domingo, 3 de outubro de 2021

062 O GARIMPO

Acredito que a menção a SERRA PELADA não desperte nenhuma imagem para os mais jovens. Mas para mim, nascido em 1977, e muitos contemporâneos, que vivemos a infância na década de 1980, brotam naturalmente lembranças de cenas surpreendentes. Escolhi uma delas para ilustrar a chamada deste escrito, após uma rápida pesquisa no Tio Google. De fato, o pequeno acervo trazido pelo buscador coincidiu exatamente com a imagem típica que trago na memória desde aquelas 4 décadas atrás, quando tiveram início as atividades de garimpo na serra que ganhou fama nacional. Serra Pelada, uma extensão da Serra dos Carajás, município de Curionópolis, Pará, Brasil. Recomendo a você realizar a mesma pesquisa. Acredito que os fatos e – mais ainda – as imagens irão te impressionar.

Não naquela época, mas imaginativamente agora, que minhas referências da vida e do mundo são bem mais numerosas, consigo comparar aquele afluxo de pessoas para cavar o solo, ao primeiro ajuntamento humano de grande escala que se tem notícia: de acordo com a Bíblia, Babel. Milênios depois, novo ajuntamento, agora para retirar quantidades indescritíveis de barro, num enorme buraco, em busca de ouro. Na primeira vez, justamente o contrário: barro na fabricação de tijolos, organizados e empilhados numa elevada torre, uma que tocasse os céus. O objetivo não era o de encontrar tesouros, mas exaltar a capacidade humana para grandes realizações, como que criando um caminho até as mais altas nuvens, para até lá subir, chegar às portas da casa de Deus e gritar-lhe: “Hey, chegamos até aqui! Quem poderá nos impedir de fazermos o que quisermos?”.

A história bíblica registra que o Senhor impediu, e o fez confundindo a linguagem dos homens. Nesse longínquo fato estaria a origem dos muitos idiomas. Fato rapidamente “desmontado” pelos historiadores, antropólogos e estudiosos das mais diversas áreas do conhecimento humano. Fato este, o mesmo, rápida e simplesmente acolhido pela fé, ainda que pareça uma mera historinha, ou mito, ou mesmo uma loucura acreditá-lo. Estou, como não deve ser surpresa, no segundo time. Estou plenamente sustentado por minha fé na veracidade e inerrância das Sagradas Escrituras, mesmo quando histórias como a de Babel gerem até um desprezo por parte dos elevados homens das ciências. Os mesmos homens, ouso dizer, que se reúnem atualmente num grande ajuntamento humano, para a construção da maior e mais alta TORRE DO CONHECIMENTO, para novamente chegar às portas da casa de Deus e gritar-lhe aquele grito engasgado há milênios: “Hey, chegamos até aqui! Demos um jeito no probleminha das muitas línguas. Quem poderá nos impedir de fazermos o que quisermos?”.

Como certa vez eu disse numa conversa com um grande amigo, anos atrás – e acredito tenha sido essa uma das primeiras grandes ideias autorais que tive sozinho, sem reproduzir algo pensado por outrem: AS GRANDES QUESTÕES DA HUMANIDADE SÃO AS MESMAS DESDE OS PRIMÓRDIOS. DE LÁ PARA CÁ, BASICAMENTE SÓ MUDOU A TECNOLOGIA. É como eu vejo a parada. Busca pelo poder. A corrida do conhecimento. Formas de obter sexo. Como driblar a morte e viver o mais possível. Provar a existência ou inexistência de Deus. E por aí vai. As grandes questões humanas são as mesmas, só que agora dispomos de tecnologias inimagináveis para aquele primeiro ajuntamento humano em Babel. Outra coisa em que acredito é que eles olhariam para hoje e veriam muito mais confusão do que em seu tempo, mas isso é assunto para outro dia.

