quarta-feira, 11 de agosto de 2021

049 CAVALOS BRANCOS

Século XVII. Numa cidade de porte médio, em um principado de razoável importância no Reino, vivia um homem comum. Nem da realeza nem da pobreza. Teve lá algumas oportunidades na vida, quando mais jovem, e aproveitou-as bem. Numa época de mudanças, em que alguma mobilidade social despontava nos horizontes das pessoas, ele fez sua parte. Dedicado ao trabalho, prosperou. Prova disso: no início da vida adulta, já possuía um cavalo.

Naqueles tempos, tudo girava em torno de cavalos. Tudo!

Também pudera. Com cavalos as longas distâncias tornavam-se curtas. A força do animal equivalia à de muitos homens, fazendo o serviço render. Havia também, para as classes abastadas, um pujante mercado de cavalos de luxo. Como seria de se esperar, toda uma gama de serviços para a manutenção dos cavalos, alimentação, veterinários, selas, vestimentas para equitação. Ah, sim, as disputadíssimas corridas e as apostas. E mais, muito mais. Tudo o que as mentes criativas pudessem conceber, relativamente a cavalos, era rapidamente absorvido pelas pessoas.

Aquele homem comum, quando ainda menino, naturalmente sonhava ter o seu. Passava em frente aos locais onde os cavalos eram criados e/ou comercializados, e ficava a imaginar-se no dia que conseguiria ter algo tão valioso e valorizado. Ele olhava para os lados, e percebia que jovens como ele, rigorosamente iguais a ele em todo o mais, eram vistos de forma diferente pelas pessoas, apenas pelo fato de possuírem cavalos. Por ser de uma origem mais modesta (financeiramente) do que aqueles seus amigos – que ganharam seus cavalos dos pais – o jovem homem comum sabia que precisaria ter paciência para “nivelar” as coisas, e enfim colocar-se no mesmo patamar dos demais.

A certa altura de sua vida, na transição entre o final da infância e começo da juventude, ele pode finalmente ter um contato maior com cavalos; sua família conseguiu comprar um. Não era dele, exatamente, mas meio que era, porque tinha autorização dos pais para cuidar do animal e, eventualmente, passear um pouco com ele. Assim, mais e mais se aguçava o desejo de possuir um somente seu. Mas isto ainda demoraria uns anos para acontecer.

O jovem seguiu os passos naturais da vida, logo começando a trabalhar. A família continuava com aquele mesmo cavalo, que agora ele podia usar livremente, por já estar mais velho e ter mais responsabilidade. O quadro era ótimo, teoricamente. Mas continuava lá dentro aquele desejo de ter um cavalo só seu. Ele queria comprar alguns acessórios, alimentá-lo e cuidá-lo do seu jeito, mas sempre e sempre precisava pedir autorização dos seus pais. Isso o aborrecia. Bobeiras da juventude.

Certo dia, querendo que a família possuísse um cavalo melhor que o atual, ele fez uma proposta: “Vamos colocar nosso cavalo num negócio, pois eu soube de um muito melhor que está à venda. Eu assumo o pagamento da diferença do valor, mas assim o cavalo também será meu”. Não havia necessidade, é verdade. Mas também não havia um problema enorme no que estava por ser feito, além do fato de o jovem homem comum não dispor dos recursos para pagamento da diferença. Precisaria emprestar o valor. Naturalmente, generosos e compostos juros fizeram parte dessa história. Mas tudo bem para ele. O que importava é que ele tinha condições de pagar as parcelas previstas no negócio. E assim o fez, pois sua família aceitou a ideia.

Claro que cedo ou tarde ocorreriam ruídos. Seus pais, de outra geração, com outro olhar sobre o que significava possuir um cavalo (meio de locomoção e força para o trabalho), não concordariam completamente com todas as decisões do jovem a respeito do animal. Seu olhar era outro. Possuir um cavalo era sinal de status. Quase todos naquele tempo viam da mesma forma. O jovem fora contaminado pela mentalidade consumista. Um cavalo não era só para te levar para lá e para cá, ou para te emprestar uma força enorme, mas ele te ressignificava aos olhos dos demais: você se tornava mais poderoso sobre os lombos de um cavalo. Muitas pinturas da época passam essa visão de mundo.

Ruído aqui, ruído ali, e não tardou para que outra conversa ocorresse naquela casa: “Quero ter o cavalo somente para mim. Eu compro a parte de vocês. Assim fico com um excelente animal, e vocês poderão comprar um mais simples. Cada um cuidará do seu, do jeito que quiser”. “Mas meu filho, isto não é necessário. Você pode usar livremente o cavalo, por também ser dono”. “Na verdade, não é bem assim. Às vezes eu quero fazer as coisas do meu jeito, mas vocês discordam”. “Claro, porque somos donos dele também, e vemos que nem sempre o que você pretende gastar com o cavalo é necessário. Bem, já que entramos no assunto... tem horas que você joga dinheiro fora com ele”. “Então, é sobre isso que estou falando. Eu já cresci, trabalho, quero tomar as minhas decisões, mesmo que na opinião de vocês não sejam as melhores”. Mais umas duas ou três conversas semelhantes ocorreram, até que finalmente o novo negócio se concretizou.

