quarta-feira, 15 de setembro de 2021

057 SORTE, COMPETÊNCIA E EXCELÊNCIA

Anos atrás, numa época em que eu ainda assistia TV - tempos distantes, quando dava atenção para o futebol - ouvi a seguinte entrevista:

– Quais seus objetivos no futebol?

– Ganhar tudo duas vezes.

– Como assim? Tipo... ser campeão do mundo duas vezes, ser eleito o melhor jogador da temporada duas vezes, ganhar título continental duas vezes?

– Isso mesmo.

– Mas por qual razão "duas vezes"?

– Ganhar tudo uma vez já seria um feito enorme, muito maior do que algum dia sonhei. Mas outros jogadores já fizeram isso antes. Então, se eu quiser realmente entrar para a história, precisarei fazer mais. Precisarei deixar muito claro que nenhuma daquelas conquistas foi por sorte. Porque com muito trabalho, uma pitada de sorte, e a junção de alguns favores improváveis, ainda seria possível uma pessoa improvável chegar ao topo. Mas duas vezes, não. Para vencer tudo duas vezes, só com muita competência mesmo.

Uns poucos segundos de entrevista, mas que ficaram registrados na minha mente para sempre. Havia uma chave importante ali, uma ideia consistente, que fez todo sentido para mim. Vencer uma vez pode envolver sorte. Vencer duas, só com competência. Mas três vezes... apenas para os que alcançaram a excelência. O acréscimo do TRI foi por minha conta.

Bem, este escrito tende a ser curtíssimo, talvez um dos menores da coleção. Não criei suspense, não ilustrei com dois ou três exemplos da minha própria vida, já fui mandando a letra completa nas primeiras linhas. Tem vez que é assim mesmo; a gente vai pelo simples, porque o melhor costuma estar no simples. Preto no branco. Pá‐pum.

Exemplos de pessoas que foram as melhores em algo uma vez, vamos encontrar muitos. Os que conseguiram repetir o feito, já raleia bastante o lote. Topzera mesmo, bem mais raros, são os que foram ainda mais longe, consolidando-se por três ou mais vezes no topo. Aí já estamos falando em carreiras dominantes, incontestáveis. O cara (ou a mina) chegou a um nível de EXCELÊNCIA!

Aplicação: avaliar se nos contentamos com um resultado isoladão, dando-nos por satisfeitos com uma glória solitária que nos acompanhará pelo resto de nossas vidas, ou se "superamos" esse lugar dourado, para ir além. Pense: daqui 10, 20 ou 30 anos, você falando daquele resultado incrível que alcançou uma vez, e repetindo a mesma história randomicamente, que todos no churrasco já ouviram trocentas vezes. Nada mais aconteceu de relevante? Acomodou? Parou no tempo? Pois é, pois é. Um voo só. Samba de uma nota só.

Alguém já disse que alcançar o topo é difícil, mas manter-se lá é muito, muito mais. Outra verdade, uma verdade que conversa totalmente com a ideia do “um é sorte, dois é competência, três é excelência”. Porque à medida que você chega ao lugar mais alto, um alvo é imediatamente colocado em suas costas. As atenções que não eram direcionadas para você, até então; e relativa menor pressão por resultados, de um tempinho atrás; a coleção de haters que colam um pôster seu no espelho, para dizer todo santo dia “vou ganhar desse cara”... tudo isso agora vem no pacote do Número 1. Um novo contexto. Conseguir ser o melhor novamente significa mais trabalho e dificuldades do que da primeira vez. E se tudo der certo, e você mostrar nos resultados a competência para tal, fazê-lo ainda uma terceira vez aumenta exponencialmente o pacote. Tem gente que nem te conhece, que vai te odiar pela simples perspectiva do seu TRI. “Aonde esse palhaço acha que vai chegar? Tri, não. Tri, não. De jeito nenhum!”

Você é uma pessoa legal, gente boa, trabalhadora, honesta e competente. Mas uma galera te quer pelas costas, porque incomoda ver alguém se destacando. Como dizia um professor meu no MBA, com voz de psicopata: O MUNDO É MAAAAAU!!! E a sala caía na gargalhada. Contava lá uma historinha do mundo corporativo e... O MUNDO É MAAAAAU!!! Módulo incrível de Contabilidade para Executivos. É, galera, o piazão aqui já encarou umas estudações bem fora da curva. Amo aprender, até Contabilidade. Será por isso que algumas vezes cheguei ao topo? (pra pensar com carinho...)

Sim, houve vez em que cheguei ao topo.

Duas vezes? Sim.

Três??? Ahã! Positivo e Operante.

Paremos no Tri, porque seu falar que já fui Tetra, pode soar meio arrogante né.

É TETRAAAAA, É TETRAAAAA! A icônica cena do Galvão Bueno e do Pelé no final da Copa do Mundo de 1994. Tipo, eu detesto o Galvão como narrador e/ou comentarista, mas curto demais aquela cena. Espontaneidade pura. O Brasil não tinha chegado ali por sorte. Já tinha demonstrado competência. Alcançou a excelência em 1970. Para 24 anos depois colocar a quarta estrela no escudo e assim se tornar o alvo de todos. Tinha que gritar mesmo, extravasar, pagar mico em transmissão global. As grandes conquistas devem ser celebradas.

Fica sempre o alerta para não perder a simplicidade, o respeito pelos que foram superados, as boas maneiras enfim. Porque chegar ao topo, e chegar de novo, e de novo e de novo, não te dão um salvo-conduto para se achar o bichão-da-goiaba. Tá, você é, beleza. Mas saiba ser. A excelência sem a decência pode muito bem descambar para uma excrecência. Há tantos multicampeões sem fãs, sem amigos, sem alegria. Têm apenas seus troféus, medalhas ou diplomas, que fatalmente serão alcançados um dia pela traça e pela ferrugem.

Vitórias virtuosas são melhores. Poder segurar as mãos do segundo e terceiro no mesmo pódio, sorrir com eles, ser amigo deles, é tão melhor. Assisti ao vivo uma única prova das Olimpíadas Tokyo 2020 (que ocorreram em 2021, por causa da pandemia). Final da canoagem C1 1000m. Izaquias Queiroz (brasileiro) em primeiro. Foi demais!!! Torci como há muito tempo não fazia. O cara alcançou o topo, finalmente. Nas olimpíadas anteriores, aqui no Brasil, ele conseguiu duas pratas e um bronze. Agora colocou seu nome num rol seleto: poucos atletas brasileiros alcançaram 4 medalhas olímpicas. Top demais! Fiquei feliz por ele. Mas sabe o que mais me chamou a atenção naquele dia? O chinês Hao Liu, segundo colocado na prova. Cara, nunca tinha visto um vice-campeão tão feliz da vida como ele. E justo um chinês, povo que é tido por ser obcecado pelo número 1, mostrando naquele dia uma alegria incontida, um sorrisão rasgado, beijo na medalha, abraço no campeão, abraço no medalhista de bronze. Que cena marcante. Inspirador.

Por outro lado, já vi atletas mal deixando a medalha de prata encostar no peito, para logo tirá-las, envergonhados. Lembro-me até de alguns que as jogaram para a torcida, nitidamente comunicando “Não quero essa droga! Só o número 1 importa”. Lamentável. Hummm... não, não. Que bom que não conseguiram. Com tal espírito, a medalha dourada estaria no peito errado. Que a vitória seja sempre virtuosa. E a derrota, ainda mais.

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