após ano, década após década, para tecer muito mais do que uma colcha, mas um tabernáculo de ideias. Algo que vá além de mim, transborde. Não uma peça que tenha a destinação pré-definida, como fez Nhá Joaquina no conto, mas uma estrutura muito, muito maior, que toque vidas e gerações. Algo que não me pertença mais.

Eu já falei que Fernando significa OUSADO? (risos)

É por isso que eu escrevo. Primeiramente para mim mesmo, para registro do que penso sobre as coisas. E como tem temas na fila! Mas, segundamente, e especialmente, e ousadamente para que muitas outras pessoas sejam levadas a pensar, ou se inspirar, ou apenas ler. Se eu tiver contribuído para a construção de um único bom leitor, já tenho bela paga pelo tempo aqui investido. Mas eu sei que um alcance muito maior é possível, e possivelmente já ocorra.

As duas ou três primeiras páginas – o equivalente a 1000 e poucas palavras – exatamente este ponto do presente escrito, sempre acontecem no FLOW. Aí eu paro um pouco – como estou fazendo agora – vou comer algo, assisto a uns 2 ou 3 vídeos de restauração de antiguidades (desacelera a mente), então retorno, reviso tudo que já foi escrito, e naturalmente acontece o fechamento. É quando vêm as grandes sacadas. É quando o título certo salta na minha frente. É quando eu passo a linha nas pontas finais do retalho, que daqui para sempre passa a fazer parte da colcha.

Nunca cheguei a apagar um parágrafo inteiro. Quando muito, uma ou duas frases excluídas. Revisão de estilo. Correção ortográfica. E só. Gosto de um texto espontâneo. É assim que eu escrevo. Aí depois, nos dois ou três dias seguintes, fico olhando para aquele quadradinho novo na colcha, para somente então ampliar a visão, entendendo como ele se conectou com tudo o mais que já estava costurado. É caótico. É aleatório (em essência). E por isso é tão legal.

domingo, 17 de outubro de 2021

065 DÊ VALOR A QUEM GOSTA DE VOCÊ

Ao iniciar a aula com as crianças nesta manhã de domingo, havia em mim um misto de alegria e tristeza. A primeira, porque amo ministrar para os pequenos. A segunda, porque seria minha última aula com eles, pelo menos por ora. Pedi para deixar a função de professor no ministério infantil por um tempo, entendendo a necessidade de buscar em Deus algumas direções para minha vida. É salutar entender essas fases de recolhimento, lapidação, quietude. Porque sem silêncio, fica difícil ouvir. Então, com uma boa dose de tristeza, dei hoje minha última aula aos alunos de 9 a 12 anos na igreja.

Curiosamente, havia mais que o dobro da média de alunos na sala. Curiosamente, foi a melhor aula que ministrei para crianças em todos os vários anos que abracei este ministério. Curiosamente, ninguém dormiu. Curiosamente, ninguém sentiu aquela vontade incontrolável de ir ao banheiro ou sair para beber água. Começamos às 11h. Quando resolvi dar uma olhada no relógio para ter uma ideia do tempo, passava do meio-dia, hora de finalizar. E todas as 13 crianças absolutamente conectadas com a aula. Isso não é nada comum.

Ao longo dos anos como professor na igreja, entendi que a atenção dos pequenos é diferente da dos adultos. Você consegue captá-la por no máximo alguns minutos, e logo vai se instalando uma dispersão, um relaxamento. Então, criativamente, você precisa fazer algo que capture essa atenção de novo, para mais um pequeno ciclo expositivo, aquela janela de oportunidade para dizer algo realmente importante, que marque aquele encontro para sempre. Porque se for para estar ali apenas para cumprir tabela, ou tirar as crianças do salão de culto e os adultos poderem ouvir a pregação com mais tranquilidade, alguma coisa estaria errada. Os pequenos merecem o melhor. Atenção máxima. Todo zelo e amor em cada ensinamento compartilhado.

E foi exatamente isso que eu disse a eles no início da aula:

- Falaremos hoje sobre Força e Fé, com base no texto de 1 Coríntios 15:58: Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor. (*porção que encontra paralelo praticamente idêntico em 2 Crônicas 15:7 - Mas, sejam fortes e não desanimem, pois o trabalho de vocês será recompensado).

Eu noticiei que seria minha última aula com eles, o que gerou alguma movimentação, uns “Por que?´s”, mas tirei o foco disso, para encurtar o assunto. Então eu disse algo que costumo colocar durante minhas aulas. Algo que reflete o princípio da Excelência, que busco sempre fazer acontecer na minha vida, seja qual seja a área:

- Pessoal, meu maior desejo é que ao final desta aula, alguma coisa, uma palavra, uma frase, um texto, um exemplo, o que quer que seja, entre tão profundamente em vocês que os marquem para sempre. Algo que mude as suas vidas. E sabe, eu me lembro perfeitamente bem de coisas que eu ouvi há muitos e muitos anos, algumas quando tinha a idade de vocês, e que foram muito importantes na minha caminhada.

Lembrando, galera: alunos de 9, 10, 11 e 12 anos.

Tio Fer não leva bala. Não leva chocolate. Não tem dinâmicas ou brincadeiras. Tio Fer anota na folha as presenças, quem trouxe Bíblia e materiais (que nunca se usa), então fazemos uma oração para iniciar, a leitura do texto-base e bora conversar por 1 hora ou mais. Zero diferença da mesmíssima ministração que eu teria com uma turma de 20 e poucos anos de idade, quarentões ou as vózinhas e os vôzinhos da igreja. Zero diferença, a não ser pelo vocabulário ajustado para cada idade. Mas no conteúdo, 100% a mesma busca de profundidade e a mesma paixão por entregar algo relevante. Afinal, como disse Jesus a Pedro à beira do mar: ‘Tragam alguns dos peixes que acabaram de pescar’. Depois de comerem, Jesus perguntou a Simão Pedro: ‘Simão, filho de João, você me ama mais do que estes?’ Disse ele: ‘Sim, Senhor, tu sabes que te amo’. Disse Jesus: ‘CUIDE DOS MEUS CORDEIROS’. (escrito 048 O BOM PASTOR)

Cuidar das crianças é uma expressão gigante de amor pelo Senhor.

Então, concluída nossa 1 horinha de hoje naquela sala, meu maior desejo é que alguma das muitas coisas que eu disse tenha entrado avassaladoramente nalgum daqueles pequenos e tão importantes corações, gerando algo que ecoe pelo resto de suas vidas. Afinal... “de modo que, tendo diferentes dons, segundo a graça que nos é dada, se é profecia, seja ela segundo a medida da fé; se é ministério, seja em ministrar, SE É ENSINAR, HAJA DEDICAÇÃO NO ENSINO; ou o que exorta, use esse dom em exortar; o que reparte, faça-o com liberalidade; o que preside, com cuidado; o que exercita misericórdia, com alegria” (Romanos 12:6-8). Textinho precioso que utilizamos bem recentemente, no escrito 064 APENAS UM DENTE NA ENGRENAGEM.

