Poucas vezes puxei nos Escritos Aleatórios um tema do momento, a notícia do dia ou semana. Embora muitos deles possam ser classificados como crônicas, eu não os encaro assim. Também não são um diário ou semanário. Eles são algo que cedo ou tarde conseguirei encaixar numa classificação, embora fazê-lo não me pareça importante.
Pois bem, última vez – talvez única – que embasei um texto aqui em notícia fresca, foi no 063 NADA ACONTECEU. Na oportunidade, meados de 2021, circulou a informação de que uma espécie de pica-pau fora declarada tecnicamente extinta, pois seu último avistamento na natureza ocorrera há aproximadamente 80 anos. Depois disso, nada. O de hoje, baseia-se num acontecimento de dias atrás – pelos finais de fevereiro e início de março/2022. Não mencionarei nomes, pois tenho por hábito só fazê-lo quando as palavras sobre a pessoa forem positivas. Vou me limitar aos fatos veiculados. Se eles forem suficientes para a identificação da pessoa, então é porque foram fatos relevantes e de grande alcance.
Pandemia global em curso. Invasão da Ucrânia pela Rússia em curso. Eleições no Brasil dentro de poucos meses. Um bom número de outros fatos importantes acontecendo no Brasil e no mundo. Mas o que movimentou o noticiário nos últimos dias, tanto nos veículos tradicionais de imprensa, como também nos canais mais recentes e tecnológicos, foram alguns áudios enviados por um deputado estadual de São Paulo num grupo de whatsapp. Áudios muito ruins.
“Eita! Só isso, Fer?!”. “Áudios muito ruins???”. “Bora adjetivar mais isso aí, colocando uns inflamados HORRÍVEIS, ODIOSOS, REPUGNANTES, ESCROTOS, MACHISTAS... etc, etc, etc na frase!”. Não, amiguinho. O texto é meu. A boca é minha. Eu falo do meu jeito. E minha opção é dizer ÁUDIOS MUITO RUINS, sem dobrar-me à obrigação quase imposta pela grande massa de adjetivar como todo mundo faz. Eu tenho minhas próprias impressões. Eu tive minha própria resposta interior, quando ouvi aquelas falas, e a forma como decido me expressar sobre elas é exatamente esta: MUITO RUINS. Porque tem disso agora, caso você ainda não tenha percebido: há uma vigilância sobre as manifestações, sobre as palavras que não se pode usar, e sobre algumas que se deve usar. A patrulha, sempre alerta. A patrulha, sempre pronta para cancelar quem fala as palavras proibidas, ou exaltar quem usa as palavras obrigatórias. Não, obrigado. Eu falo do meu jeito.
Pois bem. O resumo do resumo é que o deputado falou palavras muito ruins sobre as mulheres ucranianas, refugiadas, vulneráveis, com seu país sendo atacado numa guerra. Para seu azar, o deputado o fez nas proximidades do 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Claro, em qualquer tempo seriam palavras muito ruins, mas o contexto conseguiu piorá-las.
O que se seguiu, foi que os áudios enviados no grupo de “amigos” vazaram. E nestes nossos tempos, a velocidade de disseminação é impressionante. Dentro de poucas horas já alcançavam milhões de olhos e ouvidos. Mais ou menos assim: se até eu (Fer) fiquei sabendo, é porque foi uma notícia de razoável para grande alcance, pois sou – por opção – bastante desligado da TV e das notícias do momento. Procuro selecionar bem meus canais informativos e acessá-los no meu tempo; então, se algo sobre os áudios chegou até mim, é porque a notícia caminhou bastante.
Sabe o que fiz? Eu não ouvi de imediato os áudios muito ruins do tal deputado. Cedo ou tarde eu chegaria até eles – e cheguei – mas num primeiro momento dei mais atenção às reações das pessoas, dos veículos de comunicação e dos influenciadores. Aquela “sede de sangue”, a necessidade de ver o cadáver estraçalhado, a imagem embaraçosa, ouvir o áudio explosivo, e coisas do tipo, não tem a ver comigo. Não. Não se trata de fechar os olhos para a realidade. Trata-se de manter meu poder de decisão sobre o que entra por meus olhos, ouvidos, ou por qualquer outro meio.
Eu imaginava, a partir das dezenas de reações que vi, que os áudios seriam mesmo muito ruins. Quando os ouvi, uns 10 dias depois da divulgação, pude confirmar que sim. Àquela altura, eu poderia encher uma página deste escrito com os adjetivos usados pelo pessoal. Todo mundo bateu sem dó.
