sábado, 22 de maio de 2021

022 LEGADO

Eles legam.

Vós legais.

Nós legamos.

Ele lega.

Tu legas.

Eu lego.


LEGO é considerado o brinquedo de maior sucesso em todo o mundo. De origem dinamarquesa, as primeiras criações vieram da oficina do marceneiro Ole Kirk Christiansen, pelos idos dos anos 30. Lego significa “brincar bem”. Após essa fase inicial da madeira, no pós-guerra surgiu o plástico injetado (acrilonitrila butadieno estireno), abrindo um mundo de possibilidades, formas, cores e tamanhos, fazendo surgir o Lego que hoje conhecemos: blocos plásticos de encaixar, em vários tamanhos e formatos diferentes. Virtualmente, pode-se criar qualquer coisa com Lego, se você tiver peças suficientes para dar conta de sua imaginação.

De acordo com algumas rápidas pesquisas que fiz, o Lego segue 4 princípios básicos:

- Alta qualidade;

- Segurança;

- Estimulação da criatividade;

- Imaginação.

Além do já mencionado sucesso, muitos o consideram o melhor brinquedo para auxílio no desenvolvimento das crianças, em qualquer faixa etária, assim cumprindo os princípios criatividade e imaginação. A segurança, penso eu, afere-se por algum critério técnico-normativo, relacionado à ausência de toxicidade, baixo risco de acidentes ou ferimentos, tamanho e formato que impeçam uma criança engolir as peças. Por fim, no quesito qualidade, alguns conjuntos conservam, mesmo após décadas de uso, suas características originais, com encaixes perfeitos, rigidez, cores vivas.

A grande popularização ocorreu na década de 50. Hoje existem 4 fábricas em diferentes locais do globo, produzindo mais de 36 bilhões de peças por ano, ou 68 mil por minuto, 1140 por segundo. A coleção Lego conta com aproximadamente 4200 itens diferentes, nos quais são utilizadas 58 cores distintas. Uau! Eu não sabia nada disso sobre o Lego. Recorri ao “Tio Google”, investi uns minutos na leitura de meia-dúzia de páginas, e fiquei impressionado com o tanto de informação que há a respeito. Uma ideia simples e despretensiosa, que num processo longo e natural foi se agigantando, até hoje ser este ícone em sua área (brinquedos), e indo muito além dela (educação, ensino, criatividade). Caso tenha um tempo, “dê um Google”, e veja/leia por si mesmo o tanto de coisas legais que há sobre um simples brinquedo.

Ah, da forma resumida como coloquei acima, pode-se ter a impressão de uma “história linear e perfeita”, onde tudo deu certo sempre, numa ininterrupta, crescente e vitoriosa saga do marceneiro que construiu um império. Mas não foi bem assim. Houve fases difíceis. Crises financeiras. Versões piratas. O booom dos videogames. Decisões estratégicas equivocadas. Os conjuntos Lego, numa certa fase, perderam sua característica original, pelo acréscimo de componentes eletrônicos, peças que já vinham prontas (com nada por montar... ???). Estava virando outra coisa, qualquer coisa, menos o Lego originalmente pensado. Até que a empresa voltou ao rumo certo numa troca de CEO, que fez tudo voltar à essência. Tiraram o que desnaturava, todo penduricalho desnecessário, e o Lego voltou ao topo. É uma bela história. Ole Kirk Christiansen deixou seu legado.


Legado é um termo jurídico. Significa “disposição de última vontade pela qual o testador deixa a alguém um valor fixado ou uma ou mais coisas determinadas”. Analogicamente, também pode ser “bem ou missão confiada a alguém por pessoa que está a ponto de morrer”. Novamente recorri ao Google para anotação destes conceitos, pois faz já uns 25 anos que estudei essas coisas na faculdade. A memória aqui é péssima, você nem imagina o quanto. Precisei de uma colinha.

