Aprendi a ler muito cedo. Sobre esses dias longínquos, minhas lembranças remetem a uma casa em Cianorte, onde passei a primeira metade dos anos 80. Um jardim simples na frente, separado da calçada por uma grade metálica de 1m de altura. Garagem lateral que se estendia por um corredor (descoberto) de piso bruto, desembocando no quintal gramado que toda criança deveria ter: enorme, muito grande mesmo, ao ponto de podermos brincar de bicicleta, apostar corridas, cavar buracos, bolar pistas para nossos carrinhos, subir no pé de ameixa. Um pequeno mundo de aventuras e imaginação.
Do quintal, entrávamos em casa pela porta dos fundos, passando pela área de serviço, cozinha e sala de TV. Um rápido vislumbre da copa à esquerda, onde ficava o lindo jogo de jantar dos meus pais, feito em madeira de lei. Uma das cadeiras daquele jogo - creio que a última sobrevivente - encontra-se comigo, resgatada do sítio do meu pai há pouco tempo. A mesa e o balcão ainda estão com ele, tão lindos quanto 4 décadas atrás. A partir dali o caminho natural da casa levava para os cômodos mais à direita, onde estavam o corredor com entradas para banheiro e 3 quartos.
Banho tomado, lanche ou jantar realizados, e o que fazer até a hora de dormir? Penso que a bênção daquela época era não ter tantas coisas disponíveis para roubar minha atenção. Nossa vida simples não envolvia games, TV até tarde, tablets, smartphones ou coisas assim. Lembro-me de muitas e muitas vezes estarmos na copa ou sala, ouvindo os disquinhos coloridos com histórias da Bíblia, que geraram em minha cabeça as figuras ou enredos que ainda hoje são acionados quando me deparo com alguns personagens. Ao ouvir pela primeira vez a história da criação, um pequeno filme rolou em minha mente infantil, conforme a descrição de cada um dos 7 dias era narrada. Hoje, adulto, rolam as mesmas imagens mentais.
Mas havia um último cômodo na casa, sobre o qual ainda não falei: o escritório do meu pai. Entre ele e a copa, estava nossa sala. No escritório, carpê no chão, cortina simples, um pequeno gaveteiro de aço cinza claro, mesma cor das duas estantes, também de aço; dessas que ainda hoje se usa em bibliotecas. Uma mesinha de estrutura metálica com tampo e gavetas de madeira, sobre a qual ficava a boa e velha máquina Olivetti, que fazia barulho toda vez que meu pai datilografava alguma mensagem em que estivesse trabalhando para os sermões da igreja. O templo, aliás, ficava bem ao lado dessa casa que descrevi, bastando abrir a porta do escritório e caminhar uns poucos metros.
Mas vamos falar daquelas duas estantes de aço. Naturalmente, continham livros. Muitos livros. Não uma coleção sortida e bem equilibrada com exemplares da boa literatura brasileira e universal, ou livros técnicos sobre diversas áreas do conhecimento. Basicamente, livros de temática cristã, Bíblias, revistas de estudos, e a Barsa – vermelha, com aquelas letras douradas na lombada lateral – destacando-se em meio às outras centenas de volumes. Essa, desde que entrou em nossa casa, atraiu-me. Vagamente, consigo me recordar do dia em que foi adquirida. Estávamos todos em casa, quando um vendedor apresentou-a ao meu pai, e vimos a negociação acontecer. Aquela coleção ainda existe na atual biblioteca dele, lá no sítio em São José; surrada, amarelada, e ladeada por muitos outros livros da mesma época, que sobreviveram às numerosas mudanças de cidade por que passamos. Interessante que uns anos atrás eu também adquiri uma Barsa para minha coleção de livros. Consegui a última edição impressa, que raramente leio, mas está em local de destaque na biblioteca. Ela é meio que um símbolo do meu despertar para a leitura e a vida intelectual.
Eu ia muito à biblioteca do meu pai. Ele dava livre acesso, pedindo apenas que houvesse cuidado no manuseio, que as páginas não fossem riscadas ou amassadas. Mas havia liberdade para estar lá. E muito cedo eu escolhi a companhia dos livros. Coisa mais comum era puxar um volume qualquer da enciclopédia, abrir aleatoriamente, e ler o conteúdo do verbete que saísse. Cultura Geral, Antiguidade Clássica, Ciência e Tecnologia, Corpo Humano, Animais, Sistema Solar, etc. Um pequeno mundo de conhecimento, dentro daquele meu pequeno e gostoso mundo infantil, situado na Rua Guararapes, 390, fone 22-1646, CEP 87200-000, Cianorte/PR, Brasil.
