Aaaah o dinheiro... dinheiro, dinheiro, dinheiro. Como tem gente correndo atrás de dinheiro...
Patrimônio não tem só a ver com dinheiro, mas ele é componente fundamental na área patrimonial da vida. Com dinheiro, influência ou poder, agrega-se mais facilmente umas coisas no acervo.
Pois bem, o primeiro fundamento que precisamos lançar para início de conversa neste tema, é a constatação de que dificilmente uma pessoa começa sua vida patrimonial DO ZERO. Admiti-lo, é acolher a ideia de que tal pessoa não possua NADA, rigorosamente nada. Ok, Ok, calma. Eu sei que você conhece casos que sim, começaram sem nada, e justamente por isso usei a palavra “dificilmente”, duas frases atrás. Só quero alertá-lo, no caso, que NADA significa o ZERO ABSOLUTO, nadica de nada mesmo.
É que a menção a patrimônio nos remete, naturalmente, a bens mais vultosos, caros, como imóveis, automóveis e dinheiro ou equivalentes. Só que patrimônio – e ainda estou falando apenas do material – é mais do que isso. Vou pinçar um exemplo bem especial hoje, dia 9 de janeiro de 2022, aniversário de uma pessoinha que eu amo: LAURA.
Quando ela nasceu, em 2015, até aquele exato momento ela não possuía nada. Mas não tardaram minutos para ela ser acolhida pela primeira mantinha, as primeiras fraldinhas, roupinhas, brinquedinhos. Já repararam que tudo relacionado a criança pequena é falado no diminutivo?! (risos). Eu sempre reparei nisso. Criança não tem manta, fralda, roupa, brinquedo, etc. Ela tem tudo isso, mas com “inho” ou “inha” no final. Até o nome: Laurinha.
Os dias e semanas se passam, e com eles vão chegando novas coisas para a nova pessoa. Um teto seguro para viver; o berço e o jogo de quarto – novo ou emprestado, a depender de ser primeiro filho ou não (caçulas ficam com o que passou pelos mais velhos, ou primos, ou ganhados de pessoas generosas). E assim, meses e anos se passam, com pequenas coisas sendo agregadas ao patrimônio da pessoinha. Após sete anos, acho que deve haver mais na vida da Laura do que aquela primeira mantinha. Tenho certeza de que não tem mais fraldinha, mas a mamadeira ela teima em não largar. Roupinhas pequenas deram espaço a muitas outras, desde então. Os primeiros brinquedos foram substituídos por uma montanha de bonecas, kits de maquiagem, cadernos de desenho, e muito mais. Ao ponto de você conversar com ela e saírem muito naturalmente frases como “meu quarto”, “meus brinquedos”, “minha bike”, “meu ipad”, etc. Ela não precisou trabalhar para ganhar dinheiro e, assim, constituir este pequeno patrimônio infantil. Isto foi dado a ela. É assim que fazemos.
Tudo isso para trazer à lembrança a tantos e quantos eventualmente declarem de boca cheia que “vieram do nada”, “começaram do zero”, “fiz tudo sozinho”, “ninguém me ajudou”... que não é bem assim. Se ninguém tivesse trocado suas fraldas quando elas estavam cheias, você, sozinho, não teria chegado até aqui. Muito foi feito por nós, quando nem olhos abertos ainda tínhamos. Muito foi dado a nós. É bom ter isto sempre em mente.
Mas, enfim, passada a introdução, vamos ao que interessa: dinheiro, dinheiro, dinheiro; a única coisa que as Sagradas Escrituras comparam a um deus: “Nenhum servo pode servir dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom”. (Lucas 16:13)
Isoladamente tomado, o verso 13 não deixa tão explícito, mas se você começar a leitura no verso 9 e prosseguir, fica bem claro que o assunto é dinheiro. Ah, espiei aqui no Tio Google e vi que “Mamom é um termo derivado da Bíblia, usado para descrever riqueza material ou cobiça, na maioria das vezes, mas nem sempre, personificado como uma divindade. A própria palavra é uma transliteração do hebraico, que significa dinheiro”.
Outra passagem que traz essa ideia com muita clareza está em Mateus 6:19-24: “Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam; mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração. A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz; se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas! Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom”.
Palavra nova na área: CANDEIA.
