domingo, 17 de outubro de 2021

065 DÊ VALOR A QUEM GOSTA DE VOCÊ

Ao iniciar a aula com as crianças nesta manhã de domingo, havia em mim um misto de alegria e tristeza. A primeira, porque amo ministrar para os pequenos. A segunda, porque seria minha última aula com eles, pelo menos por ora. Pedi para deixar a função de professor no ministério infantil por um tempo, entendendo a necessidade de buscar em Deus algumas direções para minha vida. É salutar entender essas fases de recolhimento, lapidação, quietude. Porque sem silêncio, fica difícil ouvir. Então, com uma boa dose de tristeza, dei hoje minha última aula aos alunos de 9 a 12 anos na igreja.

Curiosamente, havia mais que o dobro da média de alunos na sala. Curiosamente, foi a melhor aula que ministrei para crianças em todos os vários anos que abracei este ministério. Curiosamente, ninguém dormiu. Curiosamente, ninguém sentiu aquela vontade incontrolável de ir ao banheiro ou sair para beber água. Começamos às 11h. Quando resolvi dar uma olhada no relógio para ter uma ideia do tempo, passava do meio-dia, hora de finalizar. E todas as 13 crianças absolutamente conectadas com a aula. Isso não é nada comum.

Ao longo dos anos como professor na igreja, entendi que a atenção dos pequenos é diferente da dos adultos. Você consegue captá-la por no máximo alguns minutos, e logo vai se instalando uma dispersão, um relaxamento. Então, criativamente, você precisa fazer algo que capture essa atenção de novo, para mais um pequeno ciclo expositivo, aquela janela de oportunidade para dizer algo realmente importante, que marque aquele encontro para sempre. Porque se for para estar ali apenas para cumprir tabela, ou tirar as crianças do salão de culto e os adultos poderem ouvir a pregação com mais tranquilidade, alguma coisa estaria errada. Os pequenos merecem o melhor. Atenção máxima. Todo zelo e amor em cada ensinamento compartilhado.

E foi exatamente isso que eu disse a eles no início da aula:

- Falaremos hoje sobre Força e Fé, com base no texto de 1 Coríntios 15:58: Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor. (*porção que encontra paralelo praticamente idêntico em 2 Crônicas 15:7 - Mas, sejam fortes e não desanimem, pois o trabalho de vocês será recompensado).

Eu noticiei que seria minha última aula com eles, o que gerou alguma movimentação, uns “Por que?´s”, mas tirei o foco disso, para encurtar o assunto. Então eu disse algo que costumo colocar durante minhas aulas. Algo que reflete o princípio da Excelência, que busco sempre fazer acontecer na minha vida, seja qual seja a área:

- Pessoal, meu maior desejo é que ao final desta aula, alguma coisa, uma palavra, uma frase, um texto, um exemplo, o que quer que seja, entre tão profundamente em vocês que os marquem para sempre. Algo que mude as suas vidas. E sabe, eu me lembro perfeitamente bem de coisas que eu ouvi há muitos e muitos anos, algumas quando tinha a idade de vocês, e que foram muito importantes na minha caminhada.

Lembrando, galera: alunos de 9, 10, 11 e 12 anos.

Tio Fer não leva bala. Não leva chocolate. Não tem dinâmicas ou brincadeiras. Tio Fer anota na folha as presenças, quem trouxe Bíblia e materiais (que nunca se usa), então fazemos uma oração para iniciar, a leitura do texto-base e bora conversar por 1 hora ou mais. Zero diferença da mesmíssima ministração que eu teria com uma turma de 20 e poucos anos de idade, quarentões ou as vózinhas e os vôzinhos da igreja. Zero diferença, a não ser pelo vocabulário ajustado para cada idade. Mas no conteúdo, 100% a mesma busca de profundidade e a mesma paixão por entregar algo relevante. Afinal, como disse Jesus a Pedro à beira do mar: ‘Tragam alguns dos peixes que acabaram de pescar’. Depois de comerem, Jesus perguntou a Simão Pedro: ‘Simão, filho de João, você me ama mais do que estes?’ Disse ele: ‘Sim, Senhor, tu sabes que te amo’. Disse Jesus: ‘CUIDE DOS MEUS CORDEIROS’. (escrito 048 O BOM PASTOR)

Cuidar das crianças é uma expressão gigante de amor pelo Senhor.

