quarta-feira, 25 de agosto de 2021

053 MAIS QUE VENCEDORES

Dia desses eu conversava com uma pessoa muito querida, que acabara de alcançar um feito bem especial, algo realmente difícil. Ao longo dos meses essa conquista foi ganhando ares de possibilidade, mais e mais perto a cada tentativa, até que finalmente ela conseguiu. Não sem drama e sofrimento, claro. Dizia-me que quando tudo parecia concretizado, o gosto da vitória quase materializado, mas ainda faltando um último detalhe... o detalhe não acontecia, e não acontecia, e não acontecia... até que mentalmente ela começou a aceitar que, de novo, ficaria no “quase”. Algo assim: “Eu sei que nunca vou conseguir mesmo. Cheguei perto, mas a realidade é que este feito é muito pra mim”. Veio então uma prostração, a derrota mental, que quase foi seguida por uma derrota concreta. Mas no final tudo deu certo. Apesar de sua mente, ela conseguiu.

Conversávamos sobre isso e ela me dizendo que sempre foi assim. Sempre acreditando que as coisas não dariam certo. Eu ouvindo, atentamente. Uma oitiva acolhedora, atenta, não daquelas que a gente ouve, mas já tem falas e mais falas preparadas para colocar para a pessoa. Acho tão feio isso. Soa como falta de empatia pelo outro. Tem vezes que a gente precisa só ouvir, e não desconstruir tudo o que o outro colocou na conversa. No caso, eu faria esse papel se logo sacasse uns lugares comuns do tipo “Deixe disso!”, “Não pense assim”, “Você nasceu para brilhar”. São colocações válidas, sim, mas a gente pode comunicar tudo isso de outras formas.

Ouvi tudo e tal, até que em algum momento eu falei um pouco sobre como eu sou nessa área. Quem me conhece, já pode imaginar o que saiu: “Então, eu já costumo entrar com a certeza de que vai dar certo”, “Sempre espero o melhor resultado”, “Nunca deixo que a derrota na mente aconteça primeiro”. Afinal, por mais confiantes que sejamos, mais otimistas, isso por si não garante conquista alguma. Existe um lado concreto que precisa acontecer, que vai além dos pensamentos confiantes. E só na hora mesmo é que saberemos o resultado. Mas entrar mentalmente derrotado na questão, isso eu não faço não. Na minha mente, eu já entro na causa confiando que vai dar tudo certo.

- Poxa, eu queria ser assim. Ela disse.

- Mas você é. Somos mais do que vencedores. É a nossa identidade.

Foi quase possível escutar um sorriso do outro lado, embora a conversa fosse por áudio no zap.

Mais que vencedores. Expressão encontrada no seguinte texto:

Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? Como está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte todo o dia; somos reputados como ovelhas para o matadouro. Mas em todas estas coisas somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Pois estou convencido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor. (Romanos 8:35-39)

Acho interessante essa expressão, porque ela me leva a pensar num nível além da vitória. Afinal, se alguém é vencedor, significa que chegou ao topo, é o número um. Haveria, portanto, como estar à frente de quem já é o primeiro? Bem, parece que sim. O “parece” é meramente retórico, porque se a Palavra o afirma, é claro que há este lugar além do primeiro lugar.

Como seria isso? Sei não. Seguramente, sei não. Mas gosto de especular. Creio tenha a ver não com resultados naturais, rankings, posições ou scores. Ser mais do que vencedor tem a ver com IDENTIDADE, independentemente de circunstâncias. É um olhar todo particular sobre as situações da vida, que muda tudo. O próprio texto bíblico sinaliza neste sentido, pois coloca várias possíveis intercorrências da vida, sem que nenhuma delas tenha o potencial de roubar a mais que vitória que está em Cristo Jesus.


