quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

074 PROFISSIONAL (parte 5/7)

Um pensamento de quando eu era criança, a respeito do trabalho - que hoje recordo achando graça -, era mais ou menos assim: “Trabalhar deve ser muito chato. Quando eu crescer, vou viver em férias”. Sinal que eu era um menino normal, totalmente absorvido e feliz pelo estilo de vida daquela fase, cujas maiores “preocupações” eram estudar, brincar, comer, brincar mais um pouco, assistir TV, dormir, e repetir tudo no dia seguinte. A rigor, criança não trabalha - ou não deveria, pelo menos não muito precocemente -, salvo algumas tarefas domésticas colocadas pelos pais. Assim funcionava meu lar na infância.

Os exemplos de trabalho que tive dentro de casa foram positivos. Meu pai, pastor evangélico, tinha uma rotina profissional um pouco diferente das demais pessoas que eu conhecia. Digamos que consistia em estudar a Bíblia e outros livros para aprendizado dos temas que expunha em suas pregações; orar; visitar pessoas para o necessário acompanhamento pastoral; conduzir o culto no templo, que normalmente ficava ao lado ou bem próximo das casas onde moramos. Não era, como se percebe, aquela rotina profissional “padrão”, igual à dos pais dos meus amigos de infância. Eles saíam para trabalhar, alguns voltavam para almoçar em casa, e tinha o retorno para o lar no final da tarde. O quê exatamente seus pais faziam naquelas horas de trabalho, creio que a maioria dos meus amigos nem saberia descrever. Eu, pelo contrário, via meu pai trabalhando e sabia como era.

Minha mãe cumpria uma rotina profissional mais “típica”. As lembranças mais remotas que consigo acessar, são de nosso primeiro período em Cianorte, do início até meados dos anos 80. Naqueles anos, não lembro  dela trabalhando fora de casa. Estudava, creio que concluindo o Magistério. Mas, esposa de pastor que era, trabalhava muito nas atividades da igreja. Sempre (sempre!!!) muito ativa e envolvida; uma líder nata. Pouco tempo depois, nos anos de 1987-88, consigo enfim encontrar a primeira lembrança do trabalho que eu veria minha mãe realizando pelas décadas seguintes. Começou a lecionar em Pirapozinho/SP, onde cheguei a acompanhá-la algumas vezes nas escolas. Uma vez na Vila Santa Rosa, numa turma noturna; outra, numa escola rural na localidade Noite Negra, entre Pirapozinho e Presidente Prudente. Dali em diante, o que posso dizer sobre a Dona Mírian profissional, é que conheço poucas palavras para descrever sua dedicação e entrega à missão educacional.

Um terceiro exemplo de dentro de casa, foi meu irmão Marcelo. Bem cedo, pelos anos de 1991/92, aos 12-13 de idade, ele iniciou sua jornada profissional como boy numa farmácia em Cianorte, em nossa segunda passagem por lá. Uns 3 anos depois, após nova mudança de cidade (Cascavel), foi só o menino fazer um curso básico de informática (DOS, Windows, Word, Excell), que na turma seguinte já era instrutor, seguindo-se sua imersão na área de computadores e tecnologia, com o que trabalhou por vários anos.

Para fechar, falta falarmos dos outros dois elementos da casa: eu e a Pri, irmã caçula. Nesse enredo profissional, fomos os últimos a entrar em cena. Ótimos alunos - creio que um pouco à frente do Mar em notas e performance -, cedo entendemos que nos estudos estava a chave para nosso futuro. Família simples, sem empresa, fazendas, ou possibilidade de nos legar grandes recursos para a fase adulta, era nítido que precisávamos nos preparar para o vestibular, ingressar num bom curso e, consequentemente, ganhar o mercado de trabalho. Teríamos que cumprir o roteiro normal para adolescentes dos anos 1990. Particularmente, não tínhamos o perfil empreendedor do irmão do meio. Não sei dizer exatamente qual o primeiro trabalho formal que vi a Pri realizar. Já adulta, advogando ou como servidora pública, seguiu os bons exemplos de dentro de casa, sendo também uma trabalhadora exemplar. Mas, e o Fernando profissional? O que dizer dele?