Não a utilizamos muito no falar, e menos ainda no dia-a-dia da vida moderna, toda iluminada por lâmpadas de filamento incandescente ou LED. Candeia é uma pequena peça de iluminação, abastecida com óleo ou gás inflamável, e provida de mecha. No Brasil, popularmente conhecida como LAMPIÃO.
Faz muito tempo que não vejo, mas era uma peça absolutamente comum na minha infância. Não na minha casa, mas na do meu falecido avô Veríssimo de Paula Neves, nos idos da década de 80. Sim, a luz elétrica demorou bastante para chegar àquelas bandas da região central do Paraná. Os primeiros computadores davam as caras nalgumas regiões mais desenvolvidas do Estado, enquanto por lá a luz vinha acompanhada daquele cheiro característico de querosene queimado, que gerava a fumaça preta que se fixava em tudo que estivesse muito perto. Você caminhava pela antiga casa de madeira com sua candeia em mão. Mas função mesmo era precisar de banheiro após o anoitecer. Primeiro, porque a “casinha” ficava lá fora e a região era sempre muito, muito fria; segundo, porque a escuridão era absoluta; terceiro, porque fazer o que tinha que ser feito na casinha, administrando o lampião para não se queimar ou apagar, e ouvindo os grunhidos dos porcos abaixo de você era uma cena realmente muito peculiar. É, havia porcos lá em baixo (risos). Imagine aí, que outra hora eu te explico melhor a engenharia da coisa toda.
Mas bora voltar às riquezas. Por que cargas d´água aparece a figura da candeia no ensino de Jesus sobre este tema. Simples: COBIÇA. Nossos olhos foram corrompidos pelo pecado. E o primeiro pecado entrou exatamente por eles: “E vendo a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto, e comeu, e deu também ao seu marido, e ele comeu com ela” (Gênesis 3:6)
Que terrível!
E aí vem a consequência do pecado: “Então, foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais” (Gênesis 3:7)
Não havia cobiça nos olhos originais, santos e perfeitos, criados pelo próprio Deus, com suas próprias mãos, à sua imagem e semelhança. Mas a cobiça os maculou, e desde então os olhos são alvo prioritário do inimigo das nossas almas, pois tornaram-se nosso ponto mais vulnerável.
Ainda hoje eu tinha uma conversa muitíssimo agradável sobre as coisas do Reino, e dizia que dos 5 sentidos que temos, o principal canal de entrada dos ensinamentos de Deus são nossos ouvidos. E a coisa toda também começou lá no jardim: “E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: de toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gênesis 2:16-17)
Consegue enxergar a batalha? Deus nos DIZENDO o que é verdadeiramente bom, vesus o diabo nos MOSTRANDO coisas que parecem ser boas, mas que levam à morte. Ouvidos e Olhos. Pense nisto. Você tem se movido mais com base nos ensinamentos que recebeu/ouviu, ou com base nas coisas que seus olhos vêem? Esta é a luta.
E assim, olhando agora para trás, para os anos da minha juventude, já servidor federal concursado, salário legalzinho, independência financeira, blábláblá... como eu pude ter vivido tantos anos, naquelas condições tão favoráveis, e ter construído um patrimônio tão ínfimo na primeira metade da minha carreira até aqui? Simples: MEUS OLHOS COBIÇOSOS. Fui um péssimo mordomo, administrador lamentável, movendo-me com base na cobiça dos olhos. Comprava coisas que não precisava, com dinheiro que eu não tinha (por completo), para finalidade alguma. Tudo errado! Não prosperei.
Já a segunda metade dessa mesma carreira – coisa de dez anos para cá – tudo tão diferente. Um longo processo de abandono das decisões baseadas nos olhos, por decisões fundamentadas nos melhores princípios. Menos olhos, mais ouvidos. Menos cobiça, mais contentamento. E olha só, pasmem (risos): na segunda metade dessas duas décadas que tomo como exemplo para falar do aspecto patrimonial da minha vida, um período bem menos ideal do que a primeira, construí muito mais. Os risos no “pasmem” é porque não tem nada que pasmar. Começou a andar direito, ouvindo o que Deus fala, o resultado é garantido: a verdadeira prosperidade entra na vida do sujeito.