Cá comigo, quando penso em legado, encontro uma terceira forma de ver. Ela não é jurídica ou científica, mas fruto de percepções e sentimentos naturais. Acredito até que muitos entendam de forma semelhante à que vou compartilhar, sequer imaginando que legado seja uma figura jurídica. Gosto destas percepções. São as coisas que o homem comum (um não-especialista) apreende da vida. Pode não corresponder ao conceito exato, mas tem o seu valor. Eu valorizo, como deixo bem claro no texto “015 MAIS SABEDORIA, MENOS TÍTULOS”. Diplomas não me impressionam. Os especialistas são apenas os especialistas, caso lhes falte sabedoria.

Legado, para mim, é um tipo de HERANÇA IMATERIAL. Herança é outro conceito jurídico, que significa o “conjunto de bens, patrimônios, direitos e obrigações deixados por uma pessoa falecida aos seus herdeiros”. Este, um conceito muito mais presente e compreensível para todos. Quando eu ou você pensamos em herança, muito provavelmente vinculamos àquilo que o conceito científico enuncia. Ou, nas palavras de um homem comum, “é o que vai sobrá pros fio, depois que os véio morre”. Cash. Grana. Cascaio. Bufunfa. Bens.

Legado, portanto, é um tipo diferente de herança.

Pequena pausa... (enxugando umas lágrimas aqui).

Escrevo este texto em Iepê/SP, terra que tanto amo. É difícil passar 1 mês sem que eu venha para cá. Minha família materna, a partir dos bisavós, originou-se de Iepê. Tenho mais histórias aqui do que em qualquer outro lugar, isso sem nunca ter morado na cidade. Mas Iepê mora em mim. Iepê tem influências profundas em mim. Nesta terra, ao longo de pelo menos três gerações, foi forjado e passado um grande legado. Tudo que sei, sinto, penso, vivo ou projeto viver em termos de FAMÍLIA, é fruto do legado deixado por meus bisavós, bem como – e de forma mais direta – pelos saudosos avós Cilas e Laurinda. A geração seguinte, composta por suas três filhas e dois filhos, continua me legando muito.

Cilas e Laurida. Inesquecíveis. Viveram um casamento intenso por 60 anos. História linda, de filme mesmo. Mas um filme de gente real, carne e osso, não a “história linear e perfeita”, onde tudo deu certo sempre, numa ininterrupta, crescente e vitoriosa saga dos sitiantes que construíram um império. Não foi bem assim. Houve fases difíceis. Tudo aquilo que escrevi para o Lego, vale para os meus avós, ao seu modo. Dificuldades tais, que fossem noutra época – hoje, talvez, com sua notória fragilidade e descartabilidade dos relacionamentos – eles teriam sucumbido. Mas não. Assim como o CEO da Lego, que encontrou o rumo certo no retorno às origens, à essência do que aquele pequeno mundo de brinquedos verdadeiramente era, meus avós também venceram, firmando seu casamento e sua família em Valores Eternos. Cada passo orientado pela Palavra de Deus. A direção do Espírito Santo. Mas, principalmente, pela DECISÃO DE FAZEREM TUDO O QUE LHES CABIA FAZER PARA DAR CERTO. Porque não adianta você saber o que é o certo, ler na Bíblia o que é certo, ouvir do próprio Deus Espírito Santo o que é certo, mas fazer o contrário. Obedecer é a chave.

Cilas e Laurinda obedeceram. A partir do que receberam da geração anterior, cultivaram em si, e plantaram em seus filhos, netos e bisnetos, Valores Eternos. Eu escreveria 10 livros, para seguramente não conseguir compartilhar tudo o que eles significam para mim. São coisas que só eu sei. Sentimentos que ninguém de fora poderia compreender. Porque é a minha história, o legado que eu recebi deles. Palavras ou gestos que vi nas vidas de Cilas e Laurinda, coisa simples, que para você ou tantos outros não teriam sentido, mudaram-me para sempre... (mais uma pausa para lágrimas).

