Alguns anos atrás tive contato com uma história bem peculiar, mencionada pelo Pastor Luciano Subirá. Salvo engano, ele não estava presente no fato, mas teve conhecimento em conversa com algum de seus amigos pastores.
É dada a palavra para que uma pessoa conte seu testemunho, cena bastante comum nas igrejas de linha pentecostal, e mais rara nas tradicionais. E quando se fala, então, em cultos transmitidos pela TV, não pode faltar; é um dos carros-chefe da programação. Então o rapaz recebe o microfone e começa a discorrer sobre seu passado de pecados, dando vários detalhes: “Eu fazia isso, eu fazia aquilo, meu carro era tal, saía com uma mulher diferente por dia, era temido, e pá, pá, pa...”, até que no meio do testemunho (ou tristemunho) ele para, respira fundo, dá aquela olhada perdida no vazio, suspirando em voz alta o que se passava no coração: “AOOOOOW TEMPINHO BOM!!!”
Ixi, deu ruim! O pastor, mais que correndo, manda cortar o som do microfone, agiliza a retirada do irmão lá do púlpito, e de alguma forma tenta administrar a saia-justa causada pela fala inapropriada. E o pior, é que só teve a parte triste da história, pois não houve tempo para que o rapaz discorresse sobre a nova vida em Jesus, que ele vinha experimentando desde que “deixou para trás” aquele tempinho bom.
Vigorasse ainda a ordenança dada para quando Ló e sua casa saíram de Sodoma, o irmão do testemunho agora seria uma estátua de sal. Sentiu saudades do que não deveria. Olhou para trás. Deu ruim!
Pois bem. Esta seria aquela parte do texto onde eu escrevo que “devemos olhar só para frente, passos firmes avante, sem um pingo de saudades do que passou”, etc, etc, etc. É a coisa certa. É o texto certo. Mas, e quando, mesmo sabendo o que é certo e melhor, tem lá no fundo um sentimento inapropriado de saudades pelo que não deveria?! Isso ocorre contigo? Como lidar com isso? Significa que não somos de Jesus? Meu Novo Nascimento foi fake? É possível que pessoas verdadeiramente de Deus sintam-se tentadas a essas espiadelas e suspiros pela vida que deixaram?
Convido você a pensar comigo a respeito.
A Palavra do Senhor diz em Lucas 9:62 que “Ninguém que lança mão do arado e olha para trás é apto para o Reino de Deus”. São palavras do próprio Cristo.
Então me lembro que 3 décadas atrás, pelos idos de 1992, eu tive meu encontro real com o Senhor. Fato mencionado no escrito 033 PALAVRAS, sobre minha descoberta das Escrituras, o início do meu amor pela Bíblia, e como no processo de sua leitura eu entreguei meu coração a Jesus. Foi tão especial. O Fernando de 15 anos tendo seu coração ganho pela Palavra.
Assim, podemos concluir que desde então houve uma mudança de direção na minha vida. Um novo caminho. O Caminho. Assim era chamado o Cristianismo nos tempos da Igreja Primitiva. Ou seja, conheci a Jesus, entreguei minha vida a Ele, rolou o novo nascimento, e assim eu começava a trilhar seus passos. Lancei mão do arado.
Passados 30 anos, seria maravilhoso poder dizer que tudo correu perfeitamente bem: sem pecados; sem vacilos; sem olhadelas para trás; também alguns retrocessos importantes – que já chamei em escritos anteriores de UMA VIDA DE CHIQUEIRO. Pois é, quisera eu ter este testemunho lindo para compartilhar aqui, mas não foi bem assim. Eu conheci a Jesus, eu o amei (e amo), eu comecei a trilhar O Caminho, mas em algumas oportunidades olhei para trás. Ferrou! Estátua de Sal no rolê.