A estrutura do mundo é toda formatada para a competição, ao melhor estilo Highlander: SÓ PODE HAVER UM. Figurativamente, cabeças e mais cabeças precisam ser cortadas, para que ao final o mais forte sobreviva. Sozinho. Sem iguais para interagir. Cheio de poder e vazio de relacionamentos. Que chato. Quero não. O mítico personagem chegou ao topo, mas não conhecerá o lugar que fica acima desse teto. Um lugar celestial.

Gosto de pensar num mundo onde todos sejam vencedores. Bem utópico, eu sei, mas só se utopia agora signifique acreditar no modelo que a Palavra estabelece. Se ela não diz que haverá “apenas um mais que vencedor”, mas sim que “somos mais que vencedores”, significa que este lugar além do primeiro não é reservado para uma única pessoa, iluminada e privilegiadíssima. E nenhuma cabeça precisa ser cortada para chegar lá. Não. É um lugar onde cabem mais que um. E por que não uns três ou quatro? Haveria algum indicativo de que não caibam dezenas ou centenas? Seria abusar demais da fé crer que TODOS podem ser mais que vencedores?

A resposta me parece óbvia: Todos podem estar neste lugar e viver esta condição incrível.

Ser vencedor depende de nós. Ser mais que vencedor é quando dependemos dEle.

Não por acaso, no texto de João 16:33 Cristo diz para termos bom ânimo, pois Ele venceu o mundo. Venceu, e tornou a todos que estão nEle coerdeiros de todas as suas conquistas. Não há mais esforços de nossa parte. O herdeiro recebe. Aquele que nos dá a herança já fez o trabalho pesado. Agora é desfrutar.

Eu sempre fui assim. Confiante. Ousado. Sempre entrei numa questão com a certeza da vitória. Claro que na vida real houve vezes que fiquei em segundo, terceiro, ou bem mais para trás nas posições da lista, porque é como é. Mas mentalmente, jamais me coloquei no páreo visualizando antecipadamente aquelas posições mais afastadas. Uma mentalidade vencedora é um bom começo. Não raro, foi nela que encontrei uns Watts extras para o esforço final que me levou ao topo, quando fisicamente não havia mais reserva alguma.

Se alguma vez isso incomodou aos outros? Certamente. As pessoas apreciam muito uma falsa-modéstia, mas não lidam bem com a mentalidade confiante no outro. Acho pura bobagem. Como eu costumo dizer, são dois trabalhos: o de não gostar, e o de ter que lidar com tal desgosto, porque do lado de cá as coisas seguem normalmente.

Exemplos legais dessa temática eu extraio da bike. Pratico ciclismo faz 3 anos, e especialmente nos últimos 12 meses eu evoluí bem na minha performance. Pedais bastante longos, subidas dificílimas, tentativas de recordes em alguns segmentos. Coisas assim passaram a fazer parte da minha rotina de treinos e passeios. Como funciona? Bem simples: eu estabeleço uma meta e saio para batê-la. Saio para batê-la em 100% das vezes. Dá tudo certo em todas? Não. Mas seguramente dá, digamos, em 8 de cada 10 tentativas. E fico eu sofrendo pelas 2 que não consegui? Jamais. Sigo treinando, aprimoro, ajusto o que deu errado, e parto para novas tentativas. Dessas duas, quase sempre consigo mais uma. E fica pendente aquela 1 de 10, que a essa altura eu já aprendi que está além do meu alcance. Ela fica para trás. Sigo para outros objetivos. Mentalidade vencedora. Fiz tudo. Alcancei 9 de 10. A 10ª não era para mim. Venci em tudo que era possível. Segue o baile.

“Mas Fer, eu não sou assim. Como faz para ser?”

Sinceramente, não sei se consigo passar uma chave fácil. Por eu sempre ter sido assim, e não ter passado por um processo de virada de mentalidade derrotada para mentalidade vencedora, tenho pouco a dizer sobre o “como fazer”. Mas acredito em mudanças. Pensarei a respeito. Estudarei um pouco. Falarei com pessoas que sabem mais do que eu. E quando eu descobrir alguns trilhos, volto aqui para escrever mais deste tema.

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