Finalmente, lá pelos seus 22 anos de idade, o jovem homem simples tinha um cavalo para chamar de seu, somente seu. A sensação era incrível!

Ia para onde quisesse. Comprava os acessórios de cavalaria que tanto apreciava. Mandava o animal para banho e manutenção por pessoas especializadas. Não importava o alto custo. Ele só queria que seu animal estivesse sempre perfeito. Seus pelos avermelhados chamavam muito a atenção. Claro, não era dos caríssimos, dos de raça que os ricos tinham, mas não deixava muito a desejar. E com todo aquele investimento, o belo animal passava por muito superior em qualidade. Isso deixava o rapaz feliz. Ele se sentia mais forte e poderoso com os olhares de admiração das pessoas. É como se a beleza e a força do animal fossem suas.

O tempo foi passando, e pela década e meia seguinte as coisas mantiveram-se mais ou menos como sempre. O antes jovem, e agora homem maduro comum, possuindo seu cavalo, que veio a ser trocado por um mais novo, e outro mais novo... tudo como ele gostava. Belos animais. Dinheiro gasto sem peso na consciência. Até que certo dia ele se deu conta de algo: “Nossa! Eu já sou um homem feito, trabalho muito no meu ofício, ganho um bom dinheiro, e a única coisa de valor que possuo é este cavalo”. Rolou uma pequena crise. Ele deu novamente uma olhada para os lados, mas agora, ao invés de ver seus amigos apenas com cavalos, via também casas e propriedades. Enquanto o pessoal tomou boas decisões, ele ficou lá obcecado por cavalos e a pretensa sensação de poder que ele lhe emprestava.

Alguma lucidez se instalou. Àquela altura da vida, ele já deveria possuir uma casa. Mas não. Morava com seus pais ainda, num tempo em que poderia perfeitamente bem ter construído uma estrutura de vida para si. Veio uma boa decisão: vendeu seu cavalo de pelos avermelhados e, com os recursos – mais um bom montante que ele precisou reunir depois – adquiriu sua primeira casa. Ficar à pé não foi fácil, e essa foi sua realidade por uns anos. Precisou, humildemente, submeter-se a pedir emprestado o cavalo dos pais, quando precisasse. Como todos os bons pais fariam, claro que eles cederam. As coisas estavam indo bem.

Anos se passaram, até que finalmente a casa era sua. Linda. Muito além do que ele sonharia para um primeiro imóvel. E paga! Sem dívidas; a melhor característica sobre qualquer coisa que se possa ter. Realmente, as perspectivas dali para frente eram ótimas. Boas decisões foram tomadas. E mais: o homem simples viu que era possível viver um tempo sem possuir cavalo, se o resultado disso significasse ter um bem maior.

Vida que segue, até que aparece uma oferta por sua casa. Ele não estava tão atualizado sobre os valores para negócios naquela localidade, mas pareceu-lhe bem fechar. De repente, uma montoeira de dinheiro em sua frente. Dinheiro vivo, trazido em sacos. Uma imagem impressionante. “Uooow! Que demais. Com este dinheiro eu poderei comprar outra casa, e também um novo cavalo para mim. Valeram a pena aqueles anos a pé”. Assim era para ser. Teria funcionado bem. Pena que não foi.

Estava tudo certo para ele comprar, prioritariamente, uma nova casa. Mas ao passear pela região e ver todos aqueles criadores de cavalos, e como novos animais esplêndidos estavam no mercado, a velha e conhecida sensação de “poder” o fisgou. Ele pensou: “Estou com muito dinheiro. Posso deixar para comprar a casa depois e finalmente realizar o sonho de ter aquele CAVALO BRANCO que eu sempre quis. Eu me esforcei muito para ter essa bolada de dinheiro na minha frente. Eu mereço me dar este presente”.

Andou pela região, pesquisou, pesquisou, até encontrar o cavalo perfeito. Chegou a falar com o proprietário, ver preço para o negócio, tudo praticamente certo. Quando na véspera aparece uma oportunidade única: um cavalo raro, o sonho de consumo de qualquer outro homem de seu tempo. Não era tão jovem como o cavalo branco que tinha encontrado, mas o preço era equivalente. Ele teria apenas que ter paciência para tratá-lo, “arribá-lo” – como se diz – e o prêmio seria possuir um animal muito raro. Investindo nesta arribada, ele bem mais que dobraria o valor do animal.

