Domingo próximo passado o São Paulo Futebol Clube sagrou-se campeão do Campeonato Paulista de Futebol, temporada 2021. O conhecido Paulistão. Para os paulistas e para a enorme torcida dos times paulistas, espalhada pelo Brasil, seria o campeonato estadual mais difícil do país. Claro que os cariocas discordam, assim como os mineiros e os gaúchos. Melhor dizendo, os gaúchos não apenas discordam. Eles têm certeza que o Gauchão é o campeonato mais difícil do mundo. E não estou dizendo à toa, especulando sem base. Eu morei lá, 1 ano e meio em Porto Alegre, e te digo que a gauchada tem mesmo esta convicção; no futebol e em muitas outas áreas. Mas tudo bem. Regra número 1 é não ficar discutindo com pessoas convictas demais.
Sou São-paulino, o que significa ser adepto ou torcedor do São Paulo Futebol Clube.
Curioso que sou, fiz algumas pesquisas para um Pequeno Glossários de Coisas Relacionadas a São Paulo. Além do SÃO-PAULINO – que se escreve com hífem – encontrei várias derivações: paulista, paulistano, paulistinha, paulistismo, paulistês, paulistense, paulistaniense, Paulistânia, paulistada... e tinha mais.
Eu sou filho de uma paulista, Dona Mírian. Minha família materna também é toda paulista, e ainda hoje a propriedade rural próxima ao Rio Paranapanema é meu link com o Estado mais rico do país. Todos os meses faço uma pequena visita ao pujante Estado de São Paulo. NON DUCOR, DUCO.
Eu morei no Estado de São Paulo por um curtíssimo período, nos anos de 1987-88. Cidade de Pirapozinho, próxima a Presidente Prudente. Alguns fatos importantes aconteceram em minha vida nesse período, coisas que cedo ou tarde serão abordadas nestes escritos. Um spoilerzinho: meu primeiro beijo, aos 10 anos de idade. Piá precoce, beijão de novela rs. Por essa época, eu tomei conhecimento da existência do futebol. Uns anos antes, na Copa de 1986 (México), uma foto minha e dos meus irmãos em frente à nossa casa em Cianorte, todos trajados com camisetas amarelas, é a mais remota ligação do futebol à minha história. Acho que nem acompanhamos aqueles jogos. Também por aqueles anos, já caminhando para o final dos 80, lembro-me vagamente de ter visto frações de jogos na TV que havia em nossa casa. Jogos do Paulistão. Também eram comuns as transmissões de jogos do Campeonato Carioca, então posso dizer que tive o privilégio de ver o Zico jogar. O Galinho de Ouro. Eu mal entendia o jogo, porque a regra de impedimento complicava tudo. Para mim, desde sempre, e ainda hoje, penso que não deveria ter impedimento. Deixa rolar! Haveria mais gols, tudo mais legal e vibrante.
Nos dois anos seguintes, 1989-90, quando morei em Cornélio Procópio, tive meus primeiros contatos com o futebol jogado. Passava horas toda a tarde no SESC, onde o pessoal ia chegando e logo dava time. Futsal. Para quem entrou nas 4 linhas pela primeira vez aos 12-13 anos, até que o fiasco não foi completo. Legal que no SESC tinha uns treinamentos, escolinha mesmo, onde a gente aprendia fundamentos. Mas eu não torcia para nenhum time, só jogava mesmo. E na real, minha atenção estava no vôlei, meu esporte principal. Treinava todos os dias, às vezes até duas sessões de treinos na mesma tarde. A triste lembrança futebolística desse período foi o gol do Caniggia, na Copa do Mundo. Eu aprendi em 1990 que perder para a Argentina é sempre mais amargo.
O ano de 1991 foi um marco importante na minha relação com o futebol. Voltamos a morar em Cianorte, e lá todo mundo tinha um time. A maioria, paulistas. Estudando na Escola Princesa Izabel, logo fiz amigos, e um deles virou brother mesmo: Maykon Christer Britta. Ele jogava futebol muito bem e era um fanático torcedor do São Paulo. Creio que nele encontro a influência que me levou a também escolher este time. O cara tinha camisas e mais camisas do Tricolor, boné, caderno do SPFC, e tudo mais. Não existe uma foto minha de bebê com coisas do São Paulo, também não foi meu pai quem disse para que time eu deveria torcer. Nada disso. Eu escolhi meu time. Eu passei a me identificar como torcedor do São Paulo, e o fiz pelo começo daquele ano, sem imaginar o que viria pela frente.
Em 1991 o Tricolor sagrou-se Campeão Brasileiro. “Caraca, escolhi do time certo!!!”, pensei. Foi demais toda a zoeira em cima dos rivais santistas, palmeirenses e corintianos. A famosa resenha, uma das partes mais legais desse universo de futebol. Quanto mais bravos os caras ficavam, mais zoeira. Esta é a regra. Se incomoda, é ali que a gente mais bate a tecla. Só que tudo de boas, sem brigas. A hora deles zoarem um dia iria chegar. Em 1991 era a nossa.