Minha atitude inicial (infantil) para com o trabalho, como dito na abertura, era de achá-lo algo bem chato. Anos depois, quando finalmente parei de escrever “estudante” como minha profissão, tendo efetivamente uma para chamar de minha, descobri-me um cara muito trabalhador. Mas um pouco antes disso, pelo período que foi do segundo grau até o início da faculdade, tive algumas experiências profissionais informais que merecem menção.

Dentro de casa não havia o sistema de mesadas. Quando precisávamos de algum dinheiro, recorríamos (eu e meus irmãos) aos nossos pais. Havia tarefas para cada um de nós: a Pri normalmente ficava responsável pela cozinha; eu e o Mar nos revezávamos entre a limpeza das calçadas, lavar o banheiro, e passar pano nos móveis, ou o que mais a mãe mandasse fazer. Fato que considero muito positivo sobre esse período era não recebermos dinheiro pela realização dessas tarefas. Já observei famílias que escolheram um modelo de remuneração dada aos filhos pelo que fazem dentro da casa. Particularmente, não gosto e não adotaria com filhos meus. Penso que todos os integrantes da família devem trabalhar e contribuir para a manutenção e o bom funcionamento do lar, mesmo que haja recursos para uma empregada. E se não há, acho péssima a ideia de tornar a mulher/mãe/esposa empregada da casa. Não faz sentido. Infelizmente, vivemos num contexto social em que isso acontece quase naturalmente. Mulheres cansadas e sobrecarregadas são o resultado... enquanto o maridão degusta a cervejinha assistindo ao futebol, e as crianças não saem do videogame, incapazes de levar os pratos da sala até a pia.

Bem, o modelo de minha casa na infância não era perfeito. Acabava que Dona Mírian ficava sim com a maior parte dos afazeres, mas por menor que fossem as contribuições do esposo e filhos, no fim das contas era algo a menos para ela. Para nós, crianças da casa, penso que um grande efeito era justamente esse aprendizado do conceito de que todos ali dentro podem e devem fazer algo, e que trabalhar faz parte da vida. Queríamos, claro, terminar o mais rapidamente possível para poder sair e brincar, ver TV, ficar de bobeira. E quantas vezes, por fazermos correndo, aconteceu de sermos chamados para refazer o serviço. Alguém aí se identifica? Coisas assim acontecem na vida adulta?

Nos meus 15 para 16 anos de idade, tive enfim as duas primeiras experiências profissionais. A primeiríssima, ainda intramuros, consistia na “datilografação” de apostilas para minha professora de História (Eneida), na máquina do meu pai. Ela me passava os livros, devidamente marcadas as partes e a sequência que eu deveria escrever, e eu realizava o serviço em papel carbono (sem possibilidade de errar), para depois serem rodadas cópias naqueles mimeógrafos a álcool. O material era utilizado em diversas turmas da escola, inclusive na minha sala. Naturalmente, eu chegava muito preparado para as provas, sendo um dos mais bem avaliados na matéria. Não me recordo de detalhes das tratativas, apenas o fato de que tinha uma pequena remuneração pelo trabalho, conforme o número de folhas datilografadas. Por essa época eu havia concluído meu curso de datilografia na escola Remington em Cianorte.

Logo a seguir, ainda nos meus 15 de idade, fiz um curto estágio num escritório de arquitetura. Essa sim a primeira atividade profissional fora dos muros protetores do lar. A arquiteta (Valéria Tramontini) era muito agradável, mas seu auxiliar... um perfeito xarope. Sempre tive facilidade com desenhos, especialmente os técnicos. Chamando a atenção logo no teste inicial, a arquiteta elogiou e viu em mim um bom potencial. Mas o tal assistente, só fazia criticar, nitidamente incomodado com o novato que desenhava melhor que ele. Tudo, tudo, tudo que eu fazia era solenemente criticado por ele, por melhor que estivesse. Lembro-me de muitas vezes refazer um trabalho, que de início eu considerara bom, mas era reprovado pelo “controle de qualidade” do abençoado. Ao final, repassando todos os estudos e desenhos que produzi, não raro a arquiteta escolhia aquela primeira opção. Era frustrante a sensação de ter feito diversos outros estudos à toa, simplesmente porque um infeliz auxiliar se sentia ameaçado pelo caçula do time. Fiquei pouco tempo ali, menos por esse tipo de situação, mas mais por entender a necessidade de pegar firme nos estudos. A palavra VESTIBULAR estava no radar.

