Talvez a expressão “A CARNE É FRACA” já tenha sido utilizada por muitas pessoas com a conotação de ser apenas mais um dito popular. Na verdade, há um texto nas Escrituras que a menciona expressamente:
“Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; na verdade, o espírito está pronto, mas a carne é fraca”. (Mateus 26:41)
Dia de papo sério. Não um escrito teológico, propriamente dito, mas certamente com algumas pinceladas de teologia. Porque mesmo os leigos, os não diplomados, tem sim total liberdade para debruçar-se sobre a Palavra e buscar entendimento. Ela não é, de forma alguma, propriedade dos encastelados em suas formações teológicas, como se só a esses fosse dado entender as verdades eternas. Eu posso fazê-lo, e a própria Bíblia diz que sou muito feliz se o fizer:
“Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes tem seu prazer na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite. Pois será como árvore plantada junto a ribeiros de águas, a qual dá o seu fruto no seu tempo; as suas folhas não cairão, e tudo quanto fizer prosperará”. (Salmo 1:1-3)
É, amigão. É, amiguinha. Você pode! Aliás, como dito, você será muito feliz – o mesmo que bem-aventurado(a) – se o fizer. Não precisa ficar refém de interpretações dos outros. Embora “os outros” possam sim trazer excelentes compreensões sobre a Palavra, há também muitos problemas, equívocos; e o pior dos quadros: deturpações, omissões, corrupção intencional nalgumas análises. Por isso não abra mão de seu direito de buscar de forma direta, na fonte, aquilo que precisa saber do Senhor.
Mas voltemos ao tema...
E aí, a tal da carne é fraca mesmo?
Vamos a outros três textos:
“Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que quando quero fazer o bem, o mal está comigo”. (Romanos 7:18-21)
“Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; apaga as minhas transgressões, segundo a multidão das tuas misericórdias. Lava-me completamente da minha iniquidade, e purifica-me do meu pecado. Porque eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim. Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que é mau à tua vista, para que sejas justificado quando falares, e puro quando julgares. Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe”. (Salmo 51:1-5)
“Digo, porém: Andai em Espírito, e não cumprireis as concupiscências da carne. Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis”. (Gálatas 5:16-17)
O que eu
vejo nestes textos é a descrição de uma oposição essencial. Espírito e Carne
sempre se opondo, numa verdadeira batalha. E o grande problema está numa
palavrinha que aparece nos três textos: PECADO. Nos dois primeiros, expressamente.
No terceiro, facilmente compreendida em contexto.
PECADO. Aí está a chave do tema.
Há quem não suporte sequer a menção à palavra PECADO, por desejar um estilo de vida livre de dogmas, leis e amarras. A mentalidade progressista, essencialmente. “Nada é errado, se te faz feliz”. “Pecado? Sai fora! Eu pago minhas contas, vivo da forma que eu quiser”. “Pecado é coisa desses crentes radicais, uns recalcados que não sabem viver, e querem que todo mundo viva conforme suas regras”. E por aí vai. É fácil bater em crente por falar em pecado, e mais fácil ainda ganhar a multidão, com uma mensagem de “liberdade”, de “vale tudo”, desde que você não machuque ninguém. Discursinho fácil de abraçar. Temperado com enxofre.
Pois é, mas gostemos ou não, o pecado é uma realidade. E uma realidade tal que está impregnada na carne de cada ser humano que nasceu sobre a face dessa Terra. Mas não foi sempre assim.
É dito na Palavra, quando da criação do homem, que Deus o fez conforme à sua imagem (Gênesis 1:27), do pó da terra, sendo soprado em suas narinas o fôlego da vida; ele foi feito uma alva vivente (Gênesis 2:7).
Reparem, tudo isso num estado de perfeição. O aspecto físico em perfeição, e os aspectos imateriais (espírito e alma) em perfeição. Ao ver sua obra feita, a cada dia Deus foi dizendo que era bom, era bom, era bom... (só conferir no capítulo 1 de Gênesis), mas ao final, com tudo completo, e a última criação pronta – o homem feito à sua imagem, com espírito, alma e corpo – o Senhor falou algo mais: era MUITO BOM! (Gênesis 1:31).
Com este olhar, encontramos uma primeira verdade: a CARNE, em si, não é o problema. Ele nos fez de carne, e disse de nós que assim era muito bom. Quando eu era pequeno, e pensava nessas coisas, imaginava o Éden como um lugar mágico, meio que protegido por uma redoma, onde as coisas flutuavam, a matéria nem seria como a conhecemos hoje. Eu imaginava os primeiros pais como seres quase angelicais, não de carne e osso. E então, somente após o pecado, tudo teria sido transformado, inclusive a matéria. Só que não. Só que claro que não, porque não está dito assim na Palavra. As coisas materiais eram como as conhecemos hoje. O pecado trouxe sim, depois, corrupção, sendo inclusive dito que a Terra tornou-se maldita por causa do primeiro erro dos primeiros pais (Gênesis 4:17). As consequências vieram.