Penso que o texto-base deste escrito (Lucas 9:62) tenha uma dupla finalidade: a primeira, um chamado à firmeza de propósito; a segunda, menos evidente, comunicar que o "olhar para trás" pode ocorrer na vida de alguns, com graves consequências. Pode, mas não deve. Pela segunda, escancara-se nossa inaptidão, sempre que acreditarmos na força do nosso braço para mantermos firme o arado em mão. O fato é que não temos condições de concluir a caminhada sozinhos. Sem chance. Sem Ele, nada podemos fazer (João 15:5). Vem-me à mente agora, em qualquer fase desses 30 anos passados, quantas vezes disse a mim mesmo “isso eu não faço mais”, “tal coisa não tem mais lugar na minha vida”, “daqui pra frente será assim e tal”, para admitir que falhei miseravelmente em todas elas, quando essas declarações sustentaram-se na minha própria força de vontade. Você leva bem um dia, dois, talvez semanas, mas cai. Sem o Espírito Santo te ajudando... cai. Sozinho, cai. Não se engane.
A conclusão, portanto, é que não sou apto para o Reino de Deus? É correto dizê-lo? Então, é correto sim, mas há espaço para pensarmos mais fundo. Vamos além da superfície, para melhor compreender.
Eu não sou apto, mas Ele me habilita. Eu sou responsável por manter-me no rumo certo, mas sozinho não consigo. O que precisamos ter em mente TODOS OS DIAS da nossa vida, é que Ele deseja andar conosco. Não se trata de ter um encontro com o Senhor no Novo Nascimento, e um segundo momento com Ele no Grande Julgamento. Não, não. De jeito nenhum. Nos muitos - ou poucos dias - entre esses dois eventos importantíssimos, o Espírito Santo deseja caminhar conosco. Dizer isto parece óbvio, mas por vezes precisamos ser lembrados do óbvio, senão olhamos para trás.
O Senhor, mais do que eu mesmo, deseja me ver em pé no final da caminhada. Seguramente, a frase mais importante que eu poderei ouvir em toda a minha vida, é a mesma que Ele mais deseja verbalizar: “Servo bom e fiel, entra no gozo do teu Senhor” (Mateus 25:23).
Vem-me à mente a história do povo de Israel no deserto. Tirados do Egito em meio a sinais e maravilhas (escrito 041), com cenas que os melhores estúdios computadorizados de hoje não poderiam reproduzir, não tardou para que olhassem para trás. “Pois que melhor nos fora servir aos egípcios, do que morrermos no deserto” (Êxodo 14:12); “E os filhos de Israel disseram-lhe: quem dera tivéssemos morrido por mão do Senhor na terra do Egito, quando estávamos sentados junto às panelas de carne, quando comíamos pão até fartar! (Êxodo 16:3); “E não havia água para a congregação; então se reuniram contra Moisés e Arão. E o povo contendeu com Moisés, dizendo: quem dera tivéssemos perecido quando pereceram nossos irmãos perante o Senhor! E por que trouxestes a congregação do Senhor a este deserto, para que morramos aqui, nós e os nossos animais? E por que nos fizestes subir do Egito, para nos trazer a este lugar mau? Lugar onde não há semente, nem de figos, nem de vides, nem de romãs, nem tem água para beber. (Números 20:2-5); “Mas vendo o povo que Moisés tardava em descer do monte, acercou-se de Arão, e disse-lhe: levanta-te, faze-nos deuses, que vão adiante de nós; porque quanto a este Moisés, o homem que nos tirou da terra do Egito, não sabemos o que lhe sucedeu” (Êxodo 32:1). Mais exemplos das revoltas e rebeldias do povo poderiam ser colacionados aqui, enchendo páginas e páginas.
Diante desses relatos, indignamo-nos: “Como podem eles ter visto tantas coisas extraordinárias e ainda assim olharem para trás?!”. Fácil ser juiz, né?! Mas o fato é que nós somos eles. Eventualmente, fazemos o mesmo que eles. A natureza caída deles continua sendo a nossa. Sem Deus eles nada podiam fazer, como hoje (século XXI) continuamos nada podendo fazer. Sozinhos, não tinham aptidão alguma para atravessar o deserto e chegarem à Terra Prometida. Sozinhos, encontramo-nos tão inaptos quanto eles, mas agora para concluirmos o Caminho Estreito e termos acesso à Casa do Pai.