Vieram 1992-93 e, como todo são-paulino sabe muito bem, foram anos mágicos. Bi-Libertadores e Bi-Mundial. Se 91 tinha sido top, a gente mal imaginava que no biênio seguinte chegaríamos ao TOP (com maiúsculas). Ficamos insuportavelmente campeões, e zoeiros, e metidos e chatos. Os amigos torcedores dos outros times vinham com alguma tentativa de tirar onda, e só soltávamos um “Xiu! Bi-Libertadores! Bi-Mundial!”, “Ganhe 2 Mundiais primeiro, aí volte pra falar comigo”. Foi o auge da resenha. E assim foram vividos aqueles anos da minha segunda fase em Cianorte, futebolisticamente falando. Ah, em termos de futebol jogado, naquele período eu me dividia entre o vôlei e a bola nos pés, chegando a participar de jogos escolares nas fases municipal, regional e estadual. Tempinho bom.
O período vivido em Cascavel (1994-95) foi totalmente dedicado aos estudos, pois aproximava-se a conclusão do Segundo Grau e os desafios do Exame Vestibular. Mas isto não me afastou por completo do futebol. Nossa casa ficava no quintal de uma escola onde minha mãe era diretora, tendo a 10 metros de casa uma quadra poliesportiva. Eu, meu irmão e alguns amigos da igreja usávamos bastante. E o lance dos times que torcíamos, a resenha e tudo mais, sempre rolando. “Bi-Libertadores! Bi-Mundial!” continuava sendo o super-trunfo imbatível nas discussões.
E assim se passaram meus primeiros 5 anos com um time para torcer. O glorioso São Paulo Futebol Clube, até então Tri-Campeão Brasileiro, Bi-Libertadores e Bi-Mundial, fora todos os títulos menos expressivos. Éramos mesmo insuportavelmente campeões.
O ano de 1996 marcou minha chegada a Maringá, para iniciar os estudos em Direito na UEM. Logo me enturmei com o pessoal da igreja. Todo mundo tinha time. Todo mundo zoava e era zoado. Porque o povo de Deus também gosta de futebol. Mais legal ainda era o fato de a igreja possuir uma bela chácara nas proximidades da divisa entre Maringá e Paiçandu, com um excelente campo de futebol suíço. Ali foram anos e anos me reunindo com meus amigos, todas as tardes de sábado, para jogos, conversas, amizade. O lado bom do futebol. Nunca me envolvi ou presenciei brigas feias naquele lugar, o que é raro. Uma ou outra discussão, ok. Futebol é um jogo de contato, ora ou outra rola um entrevero leve. Mas jamais uma agressão efetiva, um soco, uma pancadaria geral. Sim, houve situações críticas onde a coisa quase foi pro espaço, mas felizmente ficou no quase.
O Tricolor não vinha ganhando nada relevante há um bom tempo. Ainda assim continuávamos nos sustentando no “Bi-Libertadores! Bi-Mundial”, já meio amarelado, mas ainda imponente. Era o argumento que ninguém conseguia contrapor. Quisessem zoar os são-paulinos, teriam que no mínimo fazer igual, quiçá superar. Mas ninguém estava com esta perspectiva tão próxima no horizonte, o que nos deixava tranquilos de jamais sofrermos o revide.
Por aquela época, meados da década de 90, o futebol mundial começava a passar por mudanças importantes, trazendo os primeiros traços do que temos hoje. Logo após a Copa do Mundo de 1994, que consagrou o Brasil Tetra, surgiram os jogadores-astros. Salários milionários. Publicidade forte. Tudo ganhou dimensões nunca antes imaginadas pelas gerações anteriores. Não olhando hoje, em retrospecto, mas já naquela época eu via esse movimento com um olhar desconfiado. Não me parecia completamente correto um cara receber fortunas para jogar seu futebol. Desonesto não era. Sei lá, eu achava estranho.
Segui jogando meu futebol todos os finais de semana, ao que se somaram mais jogos duas ou três vezes no meio da semana, quando me associei a um clube da cidade. Novos amigos, novos campos, amistosos, torneios. Conheci, enfim, um futebol mais “pegado”, onde a coisa não era brincadeira. Eu nunca me envolvi, mas presenciei brigas feias, de dois ou mais caras se engalfinhando na pancadaria. O lado ruim do futebol.
