Cheguei da escola, almocei, cumpri minha rotina normal e fiquei por ali o dia todo, só esperando uma janela de oportunidade. Mas toda hora tinha alguém por perto. Ou era o pai no escritório, ou a mãe na cozinha, meus irmãos assistindo TV, e nada de eu ficar sozinho em casa. Pelo que me recordo, rolou somente no final da tarde, quando já começava a escurecer. Ninguém por perto, bora!!!
Corri até minha mochila escolar e peguei a fita K-7 que eu havia encontrado no chão, a caminho de casa. Muitas crianças de hoje, ao terem em suas mãos uma dessas, talvez achassem estranho. Num lado da fita estava escrito GUNS N´ ROSES. No outro, LEANDRO & LEONARDO. Não tinha a menor ideia de quem eram. O ano dessa historinha é 1991. Lado A com November Rain, Live And Let Die, Don´t Cry, You Could Be Mine, Welcome To The Jungle, Paradise City, Sweet Child O´ Mine. Algumas dessas músicas foram os primeiros rocks que ouvi em toda a minha vida, já na casa dos 14 anos de idade. Lado B com Não Aprendi a Dizer Adeus, Pense em Mim, Talismã, Desculpe mas eu vou Chorar...
Não éramos de ouvir rádio em casa. Também não havia nenhuma proibição de ouvirmos o que quer que fosse. Os discos de vinil, que ficavam junto ao aparelho 3 em 1, eram todos de conjuntos corais, duplas evangélicas, quartetos, e havia também um disco de músicas clássicas. Essa era minha trilha sonora de então, à qual somavam-se os cantos congregacionais da igreja. Hinos e os corinhos; assim denominávamos as músicas da igreja naquele tempo. Um tempo muito diferente, onde havia acalorados debates sobre se podia ou não ter bateria na igreja, ou guitarra, ou se o Rock era do diabo. Com todas essas questões superadas hoje em dia – espera-se, ao menos – pode parecer estranho para os mais novos, mas assim é que era. Novidades costumam assustar.
Nossa igreja era o que se chamava de TRADICIONAL. Meu pai, o pastor. E eu, o filho mais velho do pastor, curtindo demais os Guns n´ Roses. Escondido, claro. Como eu disse, não havia uma proibição expressa, mas lá com meus botões eu entendia que aquilo estava um pouco fora da linha. Assim, por alguns dias, segui ouvindo minha fita secreta quando não tinha ninguém por perto. Mais o lado A, do Rock, e vez por outra o labo B também. Com um pequeno esforço, e alguma desafinação, eu conseguiria hoje lembrar a letra completa e cantar Talismã.
Mas, diferentemente de outras coisas que garotos de 14 anos fazem escondido, ouvir música era muito fácil identificar. Não havia fones de ouvido em casa. Assim, sempre pela mesma hora, quando eu me percebia sozinho, colocava a fita no 3 em 1 e ouvia um pouco, até perceber movimento. Então desligava rapidão e fingia estar mexendo nos discos de vinil. Claro que mãe logo percebe movimentos atípicos das crias. E claro que as crias sempre acreditam que conseguirão enganar. Tadinhas, sabem de nada (as crias).
Certo dia a Dona Mirian entrou bem na hora que o procedimento padrão acontecia. Fiz um movimento rápido para desligar. Ela deu sinal que não, e o som continuou rolando. Ouvimos uma ou duas músicas juntos.
- Você gosta dessas músicas?
- Não, mãe. Não gosto.
- Hum, então você fica ouvindo todos os dias músicas que não gosta. Interessante.
- Não, mãe. Eu ia jogar a fita fora.
- Se fosse jogar, já teria jogado. Não foi isso que eu perguntei, Fer. Você gosta dessas músicas?
- Sim, mãe. Eu gosto. Eu acho legal o estilo.
- Certo. Tem um cara que você vai conhecer. Ele se chama Vágner, é da Comunidade, e vai te mostrar umas músicas como essas que você gostou.
- Certo, mãe.
- Ele tem 1 hora semanal na Rádio Porta Voz, toca uns discos de rock. Você irá lá e depois me fala o que achou.
No dia determinado, na hora marcada, eu estava lá na rádio. Ela ficava pertinho de casa, cerca de uma quadra de distância, bastando virar à esquerda na esquina da Rua Guararapes com a 19 de Dezembro, e caminhar mais uma quadra. A Rádio Porta Voz ficava na esquina da Rua 19 com a Avenida Goiás. Conheci o tal Vágner, que todos chamavam de Vaguinho, e acompanhei o pequeno programa de rock cristão. Não me recordo de nenhuma música daquele dia. Sei que saí de lá com um combinado: eu iria até sua casa para, com mais calma, ouvir seus discos e gravar umas músicas.
