quarta-feira, 20 de outubro de 2021

066 A COLCHA DE RETALHOS

Quando me chega um elogio do tipo “Fer, como você escreve bem!”, ou “seus escritos são excelentes”, não nego que me envaideço; chego até a acreditar. Minha Linguagem de Amor são PALAVRAS DE AFIRMAÇÃO, então é natural que toda manifestação elogiosa, a mim dirigida, sempre tenha um impacto maior do que teria sobre uma pessoa com outra linguagem predominante. Curiosamente, minha linguagem como receptor não é a mesma de quando estou no papel de emissor. E qual seria esta? Deixo a pergunta no ar para que pensem um pouco e, se se animarem, me enviem opinião.

Ao dizer que “chego até a acreditar”, não coloco sob suspeita a sinceridade de quem faz tais elogios. De modo algum. Acredito e recebo com muita alegria. Mais que isso. Quando sei que algum desses 65 escritos anteriores não apenas agradaram aos olhos, ou serviram para preencher uns minutos de alguém, mas que de algum modo foram efetivamente úteis, geraram uma reflexão profunda sobre o tema, ou – aí é o Everest pra mim – conduziram a pessoa a alguma atitude prática de mudança, em algo que precisava, minha alegria é completa. Vai muito além do envaidecimento pelo elogio. Aí estamos falando da convicção de estar cumprindo um propósito.

Mas a realidade é que eles são apenas razoáveis, a grande maioria. Esboços do que virão a ser, após futura lapidação. Sempre releio. Vez por outra, uns ajustes, correções, melhorias na construção. Aí acabo considerando alguns bons. Muito bons? Também, mas em menor número. Excelentes são bem poucos, de acordo com a finíssima peneira do meu filtro de qualidade. “Hummm... percebo traços do Fer perfeccionista no ar”. Talvez, talvez. E se for, que o seja. Embora eu vise a EXCELÊNCIA, não posso negar que o fato de, na maior parte da vida, ter sido PERFECCIONISTA, tenha deixado uns traços em mim. Com o tempo isso some.

Ao abrir um texto dos grandes mestres da literatura, como fiz hoje, eu cogito rapidamente editar minha BIO no Instagram, para retirar da descrição o tal “escritor aleatório”. Porque ante um texto enorme de verdade, sinto-me pequenininho. A beleza, o estilo, o ritmo, a riqueza vocabular, as referências riquíssimas... são algo bastante intimidador. Considerar-se um escritor é ousado. Se já sou, não sei. Mas desejo fortemente sê-lo, ainda que jamais me iguale em excelência aos grandes mestres. Provavelmente não o farei. Mas tudo bem. Não escrevo por glória, e sim por propósito. Mas por que não cumprir meu propósito com excelência, né?!

“A Colcha de Retalhos”, conto escrito por Monteiro Lobato no ano de 1915, pouco mais de um século atrás, é carregado de genialidade, beleza e maturidade na arte. É difícil adjetivar de forma econômica um texto como aquele. Não darei spoiler, embora a essa altura ninguém possa mais reclamar disso, por estar o texto a tantas décadas disponível. Mas não falarei mais que o mínimo, para instigá-los a ler. Confiem quando digo que valerá cada minuto investido.

Um conto rural, passado em 2 anos, tempo que separa duas visitas a um malacabado sítio. Personagens: o narrador (cujo nome não é dito), Pingo d´Água (apelido da menina Maria das Dores), Sinh´Ana (mulher do Zé Alvorada), Nhá Joaquina (avó da Pingo), o próprio Zé Alvorada, e o Labreguinho (sedutor de donzelas). O centro da história: uma colcha de retalhos, tecida por Nhá Joaquina para o enxoval de Pingo d´Água. Sério, leiam! É um texto magnífico.

Meu primeiro contato com A Colcha de Retalhos foi em 2014, quando este conto se aproximava de 1 século de sua publicação. Comprei para enriquecer minha biblioteca pessoal um volume intitulado “Monteiro Lobato – Contos Completos”. De todos que li, este foi o que me pegou. Um grande texto tem o poder de mexer com você. Fazê-lo rir. Fazê-lo chorar. Sentir raiva. Parar tudo e não saber a razão, devido ao impacto. E assim foi comigo, quando li pela primeira vez A Colcha de Retalhos. Seguramente um dos grandes textos que encontrei na minha vida de garimpagem. Lembra-se do escrito 062 O GARIMPO? Então, naquela parte que digo “Vez por outra, de forma totalmente aleatória, eu o retiro, dou uma olhada, releio as partes sublinhadas, as que destaquei com 1, ou 3, ou 5 asteriscos, símbolos indicativos (e classificatórios) do grau de importância encontrado naquela frase ou parágrafo ou página inteira. Os tesouros dentro dos tesouros”. E prossigo: “Basta-me saber que o meu tesouro está ali, bem perto, e mais preciosas do que as muitas milhares de páginas comuns, sei exatamente onde estão algumas milhares boas, as centenas excelentes, e algumas dezenas extraordinárias. Isso é ter um tesouro e saber desfrutá-lo”. O conto A Colcha de Retalhos está no ápice. Recebeu 5 asteriscos. São 9 das melhores e mais geniais páginas pelas quais meus olhos já passaram. Sério, leiam!

