Seguia eu com meus afazeres, quando de repente leio um nome: MARIA ANA. Lembrei-me no ato da única Maria Ana que conheci, mas era pouco provável tratar-se da mesma pessoa. Marias há muitas. Anas também. Marianas aos montes. Mas Marias Anas tem poucas. Bem, pelo menos eu só conheci uma até hoje, e mesmo em muitas situações que tive à minha frente listas com nomes, não me recordo de ter visto outra. Dois nomes simples, que normalmente são unidos no mais usual Mariana. Nome que desde bem jovem eu sempre dizia ser o que eu colocaria numa filha minha; com a concordância da esposa, claro.
Curioso, li o nome completo da tal Maria Ana, e lá estava um sobrenome germânico. Pensei: “Há uma chance de ser a Maria Ana que conheço”. Olhei mais, e vi então na cópia do documento pessoal a foto da minha professora de Química de 1992-93. Maria Ana, mas todos a chamavam de Mariana (sem o gap entre os nomes). Germânica, alta, cabelos e pele e olhos bem clarinhos. Séria e ao mesmo tempo cômica, naquele equilíbrio raro de encontrar. Uma moça muito bonita naquele início dos anos 90, como bela ainda se encontrava em 2016, ano da foto mais recente que vi. Sua voz era forte, como devem ser as vozes dos professores que nos marcam. Todos a respeitávamos. Ela tinha um domínio suave sobre aquela sala com pouco mais de 30 alunos de 15 para 16 anos de idade. Primero Ano do Educação Geral. Colégio Estadual Cianorte.
Quem acompanha meus escritos, já deve ter percebido que olho bastante para os fatos da minha juventude. Realmente. Ainda hoje aprendo muita coisa, e fatos importantes me ensinam, mas é na juventude que encontro alguns que marcaram muito, pois geraram determinado aprendizado pela primeira vez. Coisas que hoje nos parecem banais, impactavam muito mais quando tínhamos metade ou um terço da idade.
Com a professora Maria Ana, no início de 1992, aconteceu uma história e um aprendizado envolvendo um COLAR. Vindo do Princesa Izabel, onde quase reprovei na 8ª Séria, agora eu me encontrava no Colégio Estadual Cianorte. Dentre os públicos da cidade, era possivelmente o colégio mais desejado para se conseguir uma vaga. Eu consegui não apenas uma, mas duas vagas. Pela manhã o Educação Geral, e de noite o Curso Técnico de Contabilidade. Os tempos infantis e juvenis ficavam para trás. No Segundo Grau, novas e desafiadoras disciplinas na grade. Dentre elas, Química. A complexa e difícil Química.
O conteúdo daquele primeiro bimestre, de forma alguma eu seria capaz de lembrar. Só sei que era difícil, para mim e para todos. Alunos em pânico quando chegou a data da primeira prova. Nossa sala ficava nos blocos mais afastados, lá próximo ao campo de futebol, quadra de areia e pista de atletismo (de terrão batido). Eu e vários alunos chegamos bem mais cedo. A prova seria no primeiro horário, período da manhã. Cada um foi escolhendo seu lugar, e naturalmente quem chegou primeiro buscou aquelas carteiras de fórmica bem lisinha, num tom esverdeado muito, muito claro. Eram as ideais para anotarmos com lapiseira as fórmulas de Química para colar na prova. Fórmulas impossíveis de decorar. Quiçá aprender.
Todo mundo ali escrevendo com sua melhor e mais diminuta letra, debruçados sobre a carteira, calculando o tamanho ideal que nos permitisse ver, e ao mesmo tempo ser invisível aos olhos da professora Maria Ana. Além do tamanho, tinha que ser bem calibrada a carga de intensidade do grafite, para não ficar nem claro e nem escuro demais. Química prática. O desafio de encontrar as proporções perfeitas. E lá estou eu, praticamente concluindo minhas “anotações”, quando de repente ouço aquela conhecida e forte voz, falando bem baixinho e perto dos meus ouvidos: “Ali onde você colocou + (mais) o correto é – (menos). Se for para colar, pelo menos use a fórmula correta, Fernando”.
Ferrou!!!
