“Em caso de despressurização da cabine, máscaras de oxigênio cairão automaticamente. Puxe uma das máscaras, coloque-a sobre o nariz e a boca, ajustando o elástico em volta da cabeça e respire normalmente. Depois auxilie a criança ao seu lado”.
Eu não me recordava das palavras exatas deste texto que é lido pouco antes do início de cada vôo. Gosto de fazer as coisas 100% de memória aqui nos Escritos Aleatórios, sem recorrer a consultas, mas como quis ser preciso na citação, apelei para o Tio Google. Encontrei rapidamente o texto, e qual não foi minha surpresa quando vi que a matéria que o continha trazia exatamente a mesma ideia que eu havia pensado para este início do 071. Basicamente, a perplexidade que ele causou em mim, quando o escutei pela primeira vez.
Convidado para um trabalho rápido em Porto Alegre, em fins de 2003, precisei me deslocar de carro até Londrina, pois naquele momento não havia vôos partindo de Maringá até a capital dos gaúchos. Eu, com 26 anos, em minha primeira viagem aérea. Poderia tê-la feito muito antes, mas viajar pra lá e pra cá nunca foi uma pira pra mim. Sou caseiro. Após essa primeira, vieram tantas em anos posteriores, que eu não suportava mais não parar em casa. Pagaria para ter uns dias sossegado no meu canto, sem cortar os céus do Brasil de ponta a ponta, semana após semana, por anos seguidos. Mas outra hora a gente conta essa história.
Enfim, tudo normal, avião taxiando, quando de repente eu ouço a frase que não encaixou bem nos ouvidos. Em outras palavras, mas no mesmo sentido: “coloque a máscara primeiro em você, e somente depois ajude aos outros”. Meu senso de sobrevivência deve ser menor que o de compaixão, pois meu sentimento automático foi o de que aquilo estava errado. Algo como “Não, de jeito nenhum! Eu tenho que ajudar as pessoas. Eu sou forte, jovem e saudável. Dane-se máscara para mim, eu fico sem. Preciso ajudar as outras pessoas”. Jovem padawan total, sem conhecimento sobre as reais circunstâncias de uma cabine despressurizada. Sem oxigênio, eu apagaria em segundos, nada mais podendo fazer pelos outros, e muito menos por mim.
Assisti recentemente a um documentário sobre um alpinista de grandes montanhas, que encarou o desafio de chegar ao cume dos 14 picos com mais de 8000m de altitude que há no mundo, num período curtíssimo de tempo. Isso mesmo, são apenas 14. O famosão Everest no topo da lista. Outro famoso, o K2. E a dúzia restante com seus nomes na ponta da língua da tribo super exclusiva daquele esporte, sendo absolutamente desconhecida do restante da humanidade, parcela em que me incluo. Bem, pelo menos até dois dias atrás, quando liguei a TV. Mas já esqueci os nomes dos demais 12.
Informação interessante foi a de que acima de 8000m respiramos apenas 30% do oxigênio disponível ao nível do mar. Ou seja, você puxa algo para dentro, mas é um ar tão ralinho das vitais moléculas de oxigênio, que você começa a desfalecer. Vêm as fraquezas, as tonturas, alucinações, e enfim o apagão. Eu não conheço essa sensação de puxar o ar e não ter a oxigenação completa, algo que imagino seja experimentado basicamente em duas situações: 1) justamente essa de estar numa altitude extrema; ou 2) ter um problema fisiológico (asma, bronquite, etc) que mesmo em baixas altitudes você não seja oxigenado plenamente.
Tudo isso para dizer que toda a minha saúde e excelente capacidade pulmonar nos 500m de altitude de Maringá, valem quase nada acima dos 8000m dos 14 picos do documentário, e menos ainda nos 10 a 12 mil de um vôo comercial. É despressurizar e apagar. Se não agir rápido, já era.
Passado o desconforto inicial nos ouvidos com a orientação que me parecia errada e egoísta, fiquei pensando naquilo e logo entendi a razão. Fazia sentido, claro. Você precisa estar bem para poder ajudar aos outros. É simples. Por tal razão, a SAÚDE vem como parte 2 das 7 que falaremos nesta série sobre a VIDA INTEGRAL. E essa posição na ordem dos temas não foi sem propósito. Quando minhas reflexões me levaram a entender quantas e quais seriam essas áreas da vida, e esse número de 7 ficou bem consolidado, foi natural pensar também se haveria alguma distinção entre elas, do tipo “Qual é mais importante?”, “Alguma precisa acontecer antes das outras?”, “Legado seria mesmo apenas a última área da vida a se completar?”, “O Espiritual tem proeminência sobre todos os temais temas?”. Lembrando que filosofar tem muito a ver com fazer perguntas.
E paradoxalmente, pensar numa escala de importância ou sequência parece ir na contramão da ideia de que a VIDA INTEGRAL tem várias partes, e que todas elas podem e devem acontecer simultaneamente. Mas é apenas um aparente paradoxo, pois eu realmente entendo que todas as 7 áreas devem acontecer juntas. Aliás, assim o sendo, o processo é mais leve e rápido, uma coisa puxa a outra. Assim, a tal “ordem” seria apenas um exercício do pensamento.