Passados 2 anos, tive meu terceiro trabalho. Segundo semestre de 1995, Cursinho Alfa de Cascavel. Acabara de voltar de Londrina, onde cursei parte do 1º ano de Arquitetura e Urbanismo na UEL. Deixei o sonho da Arquitetura para encarar a realidade de uma faculdade que me permitisse trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Para tanto, precisava primeiro passar novamente no vestibular, então fui ao Alfa e chegamos num entendimento. Uma permuta: eu poderia frequentar o cursinho como aluno em qualquer período (manhã, noite, ou manhã e noite), e em troca eu cumpriria X horas de monitoria no período da tarde, na sala de estudos, ficando à disposição de todos os alunos do cursinho para revisão de matérias, resolução de exercícios ou o que mais precisassem. Uowww, foram 3 meses muito loucos! E foi daquele jeito mesmo que aconteceu. Eu assistia aulas de manhã, ia para casa almoçar; retornava ao cursinho para 4 horas de monitoria, ia para casa comer e tomar banho; voltava ao cursinho para as aulas da noite. Envolvido das 7h30 da manhã às 22h30 no meu trabalho de estudar e ensinar. Umas 15 horas diárias na função.

O resultado veio (quase como planejado). Fui aprovado em diversos vestibulares, menos no que eu mais queria (UNESP), fato que culminou no término de meu primeiro namoro – a expectativa com a UNESP era porque isso me levaria para a mesma cidade dela. Acabei optando por Maringá, dentre as que passei. Em meados de 1996, durante meu primeiro ano no Curso de Direito (UEM), passei numa seleção para trabalho temporário no IBGE, no Censo daquele ano. Por ser o melhor colocado, tive a opção de trabalho interno, juntamente com os servidores de carreira do órgão. Meu chefe, Sr. Laercio Aralli, foi uma bênção. Que homem trabalhador, dedicado e inspirador. Aprendi muito com ele, como também com alguns dos demais servidores do IBGE. Mas teve um que não era nada legal; bem desprezível, por sinal. Já tiozão, dava muito em cima das moças recenseadoras, e via-se nitidamente incomodado com minha presença na equipe interna. Como se o “leão velho” quisesse mostrar ao “leão novo” que ali era o território dele. Realmente, um cara com atitudes totalmente reprováveis. Lembro-me que a certa altura ele foi repreendido pela chefia, e os assédios cessaram. Naquele semestre no Censo eu conheci a realidade de que a vida profissional nos coloca, eventualmente, em contato com pessoas ruins, e por vezes você não tem como escolher ficar longe delas.

Findo o Censo, já no início de 1997 passei numa seleção para vendedor de cursos de inglês em 12 meses, na British & American. Justo eu, que não falava (e não falo) inglês, vendendo cursos pelas calçadas de Maringá. Claro que era uma fria, e não fiquei por lá mais do que algumas semanas. A tal seleção merece um escrito só para ela, que virá em algum momento. Coisas bem hilárias aconteceram.

Pelos 3 anos e meio seguintes, trabalhei como Auxiliar Administrativo no Núcleo Regional de Educação de Maringá. Estive em quase todos os setores internos daquele órgão, o que muito contribuiu para o aprendizado de diversas competências que me acompanharam por toda a vida profissional. No NRE fiz processamento de dados, RH, auxílio em concurso de provas e títulos, motorista, vistorias em escolas de todas as cidades da região, controle de patrimônio, datilógrafo em sindicâncias e muito mais. O Fer – sim, por toda a vida e em todos os lugares nunca fui chamado de Fernando – era o polivalente. Salário baixinho, mas isso não me movia. Eu fazia o que tinha que fazer, ajudava em casa – salvo engano, o condomínio do apartamento era por minha conta – pagava minhas pequenas contas pessoais, e guardava um pouco todo mês para adquirir minha primeira moto. Eu sonhava com a Honda Shadow, mas a primeira foi uma CGzinha mesmo... e com o precioso auxílio da Dona Mirian.