Não sei qual expectativa se formou em você, ao deparar-se com um pequeno texto que se propunha a abordar o aspecto patrimonial da vida. Qualquer que fosse – e podemos sim abrir para muitas vertentes – agora você sabe que a coisa mais importante nesta temática é abrir atentamente os seus ouvidos, e fechar bem os olhos. E olha só, pasmem (novos risos): ouvidos abertos e olhos fechados são exatamente a forma como devemos falar com o Pai; é assim que oramos. Nenhuma cobiçosa distração tomando nossa atenção. Assim Ele falará e suas Palavras serão bem entendidas.
Que a construção do seu patrimônio, deste exato ponto de sua vida em diante, seja pautada pelos ensinamentos e princípios da Palavra do Senhor, e não mais pela cobiça de seus olhos. O “como fazer”... a gente aprofunda em breve. Por ora, propus-me apenas a te trazer esta reflexão inicial e fundamental.
Mas... para que o texto não fique tão curtinho, vai rolar um spoiler do capítulo sobre patrimônio, do livro que está em fase de produção. Segue:
Algo muito importante sobre o aspecto patrimonial da vida, que precede as decisões específicas sobre o que ter ou não ter, é um adequado entendimento de em qual “fase patrimonial” nos encontramos. Obviamente, minha regra não é universal. Ela apenas funciona bem para mim, comportando ampla personalização para outras pessoas. O tipo de trabalho e fontes de renda; a pressa - maior ou menor - para alcançar determinados objetivos; o padrão de vida, propriamente dito, que a pessoa deseja; sua idade quando começou a organizar esta área; etc, são fatores que levarão cada um a perceber-se em determinada fase patrimonial, permitindo melhor compreensão sobre como agir e se organizar.
Indo direto ao ponto, eu percebo 4 fases patrimoniais:
1 - Fase da preparação pessoal e ingresso no mercado de trabalho;
2 - Fase da força de trabalho máxima e construção do patrimônio essencial;
3 - Fase da maturidade profissional e acumulação das reservas para a hora de parar;
4 - Fase da fruição plena do patrimônio e estabelecimento de um legado.
Encontro-me bem no início da Fase 3. Nos subtítulos abaixo, utilizarei os meus parâmetros pessoais como referência, apenas para ilustrar e dar exemplos mais concretos. Mas volto a frisar que isso é muito pessoal, sem regras herméticas. Cada pessoa pode ter uma parametrização exclusivamente sua. Vamos então aos pormenores:
FASE 1
Aquilo que chamo de “Fase da preparação pessoal e ingresso no mercado de trabalho”, na minha vida ocorreu desde a infância até os 22 anos de idade. Muito embora eu tivesse algumas experiências profissionais anteriores, já desde os 16 anos de idade (estágios e trabalhos de menor complexidade), penso que o primeiro dia trabalho, ou a primeira anotação em CTPS - vistos isoladamente - não servem para fechar a “Fase 1” e já te posicionar no início da fase seguinte. Entendo que deve haver um pouco mais de substância nesse caldo. Às primeiras atividades profissionais, deve necessariamente somar-se um bom fundamento intelectual, composto pela educação formal (propriamente dita) e outras fontes de formação para a vida e trabalho, tais como cursos e experiências de vida. Isso tudo comporá o ferramental necessário para início do pleno desenvolvimento de seu potencial produtivo, que se confirmará nas duas fases seguintes.
Pois bem, eu disse que para mim essa fase foi concluída nos meus 22 anos de idade. O fato marcante foi meu ingresso no quadro de servidores da Justiça Federal. Àquela altura, exatas duas décadas atrás (1999), eu cursava o 3º ano da faculdade de Direito na UEM. Aparentemente, seria mais adequado considerar a conclusão do curso como termo final da Fase 1, mas não vejo desta forma. Do mesmo modo que não vejo meu primeiro dia de trabalho na vida (estágio num escritório de arquitetura, aos 16), ou o primeiro contrato de trabalho (IBGE, aos 19) como termos finais dessa fase, pelo fato de minha formação acadêmica mínima não estar completa, também não vejo - sei que parece paradoxal - a conclusão dessa formação como o final da Fase 1. Foi em algum momento entre meus primeiros trabalhos e o término da faculdade, e a aprovação no concurso da JFPR ocorreu bem no meio disso tudo. Digamos que a meninice estava ficando para trás e eu começava a trabalhar pra valer, em algo que me dava perspectivas. Não pelo fato de ser um trabalho concursado, seguro na estabilidade e segurança de vencimento no fim do mês, pois outras formas menos estáveis/previsíveis de trabalho podem dar tanto ou mais perspectivas de crescimento e prosperidade na Fase 2.
