No filme O PREÇO DO AMANHÃ, os personagens Will Salas (Justin Timberlake) e Sylvia Weis (Amanda Seyfried) vêem seus caminhos se cruzando num mundo futurista, onde um ativo preciosíssimo foi finalmente dominado pelo homem: O TEMPO. Como a película é de 2011, não reclame agora de spoiler, blz! Você teve mais de uma década para vê-lo. Mas, mas, mas... caso não assistiu, ou nem sabia de sua existência até agora, fica anotado que vou contar algumas partes nas próximas linhas. Ah, e recomendo finalmente assistir, pois é um bom filme, além de gerar reflexões legais.
Naquele mundo hipotético, por alguma razão que não me recordo, toda pessoa nasce com um mostrador digital em seu pulso, inicialmente zerado. O bebê vem a ser criança; a criança, um adolescente; este chega à juventude, quando finalmente duas coisas muito críticas acontecem: 1) no instante em que a pessoa completa 25 anos de idade, ela para de envelhecer. Terá aquela forma pelo resto da vida. Um mundo de jovens (ao menos na aparência); e 2) naquele mesmo instante, o mostrador digital no pulso é ativado, indicando o tal RESTO DA VIDA que a pessoa tem. Uma determinada quantidade de anos, meses, semanas, dias, horas, minutos e segundos aparece na parte interna de seu pulso, e a temida CONTAGEM REGRESSIVA começa. Não me recordo, no filme, o quanto era carregado para cada um, mas sei que aos 25 toda pessoa tinha seu relógio ativado com a mesma quantidade. Digamos que fossem 5 anos.
Dado então aquele start no RESTO DA VIDA, dois cenários possíveis entravam no radar: 1) se nada fosse feito, bastando seguir um curso de vida “normal”, dali a exatos 5 anos a pessoa morreria. Puf! OFF. Simplesmente desligava. Sem dor, sangue, explosões ou efeitos especiais. Era como se puxasse o plug da tomada; 2) a pessoa poderia carregar ou descarregar mais tempo em seu mostrador no pulso, o que significava a possibilidade de ampliar ou diminuir volitivamente a duração de sua vida.
Doidão, né?!
Genial, né?!
Bora abrir um parêntese.
Eu sou muito fã de filmes de ficção científica, desde menino. Poderia elencar dezenas deles, que apreciei ao longo da vida. E sabe, quando pinta um enredo novo, um cenário surreal como este – e outros – eu acho o máximo. É a criatividade humana gerando frutos, bolando coisas nunca antes pensadas, ou dando nova roupagem para outras que já haviam sido. Um traço em nós – que somos IMAGEM E SEMELHANÇA – de um atributo maravilhoso do Senhor: CRIATIVIDADE. Penso sempre nisso. Naqueles dias criativos iniciais, Deus pensando e executando cada elemento, cada design, cor, textura, sabor, cheiro, dinâmica... para ver um mundo completo e harmônico criado por Ele mesmo, pelo PODER DAS PALAVRAS DE SUA BOCA. E ao final, contemplando Sua obra, afirmar que É TUDO MUITO BOM! (Gênesis 1:31).
Eu demorei para enxergar a beleza e a importância da criatividade humana. Embora eu mesmo tenha alguns dons artísticos (desenhar é um deles; projetar ambientes belos e funcionais, outro), nas fases iniciais da minha vida era muito resistente a leituras ficcionais. Pensava ser perda de tempo. Algo assim: “Preciso me ocupar com livros técnicos, científicos, objetivos. Semelhantemente, com atividades práticas da mesma espécie, que me levem a ser mais produtivo, profissional, eficiente”. Em outras palavras, quase caí na cilada de me tornar APENAS UM DENTE NA ENGRENAGEM (escrito 064), esquecendo-me que minha essência é ser parte de um corpo, não de uma máquina. Até que me deparei, anos atrás, com um texto que falava da importância da literatura como arte, em suas várias formas de expressão: poesia, crônicas, aventuras, fantasia, ficção, etc.
Aquele texto está num capítulo de algum dos muitos livros que tenho em casa. Como costumo grifar as partes que me chamam a atenção, se eu dedicar alguns minutos ali na biblioteca, consigo encontrar. Talvez eu o faça. Se o fizer, reproduzirei aqui neste escrito. Se não reproduzir, é porque não fui atrás. Mas o fato é que fui mesmo convencido da importância da literatura – e não apenas ela – ficcional e fantástica.