Como eu disse mais acima, eu me lembro perfeitamente bem de coisas que ouvi há muitos e muitos anos, algumas quando tinha a idade deles, e que foram muito importantes na minha caminhada. Elogios. Exortações. Textos bíblicos. Fontes variadas. Às vezes, pessoas inesperadas. Tenho certeza que algumas das que disseram as coisas mais marcantes da minha vida, nem sabem disso. Mas deixaram marcas em mim. Marcas positivas, graças a Deus. Uma dessas – como eu poderia chamar – PALAVRAS PARA A VIDA TODA ocorreu no final do ano de 1992.

Colégio Estadual Cianorte, aquele mesmo onde Dona Mirian me matriculou em dois cursos: “Vindo do Princesa Izabel, onde quase reprovei na 8ª Série, agora eu me encontrava no Colégio Estadual Cianorte. Dentre os públicos da cidade, era possivelmente o colégio mais desejado para se conseguir uma vaga. Eu consegui não apenas uma, mas duas vagas. Pela manhã o Educação Geral, e de noite o Curso Técnico de Contabilidade. Os tempos infantis e juvenis ficavam para trás”. (Escrito 024 O COLAR)

Estudar de noite foi a descoberta de um mundo novo para mim. No ano anterior, 1991, quando completei 14 anos de idade, eu era bem crianção. Não por acaso, quase reprovei, visto que estava mais preocupado em treinar para os jogos escolares, do que em aprender conhecimentos importantes para o vestibular que não tardaria chegar. Passado o susto, e obtido o ingresso no 2º Grau, Dona Mirian radicalizou e me apertou para crescer. E como eu sou grato a ela por essa e tantas outras espremidas na vida, que me levaram para lugares melhores. Seu trabalho comigo foi indescritível. Livros não bastariam para expressar tudo que ela fez por mim.

Então, inicia-se o ano de 1992 e lá estou eu, ainda  com 14 anos – pois faço aniversário em junho – no meu primeiro dia de aula numa turma noturna de Técnico de Contabilidade. Piá de tudo! Crianção total, mas ladeado por colegas mais velhos que eu, a maioria já trabalhando, gente casada, alguns até com filhos. E eu lá, piazão na essência, e grandão no tamanho. Foi um ano incrível! Fiz amizade fácil, querido por todos. Havia, claro, os colegas mais chegados, especialmente dois com quem eu sempre estava. Um se chamava Marcelo – recordo-me do nome, porque é o mesmo do meu irmão – e o outro não consigo me lembrar. Este era magrelo e de cabelo amarelo, jovem como eu – quem sabe 1 ou 2 anos a mais – trabalhava, tinha já comprado sua mobylette e com ela vinha para o colégio. O Marcelo era bem diferente: praticava judô, era um cara bem forte, figurinha conhecida – havia reprovado algumas vezes – fanático pela cultura Punk. Vez por outra, vinha com os cabelos no estilo moicano. Usava sempre e sempre a mesma jaqueta jeans com vários decalques de bandas, e também coisas que ele mesmo pintava. Segundo ele, a peça nunca havia sido lavada. Usava todos os dias, fosse na escola, fosse no trabalho, fosse nalgum show de punk rock que rolasse em Cianorte, ou Maringá, ou Curitiba. Ele realmente curtia. Não raro, o cheiro de sua jaqueta incomodava quem estivesse na carteira ao lado, e ele nem aí pra paçoca.

Havia também na sala uma linda morena. Seguramente, a mulher mais bonita que eu havia visto na vida, até então. Eu tinha 14 para 15, pessoal, tenham isso sempre em mente. Menos referências. Menos experiências. Toda novidade era muito impactante para mim. E que novidade aquela!!! Vez por outra, eu me pegava olhando para a moça – de quem não me lembro o nome – que tinha lá seus 18 a no máximo 20 anos. Chegava sempre ao colégio de moto, na garupa do namorado, um cara que estava no 2º ou 3º ano. Discreta, na dela, muito parecida com uma outra morena que conheci depois, nos tempos de Direito Noturno na UEM. Quando chegava, literalmente parava o corredor. LITERALMENTE. Mas voltemos para a primeira morena.

Segue-se o ano, Fernando totalmente integrado na nova turma, bem como na turma da manhã. Da quase reprovação na 8ª Série, fui para o extremo oposto no ano seguinte, sendo em 1992 um dos melhores alunos do Colégio, em ambos os períodos. E olha que não deixei de praticar meus esportes. Bastou organizar melhor o tempo e dar a prioridade certa para cada coisa. Completei meus 15 naquele junho e tudo certo. A amizade mais próxima com o magrelo e o punk, bom relacionamento geral com a turma, inclusive com a tal morena. Vez por outra, algum professor passava trabalho em grupo, e todo mundo queria fazer comigo. Por que será, né?! E numa dessas oportunidades, por ser uma atividade com grupo grande, eu e a morena finalmente trocamos mais do que os cumprimentos habituais de colegas de sala.

Como nunca fui o cara do grupo que apenas segura o cartaz, acabava naturalmente liderando e coordenando as coisas. Isso sempre foi assim. Mesmo em ambientes em que era pouquíssimo conhecido, ao longo dos meus estudos posteriores e também em atividades profissionais, de cara eu sempre fui identificado ou eleito (naturalmente) como líder do que quer que se tivesse por fazer. Ou porque as pessoas viam competência em mim, ou porque ninguém queria abraçar o papel e então pegavam o primeiro piá inocente pela frente. Hummm, jamais saberei...

Enfim, a tal atividade em grupo gerou mais amizade, não apenas com a morena, mas entre todos os envolvidos. Mas que bom que também com ela. Eu na minha, sempre discreto e um pouco tímido; ela na dela, discreta, linda... e com namorado (risos). Claro que eu só ficava olhando e nem cogitava realmente o que quer que fosse. Um garotão de 15, achando o máximo ter algum grau de amizade com a moça mais bonita do colégio.

Era muito comum em nossa sala do 1º Ano Noturno de Contabilidade de 1992 rolarem bilhetes. Alguns ilícitos, nos dias de prova. No dia a dia, como não houvesse Whatsaspp, SMS ou qualquer coisa parecida, era tudo à moda antiga. Para se comunicarem, as pessoas tinham apenas 3 modos: falando pessoalmente, falando corporalmente, ou falando por meio de palavras escritas em papel. Não havia mensagens eletrônicas. O negócio era raiz, OLD SCHOOL total. Queria falar alguma coisa para alguém? Então respira fundo, escolha as palavras, segura na mão de Deus e vai. Velhos e bons tempos da vida analógica.

Havia bilhetes de todo tipo:

“Essa aula que não termina”.

“Tô com fome!”.

“Depois me empresta o caderno?”.

“Sabia que você é lindo?!”

Aquele gelo na boca do estômago. Meu Deus!!! E agora? O que eu faço? Quem será que mandou este? Porque a coisa era tão natural, que os bilhetes iam passando de mão em mão entre os colegas, até chegar ao destinatário. Aí você abria, lia a mensagem e buscava identificar quem havia mandado. A rigor, a pessoa estava olhando para você, esperando um sinal de OK, ou de não-OK, e logo você puxava também um pequeno papel para escrever sua resposta e a nova mensagem fazia o caminho de volta, de mão em mão. Era assim o tempo inteiro, como ocorre hoje de forma muito mais silenciosa e discreta nos aplicativos de mensagens.

