“Ainda essa semana, conversando com uma amiga, ela me perguntava se os itens na minha agenda semanal são inegociáveis. Se é tudo tão rígido quanto parece. É que eu havia comentado que costumo cumprir, toda semana, uns 90% dos itens nela constantes. Ao que respondi que não, em absoluto são inegociáveis. Senão a vida seria muito chata. Chata como chato já fui, nos tempos em que a agenda era inegociável. Nos tempos das regras pelas regras e um perfeccionismo sem sentido. (...) A rigidez do sistemático perfeccionista foi dando lugar à leveza do disciplinado em busca de excelência. Esta nova perspectiva mudou tudo”.
O texto acima faz parte do escrito 014 APENAS UM DOCE, publicado no dia 05/05/2021. Ele ajudou a compor uma primeira série temática aqui no blog, que abri logo que assumi de forma consistente meu propósito de escrever. A série foi denominada “Pequeno Decálogo de um Cara Sistemático”. No geral, eu tiro onda de mim mesmo naqueles 10 textos, brincando e também falando sério sobre algumas regras que estabeleci para mim ao longo da vida. Ah, e só para constar: eu sou bem menos sistemático do que pareço. Jogue fora esta visão sobre mim, caso você a tenha.
Agora que chegamos ao quarto texto da série DOBRADINHAS, achei interessante abordar novamente aquela ideia que foi apenas pincelada antes. Cabe um aprofundamento, com certeza. Aliás, é um tema que gosto muito, pois sei de seu potencial libertador. Sei, porque fui liberto do perfeccionismo há alguns anos, algo que me aprisionou desnecessariamente.
É tênue, a meu ver, a linha que separa PERFECCIONISMO e EXCELÊNCIA. Ambos os conceitos – que não vou transcrever, pois você tem boa noção do que significam – tem a ver com fazer algo, ou ser alguém, com o menor número de falhas possível. Idealmente, sem falha alguma. Fazer algo perfeito, ou ser alguém perfeito. Se é possível ou não, aí são outros quinhentos. Assim, vamos considerar que um OBJETIVO PERFEITO seja o alvo tanto do Perfeccionista, como também do Excelente. Ambos querem o mesmo. Então, onde está a diferença?
Penso que esteja principalmente nos sentimentos envolvidos. E, em alguma medida, nos processos.
No perfeccionismo, há sofrimento se o objetivo perfeito não é alcançado; e um senso de poder muito intenso se alcançado. Ou seja, o resultado altera drasticamente os sentimentos do sujeito, levando-o do topo ao fosso, a depender do que aparecer no campo indicativo de “conseguiu” ou “não conseguiu”. Há casos em que o processo envolvido na busca do objetivo não importa muito. Aliás, é bastante comum o perfeccionista desconsiderar elementos importantes do processo, tais como ética, observância das regras, empatia, e outras coisinhas fora de moda (pelo menos para ele). Alcançado o fim, pouco importam os meios. Perigoso isso, heim...
Calma, calma! Eu sei que tem aí do outro lado um perfeccionista ético em seus valores, que já franziu a testa para o parágrafo acima. Eu sei. Eu era um. Aquela menção a processos heterodoxos não valem pra você, mas sim para o perfeccionista mau caráter, aquele que quer o perfeito sem observância das regras, na base do VALE-TUDO. Eu não aceitava (e não aceito) atalhos indevidos.
Na excelência, como dito, embora o alvo também seja um objetivo perfeito, importam essencialmente os meios e processos envolvidos para se chegar ao resultado. Para o Excelente, não vale ser o primeiro sem honra, lealdade, consideração das regras, respeito pelo próximo, assim como para o Perfeccionista correto em seus valores. Nisto eles se assemelham. Mas, e quanto aos sentimentos? O Excelente também deseja un resultado perfeito. Entretanto, se ele vier, ou não vier, os sentimentos não oscilarão do topo ao fosso, fazendo-o sofrer, ou glorificar-se. A coisa toda é mais equilibrada. Isso decorre da consciência de ter feito tudo o que era necessário, eticamente, dedicadamente, com bons processos. O resultado perfeito será a consequência. O excelente sabe que há fatores sob seu controle, e outros que não estão. Consciência que lhe apazigua. Sem rompantes pra cima ou pra baixo. Excelência tem a ver com moderação do lado de dentro.
Essas descrições não foram tiradas de manuais ou estudos. São minhas impressões e observações da vida. A vida dos outros, e algumas vezes da minha. O Fernando perfeccionista, dos anos iniciais no mercado de trabalho, fazia tudo para o resultado perfeito. Quase tudo, na verdade. Como eu nunca flertei e muito menos aceitei esquemas fora do correto, eu não trilhava caminhos errados. Não. Mas cortava na carne para conseguir alcançar os objetivos, ainda que corretos. Horas trabalhadas a mais, que me custavam muito na vida pessoal, em troca de bater uma meta que vinha estabelecida de cima. Se a meta eram 100 coisas, eu faria tudo para bater 100.
Hoje eu me importo bem mais com minha vida pessoal, o que de forma alguma deve ser confundido com um trabalhador desleixado. Mas abrir mão de tempo de vida pessoal – um ativo irrecuperável – para bater uma meta de trabalho? Não mesmo! Sabe por quê? Amanhã eu adoeço e morro, ou me acidento e morro, e todas aquelas metas estarão lá, sendo assumidas por outra pessoa após meu enterro. Eu não sou insubstituível. Mas meu tempo de vida é irrecuperável. Quantas incontáveis horas de vida eu ralei a mais no trabalho, só para entregar o projeto com resultado perfeito, receber um tapinha nas costas, seguido das coordenadas para a próxima meta maluca. E lá seguia eu de novo, mostrando para todo mundo que eu conseguia. Perfeccionista.
