Mas quando acenderam um fogo no meio do pátio e se sentaram ao redor dele, Pedro sentou-se com eles. Uma criada o viu sentado à luz do fogo. Olhou fixamente para ele e disse: ‘Este homem estava com ele’. Mas ele negou: ‘Mulher, não o conheço’. Pouco depois, um homem o viu e disse: ‘Você também é um deles’. ‘Homem, não sou!’, respondeu Pedro. Cerca de uma hora mais tarde, outro afirmou: ‘Certamente este homem estava com ele, pois é galileu’. Pedro respondeu: ‘Homem, não sei do que você está falando!’. Falava ele ainda, quando o galo cantou. O SENHOR VOLTOU-SE E OLHOU DIRETAMENTE PARA PEDRO. Então Pedro se lembrou da palavra que o Senhor lhe tinha dito: ‘Antes que o galo cante hoje, você me negará três vezes’. Saindo dali, chorou amargamente. (Lucas 22: 55-62) Sexta-Feira, 15 de abril de 29 d.C.
Quando voltaram do sepulcro, elas contaram todas estas coisas aos Onze e a todos os outros. Mas eles não acreditaram nas mulheres; as palavras delas lhes pareciam loucura. Pedro, todavia, levantou-se e correu ao sepulcro. (Lucas 24: 9, 11 e 12) A seguir, Simão Pedro entrou no sepulcro e viu as faixas de linho, bem como o lenço que estivera sobre a cabeça de Jesus. Ele estava dobrado à parte, separado das faixas de linho. Eles ainda não haviam compreendido que, conforme a Escritura, era necessário que Jesus ressuscitasse dos mortos. Os discípulos voltaram para casa. (João 20: 6, 7, 9 e 10) Domingo, 17 de abril de 29 d.C.
Ao amanhecer, Jesus estava na praia, mas os discípulos não o reconheceram. Ele lhes perguntou: ‘Filhos, você têm algo para comer?’. Eles responderam que não. Ele disse: ‘Lancem a rede do lado direito do barco e vocês encontrarão’. Disse-lhes Jesus: ‘Tragam alguns dos peixes que acabaram de pescar’. Depois de comerem, Jesus perguntou a Simão Pedro: ‘Simão, filho de João, você me ama mais do que estes?’ Disse ele: ‘Sim, Senhor, tu sabes que te amo’. Disse Jesus: ‘CUIDE DOS MEUS CORDEIROS’. Novamente Jesus disse: ‘Simão, filho de João, você me ama?’ Ele respondeu: ‘Sim, Senhor, tu sabes que te amo’. Disse Jesus: ‘PASTOREIE AS MINHAS OVELHAS’. Pela terceira vez, ele lhe disse: ‘Simão, filho de João, você me ama?’. Pedro ficou magoado por Jesus lhe ter perguntado pela terceira vez “Você me ama?’ e lhe disse: ‘Senhor, tu sabes todas as coisas e sabes que te amo”. Disse-lhe Jesus: CUIDE DAS MINHAS OVELHAS’. E então lhe disse: ‘Siga-me!’ (João 21: 4, 5, 6, 15 a 17 e 19b) Domingo, 24 de abril de 29 d.C.
Muitos anos atrás, pelos idos de 1996-97, num livro que não me recordo o título, num capítulo que muito se assemelhava ao estilo destes escritos aleatórios – texto relativamente curto, com pensamentos sobre um tema específico – reparei pela primeira vez este precioso detalhe das Escrituras Sagradas: o olhar de Jesus para Pedro, no instante imediato à terceira negação. Era sobre este olhar aquela reflexão.
Lembro-me que o autor conjecturava sobre como teria sido. Bem, certamente – porque a própria Palavra o afirma – não foi um relance. Cristo FIXOU seus olhos nos olhos de Pedro. Alguns segundos, longuíssimos segundos. Quanta coisa deve ter se passado na mente de Pedro. Quão nada surpreso estava o Nosso Senhor com Pedro, posto que o advertira antecipadamente sobre o que ele faria. O que será que os olhos de Jesus comunicaram a Pedro, naquela última oportunidade em que o olhava, antes de ser morto?
Horas depois, o Homem de Dores morria na NOSSA cruz. Ele a tomou para si, tornou-se SUA. Mas era nossa.