Que gostosas lembranças essas da infância. Que anos bons. E a minha foi longa, heim! Eu diria que fui criança até os 15 anos de idade. Claro, por aí eu já me aproximava de uma transição para a fase de adulto; tecnicamente, era um adolescente. Mas com 15 eu tinha muito mais a ver com o Fernando de 10 anos do que com o que viria a ser o Fer de 20. Eu gostava de brincar, praticar meus esportes favoritos, fazia muita bagunça na rua, tinha zero preocupações importantes sobre a vida. Um ou dois anos depois, viveria um contexto totalmente diferente, com definições importantes para meu futuro, tais como qual faculdade fazer, que profissão abraçar, estava em meu primeiro namoro e os planos para uma vida a dois entravam no radar, etc. Coisas de adulto, após curtíssimos 2 anos. Mas aos 15... nada disso. Uma rotina muito semelhante à infantil de sempre, até então.
Algo que se instalou em mim muito cedo, conforme parágrafos iniciais deste escrito, foram o gosto e uma rotina consistente de leituras. Eu não posso cravar, mas suspeito que aos 6 anos já lia fluentemente. Não mais uma catação de letras ou sílabas, e sim leitura boa, com compreensão, níveis iniciais de interpretação. Ali tinha início a ÁREA INTELECTUAL da minha vida. Leitura era o que havia na época. Outros recursos, amplamente acessíveis a todos nos dias de hoje, nem existiam: podcasts, vídeo-aulas, canais culturais, cursos on-line, streaming, etc. Imagine. Naquela metade final dos anos 80 e a primeira metade dos 90, as informações eram encontradas basicamente por três meios: TV, rádio e livros.
Se eu ouvia rádio? Sim, só que bem pouco. TV? Sim, como qualquer criança da época, e muito, muito menos do que viriam a consumir as crianças de épocas posteriores à minha. Mas nos livros eu gastava um tempão. Mais que a média das crianças contemporâneas a mim, e muito mais do que as das gerações que me sucederam. Um típico nerd? Não, acho que não. Apenas uma criança normal, que adorava adquirir conhecimentos sobre a vida e o mundo. Menos pelas notas, mais pelo prazer do saber. Tirante a quase reprovação na 8ª Série, um ótimo aluno. Interessado. Assíduo às aulas. Mas eu não ligava muito mesmo para as notas. Se elas fossem suficientes para aprovação, por mim tudo bem. Importava-me mais em saber as coisas. E continuo exatamente o mesmo neste ponto. Despreocupado com títulos, como falamos no escrito 015 MAIS SABEDORIA, MENOS TÍTULOS: “Não foi apenas a Língua Inglesa que eu conscientemente decidi não aprender. Houve outras habilidades que não quis pra mim. Fiz apenas uma Especialização, e depois de vários anos de formado na graduação em Direito. Não quis Mestrado. Doutorado, nem pensar. Não porque eu despreze o conhecimento. Pelo contrário. Tenho muito apreço por ele, e quem me conhece o sabe muito bem. O caso é que nunca me apeguei a títulos, diplomas, ou coisas semelhantes. Importa-me mais o saber. Há também quem saiba muito e tenha os seus títulos na parede. Nenhum problema. Parabéns. Mas eu não quis nada além do básico na minha parede. Meio espartano”.
Pois bem. Acho que já ficou claro o quanto eu considero importante a ÁREA INTELECTUAL da vida. Mas o que a compõe? Quais seus ingredientes? (para mantermos sempre viva aquela analogia com a pizza). Bem, eu estruturaria a intelectualidade pessoal em dois blocos, um consistente na Educação Formal, e outro consistente no Autodesenvolvimento. Como se verá a seguir, não são blocos estanques. Há zonas de intersecção, onde você bebe um pouco das duas fontes.
EDUCAÇÃO FORMAL: escrita, leitura, idiomas, escola, cursos, graduação superior, especialização, MBA, mestrado, doutorado.
AUTOEDESENVOLVIMENTO: leitura, escrita, cursos, inteligência emocional, cultura geral, sabedoria.
Evidentemente, não temos ali duas listas fechadas. Coloquei alguns exemplos, de um leque que pode se abrir para muitos mais itens em ambos os blocos.
“Mas Fer, explique melhor essa coisa de um mesmo elemento da vida intelectual estar nos dois blocos. A escrita e a leitura, por exemplo, o que as distingue numa abordagem e na outra?”. Boa pergunta. A resposta tende a clarear as coisas.
