quarta-feira, 6 de outubro de 2021

063 NADA ACONTECEU

“Pássaro que inspirou o Pica-Pau do desenho é declarado extinto com 22 espécies”. Notícia de 30 de setembro de 2021.

E segue um recorte da matéria:

“O pica-pau-bico-de-marfim, popularmente conhecido como ‘Pássaro Deus do Senhor’, era o maior pica-pau das Américas. O último avistamento documentado da espécie ocorreu em 1944, no nordeste do estado de Luisiana, nos EUA. Desde então, apenas alguns relatos sem confirmação assombraram os profissionais que buscavam proteger a ave. A nova lista é o maior grupo de animais e plantas a serem formalmente apresentados como extintos desde que a Lei de Espécies Ameaçadas foi aprovada em 1973”.

(...)

“Antes disso, apenas 11 espécies foram declaradas como extintas”...

(...)

“Em um cenário global, o número de espécies documentadas como extintas sobe para 902, mas é bem provável que esse valor seja bem maior. Diante de uma ‘crise de extinção’ pela qual a Terra atravessa, muitas espécies desaparecem antes mesmo de terem a chance de serem descobertas, além daquelas que não foram formalmente identificadas”. 

(...)

“A lista divulgada pelas autoridades norte-americanas seguirá aberta a comentários públicos pelos próximos dois meses. Ao final deste período, as espécies citadas serão declaradas oficialmente extintas”.

E para concluir o início, vamos para a Wikipedia:

“Pica-Pau (no original em inglês Woody Woodpecker) é um personagem da série estadunidense de mesmo nome, um pica-pau antropomórfico (animais com corpo e características humanas), que estrelou vários curta-metragens de animação produzidos pelo estúdio de Walter Lantz e distribuídos pela Universal Pictures. Embora não seja o primeiro dos personagens ‘malucos’ que se tornaram populares nos anos 1940, o Pica-Pau é considerado um dos personagens mais notáveis do gênero”.

(...)

“Nome original: Woody Woodpecker

Sexo: Masculino

Nascimento: 25 de novembro de 1940

Origem: Estados Unidos

Espécie: Pica-pau

Família: Toquinho e Lasquita (sobrinhos)

Amigos: Andy Panda, Picolino (às vezes), Pé de Pano e Inspetor Willoughby

Inimigos: Leôncio, Zeca Urubu, Zé Jacaré, Doodley, Meany Ranheta, Smedley e Tweaky

Namorada: Winnie Pica-Pau

Primeira aparição: Pica-Pau Ataca Novamente (1940)”.


Pouco mais de 80 anos atrás – tempo estimado da vida de um homem – nascia o personagem Pica-Pau. Curiosamente, esses 80 anos são mencionados no escrito 020 O JARDIM QUE EU NÃO CONHECI, cuja temática é revisitada hoje. Curiosamente, na mesma época do nascimento do personagem fictício, extinguia-se o real, o bicho vivo, que desde aqueles longínquos anos 40 não é mais (comprovadamente) avistado. Se o foi, conforme recorte da matéria, que bom. Ainda assim, teriam sido as observações posteriores a 1944 apenas ecos do passado. Com um indivíduo aqui, outro ali, e seu habitat já destruído há 80 anos, estaria completamente estabelecido um contexto irreversível. Questão de pouco tempo para nunca mais vê-lo. Tempo que já aconteceu, mas agora teremos um papel oficial.


É provável que já tenha morrido a última pessoa a observar um pica-pau-bico-de-marfim. Hipoteticamente, se ela era bem jovem quando isso aconteceu, e se está firme e forte ainda hoje, numa vida longa e próspera, é certo que daqui não mais do que alguns anos ela não estará mais entre nós. Mais uma extinção para a lista: OFICIALMENTE EXTINTAS AS ÚLTIMAS PESSOAS QUE OBSERVARAM UM PICA-PAU DE TAL ESPÉCIE (*ELE EXTINTO 80 ANOS ANTES).


É... como eu disse no escrito 020, “a humanidade não brinca em serviço”... “a mata se foi, o progresso chegou, o verde-floresta deu lugar para outros nuances, e isso não será desfeito. É como as coisas são... quando o homem chega”.