“SABIA QUE VOCÊ É LINDO?!”

Mensagens assim não eram comuns. Bem, eu não tinha recebido nenhuma dessas até então. Devo ter corado, como de costume. O gelo no estômago foi passando... e nada do Fernando conseguir dar aquela virada no pescoço para identificar a emissora. Normalmente as mesmas pessoas trocavam mensagens, e a gente acabava até conhecendo as letras dos colegas. É, pessoal, eu sou do tempo que as pessoas tinham letra, escreviam à mão, e a gente até sabia de quem era. Mas aquela letra eu não identifiquei de imediato. Como eu me sentava nas primeiras carteiras, lado esquerdo, encostado na parede, e o bilhete veio de trás, numa diagonal que eu costumava olhar de vez em sempre, o gelão voltou mais forte ainda. Havia chance de ser de uma certa pessoa.

Passado um tempo, bem maior do que o habitual para dar feedback de mensagem recebida, o Fer de 15 anos olha para trás, na diagonal habitual, e lá está ela. A moça mais linda que você viu na vida, olhando bem firme, um sorriso discreto no rosto, e fazendo um sinal de positivo com a cabeça. Bem, ela sabia que tinha me impactado. Mulher bonita sempre sabe os efeitos que causa. Puxei um papel também e, muitíssimo criativo, mandei um “VOCÊ TAMBÉM É LINDA!”. Ao que ela não tardou abrir, ler, sorrir e piscar. E assim foi nossa primeira paquera.

“Mas ela não tinha namorado, Fer?” Então, tinha né. Mas eu era lindo, uai! (risos)

Foi apenas isso. As únicas mensagens que trocamos nessa temática. Seguiu-se o ano, tudo normal, vez ou outra conversávamos na sala, assim como conversávamos com qualquer outro colega. Muitas mensagens não-verbais nós trocamos sim. A gente se olhava todos os dias, mas sem bilhetes, sem piscadas. Apenas sorrisos e, eventualmente, olhares bem fixos.

Último dia de aula em 1992, algumas matérias já concluídas, Fer aprovado desde o 3º Bimestre em quase tudo. Mas lá estava eu no Colégio. Não estudava só para ter nota ou passar, mas para aprender. Eu amava estudar, como o é ainda hoje. Professor entrega as últimas notas, pessoal fica sabendo se passou ou não passou de ano – você que nasceu na era digital nunca saberá como era isso – libera o pessoal e lá estamos indo para o pátio. A morena me pega uma das mãos e puxa-me em direção a um corredor. “Vem comigo, Fer”.

Seguimos até um local mais afastado, próximo a umas salas que já estavam vazias (luzes apagadas), e sentamos numa mureta. Ela começa a passar as mãos em meu rosto, em meu cabelo (eu tinha muito cabelo em 1992), e repete a frase que havia escrito naquele único bilhete: VOCÊ É LINDO. Beija meu rosto e diz palavras que me impactaram por toda a vida:

“FER, DÊ VALOR A QUEM GOSTA DE VOCÊ!”

“Eu tenho alguém. Namoro faz um tempo. Ano que vem vamos noivar”.

“Você é lindo. Não é só bonito. Você é lindo por inteiro. As moças vão gostar de você. Eu gosto de você, mas tenho alguém. Quando você encontrar uma moça que você também goste, valorize-a, seja bom. Dê valor a quem gosta de você”.

Deu-me um novo beijo no rosto, um abraço (mesmo sentada), levantou-se e foi saindo. Não posso afirmar, mas tenho a impressão que usou as mãos para afastar algumas lágrimas no rosto. Nunca mais a vi. Ela não estava no colégio no 2º ano de Técnico de Contabilidade, em 1993. Não me recordo de seu nome. Lembro-me perfeitamente bem de tudo mais nela. E jamais esquecerei aquele pequeno conselho da moça mais linda da minha juventude.

Se o segui? Claro que não. Deixei de dar valor a muitas moças maravilhosas que gostaram de mim, ao longo desses muitos anos desde então. E vacilo após vacilo, escolhas equivocadas e tudo mais que tem a ver com a longa jornada que me trouxe solteiro até aqui, sempre me lembro daquela noite de 1992, do conselho que ganhei, mas não segui.

Cedo ou tarde, lembrarei no timing correto. E o seguirei.

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

064 APENAS UM DENTE NA ENGRENAGEM

O tamanho, os números e a complexidade do mundo são assustadores, para dizer o mínimo.

Sobre o tamanho, autoexplicativo. Trata-se de um planeta gigante, cujo território é altamente, senão absolutamente desafiador para alguém aventurar-se a conhecê-lo por completo. Cá comigo, penso que mesmo com todas as tecnologias de hoje, a velocidade dos meios de locomoção, e tudo mais que fosse investido na hipotética odisseia, seria humanamente impossível executá-la. Uma pessoa com todos os recursos à sua disposição, mesmo numa longa vida, não daria conta de conhecer tudo que há. Na melhor das hipóteses, pinceladas, vislumbres do que cada lugar realmente é. Porque a esfera azul é muito grande.

Quanto aos números, todos também superlativos. São centenas de países pra lá, milhares de línguas, idiomas, dialetos e falares pra cá, não-sei-quantos milhões disso, trocentos e bolinha bilhões daquilo, e o mundo enorme mais que dobra de tamanho. Geografia, uma das minhas matérias favoritas na escola, era um prato cheio nessa parte. Eu me impressionava bastante com os números que ela me apresentava nas saudosas aulas do Prof. Momesso. Posteriormente, mantive por alguns anos o hábito de comprar o famoso Almanaque Abril. E... adivinha?! É, eu lia o almanaque de ponta a ponta; toda aquela parte retrospectiva no ano anterior, depois os temas de destaque, e por fim as informações básicas de cada um dos países do mundo. Tudo. Cada linha. Sempre pintava algo bem impressionante, aquilo que no escrito 062 eu chamei de pequenas pepitas ou gemas na minha garimpagem do conhecimento.

Por fim, temos a notória complexidade do mundo. Além da enormidade territorial, e da superlatividade numérica e estatística, agora entram no bolo os ingredientes culturais, históricos, as relações entre os países, os muitos países dentro do mesmo território – Brasil é exemplo clássico deste fenômeno – as divergências, as ideologias, as guerras, e tudo mais que torna nosso mundo extremamente complexo. E não, a globalização não homogeneíza a esfera azul. Quando muito, passa uma impressão de estarmos caminhando para um estádio de comunidade global, por termos o inglês como link linguístico entre todos os povos, um jeitão comum de se vestir, o uso do mesmo aplicativo de mensagens e as redes sociais para interagirmos, as Olimpíadas assistidas por bilhões pela TV, um ou outro sucesso musical planetário, e coisas do tipo. Mas penso que essa aparente homogeneidade é um verniz bem fino no tecido cultural. As fibras mesmo, essas são muitas e complexamente heterogêneas.

