Hoje é quinta. Toda manhã de quinta, logo que acordo, uma das primeiras coisas que eu lembro é que “quinta é dia de treino forte”, o treino que mais gosto. Isto implica que praticamente todas as demais atividades do dia foram pensadas para que eu chegue bem no fim de tarde. Preparado, alimentado e focado para executar algum objetivo que defini previamente. Hoje foi exatamente assim. Hoje deu bom!
Uma noite bem dormida. Um café bem tomado. Minha leitura bíblica. Orientações para a zeladora do prédio onde sou síndico. Aquela olhada rápida nas mensagens. Então, pelas 8h30, eu funciono a CB 750 Four e me dirijo à Clinisport. Como costumo chegar mais cedo, e tenho sempre à mão um livro, aproveito aqueles minutos de espera para consumir algumas páginas. Então o fisioterapeuta chega e vamos para a sessão de terapia manual. Tenho quase 44 anos de vida, e pelo menos desde os 10 eu mantenho uma rotina de atleta amador. Comecei com a corrida, depois veio a fase do vôlei, natação, futsal, tênis de mesa, futebol society, academia, artes marciais... e a corrida sempre fazendo par com alguma dessas modalidades, e outras que não citei. Claro que o corpo uma hora iria doer, machucar. Machucou. Aposentei o tênis de corrida. Descobri a bike e cá estou, envolvido neste esporte maravilhoso.
Por menos impacto que a bike gere, quando comparada com a corrida, cedo ou tarde aparece alguma dor. Ora lombar, ou cervical, ora no antebraço esquerdo, ora no quadríceps direito. Ela vai passeando pelo corpo, de tempos em tempos muda de lugar. Por isso eu visito o fisioterapeuta todas as semanas. Temos lá uma fichinha onde anoto de 0 a 10 a percepção de dor que eu tinha antes da sessão de terapia manual, e depois anotamos de 0 a 10 a nova percepção de dor, uma vez realizado o tratamento. Via de regra, chego com 2 a 3, e saio com 0. Já cheguei com 5, 6, acho que no máximo 7, e nessas vezes saí com 2. O negócio é muito efetivo. Literalmente, as dores são eliminadas com as mãos. Por isso estou lá semana após semana. Não é barato. Só que vale demais o investimento. Afinal, se me proponho a ter uma rotina de atleta, preciso fazer direito. Nutrição. Treinos. Pilates. Fisoterapia. Descanso. Além de todas as demais responsabilidades extra-esporte.
Enfim, todo este empenho para construir uma condição atlética excelente, e nos finais das tardes de quinta subir na bike para o tal treino forte. Eu curto demais o processo. Como sempre, defini previamente o percurso que iria fazer. Saio de leve, começando a aquecer o corpo, então solto o treino no local de costume. Normalmente giro por avenidas de Maringá, num percurso de 30km, passando por regiões mais planas, e outras com os tobogãs (como as Avenidas Franklin, Palmeiras e Nildo Ribeiro). As subidas normalmente assustam os ciclistas. Eu gosto delas. Treino subida com muito prazer. Tenho facilidade. Aliás, as subidas me renderam o apelido que tenho no ciclismo: LAGARTIXA. Um amigo soltou espontaneamente a fala “Putz, o cara sobe os morros parecendo uma lagartixa escaladora”. Foi a maior risadeira entre os amigos. E como apelido a gente não escolhe, e muito menos luta para não colar, o jeito foi curtir e passar a ser o tal Lagartixa das subidas de Maringá.
Uns 9 meses atrás eu consegui um objetivo legal no ciclismo: minha primeira COROA. O famoso KOM, do aplicativo que todo mundo usa para registrar os treinos. KOM vem de King Of Mountain. O Rei da Montanha. Significa que o detentor do KOM foi quem obteve o melhor temo num determinado percurso de bike, o que chamamos de SEGMENTO no aplicativo. Foi bem legal quando consegui a primeira coroa. O app mostra uma tela com a mensagem “Seu tempo é o melhor do mundo”. Então, naquele primeiro KOM, eu olho a lista de todas as pessoas que fizeram tempo naquele segmento e... descubro que foram só três. Comédia rs. Mas ainda assim eu fui o melhor do mundo naquele segmento. Um mundo de 3 pessoas.