Enfim, dito de uma forma bem simples, penso que a “Fase da preparação pessoal e ingresso no mercado de trabalho” compreende o período de nossa educação formal até a faculdade, mais conhecimentos formais ou autodidáticos em informática, finanças, trabalhos voluntários, relações interpessoais, inteligência emocional, idiomas, artes e esportes. É nossa bagagem acumulada na infância e juventude, transicionando-nos efetivamente para a vida adulta. Neste período experimentamos as primeiras conquistas materiais fruto de nossa força de trabalho. Eu não me recordo quando ganhei meu primeiro dinheiro vindo de alguém que não fossem meus pais. O estágio aos 16 foi não remunerado; a monitoria no curso vestibular foi na base de permuta para que eu pudesse assistir as aulas como aluno; fui então aprovado no teste seletivo para trabalho Censo IBGE 1996, já em Maringá, e creio que ali eu experimentei pela primeira fez a sensação de ter meu nome no holerite, um cartão de conta em banco, os primeiros boletos sob minha responsabilidade, etc. Enfim, aproximadamente 4 anos nos primeiros trabalhos, até que eu finalmente alcancei o status de um trabalhador típico. Já meu irmão Marcelo, pelo que me recordo, com 12 anos de idade já trabalhava numa farmácia em Cianorte, experimentou os primeiros salários muito antes de mim, por aquela mesma época comprou com seu dinheiro sua bicicleta, seus videogames, o primeiro computador, roupas, etc. Se eu olhar para o histórico de minha irmã, ou de alguns amigos meus da mesma faixa etária, cada história teve seu “timing” para entender-se formado e encarar o mercado de trabalho para valer.
FASE 2
Começa então nosso período mais produtivo, em termos de força bruta de trabalho. E “bruto” é um termo escolhido com precisão. Donos de um diploma superior; falando 2 ou 3 idiomas (eu não); quem sabe algum intercâmbio no exterior (cri, cri, cri); uma especialização ou mestrado já encaminhados para o pós-facul (tá, parei. não fiz nada disso), sentimo-nos os donos do mundo. Somos brutos, ainda que educados. Aguentamos as condições mais adversas. Seres invencíveis… e imaturos.
Novamente, estou generalizando. Minhas impressões são fruto de um olhar pelo retrovisor em minha história, mas muito também do que observei na vida de gente parecida comigo. A “Fase 2”, ou de força de trabalho máxima e construção do patrimônio essencial, foi um período que na minha vida durou exatas 2 décadas, encerrando-se exatamente agora (2019). Um fato específico que serve bem para marcar este fechamento, foi minha migração do RPPS da Justiça Federal para o RGPS.
Pois bem, mas o que normalmente acontece nesta fase em termos profissionais e patrimoniais? Via de regra é neste período que abraçamos a carreira que seguiremos por um longo período, e com base nela entendemos - ou deveríamos entender - o padrão de vida sustentável que podemos ter. Normalmente é nesta parte da vida que a pessoa se casa, tem filhos, adquire seu primeiro veículo com recursos próprios, consome mais intensamente bens e serviços, e também encara o desafio do primeiro imóvel. Se tudo der certo, consegue também acumular algumas reservas.
Percebam que os desafios materiais/patrimoniais são intensos, mas eles coincidem justamente com nossa fase mais produtiva, período em que dispomos de mais energia e a falta de juízo necessária para dizer sim a alguns excessos, em prol do alcance dos objetivos que estabelecemos. Novamente olhando pelo retrovisor, identifico claramente dois momentos de minha vida profissional em que fiz das minhas loucuras, em parte porque eu não tinha medo dos desafios e gostava de me colocar em situações novas, para saber se eu daria conta, mas, obviamente, também porque aqueles projetos me rendiam boa remuneração, diretamente proporcional à alta intensidade e entrega que me exigiam.