Numa história como O Senhor dos Anéis, por exemplo, encontramos uma enormidade de informações e expressões humanas da mais alta complexidade, profundidade e importância. Filosofia. Teologia. Sociologia. História. Porque não podemos simplesmente tomar uma folha em branco (como antigamente), ou um arquivo em branco (como agora, neste escrito), sem acessar – conscientemente ou não – todo o depósito que temos dentro de nós. Ao abrir Hamlet com um “Ser ou não ser, eis a questão”, Shakespeare trouxe à baila uma das indagações humanas essenciais, sendo ainda hoje – e o será para sempre (provavelmente) – lembrado, estudado, revisitado. Cá pelos trópicos, ao primeiro contato do cinzel com as pedras-sabão que dariam vida aos Doze Profetas, em Congonhas/MG, Antônio Francisco Lisboa, mais conhecido como Aleijadinho, não o fez de forma atabalhoada, caótica. Ele precisou acessar séculos e séculos de cultura cristã, referências, mestres anteriores a ele, no intento de expressar visivelmente, fisicamente, literalmente em 3D, algo que fizesse sentido. Não uns bonecões de posto, descartáveis, mas algo que ecoasse pelos séculos. E assim poderíamos falar das grandes catedrais, dos monumentos de todas as culturas, da música clássica – porque o que se toca hoje nas paradas não é música – das esculturas gregas, do Renascimento como um todo, bem como dos milhares e milhares de livros até aqui escritos, os quais, na Eternidade, caso ainda subsistam, pedirei autorização ao Pai para ler. Pois é. Mais uma descoberta sobre mim: eu gostaria muito de ler todos os livros que já foram escritos.
Todo este parêntese para destacar a importância e a beleza da CRIATIVIDADE.
Mas voltemos ao TEMPO.
Tente imaginar como funcionaria um mundo como o representado em O PREÇO DO AMANHÃ. Ricos acumulando mais e mais, virtualmente com acesso à imortalidade, vivendo como se houvesse milhões de amanhãs. Pobres vendendo tempo para poder sobreviver, comer, ter o básico... vivendo como se não houvesse amanhã. Um mercado promíscuo se estabeleceu. Tem partes boas no enredo, outras nem tanto. No geral, o filme é bom. Não vou aprofundar nos spoilers. Veja lá.
E olha só, que interessante, novamente a arte imita a vida...
E se eu te disser que no seu pulso tem um mostrador invisível?! Logicamente, por definição, você não o vê. Mas ele está aí, garanto que está. CONTAGEM REGRESSIVA ROLANDO.
Diferentemente do marcador do filme, que permitia créditos ou débitos de tempo, no seu (meu, nosso) tem apenas saída. Uma ampulheta invisível, com sua minúscula passagem para os grãos de areia. Só que você não conhece o tamanho da sua. Pode ser pequenina como um saleiro, resultando que ainda hoje você pode estar na horizontal. Ou gigante como um grande silo para grãos, o que em nossa alegoria equivale a muitos anos pela frente. Ou qualquer recipiente intermediário, entre o saleiro e o silo, equivalentes a dias, semanas ou meses restantes. Qual o tamanho da sua ampulheta? Quais números se lê no seu marcador invisível? Você não sabe, né...
Pois é. É assim que vivemos. Não nos foi dado conhecer o tempo restante. Só o Senhor tem o preciso registro da nossa existência.
“Os teus olhos viram o meu embrião; todos os dias determinados para mim foram escritos no teu livro antes de qualquer deles existir” (Salmo 139:16).
O Deus Todo Poderoso tem à sua frente os bilhões de marcadores de todas as pessoas que passaram, os das que estão vivas agora, e ainda as ampulhetas de todas as pessoas que passarão pela Terra. E de todas elas, simultaneamente, precisamente, conhece cada dígito, a conta exata dos grãos de areia que há no frasquinho de sal ou no silo gigante de cada uma. Entende agora o que é ONISCIÊNCIA? Fosse “só” isso, Ele já seria um Deus tremendo! Mas de quebra Ele ainda é ONIPRESENTE e ONIPOTENTE. O Deus dos deuses. O Senhor dos senhores.
Mas tranquilo, de boa, não se aflija. Essa montoeira de marcadores não precisa tirar seu sono. Você deve ocupar-se apenas com o seu. Ocupar-se. Não preocupar-se.
“Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário? Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas? E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura? E, quanto ao vestuário, por que andais ansiosos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé? Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos? Porque todas estas coisas os gentios procuram. Decerto vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas. Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu próprio mal. (Mateus 6:25-34)
E assim, finalmente, chegamos ao ponto central deste escrito. A pergunta é: DEUS É ANSIOSO? DEUS TERIA ALGUMA QUESTÃO MAL RESOLVIDA COM O TEMPO? Porque tempo e ansiedade estão na mesma equação. Percebe? Poderia a ansiedade ser uma característica encontrada no Príncipe da Paz? Característica essa (ou atributo) replicada em nós, feitos à sua imagem e semelhança? Meditar implica em fazer perguntas. Lembra?: Ser ou não ser?...