Não tardou a vir a segunda coroa, então num segmento mais disputado. Não me lembro exatamente, acho que agora entre uns 60 competidores. Opa! Melhorou bem, o melhor entre sessenta. Estamos no caminho. Treinos e giros. Academias. Pilates. Fisoterapia. Nutrição. Todo um sistema para evoluir na condição atlética, curtir os passeios, e nos meios de semana correr atrás das coroas. Acho muito divertido. Tornou-se um passatempo. Não jogo videogame, RPG, pôquer, ou qualquer tipo de jogo. Meu jogo é correr em busca dos recordes de bike. Como na pandemia não tem havido corridas propriamente ditas, encontro nos giros de quinta a competição que tanto gosto. Tem dias que volto com o objetivo alcançado. Noutros, não. Tudo normal. Hoje saí para o treino forte e voltei com os objetivos estabelecidos (2 coroas), e mais duas marcas extras, não planejadas (1 coroa e 1 Top 10). Dias assim são legais, muito satisfatórios. Você se percebe no caminho certo. Seus esforços estão dando resultado.
Mas o que eu ganho com tudo isso? Financeiramente falando, absolutamente nada. Pelo contrário, gasto bastante. Todo esse sistema de bikes, acessórios, atividades complementares, nutrição, custam dinheiro. É um passatempo que cobra seu preço, se você decidir encará-lo em alto nível. Eu decidi, e como gosto de fazer tudo com excelência, não tem saída: mão no bolso. Vai dinheiro. Mas gasto com um largo sorriso no rosto, porque é meu passatempo. Não gasto com outras coisas. Acho que o custo é baixo, quando penso em todo prazer que isso me traz, saúde, amigos, experiências e lugares novos, o gostinho de sentir-se atleta (ainda que amador). Enfim, minha rede social bem demonstra o quanto todo esse universo de bike hoje faz parte da minha vida.
Tudo legal, tudo bem. Vida seguindo numa boa, Lagartixa pegando seus KOMs, seus TOP 10, até que certo dia um amigo me chama para trocar ideia:
- Fer, você não acha que está muito obcecado por esse negócio aí de ser o número 1?
- Não, não estou.
- Cara, certeza que não?
- Certeza que não.
- Então, é que eu me preocupo com você, cara. Você sai para pegar esses KOMs e desce as ladeiras como se fosse um louco. Irmão, uma hora dessas acontece o pior e você acaba todo arrebentado. Além disso, será que você não está muito focado em ser o número 1, o melhor? Acho que tem uma dose de vaidade nisto.
- Brother, relaxa. É só um passatempo.
A conversa terminou e vida que segue.
Mas claro que conversas assim sempre me levam a pensar. Por mais que na hora eu tivesse respostas negativas prontas, quem sabe até um pouco secas, para a prosa terminar logo, depois eu pensei seriamente no que ele havia dito. Sondei meu coração. Sim, havia uma pequena dose de vaidade. Nada grotesco, distorcido. Eu lido bem com o fato de saber que nalguns segmentos eu não terei perna para pegar a coroa. Então me contento com o Top 10, ladeado por caras muito, muito fortes de Maringá e região. É quando me lembro que já sou um quarentão, e que não faz nem 3 anos que pedalo. Então me dou conta de que fui além de qualquer expectativa. Disputar coroas com a molecada de vinte, trinta e poucos anos, e alguns caras com 10, 15, 20 anos de ciclismo nas costas. Sim, fui além das expectativas. Está mais do que bom.
Após sondar o próprio coração, fui falar com Deus. Eu oro. Na verdade, eu mais fico em espírito de oração, do que orando-falando. Depende do dia. Então, com a tal constatação de uma leve vaidade envolvida na história, fui perguntar a Deus se eu deveria renunciar a essas conquistas, parar de buscar as coroas. Como não posso mentir para Deus, e nem para mim mesmo, eu digo sinceramente que eu ficaria triste se Ele me pedisse tal renúncia. Mais triste ainda se ele me desse uma direção para parar com o ciclismo. Mas se viesse algo assim, eu obedeceria. Tristemente, mas obedeceria.