O primeiro momento foram 18 meses de trabalho no tribunal em Porto Alegre (2004/05), onde deixei muito, mas muito trabalho realizado, e de onde eu trouxe os recursos utilizados para pagamento da entrada de meu primeiro imóvel. Meia década depois (2009/10), nova temporada de 18 meses fora de Maringá, agora parte do tempo em Brasília e parte pelo Brasil afora, a história se repetiu e deixei muito de mim no trabalho, mas pude acumular bons recursos para um segundo imóvel. Logo a seguir, em reconhecimento pelos serviços prestados nesses 7 anos e dois projetos especiais, alcancei o ápice de minha carreira como servidor da Justiça Federal, ocupando a função de Diretor de Secretaria. Foi um período relativamente curto (3 anos), mas que me proporcionou um sensível aumento da renda, novamente utilizada para algum acúmulo de patrimônio e - porque a vida está sendo vivida agora e não o será apenas na aposentadoria - uma elevação no meu padrão de consumo.
O término de meu ciclo como Diretor foi totalmente inesperado - fui pego de surpresa, sem nenhuma sinalização de que isso iria ocorrer -, o que me causou algumas perdas, e a necessidade de rebaixamento do meu padrão de vida/consumo. Os anos finais dessa minha Fase 2, portanto, foram de pouca acumulação de capital e bens, mas o período visto como um todo (20 anos), foi suficiente para alcance do patrimônio necessário para uma vida de muito boa qualidade.
Qualquer que seja seu trabalho, sua idade, objetivos profissionais e materiais, o fato é que ocorre em sua vida essa fase mais intensa de trabalho e acumulação das coisas mais fundamentais em seu patrimônio. Para alguns, como eu, isso pode levar 20 anos. Para outros 15, 10, talvez até menos que isso. É muito pessoal. O que importa é compreender que esse período existe e ele tem um propósito específico na sua jornada patrimonial. Não se dar conta dele - como muitas vezes aconteceu comigo - te leva a decisões financeiras equivocadas, normalmente resultando em significativas perdas. Felizmente, ainda que em boa parte dela eu não tenha feito as escolhas mais inteligentes, posso dizer que minha Fase 2 cumpriu seu propósito. Tenho consciência de que se eu tivesse estabelecido melhor as prioridades e tido mais disciplina nesse período, eu o teria concluído com bem mais recursos acumulados e muito mais tranquilidade financeira do que experimento hoje. Num olhar bem realista, sei que eu poderia dispor do dobro do que possuo. Se não o tenho, compreendo que é porque antecipei para a Fase 2 algumas coisas que têm melhor lugar na seguinte. Falemos agora sobre ela.
FASE 3
A “Fase da maturidade profissional e acumulação das reservas para a hora de parar” é o meu exato momento, quando completo 42 anos de idade e 20 de Justiça Federal. Tive outros 5 anos de trabalho antes disso, em empregos formais, informais ou estágios. Contabilizo, portanto, 60% dos meus anos de vida em atividade profissional. Pelas regras atuais - e algumas projeções deste momento no Brasil, em termos previdenciários -, acredito que eu ainda trabalhe mais 25 anos. Se isto se confirmar, terei trabalhado 75% do meu tempo de vida quando pendurar os teclados (afinal, não uso chuteiras em meu serviço). Três quartos da vida em plena atividade profissional. Uau! Quando se para para pensar e fazer uma conta, sempre nos surpreendemos com o que o acúmulos dos anos é capaz de reunir.
Pois bem. Como cheguei a comentar no subtítulo “Fase 2”, minha percepção pessoal é de que ela findou, e consegui identificar um marco bem palpável para assim o entender: a opção que fiz em 2019 por deixar o RPPS da Justiça Federal e ingressar no RGPS, de maneira irretratável. Não entrarei em detalhes técnicos do porquê de minha decisão (aparentemente radical), mas importa dizer que, ao vislumbrar a possibilidade de dispor mais livremente de meus recursos, trabalhando-os com a liberdade que desejo, tomei coragem e deixei para trás algumas “vantagens” que minha condição de servidor “das antigas” possui, mas que acredito não se sustentarão no futuro. Neste contexto, entendi ser o caso de mudar, e o fiz.
