O processo criativo de um texto é muito interessante. Por vezes, começo com a ideia toda desenvolvida na mente, introdução, meio e fim, ilustrações... a escrita vai fluindo, fluindo, mas não tenho a menor ideia de um título para aquele escrito. Nesses casos, dá mais trabalho encontrar o título certo, do que desenvolver o texto em si. Não raro, na última revisão eu acrescento um pequeno detalhe, e dali sai a “manchete”, o bendito título que ficará gravado na mente dos leitores. Assim foi com o 002 LET´S DANCE, 005 SEXTOU, 007 SEMPRE SÓBRIO, 020 O JARDIM QUE EU NÃO CONHECI, 028 AS TRÊS VISÕES, e certamente mais alguns.
Noutros, como neste escrito 035, bem como no 003 RECOMEÇAR, 009 DESEJOS À VISTA, 013 AS OPINIÕES DOS OUTROS, 021 TODAS AS COROAS, e outros, o ponto de partida foi justamente a manchete, e a partir dela se desenrola todo o novelo. Não sei onde vai dar, o que vai sair dali, então vou escrevendo, tateando, para de repente “encontrar” algo pronto. Um texto nasceu. E sabe, sendo bem franco, eu gosto muito quando é assim. Rola um tipo de improviso. Eu, que via de regra sou organizado e reúno previamente os recursos para as coisas que me proponho fazer, acho interessante essa sensação de pisar no escuro quando escrevo. Hoje será assim. Escrevi dois parágrafos e não tenho a menor ideia do que tem pela frente. Bora descobrir?
A Insustentável Beleza do Ser. A inspiração para o título, claro, veio do livro do Milan Kundera. Li recentemente, embora a obra esteja disponível para o grande público há muito tempo. Um filme também foi gravado. Nem um nem outro são aqueeeela maravilha. O filme, fraquinho até. O livro, bonzinho. E como sabemos, assim como em “bonitinho”, tudo que termina com “inho” é apenas legalzinho. Nada extraordinário. Mas o título... ah, o título. O cara soube escolher um título. Ele chama mais a atenção do que a obra em si. Talvez até por isso tenha alcançado tamanha fama.
Quem sabe este escrito 035 tenha igual destino. Vou me esforçar para que não, para que seu conteúdo supere o bom título. Se não der, tudo bem. Enquanto isso, enquanto não escrevo nada substancial, sigo aqui te enrolando. Pronto. Parei.
Disse algo no escrito 031 REFÚGIO MENTAL, que tem alguma ligação com a beleza: “Nosso mundo interior é alimentado pelos 5 sentidos. Eles se constituem em canais de ligação entre o externo e o interno. Dois deles tem maior relevância: VISÃO e AUDIÇÃO. Os três restantes (tato, olfato e paladar), embora existentes e importantes, acabam tendo um papel secundário no dia a dia”.
Vejamos.
Algo que você toca e que te agrada a sensação nas mãos, normalmente será descrito como GOSTOSO, MACIO;
Algo que você cheira e que te agrada o aroma nas narinas, normalmente será descrito como GOSTOSO, CHEIROSO;
Algo que você come e te agrada o paladar, normalmente será descrito como GOSTOSO, SABOROSO.
Estes três, que já noutro dia considerei menos relevantes na alimentação do nosso interior, dificilmente associaríamos ao belo. Um toque tende mais a ser gostoso do que bonito. Idem com cheiros e gostos.
Agora, algo que você ouve e te agrada o som nos ouvidos, aí sim poderemos caminhar para uma classificação do tipo BONITO. Um som bonito. Um som gostoso e bonito.
Mas o ápice mesmo, o que se destaca totalmente neste tipo de descrição, é o que captamos pela visão. Descrever como BONITO ou FEIO, algo que vemos, é natural como respirar. Mesmo uma criança pequena, antes de saber falar, muito antes de ser condicionada pelos adultos a achar bonito algum padrão de beleza, parece conseguir distinguir o belo e o feio. Estou especulando. Não estudei isso. São impressões e observações. Tudo isso para dizer que acredito existirem formatos e padrões que são apreendidos quase unanimemente como belos, e outros como feios. Os especialistas devem ter muitos estudos sobre isso.
Pois bem. Mas saindo dos extremos, das formas e padrões “TOP BEAUTIFUL” e “TOP UGLY”, mencionados acima, o que existe entre esses polos é muito variado. Assim, entre o extremamente feio e o extremamente belo, há muita margem para dissensos. Reparem que tudo que foi dito até o momento é absolutamente genérico, desvinculado de qualquer objeto ou ser específico. Tudo muito conceitual. Abstrato.