Então, orando-ouvindo, de início não veio nada. Deus nada falou. Como naquilo que não é literal, eu costumo agir por princípios, entendi que aquela conversa com meu amigo serviu para que eu pensasse na vaidade, e passasse a buscar motivações melhores, não me sentisse o bonzão. Entendi que não era preciso parar com tudo, mas sim alinhar as motivações e os sentimentos. Afinal, eu não estava fazendo algo errado. Era só ajustar. Prossegui com minha busca por recordes e eles foram chegando, um após o outro. Até que duas coisas aconteceram.
Uma pessoa que conheço, muito temente a Deus, com quem pouco falo, entrou em contato comigo e descreveu-me um sonho que teve:
- Fer, eu via você e seus amigos de bike cavando covas. Vocês riam, divertiam-se, levavam a coisa na brincadeira, como se não fosse com vocês. Mas dava para perceber no sonho que as covas eram para vocês mesmos.
Eu não sei o que você pensa dessas coisas. Eu sei que coisas assim são reais. Tenho inúmeras experiências. Pensei no sonho que ela me contou, vi como um alerta para potenciais perigos com a bike. Guardei no coração aquela informação.
Poucos dias depois, aquele mesmo amigo da primeira conversa me procura:
- Fer, sonhei com você. Cara, você descia uma ladeira igual maluco e se quebrava todo. Não morria, mas ficava todo arrebentado, num estado vegetativo
- Nossa! Cara, poucos dias atrás uma outra pessoa sonhou comigo e me descreveu um sonho assim, assim, assado.
- Ow cabeção, você ainda não entendeu que Deus está te alertando para parar com essas descidas kamikaze?! Cara você é o Lagartixa, o cara que escala bem. Não precisa dos KOMs nas descidas. Deixei isso para os outros. Se quiser firmar um nome no ciclismo, então firme como um bom escalador que você é.
- Você está certo. Não vou mais buscar os recordes nos locais que tenham descidas malucas.
- E viu, Deus não está te falando para parar. Ele sabe que você se diverte com a competição. Ele está apenas te cuidando, para que você não faça coisas idiotas por nada, coloque seu pescoço em risco por nada, e acabe numa cama ou cadeira de rodas por nada. Seu nome não precisa estar no primeiro lugar de uma lista tola de melhor tempo. Seu nome precisa estar num único lugar que importa: no Livro da Vida.
Eu agradeci muito a ele pela conversa e então ajustei meu objetivos e motivações. Risquei da lista tudo que envolvia descidas fortes, para não rolar sequer a tentação de ir atrás de recordes perigosos. Desde então tenho feito assim. As coroas continuam vindo. Os Top 10 também. Aliás, mais do que nunca. Porque foquei naquilo que faço de melhor sobre uma bike: ESCALAR. O pulmão não queima. As pernas não queimam. A câimbra não vem. É assim que eu sou, é meu jeito de pedalar, sempre para cima e com força.
Hoje trouxe 3 coroas para casa. Todas em subida. Peguei um Top 3 numa descida. Desci segurando. Claro que quando vi que por 5 segundos eu poderia ter pego também a coroa na descida, rolou a tola ideia de na próxima vez descer mais forte e pegar aquela coroa também. Para logo em seguida eu ser lembrado por Deus que aquela coroa não é para mim. Que outro a pegue. Que outro se arrisque. Ficarei nas subidas. Só nas subidas.
Algo inédito aconteceu recentemente: perdi umas coroas. Em 3 semanas consecutivas, o app me sinalizou que alguém bateu meus tempos. Semelhantemente, vem aquele impulso natural de no próximo treino ir lá e pegar tudo de volta. Aaaah, vaidade. Como disse Al Pacino no filme Advogado do Diabo, naquela memorável cena final, A vaidade é o pecado favorito dele. Perigosa e mortal vaidade. Pensei: “Vou não! Deixa lá. Alguém foi mais rápido que eu, e depois haverá um mais rápido do que o cara, e outro”. Eu não serei o número 1 eternamente. A coroa não é minha. Ela apenas está comigo. Apenas pelo tempo necessário até que alguém mais preparado vá lá e a conquiste. É um processo natural.
O segredo é não se apegar à coroa. Curti-la pelo tempo que for minha, e vê-la partir com naturalidade para repousar na cabeça de um cara mais forte. E tudo certo.