Como também predito, Ele venceu a morte. Ressuscitou! Desceu à morte como Cordeiro; retornou de lá como Leão. As mulheres deram a notícia, mas os discípulos não acreditaram. Foram certificar-se da tumba vazia e voltaram para casa. Não entenderam que Ele estava vivo; presumiram apenas que seu corpo havia sido roubado. 'Aquelas mulheres doidas...'. Vida que segue... o sonho acabou.
Costurar as redes. Ver se aquele barco parado há três anos ainda se prestava para o serviço. Reencontrar os antigos amigos de profissão. Seguramente, alguns olhares pesados de julgamento das pessoas. Era quase possível ouvir o que se passava nas mentes deles:
- “Eeee Pedrão, estava se achando no topo do mundo, né? Mas e aí, cadê aquele Reino que o seu Mestre estava trazendo ao mundo?”
- “Eu acho é pouco! Tem que se dar mal, mesmo. Com esse jeito ‘pra frente’ aí, todo falador, impulsivo. Nunca gostei de você”.
- “Saiu falante, parecendo que ia ganhar o mundo; voltou quieto e de cabeça baixa, vindo pedir lugar para pescar aqui entre nós novamente. Bem, Pedro está lascado mesmo, não vou pisar ainda mais. Além disso, sabe pescar. Vou aceita-lo de volta”.
Vida que segue. O homem que seria pescador de homens, voltando a pescar peixes.
‘Vou pescar’, disse-lhes Simão Pedro. E eles disseram: ‘Nós vamos com você’. Eles foram e entraram no barco, mas naquela noite não pegaram nada. (João 21:3)
Ao amanhecer, Jesus estava na praia... (João 21:4a)
A vida tinha seguido para Pedro. Seu sonho acabado. Um lugar ao lado do Mestre em seu futuro Reino, agora não passava de um desejo que ficou no "quase". Que três anos intensos foram aqueles! Sinais e Maravilhas. Ensinos. Viagens. Visões. A entrada triunfal em Jerusalém. ‘Hosana ao Filho de Davi. Bendito é o que vem em nome do Senhor!’. A Ceia. Seus pés sendo lavados pelo Mestre. ‘Meu Deus, que mestre faria aquilo?’ O Getsêmani e os clamores de Jesus sobre o amargo cálice. O traidor Judas. A orelha de Malco. O Mestre enfim nas mãos dos que tanto o odiavam. O julgamento. As três negações. Seu último cruzar de olhares... a morte do Messias.
Pedro estava lá, em cada um daqueles mais de 1000 dias de ministério de Jesus. Ele viu tudo. Participou de muito. Ele viveu a história do Mestre aqui na terra. História que, aquela altura, parecia ter chegado ao fim.
Mas veio o domingo como um sopro de esperança, e o todo alvoroço causado pela notícia das mulheres. Apenas para ficar novamente frustrado: ‘Ah, essas mulheres loucas! Não tem mais com que se ocupar? A tumba estava vazia. Corri tanto, pois achei que encontraria Jesus por lá". Novamente a centelha se apagou. Jesus não estava lá. Por não tê-lo visto naquela manhã de domingo, concluiu que tudo acabou mesmo. O jeito era ir para casa e seguir em frente. ‘É o que tem pra hoje. Quem sabe ele não fosse mesmo o Messias’.
Mas (uma semana depois) Jesus estava na praia...
Imagino o mestre naquela noite, dali de onde estava, em meio à escura noite, observando cada movimento daqueles homens e de Pedro no barco. E observando cada pensamento que em suas mentes rolava. Rede pra um lado, rede pra outro; havia peixes ali, claro que havia. Mas o Senhor da Criação ordenava, sem abrir seus lábios, que o cardume fosse para lá, depois para cá, ali pertinho de onde o barco estava. Mas não era a hora de serem pescados. O Senhor desejava que aqueles homens sentissem a tristeza por tanto esforço e nenhuma recompensa. Essa era a “vida normal” de um pescador. Por vezes, nada traziam.
E o Senhor ali, olhando a noite toda para os seus amados. Esperando por eles no ponto onde sabia que voltariam com o barco. Quem sabe andou um pouco sobre as águas, sem se revelar, só para olhá-los de pertinho. Jesus é relacional. Ele gosta de gente perto dele. E nunca falta ao encontro.