Quando sou pego nalgum vergonhoso flagrante, tenho reações muito típicas. Gelo por completo; fico com o rosto vermelho, queimando de vergonha; e não consigo inventar nenhuma desculpa. Eu não me lembro se consegui ou não olhar para a professora Maria Ana. Fiquei paralisado. Ela saiu da posição inclinada que estava, fez que ia adiante, mas parou e inclinou-se novamente, para completar: “Aquela outra fórmula ali também está errada. Corrija”. Então seguiu e foi passando pelas carteiras de cada um daqueles diligentes alunos que comparecerem 30 minutos mais cedo aquele dia. Da mesma forma – com todo mundo congelado e sem reação – ela ia se inclinando e olhando cada cantinho da carteira, encontrando as fórmulas mágicas para o sucesso. Para alguns ela dizia “Hum, este aqui colocou todas as fórmulas corretas. Tem chance de ir bem”. E noutros casos soltava “Achei mais um que escreveu as fórmulas erradas”.
Após aquele pequeno passeio pelas 10 ou 12 carteiras de fórmica clarinha, que durou não mais do que 3 minutos, ela foi até a porta da frente da sala e falou calmamente: “A prova começa daqui a 20 minutos”. E saiu andando até a sala dos professores. Todo mundo ainda em choque, alguns voltando à vida depois da parada respiratória, e nos olhando meio abobados com a situação. Foi quando olhamos para os fundos daquela enorme sala e vimos a porta dos fundos aberta. Porta que nunca era utilizada. Foi por ali que a fantasmagórica Maria Ana surgiu do nada, pegando a todos de surpresa. Bem, o final é fácil imaginar: carteiras limpinhas no instante seguinte, nenhum vestígio de fórmulas (certas ou erradas) para usar na prova, e um festival de notas baixas no primeiro bimestre. Nenhum sermão. Nenhum olhar maquiavélico da professora. Entrou silente, distribuiu as provas, não trocou ninguém de lugar, não passou revisando nenhuma carteira ou bolsa ou borracha ou lápis, foi recebendo as provas e dizendo educados “bons dias” aos seus alunos que acabavam de aprender uma das importantes lições de vida: NÃO VALE A PENA TRAPACEAR.
Foi uma das lições mais eloquentes que aprendi na vida, e sem a necessidade de um decibel a mais na entonação da voz, ou uma enxurrada de argumentos e broncas. Foi muito louco. Ser pego em flagrante é péssimo. Antes desse fato em 92, uns 5 anos antes eu tinha sido pego furtando chocolate no mercado, e acho que as sensações foram parecidas. Só que na história do chocolate rolou mais bronca – com muuuitos decibéis a mais na voz da Dona Mirian – uma bela surra de cinta e um castigo gigante por várias semanas. Falaremos dessa historinha de bandidinho em escritos futuros. O filho do pastor, numa cidade minúscula, sendo pego furtando chocolate. Pensa...
Enfim, a nota ruim do primeiro bimestre foi absorvida e recuperada no restante do ano, e tudo ficou bem. Fechei em Química, bem como em todas as demais matérias, sem ter que colar. Estudando dá certo. Não houve naquele dia do flagrante, e nem posteriormente, nos 2 anos em que fui aluno da Maria Ana, qualquer menção àquela manhã de aprendizado. Era como se não tivesse acontecido. Sim, tinha acontecido, e tinha sido horrível, mas era um assunto desnecessário. Lição viva. Lição que levei, como disse, por todo o restante daquele primeiro ano, e também no segundo, e por fim no terceiro, então como aluno do Colégio Wilson Joffre, em Cascavel/PR. Fui um excelente aluno em todo o Segundo Grau. As notas que estão lá, anotadas nos meus boletins, não são fake. Elas são minhas de verdade. Refletem o aluno que eu era.
Vieram então os vestibulares, nos quais me dei muito bem. Primeiramente para Arquitetura, no início de 95, quando passei entre os primeiros e comecei os estudos na UEL. Após seis meses eu me encontrava novamente em Cascavel, preparando-me para alguns vestibulares em Direito. A história de minha desistência da Arquitetura merece um texto só para si, o que farei noutra oportunidade. Dos 4 vestibulares para Direito, obtive sucesso em 3, vindo então a ser aluno na Universidade Estadual de Maringá, no início de 1996. Um quarto de século atrás. Dito assim, parece tudo tão velho.