Pensando nessas coisas, e nas insignificantes coroas que tenho no ciclismo, lembrei-me de um texto:
Depois destas coisas, olhei, e eis que estava uma porta aberta no céu; e a primeira voz, que como de trombeta ouvira falar comigo, disse: Sobe aqui, e mostrar-te-ei as coisas que depois destas devem acontecer.
E logo fui arrebatado em espírito, e eis que um trono estava posto no céu, e um assentado sobre o trono.
E o que estava assentado era, na aparência, semelhante à pedra jaspe e sardônica; e o arco celeste estava ao redor do trono, e parecia semelhante à esmeralda.
E ao redor do trono havia vinte e quatro tronos; e vi assentados sobre os tronos vinte e quatro anciãos vestidos de vestes brancas; e tinham sobre suas cabeças coroas de ouro.
E do trono saíam relâmpagos, e trovões, e vozes; e diante do trono ardiam sete lâmpadas de fogo, as quais são os sete espíritos de Deus.
E havia diante do trono um como mar de vidro, semelhante ao cristal. E no meio do trono, e ao redor do trono, quatro animais cheios de olhos, por diante e por detrás.
E o primeiro animal era semelhante a um leão, e o segundo animal semelhante a um bezerro, e tinha o terceiro animal o rosto como de homem, e o quarto animal era semelhante a uma águia voando.
E os quatro animais tinham, cada um de per si, seis asas, e ao redor, e por dentro, estavam cheios de olhos; e não descansam nem de dia nem de noite, dizendo: Santo, Santo, Santo, é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, que era, e que é, e que há de vir.
E, quando os animais davam glória, e honra, e ações de graças ao que estava assentado sobre o trono, ao que vive para todo o sempre,
Os vinte e quatro anciãos prostravam-se diante do que estava assentado sobre o trono, e adoravam o que vive para todo o sempre; E LANÇAVAM AS SUAS COROAS DIANTE DO TRONO, dizendo:
Digno és, Senhor, de receber glória, e honra, e poder; porque tu criaste todas as coisas, e por tua vontade são e foram criadas. (Capítulo 4 do livro de Apocalipse)
Eu não sei quem são os Vinte e Quatro Anciãos. Haveria muita
coisa para especular sobre eles. Quem sabe noutro escrito. Mas de uma coisa eu
sei: suas coroas são muito, muito, mas infinitamente muito mais preciosas do
que minhas míseras coroas de ciclismo. Aí eu penso: Se eles lançam suas coroas
ao chão, ao se depararem com a Glória do Senhor, quem sou eu para me apegar a
uma desprezível coroa virtual de um passatempo?
A Palavra não diz que aqueles Anciãos não podiam ter suas coroas. Da mesma forma, não diz que não posso ter as minhas. Posso tê-las. Posso ter as coroas no aplicativo de ciclismo. Ou as coroas que representam títulos duramente conquistados. Uma formação acadêmica. Uma posição de autoridade. Muitas coisas diferentes podem ser nossas coroas. Coroas são símbolos e poder, nobreza, destaque. Se não as temos literalmente, como alguns reis e rainhas ainda hoje, certamente temos coroas de outra natureza.
Talvez sua coroa seja uma mente brilhante. Um nome destacado. Ampla influência na sociedade. Não são coroas ruins. São lícitas. Você batalhou e as conquistou, assim como pedalei-batalhei e ganhei as minhas no ciclismo, ou batalhei-estudei e alcancei minhas coroas acadêmicas e intelectuais. Podemos tê-las. Nosso Pai permite que as tenhamos. Ele não pediu ou ordenou que os Vinte a Quadro Anciãos as tirassem de suas cabeças. Deus não tem melindres. Ele sabe quem é. Sua coroa é única, perfeita, mais brilhante que qualquer outra. Afinal, Ele é O REI DOS REIS. À vista de sua coroa, o único e natural impulso possível é retirar as nossas o mais rapidamente possível, lançando-as humildemente aos seus pés.
Hoje ganhei 3 coroas. Ótimo. Estarão sob minha guarda por um tempo. Cedo ou tarde passarão para as mãos – ou cabeças – de outros. Mas hoje mesmo, enquanto elas estão comigo, eu as retiro e alegremente as lanço diante do Trono. Porque só Ele é digno de toda glória, honra e poder.
Nossa esse foi demais
ResponderExcluirAté o máximo que fazemos por nós mesmos não é nada diante dos Seus pés.
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