Eles chegam à praia e se deparam com um desconhecido. Jesus estava na praia, mas os discípulos não o reconheceram (João 21:4). Agora ele tinha um corpo glorificado. Sua aparência mudou.
Estranhamente, um estranho os aborda, pede comida, e diz para lançarem sua rede do lado direito do barco. A aparência ainda era de um estranho, mas a pesca maravilhosa não poderia ser fruto de outra pessoa. Só podia ser Jesus. João diz a Pedro: “É o Senhor” (João 21:7). Cento e cinquenta e três grandes peixes, mas a rede não se rompeu. Só podia ser Jesus. ‘Venham comer’ (João 21:12). O Mestre que a tantos tinha manifestado maravilhas, e a tantos feito comer fartamente... Só podia ser Jesus. Sobravam tantos pães e peixes antes; agora cento e tantos peixes enormes. Seu estilo não tinha mudado. Abundância era sua marca. Só podia ser Jesus. A aparência era outra, mas eles sabiam que o Mestre tinha voltado. Entretanto, ‘nenhum dos discípulos tinha coragem de lhe perguntar ‘Quem és tu?’ (João 21:12b)
Quando os olhos de Pedro e de Cristo haviam se cruzado pela última vez, naquela fatídica e amarga sexta-feira, 15 de abril de 29 d.C., muita coisa entre eles foi dita sem palavras. Passados 9 dias, o REENCONTRO. Olhos que voltavam a se fixar um no outro. Mas o que ele veria nos olhos do Mestre ressurreto? Julgamento? Acusações? Juízo?
‘Simão, filho de João, você me ama? Você me ama? Você me ama?’
Três vezes. Uma para cada negação. Um caminho de volta completo, sem atalhos, sem ‘Tudo bem, eu te entendo. Deixa prá lá, a carne é fraca mesmo’. Não, não. ‘Eu sei que você é fraco, Pedro. Mas eu preciso que você se arrependa, que reconheça que sem mim, toda aquela tua ousadia não passava de palavras ao vento. Sem mim, você e ninguém podem fazer coisa alguma. Sem mim, sua vida será isso que você vivenciou nessa noite escura, fria e frustrante. Se eu quisesse que você pescasse peixes, Pedro, eu teria dito isso a você quando caminhamos juntos por aqueles 3 anos. Mas foi para pescar homens que eu te escolhi (Mateus 4:19). A pesca desta manhã foi milagrosa e inesperada, mas aqui não é o seu lugar. Eu ainda quero que você me siga, mas preciso que entenda o que é amar. Apascente os meus cordeirinhos e as minhas ovelhas. Se você fizer isto por mim, as palavras “eu te amo, Senhor”, que você diz agora, deixarão de ser um discurso, materializando-se numa expressão de amor real por mim’.
Cá com meus botões, nesta mente criativa que Deus me deu, imagino o Senhor Jesus comunicando tudo isso a Pedro naquele 24 de abril de 29 d.C., apenas com seu fixo olhar. Poucas palavras – ‘Tu me amas?’ e “Apascenta!” – mas uma longa conversa entre aqueles dois que se olhavam novamente, depois de alguns dias longe. O Senhor nunca falta ao encontro. Pedro deixou as redes pela segunda vez, para nunca mais ser o mesmo. O que três anos não haviam sido suficientes para gerar nele, três perguntas, três respostas, e três curas o fizeram em uns poucos instantes. Os olhos do Mestre o transformaram naquela manhã. Olhos de amor. O bálsamo do BOM PASTOR.
- Mas o que fazer com essa montoeira de peixes, Pedro? O que você fará com sua parte?
- Nada disso é meu. Fiquem com tudo. Eu finalmente conheci ao meu Senhor. Uma nova pesca me espera.
Existem muitas formas de expressar amor pelo Senhor, de acordo com a Palavra. Uma das que mais me impacta é “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele”. (João 14:21)
Essa expressão de amor em forma de obediência aos seus mandamentos continua válida e é para TODOS. E é bem simples. Obedecê-lo é amá-lo. Sem pegadinha. Sem contorcionismos interpretativos. OBEDECER = AMAR.