Cá comigo, não creio. Trago a firme convicção de que a ansiedade entrou no homem com o pecado, após a desobediência e a queda. Assunto que poderemos abordar muito mais profundamente em escrito futuro. Por ora, quero apenas registrar minha convicção. Sei que há situações clínicas. Sei também que há muito estudo sobre isso, compreensões já firmadas, e muitas coisas por se desvendar no tema ansiedade. E eu, especialista que não sou, nem de longe quero vir falar categoricamente sobre o que não estudei. Entretanto, cá comigo, com as minhas firmes convicções, e destacando que isso se baseia num olhar integral com base na Palavra, creio mesmo que a ansiedade nunca foi plano de Deus para seus filhos. Os primeiros pais caíram em ansiedade; igualmente Abraão, Davi, Pedro e tantos outros. Mas você poderia apontar algum traço de ansiedade em Jesus? Não. E eu sei a razão. Porque ele não teve pecado. Ele lidava muito bem com o tempo. Embora tenha assumido a forma de homem, foi em tudo tentado, e em tudo prevaleceu. Já os discípulos, lembra?! Já estavam lá discutindo entre si quem iria sentar-se à direita e à esquerda do Senhor quando implantasse seu Reino, quando nem tinham começado suas missões específicas. Olhos nos tronos... no tempo errado. Queriam a glória antes da cruz. Ansiosos. Desejando os dias futuros, gloriosos, quando o que realmente existia era (é!) o dia que se chama hoje.
Beleza, Fer. Falou, falou, falou, mas e aí? Qual é o lance?
O lance é o seguinte. Tenho três coisas por falar sobre o tempo:
1) Não conhecemos nosso tempo, os dígitos no marcador, ou o volume de areia em nossa ampulheta. Daí que é nosso dever viver cada dia da forma mais excelente, o mais intensamente possível, gerando sorrisos na face do Senhor, porque cada dia pode ser o último. VIVER COMO SE NÃO HOUVESSE AMANHÃ, expressão que eventualmente ouço por aí, tem sido tomada como se jogar com tudo na vida, esmerilhar, agir de forma intensa e até perigosa, porque “se pode não haver amanhã, então tenho que aproveitar tudo hoje”. Perigo. Perigo. Não é assim. Viver como se não houvesse amanhã é simplesmente encarar o fato de que essa é a mais pura verdade. Ninguém pode garantir para si mesmo o dia de amanhã – e temos base bíblica para afirmá-lo– mas apenas viver o hoje, que efetivamente existe;
2) Se, por hipótese, te fosse dado conhecer exatamente seu tempo de vida restante, e isso gerasse em você um desespero tal que o fizesse alterar drasticamente a forma como vive agora, nem preciso te dizer que a forma atual tem problemas. Porque se fosse boa, por que alterá-la, ante a singela notícia de que você está em sua ÚLTIMA HORA de vida? Notei esta atitude em pessoas bem mais velhas, lá com seus setenta e poucos, oitenta e tantos anos. Vislumbrando a horizontal, bate um senso de urgência em mudar coisas, dizer palavras, fazer consertos... quando tanto tempo já passou. Anos ou décadas antes poderiam ter feito tudo, mas foram levando, empurrando, na certeza de que o fim estava bem distante. Projetos são desengavetados no crepúsculo da vida, quando o sol está por se por. Pense nisto. Não viva como se houvesse muitos amanhãs para resolver as coisas. Eles podem realmente não chegar;
3) Internalize com todas as suas forças os princípios contidos no texto de Mateus 6, dando assim um novo significado aos seus dias, ao seu tempo. O BASTA A CADA DIA O SEU PRÓPRIO MAL é libertador. Libertador de quê? Especialmente da famigerada ansiedade. Eu tenho na agenda, para amanhã, pelo menos uma dúzia de itens. Anotei tudo. Tenho os recursos e as informações para encarar todos eles. Os horários foram organizados. Tudo bonitinho. Só que eu só vou olhar a agenda de 21/03 amanhã bem cedo, pelas 5h e pouco, ou 6h e pouco, quando eu despertar. Nada daquilo eu posso fazer hoje. Quando muito – e raramente eu faço – uma checada hoje. Mas ocupar-me com aquilo tudo, ficar pensando, perder o sono? Jamais. A agenda de hoje ainda está acontecendo, e poderá restar comprometida, se eu tolamente tentar misturar no tempo dela as coisas que devem ter seu tempo apenas amanhã. A não-ansiedade tem a ver com isto: viver um dia por vez, a única forma possível. Não perca seu tempo com o amanhã que pode (e pode) não chegar. Também não perca seu tempo batendo na madeira ao ler isto, pois essas batidas não desaceleram o mostrador, muito menos fazem parar os grãos de areia na sua ampulheta.
Que possamos enxergar o tempo como algo unicamente pertencente ao Senhor, e usar Seu Espírito criativo para vencer a ansiedade e viver cada dia de forma especial, pois realmente pode ser o último.
ResponderExcluirAh, o TEMPO! E esta imagem, realmente é aquela que mexe com qualquer pessoa. E se Deus nos desse uma quantidade de anos para viver? Como viveríamos? Com coisas banais ou com aquelas que valeriam para a eternidade e que nos fazem viver felizes? Ah, o precioso TEMPO!
ResponderExcluir