“Busca satisfazer seu próprio desejo aquele que se isola; ele se insurge contra a verdadeira sabedoria” (Provérbios 18:1)
Tomando este único verso das Escrituras como fundamento para um princípio amplamente encontrado por todo o Texto Sagrado, vamos conversar um pouco sobre relacionamentos. De diversas formas e níveis, eles são componentes de uma área extremamente importante da vida. A terceira de sete partes; e seu lugar não é este por acaso. Depois aprofundaremos esta ideia.
Uma das questões mais inacessíveis para a mente humana é a Trindade; palavra não encontrada na Bíblia, mas apresentada em outros termos. Pai, Filho e Espírito Santo sendo um único Deus, mas cada qual mencionado especificamente, como uma pessoa completa. Doideira, né?! Um Deus que diz de si mesmo ser o ÚNICO DEUS (Isaías 44:6-19 – texto esplêndido, por sinal. Leia!), mas que em Si são TRÊS PESSOAS.
Não me recordo dos detalhes, e o objetivo também não é este, mas sei que ao longo dos séculos houve muitos debates sobre este tema, com “Escola A”, “Escola B”, “Escola C” e etc, trazendo suas conclusões sobre a Trindade. Havendo interesse em conhecer mais, não será difícil encontrar textos sobre o assunto. Aqui nos Escritos Aleatórios vamos nos concentrar naquilo que penso ser uma das características mais essenciais de Deus: ELE É UM DEUS RELACIONAL. Para além – muito além – dos relacionamentos que Deus tem, Ele é relacional em Si mesmo. Pai, Filho e Espírito Santos existindo desde sempre – Eternidade – de uma forma perfeita. Se nada mais houvesse, nenhum ser celestial – do bem ou do mal – ou a criação, e nem o homem (homens e mulheres, claro), estou certo de que Deus não seria um Deus solitário. Muito pelo contrário: Ele desfruta em Si mesmo o relacionamento mais perfeito que pode existir, algo que só podemos imaginar (e com muita dificuldade, por limitações óbvias).
Assim colocado, vejo que RELACIONAMENTO não é apenas um princípio encontrado na Palavra, uma diretriz para a vida, mas é parte da essência do Criador. Consequência natural, por sermos IMAGEM E SEMELHANÇA dEle, é que também está no nosso DNA, na nossa identidade fundamental, a necessidade de relacionamentos. Prova disso é que o Senhor não deixou o homem ao léu. Pelo contrário: Deus deu-se a conhecer, conversava com o homem, deu-lhe atribuições e penso que desfrutavam muito da companhia um do outro. Tudo isso para nos mostrar que o relacionamento fundamental de qualquer pessoa, a base de tudo, é o RELACIONAMENTO COM DEUS.
Sabedor de todas as coisas, em dado momento Deus enxergou no homem uma tristeza. Vendo que todas as criaturas tinham uma companheira, menos ele (capítulo 2 de Gênesis), rolou a primeira BAD da história, e foi justamente por não ter alguém. Então amiguinho, então amiguinha, não se sinta o mais injustiçado e derrotado das galáxias por olhar ao redor e ver todo mundo com alguém, sendo feliz. A primeira tristeza do homem foi bem essa, o primeiro grito silencioso da alma: TAMBÉM PRECISO DE ALGUÉM COMIGO, UMA COMPANHEIRA.
“E da costela que o Senhor Deus tomou do homem, formou uma mulher, e trouxe-a a Adão. E disse Adão: esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada mulher, porquanto do homem foi tomada” (Gênesis 2:22-23).
Mas veja que interessante: Faria sentido o homem sentir falta de algo, se ele tinha relacionamento direto com o Pai, o Deus Eterno, a relação mais perfeita que poderia existir? Pois é, pois é. O fato é que um vazio bateu no sujeito. Um vazio que a Presença poderia perfeitamente suprir – penso eu – mas o Senhor em Sua sabedoria quis deixar aquele buraco no homem, para que a partir dele, e deixando um outro buraco nele – a costela retirada – criasse algo sublime: a mulher. Dele. E para ele. Cara, se isso não te faz enxergar a beleza e a criatividade do Senhor, não sei o que mais fará. É muito perfeito!