“Hummm... cheiro de que você vai defender o cara, Fer...”
Não. Não vou defendê-lo.
Ele falou, agora ele que se explique, que se defenda, que se desculpe. É a colheita dele. E não sou advogado. Meu bacharelado em Direito não me habilita automaticamente para a advocacia. Tem um exame da OAB neste sanduíche, entre a colação de grau e o número de registro na carteirinha. Número que não possuo, por sinal. Tchanããã, e assim você finalmente descobre que não sou advogado.
Não vou defendê-lo. Também não vou acusá-lo. Para uma e outra tarefas tem gente de sobra por aí.
Mas, enfim, por que então abordar este tema, se não é para acusar ou defender o deputado que falou coisas muito ruins sobre as mulheres ucranianas? Simples. Porque desejo puxar este fato, esta notícia fresca, para falar não dele, mas da multidão.
Cena parecida foi vista uns 2 milênios atrás:
“E os escribas e fariseus trouxeram-lhe uma mulher apanhada em adultério. E, pondo-a no meio, disseram-lhe: Mestre, esta mulher foi apanhada, no próprio ato, adulterando. E na lei nos mandou Moisés que as tais sejam apedrejadas. Tu, pois, que dizes? Isto diziam eles, tentando-o, para que tivessem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia com os dedos na terra. E, como insistissem, perguntando-lhe, endireitou-se e disse-lhes: Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela. E, tornando a inclinar-se, escrevia na terra. Quando ouviram isto, redarguidos da consciência, saíram um a um, a começar pelos mais velhos até os últimos. Ficou só Jesus e a mulher que estava no meio” (João 8:1-9)
Xeque Mate! A multidão não esperava por essa. De uma hora para outra desfez-se a jogada perfeita para acabar com o filho do carpinteiro José e de Maria. Não funcionou. A lei os encheu de coragem para pegar em pedras com toda força. A consciência dos próprios pecados fez seus dedos ficarem molinhos de vergonha. As pedras esquentaram nas mãos. Não tinham como prosseguir com a jogada perfeita.
“Aaaah, então Jesus foi um passapanista! Fez vista grossa para o pecado”. Não. Não foi isto que ocorreu. Ele não fez vista grossa. Apenas, antes de tratar com a mulher, tratou com a multidão. Mas ele jamais perderia aquela oportunidade de trazer uma ovelha perdida para o lugar certo. Afinal, Jesus é o BOM PASTOR (escrito 048):
“E, endireitando-se Jesus, e não vendo ninguém mais do que a mulher, disse-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? E ela disse: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais” (João 8:10-11).
Que MESTRE perfeito! Que DICIPLINADOR perfeito! Que AMOR perfeito! Jesus fez tudo esplendidamente bem nessa passagem. E olha, nenhuma surpresa! Ele fez tudo certo, todo o tempo, com todos. Sempre esplendidamente bem.
O que eu diria ao deputado que falou palavras muito ruins sobre as mulheres ucranianas, é: “Arrependa-se! Não diga mais coisas como aquelas. Mude o seu olhar, mude seu linguajar, mude suas atitudes. Se você não sabe como fazê-lo, creia-me que o Caminho é Jesus. Qualquer tentativa sua de tornar-se um cara melhor, repensar a vida, etc e tal – como vi/ouvi em declarações suas, posteriores ao escândalo – estão fadadas ao fracasso. A verdade do seu coração continuará sendo exatamente aquela que as palavras ruins expuseram, por mais que consiga maquiar, como vinha fazendo muito bem até aqui. Mas não queira ser um túmulo caiado. Não passe tinta nova sobre uma parede arruinada. Vai cair. Sem Jesus e mudança real, vai cair”.
Quanto à multidão de agora, trata-se da mesma de décadas, séculos e milênios atrás. Agarrados nas pedras. Loucos para abrir crânios com elas. Mas alguém tem condições de fazê-lo?
A resposta é bem simples, a mesma de sempre: AQUELE QUE DENTRE VÓS ESTÁ SEM PECADO SEJA O PRIMEIRO QUE ATIRE A PEDRA.
Minhas mãos estão vazias.
Um excelente restante de domingo pra você!
O amor e a honra, explendidamente bem ensinados por Jesus,trazidos para os dias atuais diante das mesmas figuras. Além da sua pergunta Fer, deixo uma para seus leitores: quem é você em todo esse cenário? De mãos vazias, prefiro seguir crescendo de glória em glória "até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo". (Efesios 4.13)
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