O período de amadurecimento dessa decisão envolveu muita pesquisa. Organizaram-se em minha mente todas essas noções trabalhadas na parte inicial deste capítulo, meio que se descortinando a ideia das Fases 1, 2, 3 e 4. Algo que ficou muito claro para mim, é que minha decisão exigirá mais economia, disciplina e investimentos, sem o quê chegarei ao final de minha carreira em condições precárias, basicamente com o teto da previdência geral, mais um benefício especial complementar, previsto na migração que fiz. Se eu der bobeira, relaxar e comer no almoço tudo que me sobra a cada mês, sem o devido provisionamento, terei sérios problemas no futuro. Ou seja, entrei efetivamente no período em que preciso construir minhas reservas para a hora de parar.
“Observe a formiga, preguiçoso, reflita nos caminhos dela e seja sábio! Ela não tem chefe, nem supervisor, nem governante, e ainda assim armazena as suas provisões no verão e na época da colheita ajunta o seu alimento. Até quando você vai ficar deitado, preguiçoso? Quando se levantará de seu sono? Tirando uma soneca, cochilando um pouco, cruzando um pouco os braços para descansar, a sua pobreza o surpreenderá como um assaltante, e a sua necessidade sobrevirá como um homem armado sobre você”. (Provérbios 6:6-1)
Preguiçoso eu não sou. Dorminhoco também não (embora eu durma super bem, e umas sonecas no fim de tarde sejam parte da rotina). Proativo, com certeza é uma característica minha, pois nunca precisei de chefes me dando corda para o trabalho acontecer. Mas algo em que deixei um pouco a desejar, conforme dito alguns parágrafos acima, é que não fui totalmente prudente na construção das necessárias reservas. O vacilo que dei nessa área, enquanto passei pela Fase 2, não chegou a ser um desastre, posto que em dado momento eu tomei juízo e construí meu patrimônio básico. Mas agora que a Fase 3 acontece, de forma alguma posso repetir o padrão anterior. Preciso estar alerta e totalmente consciente de que os esforços e economias de agora, são a condição necessária para que eu tenha um final de vida mais tranquilo em termos materiais.
Mas o que fazer? Algumas atitudes são básicas e válidas para qualquer pessoa em qualquer momento: ter um orçamento organizado; gastar menos do que se ganha; poupar regularmente uma parte da renda; manter-se em dia nos dízimos e ofertas, atraindo assim bênçãos do Senhor, etc.
Além do básico, o que mais pode/deve ser feito? Aí é que a coisa começa a ficar interessante. Novamente falarei de mim, apenas para exemplificar. Retenha o que for bom para você. Em meu plano de longo prazo (25 anos) para esta Fase 3 que se inicia, vou simplesmente dobrar meu aporte mensal para a construção das reservas futuras. Até aqui, enquanto contribuía para o RPPS da Justiça Federal, digamos que eram “armazenados” X Dinheiros por mês em minha (agora ex) previdência. Ao migrar de regime, a contribuição foi reduzida à metade. “Opa, maravilha, aumentei meu orçamento mensal e posso melhorar meu padrão de vida!”. Claro que não. Se no RPPS eu vivi até aqui sem contar com aquele montante que agora me sobra, está mais que provado que consigo viver sem ele. A atitude mais sábia é continuar não contando com esse recurso. A novidade é que agora, ao invés de tê-lo amarrado numa contribuição mensal previdenciária, tenho o poder de dispor sobre o recurso em produtos/investimentos mais vantajosos, dentre os muitos que há no mercado.
Mas como é possível de uma hora para outra dobrar minhas economias? E se é possível, por que já não vinha fazendo isso? Duas razões respondem essas duas perguntas: 1) para mim, será possível dobrar porque me encontro num momento em que alguns compromissos financeiros importantes chegam ao fim. Na verdade, o ano de 2019 (época em que escrevi este texto) acabou por concentrar esses fechamentos e quitações, liberando-me um bom valor nas contas fixas mensais. E se sobrou mais, porque não guardar tudo, mais que dobrando a reserva? Bem, a vida está acontecendo agora, então posso e escolho utilizar uma parte desses recursos agora, hoje ciente de que ainda assim estou dobrando minha acumulação para o futuro. Prudência para o amanhã, e consciência de que o hoje também merece atenção. 2) Eu não vinha fazendo esses esforços de economia porque simplesmente não parei nos últimos anos para analisar, refletir, concluir e planejar o que preciso fazer para o futuro. Normalmente não fazemos isto. Entramos no piloto automático, vamos tocando a vida - e gastando - do modo como sempre fizemos, e quando a hora de parar se aproxima é que nos damos conta de que está um pouco tarde (talvez tarde demais), pouco se podendo fazer para garantir mais tranquilidade na fase final da vida (Fase 4).