Chegamos então ao segundo nível de relacionamento: HOMEM E MULHER, como Deus projetou. O que passa disso é criação humana. “Ah, mas tem isto, isso e aquilo; esta, essa e aquela forma também; e blá, blá, blá”. Não ignoro. Mas é o que é: criação humana. Não é o modelo pensado por Deus. Simples assim. “E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma adjutora idônea para ele” (Gênesis 2:18). Não está escrito lá “um adjutoro”, ou “adjutore”, ou “adjutorx”. É adjutora. Mulher. Cromossomos XX.
O relacionamento HOMEM / MULHER veio para suprir a única coisa sobre a qual é dito na Palavra – antes da Queda, tudo ainda no estado original – que não era bom. Ao final de cada dia, conforme o Senhor ia concluindo seu trabalho criador, ele olhava, analisava e dizia “É BOM”, “É BOM”, “É BOM”, e no sexto dia rolou um “É MUITO BOM”. Numa leitura rápida do texto, temos a impressão de que um curtíssimo período de dias separa os acontecimentos de Gênesis 1 e 2, mas não há certeza objetiva sobre isso. Pode ser que sim. Pode ser que não. Adão viveu 930 anos. Imaginemos – e imaginar não é pecado – que um bom número de anos tenha se passado desde a criação até a instalação daquele forte sentimento de solidão nele. Dia após dia, ano após ano, quem sabe década após década, vendo os animais multiplicando-se, tendo suas crias, formando suas famílias – sim, muitas espécies tem um forte sentido de núcleo familiar – e ele vendo estes processos bem diante do seu nariz. A aproximação do macho para a fêmea, as tentativas, as unhadas que elas às vezes dão – mas é só charme, te querem perto; enfim a união, os prazeres, a geração de novas vidas, os ensinamentos da sobrevivência para os filhotes... para tudo se repetir dali um tempo, em novos ciclos de vida, geração após geração.
Tinha como não sentir um vazio? Tinha como não querer o mesmo? A Palavra diz que as obras do Senhor são maravilhosas (Salmo 92:5). Penso que ao ver as obras do Pai em pleno funcionamento, a vida que Ele criou florescendo em todo o seu potencial, o solitário homem desejou o mesmo. Mas olhava para um lado: boi, vaca; olhava para outro: tartaruga, tartarugo; elefante e elefoa; e nada que se parecesse com ele. Simplesmente não existia. E assim, naquele mundo perfeito, onde tudo era BOM, BOM, MUITO BOM, pela primeira vez ouviu-se a declaração “NÃO É BOM”, dita pela boca do próprio Criador: “Não é bom que o homem esteja só” (Gênesis 2:18). Mas não foi um esquecimento, um erro de cálculo, quem sabe um remendo que Ele precisou improvisar para que pudesse novamente dizer TUDO É BOM! Não, não. De jeito nenhum. Foi assim porque Ele queria que o homem sentisse a dor e o vazio da solidão, o desejo de ter alguém, para então conhecer a maravilhosa sensação de ter esse vazio preenchido por algo criado pelo Pai, a partir dele, e para ele. Um relacionamento conjugal.
Do seio deste segundo relacionamento, brota um terceiro: FAMÍLIA. “Uai, Fer. Mas o homem e a mulher não formavam uma família? Pessoas que não geram filhos não são também família?”. A resposta é positiva para ambos os questionamentos, mas acho válido fazer uma distinção: RELACIONAMENTO CONJUGAL aqui entendido como a união do homem e da mulher. RELACIONAMENTO FAMILIAR entendido como todas as ligações parentais que temos (marido, mulher, filhos, avós, tios, sobrinhos, primos, etc). O conjugal veio antes, e a partir dele foram geradas as famílias. Assim, entendidos os termos, precisamos destacar a importância dos relacionamentos familiares.
