Há exatos 29 anos eu descobri que no dia do meu aniversário (5 de junho) era/é comemorado o Dia do Meio Ambiente. Consigo precisar o tempo dessa descoberta, porque naqueles dias só se falava na Eco-92. A primeira Convenção Mundial sobre o Meio Ambiente. Cobertura intensa dos meios de comunicação, as pessoas só falando nisso, escolas mobilizadas. Foi um alvoroço. Parecia que algo extraordinário iria acontecer, algo quase palpável. Aquele junho/92 seria um divisor de águas. Porém, quem estava lá e hoje aqui está, e viveu as últimas 3 décadas, talvez concorde comigo que poucas mudanças foram efetivamente sentidas.
Eu não disse que nada mudou. Falo de percepção concreta. Tivemos no período alguns calorões fora do normal, ou secas prolongadas, quem sabe chuvas demais noutras épocas... e por aí vai. Mas vamos ser sinceros, eu ou você só conseguimos afirmar algumas dessas mudanças, porque lemos ou ouvimos sobre isso de alguma fonte (científica ou não). Repito, tivemos mudanças, algumas coisas hoje são diferentes. Mas insisto que poucas delas foram efetivamente sentidas de uma forma importante, individualmente falando. Bem, falo por mim. Sua percepção pode ser outra.
Penso ser assim, porque numa escala global, e num lapso temporal mais elastecido, nossos sentidos não conseguem captar totalmente as mudanças. Se hoje pela manhã fez 15 graus, e no meio da tarde 30, claro que eu e você percebemos. Somos homeotérmicos , afinal (lembra dessa? lá dos tempos da escola...). A temperatura dos nossos corpos não acompanha a do ambiente. Ele trabalha para manter-se constante. Agora, se a temperatura nos polos variaram 1, 2 ou 3 graus nas últimas três décadas – o que é uma enormidade – daqui de longe jamais perceberíamos, e menos ainda detectaríamos os efeitos gerados pelo aquecimento, porque tudo é muito lento, o planeta é enorme, e mudanças assim são graduais.
Aonde quero chegar? Vamos lá.
Somos muitos. Ouvi em algum local, creio que hoje, que nos aproximamos de 8 bilhões de pessoas na Terra. É muita gente. Além da quantidade, temos que considerar também a qualidade desse montante. Somos muita gente, que causa muito impacto. Vorazes. Insaciáveis. O ser humano é um predador. Onde se estabelece, o ambiente muda radicalmente. Isto é um fato. Todos sabemos. Ainda ontem eu lia as primeiras páginas de um livro que conta a história do Município de Cornélio Procópio. Fotos e matérias que descrevem o que era o Norte do Paraná há 80 anos. Oitenta anos é o tempo de vida de uma pessoa. Quando essa pessoa nasceu, extensíssima área de terras era pura mata nativa por aqui, com incontáveis espécies de flora e fauna, provavelmente outro regime de chuvas, rios mais caudalosos, tudo original. Então, passado o tempo de uma vida humana, a fotografia é totalmente outra. Resquícios da natureza que havia. Cidades e mais cidades cobrindo a região, milhões de pessoas. Pouca mata. Pouco bicho. Menos água.
Longe de mim apresentar-me como um pregador da primitividade, sugerindo que não devêssemos ter ocupado a região e a modificado. Somos humanos. É isso que fazemos. Só acho que fazemos um pouco (ou muito) pesado demais. A humanidade não brinca em serviço. Primeira impacto é sair cortando todas as árvores possíveis, e tacando fogo em tudo. As famigeradas "limpezas" com fogo.
Lembro que alguns anos atrás, quando meus avós eram vivos e decidiram arrendar uma área do sítio para o plantio de cana, não demorou para aquele mágico ambiente se tornar mais pobre. Para ter uns metros de terra a mais, e quem sabe também facilitar o manejo das máquinas, belas e antigas árvores do sítio foram cortadas e enterradas pela usina que arrendou a terra. Enterradas, porque aquelas árvores não podiam ser cortadas. Mas depois de tudo feito, e sem deixar vestígios, o que se pode fazer? Multar? Quem sabe alguma multa prosperasse. Se eventualmente paga, não mudava o fato de que uma árvore de dezenas de anos não mais existia. Para compensar, eles malemá faziam algum reflorestamento nas beiras dos rios. Na verdade, fios d´água, se comparados ao que foram antes.
Nesse mesmo sítio, cerca de dez anos atrás, eu adquiri uma pequena parte da terra. Menos de 4 mil metros quadrados. A primeira coisa que fiz foi riscar a área ao meio, e numa dessas metades plantar um pequeno bosque de árvores nativas. Para mim, de nada vale uma área descampada. Curiosamente, não demorou a me chegarem opiniões: “Cara, pensa bem, depois que você colocar essas árvores aí e elas estiverem crescidas, você perdeu metade do terreno”. Meus Deus! Como pensamos diferente! Aquela metade reflorestada é a principal, a mais valiosa, e justamente por conter árvores que não estão ali para serem cortadas, mas sim morrerem de velhas, e frondosas, sendo o microambiente para muita vida em si e em seu entorno.
Não tardou para que a passarinhada aparecesse, pequenos roedores, marrecos selvagens, lontras, coelhos, cobras, de tudo um pouco. Naqueles menos de 2 mil metros quadrados de árvores ainda em formação, que nem de longe se assemelham a uma floresta ou mata nativa, tanta vida. Fico a imaginar o que era a região Norte do Paraná há 80 anos, com suas perobas, figueiras, jequitibás gigantes, variedade de animais, insetos, cores, sons, aromas. Eu não conheci aquele Paraná. Nasci em Ponta Grossa, mas me criei pelo Norte do Estado, quando já há pelo menos meio século a ação humana se fazia sentir. Cianorte, cidade da minha infância, ainda continha um bom cinturão verde nos anos 80, quando eu era criança. Eu costumava me aventurar em seu interior. A sensação de estar no mato sempre me agradou, desde menino.
Cornélio Procópio, Londrina, Maringá, outras hoje prósperas cidades da região Norte Paranaense, onde também escrevi parte de minha história até aqui. Elas eram floresta nativa nesses mesmos 80 anos passados. O ambiente mudou muito. Quando saio para pedalar pela região e vejo os campos de soja ou milho – antigamente se plantava trigo também – é bonito de ver. Creio que para os proprietários, mais lindo ainda, pois aquele verde-soja e verde-milho significam muitos milhões. Não estão errados. A mata se foi, o progresso chegou, o verde-floresta deu lugar para outros nuances, e isso não será desfeito. É como as coisas são... quando o homem chega.
Creio que quando tudo era ainda um grande jardim, e Deus nos legou o encargo de dele cuidar, tinha algo diferente em mente. Não necessariamente um jardim intocado e original, mantido por milênios, igualzinho ao que era lá atrás. Mas não exatamente o que temos hoje, com tudo que fizemos, fazemos, e ainda faremos. Passamos muito do ponto. Matamos bichos demais. Cortamos e enterramos árvores demais. Sujamos a água. Derretemos o gelo. Um mundo aparentemente OK, mas disfuncional, colapsando.
O objetivo do texto? Não sei. Apenas conversando com meus botões (embora eu raramente use algo com botões). Quem sabe, lá no fundo, uma saudade ancestral do jardim que eu não conheci.
Com certeza, existem jardins que não comecemos, e com eles as riquezas e segredos insondáveis! Texto bom demais!
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