Dito isto, repito ser sim assustador um olhar individual voltado para o mundo. Sentimo-nos desprezíveis, de tão pequenos. Tomarei a mim como exemplo: Homem solteiro, 44 anos, ex-calvo, servidor público, procura pessoa para... ops! Pula essa parte. Mas falando sério, quem me conhece e sabe quais são minhas características principais, como eu bem as conheço, olha e conclui (indagando): que impacto este cara poderia ter neste mundo enorme, superlativo e complexo? Resposta automática (minha e/ou de qualquer um): nenhum impacto, ou algo infinitesimalmente perceptível (ver escrito 063). E é verdadeira a resposta, quando dada numa perspectiva meramente humana. O Fer é apenas um dente na engrenagem.

E sabe o que eu sei sobre engrenagens? Pouco. Mas uma coisa que eu sei é que numa estrutura mecânica grande, superlativa e complexa, um mero dente na engrenagem não faz a máquina parar. Segue o baile. Vai sem o dente mesmo, da mesma forma como sem um dente na arcada você consegue se alimentar e sorrir, a não ser que seja bem na frente a janelinha. Tião Macalé não, né?! Mas se for um do fundão, assim como eu tenho um em falta neste momento, a gente consegue mexer depois e seguir normalmente com a vida, comendo, bebendo e sorrindo.

Outra coisa que eu sei sobre engrenagens e seus dentes, é que (novamente) de modo semelhante aos da boca, eles podem ser trocados. E o são, diuturnamente. Se uma pessoa é um dente na engrenagem da grande empresa e os gestores concluem que não serve mais, troca-se. Está cheio de dentinhos na fila dos desempregados, desejando mais que tudo aquele lugar na máquina. Desde que se pague um salário minimamente suficiente para sobreviver, tá valendo. Nesse contexto, desejar uma existência mais rica de significado é luxo. A boa e velha Pirâmide das Necessidades de Maslow em ação novamente. Dentes de engrenagem precisam sobreviver primeiro, para quem sabe um dia se ocuparem com realização pessoal, influência, construção de legados, etc.

Cenário triste, né? Conversa mais deprê essa de hoje.

Mas eu não me vejo assim.

Não porque – objetivamente falando, sob a ótica do mundo enorme, superlativo e complexo – eu tenha alcançado uma posição destacada. Não mesmo. Visto por essas lentes, sou insignificante. Você também, muito provavelmente. E é assim mesmo que os idealizadores dessa lente desejam que seja: “Exista e dê-se por satisfeito por ter um lugarzinho na engrenagem, seu dentinho. Sem reclamar, viu!”.

Mas eu não me vejo assim. Não, porque um dia eu entendi que existe uma outra lente sobre mim. Outra perspectiva. Outra metáfora, que de metáfora nada tem. Trata-se de uma realidade viva. A grande engrenagem com seus dentes é metáfora. O Corpo de Cristo com seus muitos membros não é. Ele é uma REALIDADE VIVA, isso sim.

Ao ver-se pelas lentes dEle, você sai da “realidade” fria de um dentinho na engrenagem, para a realidade viva de ser uma parte do Corpo. Uowww, que mudança completa de paradigma! (levei 64 textos para usar esta expressão, heim rs)

Porque assim como em um corpo temos muitos membros, e nem todos os membros têm a mesma operação, assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros. De modo que, tendo diferentes dons, segundo a graça que nos é dada, se é profecia, seja ela segundo a medida da fé; se é ministério, seja em ministrar; se é ensinar, haja dedicação no ensino; ou o que exorta, use esse dom em exortar; o que reparte, faça-o com liberalidade; o que preside, com cuidado; o que exercita misericórdia, com alegria. (Romanos 12:4-8)

Porque, assim como o corpo é um, e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, são um só corpo, assim é Cristo também. Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito. Porque também o corpo não é um só membro, mas muitos. Se o pé disser: Porque não sou mão, não sou do corpo; não será por isso do corpo? E se a orelha disser: Porque não sou olho não sou do corpo; não será por isso do corpo? Se todo o corpo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo fosse ouvido, onde estaria o olfato? Mas agora Deus colocou os membros no corpo, cada um deles como quis. E, se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo? Assim, pois, há muitos membros, mas um corpo. E o olho não pode dizer à mão: Não tenho necessidade de ti; nem ainda a cabeça aos pés: Não tenho necessidade de vós. Antes, os membros do corpo que parecem ser os mais fracos são necessários; e os que reputamos serem menos honrosos no corpo, a esses honramos muito mais; e aos que em nós são menos decorosos damos muito mais honra. Porque os que em nós são mais nobres não têm necessidade disso, mas Deus assim formou o corpo, dando muito mais honra ao que tinha falta dela. Para que não haja divisão no corpo, mas antes tenham os membros igual cuidado uns dos outros. De maneira que, se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele. Ora, vós sois o corpo de Cristo, e seus membros em particular. (1 Coríntios 12:12-27)

Colocadas agora estas preciosas porções das Sagradas Escrituras, digo que o objetivo único do presente escrito 064 é compartilhar uma descoberta libertadora: EU SOU O QUE A BÍBLIA DIZ QUE EU SOU! Quando esta verdade entrou no meu coração, trocando as lentes com que não apenas o mundo, mas eu mesmo me enxergava, tudo mudou. Afinal, se pelas antigas eu não passava de apenas um dente na engrenagem, pelas novas e vivas lentes do Evangelho eu sou um precioso membro do Corpo de Cristo. E neste corpo, se em algum momento eu me enxergar como pequeno ou insignificante, a Palavra me lembra que TODAS as partes são igualmente importantes, têm o seu papel, valor, e foram pensadas por Ele. Por isso jamais desprezarei o meu lugar no corpo. Foi Deus quem me fez como fez, e me plantou onde plantou, para ser o que Ele quer que eu seja. Tudo isso para o bem geral do corpo como um todo, e para o louvor da Sua Glória.

Se esta visão ainda não é a sua, troque urgentemente suas lentes. O mundo continuará te vendo e te fazendo querer acreditar que não passa de um dentinho insignificante e substituível. MAS VOCÊ NÃO É O QUE O MUNDO DIZ. VOCÊ É O QUE DEUS DIZ A SEU RESPEITO.

Simples assim.

Porque eu bem sei os pensamentos que tenho a vosso respeito, diz o Senhor; pensamentos de paz, e não de mal, para vos dar o fim que esperais. (Jeremias 29:11)

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

063 NADA ACONTECEU

“Pássaro que inspirou o Pica-Pau do desenho é declarado extinto com 22 espécies”. Notícia de 30 de setembro de 2021.

E segue um recorte da matéria:

“O pica-pau-bico-de-marfim, popularmente conhecido como ‘Pássaro Deus do Senhor’, era o maior pica-pau das Américas. O último avistamento documentado da espécie ocorreu em 1944, no nordeste do estado de Luisiana, nos EUA. Desde então, apenas alguns relatos sem confirmação assombraram os profissionais que buscavam proteger a ave. A nova lista é o maior grupo de animais e plantas a serem formalmente apresentados como extintos desde que a Lei de Espécies Ameaçadas foi aprovada em 1973”.