Felizmente, e graças a Deus por isso, fui gerado no seio de famílias muito especiais. Tanto pelo lado do pai, como também pelo da mãe, famílias que conheciam e amavam – e continuam conhecendo e continuam amando – a Deus. E dessa mistura, da união conjugal originada a partir de um homem dessas famílias e de uma mulher dessas famílias, nasceu uma nova. Outro princípio bem raiz, fundante: “Portanto deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e unir-se-á à sua mulher, e serão uma só carne” (Gênesis 2:24). Este o “marco zero” das famílias. Curiosidade bíblica: o mesmo texto é encontrado em Marcos 10:7-8 e Efésios 5:31.
Gosto muito de uma frase amplamente repetida pelo Pastor Saulo de Mello: FAMÍLIA É PROJETO DE DEUS.
Não por acaso, por volta de 1900 a.C., de repente o Senhor puxa prosa com um homem chamado Abrão: “Sai da sua terra, do meio dos seus parentes e da casa do seu pai, e vá para uma terra que eu lhe mostrarei. Farei de você um grande povo, e o abençoarei. Tornarei famoso o seu nome e você será uma bênção. E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as FAMÍLIAS da terra” (Gênesis 12:1-3). Algumas traduções trazem “todos os povos da terra”, mas a minha favorita (Almeida Corrigida Fiel) fala em FAMÍLIAS.
FAMÍLIA É PROJETO DE DEUS. Família é uma bênção. Família é também algo abençoador. Ela tem propósitos que extrapolam as suas “fronteiras”, os seus componentes propriamente ditos. É algo sobre o que tenho até certa dificuldade de colocar em palavras as minhas impressões e entendimentos. Quem sabe numa revisão deste escrito – o que sempre acontece nos 2 ou 3 dias seguintes à publicação – eu venha acrescentar algumas linhas. Por ora, fica registrado ser este o terceiro nível de relacionamento estabelecido por Deus, e que deve fazer parte de uma VIDA INTEGRAL.
Um quarto nível, que muito se assemelha ao anterior, é a FAMÍLIA DA FÉ, ou FAMÍLIA DE DEUS (Gálatas 6:10; Efésios 2:19; Marcos 3:33-35; Gálatas 4:4-7; Efésios 1:5-6; João 1:12-13; e muitos outros textos). A IGREJA, a Noiva do Cordeiro, formada por todas as pessoas que deixaram de ser apenas criaturas, passando para a especialíssima condição de FILHOS DE DEUS. “Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus, ou seja, aos que crêem no seu Nome” (João 1:12). Neste lugar, muito parecido com a família natural, ocorre um processo de crescimento, aprendizado, maturidade, entendimento de propósito, e enfim frutificação. Da mesma forma que na família natural não faria sentido simplesmente crescermos (em tamanho) e ali estacionarmos, na família de Deus não cabe a estagnação. Pelo contrário: encontramos na Palavra muitos e muitos textos que deixam claro o desejo do Senhor em ver seus filhos alcançando maturidade, frutificação, legado. Em outras palavras, nosso relacionamento na Igreja não pode se limitar a reuniões mecânicas, previsíveis e agendadas, cuja liturgia conhecemos de cor e salteada. Se é certo que ali recebemos muito, especialmente quando somos crianças na fé, a coisa só estará no lugar certo se crescermos, amadurecermos, e chegarmos à condição de passar para outros tudo aquilo que recebemos primeiro. Uma visão geracional. A geração atual deve entregar uma próxima melhor, e assim sucessivamente. Gerações melhores e melhores, até que a Noiva esteja preparada para o casamento com o Cordeiro de Deus. Ficar sempre na mesma, não me parece refletir algum princípio do Reino.