Rolou a visita. Então fui melhor apresentado a algumas bandas de rock cristão, gênero musical relativamente novo para nós, do interiorzão do Paraná. Petra, Whitecross, Stryper, dentre as gringas. Oficina G3, Regaste, Katsbarnea, Rebanhão, nacionais. Os cabeludos barulhentos do questionado rock gospel. O Vágner tinha vários discos, tudo vindo de São Paulo. As lojas de Sampa traziam de fora, aí o restante do Brasil ia lá comprar. O mundo era totalmente diferente de hoje.
Então pense: 1991. Tinha muita coisa fina no acervo. Que safra! O disco do momento de Petra era Beyond Belief, considerado até hoje o melhor álbum da banda; Whitecross com In The Kingdom; Oficina G3 com Nada é tão Novo, Nada é tão Velho; Resgate com Vida, Jesus & Rock´n´Roll; Katsbarnea com o disco de mesmo nome, bombando com as faixas Extra, Apocalipse Now, Revolução. Não tinha como dar errado. Vaguinho soube fazer o serviço direito. Eu curti tudo do novo estilo. Era tudo muito bom! Bem, ainda hoje eu considero aqueles discos excelentes e ouço muitos deles 30 anos depois. Tinha levado comigo duas fitas K-7 virgens para gravar, e como o material era muito maior do que nelas cabia, selecionei as faixas favoritas de cada banda e álbum. Ficamos um dia inteiro na função.
Como a turminha mais Old School sabe, gravar do vinil para as K-7 dava muito trabalho. Você colocava a agulha do tocador no ponto certo do bolachão, e tinha que rolar o timing perfeito para apertar o REC no 3 em 1, naquele espacinho exato de silêncio entre uma faixa e outra. E o mesmo acontecia quando terminava a gravação de cada música. O lance era artesanal. Você então pegava uma caneta Bic, girava um pouco da fita K7, e deixava um espaço entre essa música e a próxima. Mas arte mesmo era gravar a última. Tinha que torcer para caber. Se não desse, ficava com música pela metade mesmo. Aí repetia todo o processo para encher o outro lado, e novamente tudo igual para os dois lados da segunda fita. Trampo, hein!
Obviamente que essas fitas se perderam, não estão mais comigo. Mas até que caminharam um tempinho razoável, quem sabe uns 2, 3 ou 4 anos. Então apareceram os CD´s, numa primeira onda de mudanças no modo como consumíamos música. As fitas K-7 resistiam. Até que os computadores se popularizaram, com seus drives e os CDs graváveis. Depois os regraváveis. Depois mp3, Napster, Torrent, Streaming. E o século 21 concluiu o sepultamento das antigas tecnologias. Ainda há entusiastas do vinil, por ouvir dizer, mas não estou entre eles. Alguns que eu tinha, também sequer tenho ideia de onde foram parar.
Abandonei os Guns n´ Roses? Não totalmente. Vez em quando ainda ouvia. Casou que em 92 teve o segundo Rock n´ Rio, e muita banda famosa da gringa veio ao Brasil. Os Guns estavam lá. Como eu conhecesse todas principais músicas, ficava mais interessante assistir às transmissões ao vivo na Globo. O rock já não assustava tanto, nem na casa do pastor. Ainda hoje é uma das bandas que ouço, e as músicas mais conhecidas – coincidentemente algumas que estavam naquela fita maluca “Lado A Rock / Labo B Sertanejo” – são as minhas favoritas. Das levadas, certamente Sweet Child O´ Mine e Paradise City, que eu canto bem alto no chuveiro, com meu inglês tabajara; das tranquilas, Patience e November Rain. Ow, músicas bonitas... A gente ligava na Cianorte FM pra pedir músicas e oferecer para as meninas que éramos fãs, numa remota esperança de que iriam ouvir.
Acordei lembrando dessas histórias hoje, e muitas que se seguiram, que foram pouco a pouco moldando meu gosto musical e me trazendo as bandas e os estilos que hoje compõem minha playlist. Ouvi muitas músicas o dia todo, dezenas, dessas do baú. Até alguns clipes. Facilidades destes nossos tempos de Spotify, Youtube e outros serviços de streaming. E eu quero lá alguma coisa com fita K-7? Que nada!!!
O Escrito de hoje, apenas uma sessão nostalgia. Provavelmente, leitura silenciosa aí do seu lado da tela, lendo nomes de bandas que nunca tinha ouvido falar. Mas do lado de cá, músicas rolando no player e lembranças de 3 décadas de relacionamento com o bom e velho Rock.
DICA: Diariamente eu releio pelo menos um desses escritos. Sempre rola um ajuste no texto, acréscimo ou supressão; eles estão em permanente construção. Então, caso tenha lido algum anterior e resolva reler, pode ser que note diferenças. Neste aqui já deixo a bola cantada: ao longo da semana vou listando algumas das minhas músicas favoritas de Rock Cristão.
Petra: Beyond Belief, I Am on the Rock, Love
Bride: Psichedelic Super Jesus, Heroes
Whitecross: In the Kingdom, Holy War
Stryper: To Hell with the Devil
Oficina G3: Naves Imperiais, Espelhos Mágicos
Resgate: Daniel, Palavras, 5:50, Leve Fardo, Doutores da Lei
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