“Vou dar uma guinada de 360 graus na minha vida!”, falou o cara, cheio que convicção.
“Aham, só para ficar um pouco tonto com o rodopio e continuar exatamente no mesmo sentido”, pensou o Fer (no “modo xarope”).
Não, eu não falei assim para ele. Pensei quieto, para dentro. Mas de uma forma mais gentil fui explicar que a tal guinada, no SENTIDO de sua fala, deveria então ser de 180 graus. Nele um olhar de incompreensão e tal, testa franzida e tal, e vou lá eu esmiuçando que 180 graus seriam uma “meia volta”, esta sim a mudança total para o sentido oposto, enquanto que 360 graus resultariam numa volta completa, mas sem mudar a sentido.
“E eu lá sou pessoa de dar meia volta?! Nããão, comigo nada é pela metade. Tudo ou nada. Vou dar uma volta completa e mudar tudo na minha vida!”
Aquela respirada. Ele não tinha (ou tinha?) culpa por não compreender Física.
“Você tem uma caneta e um papel?”, eu prossegui.
Então vieram a caneta e o papel. Desenhei os conceitos (ora copiados de algum lugar da internet, mas que na hora eu me recordava das aulas do 2º Grau): Direção e Sentido são orientações utilizadas em Física, necessárias para expressar grandezas vetoriais. Por exemplo, na direção vertical, temos o sentido de baixo para cima, e o sentido de cima para baixo. Enquanto que, na direção horizontal, temos o sentido da direita para a esquerda, e da esquerda para a direita.
Olhos estalados, naquela nítida expressão de quando se descobre algo que é bem simples, mas você compreendeu errado a vida toda. Ficou um pouco quieto, passando a impressão de estar envergonhado por ter insistido na expressão equivocada, quando expliquei verbalmente da primeira vez, e mais envergonhado ainda quando precisei literalmente desenhar na segunda, para que ele finalmente pudesse compreender. E o que veio logo a seguir, nem lembro.
Eu não fiz isso para mostrar ao cara que eu sabia mais do que ele. De verdade, não foi a intenção. Aliás, ele sabe mais, muito mais do que eu em um monte de coisas práticas da vida, mas seguramente sabe bem menos conceitos teóricos que eu gravei na escola. De todo modo, a motivação naquela conversa foi a melhor possível. Apenas a de fazê-lo entender que a forma correta de expressar o seu profundo desejo de mudança, seria dizê-lo no formato “GUINADA DE 180 GRAUS”. E vida que segue. Na mesma direção. Mas agora num novo sentido.
Hoje falaremos sobre MUDANÇAS.
Novamente sem fazer suspense, vou direto ao ponto: EU ACREDITO EM MUDANÇAS.
Acredito, antes de passar qualquer fundamentação teórica, pelo simples fato de eu ter visto mudanças dramáticas acontecerem nas vidas de algumas pessoas. Pessoas próximas. Pessoas que amo. Pessoas que conheço as histórias há décadas. Pessoas que hoje são muito diferentes (para melhor) do que algum (muito ou pouco) tempo atrás. E também acredito porque mudanças importantíssimas já aconteceram em mim, para início de conversa.
E falando em conversa, recordo-me agora de uma em que eu me encontrava, anos atrás, em que o tema era justamente esse: UMA PESSOA PODE REALMENTE MUDAR DRASTICAMENTE? Eu defendia veementemente que sim. A outra pessoa tinha toda a certeza do mundo que não. E nada de consenso entre nós. Argumento pra lá, argumento pra cá; ambos marcando posições inflexíveis sobre suas opiniões a respeito, até que rolou uma tensão mais forte na prosa. Não era o que eu classificaria como discussão, mas chegou bem perto. E para que não virasse nisso, paramos ali. Realmente, sem chance de concordarmos.
- Eu não acredito que ninguém mude de verdade
- Pois eu acredito totalmente que uma pessoa possa mudar.
E fim de papo. Os dois certos, sob seus próprios pontos de vista. Os dois errados, sob os critérios do outro.
E sabe, passados alguns anos, e observadas mais algumas coisas na vida, continuo afirmando, como já o fiz de partida, que EU ACREDITO EM MUDANÇAS.
Aliás, como não acreditar, se este é o chamado essencial do Evangelho?!
Como eu disse no escrito 005 SEXTOU, o “arrependei-vos” inaugurou o ministério de Cristo, assim como tinha sido esta mesma mensagem a tônica de João Batista: “Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus”. Palavras ditas por um homem que confrontou sua geração. João Batista, primo e precursor de Jesus. A voz que clamava no deserto, aquele que preparou o caminho do Senhor.
Arrependimento pressupõe algo presente que não está OK, para a entrada num processo imediato que te leve a uma condição diferente. Basicamente, o arrependimento implica numa mudança que precisa ocorrer. Porque se for para arrepender e permanecer exatamente como antes, estaríamos falando na tal Guinada de 360 Graus. A coisa está caminhando e tal, acontece então um rodopio completo na pista (volta completa), e você segue exatamente para onde se dirigia. Mudança nenhuma, a não ser o fato de alguma zonzeira ter ocorrido na hora da derrapada, além da possibilidade de alguns ferimentos naquele processo. Mas tudo como dantes no quartel de Abrantes, expressão sempre repetida pelo meu chefe em conversas nossas (no cafezinho).