Serra Pelada, e a humanidade se juntando para cavar buracos em busca de riquezas. Babel, e a humanidade se juntando para construir torres em busca de autoglorificação. Não comecei este escrito com nada disso planejado. Como de costume, os insights brotam aleatoriamente. Acesso uma referência aqui, outra ali. Deixo o vento soprar. E como eu costumo dizer: O VENTO SOPRA ONDE QUER. É mágico. Escrever é uma atividade incrível. Aquela imensidão de referências, ideias, leituras, reflexões e muito mais, acumuladas desorganizadamente (pelo menos aparentemente) ao longo da vida, sendo de repente acessadas e direcionadas para a construção de um texto, o entendimento de uma ideia, ou meramente o dizer alguma coisa. Escrever é sublime.

Ah, e só para fechar o assunto das grandes torres da humanidade, e voltarmos efetivamente ao tema dos grandes buracos, ainda ontem eu conversava com meu pai, em visita aqui em Maringá. Dizia-lhe que os mais altos prédios levantados pelo homem, neste momento, superam os 500, 600, 700, 800 metros de altura. O conhecidíssimo Burj Khalifa, localizado em Dubai (Emirados Árabes Unidos) está literalmente no topo da lista, com seus 163 andares e 828 metros. A expressão de espanto dele foi marcante. Como eu disse, as grandes questões são as mesmas. Quantas dezenas de metros teve Babel? Não sabemos. Mas a tecnologia agora é outra, pelo que não arrisco dizer a quantas centenas de metros do chão o homem conseguirá elevar a próxima torre mais alta. Suspeito que não sossegue até superar a chamativa barreira dos 1000 metros. Não estou tão atualizado, mas certeza que já deve haver tal projeto por aí, quem sabe já em execução.

Mas agora vamos garimpar.

 

Garimpar é um verbo. E verbo, como aprendemos na escola, é o elemento da frase que expressa uma ação. E verbo, como aprendi depois, é bem mais que isso (não entrarei em detalhes, pois os manuais estão aí para seu estudo); mas na época, para tirar a nota e passar de ano, bastava dizer que o tal verbo era o elemento da frase e tal e tal e tal. Aliás, sobre isso, no café da manhã que tomei hoje na companhia de meu pai, falávamos um pouco sobre a beleza, a riqueza e as complexidades da Língua Portuguesa. Língua que ele lecionou por muitos anos e da qual é um entusiasta. Discorria ele sobre seu método de ensino, até que chega aquele ponto da prosa em que começa a se referir aos tempos e aos modos verbais. Ponto da prosa em que o Português se transforma em Grego para mim, pois não tenho o menor domínio de nada disso.

- Mas seus escritos mostram um conhecimento profundo da Língua Portuguesa, filho. (dizia ele)

- Sim, pai. Eu sei que parece isso. Mas no fundo eu não sei quase nada do belo e rico Português.

- Eu leio seus textos e não encontro praticamente nenhum erro. Quando muito, uma vírgula a menos, ou a mais. Isso para falar do aspecto formal. Mas e no conteúdo, quanta beleza e estilo você tem.

- Eu sei, pai. Eu sei que parece isso. Mas novamente no fundo, bem no fundo, eu não saberia explicar ao senhor mais do que meia-dúzia de elementos da nossa linguagem. Tecnicamente falando, eu quase nada sei dela.

- Que interessante.

- Pois é. Mas eu sei usá-la, pai. Sei usá-la muito bem. Eu sou UM PRÁTICO DA LINGUAGEM. Analogicamente, o senhor, um professor e mestre da Língua Portuguesa, poderia ser comparado ao engenheiro com extensa formação e conhecimentos sobre a Física, os materiais, os complexos cálculos necessários à elaboração de um projeto para levantamento de uma torre. Eu, nessa mesma história, malemá sei ler o projeto, mas eu tenho perfeitamente claros em minha mente os materiais necessários, suas proporções e amarrações da ferragem para colocar uma viga que vá daquele pilar até aquele outro, firme o bastante para nunca cair. É assim que eu escrevo. Eu não sei explicar os tempos e modos, mas coloco os elementos nos lugares certos, nas proporções exatas, amarrando tudo com muito estilo. É literalmente assim que eu construo cada texto, pai.

