- Seu idiota!
- Idiota é você, sua louca!
- Louca? Você me chamou de louca?! Seu fracassado!
- Fracasso foi um dia ter escolhido você!
- Então o fracasso foi dos dois, porque me arrependo amargamente daquele dia.
... e por aí vai. Desse jeito. Pela próxima meia-hora.
Então a temperatura baixa um pouco; impera um silêncio sepulcral na casa; ela chora no banho, para que ele não veja; ele pega a moto no fim de tarde e sai por aí sem destino (acaba tomando umas, coisa que não fazia há muito tempo); ela nem sente vontade de comer nada no restante do dia; ele chega levemente alterado, nem toma banho e dorme no sofá; ela mal prega os olhos por toda a noite, e acaba levantando algumas vezes para dar uma olhada na sala, preocupada se ele teria saído novamente. E assim termina o dia de um casal em crise.
Discussões me incomodam muito. Jamais me sinto confortável nesse ambiente conflituoso. Seja no efetivo, seja nas “discussões” que simulamos em nossa mente. É pesado. É estressante. Toma conta de você e o resultado nunca é bom. A sensação de vencer um debate é boa. A de perder, péssima. E indago se numa discussão poderia sair alguém vencedor realmente? Cá comigo, penso que os envolvidos sempre perdem. Discussões não são positivas.
Não que eu tenha alcançado uma condição tal de controle dos meus ímpetos debatedores, mas certamente hoje o quadro é muito melhor do que foi no passado. Conforme anotei no escrito 013 AS OPINIÕES DOS OUTROS, com o tempo eu consegui enxergar que nem toda palavra a mim dirigida merece atenção. Existem pessoas que importam mais; outras, um pouco menos; por fim, aquelas cujas opiniões não fazem a menor diferença.
Calma, calma, com essa classificação não estou a sugerir que estas últimas, em especial, eu queira ver pelas costas, ou que deseje a elas coisas terríveis na vida. Isso seria péssimo. Não é o coração de Cristo batendo em mim; e preciso andar como ele andou. Seu amor era/é imenso e estava/está disponível para todos, mas ele tinha um grupo de pessoas mais próximas, com quem caminhava mais, conversava mais, ensinava mais. Ele não estava desprezando as outras, de forma alguma. Essa concentração de sua atenção nos Doze tinha a ver com a realização de seu propósito, por isso estava plenamente justificada e coerente com seus valores.
Houve dias em que eu apreciava um “bom” debate. No escrito 025 O EX-POLEMISTA eu falo um pouco disso: “Eu era um POLEMISTA. Um plantonista fiscalizador de informações, que adorava contrapor argumentos. Logo postava no perfil das pessoas as minhas opiniões, contrárias às deles, invadindo sem pedir licença um espaço que não era meu. Que coisa feia. Fazia isso e ainda achava que tudo bem. E para ficar completão o ambiente de debates sem fim, eu também postava muito nos meus espaços as minhas opiniões, e pessoas semelhantes a mim vinham invadi-lo com seus argumentos contrários, gerando minha reação, e uma nova dela, num ciclo insano”.
Embora hoje subjugado, aquele ímpeto de debater e prevalecer sempre precisa ser mortificado em mim. Domínio próprio – um Fruto do Espírito – tem a ver com isso. Se percebo que me brota uma sensação “boa” ao sair vencedor de um debate, ou ruim (sem aspas) por ter sido derrotado, já logo me dou conta de que tem coisa errada no ar. Porque, na verdade, não é preciso sair vencedor ou perdedor de uma conversa. Pior ainda quando a conversa vira debate. E o Everest às avessas é quando o debate vira discussão. Daí para a briga e níveis mais subterrâneos desse quadro dantesco, é um pulo. Um pulo no abismo.
- Você é um idiota, Fer!
- Sério? Mas por que idiota eu seria? Não me vejo assim. Ajude-me a enxergar, por favor. Quem sabe haja algum ponto idiota mesmo, e não percebo.
- Pare de ironia, Fer!
- Estou falando sério. Eu não me vejo como um idiota. Vamos conversar.
É beeem diferente de responder “Idiota é você, sua louca!”. O CICLO INSANO não se instala automaticamente. Você não fez sua parte nesta fogueira. A outra pessoa jogou um gravetinho no fogo; você não. Sem combustível, o fogo se apaga rapidinho. Sua palavra branda – não um revide irrefletido – pode não apenas ter evitado uma briga feia, mas aberto a possibilidade de um diálogo sobre algo que já estava passando da hora de ser conversado.
“Aaah, Fer. Fala sério! Vai dizer que você tem este autocontrole todo aí?” Então... não em 100% das situações, mas com certeza hoje as coisas estão bem melhores do que já foram na minha história. Eu estudei Direito na graduação superior. Ser um bom debatedor é ferramenta importante na área jurídica. Assim, além de alguma medida de satisfação inata que sempre esteve em mim, um prazer por prevalecer num debate, depois vieram também o conhecimento de técnicas para fazê-lo, boa parte aprendida nos bancos da faculdade. É possível até vencer uma disputa sem ter o conhecimento mais profundo sobre algo, se as ferramentas “certas” forem utilizadas.