E cá está, chorando silenciosamente pela natureza mutilada, um cara que tem seu capítulo altamente reprovável neste assunto.


“E lá no alto estava o bendito pica-pau... em seu último dia de vida. Ele ainda não sabia disso. Nem eu. Ao identifica-lo, me ocorreu a “brilhante” ideia de correr atrás da espingarda de pressão e tentar acertá-lo. Da ideia à ação foram poucos instantes, para que ele não voasse embora. Rapidamente encontrei a arma, carreguei o chumbinho, fiz mira e apertei o gatilho. Pelo menos uns 30 metros. Ave de pequeno porte. Algum vento. Qual a chance? Pois é. Uma chance. De repente a ave foi para baixo”. Escrito 037 O SABUJO E O PICA-PAU. Um capítulo extremamente terrível na minha história, ocorrido cerca de 3 décadas atrás.


Teria meu ato adolescente, impensado, e MAU, contribuído para a extinção – já consolidada, ou por ocorrer num futuro não tão distante – de uma espécie brasileira de pica-pau? Seguramente, sim. “Ow Fer, não é para tanto!”. Hummm, será? Eu sei que parece que não, mas sim. A realidade é que a soma de muitos pequenos atos destrutivos, um Fernando adolescente aqui, um Zé das Roelas ali, um Tonho das Tantas acolá, cada um fazendo sua arte de infância, deram também sua pequena contribuição para algo muito mais amplo. Claro que a soma dos numerosos grandes atos destrutivos, perpetrados pelos madeireiros, fazendeiros, desbravadores e congêneres, impactaram muito mais do que os piás bobos. Mas estes não podem ser ignorados.


Lembro-me bem de uma informação que me gerou surpresa e perplexidade. Ano 1995, turma de Arquitetura e Urbanismo na UEL, aula de Materiais de Construção. O professor puxa uma perguntinha de algibeira: “Numa viga de concreto armado, como esta que está sobre nossas cabeças, imaginem que um pequeno pardal pouse sobre ela. O peso da ave gera alguma deformação na estrutura? Levantem as mãos os que acham que não”. Aparentemente, todos o fizeram. “Agora, levantem as mãos os que acham que sim”. Um colega descendente de japoneses, daqueles com cara de bem inteligente, que devem ter gabaritado Matemática e Física no vestibular, solitariamente levanta sua mão e diz: “Aparentemente, sim”. Ao que o professor provoca: “Vamos lá, saia de cima do muro. Deforma ou não deforma? Preciso de um SIM ou de um NÃO. Nada de ‘aparentemente’ na resposta”. E o japa-crânio vai na firmeza: “Então é sim, professor. O pardal deforma a viga de concreto armado”.


Aquele momento de silêncio e suspense, interrompido pela resposta afirmativa do professor. “Sim, ocorre deformação. Ainda que infinitesimal, ela ocorre e pode ser calculada. Jamais a notaríamos visualmente, e mesmo as medições por instrumentos de enorme precisão irão indicar medidas tão microscópicas, que não conseguiríamos compreender”.


Pois é assim também com o pobre pica-pau que matei no início dos anos 90, bem como a pequena reserva de mato que o Zé das Roelas tacou foto, e ainda os plásticos que o Tonho das Tantas joga dia após dia no riacho que passa ao lado de sua casa. São impactos infinitesimais no planeta, mas são impactos. É difícil, ou praticamente impossível quantificar, mas cada pequeno ato destrutivo causa alguma deformação nas Vigas da Terra. Comparativamente menos, muito menos do que os grandes impactos da devastação consciente a agressiva de habitats enormes, poluição de toda sorte, e todo o mais que bem sabemos está em plena execução em cada parte do planeta, 24 horas por dia, há séculos e séculos, e especialmente nas duas últimas dezenas de décadas. Tudo isso é bem pesado, mas o pobre pica-pau brasileiro, covardemente  abatido, entra como minha pequena “contribuição” para algum documento futuro que o declare oficialmente extinto.


É assim que é.