Após o aprendizado da fala, esta sim o “marco zero” para a apreensão de conhecimentos e, por consequência, sendo ela o veículo primário para aquisição de alguma bagagem cultural – ou muita, pois há pessoas analfabetas que dão show em diplomadas – chega a hora do próximo nível: LER e ESCREVER. Parêntesis: a essa altura você pode estar se perguntando por qual razão estou me detendo em elementos tão básicos, ao invés de partir para o que realmente interessa. Resposta: então, é justamente aí que a coisa enrosca. Se o básico não foi bem feito, como avançar para os idiomas, cursos, especs e tudo mais?! Modestamente (ou não, rs), digo que sou um bom leitor e um escritor em processo de formação. Sabe por quê? Porque uma base muito boa foi lançada lá atrás, desde umas 4 décadas para cá. Iniciou-se um ciclo virtuoso de conhecimento, no qual o domínio da linguagem foi, é e continuará fundamental. Se eu não acreditasse nisso, por qual razão ainda hoje eu continuaria estudando a Língua Portuguesa? Eu já a conheço suficientemente bem para produzir mais 1000 escritos como este. Mas não sei tudo. Seguramente jamais a dominarei completamente. E por isso vou me contentar com os poucos anos de Ensino Formal de Língua Portuguesa que tive nos bancos escolares? Certamente que não. Investi muito mais horas nela na fase do Autodesenvolvimento, do que na primeira. É disso que estamos falando.
Eu me recordo perfeitamente bem que nos meus tempos de escola, quando o caderno de algum colega passava por minha mão, era tudo compreensível. As pessoas sabiam escrever, liam fluentemente; uma interpretação básica de texto não era uma luta. Mas não apenas hoje, mas já de vários anos para cá, noto a escassez desses fundamentos. Pessoas graduadas mal sabem escrever. Comunicam-se, é verdade... com um vocabulário de 500 palavras. Eu lido com textos e documentos diariamente – não entrarei em detalhes, por óbvio – mas quantas e quantas petições de advogados eu preciso decifrar, para dar o encaminhamento seguinte. E olha que hoje há modelos para tudo na internet. Mas precisou produzir algo inédito, autoral... vixi, a coisa é feia.
Enfim, para você que não viu muito sentido nos dois parágrafos acima, só peço um pouco de paciência. Pessoas bem jovens podem ter acesso a este escrito, e está em tempo de serem alertadas para a importância dos fundamentos. Ou pessoas em etapas já mais avançadas da vida, que deixaram também de lado essas bases, poderão ainda correr atrás e tornarem-se boas leitoras, e escreverem fluentemente na própria língua natal. Vi exemplos de ambas as categorias. Dentre os mais jovens, a filha de um amigo meu, que do alto dos seus 12 ou 13 anos adorava tirar onda comigo porque eu sempre estava com um livro em mão. Chamava-me de nerd, esquisitão, intelectual, etc. De meu turno, eu pegava muito no pé dela para começar a ler, até que consegui. Não muito tempo depois, a Júlia estava concluindo um volume após o outro. Hoje é uma moça, deve se casar em breve. Até onde sei, participou com um texto num livro já publicado, de diversos autores adolescentes. Por estas lentes, ela me ultrapassou, pois ainda não publiquei meu primeiro. E dentre pessoas mais maduras, que vi se voltarem para o básico, na busca de crescimento, está meu tio e grande amigo Mário Lago. Já na faixa dos 40 anos, com várias lacunas em sua Educação Formal – precisou trabalhar muito cedo – algumas circunstâncias da vida exigiram dele mais preparo do que ele possuía. Detestava ler. Um cara inteligentíssimo, construiu muito, venceu. Mas havia lacunas intelectuais, leituras básicas que nunca tinha feito, cursos, etc. Decidiu entrar no processo e começou a ler mais, sozinho, na raça, X horas por dia todas as manhãs; e assim foi crescendo, crescendo, e crescendo em conhecimento. Conversar com ele é sempre enriquecedor. Antes de ele ter se tornado um leitor, já era; depois, então, aí fica até difícil acompanhar os raciocínios 3.0 dele. É genial. Quantas pessoas você conhece que se tornaram Químicos, sem ter passado pela Educação Formal?! Pois é... titio é o cara!
Resumindo: LEIA! LEIA! LEIA! “Mas ler o quê, Fer?!”. Comece. Apenas comece. O refinamento virá com o tempo e a experiência.