Então, concluída nossa 1 horinha de hoje naquela sala, meu maior desejo é que alguma das muitas coisas que eu disse tenha entrado avassaladoramente nalgum daqueles pequenos e tão importantes corações, gerando algo que ecoe pelo resto de suas vidas. Afinal... “de modo que, tendo diferentes dons, segundo a graça que nos é dada, se é profecia, seja ela segundo a medida da fé; se é ministério, seja em ministrar, SE É ENSINAR, HAJA DEDICAÇÃO NO ENSINO; ou o que exorta, use esse dom em exortar; o que reparte, faça-o com liberalidade; o que preside, com cuidado; o que exercita misericórdia, com alegria” (Romanos 12:6-8). Textinho precioso que utilizamos bem recentemente, no escrito 064 APENAS UM DENTE NA ENGRENAGEM.

Como eu disse mais acima, eu me lembro perfeitamente bem de coisas que ouvi há muitos e muitos anos, algumas quando tinha a idade deles, e que foram muito importantes na minha caminhada. Elogios. Exortações. Textos bíblicos. Fontes variadas. Às vezes, pessoas inesperadas. Tenho certeza que algumas das que disseram as coisas mais marcantes da minha vida, nem sabem disso. Mas deixaram marcas em mim. Marcas positivas, graças a Deus. Uma dessas – como eu poderia chamar – PALAVRAS PARA A VIDA TODA ocorreu no final do ano de 1992.

Colégio Estadual Cianorte, aquele mesmo onde Dona Mirian me matriculou em dois cursos: “Vindo do Princesa Izabel, onde quase reprovei na 8ª Série, agora eu me encontrava no Colégio Estadual Cianorte. Dentre os públicos da cidade, era possivelmente o colégio mais desejado para se conseguir uma vaga. Eu consegui não apenas uma, mas duas vagas. Pela manhã o Educação Geral, e de noite o Curso Técnico de Contabilidade. Os tempos infantis e juvenis ficavam para trás”. (Escrito 024 O COLAR)

Estudar de noite foi a descoberta de um mundo novo para mim. No ano anterior, 1991, quando completei 14 anos de idade, eu era bem crianção. Não por acaso, quase reprovei, visto que estava mais preocupado em treinar para os jogos escolares, do que em aprender conhecimentos importantes para o vestibular que não tardaria chegar. Passado o susto, e obtido o ingresso no 2º Grau, Dona Mirian radicalizou e me apertou para crescer. E como eu sou grato a ela por essa e tantas outras espremidas na vida, que me levaram para lugares melhores. Seu trabalho comigo foi indescritível. Livros não bastariam para expressar tudo que ela fez por mim.

Então, inicia-se o ano de 1992 e lá estou eu, ainda  com 14 anos – pois faço aniversário em junho – no meu primeiro dia de aula numa turma noturna de Técnico de Contabilidade. Piá de tudo! Crianção total, mas ladeado por colegas mais velhos que eu, a maioria já trabalhando, gente casada, alguns até com filhos. E eu lá, piazão na essência, e grandão no tamanho. Foi um ano incrível! Fiz amizade fácil, querido por todos. Havia, claro, os colegas mais chegados, especialmente dois com quem eu sempre estava. Um se chamava Marcelo – recordo-me do nome, porque é o mesmo do meu irmão – e o outro não consigo me lembrar. Este era magrelo e de cabelo amarelo, jovem como eu – quem sabe 1 ou 2 anos a mais – trabalhava, tinha já comprado sua mobylette e com ela vinha para o colégio. O Marcelo era bem diferente: praticava judô, era um cara bem forte, figurinha conhecida – havia reprovado algumas vezes – fanático pela cultura Punk. Vez por outra, vinha com os cabelos no estilo moicano. Usava sempre e sempre a mesma jaqueta jeans com vários decalques de bandas, e também coisas que ele mesmo pintava. Segundo ele, a peça nunca havia sido lavada. Usava todos os dias, fosse na escola, fosse no trabalho, fosse nalgum show de punk rock que rolasse em Cianorte, ou Maringá, ou Curitiba. Ele realmente curtia. Não raro, o cheiro de sua jaqueta incomodava quem estivesse na carteira ao lado, e ele nem aí pra paçoca.