Mas veja que interessante. Existe uma forma de amar ao Senhor que extrapola nossa relação individual com Ele. Porque Ele é um Deus relacional, que ama gerar links entre seus filhos. Então surge naquela conversa com Pedro uma nova expressão de amor: APASCENTAR = AMAR.
O BOM PASTOR (João 10:11), aquele que deu sua vida pelas ovelhas, requereu de nós que as apascentássemos. E isto fazendo, o amamos. Não pediu que também déssemos nossas vidas pelas ovelhas, porque ovelhas todos somos, e nenhum novo sacrifício é mais necessário.
Porque é impossível que o sangue dos touros e dos bodes tire os pecados. Por isso, entrando no mundo, diz: ‘Sacrifício e oferta não quiseste, mas corpo me preparaste; holocaustos e oblações pelo pecado não te agradaram. Então disse: ‘Eis aqui venho (no princípio do livro está escrito de mim), para fazer, ó Deus, a tua vontade. Como acima diz: Sacrifício e oferta, e holocaustos e oblações pelo pecado não quiseste, nem te agradam (os quais se agradam segundo a lei). Então disse: ‘Eis aqui venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade. Tira o primeiro, para estabelecer o segundo. Na qual vontade temos sido SANTIFICADOS PELA OBLAÇÃO DO CORPO DE JESUS CRISTO, FEITA UMA VEZ”. (Hebreus 10:4-10)
Fazer a vontade do Pai, sempre foi a motivação suprema do Senhor Jesus. Ele viveu para isto.
Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. (João 6:38)
Clareza de missão. Clareza de propósito. Missão dada. Missão cumprida.
Naquele
mesmo domingo, 24 de abril de 29 d.C., não mais à beira do Mar de Tiberíades,
mas agora na Galiléia, Cristo reuniu-se com os Onze para deixar uma missão
muito especial:
Foi-me dada toda a autoridade nos céus e na terra. Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos. (Mateus 28:18-20)
Apascentar os cordeirinhos e as ovelhas dEle. Ir e fazer discípulos. Ensiná-los a obedecer a tudo que foi ordenado. Suas últimas ordens estavam dadas e muito claras.
Três negações. Três “Tu me amas?”. Três comandos deixados pelo Senhor: Pastorear. Discipular. Ensinar.
Tenho convicção de que NADA, NADA, NADA (três vezes) é mais importante e expressa mais amor a Deus do que cumprir esses três comandos, que em verdade acabam por se constituir numa coisa só. O BOM PASTOR apascentou perfeitamente bem nos seus dias aqui, fez discípulos melhor do que ninguém, obedeceu ao Pai e ensinou a todos obedecerem também, por seu exemplo vivo.
Por tudo isso ele foi e é o BOM PASTOR. Nele está a condição plena de apascentar cada pessoa sobre a face da terra. Ele é Deus. Tem todo o Poder, está em todo lugar. Ele não precisaria de Pedro ou de nós para cuidar perfeitamente de cada uma de suas muitas ovelhas, mas (e eu amos esses MAS de Deus), soberanamente Ele nos escolheu para fazermos parte deste projeto. Estabeleceu sua Igreja, a partir dos Onze, que pouco depois voltaram a ser Doze – mais os muitos outros discípulos que já havia, e os que foram se somando – para que nos cuidássemos, nos apascentássemos, nos amássemos, assim evidenciando nosso amor por Ele.
Sei que há muitas compreensões sobre o que seja estabelecer o Reino de Deus, mas para mim nenhuma ação neste sentido é mais importante do que apascentar e apresentar vidas transformadas para Deus. Estruturas ficarão. Títulos serão nada. Ondas e movimentos são fumaça. A única coisa que importa, falando em Reino de Deus, é aplicarmos tudo que há em nós com o único e eterno objetivo de apresentarmos vidas resgatadas da morte para Deus. Frutos vivos. Não obras mortas.
Pastorear. Discipular. Ensinar.
Todo o mais é acessório. Todo o mais não passará, quando muito, de uma expressão menor de amor pelo Senhor. Quando muito...
Que Deus me dê, e dê também a você a Graça de sermos bons pastores. Nisto estará nossa maior expressão de amor por Ele.
Li, me edifiquei. Amei o texto.
ResponderExcluirCara, "textasso".
ResponderExcluirMuito bom.