Meu avô faleceu primeiro, em 2009, dias depois da grande festa dos 60 anos de casamento. Como ele dizia, “Bodas de Ouro todo mundo faz. Mas 60 anos de vida conjugal, aí não é pra qualquer um”, e seu sorriso tímido no rosto. Eu e meu avô fomos confidentes. Tivemos muitas e muitas conversas excelentes, fosse enquanto ele me ensinada a matar e carnear um porco, ou a plantar, e principalmente nas pescarias que eu tanto detestava, mas ia com um sincero sorriso no rosto, pelo puro prazer de estar com ele. Minha última pesca foi com ele. Nunca mais fui a outra, e provavelmente não irei a nenhuma outra, para que nossa última pesca juntos continue sendo minha última. Como eu amei aquele lindo senhor. O Cilas Verdureiro. Tempos atrás, numa pequena conversa espontânea com uma pessoa na cidade, com um senhor bem mais velho do que eu, cedo ou tarde veio à tona a informação de que eu era neto do Cilas. Como foi gostoso ouvir aquele homem dizer, tantos anos depois da morte do meu avô, o quanto ele foi um homem bom, honesto, generoso, temente a Deus. Legado.

Dona Laurinda, minha avó, faleceu 3 anos depois de seu amado, no dia exato do meu aniversário: 5 de junho de 2012. Eu pude honrá-la em vida e também nas últimas homenagens. Disse algumas palavras, em meio ao choro. Alguém concluiu por mim, pois não consegui fazê-lo. Chorei sua partida. Carreguei seu caixão. Abracei meus familiares. Vi sua morte em minha data natal como um presente único. Tivemos 35 anos de convivência sem um único problema, nenhuma palavra atravessada, nada. Pelo contrário. Dela só recebi os risos extravagantes, sabedoria, testemunho impecável, palavras e gestos de amor. Jamais desrespeito, abuso, violência. Minha querida avó foi, sem dúvida, a pessoa mais parecida com Jesus que eu conheci. O Jesus que estava sempre em seus lábios. Não tenho notícias de alguém que tenha passado por sua casa, sem ouvi-la falar vividamente do grande Amor de Deus. Legado.

O deles estava entregue.

Herança? Uma pequena área de terras – o sítio onde me encontro neste instante – que, dividida entre os 5 filhos, deu pouco mais de 1 alqueire para cada. Briga na partilha? De forma alguma. Um empurrando para o outro a melhor parte: “Fique você com este pedaço, é o melhor, você merece mais”. “Nada disso, você cuidou mais do pai e da mãe. Você fica com essa”. Uma discussão às avessas, onde cada um queria que o outro tivesse o melhor. Legado.

Pequenina herança, mas um legado imensurável.

Eu, que me viro bem com palavras, realmente em 10 livros não conseguiria expressar tudo que eles legaram. Isso, apenas para cobrir o legado familiar, sem contar os volumes extras que seriam necessários para falar do que Cilas e Laurinda deixaram na sociedade, na Igreja, no Reino.

Então você sabe o que é legado. Sabe do que estamos conversando. Bom ou mal, você recebeu algum. Triste vida a daqueles que não receberam herança alguma, material e imaterial. Quão pobres também os que receberam apenas milhões em herança, mas legados vazios. Felizes os que não receberam um vintém furado para chamar de seu, mas legados que ouro nenhum pode comprar. Felizes também aqueles que puderam receber boa medida de ambos, né?! Por que não? Neste último caso, os bens foram o que chamo de “efeito colateral positivo”. Falaremos dele em texto futuro.

Muitas linhas sobre o legado de minha família materna. Muitas outras seriam necessárias para falar do lado paterno. Não o farei hoje, apenas para não tornar este escrito extenso demais. Haverá oportunidade. Direi apenas, muito resumidamente, que a lembrança do meu avô Veríssimo de Paula Neves, de quem carrego o nome Veríssimo (muito verdadeiro), traz consigo grande responsabilidade. Um patriarca. Homem honrado, de palavra, trabalhador, temente a Deus, guiado pelo Espírito Santo, pai de muitos filhos, avô de muitos netos, um homem simples. Simples como eu sou. Pacífico como eu sou. Bravo, como às vezes também sou. Saber de onde você veio, diz muito sobre para onde você vai. Somos flechas. Legado.