Bem, para linkar com o título estiloso, vamos tomar as PESSOAS como objeto do nosso experimento reflexivo e enrolativo (sim, ainda estou escrevendo e te enrolando). Poderíamos falar de objetos de decoração, automóveis, casas, e tantas outras coisas que podem ser horrorosas, lindíssimas, ou estarem no meio termo. Mas vamos falar de pessoas.
O que falar sobre a beleza ou não-beleza das pessoas?
De plano, necessário lembrar o óbvio: que temos um aspecto interior (espírito e alma) e um aspecto exterior (corpo). Portanto, tomada na plenitude de seu ser, todo ser tem esses dois lados. O fato de o lado interno ter duas partes não será aprofundado hoje, bastando o registro desta notícia. Falaremos noutra oportunidade.
Ainda sobre obviedades, é notório que nosso mundo valoriza extremamente mais o aspecto exterior do ser. O belo, o exteriormente belo recebe maior atenção.
É fenômeno recente? Penso que não. As artes visuais, bem como a escrita de milênios passados, enfocam a beleza humana. A figura que escolhi para a publicação deste escrito – Nefertiti, nascida há aproximadamente 3400 anos – parece-me bela hoje, e acredito tenha sido percebida como bela pelos povos ao longo desses muitos séculos. Ela seria, a meu ver, um exemplo daquilo que disse mais acima, um tipo de beleza quase unanimemente percebida como tal. Eu, particularmente, considero seus traços perfeitos. Certamente há quem não os veja tão dramaticamente lindos, mas provavelmente não feios. Quem sabe um ou outro chegariam a tanto. Penso que bem poucos. Temos nossas predileções, afinal.
Mas e hoje, saltando 34 séculos no tempo, como está a questão da beleza do ser? Indo direto ao ponto, penso que as coisas estão extremamente desequilibradas. A beleza interior num cantinho secundário. A exterior sendo buscada como nunca. Loucamente. Até irresponsavelmente, nalguns casos. Imagem virou tudo, para muitos. “Aaaah, lá vem o careca feio defendendo a beleza interior. Se fosse bonitão, estava é achando ótimo”. Trata-se disso não, rs. Predileções, lembra? Sempre haverá alguém para achar bonito um careca magrelo. Nem que seja a mãe dele.
Ser bonito exteriormente, por si, não é um problema. Pelo contrário, parece ser algo bom e desejável. Não vejo neste desejo um problema por si. Mas pode tornar-se problemático, quando uma dessas coisa acontece:
1. Ser belo apenas exteriormente, sem a menor preocupação com o lado interior; e
2. Ser belo exteriormente, não conseguir enxergar isso, e mexer no que está bom.
Eu, o careca magrelo, que a mãe e (talvez) uma ou outra moça achem bonito, depois de aproximadamente 25 anos convivendo com a “pouca telha”, resolvi mexer no que tá quieto. Percebi que me agradavam mais as fotos com boné ou capacete de ciclismo, mais do que as fotos com testão à mostra. Charme? Pode até ser, mas acho que esse negócio de calvície ser charme é migué. Não noto muitos homens a desejando, para aumentarem seu charme. Resolvi trocar uns fios de endereço. Reuni os recursos e em breve vou eliminar o tal charme. Prefiro um topetinho ralo do que uma porção de charme. Quem viver, verá.
Seria o meu caso um exemplo de busca errada pelo belo? Acredito que não. Porque dos dois problemas que vejo nesta área, não consegui me enxergar em nenhum deles. Primeiro, porque me preocupo imensamente mais com o desenvolvimento de uma beleza interior; segundo, porque não estou num processo amalucado de procedimento em cima de procedimento, na busca de um padrão que tentam me impor. Pelo contrário. Eu gosto da minha aparência. Ela nunca foi um problema, algo que me deixasse mal comigo mesmo. Decidi mexer, por ser um procedimento bastante tranquilo, seguro, e que me proporcionará uma mudança interessante, uma versão diferente, que não é vista há um quarto de século. Eu ficava bem com cabelo, no início da juventude. Creio que fiquei bem com menos fios, no prosseguimento da juventude e chegada à maturidade. E creio que ficarei bem novamente agora, na casa dos “enta”, com os cabelos redistribuídos.
Simples assim. Sem neura, sem crise, sem autoimagem distorcida, narcisismo ou coisas do tipo. Apenas acho que ficará legal. Diferente, com certeza. Mudar é bom.
Minha sobrinha de 14 anos disse que vai rir quando me vir com cabelo, rs. Eu achei graça. Porque não vejo as pessoas rindo de quem coloca facetas nos dentes, próteses de silicone, quando mudam completamente seus narizes, ou espetam um canículo para chupar gordura da pança. Mas um pobre e magrelo careca precisa ver risos quando muda uns 4000 folículos de endereço? Aaaah, Sarinha. Titio vai ficar top, rs.