(...)

“Antes disso, apenas 11 espécies foram declaradas como extintas”...

(...)

“Em um cenário global, o número de espécies documentadas como extintas sobe para 902, mas é bem provável que esse valor seja bem maior. Diante de uma ‘crise de extinção’ pela qual a Terra atravessa, muitas espécies desaparecem antes mesmo de terem a chance de serem descobertas, além daquelas que não foram formalmente identificadas”. 

(...)

“A lista divulgada pelas autoridades norte-americanas seguirá aberta a comentários públicos pelos próximos dois meses. Ao final deste período, as espécies citadas serão declaradas oficialmente extintas”.

E para concluir o início, vamos para a Wikipedia:

“Pica-Pau (no original em inglês Woody Woodpecker) é um personagem da série estadunidense de mesmo nome, um pica-pau antropomórfico (animais com corpo e características humanas), que estrelou vários curta-metragens de animação produzidos pelo estúdio de Walter Lantz e distribuídos pela Universal Pictures. Embora não seja o primeiro dos personagens ‘malucos’ que se tornaram populares nos anos 1940, o Pica-Pau é considerado um dos personagens mais notáveis do gênero”.

(...)

“Nome original: Woody Woodpecker

Sexo: Masculino

Nascimento: 25 de novembro de 1940

Origem: Estados Unidos

Espécie: Pica-pau

Família: Toquinho e Lasquita (sobrinhos)

Amigos: Andy Panda, Picolino (às vezes), Pé de Pano e Inspetor Willoughby

Inimigos: Leôncio, Zeca Urubu, Zé Jacaré, Doodley, Meany Ranheta, Smedley e Tweaky

Namorada: Winnie Pica-Pau

Primeira aparição: Pica-Pau Ataca Novamente (1940)”.


Pouco mais de 80 anos atrás – tempo estimado da vida de um homem – nascia o personagem Pica-Pau. Curiosamente, esses 80 anos são mencionados no escrito 020 O JARDIM QUE EU NÃO CONHECI, cuja temática é revisitada hoje. Curiosamente, na mesma época do nascimento do personagem fictício, extinguia-se o real, o bicho vivo, que desde aqueles longínquos anos 40 não é mais (comprovadamente) avistado. Se o foi, conforme recorte da matéria, que bom. Ainda assim, teriam sido as observações posteriores a 1944 apenas ecos do passado. Com um indivíduo aqui, outro ali, e seu habitat já destruído há 80 anos, estaria completamente estabelecido um contexto irreversível. Questão de pouco tempo para nunca mais vê-lo. Tempo que já aconteceu, mas agora teremos um papel oficial.


É provável que já tenha morrido a última pessoa a observar um pica-pau-bico-de-marfim. Hipoteticamente, se ela era bem jovem quando isso aconteceu, e se está firme e forte ainda hoje, numa vida longa e próspera, é certo que daqui não mais do que alguns anos ela não estará mais entre nós. Mais uma extinção para a lista: OFICIALMENTE EXTINTAS AS ÚLTIMAS PESSOAS QUE OBSERVARAM UM PICA-PAU DE TAL ESPÉCIE (*ELE EXTINTO 80 ANOS ANTES).


É... como eu disse no escrito 020, “a humanidade não brinca em serviço”... “a mata se foi, o progresso chegou, o verde-floresta deu lugar para outros nuances, e isso não será desfeito. É como as coisas são... quando o homem chega”.


E cá está, chorando silenciosamente pela natureza mutilada, um cara que tem seu capítulo altamente reprovável neste assunto.


“E lá no alto estava o bendito pica-pau... em seu último dia de vida. Ele ainda não sabia disso. Nem eu. Ao identifica-lo, me ocorreu a “brilhante” ideia de correr atrás da espingarda de pressão e tentar acertá-lo. Da ideia à ação foram poucos instantes, para que ele não voasse embora. Rapidamente encontrei a arma, carreguei o chumbinho, fiz mira e apertei o gatilho. Pelo menos uns 30 metros. Ave de pequeno porte. Algum vento. Qual a chance? Pois é. Uma chance. De repente a ave foi para baixo”. Escrito 037 O SABUJO E O PICA-PAU. Um capítulo extremamente terrível na minha história, ocorrido cerca de 3 décadas atrás.


Teria meu ato adolescente, impensado, e MAU, contribuído para a extinção – já consolidada, ou por ocorrer num futuro não tão distante – de uma espécie brasileira de pica-pau? Seguramente, sim. “Ow Fer, não é para tanto!”. Hummm, será? Eu sei que parece que não, mas sim. A realidade é que a soma de muitos pequenos atos destrutivos, um Fernando adolescente aqui, um Zé das Roelas ali, um Tonho das Tantas acolá, cada um fazendo sua arte de infância, deram também sua pequena contribuição para algo muito mais amplo. Claro que a soma dos numerosos grandes atos destrutivos, perpetrados pelos madeireiros, fazendeiros, desbravadores e congêneres, impactaram muito mais do que os piás bobos. Mas estes não podem ser ignorados.


Lembro-me bem de uma informação que me gerou surpresa e perplexidade. Ano 1995, turma de Arquitetura e Urbanismo na UEL, aula de Materiais de Construção. O professor puxa uma perguntinha de algibeira: “Numa viga de concreto armado, como esta que está sobre nossas cabeças, imaginem que um pequeno pardal pouse sobre ela. O peso da ave gera alguma deformação na estrutura? Levantem as mãos os que acham que não”. Aparentemente, todos o fizeram. “Agora, levantem as mãos os que acham que sim”. Um colega descendente de japoneses, daqueles com cara de bem inteligente, que devem ter gabaritado Matemática e Física no vestibular, solitariamente levanta sua mão e diz: “Aparentemente, sim”. Ao que o professor provoca: “Vamos lá, saia de cima do muro. Deforma ou não deforma? Preciso de um SIM ou de um NÃO. Nada de ‘aparentemente’ na resposta”. E o japa-crânio vai na firmeza: “Então é sim, professor. O pardal deforma a viga de concreto armado”.


Aquele momento de silêncio e suspense, interrompido pela resposta afirmativa do professor. “Sim, ocorre deformação. Ainda que infinitesimal, ela ocorre e pode ser calculada. Jamais a notaríamos visualmente, e mesmo as medições por instrumentos de enorme precisão irão indicar medidas tão microscópicas, que não conseguiríamos compreender”.


Pois é assim também com o pobre pica-pau que matei no início dos anos 90, bem como a pequena reserva de mato que o Zé das Roelas tacou foto, e ainda os plásticos que o Tonho das Tantas joga dia após dia no riacho que passa ao lado de sua casa. São impactos infinitesimais no planeta, mas são impactos. É difícil, ou praticamente impossível quantificar, mas cada pequeno ato destrutivo causa alguma deformação nas Vigas da Terra. Comparativamente menos, muito menos do que os grandes impactos da devastação consciente a agressiva de habitats enormes, poluição de toda sorte, e todo o mais que bem sabemos está em plena execução em cada parte do planeta, 24 horas por dia, há séculos e séculos, e especialmente nas duas últimas dezenas de décadas. Tudo isso é bem pesado, mas o pobre pica-pau brasileiro, covardemente  abatido, entra como minha pequena “contribuição” para algum documento futuro que o declare oficialmente extinto.