Aí eu me pergunto: Por que cargas d´água, se não existe mudança, Jesus requereria de nós arrependimento? já que arrependimento pressupõe mudança. Não faria o menor sentido, como efetivamente não faz.
Abraçar o Evangelho e intencionar permanecer como o de sempre, não tem como. Escolher as partes apetitosas (escrito 045 LETRINHAS PEQUENAS) e descartar as difíceis, não tem como. Almejar uma nova vida, sem morrer para a velha, definitivamente não tem como. Qualquer coisa parecida com isso, redundará em Guinadas de 360 Graus. E como tem disso! Aliás, como eu já fiz isso!!! Sem entrar em detalhes sobre minha fase “vida de chiqueiro” (escrito 018 SEMPRE NA CASA DO PAI) – porque não vejo propósito em ficar contando detalhes e picâncias dos pecados passados – eu muitas e muitas vezes tentei levar as coisas sem a mudança real... apenas para rodopiar e seguir no mesmo estropiado sentido.
Mas mudei.
E sabe o que eu aprendi sobre mudar? Que o processo pode ser lento ou rápido, algo que depende tão somente de mim. De você. Porque mudar é decisão. Decisão que implica em nova atitude. Uma GUINADA DE 180 GRAUS significa – Oooh, que gênio!!! – dar meia volta e seguir para o lado (sentido) oposto de antes. Simples assim. Ou é meia-volta, ou nada mudou.
“Fer, você está simplificando demais as coisas. Não é bem assim. Tem coisas que são complexas”.
Eu sei. Não ignoro. O processo será mais rápido ou demorado, a depender do tamanho do problema.
Dar meia-volta à pé, enquanto se caminha, você o faz num segundo ou menos. Numa bike em meio às trilhas, molezinha, rapidão. Girar 180 graus um automóvel pequeno, a depender do tipo de estrada, vai levar uns instantes ou mesmo alguns minutos, até que você chegue ao ponto de retorno. Um barco grande fará meia-volta num tempo bem maior, e maior ainda se se tratar dum trem, e aqueeeela voltona grande no ar se estivermos pilotando um Airbus A380-800, com suas mais de 275 toneladas (vazio), ou meio milhão de quilos (se carregado).
Tudo depende da carga.
Um novo sentido na caminhada vai depender das cargas que você colocou (ou colocaram) na sua bagagem. Sim, porque tem pesos que você mesmo escolheu carregar, mas também há a possibilidade de você ter sido vítima de abusadores que colocaram pesadas pedras em sua mochila ou porta-malas ou compartimento de carga.
Quando as palavras de Cristo impressionaram o jovem rico, ele rapidamente correspondeu e disse ao mestre que o seguiria aonde quer que fosse. Para logo a seguir calcular o preço da mudança, dar uma Guinada de 360 Graus, ficar triste pelo que lhe parecia difícil demais, e seguir nas mesmas direção e sentido. Afinal, ele tinha muito peso em sua vida para administrar. Deixar tudo por Jesus era uma decisão radical demais para alguém como ele. Enquanto que o jovem conhecido como endemoninhado gadareno teve o mesmíssimo e impressionante encontro com Jesus e correspondeu totalmente, seguiu totalmente, radicalizou. Guinada de 180 Graus. Na mesma hora, um novo sentido. Afinal, ele não tinha nada. Quem sabe uns restos de algemas quebradas em seus pulsos e tornozelos, que Jesus gentilmente fez cair com um simples toque de suas mãos, para fazer daquele rapaz um novo homem. Livre.
É dito na Palavra que esse jovem, até então perdido, violento e sem rumo, tornou-se um propagador do Evangelho pela região de Decápolis (palavra que significa Dez Cidades). Ele foi fundo na mudança. Ganhou para o Senhor não apenas os de sua casa e mais uns conhecidos, mas 10 cidades. Ele era a prova da mudança! A PROVA VIVA. Tento imaginar o espanto de todos aqueles que conheciam sua condição miserável de antes, ao depararem-se agora com um novo homem, organizado, vestido, limpo, em perfeito juízo. Sem palavras, tenho certeza que muitos foram impactados por sua mudança e mudaram também.
Digo pela terceira vez neste pequeno escrito: EU ACREDITO EM MUDANÇAS!
Pelos exemplos que a Palavra nos traz. Pelas pessoas que vi passarem pelo processo. E porque eu mudei também.
Meu processo foi rapidíssimo. Num segundo, como quem anda à pé pelas ruas. Porque vivo uma VIDA DE MOCHILA – escrito que está na fila para vir à existência – com pouco peso, sem cargas desnecessárias, vapt-vupt. Quem sabe sua mudança esteja mais complicada, não porque mudar seja impossível, mas porque as cargas em sua vida sejam grandes demais. Quem sabe as 500 toneladas do Airbus.
Libere os pesos. Não faça cálculos demais, como o jovem rico. Senão você fica nos 360 graus. Se tiver que olhar para algum lugar, olhe para as algemas quebradas em seus pulsos e tornozelos, dê meia-volta na mesma hora; 180 graus, e vá ganhar o mundo para Ele.
Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres. (João 8:36)
Eu acredito em mudança porque eu também mudei: 180 graus em direção ao céu, eternamente.
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