Bem, eu nunca me envolvi, mas foi quase. Por muito, muito pouco não fui eu um dos atores em algumas dessas brigas. O fato de eu não ser violento, e nunca em todas as centenas de jogos que participei até hoje, jamais ter dado uma pancada por trás, ou por frente, ou buscado uma confusão deliberadamente, ajudou a manter-me longe dos entreveros. Nunca fui visto como um jogador encrenqueiro. Pelo contrário, um cara leal e correto dentro de campo. Nem de longe um craque, nem de longe. Um jogador razoável, esforçado, que quase sempre corria mais do que todos, embora com grandes lacunas técnicas. Na boa condição atlética eu chamava a atenção e conseguia meu espaço.
E o “Bi-Libertadores! Bi-Mundial” sempre e sempre funcionando, calando a todos.
Até que chegou um tempo em que eu comecei a me incomodar com algo. Como disse, nunca fui violento, dentro ou fora de campo. Aliás, sou complemente anti-violência. Julgo ser o último recurso, em situações extremas, ter que colocar as mãos em alguém. Na defesa da integridade física, minha ou de quem precise. Partir para uma agressão, jamais. “Aaah, Fer. Depende da ofensa. E se o cara bateu primeiro? Não tenho sangue de barata”. Claro que depende. Ter sido atingido primeiro não foi sua escolha. Dar o revide é sua escolha. Depende de você o que vai rolar, ou não. Até este momento da minha vida (hoje, 2021) – e os anos já se acumulam – eu contive todos os ímpetos de revide que me ocorreram. Jamais agredi fisicamente a alguém, e jamais fui agredido. Semeadura pacífica, vida pacífica.
Comecei a me incomodar com as alterações que o futebol provocava em mim. Embora eu nunca brigasse, a coisa parecia estar mais e mais perto de um dia ocorrer. Bate-bocas, gritos com alguém, aquela vontade de dar uma voadora no meio. Tudo contido, mas até quando? A gota d´água foi num amistoso pouco amistoso, onde a disputa estava acirrada e as caixas de ferramentas foram abertas por ambos os lados. Muitas faltas duras, provocações, cotoveladas. Recebi várias, mas não revidava. Só que a coisa foi se acumulando, acumulando, até que explodi. Basicamente parei o jogo e chamei o outro time inteiro pra briga, totalmente transtornado. Mas não truquei no facão, não. Eu chamei mesmo! Se viessem, eu iria pra cima. Claro que apanharia, pois valentia não cria braços e pernas extras, e muito menos potencializa as forças dos míseros pares que tenho. Não sei se por me acharem maluco, ou por terem percebido que aquele campo tinha se transformado num barril prestes a explodir, o jogo acabou. Pior de tudo, amistoso entre duas turmas de igrejas, dando lá seus vexames e mau testemunho.
Aquele fato, que não foi isolado, me levou a repensar as coisas. Eu me dei conta do que me deixava potencialmente violento: TRÂNSITO E FUTEBOL. Com o primeiro eu pouco poderia fazer, pois precisava seguidamente estar no trânsito. O jeito era buscar mais domínio próprio, não perder a calma por pouca coisa. Já o segundo era mais fácil resolver. Num processo gradual, passei a me envolver menos com futebol, amistosos, torneios, esses ambientes potencialmente violentos. Fiquei no meu futebolzinho de fim de semana, aquela galera de sempre, que se reunia desde que cheguei a Maringá em 1996. Estávamos então pelos anos de 2008-09. E o que tinha acontecido com meu São Paulo a essa altura?
“Xiiiiiu!!! Tri-Libertadores! Tri-Mundial! Hexa-Brasileiro!”. Os São-paulinos tinham saído da fila e vivido os mágicos anos de 2005, 2006, 2007 e 2008, agregando à sala de troféus uma sequência de títulos muito importantes, tornando-nos ainda mais terrível e insuportavelmente campeões. Coitados dos rivais. Os enferrujados “Bi e Tri” se transformaram em “Tri e Hexa”, para desespero geral dos demais. Era muito legal... para nós, rs. Nada obstante, eu vinha jogando menos bola e pouco a pouco perdendo o interesse. Nesses anos todos praticando futebol, eu nunca havia me machucado. Zero lesão. Nenhum entorse, distensão, câimbras, fratura. Nada. Coisa rara.
De meados de 2009 a meados de 2010 estive fora de Maringá, a serviço do Conselho Nacional de Justiça por vários lugares do Brasil. A única atividade física que consegui manter no período, regulamente, foi a corridinha de sempre. Em alguns momentos até fiz musculação, quando dava. Retornei para Maringá em 2010, ao que se seguiu minha ida para a Comunidade Alcance, e isso fez com que a prática do futebol nos finais de semana desaparecesse. Nesta nova igreja não tínhamos uma chácara com campo. Eu também não estava mais vinculado a algum clube. Havia raras oportunidades de jogo. Corrida e musculação tornaram-se minhas únicas atividades físicas.
