Ouvindo a tua voz, tão doce
Eu poderia ficar a vida inteira
Ao som das tuas palavras
Nem só de pão o homem viverá
Mas da palavra que sai da tua boca
Eu poderia ficar a vida inteira
Ouvindo a tua
voz, tão doce
Eu poderia
ficar a vida inteira
Ao som das tuas palavras
Como uma lâmpada para os meus pés
E como luz
no meu caminho
As tuas
palavras
Que
alimentam
O meu
interior
Eu poderia
fica a vida inteira
Ouvindo a tua voz, tão doce, tão doce, tão doce
Palavras. Banda Resgate. Álbum On The Rock (1995). Compositor Zé Bruno.
A música favorita, do álbum favorito, da minha banda nacional favorita. Aquele riff inicial de guitarra inconfundível, que informa no primeiro acorde ser “aquela”. Voz e guitarra, apenas elas, nos exatos primeiros 60 segundos. Então entram batera e contrabaixo, numa levada de muito bom gosto. Que música linda, melódica, cheia de variações. Coisa de quem sabe fazer. Fino som.
E a letra. Ah, a letra. Uma letra que exalta a Palavra do Senhor, a voz tão doce do Senhor. Palavra que eu amo. Historinha de amor que começou quando eu tinha 15 para 16 anos de idade. Foi assim.
Encontrava-me no culto em nossa igreja, com a Bíblia em mão. Meu pai pregando o sermão daquela noite. Àquela altura da vida, adolescente, eu tinha lido alguns livros inteiros da Bíblia. Certamente Atos, Jonas e Daniel, porque havíamos participado uns anos antes de uma competição de perguntas e respostas. Novíssima juventude da igreja, com 10, 11 anos de idade, envolvida nessas atividades tão positivas. Praticamente decoramos os livros inteiros, todos os detalhes. E justo a menor igreja do presbitério, aquela com menos membros, venceu a gincana. Individualmente, contribuí bastante naquela ocasião. Tempos em que eu ainda tinha uma boa memória. Hoje não consigo decorar quase nada, de coisa alguma. Minha memória é bem estranha; eu lembro de tudo, mas não decoro nada. Uma hora eu explico melhor essa bagunça.
Enfim, eu conhecia algumas coisas da Palavra. As histórias clássicas, os personagens, um ou outro versículos de cor. Um dos primeiros que gravei está na letra da música acima: “Lâmpada para os meus pés é a Tua Palavra, e Luz para o meu caminho” (Salmo 119:105). Estava a brincar na praça central de Pirapozinho, pouco mais de 30 anos trás, quando de repente me deparei com uma daquelas placas de bronze, que normalmente estão ali como marcos de inauguração, com nomes de prefeito, vereadores e outras autoridades. Acho que tinha uma dessas também, mas a que me refiro só continha o texto bíblico. Parei em frente, li o texto, li a referência, e nunca mais me esqueci. Todas as vezes que leio, ouço ou penso em Salmo 119:105, automaticamente minha memória carrega a imagem daquele dia na pracinha.
Com os 10-11 de então, eu não imaginava o que viria pela frente, o quão intenso seria meu relacionamento com a Palavra de Deus. Uns poucos anos se passaram, e lá estava eu no culto (Cianorte), com uma Bíblia em mão, viajando nas ideias. Abri em Gênesis, li os primeiros versos do capítulo 1. Pulei para o 50, li os últimos. Passei para Êxodo, fiz o mesmo nos capítulos 1 e 40. Idem para Levítico no 1 e no 27. Até que enfim cheguei aos versos finais do capítulo 22 de Apocalipse. Corri os 66 livros, num pequeno passeio durante o culto. Pensei: “se alguém me perguntar se já li a Bíblia inteira, não poderei responder que sim, mas agora posso falar que já li alguns trechos de todos os livros que a compõem”. Garotos se pensando espertos.
Terminou a reunião, fomos para casa, e naquela mesma noite eu decidi começar uma leitura completa das Sagradas Escrituras. O pequeno pensamento “li alguns trechos de todos” foi seguido de um impulso para preencher os “vãos” existentes em cada um dos 66 livros; descobrir o que de tão especial haveria naqueles muitos versos existentes entre os primeiros e os últimos, muitos dos quais eu tinha lido pela primeira vez naquela noite. Aliás, muitos livros da Bíblia eu só conhecia os nomes. Até ali, não tinha a menor ideia de seus temas. Quinze anos dentro da igreja... Bateu um senso de “Isso não está certo. Eu preciso conhecer”.
Fiz o básico e o óbvio naquela noite. Peguei uma “bibliona” do meu pai, abri em Gênesis e comecei a ler. Um verso após o outro, vários capítulos, até cansar. Repete-se o processo no dia seguinte, e no próximo. Uma rotina lenta e cumulativa, na qual não pode haver ansiedade. Somente assim você encara um “tijolo” de 1000 a 2000 páginas. Sim, o tamanho varia bastante, a depender da letra, se o texto é seco ou com muitas notas explicativas, e outras variáveis. Eu possuo 13 diferentes em casa, meio que compondo uma coleção na minha biblioteca.
Segui firme no processo e realmente dispus-me a fazê-lo todos os dias, sem falhar, até finalmente concluir. Levei muito a sério, ao ponto de antecipar meu retorno para casa, muitas vezes deixando de fazer algo divertido, porque já estava ficando tarde e eu não tinha lido a Bíblia naquele dia. Ou seja, aos 15-16 anos eu já tinha manias e sistemas, e a disciplina que me caracteriza ainda hoje. Com o tempo vamos nos tornando mais quem somos. O tempo não nos muda; pelo contrário, ele nos acentua.