Havia também na sala uma linda morena. Seguramente, a mulher mais bonita que eu havia visto na vida, até então. Eu tinha 14 para 15, pessoal, tenham isso sempre em mente. Menos referências. Menos experiências. Toda novidade era muito impactante para mim. E que novidade aquela!!! Vez por outra, eu me pegava olhando para a moça – de quem não me lembro o nome – que tinha lá seus 18 a no máximo 20 anos. Chegava sempre ao colégio de moto, na garupa do namorado, um cara que estava no 2º ou 3º ano. Discreta, na dela, muito parecida com uma outra morena que conheci depois, nos tempos de Direito Noturno na UEM. Quando chegava, literalmente parava o corredor. LITERALMENTE. Mas voltemos para a primeira morena.

Segue-se o ano, Fernando totalmente integrado na nova turma, bem como na turma da manhã. Da quase reprovação na 8ª Série, fui para o extremo oposto no ano seguinte, sendo em 1992 um dos melhores alunos do Colégio, em ambos os períodos. E olha que não deixei de praticar meus esportes. Bastou organizar melhor o tempo e dar a prioridade certa para cada coisa. Completei meus 15 naquele junho e tudo certo. A amizade mais próxima com o magrelo e o punk, bom relacionamento geral com a turma, inclusive com a tal morena. Vez por outra, algum professor passava trabalho em grupo, e todo mundo queria fazer comigo. Por que será, né?! E numa dessas oportunidades, por ser uma atividade com grupo grande, eu e a morena finalmente trocamos mais do que os cumprimentos habituais de colegas de sala.

Como nunca fui o cara do grupo que apenas segura o cartaz, acabava naturalmente liderando e coordenando as coisas. Isso sempre foi assim. Mesmo em ambientes em que era pouquíssimo conhecido, ao longo dos meus estudos posteriores e também em atividades profissionais, de cara eu sempre fui identificado ou eleito (naturalmente) como líder do que quer que se tivesse por fazer. Ou porque as pessoas viam competência em mim, ou porque ninguém queria abraçar o papel e então pegavam o primeiro piá inocente pela frente. Hummm, jamais saberei...

Enfim, a tal atividade em grupo gerou mais amizade, não apenas com a morena, mas entre todos os envolvidos. Mas que bom que também com ela. Eu na minha, sempre discreto e um pouco tímido; ela na dela, discreta, linda... e com namorado (risos). Claro que eu só ficava olhando e nem cogitava realmente o que quer que fosse. Um garotão de 15, achando o máximo ter algum grau de amizade com a moça mais bonita do colégio.

Era muito comum em nossa sala do 1º Ano Noturno de Contabilidade de 1992 rolarem bilhetes. Alguns ilícitos, nos dias de prova. No dia a dia, como não houvesse Whatsaspp, SMS ou qualquer coisa parecida, era tudo à moda antiga. Para se comunicarem, as pessoas tinham apenas 3 modos: falando pessoalmente, falando corporalmente, ou falando por meio de palavras escritas em papel. Não havia mensagens eletrônicas. O negócio era raiz, OLD SCHOOL total. Queria falar alguma coisa para alguém? Então respira fundo, escolha as palavras, segura na mão de Deus e vai. Velhos e bons tempos da vida analógica.

Havia bilhetes de todo tipo:

“Essa aula que não termina”.

“Tô com fome!”.

“Depois me empresta o caderno?”.

“Sabia que você é lindo?!”

Aquele gelo na boca do estômago. Meu Deus!!! E agora? O que eu faço? Quem será que mandou este? Porque a coisa era tão natural, que os bilhetes iam passando de mão em mão entre os colegas, até chegar ao destinatário. Aí você abria, lia a mensagem e buscava identificar quem havia mandado. A rigor, a pessoa estava olhando para você, esperando um sinal de OK, ou de não-OK, e logo você puxava também um pequeno papel para escrever sua resposta e a nova mensagem fazia o caminho de volta, de mão em mão. Era assim o tempo inteiro, como ocorre hoje de forma muito mais silenciosa e discreta nos aplicativos de mensagens.

“SABIA QUE VOCÊ É LINDO?!”