- Muito interessante, filho. (dizia ele, enquanto tomava seu leite quente com Nescafé)

Garimpar é um verbo, transitivo direto e intransitivo, que significa trabalhar como garimpeiro; extrair do solo metais ou pedras preciosas. Num sentido figurado – e neste ele age apenas como transitivo direto – significa procurar meticulosamente. Um exemplo simples e bem presente na minha vida, seria algo como “O Fer garimpou a maioria dos seus bons livros nos sebos das cidades por onde passou”. E sim, isso é bem verdade. Ainda nessa semana eu fiz isso.

Passada uma semana da cirurgia capilar, já sem os olhos inchados, e GRAÇAS A DEUS sem a terrível coceira que me incomodou por três dias, senti-me bem o bastante para uma primeira saída de casa. Quarta-feira, após um gostoso café com minha irmã pela manhã, desci de seu carro ali no centro e entrei num conhecido sebo de Maringá. Gosto daquele lugar. Alguns dos meus melhores livros foram garimpados ali. Desta vez, trouxe mais dois para casa, descobertos dentre aquelas dezenas de milhares que ficaram para trás. Logo a seguir, dirigi-me até uma boa livraria cristã, também no centro, para deparar-me com outra montanha de livros. Mas como escolher? Como encontrar as pepitas de ouro, ou as pedras preciosas, em meio aos montes de barro?

Porque, cá entre nós, quando entro numa livraria ou sebo, a sensação inicial é sempre a de que tenho um grande desafio: encontrar algo que valha a pena.

Já comprei muitos livros sem valor, ao longo dessa longa caminhada de construção da minha biblioteca. Seguramente, nos anos iniciais de garimpeiro, algumas pepitas ou gemas estiveram pertinho das minhas mãos, mas passaram desapercebidas. Eu não conseguia ainda identificar o ouro em meio ao barro, nem o brilho das pequenas pedras preciosas. Diamantes podem ter passado. Preciosos diamantes. Mas, felizmente, o tempo e a experiência fazem um bom garimpeiro. Algum estudo também, claro. Conhecer minimamente os solos que irá cavar, ajuda muito. E eu o fiz.

Tenho uma lista de ouros e pedras que desejo possuir. E tenho, hoje, a paciência necessária para passar toneladas de terra e lama por minhas peneiras, bem como olhos treinados e atentos, para raramente perder novamente um tesouro. O faro ficou muito bom. “Hummmm, já ouvi falar deste autor”; “Este livro ficou famoso em seu lançamento, e ainda hoje o tema está em voga”; “Uooow, um clássico por este precinho?! Já era. É meu!”. E bora pra casa com três novos volumes nessa semana, cada um de uma área totalmente diferente. Devidamente analisados “por cima”, passados pela peneira inicial, e guardados numa das minhas estantes de peroba de demolição. Meus xodós. As estantes que sempre sonhei ter para guardar meu tesouro de letras.

“Uai. Mas Fer, como assim? Você bateu o olho, viu que era bom (ou achou que era bom), levou para casa... e não leu? Você não lê assim que adquire?”. Isso mesmo. Raras vezes um novo potencial tesouro chegou à coleção e pegou lugar na janela. Não, não. Ele é só um calouro. Tem muita coisa boa na frente, na enorme e insuperável lista de livros que tenho por ler. Aliás, uma curiosidade (eu já fiz os cálculos): se eu mantiver meu ritmo atual de leitura, para cobrir cada página da minha biblioteca, isso se eu não comprar mais nada pelo resto da vida, eu concluiria a tarefa daqui uns 40 anos. E eu tenho 44. Uow! Assustador, né?!

“Mas, então, por qual razão você teria mais livros do que é capaz de ler, Fer?”. A pergunta faz sentido, porque embora as 4 décadas seguintes sejam suficientes para eu zerar meu acervo atual, é mais do que certo de que muitos novos tesouros chegarão às minhas mãos. Alguns da boa e velha lista, muitos deles clássicos universais que não podem faltar de jeito nenhum numa biblioteca pessoal que se preze; outros menos vultosos, menos famosos, mas muito bons e já escritos, em cujo tempo oportuno vou encontrar; e (claro) os ótimos que ainda serão escritos, virão à existência nos próximos 40 anos.