É assim que é.


“Nada aconteceu”. Expressão que conheci algum tempo atrás – creio que faz 2 anos – numa das visitas à minha amiga Dayene, Silvio e Alice, em Cascavel. Quando ela falou pela primeira vez, não entendi. Explicou-me: “Funciona assim, Fer. Quando fazemos uma reunião de um dos nossos grupos da igreja, ao final rola o ‘NADA ACONTECEU’. A gente não larga nada desarrumado na casa do anfitrião. Organizamos a sala, lavamos a louça, vassoura e pano no chão, para que aquela casa fique exatamente como estava quando ali chegamos. Tem que ser bem feito, ao ponto de alguém que more na casa, mas estivesse fora, chegar após a reunião e não poder notar qualquer sinal de que 15 ou 20 pessoas passaram por ali 1 horas antes. Ela terá que chegar a ter a impressão de que nada aconteceu”.


Acho esta ideia incrível!


Acho que é como deveríamos nos comportar.


Individualmente falando, penso que cada pessoa daria uma grande e infinitesimal contribuição para o todo, se suas ações cotidianas não deixassem rastros nocivos. Não jogar um lixo na rua; não maltratar um animal; não xingar um motorista barbeiro no trânsito; não reter indevidamente o troco errado que recebeu; não estressar seu filho por coisas naturais de criança, e que logo irão passar. E por aí vai! O NADA ACONTECEU deveria ser uma mentalidade full-time, um estilo de vida. Mas existir e não deixar marca alguma, impacto zero, é utópico. O só existir já é um impacto, pois a manutenção da vida demanda muitos recursos. Existir por 80 anos, então... uow!!! E 8 bilhões de pessoas existindo simultaneamente, por várias décadas todas elas... inimaginável. E nada, nada, nada infinitesimal.


Só nos EUA, no último meio século, conforme recorte da matéria de abertura, 23 espécies eliminadas. No mundo todo, 902. Mas sabemos que devem ser muitas mais, e tantas outras que nem chegamos a conhecer. Isso porque ALGO ACONTECEU. Algo muito ruim. A fatura das taxas de crescimento econômico em 2 dígitos, um dia chega. Ainda que leve 80 anos, chega. E chega escrita em cor vermelho-sangue, porque seja um pica-pau-bico-de-marfim, ou um morcego frugívero, outras 11 aves, oito mexilhões de água doce, dois peixes e uma planta, todas essas espécies tinham sangue correndo em suas veias. Até as plantas. Sim, até as plantas. Você entendeu.


Eu sempre sentirei saudades do jardim que eu não conheci. Hoje, só é possível imaginá-lo, mas tenho certeza de que minha mente criativa jamais chegará perto de conceber o que este planeta foi um dia, antes que algo acontecesse. Este tema sempre me pega. Tristeza em estado bruto, toda vez que olho para os impactos que causamos.


O que fazer?


De minha parte, a cotidiana e infinitesimal contribuição ao melhor estilo NADA ACONTECEU. No meu padrão de consumo; na destinação dos resíduos que gero; nos relacionamentos; na criação de contextos positivos para todas as vidas – humanas, animais, vegetais – que cruzarem meu caminho, ou cujo caminho eu cruze. Porque não existe só o meu caminho. O mundo não gira ao meu redor. Se por só existir, o meu ser não tem como se furtar a deixar algum sinal de que ALGO ACONTECEU, então que seja positivo. É meu dever viver assim. Que algo bom aconteça!


“Mas e os grandões, Fer? E a galera que está botando pra quebrar, FAZENDO e ACONTECENDO em escalas realmente impactantes?”. Opa, isso é importante. Não podemos desprezar. Mas eu já fiz toda a lição de casa? Tenho autoridade para dizer a quem quer que seja, grande ou pequeno, “Faça como eu faço”? Se sim, então temos condições de ter esta conversa sobre os grandões. Se não, bora primeiro colocar a vida em ordem, bora organizar a casa e dar conta dos resíduos domésticos, arrumar o lençol da cama e ir à pé para o trabalho (se for possível), para somente então correr atrás de salvar o mundo e suas baleias, e ursos polares, e elefantes, e os pica-paus-bicos-de-marfim (que não podem mais ser salvos).


“Quando a última árvore tiver caído, quando o último rio tiver sido poluído, quando o último peixe for pescado, vocês vão entender que dinheiro não se come” (Alanis Obomsawin)

domingo, 3 de outubro de 2021

062 O GARIMPO

Acredito que a menção a SERRA PELADA não desperte nenhuma imagem para os mais jovens. Mas para mim, nascido em 1977, e muitos contemporâneos, que vivemos a infância na década de 1980, brotam naturalmente lembranças de cenas surpreendentes. Escolhi uma delas para ilustrar a chamada deste escrito, após uma rápida pesquisa no Tio Google. De fato, o pequeno acervo trazido pelo buscador coincidiu exatamente com a imagem típica que trago na memória desde aquelas 4 décadas atrás, quando tiveram início as atividades de garimpo na serra que ganhou fama nacional. Serra Pelada, uma extensão da Serra dos Carajás, município de Curionópolis, Pará, Brasil. Recomendo a você realizar a mesma pesquisa. Acredito que os fatos e – mais ainda – as imagens irão te impressionar.

Não naquela época, mas imaginativamente agora, que minhas referências da vida e do mundo são bem mais numerosas, consigo comparar aquele afluxo de pessoas para cavar o solo, ao primeiro ajuntamento humano de grande escala que se tem notícia: de acordo com a Bíblia, Babel. Milênios depois, novo ajuntamento, agora para retirar quantidades indescritíveis de barro, num enorme buraco, em busca de ouro. Na primeira vez, justamente o contrário: barro na fabricação de tijolos, organizados e empilhados numa elevada torre, uma que tocasse os céus. O objetivo não era o de encontrar tesouros, mas exaltar a capacidade humana para grandes realizações, como que criando um caminho até as mais altas nuvens, para até lá subir, chegar às portas da casa de Deus e gritar-lhe: “Hey, chegamos até aqui! Quem poderá nos impedir de fazermos o que quisermos?”.

A história bíblica registra que o Senhor impediu, e o fez confundindo a linguagem dos homens. Nesse longínquo fato estaria a origem dos muitos idiomas. Fato rapidamente “desmontado” pelos historiadores, antropólogos e estudiosos das mais diversas áreas do conhecimento humano. Fato este, o mesmo, rápida e simplesmente acolhido pela fé, ainda que pareça uma mera historinha, ou mito, ou mesmo uma loucura acreditá-lo. Estou, como não deve ser surpresa, no segundo time. Estou plenamente sustentado por minha fé na veracidade e inerrância das Sagradas Escrituras, mesmo quando histórias como a de Babel gerem até um desprezo por parte dos elevados homens das ciências. Os mesmos homens, ouso dizer, que se reúnem atualmente num grande ajuntamento humano, para a construção da maior e mais alta TORRE DO CONHECIMENTO, para novamente chegar às portas da casa de Deus e gritar-lhe aquele grito engasgado há milênios: “Hey, chegamos até aqui! Demos um jeito no probleminha das muitas línguas. Quem poderá nos impedir de fazermos o que quisermos?”.

