E assim, com este quinto texto, concluímos a série DOBRADINHAS. Tem segredo não! Basta ter disciplina e consistência, uma das características mais importantes para fazer algo acontecer. Sorte, inspiração, genética, recursos... e tantas outras coisas podem até contribuir para o alcance de um determinado objetivo, mas penso mesmo que consistência, resiliência, dedicação (e coisas do tipo) sejam “o segredo”. Então, já que dito assim, não é mais segredo. Corpo mole, preguicinha, “depois eu faço” (e coisas do tipo) são tudo que a concorrência mais deseja ver em você.
Outros pequenas séries como esta virão, cedo ou tarde. Já separei várias palavras para trabalhar as ideias.
BRASIL e BRAZIL...
Falar destas complexas duas nações é um baita desafio. Digo duas, porque existe um BRASIL que só o brasileiro vê – o nato ou naturalizado; ou mesmo um gringo que tenha passado longuíssimo tempo por aqui, suficiente para olhar o país como nós vemos –, e existe também um BRAZIL que é aquele que os estrangeiros veem – os turistas, visitantes eventuais, ou quem nunca pôs os pés na terra brasilis, só apreendendo algo de nós por fotos, vídeos ou leituras.
Começo pelo último. O Brazil com “Z” é bastante incompleto. Certamente, muito menos do que já foi, mas limitadíssimo ainda. Importante mencionar que não viajei pelo mundo, conheço poucos estrangeiros, características que não me habilitam de forma alguma a passar uma visão profunda sobre os olhares gringos sobre nós. Como sempre e sempre destaco por aqui, são apenas as minhas impressões, que podem estar mais para o certo, ou mais para o errado, conforme o tema. Jamais palavra final. Nem em sonhos eu ousaria dar a “palavra final sobre as coisas”. Imagina. Quem sou eu para cravar um “não se fala mais nisto” sobre o que quer que seja?! Assim, com este olhar misericordioso sobre mim, fica desde logo a dica aos leitores que muito viajaram, moraram fora, e tem mais estudo do que eu sobre os estrangeiros e sobre como eles olham para o Brazil. São, de minha parte, apenas reflexões incompletas e atrevidas daquilo que pouco sei.
Mas o que sei, pelo menos do que percebo ser o Brasil vendido como imagem para fora – momento em que o “S” é trocado pelo “Z”, nas alfândegas mentais – é que muita coisa fica de fora do pacote. Um limitadíssimo Brasil carioca e nordestino, em suas pequenas porções litorâneas (com maior proeminência), às quais se somam a capital São Paulo (por ser a maior cidade de país e um centro de negócios), e enfim a mítica Amazônia, compõem o imaginário além-fronteiras. Calma, calma. Respira. Quando digo “limitadíssimo”, não se trata de nenhum tipo de discriminação. Sem MI-MI-MI, por favor. Limitação geográfica mesmo. São tomadas pequenas porções daquelas partes do Brasil, que mesmo ali, regionalmente, contém muito mais do que suas capitais, deixando de fora as porções mais interioranas do próprio Rio e Nordeste, por exemplo.
São Paulo (capital) acaba sendo conhecida pelos muitos negócios ali realizados, e a Amazônia por aquilo que sabidamente não é (pulmão do mundo). Calma, calma. Respira de novo. A floresta continua sendo importantíssima, e aqui fala um cara que tem paixão pela natureza e por sua preservação, mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Aquela máxima sobre “Amazônia, pulmão do mundo” já foi refutada faz tempo. Esclareça-se, enquanto elemento determinante (que não é) para que chegue aí, agora mesmo, às suas preciosas narinas, o oxigênio vital. Pois é, não tem praticamente nada de partículas da grife amazônica chegando aí, em você que está bem mais perto. O quê dizer então das narinas mundo afora. Mas se a conversa partir para a importância do ecossistema, biodiversidade, potenciais de descobertas científicas, e coisas assim, aí sim estamos diante de informações reais sobre a Amazônia.