Ler, portanto, situa-se tanto no bloco da Educação Formal, como também no do Autodesenvolvimento. Assim, se suas leituras mais intensas ficaram num passado distante dos bancos escolares, e de lá para cá você malemá concluiu 1 ou 2 livros por ano – estou sendo generoso; as estatísticas afirmam menos que isso – está na hora de acordar e colocar isso em ordem. “Ah Fer, mas eu não gosto de ler. Ainda assim eu me graduei e pós-graduei, tudo isso sem ter essa tua paixão aí pelos livros”. Eu sei, eu sei. Ter bons diplomas na parede é possível, mesmo sem ter lido ou estudado muito; ou estudado apenas para as provas e o TCC. Mas e aí, deixando os canudos de lado, você conseguiria olhar para o espelho e ver ali uma pessoa intelectualmente notável? Obs: é nessa parte que muita gente passa a não gostar de mim, rs.
Escrever então... aí já é pedir muito, né? Calma, Calma. Não estamos aqui a sugerir que todos cheguem a ser um Machado, um Camões, um Lobato (para citar apenas caras que produziram em Português). Esses foram pontos fora da curva, gênios. Refiro-me a escrever meramente como uma disciplina intelectual, para colher todos os seus benefícios. Diferentemente da leitura, que é um processo mais passivo, na escrita você precisa acessar toda a sua bagagem de vida (cultura, leituras, lembranças, criatividade, dados, etc) para que uma frase venha à existência. Processo ativo. Processo criativo por excelência. E pensar que desse nada que passa a existir, com PALAVRAS você pode tocar vidas, fazer rir ou chorar, matar ou trazer vida. Tomo como exemplo o que é, para mim, o maior discurso do século XX:
“Muito embora grandes extensões da Europa e antigos e famosos Estados tenham caído ou possam cair nos punhos da Gestapo e de todo o odioso aparato do domínio nazista, nós não devemos enfraquecer ou fracassar. Iremos até ao fim. Lutaremos na França. Lutaremos nos mares e oceanos. Lutaremos com confiança crescente e força crescente no ar. Defenderemos nossa ilha, qualquer que seja o custo. Lutaremos nas praias, lutaremos nos terrenos de desembarque, lutaremos nos campos e nas ruas, lutaremos nas colinas; NUNCA NOS RENDEREMOS. E se, o que não acredito nem por um momento, esta ilha, ou uma grande porção dela fosse subjugada e passasse fome, então nosso império de além-mar, armado e guardado pela Frota Britânica, prosseguiria com a luta, até que, na boa hora de Deus, o Novo Mundo, com toda a sua força e poder, daria um passo em frente para o resgate e liberação do Velho”. (Winston Churchill, ante a ameaça de invasão nazista na Inglaterra)
Link deste discurso no filme “O Destino de uma Nação”: https://youtu.be/3vQ8LCdIfAw
Toda vez que leio estas palavras, sou tomado por emoções. Quase todas nobilíssimas. Mas uma, ao menos, não muito bonita: uma pontinha de inveja (risos). Poderia eu algum dia escrever algo tão bom? Tão vibrante? Tão potencializador? Quem sabe, quem sabe... Comparado a Churchill, que escreveu tais palavras já no crepúsculo de sua vida, ainda sou um menino. Há tempo. Preciso apenas continuar escrevendo, para que os grandes textos venham à existência.
Dito isto, concluo que faz parte de uma VIDA INTEGRAL, no seu aspecto intelectual, não apenas consumir conteúdos, ou colecionar certificados, mas produzir algo para além de si. E vejo na escrita uma das ferramentas mais espetaculares para este mister. Algo que você pode começar hoje mesmo, com o que tem. Sem pretensões. Sem comparar-se aos que são gigantes. Eu já havia escrito muito, mas cerca de 9 meses atrás decidi subir o primeiro texto no blog, e cá estamos hoje no meio da escrita do 73º. Até onde sei, algumas pessoas foram tocadas por alguns deles, de forma muito positiva. Só por isso, tudo valeu a pena.
Quanto ao mais, não vamos nos deter em cada um dos vários itens dos dois blocos da ÁREA INTELECTUAL da vida. A reflexão que pretendo deixar para hoje, a lembrança – pois você já sabe – é que a atenção dada a esta área é importante demais para continuar sendo desprezada, como por muitos tem sido. Instruídas – pelos outros ou por si, autodidaticamente – as pessoas tomarão decisões melhores, terão relacionamentos mais ricos, escaparão de armadilhas e enganos, trabalharão melhor, deixarão legados maiores; tudo diretamente proporcional ao tamanho que decidirem dar ao seu intelecto. Sim, aí está a grande chave de hoje: o tamanho da sua vida intelectual está em suas mãos. Porque ninguém nasce inteligente. Porque ninguém nasce burro. Porque QI é apenas uma referência. Porque QE também o é. Potencialmente, TODOS PODEMOS MUITO. Só que dá trabalho. Ter esta área da vida em plenitude não é para quem quer, mas para quem paga o preço.
Nenhum comentário:
Postar um comentário