Eu não tive hoje, do nada, a “brilhante ideia” de vir ao meu notebook escrever sobre este tema. Penso nele não há algumas semanas, nem meses, mas há muitos e muitos anos. Porque penso no meu legado. Porque, diferentemente da figura jurídica, bem como da ideia análoga, ambas descritas no início, a minha percepção homem-comum de legado não é para tempo distante, daqui a algumas possíveis décadas restantes de vida. Não, de forma alguma. Penso que toda pessoa tenha um legado presente. Hoje, 22 de maio de 2021, eu e você já temos um legado estabelecido e entregue.

Posso morrer hoje. Você também, por mais que não goste da ideia e dê 3 batidinhas na madeira. As batidinhas não mudam nada. São superstição boba. E assim, se hoje eu partir, e palavras forem ditas sobre mim, cânticos de despedida, e as alças do meu caixão forem sustentadas pelas mãos das pessoas que mais me amam, e os últimos abraços forem dados entre os que ficarem, e o lamento inexprimível de uma mãe chegar ao Trono da Graça, por ter enterrado um filho, tudo findou. O que eu poderia ter dito, disse. Amado, amei. O que me teria sido possível fazer, fiz ou não fiz. O último grão de areia na ampulheta do Fer desceu. Finito.

Temos a tendência de deixar muitas coisas para o fim da vida, sempre e ilusoriamente pensando que chegaremos aos 100, 150, 200 anos. Então, lá pela década final, colocaremos tudo em ordem. Muitos só pensam em legado quando a ampulheta está no fim. Meu Salmo favorito (139), entretanto, faz um importante alerta:

Senhor, tudo me sondaste, e me conheces. Tu sabes o meu assentar e o meu levantar; de longe entendes o meu pensamento. Cercas o meu andar, e o meu deitar; e conheces todos os meus caminhos. Não havendo ainda palavra alguma na minha língua, eis que logo, ó Senhor, tudo conheces. Tu me cercas por detrás e por diante, e puseste sobre mim a tua mão. Tal ciência é para mim maravilhosíssima; tão alta que não a posso atingir. Para onde me irei do teu espírito, ou para onde fugirei da tua face? Se subir ao céu, lá tu estás; se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali estás também. Se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar, até ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá. Se disser: decerto que as trevas me encobrirão; então a noite será luz à roda de mim. Nem ainda as trevas me encobrem de ti; mas a noite resplandece como o dia; as trevas e a luz são para ti a mesma coisa; Pois possuíste meus rins; cobriste-me no ventre de minha mãe. Eu te louvarei, porque de um modo assombroso, e tão maravilhoso fui feito; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem. Os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui feito, e entretecido nas profundezas da terra. Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe; E NO TEU LIVRO TODAS ESTAS COISAS FORAM ESCRITAS; AS QUAIS EM CONTINUAÇÃO FORAM FORMADAS, QUANDO NEM AINDA UMA DELAS HAVIA. E quão precioso me são, ó Deus, os teus pensamentos! Quão grandes são as somas deles! Se as contasse, seriam em maior número do que a areia; quando acordo ainda estou contigo. Ó Deus, tu matarás decerto o ímpio; apartai-vos portanto de mim, homens de sangue. Pois falam malvadamente contra ti; e os teus inimigos tomam o teu nome em vão. Não odeio eu, ó Senhor, aqueles que te odeiam, e não me aflijo por causa dos que se levantam contra ti? Odeio-os com ódio perfeito; tenho-os por inimigos. Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece os meus pensamentos. E vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno.

E Tiago 4:13-16 coloca uma pá de cal sobre qualquer pretensão nossa quanto às certezas do futuro:

Eia agora vós, que dizeis: hoje ou amanhã, iremos a tal cidade, e lá passaremos um ano, e contrataremos, e ganharemos; Digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um tempo, e depois se desvanece. Em lugar do que devíeis dizer: se o Senhor quiser, e se vivermos, faremos isto ou aquilo. Mas agora vos gloriais em vossas presunções; toda a glória tal como esta é maligna.

Se for preciso mais, Ele desenha. Mas você e eu já entendemos. E ainda que não aceitemos, é assim que é. Não sabemos o tamanho da nossa vida. Ele sabe. Só ele sabe. E como a Palavra deixa bem claro, qualquer presunção quanto ao futuro é má. Temos o hoje. E nem do hoje temos total certeza, porque pode ser que hoje seja meu último hoje, sem amanhã, sem aniversário daqui uns dias, sem casamento, sem filhos, netos. Fechada a cortina do meu palco, finda a minha história. O legado estará entregue. Ele já está.