A partir dali, ou seja, nos últimos quase 12 anos, eu seguramente não entrei num campo de bola 10 vezes. Isso mesmo, praticamente parei, e as poucas vezes ocorreram entre 2010 e 2015. De lá para cá, no último quinquênio, nenhuma. A última, a saideira, foi num sábado que reuniu o pessoal da Alcance num campo sintético, próximo ao Cemitério Municipal de Maringá, onde tive minha única lesão futebolística em toda a vida. Logo no início, numa mudança de direção, senti uma dor intensa num ligamento próximo ao joelho. Nunca me lembro se foi no direito ou no esquerdo. Sei que não conseguia colocar o pé no chão, saí auxiliado pelos amigos. Seguiram-se exames, consultas, tratamentos, e um diagnóstico de ruptura parcial de ligamento. Seria necessário operar.
Fiz um excelente trabalho pré-cirúrgico, tão excelente que a cirurgia não ocorreu. Num segundo exame de imagens foi constatado que a ruptura parcial não mais existia. Não manjo muito disso, mas o que me disseram é que aquele tecido não se regenera. Aí, das duas uma: ou houve uma análise errada do primeiro exame, ou então o tecido ficou bom milagrosamente. Bem, eu creio em milagres. Fiz o tratamento? Fiz. O tratamento faria o problema sarar? Não. Então...
Pois bem, nas proximidades do cemitério, naquele joguinho bobo em 2015, a prática do futebol foi sepultada na minha vida. Mas e o futebol na mente, no coração, na resenha? Ainda existia? Eu achava que sim. Mas, paradoxalmente, dei-me conta de que há anos não assisto a uma partida na TV. Uma das últimas foi o famoso 7 a 1 com a Alemanha.
No domingo próximo passado, quando meu time foi campeão após um jejum de 9 anos sem títulos, novamente não liguei a TV. Domingo eu me dei conta de que o futebol não importa mais nada para mim. Se a prática havia sido sepultada em 2015, o interesse foi sendo lentamente cremado desde então, até que em 2021 só restassem cinzas.
Jogo rolando, uma TV disponível por perto, alguns fogos pipocando pela cidade, e eu nem um pouco interessado em ver. Naturalmente, chegou ao meu conhecimento a notícia de que o SPFC venceu, mas zero vontade de postar algo a respeito, zero ânimo para zoar os caras dos outros times, zero empolgação para abrir um sorriso e gritar “O Campeão voltou”. Hoje, não sei o nome de um único jogador do São Paulo, quem é seu técnico, ou qualquer outra informação a respeito do clube. Mas sei a razão dessa desconexão. Não tem exatamente a ver com o meu time, mas com uma característica detestável do universo do futebol.
Não, não foi a fila de quase uma década sem títulos que me desconectou. Meu desinteresse foi acontecendo. O fato é que não consigo lidar bem com um jogo onde o erro pode prevalecer e ser glorificado. Os exemplos são muitos. Times que levantaram taças a partir de erros de arbitragem, malas brancas, contextos mal explicados. Mesmo com todos os recursos tecnológicos existentes, continua sendo um jogo onde a trapaça e o erro vencem. Algo assim não me interessa, porque não pode haver glória numa vitória ilegítima. Mas vejo torcedores achando o máximo, justamente por ter sido assim. "ROUBADO É MAIS GOSTOSO!“
"Ah, Fer. Deixa disso! É como as coisas são. E a possibilidade de erro é para os dois lados, então tá tudo certo”. Conversa. No tênis, por exemplo, é a coisa mais comum um dos jogadores desafiar a marcação e em instantes ter a verificação de IN ou OUT. E tudo certo, segue o jogo sem chororô. Noutros tantos esportes ocorre o mesmo. Mas no futebol me aparece o VAR, que logo é demonizado por todos. “Esse VAR trava o jogo, tirou do futebol sua graça”. Conversa. Pra mim não serve. O pessoal quer que os erros continuem, porque roubado é mais gostoso.
Mas roubado é errado.
Basicamente, foi nesta minha dificuldade para lidar com um esporte que consagra o erro, pequenas trapaças, enaltece a malandragem, que fui perdendo o interesse. Um processo lento e não percebido de imediato. Dei-me conta dele quando vi – ou melhor, fiquei sabendo – meu time sendo campeão, e nada senti. E até onde sei, o São Paulo não venceu de forma ilegítima. Parece que foi tudo OK. Mas aquilo não era comigo. Não me dizia mais respeito. Perdeu a graça. Morreu.
Ainda sou São-Paulino? Sim. Tri-Libertadores, Tri-Mundial, Hexa-Brasileiro, e mais trocentos outros títulos menores, inclusive 22 Paulistões.
O São Paulo Voltou? Não sei. Pode ser que sim. Só sei que eu me fui.
REST IN PEACE, FOOTBALL.
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