“Nada aconteceu”. Expressão que conheci algum tempo atrás – creio que faz 2 anos – numa das visitas à minha amiga Dayene, Silvio e Alice, em Cascavel. Quando ela falou pela primeira vez, não entendi. Explicou-me: “Funciona assim, Fer. Quando fazemos uma reunião de um dos nossos grupos da igreja, ao final rola o ‘NADA ACONTECEU’. A gente não larga nada desarrumado na casa do anfitrião. Organizamos a sala, lavamos a louça, vassoura e pano no chão, para que aquela casa fique exatamente como estava quando ali chegamos. Tem que ser bem feito, ao ponto de alguém que more na casa, mas estivesse fora, chegar após a reunião e não poder notar qualquer sinal de que 15 ou 20 pessoas passaram por ali 1 horas antes. Ela terá que chegar a ter a impressão de que nada aconteceu”.


Acho esta ideia incrível!


Acho que é como deveríamos nos comportar.


Individualmente falando, penso que cada pessoa daria uma grande e infinitesimal contribuição para o todo, se suas ações cotidianas não deixassem rastros nocivos. Não jogar um lixo na rua; não maltratar um animal; não xingar um motorista barbeiro no trânsito; não reter indevidamente o troco errado que recebeu; não estressar seu filho por coisas naturais de criança, e que logo irão passar. E por aí vai! O NADA ACONTECEU deveria ser uma mentalidade full-time, um estilo de vida. Mas existir e não deixar marca alguma, impacto zero, é utópico. O só existir já é um impacto, pois a manutenção da vida demanda muitos recursos. Existir por 80 anos, então... uow!!! E 8 bilhões de pessoas existindo simultaneamente, por várias décadas todas elas... inimaginável. E nada, nada, nada infinitesimal.


Só nos EUA, no último meio século, conforme recorte da matéria de abertura, 23 espécies eliminadas. No mundo todo, 902. Mas sabemos que devem ser muitas mais, e tantas outras que nem chegamos a conhecer. Isso porque ALGO ACONTECEU. Algo muito ruim. A fatura das taxas de crescimento econômico em 2 dígitos, um dia chega. Ainda que leve 80 anos, chega. E chega escrita em cor vermelho-sangue, porque seja um pica-pau-bico-de-marfim, ou um morcego frugívero, outras 11 aves, oito mexilhões de água doce, dois peixes e uma planta, todas essas espécies tinham sangue correndo em suas veias. Até as plantas. Sim, até as plantas. Você entendeu.


Eu sempre sentirei saudades do jardim que eu não conheci. Hoje, só é possível imaginá-lo, mas tenho certeza de que minha mente criativa jamais chegará perto de conceber o que este planeta foi um dia, antes que algo acontecesse. Este tema sempre me pega. Tristeza em estado bruto, toda vez que olho para os impactos que causamos.


O que fazer?


De minha parte, a cotidiana e infinitesimal contribuição ao melhor estilo NADA ACONTECEU. No meu padrão de consumo; na destinação dos resíduos que gero; nos relacionamentos; na criação de contextos positivos para todas as vidas – humanas, animais, vegetais – que cruzarem meu caminho, ou cujo caminho eu cruze. Porque não existe só o meu caminho. O mundo não gira ao meu redor. Se por só existir, o meu ser não tem como se furtar a deixar algum sinal de que ALGO ACONTECEU, então que seja positivo. É meu dever viver assim. Que algo bom aconteça!


“Mas e os grandões, Fer? E a galera que está botando pra quebrar, FAZENDO e ACONTECENDO em escalas realmente impactantes?”. Opa, isso é importante. Não podemos desprezar. Mas eu já fiz toda a lição de casa? Tenho autoridade para dizer a quem quer que seja, grande ou pequeno, “Faça como eu faço”? Se sim, então temos condições de ter esta conversa sobre os grandões. Se não, bora primeiro colocar a vida em ordem, bora organizar a casa e dar conta dos resíduos domésticos, arrumar o lençol da cama e ir à pé para o trabalho (se for possível), para somente então correr atrás de salvar o mundo e suas baleias, e ursos polares, e elefantes, e os pica-paus-bicos-de-marfim (que não podem mais ser salvos).


“Quando a última árvore tiver caído, quando o último rio tiver sido poluído, quando o último peixe for pescado, vocês vão entender que dinheiro não se come” (Alanis Obomsawin)

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