Mensagens assim não eram comuns. Bem, eu não tinha recebido nenhuma dessas até então. Devo ter corado, como de costume. O gelo no estômago foi passando... e nada do Fernando conseguir dar aquela virada no pescoço para identificar a emissora. Normalmente as mesmas pessoas trocavam mensagens, e a gente acabava até conhecendo as letras dos colegas. É, pessoal, eu sou do tempo que as pessoas tinham letra, escreviam à mão, e a gente até sabia de quem era. Mas aquela letra eu não identifiquei de imediato. Como eu me sentava nas primeiras carteiras, lado esquerdo, encostado na parede, e o bilhete veio de trás, numa diagonal que eu costumava olhar de vez em sempre, o gelão voltou mais forte ainda. Havia chance de ser de uma certa pessoa.

Passado um tempo, bem maior do que o habitual para dar feedback de mensagem recebida, o Fer de 15 anos olha para trás, na diagonal habitual, e lá está ela. A moça mais linda que você viu na vida, olhando bem firme, um sorriso discreto no rosto, e fazendo um sinal de positivo com a cabeça. Bem, ela sabia que tinha me impactado. Mulher bonita sempre sabe os efeitos que causa. Puxei um papel também e, muitíssimo criativo, mandei um “VOCÊ TAMBÉM É LINDA!”. Ao que ela não tardou abrir, ler, sorrir e piscar. E assim foi nossa primeira paquera.

“Mas ela não tinha namorado, Fer?” Então, tinha né. Mas eu era lindo, uai! (risos)

Foi apenas isso. As únicas mensagens que trocamos nessa temática. Seguiu-se o ano, tudo normal, vez ou outra conversávamos na sala, assim como conversávamos com qualquer outro colega. Muitas mensagens não-verbais nós trocamos sim. A gente se olhava todos os dias, mas sem bilhetes, sem piscadas. Apenas sorrisos e, eventualmente, olhares bem fixos.

Último dia de aula em 1992, algumas matérias já concluídas, Fer aprovado desde o 3º Bimestre em quase tudo. Mas lá estava eu no Colégio. Não estudava só para ter nota ou passar, mas para aprender. Eu amava estudar, como o é ainda hoje. Professor entrega as últimas notas, pessoal fica sabendo se passou ou não passou de ano – você que nasceu na era digital nunca saberá como era isso – libera o pessoal e lá estamos indo para o pátio. A morena me pega uma das mãos e puxa-me em direção a um corredor. “Vem comigo, Fer”.

Seguimos até um local mais afastado, próximo a umas salas que já estavam vazias (luzes apagadas), e sentamos numa mureta. Ela começa a passar as mãos em meu rosto, em meu cabelo (eu tinha muito cabelo em 1992), e repete a frase que havia escrito naquele único bilhete: VOCÊ É LINDO. Beija meu rosto e diz palavras que me impactaram por toda a vida:

“FER, DÊ VALOR A QUEM GOSTA DE VOCÊ!”

“Eu tenho alguém. Namoro faz um tempo. Ano que vem vamos noivar”.

“Você é lindo. Não é só bonito. Você é lindo por inteiro. As moças vão gostar de você. Eu gosto de você, mas tenho alguém. Quando você encontrar uma moça que você também goste, valorize-a, seja bom. Dê valor a quem gosta de você”.

Deu-me um novo beijo no rosto, um abraço (mesmo sentada), levantou-se e foi saindo. Não posso afirmar, mas tenho a impressão que usou as mãos para afastar algumas lágrimas no rosto. Nunca mais a vi. Ela não estava no colégio no 2º ano de Técnico de Contabilidade, em 1993. Não me recordo de seu nome. Lembro-me perfeitamente bem de tudo mais nela. E jamais esquecerei aquele pequeno conselho da moça mais linda da minha juventude.

Se o segui? Claro que não. Deixei de dar valor a muitas moças maravilhosas que gostaram de mim, ao longo desses muitos anos desde então. E vacilo após vacilo, escolhas equivocadas e tudo mais que tem a ver com a longa jornada que me trouxe solteiro até aqui, sempre me lembro daquela noite de 1992, do conselho que ganhei, mas não segui.

Cedo ou tarde, lembrarei no timing correto. E o seguirei.

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