Aí eu resolvo, ousadamente, dar a um destes meus simples escritos o título homônimo. Pois é. O nome Fernando significa OUSADO, como mencionei pela primeira vez no escrito 028 AS TRÊS VISÕES. Visões que tive naquele mesmo ano de 2014, quando morava em Curitiba, e comprei meu precioso volume de Monteiro Lobato. Além do conto, leiam o 028 também. Valerá os minutos investidos.

O que são os ESCRITOS ALEATÓRIOS, senão uma grande colcha de retalhos? Pensamentos que estão sendo costurados semana após semana. Um material pensado, projetado, organizado para ser sistêmico, poderia ser melhor comparado a uma lindíssima colcha de algodão pima, trama de 1000 fios. Mas aqui reina o (aparente) caos. Um dia fala da infância, no outro de trabalho, aí aparece um escrito que poderia perfeitamente bem ser pregado num púlpito da igreja, pulo para minhas dores com a degradação da natureza, passo para confissões francas de erros cometidos. É assim mesmo! Nesta “bagunça” vai sendo tecida A COLCHA DE RETALHOS dos meus pensamentos, histórias, convicções, dúvidas, e tudo mais que me compõe.

Escrever é uma necessidade para mim. Escrever me organiza.

Por vezes, como no 013, no 031, ou no 065, tenho os temas bastante amadurecidos. Começo a teclar e o processo vai que vai, veloz, pensamento estruturado há muito tempo. Noutras, entretanto – a maioria, aliás – eu começo com um título, sem a menor ideia de para onde estamos viajando. Mas o texto acontece, sempre acontece. E seu processo rola de uma vez só. Tirante o 001 AMOR EM TEMPOS DE PANDEMIA, que escrevi em 3 dias, todos os demais vieram à existência em alguns minutos ou horas, numa pegada. Lembro-me sempre, sobre isso, de uma cena do filme Encontrando Forrester (ano 2000), em que William Forrester (Sean Connery) diz ao jovem Jamal Wallace (Rob Brown) que escreva. Bem à frente de Jamal há uma máquina de escrever com a folha de papel em branco, na posição. O garoto trava. “Mas escrever o quê?”. “Escreva!”. “Mas o quê?”. “Apenas escreva, droga! É o que um escritor faz. Escreva!!!”. Ao que Forrester assume a posição em frente à máquina e começa a datilografar avassaladoramente, trazendo à existência um belo texto em instantes. Jamal o lê, sem poder acreditar no que aconteceu diante dos seus olhos.

Escrever é espontaneidade, puro feeling.

Se eu pensar demais no retalho da vez, ocupando-me com combinações, estratégias, uma visão completa do que será esta colcha um dia, perde a graça. A beleza está justamente em dar 100% em todo escrito, a cada noite de quarta, a cada tarde de domingo, semana após semana, mês após mês, e – acredito que assim será – ano após ano, década após década, para tecer muito mais do que uma colcha, mas um tabernáculo de ideias. Algo que vá além de mim, transborde. Não uma peça que tenha a destinação pré-definida, como fez Nhá Joaquina no conto, mas uma estrutura muito, muito maior, que toque vidas e gerações. Algo que não me pertença mais.

Eu já falei que Fernando significa OUSADO? (risos)

É por isso que eu escrevo. Primeiramente para mim mesmo, para registro do que penso sobre as coisas. E como tem temas na fila! Mas, segundamente, e especialmente, e ousadamente para que muitas outras pessoas sejam levadas a pensar, ou se inspirar, ou apenas ler. Se eu tiver contribuído para a construção de um único bom leitor, já tenho bela paga pelo tempo aqui investido. Mas eu sei que um alcance muito maior é possível, e possivelmente já ocorra.

As duas ou três primeiras páginas – o equivalente a 1000 e poucas palavras – exatamente este ponto do presente escrito, sempre acontecem no FLOW. Aí eu paro um pouco – como estou fazendo agora – vou comer algo, assisto a uns 2 ou 3 vídeos de restauração de antiguidades (desacelera a mente), então retorno, reviso tudo que já foi escrito, e naturalmente acontece o fechamento. É quando vêm as grandes sacadas. É quando o título certo salta na minha frente. É quando eu passo a linha nas pontas finais do retalho, que daqui para sempre passa a fazer parte da colcha.

Nunca cheguei a apagar um parágrafo inteiro. Quando muito, uma ou duas frases excluídas. Revisão de estilo. Correção ortográfica. E só. Gosto de um texto espontâneo. É assim que eu escrevo. Aí depois, nos dois ou três dias seguintes, fico olhando para aquele quadradinho novo na colcha, para somente então ampliar a visão, entendendo como ele se conectou com tudo o mais que já estava costurado. É caótico. É aleatório (em essência). E por isso é tão legal.

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