Isso tudo para falar de coisas externas. Exemplifiquei com trabalho.
Mas do lado de dentro da porta aconteciam coisa parecidas. Metas de leituras. Agendas lotadas de itens. Organização dos itinerários para que houvesse o maior aproveitamento possível do tempo. Pula mais cedo, deita mais tarde. Índices e/ou cargas sempre um pouco melhores nos exercícios. E muito mais. Como também mencionei no texto 014, foi a fase da vida em que eu anotava numa cadernetinha cada centavo gasto, para depois lançar tudo em planilha, classificar por tipos, e ter um mapa perfeito de onde estava sendo colocada a grana.
Sobre aquela frase inicial “Ah, e só para constar: eu sou bem menos sistemático do que pareço”, se você a jogou fora mesmo, talvez esteja revirando o cesto para pegar de volta (risos).
Que vida pesada era aquela. Perfeccionista e sistemático. Os sentimentos não eram bons quando as metas não eram batidas, ou a agenda cumprida. Quantas vezes, tarde da noite, forcei-me a ler com sono, só porque eu havia estabelecido que tinha que ler X páginas diárias. Isso depois de ter feito outras Y, W, Z coisas também estabelecidas como metas diárias. Vida cansativa. Se cumpria, vinha um sentimento positivo, quase uma autoglorificação por ser tão eficiente em tudo. Se não, o sentimento negativo do fracasso. E tudo isso por nada. Aqueles objetivos perfeitos não tinham razão de ser. Nem os da porta para fora, nem os de dentro.
Lembro-me que a primeira coisa que abandonei, quando me dei conta dessa loucura, foi deixar de anotar detalhadamente tudo o que eu gastava. A tentação de fazê-lo era grande, devido aos anos de hábito. Fiz o básico: ter bem claros quais eram meus gastos principais e fixos, bem como uma ideia da média dos variáveis; saber que isso cabia no meu orçamento mensal; ser econômico e organizar a grana para os gastos extraordinários. Simples assim. Uma página de agenda era suficiente para este mapa orçamentário. Nada de cadernetas e planilhas.
Depois fui deixando de anotar cada detalhe dos meus treinos de corrida. Idem com as páginas lidas por dia ou semana. Agenda flexível, porque imprevistos acontecem. E muito mais. Fui deixando pelo caminho, uma após outra, as anilhas de ferro que pesavam na minha mochila. Carregar pouco. Levar comigo nesta viagem da vida o que faz sentido. A imagem do MOCHILÃO me ganhou. Tem a ver com a vida que eu vivo hoje. Seja nas metas leves, ou em possuir os bens necessários. Até mesmo no volume de informações que filtro para dentro de mim, dou bastante atenção. Leveza. Porque já tem tanta coisa lá fora para pesar, e ficarei eu cá me sabotando, dando tiros no pé? De jeito nenhum. Eu quero mais é me ajudar.
Considero essa uma reflexão muito válida. Somente numa fase mais madura da vida eu percebi aqueles pesos extras. Talvez porque na juventude a gente abrace irrefletidamente a ideia de ser o melhor, por precisar passar num vestibular difícil, preparar-se para o mercado de trabalho, fazer mais do que todos os outros para conseguir a promoção, ou estudar mais do que todo mundo para passar no concurso top das galáxias. E sabe, não tem nenhuma coisa errada escrita ali. São objetivos válidos e lícitos, e muitos deles exigem resultados perfeitos. Alcancei alguns, felizmente.
O que aprendi da vida foi saber distinguir aquilo que exige de mim uma entrega extrema, perfeita, porque faz sentido e se justifica, do que seja desnecessário e tolo, regras pelas regras, um estilo de vida pesado... por nada. Ser o número 1, SEMPRE, é insustentável. Desnecessário também, ainda que fosse possível. Cedo ou tarde a coroa muda de dono, como comentei no escrito 021.
Cabe a cada um saber aonde quer chegar, e quais preços pessoais está disposto a pagar pelo topo. Eu fiz as minhas contas, certo dia. Notei que o preço era alto para mim, não valia a pena continuar daquele jeito, só para ter mais bens, ou só para dizer de boca cheia nas conversas que eu tinha esta ou aquela performance. Os anos passam, a idade se acumula, para finalmente aprendermos que NEM TUDO SE RESUME A PERFORMANCE. Isto é libertador.
Dizem que se conselho fosse bom a gente não dava, mas vendia. Ainda assim, do “alto” dos meus 40 e poucos anos, especialmente para pessoas mais jovens que venham a ter contato com este escrito, se um conselho eu posso deixar, deixo este: OS CAMINHOS DE EXCELÊNCIA VALEM MAIS A PENA DO QUE OS CAMINHOS DE PERFECCIONISMO. Não é um chamado à mediocridade, de forma alguma. Lembre-se que ambos buscam objetivos perfeitos, ou seja, podem te fazer chegar a lugares altos. A diferença fundamental, vital, é que pela Excelência você trilhará um caminho melhor, mais leve e sustentável, com seus sentimentos preservados. Enquanto no Perfeccionismo você carregará peso extra, e muito provavelmente precisará duns remedinhos para as dores musculares e também para as emocionais.
Faça as contas.
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