Como certa vez eu disse numa conversa com um grande amigo, anos atrás – e acredito tenha sido essa uma das primeiras grandes ideias autorais que tive sozinho, sem reproduzir algo pensado por outrem: AS GRANDES QUESTÕES DA HUMANIDADE SÃO AS MESMAS DESDE OS PRIMÓRDIOS. DE LÁ PARA CÁ, BASICAMENTE SÓ MUDOU A TECNOLOGIA. É como eu vejo a parada. Busca pelo poder. A corrida do conhecimento. Formas de obter sexo. Como driblar a morte e viver o mais possível. Provar a existência ou inexistência de Deus. E por aí vai. As grandes questões humanas são as mesmas, só que agora dispomos de tecnologias inimagináveis para aquele primeiro ajuntamento humano em Babel. Outra coisa em que acredito é que eles olhariam para hoje e veriam muito mais confusão do que em seu tempo, mas isso é assunto para outro dia.

Serra Pelada, e a humanidade se juntando para cavar buracos em busca de riquezas. Babel, e a humanidade se juntando para construir torres em busca de autoglorificação. Não comecei este escrito com nada disso planejado. Como de costume, os insights brotam aleatoriamente. Acesso uma referência aqui, outra ali. Deixo o vento soprar. E como eu costumo dizer: O VENTO SOPRA ONDE QUER. É mágico. Escrever é uma atividade incrível. Aquela imensidão de referências, ideias, leituras, reflexões e muito mais, acumuladas desorganizadamente (pelo menos aparentemente) ao longo da vida, sendo de repente acessadas e direcionadas para a construção de um texto, o entendimento de uma ideia, ou meramente o dizer alguma coisa. Escrever é sublime.

Ah, e só para fechar o assunto das grandes torres da humanidade, e voltarmos efetivamente ao tema dos grandes buracos, ainda ontem eu conversava com meu pai, em visita aqui em Maringá. Dizia-lhe que os mais altos prédios levantados pelo homem, neste momento, superam os 500, 600, 700, 800 metros de altura. O conhecidíssimo Burj Khalifa, localizado em Dubai (Emirados Árabes Unidos) está literalmente no topo da lista, com seus 163 andares e 828 metros. A expressão de espanto dele foi marcante. Como eu disse, as grandes questões são as mesmas. Quantas dezenas de metros teve Babel? Não sabemos. Mas a tecnologia agora é outra, pelo que não arrisco dizer a quantas centenas de metros do chão o homem conseguirá elevar a próxima torre mais alta. Suspeito que não sossegue até superar a chamativa barreira dos 1000 metros. Não estou tão atualizado, mas certeza que já deve haver tal projeto por aí, quem sabe já em execução.

Mas agora vamos garimpar.

 

Garimpar é um verbo. E verbo, como aprendemos na escola, é o elemento da frase que expressa uma ação. E verbo, como aprendi depois, é bem mais que isso (não entrarei em detalhes, pois os manuais estão aí para seu estudo); mas na época, para tirar a nota e passar de ano, bastava dizer que o tal verbo era o elemento da frase e tal e tal e tal. Aliás, sobre isso, no café da manhã que tomei hoje na companhia de meu pai, falávamos um pouco sobre a beleza, a riqueza e as complexidades da Língua Portuguesa. Língua que ele lecionou por muitos anos e da qual é um entusiasta. Discorria ele sobre seu método de ensino, até que chega aquele ponto da prosa em que começa a se referir aos tempos e aos modos verbais. Ponto da prosa em que o Português se transforma em Grego para mim, pois não tenho o menor domínio de nada disso.

- Mas seus escritos mostram um conhecimento profundo da Língua Portuguesa, filho. (dizia ele)

- Sim, pai. Eu sei que parece isso. Mas no fundo eu não sei quase nada do belo e rico Português.

- Eu leio seus textos e não encontro praticamente nenhum erro. Quando muito, uma vírgula a menos, ou a mais. Isso para falar do aspecto formal. Mas e no conteúdo, quanta beleza e estilo você tem.

- Eu sei, pai. Eu sei que parece isso. Mas novamente no fundo, bem no fundo, eu não saberia explicar ao senhor mais do que meia-dúzia de elementos da nossa linguagem. Tecnicamente falando, eu quase nada sei dela.

- Que interessante.

- Pois é. Mas eu sei usá-la, pai. Sei usá-la muito bem. Eu sou UM PRÁTICO DA LINGUAGEM. Analogicamente, o senhor, um professor e mestre da Língua Portuguesa, poderia ser comparado ao engenheiro com extensa formação e conhecimentos sobre a Física, os materiais, os complexos cálculos necessários à elaboração de um projeto para levantamento de uma torre. Eu, nessa mesma história, malemá sei ler o projeto, mas eu tenho perfeitamente claros em minha mente os materiais necessários, suas proporções e amarrações da ferragem para colocar uma viga que vá daquele pilar até aquele outro, firme o bastante para nunca cair. É assim que eu escrevo. Eu não sei explicar os tempos e modos, mas coloco os elementos nos lugares certos, nas proporções exatas, amarrando tudo com muito estilo. É literalmente assim que eu construo cada texto, pai.

- Muito interessante, filho. (dizia ele, enquanto tomava seu leite quente com Nescafé)

Garimpar é um verbo, transitivo direto e intransitivo, que significa trabalhar como garimpeiro; extrair do solo metais ou pedras preciosas. Num sentido figurado – e neste ele age apenas como transitivo direto – significa procurar meticulosamente. Um exemplo simples e bem presente na minha vida, seria algo como “O Fer garimpou a maioria dos seus bons livros nos sebos das cidades por onde passou”. E sim, isso é bem verdade. Ainda nessa semana eu fiz isso.

Passada uma semana da cirurgia capilar, já sem os olhos inchados, e GRAÇAS A DEUS sem a terrível coceira que me incomodou por três dias, senti-me bem o bastante para uma primeira saída de casa. Quarta-feira, após um gostoso café com minha irmã pela manhã, desci de seu carro ali no centro e entrei num conhecido sebo de Maringá. Gosto daquele lugar. Alguns dos meus melhores livros foram garimpados ali. Desta vez, trouxe mais dois para casa, descobertos dentre aquelas dezenas de milhares que ficaram para trás. Logo a seguir, dirigi-me até uma boa livraria cristã, também no centro, para deparar-me com outra montanha de livros. Mas como escolher? Como encontrar as pepitas de ouro, ou as pedras preciosas, em meio aos montes de barro?

Porque, cá entre nós, quando entro numa livraria ou sebo, a sensação inicial é sempre a de que tenho um grande desafio: encontrar algo que valha a pena.