Não fico pensando na morte. Sequer a temo. Penso muito mais no que eu fiz com estes quase 44 anos de vida. Muitas coisas excelentes, com certeza. Algumas péssimas. Tempos incríveis. Também tempos perdidos. Capítulos passados, que não voltam mais. Só existe o dia que se chama hoje, e a cada hoje me cabe escrever mais uma pequena fração do meu legado, mais um tijolinho no Lego da minha vida. A Palavra diz para eu não me inquietar pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo, bastando a cada dia seu próprio mal (ou seu próprio cuidado) (Mateus 6:34). Isto me lembra que não está em mim o poder de viver qualquer coisa além daquelas que cabem no meu hoje, um dia por vez. O que passa disto, é presunção. É maligno. Só a Ele, que é Santo e Eterno, é dado estar em cada dia e lugar, passado, presente ou futuro. Porque Ele é Deus. Nós não.

Tenho um legado hoje. Tenho também minhas impressões sobre o meu legado de hoje. Se eu vier a ter alguns ou muitos hojes futuros, terei com eles o mesmo número de oportunidades para mexer neste legado presente. Para o bem ou para o mal. Cá comigo, tomei a decisão de investir o restante dos hojes que Ele me der, da melhor e mais excelente forma possível. Se hoje for o último, tombar feliz, sabendo que cumpri minha carreira, combati bem, e fui um homem de fé até o fim. Entretanto, se apenas daqui a muitas décadas eu tombar, desejo nesta segunda metade da vida fazer muito, muito, muito mais do que na primeira. Perder tempo algum. Ofender ninguém mais. Tocar positivamente tantas e quantas vidas cruzarem meu caminho. Ser Sal e ser Luz todos os dias da minha vida. É o mais profundo e sincero desejo do meu coração. Minha escolha e decisão. Um dia por vez. Sempre em frente. Firme e constante.

O que eu tinha por dizer sobre legado, poderia concluir aqui. Mas preciso fazer algo. Honrar um precioso legado.


Muitas pessoas partiram no último ano e meio. Muitas mais do que se esperava. Dentre várias causas possíveis, destaca-se a pandemia. Mas muitos tombaram por outras razões. A pessoa que vou honrar, foi por outra razão. Tem sido um período de lutas e de luto. Luta pela vida. Luto quando finda a vida. Em meu núcleo familiar mais restrito, tanto pelo lado materno, quanto pelo paterno, até aqui não tivemos o luto por alguém nesse ano e meio. Dou graças a Deus por isso. E em tudo darei graças, quando o dia de luto chegar. Ele tem nos sustentado.

Uma pessoa partiu neste ano. Uma pessoa muito especial. Uma pessoa com um legado extraordinário. A ela dedico este escrito: Maria Isabel Meirelles de Andrade, a Mariazinha. A esposa do tão conhecido Pastor Palmiro. A mãe da Sula. A vó do Samuel e do Benja. A mãe de outros vários filhos; a avó de muitos netos. Deixou-nos em boa velhice. Deus deu a ela muitos “hojes” para viver e escrever seu legado. Nesses tempos difíceis, quando chegou seu último dia, não houve ocasião para reunir todas as pessoas que a amavam, para honrá-la. Seus familiares, alguns deles, o fizeram. Mas nossa igreja não pode estar lá, eu e meus familiares também não, e muitos mais, não tivemos a oportunidade de prestar as últimas homenagens, cantarmos as canções, darmos entre nós os abraços nos que ficamos. Em parte, houve tudo isso, mas não com todos que gostariam de estar lá. Eu queria estar. Seria precioso estar.

