domingo, 24 de outubro de 2021

067 PROJETO VERÃO

Setembro, Outubro, Novembro... mais ou menos nesta época do ano é colocado em ação, por muitas moças, o famoso PROJETO VERÃO. Se deixam para começar em dezembro, lascou! Prazo curto demais. Praia em janeiro sob risco!!! Prazo mais apertado do que aquela calça 36 em que ela não entra. Então, magicamente, com o Projeto Verão tudo se resolve. Conseguirá entrar nas calças, bem como dar nozinho nas camisetas para mostrar a barriga, usar os trajes de banho numa boa... e o Everest da autoconfiança: postar as fotos disso tudo nas redes sociais. Lindona. Empoderada. Sheipada. Tudo porque, num curtíssimo período, foram adotadas MEDIDAS EXTREMAS. Dieta, exercícios intensos, quem sabe alguns comprimidos emagrecedores, e tudo mais que tenha a ver com aquela forma física apresentada no verão.

Não importa como! O importante é que o objetivo foi alcançado.

“Hummm... senti uma pitada de pegação no pé das mulheres nesse primeiro parágrafo, Fer. E dos homens, não fala nada?”

Beleza, beleza. Para distribuir igualitariamente meu olhar crítico, basta reler o texto substituindo “moças” por “rapazes”, “calça 36” por “calça 40”, “nozinhos das camisetas” por “camisetas regata”, e “lindona, empoderada e sheipada” por quaisquer palavras mais masculinas semelhantes.

“Hummm... senti agore ume pitade de pegaçãe ne pé des amigues, Fer. E delxs você nãe fale nade?”

Putz, aí já é demais. Deixemos esta questão para um escrito futuro, que já está no forno e logo virá. Será uma beleza. Escrito para ganhar muitos HATERS. Imagine minha cara de preocupado... (risos).

Projeto Verão, da forma como colocado ali nas primeiras linhas, acredito ser uma realidade apreensível por qualquer pessoa. Ou porque já fez, ou porque conhece alguém que faz ou fez, ou porque já ouviu sobre essa prática. Basicamente, como descrito, são algumas medidas mais radicais aplicadas num curtíssimo período, com vistas a um rápido resultado estético, ainda que fisiologicamente questionável. Resultado que, sob circunstâncias tranquilas, normais, levaria um tempo bem maior para acontecer,  mas fisiologicamente melhor. Dito de outra forma: 9 meses no relaxamento, seguidos de 2 meses com restrições fortes, para ter 1 mês no shape incrível (ou no melhor que dava pra ter). O ciclo de todo ano.

Aí eu levanto a pergunta: Faz sentido? O “Ciclo 9-2-1” faz sentido?

Penso que não. Passar 9 meses na forma como você não gosta, para depois ter 2 meses sofridos na busca da forma que você gosta, e ter como prêmio 1 único mês nela, realmente não faz sentido. Mas tudo bem. Cada um vive como quiser, come o que quiser, e digere da forma que puder. Cá do lado de cá, estou apenas no papel de questionador, colocando um olhar crítico – não a crítica pela crítica – para fazer pensar, e quem sabe brotar uma perspectiva diferente.

“Ah, Fer. Pára! Você não tem problema com peso, não pode falar nada! Tem a mesma forma física desde os primeiros fios de barba na cara, e vem criticar quem não se sente bem com uns quilos a mais, e tenta fazer algo para ficar melhor. Deixa disso!”

Pois é, pois é. Caso tal sentimento tenha passado pelo seu ser, a esta altura do texto, faltou mesmo ler com atenção a parte em que destaco não ser uma crítica pela crítica, mas minha tentativa de apresentar um outro olhar sobre a questão.

O que te parece melhor? O Ciclo 9-2-1? Ou ciclo nenhum, mas a manutenção permanente do shape que você gosta?

Penso que a resposta seja natural. No fundo, no fundo, parece ser o que todos gostariam. Por razões variadas, muitos não conseguem de forma permanente o shape que gostam, então veem-se obrigados a apelar para os Projetos Verão. Por razões variadas, podemos elencar situações fisiológicas sensíveis, biotipo, compulsões, desleixo, e outras tantas. Claro que há razões muito difíceis de contornar, como o exemplo de um desequilíbrio hormonal. Mas não está aí nosso foco. Quero direcionar o olhar para os desleixados.

Nova pergunta: veem-se OBRIGADOS mesmo? Ou poderiam SIM ter o shape permanente, pagando um preço menos drástico, mas que exige paciência e constância?

Acho que todos sabemos que a resposta, no caso dos desleixados, é “SIM, PODERIAM”. Vou sacar um exemplo doméstico, processo que vi completo, de ponta a ponta. Ela não era uma desleixada completa, do tipo que vivia em extravagâncias gastronômicas. Mas, por ter uma genética apontada para o "sempre em forma", mesmo sem exercícios, mesmo comendo sem preocupações, foi mantendo seu estilo de vida normal, o de sempre, até que algo nessa conta mudou.