Felizmente, essa compreensão instalou-se muito fortemente em mim agora, aos 42 anos de vida, e na metade de minha jornada profissional. Acredito que haverá tempo suficiente (25 anos) para eu me preparar.
FASE 4
O fechamento de um ciclo patrimonial ocorrerá, via de regra, com a aposentadoria. No tempo de escrita deste livro (2019), o tema Reforma da Previdência tomou o noticiário no Brasil, levando-me a refletir bastante a respeito. Coincidentemente (ou não) - conforme anotei num dos subtítulos acima -, nesse mesmo ano eu fiz uma opção importante em minha vida profissional/contributiva, migrando de regime. Naturalmente, um dos pontos principais de qualquer sistema previdenciário é a definição do tempo necessário para uma pessoa completar seu ciclo contributivo, alcançando a idade necessária para fruição de seu benefício. É uma ideia absolutamente normal em nossa cultura.
Entretanto, certa vez encontrei no material de um curso que fiz, a informação de que a Bíblia não trata do conceito de aposentadoria. Chamou-me a atenção, pois eu nunca havia pensado sobre isto. De fato, no formato que conhecemos e praticamos aqui no tempo presente (séc. XXI), a aposentadoria não é claramente vista no texto sagrado. Mas penso haver sim, em algumas passagens, a ideia de que a jornada profissional tem um momento de conclusão:
Mas, depois dos 50 anos de idade, ele se retirará do grupo de serviço e não fará mais nenhum serviço. Ele pode servir os seus irmãos, que cuidam das responsabilidades na tenda da reunião, mas não deve fazer nenhum serviço ali. É assim que você deve fazer com respeito aos levitas e às responsabilidades deles. (Números 8:25-26)
Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. (2 Timóteo 2:7)
Recordo-me de uma colega profissional, anos atrás, relativamente jovem e distante da aposentadoria, que sabia exatamente a quantidade de dias, meses e anos que faltavam para “o dia mais feliz da sua vida”. Eu olhava para aquilo e imaginava como teriam sido terríveis para ela (até então), e quão mais horrendos deverão ser os muitos e muitos dias futuros de trabalho que ela tem pela frente. Sério. Naquela época faltavam mais de 20 anos, mas ela só conseguia pensar no dia de parar.
Até bem pouco atrás - e olha que já trabalho há mais de 25 anos - eu não seria capaz de apontar com precisão o dia da minha parada profissional. Descobri então, nos sistemas funcionais do meu trabalho, um campo de pesquisas que indica este evento para meus 62 anos de idade. Em tese, faltam exatamente 2 décadas. Sabê-lo foi absolutamente indiferente para mim, pois não fico pensando nisto. Encontro tanto prazer no trabalho, sentido e realização, que me vejo em ação por um bom tempo ainda. Conforme subtítulo “Fase 3”, acima, eu projeto mais 25 anos de trabalho para construir as reservas que imagino necessárias para um final de vida (Fase 4) mais tranquilo. Mas isso não significa que me vejo parando por completo daqui ¼ de século.
Aos 67 anos devo estar bastante saudável, mais inteligente e muito mais sábio do que sou hoje, além de dispor de ótimos recursos para realizar o que quer que seja. Percebem a diferença de mentalidade? Ao menos para mim, faz muita diferença encarar os próximos 25 anos riscando dia após dia o calendário, numa contagem regressiva sofrida e infeliz, do que imaginar tudo que posso fazer e crescer neste período, até alcançar o fechamento de uma carreira que tanto aprecio e me realiza. Claro, muitas questões imponderáveis podem cruzar meu caminho num horizonte tão (relativamente) longo, mas minha atitude frente a vida me leva a pensar e esperar o melhor. Talvez (e fica uma dica gigante) esteja nisto um dos fatores para normalmente eu experimentar o melhor.
Nenhum comentário:
Postar um comentário