Como disse no escrito 028 AS TRÊS VISÕES, por ocasião do meu aniversário de 44 anos, “Eu gosto de completar aniversário. Gosto também de estar envelhecendo”. O passar dos anos me trouxe novo olhar sobre o belo. Muito por eu ter mudado, claro. Mas muito mais por ter aprendido a ver a beleza da maturidade e da velhice. Aliás, uma das mulheres que considero mais lindas no mundo é minha vizinha de apartamento. Dona Conceição, uma senhora que já deve contar mais de 80 anos. Com seus cabelos branquinhos e lindos olhos azuis, vejo nela uma beleza ímpar. Além de toda a educação, polidez, gentileza que a caracterizam, certamente frutos da ainda mais bela beleza interior que há em seu ser. Beleza integral.
Olhando para trás, mas sem dar pistas específicas sobre quem, em quantos relacionamentos eu dei uma desanimada quando percebi pequenos detalhes estéticos que não me agradavam tanto. Mesmo em moças belíssimas interiormente. Para minha vergonha, houve situações em que esses “pequenos detalhes” me levaram a romper, partir para uma próxima, mais perfeitinha. Jovem costuma ser bem burro, ainda mais quando o hemisfério Sul fica dominante sobre o Norte. Péssimas decisões. Desistência de algo com grande potencial, por causa de uma medida maior aqui, uma flacidez ali. Sim, jovem é muito burro quando olha demais para isso. Bem, eu fui. Várias vezes.
Até que você finalmente amadurece. E maduro, continua apreciando o belo. Mas agora um belo integral. Rostinhos angelicais e sorrisos de porcelana não te fisgam cegamente como antes. Continuam sendo lindos? Claro que sim. Mas não bastam. As silhuetas aviolonadas continuam desejáveis? Sem dúvida. Mas o violão precisa ter bons sons também, melodias, harmonias, conteúdo. Não mais apenas as curvas que antes – só elas – importavam tanto. Beleza integral.
A insustentabilidade da beleza só existirá, em tese, no lado externo. E mais: existirá se incorrermos no erro de acreditar que a beleza ideal está naquela faixa áurea dos 16 aos 20 e poucos anos de idade, tomada de rostos e corpos de atores e atrizes "perfeitos", cuja vida é malhar, comer certinho e fazer todos os tratamentos disponíveis. Vidas e rotinas diferentes das "pessoas comuns". Padrões que acorrentam e fazem sofrer. É necessário libertar-se disso.
Há beleza exterior em todas as fases. As crianças e pré-adoles sofrem desnecessariamente, tentando antecipar um processo de amadurecimento físico que tem seu tempo natural para acontecer. Meninas pequenas, mimetizando padrões de mulheres feitas, sofrendo por não enxergarem a beleza de sua fase atual de criança. Pessoas maduras, semelhantemente, tentando a todo custo manter-se com aparência de décadas atrás, como se apenas nos 20 ou 30 pudesse haver beleza. Sim, tem beleza lá. Tem também nos 40, 50... 80 ou mais. Como disse, uma das mulheres mais lindas que conheço, tem idade para ser minha avó. Porque linda ela sempre foi. O que mudou foram meus olhos, que passaram a ver e a entender essa multiplicidade de beleza. O padrão 20-30 é insustentável. Libertemo-nos! Aceitemo-nos.
De forma alguma eu sugiro desleixo. É bom cuidar-se. Primariamente, pela saúde; mas se alguma beleza estética vier como bônus desses cuidados, que bom. Vamos mudar. Inexoravelmente, vamos mudar. Entender e aceitar isso também é libertador. Neste tema, não tenho como não lembrar da querida e saudosa vó Laurinda, que do alto dos seus muitos anos e muitos quilos, via-se - como de fato era - linda, uma princesa. Brincávamos com ela, dizendo que a vó tinha "síndrome de celebridade", porque estou para encontrar alguém que se gostasse como ela. Visão correta. Beleza integral.
Pra fechar, importante enfatizar que a beleza do lado de dentro não tem data de validade. Nela não rola insustentabilidade. É possível ser belo interiormente, tão belo como sempre. Mais que isso, é possível tornar-se mais e mais belo, justamente pelo acúmulo dos anos. E é mais simples, mais barato, sem procedimentos invasivos.
Era isso por hoje. Passeei por ideias variadas, puxando pensamentos aleatórios. Quem sabe algo de bom possa ser extraído. Se sim, valeu. Se não, pelo menos eu mandei bem no título.
Nenhum comentário:
Postar um comentário