A grande verdade é que não somos aptos. Entenda isso! Sem Ele, nada podemos fazer.
Mas a Graça do Senhor se manifesta hoje, como se manifestou no deserto. Suas misericórdias, que não tem fim, renovam-se a cada manhã (Lamentações 3:22-23). Seu desejo não é tragar-nos pela terra que abre sua boca, como na rebelião dos filhos de Corá; nem transformar-nos numa estátua de sal, como a esposa de Ló; tampouco digerir o fujão Jonas no ventre do grande peixe; ou esfregar na face de Pedro suas negações ao amado Jesus. Não, não. Todos, todos, rigorosamente todos inaptos, como inaptos também somos, mas alcançados por sua maravilhosa Graça, ainda disponível... até que Ele volte. Uma hora a Graça findará, você sabia disto? Mas ainda estamos neste tempo propício. Ainda é possível voltar ao rumo certo. Qual seu posicionamento? (Escrito 047).
Sim, sim. Para minha vergonha, nesses 30 anos de caminhada eu já olhei para trás. Fosse um tempo em que as misericórdias do Senhor não mais estivessem disponíveis, eu já seria uma estátua de sal à beira do caminho; ou um walkin dead de sal no caminho largo, rumo à perdição eterna. Eu tenho plena consciência da minha inaptidão para cumprir a jornada... sozinho. Só que a boa nova é que Ele não tem prazer na morte. Ele deseja a vida para todos. “Os céus e a terra ponho por testemunhas contra vós, de que tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência (Deuteronômio 30:19). Traduzindo: sim, a Graça e as Misericórdias do Senhor estão pulando de alegria para te tocar, mas elas só o farão se você (eu, todos nós) se arrepender dos maus cominhos, tirar os olhos daquela espiadela para trás, voltá-los para o alvo, e seguir na direção correta. Fora disso, você (eu, todos nós) está fora. O Deus de Amor, é o mesmo Deus de Justiça, e Ele é tão perfeitamente amoroso quanto perfeitamente justo. Não espere um final feliz, se você (eu, todos nós) continuar num caminho infeliz. Não vai dar tudo certo, invariavelmente, qualquer que seja seu posicionamento. Posicionamento bom, final legal; posicionamento mau, final ruim. Eternamente.
E assim, com essa reflexão, inauguramos a temporada 2022 dos Escritos Aleatórios. Trazendo a lembrança de nossa inaptidão, bem como a deliciosa notícia de que o Senhor nos habilita, e o entendimento de que está em nossas mãos – ou nosso pescoço – continuar ou não olhando para trás. Aliás, falando em pescoço, acho que você (eu, todos nós) tem apreço pelo seu, então sabemos o que fazer.
Bora seguirmos firmes no Caminho Estreito em 2022?!
Bora?
Boro!
Muito bom! Que Ele nos ajude a prosseguir olhando para frente/alto!
ResponderExcluirBelissima reflexão, especialmente quando nos damos conta de que a Graça e a Misericórdia querem nos alcançar. Que cada um de nós possa olhar em frente, em direção ao Caminho, ainda que durante o processo seja necessário se reconstruir a partir do sal. Afinal, como o nobre escritor colocou, o Pai não tem prazer na morte e, sim, em nos dar um novo propósito. Assim, se disse Jesus conforme narrado em Mateus 5:13 "Vós sois o sal da terra...", isso me leva a crer que, ainda que por vezes sejamos falhos em nós mesmos e levados a olhar para trás, há adiante de nós uma terra que necessita ser adubada. No Caminho ganhamos propósito e salvação. Bora percorre-lo!
ResponderExcluirQue alívio sua reflexão nos traz e revigora nossa fé de que sozinhos não somos capazes de mta coisa, mas pela graça Dele seremos salvos!
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