Cidade nova, tudo novo, e as coisas caminhavam bem. Primeira prova: Sociologia Jurídica. Eu e todos colamos. Embora fosse discursiva, algum colega prodígio não apenas fez sua prova rapidamente, mas também providenciou umas anotações resumidas que davam o trilho para todas as questões da prova. Esse papelzinho passou por mim, dei aquela olhada marota, relembrei os conteúdos, e passei adiante o veneno. Nota 80, sabida alguns dias depois. Creio que já na semana seguinte.
Assim como me recordo vividamente das sensações daquela manhã de 1992 com a professora Maria Ana, também me lembro do que senti naquela noite de 1996, quando tive acesso ao "meu" 80. Uma sensação de fraude. Colar é errado. É desonesto. Uma daquelas “pequenas e inofensivas corrupções” da vida, que não fazem mal a ninguém... aparentemente. Mas fazem, num aspecto que também não aprofundarei hoje. Mas, hipoteticamente falando, ainda que não causassem um mau diretamente percebido, continuariam sendo erradas. Regras do jogo. Se o combinado foi “você será avaliado quanto aos conteúdos que aprendeu, numa prova sem consulta”, qualquer mínima coisa que seja uma consulta constitui-se em fraude. E fraude é errado.
Eu me senti uma fraude com aquele 80 em mão. Fiquei pensando no tipo de profissional do Direito que eu viria a ser, se minha formação se fundamentasse em notas que não eram minhas, que não refletissem meus reais conhecimentos. Voltei instantaneamente à normalidade, ao aluno leal às regras, e não voltei a colar em todos os demais anos da faculdade, bem como em qualquer outro teste por que passei dali em diante. Isso me custou uma reprovação em Processo Civil no 3º ano. Custou-me também uma reprovação na disciplina Gestão Estratégica, no MBA que fiz de 2011 a 2013. Em ambos os casos, papeizinhos rolando pela sala, com todas as respostas à mão. Não peguei. No caso do Processo Civil, o colega queria quase me obrigar a pegar as respostas, pois sabia que eu não estava bem, e também sabia que isso significava reprovação. Por uma preocupação louvável para comigo, ele insistia, ao que eu por várias vezes recusei. Até que ele balançou a cabeça, naquele sinal silencioso de negativo, meio que dizendo “Tudo bem, você que sabe. Tentei te ajudar”.
Eu não sou perfeito. E o relato acima não visa a me apresentar como o SENHOR DA INTEGRIDADE, o cara modelo a ser seguido. De forma alguma. Eu tenho muitos defeitos e lacunas, e os conheço muito bem. Mas, dentre eles, um que não pode ser lançado em meu rosto é o ser desonesto. Nem nas grandes, nas médias, ou nas pequenas coisas. Se eu não posso consultar, não consulto. Se aquela linha demarca a área permitida, não avanço. Se o assento é azul e há uma placa de preferencial, eu não ocupo aquele lugar. Se o troco veio a mais, devolvo o que não me pertence E os exemplos poderiam brotar às dezenas.
Penso que as pequenas corrupções não têm nada de pequenas. Elas apenas não chocam tanto, ou (aparentemente) geram pouco dano, ou, ou, ou... As justificativas para continuar com elas, até uma criança consegue encontrar, sem que ninguém a ensine. É muito natural deixar-se seduzir por atalhos. Os resultados imediatos parecen “bons”, trazem uma sensação de “tudo certo”. Mas o grande problema é que um abismo chama outro abismo, e de pequena em pequena quebra das regras, nosso caráter vai se acostumando, e se transformando. Consciência anestesiada. Nem mais vê como errado. As pequenas corrupções crescem para médias, até que ficam grandes, e enfim temos um corrupto completo. Um transgressor. Quem sabe bonito. Respeitável. Referência. Alguém que fala de boca cheia, nas rodas de debates, sobre os desprezíveis e corruptos políticos, estes sim a corrupção personificada.
É hipocrisia que fala?
Eu não sei você, mas para mim eu quero um nível mais elevado de integridade. Honestidade total. É minha pequena contribuição para que algumas coisas sejam melhores no amanhã. E ainda que não passe de uma gota limpa no oceano sujo, é o certo.
Sensacional! Escolhas...
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