Minha biblioteca não é só minha. Hoje sim. Mesmo porque eu não empresto muito. Bem eventualmente, sim. Menos por egoísmo e mais, muito mais pela necessidade de tê-los perto. A presença dos meus livros, a visão de suas bordas, dispara automaticamente em mim a lembrança de muitas coisas boas. Como dito mais cedo, eu não li todos ainda. Aliás, aquela conta dos 40 anos tem um furo (intencional), porque este seria o tempo necessário para eu ler tudo, se consideramos que eu não li nada. Mas muitos, muitos, muitos dos aproximadamente 600 livros atuais já foram lidos. Alguns, mais de uma vez. Uns poucos, muitas vezes. Os TOP 3 da vida, dezenas de vezes. Quem sabe um dia em mencione quais são eles.

Minha biblioteca, que hoje é minha, um dia será de alguém. Quem sabe, por mais uma ou duas gerações, pertencendo a uma ou duas pessoas singularmente, para num momento futuro distante ter outro destino. Essa decisão não me pertence. Preocupar-me com isto seria perder precioso tempo. Meus tesouros seguirão seu caminho, ou seus caminhos. O vento sopra onde quer.

Mas sabe qual a parte mais legal da garimpagem? É quando aquele potencial tesouro, que aguardou pacientemente sua vez de descer das estantes de peroba para passar comigo uns dias ou semanas, e eu confirmo que realmente eu havia encontrado algo de grande valor. O olhar inicial, as impressões da rápida olhada no sebo se confirmam. Ah, aí é top! Então eu sei que aquele livro fica. Depois de sua curta temporada em minhas mãos, ele sabe que vai passar a imensa maioria de seus dias apenas ao alcance dos meus olhos, com seu título escrito na lateral. Mas isto, apenas isto, gira em mim o gatilho das memórias e dos preciosos conteúdos de suas páginas. Vez por outra, de forma totalmente aleatória, eu o retiro, dou uma olhada, releio as partes sublinhadas, as que destaquei com 1, ou 3, ou 5 asteriscos, símbolos indicativos (e classificatórios) do grau de importância encontrado naquela frase ou parágrafo ou página inteira. Os tesouros dentro dos tesouros.

Porque um bom livro não é incrível de ponta a ponta. Mesmo dentro de algo muito bom há uma parte mais comum, umas boas, outras excelentes, e umas poucas extraordinárias. Estas, de tão poucas, até hoje encontrei no máximo meia-dúzia que mereceram as 5 estrelas. Sei exatamente em quais livros estão, e do impacto que tiveram sobre mim quando as li. Foi como encontrar uma pepita ou uma gema do tamanho de uma bola de tênis. “Isto aqui é demais. Este entendimento me paralisa, de tão profundo”. Não se encontra algo assim toda hora. Mesmo numa biblioteca muito seleta como a minha, rola a segunda garimpagem. Se a primeira leitura dum volume não me impactar em nada, é praticamente certo que ele seguirá seu rumo bem logo. Não passou de areia. Ouro de tolo. Enganou-me na primeira olhada. Volta para o sebo.

Quando eu era mais jovem, achava o máximo ler muito pelo muito. Contabilizava a quantidade semanal e anual, mantendo por anos seguidos uma performance na casa das 10 mil páginas ou mais. Nalguns anos extraordinários, beeem mais. Coisa de louco. Ah, claro, e como todo bom jovem eu adorava contar para as pessoas o tanto que eu lia, as “trocentas” mil páginas por ano. Até que me dei conta de que isso é bem bobo. Algo semelhante a comprar um objeto caro e ficar se gabando e, pior, falar o quanto pagou. As pessoas não precisam saber. É bem “nada a ver” entrar nestes detalhes. Por isso hoje eu nem contabilizo mais nada. Fui dum extremo ao outro. Basta-me saber que o meu tesouro está ali, bem perto, e mais preciosas do que as muitas milhares de páginas comuns, sei exatamente onde estão algumas milhares boas, as centenas excelentes, e algumas dezenas extraordinárias. Isso é ter um tesouro e saber desfrutá-lo.

E assim vamos em frente, tocando em frente. Garimpando devagar, porque já tive pressa.

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