É mais importante ter uma vida saudável ou uma vida espiritualmente plena?
É mais importante ter uma vida saudável ou bons relacionamentos?
É mais importante ter uma vida saudável ou estudar e aprimorar-se sempre?
É mais importante ter uma vida saudável ou ser muito produtivo no trabalho?
É mais importante ter uma vida saudável ou focar na construção de um bom patrimônio?
É mais importante ter uma vida saudável ou deixar um precioso legado?
Vamos lá. Não apenas leia rapidão e prossiga para as próximas linhas do texto. Responda com franqueza, sendo sensível ao primeiro impulso que te vier. Se o fizer, acredito que para todas as 6 perguntas, a segunda parte será considerada mais importante do que a saúde. Afinal, como colocar em segundo plano Deus e todo o mais que tenha a ver com a área espiritual da nossa vida? Ou a boa saúde na frente dos nossos relacionamentos? Assim também, vale o mesmo para os estudos, o trabalho, a importância de um bom patrimônio e o tão especial legado que cada pessoa gostaria de deixar, como uma marca que falará por ela, mesmo depois de partir.
Mas sabe o que eu acho? Eu acho que tem uma pegadinha nessas perguntas. Um desconforto nos ouvidos, semelhante ao que senti quando ouvi a leitura do texto das máscaras de oxigênio. Tirante uma vida espiritual plena, que você poderá desfrutar em toda e qualquer circunstância, aconteça o que for, haja o que houver, esteja você vendendo saúde ou no pó da sequidão (como Jó), as outras 5 áreas da vida dependerão da máscara de oxigênio da saúde para que você possa vive-las plenamente. Ou você conseguirá desfrutar todos os melhores relacionamentos da vida, se estiver definhando numa cama? Poderá estar com seus amigos? Poderá desfrutar o amor com quem você ama? Haverá meios de estudar e aprimorar-se se toda a sua energia precisar ser direcionada para mantê-lo vivo, numa luta ingrata contra um vírus mortal? Qual será seu nível de motivação para ter um bom trabalho ou construir excelente carreira se você não estiver saudável? Questões patrimoniais parecerão (porque efetivamente passarão a ser) secundárias para você, ante um diagnóstico terrível. E legado, quem conseguirá dedicar-se a um legado, se o dia de hoje pode ser o último?!
“Poooxa Fer, apelando heim?!” É, eu sei. Apelei de leve, mas tudo com o bom propósito de alertar para a importância da saúde, como uma premissa para que todas as demais coisas da nossa vida, que são sim IMPORTANTÍSSIMAS também, alcancem sua máxima efetividade. A criança ao meu lado (meu filho), ou a mulher na poltrona que aperta minha mão (meu amor) são evidentemente muito mais importantes para mim do que a minha própria pele, e a maior expressão de amor que poderei lhes dar é querer o seu bem no lugar do meu, a sua vida preservada no lugar da minha. Mas quando tudo estiver um caos, quando as cabines da vida despressurizarem, eu só poderei expressar este grande amor se eu puxar primeiramente para mim a máscara de oxigênio. Eu serei o melhor pai, o melhor marido, o melhor amante (da espooosa, ow!!!), o grande amigo, um bom discípulo, se eu estiver bem, respirando, saudável, funcional. E isso não tem a ver apenas com saúde física, mas especialmente a tão negligenciada saúde emocional, e a por tantos desconhecida saúde espiritual.
Uma saúde integral será (é!) a oxigenação que precisamos para que todas as outras 5 áreas da vida aconteçam bem. A sétima – e 1ª em importância – pode ser incrível com ou sem saúde, mas as demais não. Elas dependem de você bem.
A ideia original para este escrito 071 seria, semelhantemente ao que fiz no anterior, colacionar diversos tópicos relacionados à saúde (exercícios, sono, alimentação, redução do estresse, etc) e comentar um pouco de cada, quase sempre mencionando algumas práticas que tenho. Mas preferi fazer diferente. Você já sabe o que uma boa saúde pede. Estamos carecas – eu, mais que você – de saber o que precisa ser feito. E se fazemos ou não, aí é decisão pessoal de cada um. Porque escolher, deliberadamente, não ser saudável, é um caminho. Um péssimo, na minha opinião, mas ele está aí, e muita gente vai por ele. Ou, se não o escolhe propositadamente, acaba enveredando meio que sem se dar conta. E ao adoecer lentamente, seja física, seja emocional, seja espiritualmente, começa a colher disfuncionalidades nas demais áreas. E corre atrás, e estuda mais, e trabalha mais horas, e tenta e tenta e tenta acumular mais e mais, na esperança de que isso melhore as coisas. Mas ao final, doente e destruído, não desfrutou tudo que poderia.
Mais do que uma lista de receitinhas sobre o que e como fazer para alcançar boa saúde, o escrito de hoje vem como uma reflexão sobre como olhar para ela, e vê-la como um elemento potencializador de tudo mais que tenha a ver com as outras áreas da vida. A máscara de oxigênio que precisamos, não apenas para nossa sobrevivência, mas para que as vidas de quem amamos possam ser tocadas positivamente por nós.
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