Sobre as florestas (de pedra e de mato) ficam apenas essas poucas linhas acima. Quero me concentrar mais na parte cultural, onde no BRAZIL se destacam Rio e Nordeste. Em ambas as regiões, festas importantes chamam a atenção. Carnaval, que num ponto e noutro muito se diferem. Poderíamos falar em carnavais, seguramente. Sou pouco conhecedor, e menos ainda frequentador. São festas que não tem a ver comigo. Conheço pela TV, e presencialmente apenas dum curto período em que estive a trabalho em Pernambuco, quando hospedei-me em Olinda, numa pousada bem de frente para os “Quatro Cantos”, em janeiro/2010, época dos ensaios do frevo. No mais, o que vi de carnaval na vida, presencialmente, foi por estar em locais onde pequenas manifestações a ele vinculadas aconteciam: bloquinhos de rua em cidades do interior de SP e PR. Mas a realidade é que nos 42 carnavais que aconteceram no Brasil, desde que nasci, eu normalmente estava bem distante, ou no mato, ou com TV desligada. Disse 42, porque embora eu já some 44 anos, o de 1977 já tinha rolado quando nasci, e o de 2021 não rolou, devido à pandemia.
“Braziiil! Futeboool! Carnavaaal! Diz o gringo ou a gringa para as câmeras, com um sorriso rasgado, copinho numa mão, dedinho pra cima na outra, e as tentativas quase sempre frustrantes de uns passinhos de samba. É, isso eu sei. Poucos estrangeiros conseguem dançar samba como os brasileiros. E, ah, isso eu sei também. Não gosto de carnaval, mas danço samba muito bem. Ritmo que faria parte de qualquer curso de danças de salão. Fiz uns meses em 2001, quando a UEM esteve em greve, bem nas vésperas da minha formatura. Notando que a coisa iria longe, decidir aproveitar o tempo vago nas noites e me inscrevi no SESC. Descobri muita facilidade em todos os ritmos brasileiros. Nos estrangeiros, nem tanto. Em bolero até que me virei bem. Tango, não posso dizer que sei dançar; é bem difícil.
Sem entrar no mérito da qualidade ou não das manifestações culturais que mais evidenciam o BRASIL, aos olhos das pessoas que escrevem BRAZIL, o fato é que somos tomados e compreendidos por uma porção muito pequena do que realmente somos. Nem nós, que cá estamos, poderemos afirmar categoricamente que conhecemos o Brasil de uma forma completa. Tomando minha história, apenas para exemplificar, até os 26 anos de idade eu só conhecia umas partes do Paraná, o Oeste Paulista, e algumas partes do litoral catarinense. Fora isso, tinha colocado os pés duas vezes em Minas Gerais, mas beeem na beiradinha mesmo, regiões mais parecidas com SP, embora os queijos e os UAIs fossem deliciosos. Sim, eu acho o sotaque mineiro muito legal!
Voando pela primeira vez no final de 2003, horas depois eu me vejo em Porto Alegre, a capital dos gaúchos. Era para ser uma ida isolada, para um trabalho específico, mas poucos meses depois eu estava de mudança para lá, onde morei por 1 ano e meio. Trabalho que me levou também para algumas atividades no interior daquele Estado, várias idas e trabalhos em Florianópolis, e muitas idas a Curitiba, capital do meu Paraná. Assim, apenas lá nos meus vinte e tantos anos eu vim a ter uma visão um pouco menos incompleta da Região Sul, área geograficamente muito maior que vários países do mundo. Não apenas em território, mas culturalmente também muito extensa e rica, como pude conhecer naquele ano e meio. E ainda assim, só uma parte: as coisas e pessoas e prédios e manifestações mais concentrados nas capitais. Certamente desconheço os muitos Paranás, Santas Catarinas e Rios Grandes do Sul dos interiores. Só de passagem, quando muito.
Mal comparando, minha visão incompleta sobre a Região onde vivo e me criei (Sul do Brasil) é a mesma incompleta que um estrangeiro tem do Brasil, se só viu Rio, São Paulo e Nordeste, nos períodos específicos das festas, ou em rápidas viagens de negócios. Porque o que acontece das faixas litorâneas para dentro é gigante! Milhares de cidades, milhões de pessoas, regionalismos, culinárias variadíssimas, música totalmente diferente das que tocam na Marquês de Sapucaí ou nos Trios Elétricos. Existe um Brasil enorme, que nada tem a ver com aquilo que se vende para fora. Desconhecido. Não está no pacote BRAZIL, que o gringo recebe.