Mariazinha faz parte da minha história e da história da minha família. Tudo começou na década de 70, quando meus pais ainda nem namoravam. Trocando correspondências por alguns meses, chegou enfim o dia de se conhecerem pessoalmente, num evento da igreja em Cianorte. Enfim frente a frente. O jovem Alvino cumprimentou a bela e jovem Mirian com um beijo no rosto, e por ali conversaram um pouco. Mas um zóiudo e linguarudo, e certamente péssimo “telefone sem fio”, foi dizer ao Pastor Palmiro que o famigerado casal estava aos beijos, e ainda mais na tenda de reuniões do congresso. Foi o suficiente para Mirian ser chamada às pressas e receber uma disciplina no ato. Nenhum contato com o Alvino pelos dias restantes do congresso. Imagino a frustração. Um simples beijo de cumprimento.

Poderia aquela disciplina ter gerado um dissabor tal nos dois, que ali morresse o relacionamento. Mas eles foram em frente, ainda que com dificuldades e com vigiada distância a eles imposta. Não julgo o Pastor Palmiro. Ele agiu conforme as informações que recebeu, e agiu de acordo com as regras da época. Não fez por mal. Só sei que minha existência esteve sob risco, por conta daquela disciplina que ele aplicou. Passado algum tempo, minha jovem e bela futura mãe Mirian veio a ser aluna da Mariazinha no Instituto Bíblico de Arapongas, em distantes mais de 4 décadas e meia atrás. A vida seguiu, Alvino e Mirian se casaram. Fernando nasceu em 77, Marcelo em 79, Priscilla em 80. O pessoal não brincava em serviço!

Muitos anos depois, já no século 21, mais precisamente em 2014, as histórias dessas duas famílias voltaram a se cruzar. Comunidade Alcance de Maringá. Mariazinha, juntamente com uma de suas filhas, e dois de seus netos, estavam conosco. Finalmente vim a conhecer uma das personagens de momento tão crítico da minha pré-história. A viúva do tão conhecido e lembrado Pastor Palmiro. Conhecer Mariazinha foi como viajar no tempo, ver alguém daqueles tumultuados e pentecostais anos 70. Uma senhora lindíssima, sempre elegante, distinta, que tinha em si a característica que considero mais brilhante em qualquer pessoa, mas principalmente numa mulher: DISCRIÇÃO. Jamais a vi em arroubos tolos, conversas inúteis ou mal testemunhando. Que pessoa exemplar. Um modelo.

Décadas depois, mestra e aluna, como num hoc de xadrez, trocaram de lugar. A agora senhora Mirian, mãe de filhos, avó de netos, estabelecida como líder de uma Célula de Mulheres, semanalmente reunida em sua casa. Mariazinha estava lá, agora no papel de aluna, comparecendo semana após semana para compartilhar as belezas do Evangelho. Diz minha mãe que Mariazinha muito se alegrava por estar sob seus cuidados e sob sua autoridade como líder, ainda que uma líder mais jovem. Isto tanto me ensina sobre humildade, sobre a correta compreensão da autoridade, e muitas coisas mais. Que pessoa exemplar. Um modelo.

Eu e minha mãe não pudemos estar lá, naquele 17 de março de 2021, para nos despedirmos e honrarmos vida tão inspiradora. Sei que é insuficiente, mas faço-o hoje com este pequeno escrito, porque devemos dar a cada um o que é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; A QUEM HONRA, HONRA. E a ninguém dever coisa alguma, a não ser o amor com que devemos nos amar uns aos outros; porque quem ama aos outros cumpriu a lei (Romanos 13:7-8).

Mariazinha não está lendo este escrito. Não está mais nela a condição de fazê-lo. Mas sei que alguns de seus filhos e netos, com quem sempre tenho contato, o lerão. Que seus corações se alegrem pelo legado imenso que receberam de seu pai, que partiu há mais tempo, e de sua mãe, até tão poucos dias atrás ainda entre nós. E que tal legado os inspire, e me inspire, e inspire a tantos e quantos este texto chegar, a vivermos cada hoje como se fosse o último – pois pode ser – e colocarmos mais uma pecinha na construção do nosso próprio legado. Porque é assim que é. Cada dia uma pecinha, cada dia um tijolinho no LEGO DA VIDA.

Um comentário:

  1. Ah, o que dizer meu amigo! Sensação indescritível de ler e reler suas palavras! Algumas suas, mas muitas outras de Deus! Obrigado por tanto...

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