Já comprei muitos livros sem valor, ao longo dessa longa caminhada de construção da minha biblioteca. Seguramente, nos anos iniciais de garimpeiro, algumas pepitas ou gemas estiveram pertinho das minhas mãos, mas passaram desapercebidas. Eu não conseguia ainda identificar o ouro em meio ao barro, nem o brilho das pequenas pedras preciosas. Diamantes podem ter passado. Preciosos diamantes. Mas, felizmente, o tempo e a experiência fazem um bom garimpeiro. Algum estudo também, claro. Conhecer minimamente os solos que irá cavar, ajuda muito. E eu o fiz.

Tenho uma lista de ouros e pedras que desejo possuir. E tenho, hoje, a paciência necessária para passar toneladas de terra e lama por minhas peneiras, bem como olhos treinados e atentos, para raramente perder novamente um tesouro. O faro ficou muito bom. “Hummmm, já ouvi falar deste autor”; “Este livro ficou famoso em seu lançamento, e ainda hoje o tema está em voga”; “Uooow, um clássico por este precinho?! Já era. É meu!”. E bora pra casa com três novos volumes nessa semana, cada um de uma área totalmente diferente. Devidamente analisados “por cima”, passados pela peneira inicial, e guardados numa das minhas estantes de peroba de demolição. Meus xodós. As estantes que sempre sonhei ter para guardar meu tesouro de letras.

“Uai. Mas Fer, como assim? Você bateu o olho, viu que era bom (ou achou que era bom), levou para casa... e não leu? Você não lê assim que adquire?”. Isso mesmo. Raras vezes um novo potencial tesouro chegou à coleção e pegou lugar na janela. Não, não. Ele é só um calouro. Tem muita coisa boa na frente, na enorme e insuperável lista de livros que tenho por ler. Aliás, uma curiosidade (eu já fiz os cálculos): se eu mantiver meu ritmo atual de leitura, para cobrir cada página da minha biblioteca, isso se eu não comprar mais nada pelo resto da vida, eu concluiria a tarefa daqui uns 40 anos. E eu tenho 44. Uow! Assustador, né?!

“Mas, então, por qual razão você teria mais livros do que é capaz de ler, Fer?”. A pergunta faz sentido, porque embora as 4 décadas seguintes sejam suficientes para eu zerar meu acervo atual, é mais do que certo de que muitos novos tesouros chegarão às minhas mãos. Alguns da boa e velha lista, muitos deles clássicos universais que não podem faltar de jeito nenhum numa biblioteca pessoal que se preze; outros menos vultosos, menos famosos, mas muito bons e já escritos, em cujo tempo oportuno vou encontrar; e (claro) os ótimos que ainda serão escritos, virão à existência nos próximos 40 anos.

Minha biblioteca não é só minha. Hoje sim. Mesmo porque eu não empresto muito. Bem eventualmente, sim. Menos por egoísmo e mais, muito mais pela necessidade de tê-los perto. A presença dos meus livros, a visão de suas bordas, dispara automaticamente em mim a lembrança de muitas coisas boas. Como dito mais cedo, eu não li todos ainda. Aliás, aquela conta dos 40 anos tem um furo (intencional), porque este seria o tempo necessário para eu ler tudo, se consideramos que eu não li nada. Mas muitos, muitos, muitos dos aproximadamente 600 livros atuais já foram lidos. Alguns, mais de uma vez. Uns poucos, muitas vezes. Os TOP 3 da vida, dezenas de vezes. Quem sabe um dia em mencione quais são eles.

Minha biblioteca, que hoje é minha, um dia será de alguém. Quem sabe, por mais uma ou duas gerações, pertencendo a uma ou duas pessoas singularmente, para num momento futuro distante ter outro destino. Essa decisão não me pertence. Preocupar-me com isto seria perder precioso tempo. Meus tesouros seguirão seu caminho, ou seus caminhos. O vento sopra onde quer.

Mas sabe qual a parte mais legal da garimpagem? É quando aquele potencial tesouro, que aguardou pacientemente sua vez de descer das estantes de peroba para passar comigo uns dias ou semanas, e eu confirmo que realmente eu havia encontrado algo de grande valor. O olhar inicial, as impressões da rápida olhada no sebo se confirmam. Ah, aí é top! Então eu sei que aquele livro fica. Depois de sua curta temporada em minhas mãos, ele sabe que vai passar a imensa maioria de seus dias apenas ao alcance dos meus olhos, com seu título escrito na lateral. Mas isto, apenas isto, gira em mim o gatilho das memórias e dos preciosos conteúdos de suas páginas. Vez por outra, de forma totalmente aleatória, eu o retiro, dou uma olhada, releio as partes sublinhadas, as que destaquei com 1, ou 3, ou 5 asteriscos, símbolos indicativos (e classificatórios) do grau de importância encontrado naquela frase ou parágrafo ou página inteira. Os tesouros dentro dos tesouros.

Porque um bom livro não é incrível de ponta a ponta. Mesmo dentro de algo muito bom há uma parte mais comum, umas boas, outras excelentes, e umas poucas extraordinárias. Estas, de tão poucas, até hoje encontrei no máximo meia-dúzia que mereceram as 5 estrelas. Sei exatamente em quais livros estão, e do impacto que tiveram sobre mim quando as li. Foi como encontrar uma pepita ou uma gema do tamanho de uma bola de tênis. “Isto aqui é demais. Este entendimento me paralisa, de tão profundo”. Não se encontra algo assim toda hora. Mesmo numa biblioteca muito seleta como a minha, rola a segunda garimpagem. Se a primeira leitura dum volume não me impactar em nada, é praticamente certo que ele seguirá seu rumo bem logo. Não passou de areia. Ouro de tolo. Enganou-me na primeira olhada. Volta para o sebo.

Quando eu era mais jovem, achava o máximo ler muito pelo muito. Contabilizava a quantidade semanal e anual, mantendo por anos seguidos uma performance na casa das 10 mil páginas ou mais. Nalguns anos extraordinários, beeem mais. Coisa de louco. Ah, claro, e como todo bom jovem eu adorava contar para as pessoas o tanto que eu lia, as “trocentas” mil páginas por ano. Até que me dei conta de que isso é bem bobo. Algo semelhante a comprar um objeto caro e ficar se gabando e, pior, falar o quanto pagou. As pessoas não precisam saber. É bem “nada a ver” entrar nestes detalhes. Por isso hoje eu nem contabilizo mais nada. Fui dum extremo ao outro. Basta-me saber que o meu tesouro está ali, bem perto, e mais preciosas do que as muitas milhares de páginas comuns, sei exatamente onde estão algumas milhares boas, as centenas excelentes, e algumas dezenas extraordinárias. Isso é ter um tesouro e saber desfrutá-lo.

E assim vamos em frente, tocando em frente. Garimpando devagar, porque já tive pressa.

082 PALAVRAS AO VENTO

Uns dois ou três dias atrás fiz algo que há muito tempo abandonei. Numa rede social, após ver a postagem que me chamou a atenção – de temáti...