Meia década depois, de meados de 2009 até meados de 2011, tive oportunidade de ampliar meu olhar sobre o Brasil que eu, nativo, não conhecia. Novamente a serviço, passei meses trabalhando em vários locais: Espírito Santo, Pernambuco, Brasília, São Paulo, Distrito Federal, Goiás, Amapá, Maranhão, Bahia. Assim, o quebra-cabeça foi ganhando mais peças. Uma visão de Brasil menos incompleta. E claro – sempre frisando – mesmo nessas várias regiões novas para mim, vi bem pouco, e vi bem rápido. Muita coisa boa e bonita. Muitas coisas feias e mazelas. O BRASIL tem muito das duas.
Eu viajei pouquíssimo. Para fora, nunca (pus os pés no Paraguai e na Argentina, basicamente para comprar bugigangas, então nem conta como “viaaagem internacional”). No Brasil, muito pouco. De forma mais concentrada nos períodos 2004-05 e 2009-11, mas sempre a trabalho. Vi algumas coisas quando o tempo permitia. Desejo ver mais. Deve ter tanta coisa boa! Tantas subidas e trilhas incríveis para passar de bike. Aliás, foi sobre as duas rodas da minha bicicleta, mais recentemente, que comecei a explorar lugares novos pelo Paraná, SC e interior de SP. Uma forma e um ritmo muito interessantes para ver as coisas. Tenho anotados muitos lugares. Certamente conhecerei alguns (não todos) quando a pandemia passar, os eventos voltarem, a máquina girar como de costume.
A ideia para este escrito me veio ontem, enquanto eu fazia um treino de bike. Rolava no rádio uma matéria sobre ações do Paraná Turismo para divulgar mais o Estado. Dizia-se que por aqui são bem conhecidas a capital Curitiba (evidentemente), Foz (comércio e destino turístico), Londrina, Maringá e Cascavel (polos regionais e comerciais), mas uma enormidade de Paraná é desconhecida dos próprios paranaenses. Do restante do Brasil, então... nem se diga. Lembrei-me de quando morei no Rio Grande do Sul – Estado famoso pelo orgulho dos gaúchos por sua terra – e eu, apaixonado que também sou pela minha, falava algo semelhante a um colega de trabalho: “Cara, eu amo muito e tenho muito orgulho do meu Paraná. Que Estado maravilhoso!”. Ao que ele me indaga: “Ué, mas o que de bom tem lá? Orgulho de quê?”. Antes de investir tempo numa cansativa tentativa de explicar o que ele jamais entenderia, por não ser paranaense, eu fiz a pergunta fundamental: “Você já viajou para lá? Conhece outros lugares no Brasil?”. Deu um “tilt” nele (claro), pois nunca tinha saído do Rio Grande do Sul. Um piazão de 20 e poucos anos arrotando eloquência para dizer que o Rio Grande era o maior e melhor Estado da Nação, sem nunca ter colocado os pés em nenhum dos outros. Pois é...
BRAZIL e BRAZIL. Aonde quero chegar?
Este pequeno exemplo das visões incompletas dos gringos sobre o BRAZIL, e dos próprios nativos sobre o BRASIL, servem para nos alertar sobre o perigo de conclusões e certezas certas demais sobre qualquer coisa. Achamos que conhecemos algo, mesmo quando dispomos de informações parciais. Afinal, é bom saber das coisas, e principalmente mostrar que se sabe... ainda que não saibamos tããão bem assim.
Como de costume, puxarei a questão para mim.
Eu gosto de debates. Mais ainda de prevalecer neles. Hoje, de uma forma menos problemática do que já foi no passado. Os tempos áureos das tretas foram no Facebook, quando eu ficava postando aos sete ventos (ver escrito 025 O EX-POLEMISTA), alguém rebatia, eu re-rebatia, e assim começava o ciclo insano. Um querendo mostrar para o outro que sabia mais, e o outro querendo mostrar para o um a mesma coisa. Ninguém cedia. Meninões e meninonas aventurando-se em temas complexos, cravando PALAVRAS FINAIS sobre política, fé, sexualidade, desigualdade, justiça, e tantos temas “casca grossa”, que hoje me fazem pensar três vezes antes de emitir uma opinião.