Quantas e quantas vezes, num passado que (felizmente) vai ficando distante, eu me recordo de vencer debates de Facebook com argumentos incompletos e frágeis. Mas minhas habilidades retóricas emprestavam a eles algum lustro, um verniz de consistência, e eu conseguia fazer o oponente pedir arrego. Para minha vergonha, houve oportunidades em que saquei de argumentos falsos, mas que convenciam por minha veemência no falar. Como alguém já disse por aí: “Não importa tanto o QUE se fala, mas o COMO se fala”. Claro que há um problema fundamental neste conselho, que não recomendo a ninguém seguir irrefletida e indistintamente.
O grande problema de ser alvo de uma palavra ofensiva, e dar seguimento ao ciclo insano de ofensas, é que você aceitou falar sobre o que o outro colocou sobre a mesa. “Seu idiota”. “Sua louca”. Etc etc etc... A pauta foi dada e você caiu na cilada. Alguém te conduziu para aquilo. Sem refletir, você foi colocado no meio do turbilhão.
Entretanto, diversamente, ao responder com um “Sério? Mas por que idiota eu seria? Não me vejo assim. Ajude-me a enxergar...” você tomou as rédeas para suas mãos, sendo a partir dali o condutor dos próximos passos. Sim, sim, a outra pessoa pode estar bastante inflamada e predisposta para brigas, mas é muito verdade o velho ditado de que SE UM NÃO QUER, DOIS NÃO BRIGAM. Pode ser que ela ainda insista, lance nova ofensa, e uma terceira, até que desista. Se você fizer sua parte e não colocar nenhum graveto na fogueira, os gravetos dela não serão suficientes para manter o fogo acesso, pois discussão é uma fogueira que só se mantém com gravetos dos dois. Conduza! Deixe seus gravetos bem longe do fogo.
Sim, eu sei que não é fácil. Continua sendo um desafio para mim. O gostinho do prevalecimento ainda meio que aparece na boca, mas já notaram que de gostos a gente acha que lembra, mas na verdade não lembra? De pudim, meu doce favorito, eu sei o gosto. Aliás, melhor dizendo, eu sei os muitos gostos de pudins, porque graças a Deus existem dezenas de receitas diferentes. Umas melhores que as outras. Quisera eu poder um dia provar todas. Sim, eu conheço o gosto do pudim, mas não consigo lembrar dele. Se eu pensar neste doce maravilhoso, pode até formar água na minha boca, mas o gosto mesmo eu não sinto. O gosto eu só vou sentir quando puser novamente uma bela colher de pudim na minha boca.
Da mesma forma ocorre com a lembrança do “doce” gostinho da vitória numa conversa, debate ou briga. Você conhece a sensação, sabe que conhece, mas por mais que mentalize o quadro e tente sentir todas as “delícias” do prevalecimento, não é igual. Somente quando você prevalecer de novo, numa situação real, sentirá novamente o gosto real daquelas sensações. Então cabe a você manter-se longe delas, na prática, para que cada vez mais aquele gosto se torne uma lembrança distante.
NON DUCOR DUCO – NÃO SOU CONDUZIDO. CONDUZO.
Esta expressão latina está presente no brasão da cidade de São Paulo. É como São Paulo se vê. Sabe de sua força, pujança, influência. São Paulo não aceita ser conduzida, porque seu papel é conduzir.
Cabe um pouco disso em nossas relações pessoais. Claro, claro, não todo o tempo, não para tudo. Porque não sabemos tudo, e muitas vezes teremos que humildemente reconhecer e aceitar sermos conduzidos pelos outros, naquilo que sabem mais do que nós. Não sendo assim, seríamos arrogantes, soberbos, altivos, “donos da verdade”.
Mas nessa questão das discussões, precisamos sim conduzir, sempre que percebermos o perigo de um potencial ciclo insano. Calar é a primeira medida. Colocar outro objeto sobre a mesa é a seguinte. Não ceder às tentativas seguintes da outra pessoa, insistir num outro assunto, e insistir, e insistir... até que o tema mude. Se você conseguir, pode ter evitado um desastre. Quem sabe até obtido grande êxito, consistente numa conversa produtiva sobre o que realmente deveria ser conversado; e não um festival de ofensas insanas. Ninguém precisa disso. O ciclo insano nunca será bom. De novo, só que agora em caixa alta: NUNCA SERÁ BOM.
“Fer, mas eu não tenho esse dom. Quando vejo, já respondi e não paro mais”.
Fruto do Espírito é algo que não está naturalmente em você. É derramado em você. Peça a Deus. Um novo coração. Novos sentimentos. Reações controladas pelo Espírito Santo. Pensar em como Jesus agiria na mesma situação é sempre muito válido. Devemos andar como ele andou, falar como ele falou, reagir (ou não reagir) como nosso modelo supremo fazia.
Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca. (Isaías 53:7)
Cristo sabia quem era. Ele não caía nas ciladas dos seus detratores. Palavras terríveis e mentirosas foram ditas sobre ele, das quais creio nem possamos dizer que entravam por um ouvido e saíam pelo outro. Não. Elas nem entravam. Ele sabia quem era. As opiniões dos outros a seu respeito eram apenas tentativas natimortas de acender uma fogueira que não tinha nada a ver com ele. Ele deu o exemplo. De nós é dito que somos ovelhas, como coloquei em várias referências bíblicas no escrito 048 O BOM PASTOR, figura cuja característica mais marcante é ser silenciosa, não barulhenta, nada extravagante. Grunhir é para porcos. Ovelhas são tranquilas.
Que Deus me ajude (e te ajude) a ter este coração. Uma língua menor. Ouvidos mais sensíveis às Suas Palavras. É por elas que precisamos ser conduzidos.
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