Por fim, chegamos ao que eu chamaria de TODOS OS DEMAIS RELACIONAMENTOS. O quinto tipo. Amigos. Colegas variados. Conhecidos. Pessoas estranhas, mas que cruzam nosso caminho. No escrito 006 MAR DE GENTE eu falo sobre isso. Milhares de pessoas estão neste nível relacional. Embora com laços muito menos fortes e estruturantes que os 4 anteriores, precisamos deles também. Talvez – um talvez meramente retórico – eles precisem mais de nós do que nós deles. Explico: se conhecemos ao Senhor e fomos alcançados por seu Amor, é papel de cada um dos seus filhos fazê-Lo conhecido. Sal fora do saleiro. Luz sobre o velador. Mateus 5:13-16. Poderíamos aprofundar, mas você já entendeu.
O que gostaria de destacar nesses “demais relacionamentos”, é o quanto eles nos moldam. Afinal, se nos 4 tipos anteriores a tendência é que encontremos muito mais afinidades, acolhimento, amor, convergências, neste nicho “residual” (todos os demais) existem muito mais pessoas que não pensam como nós. Há mesmo aquelas que nem escolheríamos manter proximidade, mas por circunstâncias da vida precisamos conviver. E isso é bom, sob alguns aspectos. Um deles, pelo menos, o de nos permitir lidar com as divergências, ouvir opiniões contrárias às nossas, oportunidades para aprender a resolver conflitos; coisas assim. Isolamento não é bom, também nesta quinta categoria de relacionamentos. Fazê-lo seria entrar numa bolha hermética demais, impermeável, de onde o sal não passaria sabor, de onde a luz não alcançaria aos que estão no escuro. É de se pensar.
E para finalizar, o pequenino aprofundamento sugerido lá no parágrafo inicial: “A terceira de sete partes; e seu lugar não é este por acaso”.
Coloquei os RELACIONAMENTOS como a terceira área de uma VIDA INTEGRAL, porque acredito que ela deva ser prioridade sobre as 4 que ainda iremos tratar: Intelectual; Profissional; Patrimonial; Geracional. Especialmente as de número 5 e 6 costumam ser bem mal alocadas: dinheiro, poder e bens no topo do pódio da vida, e o resto que se acomode. Uma inversão catastrófica, que observo mais, muito mais do que gostaria. Aos que tiverem acesso a este escrito, deixo o conselho para investirem um tempo pensando nesta escala de prioridades. E se estiver difícil chegar a uma conclusão, eu desenho: RELACIONAMENTOS SÃO MAIS IMPORTANTES DO QUE COISAS.
Eu já fui um cara bem isolado. Hoje, muito menos. Penso ter um relacionamento muito especial com Deus. O conjugal ainda não rolou, mas não jogamos a toalha. O familiar é maravilhoso, muita gratidão a Deus. Os relacionamentos na família da fé já foram mais intensos, e sofreram um baque importante nesses quase 2 anos de pandemia. E os relacionamentos “residuais” (todos os demais) existem e são valorizados. Uma certa proeminência do pessoal da bike, nesses 3 anos que me envolvi muito no esporte. Noutros tempos eram a turma do futebol, ou do clube, das motos, academia, faculdade, MBA. Ciclos que agregam relacionamentos. Alguns poucos permanecem. Muitos findam. E tudo bem. Finalizarei com algo especial que li hoje, escrito pelo Pr. Júlio César (que não conheço):
“Aqueles que deixam você.
Por isso você precisa estar curado(a) para entender que:
Há pessoas que caminharão por longos caminhos com você. Outros, apenas uns passos.
Há pessoas que estarão em muitas páginas da sua vida. Outras, apenas em alguns capítulos.
Algumas pessoas entoarão melodias com você. Outros, apenas algumas estrofes.
Há pessoas que estarão no portão da sua vida, mas não à sua mesa.
Algumas pessoas serão parte da sua história, mas não do seu destino. Elas passarão, mas não vão ficar... Não tenha medo de virar a página. Avance!”
Sobre relacionamentos e ciclos e tudo que tem a ver com coisas do tipo, um dos textos mais sucintos e bacanas que li ultimamente. Possivelmente, seja ele a melhor parte de tudo que você encontrou por aqui hoje.
Relacione-se! É bom. É sábio fazê-lo.
A gente se vê no domingo.
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