Mas até então, até aquele fatídico dia do primeiro pecado humano, não havia problema algum com a carne. Não se poderia dizer dela que era fraca. A carne que o Senhor nos dotou (nosso aspecto material) era uma das expressões da Sua imagem e semelhança, tanto quanto o eram os aspectos imateriais (espírito e alma). Ele disse que era muito bom! Ele não disse “espírito e alma são bons, mas a carne é fraca”. Naquele momento original, tudo era muito bom.
Um engano comum, que vez por outra eu ouço – e este é bem ridículo – é que o tal fruto proibido, a maçã que zoou a coisa toda – e a Bíblia nem diz que era maça – foi o sexo, e que a partir dele teria entrado a corrupção na carne. Bem, já disse que é ridículo. Basta ler os dois primeiros capítulos de Gênesis para “descobrir” que o “unir-se o homem à sua mulher” (ou seja, união sexual, de suas carnes) foi estabelecido e ordenado pelo próprio Senhor no estado original de perfeição, antes da queda. (Gênesis 2:24)
A queda, o primeiro pecado humano, a decisão que ferrou com tudo, não foi o sexo. Foi sim a DESOBEDIÊNCIA. Uma ordenança direta, clara, que nem dava margem para interpretações ou mal-entendidos. “Não coma desse fruto. Todos os demais vocês podem, mas esse não” (Gênesis 2:16-17)
Falamos, falamos, falamos. Colocamos vários textos. Agora bora amarrar tudo isso.
O que eu penso?
A carne é fraca! Sim, ela é fraca porque a Palavra assim o diz. Mas não apenas isso. Ela não foi criada fraca, mas sim em perfeição, e muito boa, recebendo o “selo MUITO BOM de qualidade”, que Deus colocou em toda a sua obra, ao final. O pecado foi o grande problema, trazendo corrupção à carne, a toda a carne nascida após aquele fatídico dia. Desde então, todos nós, eu e você, adultos, que certamente já pecamos algumas vezes, bem como aquela criança que acabou de nascer, a respeito de quem as pessoas dizem ser um anjinho, um ser perfeito e sem pecado, tem ela também a mesma carne que nós. Corrompida. Ela também, o bebezinho. Cedo ou tarde aquela pequena carne entrará em guerra com seu espírito, tentando vencer.
É assim mesmo. Não se assuste. Aquele bebê lindinho é tão pecador, em carne, quanto nós, que já fizemos tantas coisas feias. O que nos difere, e é apenas questão de tempo, é que o bebezinho não está na prática do pecado, mas sua natureza é tão caída quanto a nossa; carente da Graça, carente do Novo Nascimento, carente de tantas coisas que ela ainda não compreende. Afinal, eu e você fomos um dia aquele bebê lindinho, aparentemente sem pecado. Até que num outro dia as obras da carne se fizeram manifestas (Gálatas 5:19-21)
De certa forma, portanto, se por um lado é possível (e correto) afirmar que a carne é fraca, por outro é possível (e correto também) dizer que ela pode se tornar muito forte, a depender de nós. Se nos conformarmos com o famigerado “a carne é fraca”, utilizando-o como muleta para nossas quedas, caídos ficaremos. De pecado em pecado, cada vez piores. A chave está no já mencionado texto de Gálatas 5:16: “Andai em Espírito, e não cumprireis as concupiscências da carne”.
Pensamento positivo não resolve. Disciplina, idem. Clausura, tampouco. Algumas dessas ferramentas podem até ser úteis e interessantes, mas apenas como complemento, como condutas de prudência e sabedoria para não nos colocarmos em situações de risco, que poderiam abrir oportunidade para quedas. Mas a chave, a única coisa que realmente nos leva a prevalecer sobre o pecado, sobre a carne, é uma VIDA NO ESPÍRITO. Relacionamento com Deus. Intimidade. Oração. Sensibilidade às impressões que Ele vai derramando em nosso interior. Todo o mais se resumiria em performance humana, tentativas fatalmente frustradas pela nossa incapacidade de fazer o bem por nós mesmos. Porque nossa carne, sem Ele, hoje é fraca. Tornou-se fraca. E fraca será até o dia em que Ele nos der corpos glorificados, como sua Palavra também diz que acontecerá. Até lá, não confie em si mesmo. Não pise perto demais das linhas que você sabe (sim, sabe bem) serem perigosas para você.
Todo pecado é uma ofensa ao Senhor. Toda manifestação das obras da carne o entristecem. Inversamente, toda manifestação do Fruto do Espírito (Gálatas 5:22-24) coloca um sorriso em seu rosto. Lembra? Texto 029 O DEUS QUE SORRI. Sim, Ele se alegra e sorri quando vê a luta sendo vencida pelo Espírito sobre a Carne.
Que nunca, jamais, em hipótese alguma voltemos a utilizar a muleta do A CARNE É FRACA para sucumbirmos ao pecado. Não é assim. Tem que ter luta. Muita luta. Resistir até sangrar. Porque sacar do bolso um “a carne é fraca” para justificar nossos erros, é leitura incompleta do que a Palavra nos ensina. Em certo sentido, se a carne tem prevalecido, é porque na verdade ela está bem forte na luta. Cabe aquela velha alegoria dos dois cães de briga, na qual o dono sempre sabe qual será o vencedor: aquele que estiver melhor alimentado. Semelhantemente, rigorosamente igual, acontece na perene luta da carne contra o espírito.
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