A péssima decisão foi tomada.

O cavalo branco ficou no “quase”, e agora ele possuía um raro e – por enquanto – não tão belo cavalo de pêlos amarelados. Realmente não estava nos seus melhores dias, precisando de algum investimento, mas com seu olhar projetado para o futuro, o homem simples já conseguia imaginar como o animal ficaria depois de bem tratado, alimentado e sarados todos os seus problemas de saúde. Era um plano perfeito.

Só que não...

Os problemas do cavalo eram muito maiores do que ele imaginava. Chegou quase a perdê-lo. Mas não tinha muita opção: ou era investir tudo o que fosse preciso para salvá-lo, ou era perder tudo. Ninguém compraria o animal como estava. Nem para açougue servia, pois naquele país não se comia carne de cavalo. Bem... dizem para nunca investigar muito a fundo como são feitas as linguiças.

Anos e anos se passaram, muito daquele dinheiro da casa precisou ser gasto com o animal, para não perdê-lo. Não todo, felizmente. O homem conseguiu sim uma casa nova, mas uma muito aquém da que teria comprado se o fizesse logo que vendeu a primeira. Uma decisão ruim e suas consequências. Vida adulta é assim. Choramingar não resolve.

E ele ali, tendo um cavalo raro e sempre doente, no qual jamais montara uma única vez. Foi se virando com um animal emprestado aqui, outro alugado ali, sempre que as circunstâncias da vida exigiam. E assim ele se adaptou a uma vida sem cavalos. Aquele seu, de pêlos amarelados, tornou-se um elefante branco (ironicamente, não um cavalo branco), do qual tudo que o homem mais queria era livrar-se, dando algum novo destino a ele. Mas o animal na mesma, sempre doente, ficava amarrado à sua vida. Um problema aparentemente insolúvel.

Enfim, como diz aquele velho ditado: “O que não tem solução, solucionado está”. O homem não podia parar sua vida por suas decisões equivocadas de anos anteriores. Tinha sim é que administrá-las, minorar o quanto pudesse novos prejuízos, e seguir em frente. O cavalo de pêlos amarelados não estava mais condenado à morte. Sobreviveu. Mas não se prestava para passeios. O jeito era mantê-lo, dar um final de vida digno a ele. Àquela altura, não era mais tão oneroso mantê-lo. Virou um elefante branco e como elefante branco ficou.

O que fazer então? Comprar outro? Finalmente dar-se de presente aquele tão  sonhado cavalo branco, que teria sido a compra mais certa (ou menos errada) de alguns anos antes?

O homem simples concluiu que não. Ele realmente tinha aprendido a viver sem cavalos. Sua casa era bem localizada, com tudo o que ele precisava a distâncias não muito longas de seu portão. Andar a pé não doía; pelo contrário, trazia-lhe saúde. Mas, e as coisas que realmente demandavam a força e/ou a velocidade do animal? Bem, isso já não era problema. Com o passar dos anos, aquela arcaica sociedade centrada na figura dos cavalos, continuava tão centralizada como sempre, mas algo mudou. A obsessão de cada pessoa em possuir um animal para chamar de seu, meio que arrefeceu. Tudo ainda era feito e pensado em torno dos cavalos, seu ritmo e sua força, mas cada pessoa ter um animal próprio, não era mais imprescindível.

O que ocorreu?

Inventaram um negócio chamado Uber, com o qual as pessoas facilmente localizavam outras pessoas com seus cavalos,  e uma delas vinha até você, levando-te de garupa para onde precisasse. Bastava pagar uma pequena quantia. Foi uma das invenções mais fantásticas daqueles tempos. Século XVII, pessoal! Incrível, né?! Cavalos compartilhados! Como ninguém tinha pensado nisso antes?

O homem simples, assim, sentiu-se afinal e absolutamente confortável por não possuir um cavalo. Era visto de forma estranha pelas muitas pessoas que ainda tinham a velha mentalidade. Havia até qbem afirmasse, categoricamente, que todo homem DEVERIA ter um; que era estranho não ter. Ele chegou a ouvir isso de duas donzelas que conhecera. Riu-se por dentro e, por essa e outras razões, saiu correndo dos potenciais relacionamentos. Ele não queria ter seu valor medido pelo cavalo que montava. Havia muito mais nele do que um belo cavalo branco sob seu traseiro, mas esse “muito mais” aquelas donzelas jamais teriam a oportunidade de ver.

Fim

Um comentário:

  1. Que lindo!! Aquele homem amadureceu, passou a dar valor no que realmente tem valor. Cavalos brancos ficaram na história para ser refletida e compartilhada.

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