Os meses se passaram, chegou dezembro, e logo estávamos em Iepê, interior de São Paulo, pequena cidade onde meus avós moravam. Trinta anos atrás, como ainda hoje, é tradicional nossa família reunir-se por lá. Não apenas o núcleo próximo, com meus avós, seus 5 filhos, respectivos cônjuges e a netaiada, como também muitos amigos da família que passavam por lá nos finais de ano. Vinham também vários outros familiares, dos núcleos dos irmãos e irmãs da minha avó Laurinda. Um deles, tio Cyro, nunca falhava. Todos os anos ele vinha estar um ou dois dias conosco. Também pastor, mas de uma grande igreja em Limeira/SP, ele chamava um dos irmãos para dirigir o veículo e logo chegava. Normalmente trazia pernil de carneiro ou leitoa para um gostoso almoço. E como ele comia!!! Dava gosto de ver. Magro, calvo como eu sou hoje, voz um pouco anasalada. Um típico Pereira do Lago. Um grande homem.
A certa altura daqueles dois dias que passou conosco no sítio, tio Cyro me percebeu na rede, lendo a Bíblia. Ele foi até mim.
- Você já leu a Bíblia toda, Fernando?
- Li sim,
tio. Terminei minha primeira leitura há poucos dias. Comecei em meados de
1993 e concluí agora, dezembro de 94.
- Que
maravilha! E como você fez?
- Ah,
comecei por Gênesis e fui lendo na ordem.
- Legal,
mas tem um outro jeito muito bom também. Vou pegar para você um cartão de
leitura que utilizamos lá em Limeira. Você lê na base de 3 capítulos por dia,
sendo normalmente 2 do Antigo e 1 do Novo testamento. Poucos minutos por dia.
Se não falhar, conclui em 1 ano.
- Legal, tio. Eu quero sim.
Ele foi até seu carro, retornando com o tal cartão de leitura e uma Bíblia novinha em suas mãos.
- Que bom que você concluiu sua primeira leitura “capa a capa” da Palavra de Deus. Se você se comprometer a continuar lendo, a fazer sua próxima no meu plano do cartão, vou te dar de presente esta Bíblia aqui. Ela tem uma tradução chamada “contemporânea”, difere um pouco das tradicionais. Se se comprometer, ela é sua.
- Claro,
tio. Aceito e comprometo-me. Farei minha segunda leitura nela.
- Compromisso é compromisso, heim.
Assim chegou à minhas mãos, no dia 8 de janeiro de 1995, a Bíblia cuja imagem ilustra este escrito. Com a preciosa dedicatória do meu tio Cyro Pereira do Lago, já falecido. Um grande homem de Deus. Dentre os muitos legados que deixou, está o de ter feito e incentivado milhares de leitores da Palavra, juntamente com sua esposa, também pastora, tia Ozaide. Eu, seu sobrinho, sou um dos frutos dessa sua obsessão por ver o povo de Deus em permanente contato com a Bíblia. Embora eu já tivesse sentido esse impulso e essa necessidade, antes daquele encontro com ele no sítio, seu estímulo e o presente que me deu, foram importantes no meu processo pessoal. Gerou disciplina. A primeira Bíblia da minha coleção. Hoje treze, das mais variadas traduções, com seus variados suplementos e recursos para estudo. Foco numa por vez. Leio tudo. O texto sagrado, claro, mas também cada comentário, cada notinha de rodapé. Tudo.
Li a Bíblia muitas vezes, como se pode imaginar. Nas várias versões. Mais de uma vez no ano. Cheguei a ler em voz alta, inteirinha. Ordem cronológica. Trás pra frente. E outras variações que a criatividade inventou.
“Não cansa, Fer? Não chega uma hora em que tudo se repete?” Respondo tranquilamente que não, de forma alguma. Como também diz a letra da música, são palavras que alimentam o interior. Assim como comemos todos os dias, e precisaremos comer um pouco mais no outro, e no outro, sob pena de definhar e morrer, ocorre o mesmo com o alimento Palavra de Deus. Não tem como comer de uma vez por todas, ou imaginar-se saciado o suficiente para o resto da vida. Cada dia tem sua porção. Às vezes é bem simples, como “arroz com feijão, salada e carne”; noutras vezes é banquete; feijoada; rodízio japa; tem até brigadeiro de colher, pudim... Ela contém todos os sabores, nutrientes, cores, fibras e gorduras que meu interior precisa. A Palavra é completa.
Eu a como todos os dias, e continuarei a fazê-lo até o final da minha vida. Não mais como em outros tempos, de juventude, anotando o recorde de leitura em menos meses, ou contabilizando quantas “capa a capa” concluídas, e coisas assim, que para nada servem. Aliás, hoje eu nem sei quantas vezes a li completa. Porque pouco importa, como pouco importaria saber quantos almoços ou jantas comi na vida. Importa é que esse alimento todo – natural ou espiritual – manteve-me vivo até aqui. Cada dia com sua porção. É só continuar comendo... para viver.
Ah, e o melhor de tudo: você pode comer muito, que não engorda! (...) Bem, isso vale para o alimento espiritual. No natural, já não garanto. Aí é entre você e a balança.
O importante é não deixar de se alimentar
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