Dona Mírian, minha adorável mãe, aquela que vive cuidando do meu prato. Quando digo “cuidando”, é no sentido de ficar reparando; coisa que eu detesto e ela sabe. E, claro, como toda mãe, não está nem aí para o meu aborrecimento; continua cuidando toda vez. Mas não vamos falar do meu prato, e sim do dela. Dona Mírian sempre foi uma mulher lindíssima, em todas as fases da vida. Nem falarei sobre suas qualidades interiores hoje, que são imensamente maiores. Fisicamente falando, ela é uma mulher linda hoje, aos 65. Também o era aos 55, 45, 35, 25, 15. Uma bela menina-moça-mulher-senhora, em todas as fases da vida. Naturalmente bela. Não apenas na minha opinião, mas também na de muitas pessoas, algo que ouvi ao longo desses muitos anos.

Felizmente para ela, como também para mim, e várias outras pessoas que observei ao longo da vida, o tal SHAPE IDEAL estava sempre ali, sem a necessidade de medidas drásticas. Genética. Uma abençoada genética. Tão abençoada que não apenas medidas extremas não eram necessárias, mas medida alguma. Dona Mirian nunca foi de atividades físicas regulares – do ponto de vista esportivo, registre-se; porque o tanto que ela sempre trabalhou e trabalha, seria uma atleta olímpica –; também não se besuntava de cremes anti-age toda noite, nem tinha horário semanal fixo para massagens e drenagens, não fez cirurgia alguma na vida com objetivos estéticos. E lá está ela hoje, como se vê: Lindona. Empoderada. Sheipada. Dentro da normalidade de uma jovem senhora de 65 anos.

Mas Dona Mirian não é parâmetro. O Fernando Veríssimo também não é parâmetro. E gente que nunca brigou com a balança também não é. Pontos fora da curva. Comparações indevidas com aqueles que não tem essa facilidade genética. Mas... mesmo estes podem ver o jogo um dia virar.

Então de repente, não mais que de repente, o ponto fora da curva aconteceu na vida da Dona Mirian, que até então era (ela) um ponto fora da curva. Ao superar a barreira dos 60 anos, ela começou a mudar. Engordou rapidamente. Mesma rotina, mesmos hábitos, e muitos quilos a mais, acumulados em poucos meses. Algo mudou em seu organismo. De repente, muitas de suas roupas não serviam mais. Putz! O que fazer? Projeto Verão? Hummm... acho que não.

Se ela tentou alguma medida drástica em algum momento, eu sinceramente não sei. Se o fez, foi com muita discrição. E se o fez, não deu resultado. Até que nos últimos 2 anos, período praticamente correspondente ao da Pandemia Covid-19, eu acompanhei um consistente processo de reeducação alimentar por ela implementado. Basicamente alimentar, pois com atividades físicas hoje ela tem restrições. Não é mais porque não gosta. Hoje não faz porque o corpo não permite mesmo.

Como eu a visito sempre, notei seus estudos nesta área. Apostilas, vídeos, “lives” no YouTube com a nutricionista que escolheu. Eu abria a porta de seu apartamento, e já reconhecia a voz e o jeito de falar da “nutri”. Então Dona Mirian fazia um arroz com cebola para mim, dois ou três ovos fritos, que eu saboreava como o melhor pós-treino da vida, fosse num de meus fins de tarde na academia, fosse após meus giros de bike. Depois, já na minha casa, eu suplementava. E ao lado da panelinha do meu arroz, sempre estava a panela da Dona Mirian. Comida de verdade. Comida boa. Às vezes eu filava um pouco da dela para o meu prato. E que delícia!

E assim, num processo suave, orientado, científico e saboroso, Dona Mirian foi perdendo medidas. Não me lembro exatamente, mas posso praticamente cravar que foram uns 15 quilos. Muita coisa né?! E sem Projeto Verão. A mulher com a super genética favorável de toda a vida, em algum momento precisou se adequar à nova realidade trazida pelos anos, pelas mudanças hormonais, por seu não-gosto por exercícios físicos, e teve que fazer a lição de casa, se não quisesse perder todo o seu guarda-roupas. Ela o fez, e lá está, tão linda como sempre. Repito: SEM PROJETO VERÃO.

“Gordofóbico! Gordofóbico! Você está sugerindo que pessoas gordas não são lindas. Gordofóbico!!!”

Sério? Pára! Sem MIMIMI.

Dona Mirian ganhou medidas e se incomodou. Aos meus olhos, ela não ficou legal com 15kg a mais. E eu não sou do tipo hipócrita politicamente correto que fala o que todo mundo espera, só para não receber críticas. Ela aumentou e já não estava tão bela como antes. Simples assim. É o meu olhar, e tenho todo o direito de tê-lo. É o meu senso de beleza estética, e tenho todo o direito de tê-lo. E não, não se trata do famigerado PADRÃO IMPOSTO PELA SOCIEDADE. Papinho chato de gente chata.