Os ímpetos da juventude nos levam a isso.
Quer dizer então que eu acho que os jovens nada sabem? Em absoluto, não digo isso. Sabem, claro que sabem. Sabem algumas coisas. Normalmente, menos do que acham que sabem. Nem sempre menos do que os mais vividos. Mas, normalmente, menos do que os mais vividos. Só que é difícil aceitar. E fala aqui alguém que já foi mais jovem, hoje caminhando para o que se chama de “meia idade”. Eu conheço os dois momentos. Falo com propriedade, embora apenas de mim mesmo. Traduzindo: eu sei, hoje, mais do que eu sabia quando era mais jovem. Se isso reproduz um fenômeno geral, vale refletir. Particularmente, acredito que sim.
“Qual a razão de levantar este tema, Fer?”. Simples. Vivemos um tempo de polarização extrema. Se um lado diz A, o outro é B. Se fulano fez certo, a outra metade da população crava estar errado. Se para uns a vacina salva vidas, para outros ela contém chips para dominação global. Siiim... logo, logo alguém vai clicar no botão, e os chips serão ativados. Dê um “Google”, e você verá que não se trata de um exemplo esdrúxulo que saquei ao acaso. Tem mesmo gente investindo tempo para comprovar suas certezas, mesmo contra toda a lógica. Ah, antes que eu me esqueça: gente do lado A e gente do lado B, fazendo o mesmo tipo de esforço.
O que se faz, então? Em quê acreditar? Em quem confiar?
Falarei a fórmula que acolhi para mim: MULTIPLICIDADE DE FONTES.
Eu tenho um viés político bem definido. Tenho, obviamente, uma fé bastante clara em seus fundamentos. Quanto aos costumes e valores familiares, idem. Economicamente, gastronomicamente, violonisticamente... etc, etc, etc. Não sou (não somos) uma tela em branco. Tem muita coisa já pintada. Mas não somos obra pronta e acabada. O dia que nos considerarmos, já era! Aí sim é que ficará muito claro o quanto falta.
Por multiplicidade de fontes eu considero considerar as várias formas de ver algo, e delas extrair as que eu considero melhores, as mais conformadas aos meus valores fundamentais, boa dose de lógica, bom-senso, sempre e sempre num cotejo com minha fé, para ver se o novo elemento (a nova cor) tem lugar na minha tela. Não fazendo assim, ficarei para sempre nas 3 cores primárias, ou, quando muito, dobrarei o número para 6 (já que de secundárias temos apenas 3 também). Meia dúzia é pouco. Complicado querer definir coisas complexas com tão poucos elementos. E é justamente isso que vejo tantos tentando fazer.
Não, também não colocarei todas as cores na minha tela. Tem muitas que não me servem, ou apenas não gosto. Podem ser bonitas noutras paredes. É importante que haja diferenças. Não somos fotocópias. Padronização absoluta é limitante. Mas um círculo perfeito será sempre da mesma forma, idem para um triângulo equilátero, preto absoluto e mais uns poucos elementos fundamentais. Não tem como brigar com coisas objetivas. A lei da gravidade – pelo menos aqui na Terra – ainda faz cair a 10m/s. Quanto ao mais, quanto às coisas mais abertas, há sim muito espaço para as individualidades, gostos pessoais, estilos. Detalhes que nos singularizam.
Meu pequeno alerta é para não passarmos vergonha, brigando com o óbvio. Também para não nos precipitarmos em chamar algo de óbvio cedo demais. Dúvidas e questionamentos, normalmente, tem a ver com prudência e sabedoria. Certezas rápidas demais, de igual modo, normalmente tem a ver com maior chance de falar bobagem.
“Até o tolo, quando se cala, é reputado por sábio; e o que cerra os seus lábios é tido por entendido”. (Provérbios 17:28)
“O coração do justo medita no que há de responder, mas a boca dos ímpios jorra coisas más”. (Provérbios 15:28)
“Quem responde antes de ouvir, comete insensatez e passa vergonha”. (Provérbios 18:13)
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