Finalmente, em meados de 1999, ocorreram os fatos minuciosamente descritos no escrito 059 MEIA VIDA, que culminaram no meu ingresso na Justiça Federal, em pleno 3º ano de faculdade. Trabalho ao qual me dedico há exatos 22 anos, ou seja, metade da minha vida até aqui. Com o texto já se alongando, não entrarei em detalhes específicos sobre a JF, porque realmente não tem como resumir. Muitos escritos sobre essas histórias virão no futuro, sempre num contexto de extrair ensinamentos a partir daqueles acontecimentos, como sempre procuro fazer. Mas o que se pode dizer, resumidissimamente, é que nesses muitos anos de Justiça Federal, uns poucos no NRE, semanas na escola de inglês, e poucos meses no IBGE, Alfa e escritório de arquitetura, e também no freelance como datilógrafo, minhas marcas mais características foram ENTREGA e DEDICAÇÃO.

Nunca comi o pão da preguiça, graças a Deus. E claro, muito disso deveu-se aos bons exemplos profissionais que tive nessa longa jornada, mas o principal, a fonte que realmente me moveu profissionalmente, é um importante PRINCÍPIO encontrado na Palavra do Senhor:

E TUDO QUANTO FIZERDES, FAZEI-O DE TODO O CORAÇÃO, COMO AO SENHOR, E NÃO AOS HOMENS, SABENDO QUE RECEBEREIS DO SENHOR O GALARDÃO DA HERANÇA, PORQUE A CRISTO, O SENHOR, SERVIS. (Colossenses 3:23-24)

Aqueles parágrafos iniciais podem ter passado a impressão do Fer como um trabalhador excelente. E está correto. Eu fui. Eu sou. Mas mesmo pessoas muito dedicadas tem seus dias ruins, semanas, às vezes até meses inteiros em que a coisa não vai bem lá na firma. Passei por isso, como também você que me lê. Nenhum de nós é à prova de bala. Às vezes o caso é você estar num trabalho muito distante daquele que sempre sonhou; noutras, um “colega” assediador; salário notadamente abaixo do que você deveria receber (injustiça); problemas pessoais; desânimo; uma preguicinha... (eita!!!).

Pois é, eu já me encontrei em todos aqueles cenários ali, e não é fácil. Não, não é fácil. Mas é um pouco menos difícil quando você tem, por fé, o entendimento de que tudo está sob o controle das Mãos do Senhor. Ele é o verdadeiro patrão. Ele provê seu salário. Ele permitiu aquela equipe perto de você. Ele observa enquanto você trabalha. Ele te recompensará, positiva ou negativamente, por tudo quanto você fizer. E TUDO é TUDO! Sempre destaco isso. Por isso eu trabalho diligentemente. Pela mesma razão que pedalo com muito empenho, durmo como um urso, como igual a um pedreiro depois de cavar buracos para a fundação, leio e estudo consistentemente, procuro escrever como um escritor de verdade, amo a quem eu amo com muita intensidade, e etc, etc e etecetera. TUDO é TUDO! Trabalho faz parte deste TUDO.

Quem sabe as coisas ainda não melhoraram porque o Senhor não tem visto TODO O SEU CORAÇÃO aplicado em algo que está sob sua responsabilidade. Algumas vezes, quando em meu íntimo me senti acusado por não ter procedido diligentemente em algo, não foi legal. Vem a culpa, rola o arrependimento, então um sincero pedido de perdão pelo erro, e a necessária mudança de atitude. Como que por “mágica” – mas não é mágica – no dia seguinte há uma motivação renovada, um homem diferente, uma mulher diferente, pura e simplesmente porque a Palavra trouxe vida onde havia morte, ânimo onde havia prostração, dedicação onde havia relaxamento. Nenhum livro auto motivacional consegue gerar isso por longo tempo. Na melhor das hipóteses, um verniz de mudança. Só que mudança real mesmo, só no Senhor.

Seria isso por hoje. A lembrança de que uma VIDA INTEGRAL precisa ter seu aspecto laboral muito bem resolvido. Seu salário não é o mais importante. O “nome” do seu cargo não determina muita coisa. Seu nível de influência e poder – pasme! – não são seus; quando muito, estão contigo, e muito provisoriamente. Mas o COMO VOCÊ FAZ é que conta. É para isto que seu verdadeiro chefe está olhando, e com base nisto ele te recompensará.

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