Dona Laurinda, mãe da Dona Mírian, avó do Fer, era enorme. Enorme e linda. Interiormente, nem se diga. Impossível descrever o quanto. E exteriormente também. Com seus muitos e muitos quilos era uma senhora linda. Achava-se linda. Seu marido, ainda mais. Apaixonado por ela toda a vida, por 60 longos anos de casamento. E com seu tamanhão todo, lindona, minha avó não corria atrás de medidas que não tinham a ver com ela. Era uma mulher grande, combinava, tudo certo. Tudo isso para dizer que não, não estou a sugerir TODO MUNDO DO MUNDO SHEIPADO e no mesmo padrão. Tem pessoas magras lindas, e gordinhas lindas, e gordonas lindas. E tem gente magra, gorda e gordona muito feia.

Agora, a questão é a seguinte: se você não está satisfeito com o que vê no espelho – e o apelo ao Ciclo 9-2-1 prova isso – por que não pensar numa forma melhor de eliminar seu descontentamento? Uma forma mais sustentável, suave e prazerosa. Este é o ponto!

Medidas drásticas, extremas e desesperadas são REATIVAS. Penso ser muito melhor uma postura PROATIVA na busca de objetivos. Vai demorar mais? Vai. Só que será duradouro. Eu compararia a uma situação financeira disfuncional, no mesmo padrão 9-2-1: três trimestres todo zoado com o dinheiro, dois meses no desespero, até que se apela para medidas drásticas (empréstimo, agiota, etc), para viver 1 pequeno período de aparente tranquilidade. Tudo pago, mas porque foi devidamente refinanciado em 60 prestações, que vão andar de mãos dadas contigo pelos próximos 5 anos. Elas não te soltam de jeito nenhum, te garanto! Quando o melhor, bem sabemos, seria (É!) uma disciplina financeira permanente, que jamais te conduzisse à necessidade de medidas desesperadas. Outra comparação possível é com os estudos: semanas e mais semanas relaxado, sem tocar nos cadernos ou materiais, para de véspera precisar varar uma ou duas noites estudando igual a um condenado, e quem saber ter o êxito de uma boa nota. Quando o melhor seria (É!) uma rotina de estudos constantes. Ciclo 9-2-1 total no rolê. Pegue o que for, em qualquer área da vida. É sempre assim, pois tem um PRINCÍPIO envolvido. E princípios não falham.

Minha proposta com este palavrório todo é estimulá-lo à disciplina e a um estilo de vida sustentável, que te livre de medidas drásticas. Situações urgentes na vida ocorrerão, eu sei. Necessidade de atitudes fortes também, eu sei. Mas a grande verdade, é que elas serão poucas numa VIDA DE PROATIVIDADE, e serão muitas numa VIDA DE REATIVIDADE. Seja no shape, seja na conta bancária, seja no boletim, seja no que for. Projeto Verão te dá uma falsa ideia de êxito. Afagos pelo número legal na balança, ou pelo saldo positivo no banco, ou pela nota e aprovação na escola. SUCESSOS LÍQUIDOS. Bolhas de sabão. Vão passar. E um novo ciclo disfuncional começa.

A imagem que ilustra este escrito tem a ver com o que falamos. É uma foto do meu jantar de hoje. Arroz com cebola, pouquíssimo sal. Tomate, sal e azeite. Legumes cozidos, um fio de azeite e sal na água do cozimento. Ovos cozidos, também com pouquíssimo sal. Suco de uva integral (claro, sem sal). Isso tudo no prato de um cara que não tem problema nenhum com pressão alta, glicemia em ordem, demais exames exemplares, genética top, mesmo peso há quase 3 décadas. “Puuutz, que chato deve ser ser você, Fer!. E que mala! Se acha!”. Negativo, pequeno padawan. Bem, quanto ao "ser mala", se for o caso, é só a sua opinião, e sobre isso eu já disse o que penso no escrito 013. Mas se o "que chato" se referir à minha rotina alimentar, saiba que tomo uns refris de vez em quando; como chocolate (pouco) todos os dias; não dispenso a picanha com a deliciosa capa de gordura; sobremesa então, nem pensar que eu pulo. Mas essas delícias não rolam sempre (exceto chocolate). São comidas especiais, não rotina. O grande problema de viver uma vida de festa, com comida de festa todo dia, é que não tem como viver assim sem pagar a fatura. Ela virá. Seja na forma de quilos a mais, exames ruins no check-up anual (que você deveria fazer), nas dores que começam a brotar pelo corpo, na dificuldade de dar aquela namorada top com a patroa, mesmo sendo ainda tão jovem. É, amigão, viva como se não houvesse amanhã, e pode ser mesmo não haja.

O artifício do PROJETO VERÃO não passa de um... artifício. É ARTIFICAL, na essência. Por que não adotar um consistente PROJETO VIDA TODA? Algo NATURAL, funcional, estável. Na balança, no saldo da conta, nos conhecimentos; em tudo. É sobre isto que falaremos nos próximos textos.

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